A ESPIONAGEM EM NATAL E PARNAMIRIM FIELD NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – O CASO DO ENGENHEIRO PERNAMBUCANO QUE TRABALHOU PARA OS NAZISTAS

Rostand Medeiros – Escritor e membro do IHGRN

Muitos hoje desconhecem a importância estratégica do Brasil durante o maior conflito bélico da humanidade. Além de grande fornecedor de matérias primas e materiais de alto valor estratégico o Brasil possuía alguns locais de extrema importância geográfica para uso da aviação e das forças navais, caso principalmente de Natal e Recife. 

Não é surpresa que antes mesmo da entrada do Brasil na conflagração, os nazistas já tinham olhos postos e muito atentos sobre o território nacional. Foi o Abwehr, uma organização de inteligência militar alemã que existiu entre 1920 a 1945, que cumpriu esta missão. O objetivo inicial da Abwehr era a defesa contra a espionagem estrangeira – um papel organizacional que mais tarde evoluiu consideravelmente, principalmente após a ascensão dos nazistas ao poder em 1933. Esta organização sempre esteve muito próxima ao Comando Supremo das Forças Armadas (Oberkommando der Wehrmacht – OKW) e do próprio Adolf Hitler, com seu quartel general em Berlim, adjacente aos escritórios do OKW.

Vice-almirante Wilhem Canaris, chefe do Abwehr.

Quem comandou por nove anos a Abwehr foi o vice-almirante Wilhem Franz Canaris. Considerado até os dias atuais como uma verdadeira lenda e um dos indivíduos mais interessantes e misteriosos da história da Segunda Guerra Mundial. Canaris nasceu em 1 de janeiro de 1887 em Aplerbek, Alemanha.

Jovem ainda começou a carreira naval e tornou-se oficial da Marinha. Era considerado como um homem inteligente, dinâmico, que havia viajado muito e conhecia seis línguas, inclusive o português. Foi comandante de submarinos na Primeira Guerra Mundial e, apesar da rivalidade entre as duas nações, tinha grande respeito pela Marinha Real da Grã-Bretanha, a Royal Navy.

Sob a direção de Canaris a Abwehr se tornou uma vasta organização de informações que incluía uma grande rede de espionagem em numerosos países estrangeiros, utilizando extensamente as missões diplomáticas alemãs. Essa rede foi primeiramente organizada em países que eram considerados os prováveis adversários da Alemanha do novo conflito que surgia no horizonte, principalmente a Grã-Bretanha. Depois a rede foi implantada em locais de forte significação estratégica no Hemisfério Ocidental.

A grande base de Parnamirim Field durante a Segunda Guerra Mundial.

Apesar do maior país da América do Sul ser considerado pela Alemanha nazista um país amigo do ponto de vista político, logo que a Guerra iniciou em 1939 o Abwehr  agiu para organizar um amplo serviço de informações em nosso país[1].

Suástica Sobre o Brasil

A espionagem alemã no Brasil esteve principalmente sob o comando de Albrecht Gustav Engels, um engenheiro que vivia no Brasil desde 1923, fugindo da crise que se abateu no seu país após a Primeira Guerra Mundial. Aqui Engels trabalhou na empresa Siemens, na Companhia Siderúrgica Brasileira e depois foi gerente da Companhia Sul-americana de Eletricidade em Belo Horizonte, sucursal da empresa alemã Allgemeine-Elektrizitäts Gesellschaft (AEG), onde alcançaria cargo de direção na América do Sul. Casou com a alemã Klara Pickardt em 1927, onde nasceu seu único filho e três anos depois se mudou para o Rio de Janeiro, a então Capital Federal.

Antes do início da guerra Engels foi com a família para três meses de férias a Alemanha e outros países europeus. Nesta viagem reencontrou em Gênova, cidade portuária italiana, um velho amigo chamado Jobst Raven, então capitão da Wehrmacht, o exército alemão, e que trabalhava na seção econômica do Abwehr. Deste contato Engels se tornou espião e passou a enviar inúmeros relatórios sobre a situação econômica, industrial e militar dos países sul-americanos e Estados Unidos. Com o início da Guerra este trabalho se ampliou bastante.

Engels (cujo codinome era “Alfredo”), com a colaboração de importantes membros da colônia alemã, que tinham cargos chaves em fortes empresas comerciais no país, começou a recrutar alemães natos, ou nascidos no Brasil, e estabeleceu se grupo de espionagem.

A organização de Engels não foi a única que operava no país, mas foi a maior e mais bem organizada. Esta rede de espionagem buscava informações variadas sobre o país, incluindo aspectos da política interna, sobre pontos estratégicos, a geografia litorânea e sobre a movimentação dos transportes. Para enviar suas informações a Abwehr sem serem descobertos os espiões germânicos em terras tupiniquins empregavam diversos recursos, tais como tinta invisível, pseudônimos, símbolos nos passaportes, códigos telegráficos, correspondência para endereços disfarçados, microfotografias e mensagens enviadas de estações de rádios clandestinas[2].

A movimentação nos portos brasileiros, como o de Santos (foto), eram alvos prioritários dos espiões nazistas no Brasil – Fonte – http://www.navioseportos.com.br/site/index.php/historia/historia-da-mm/195-a-expansao-1941-a-1989

Os melhores relatórios dos espiões de Engels tinham foco em inteligência naval e questões relativas ao tráfego marítimo. As informações vinham de tripulantes e funcionários que trabalhavam em navios e escritórios de terra das companhias marítimas nos principais portos brasileiros e incluíam vitais informações estratégicas. Graças a estes relatórios, a Kriegsmarine, a Marinha alemã, pode planejar interceptações de uma enorme quantidade de navios mercantes aliados que partiam da América do Sul.

É verdade que uma parte do serviço de espionagem de Engels era formada por espiões que estavam ligados a uma organização com algum nível de estrutura e financiadas pelo Abwehr, mas também havia muitas pessoas comuns, que atuavam de forma amadora e independente, querendo de alguma maneira ajudar a pátria distante.

Foto de várias pessoas acusadas de espionagem nazista no Brasil e publicadas no jornal Diário Carioca, de 2 de março de 1943. Entre eles temos brasileiros natos e naturalizados e cidadãos alemães. Tipos comuns, distante da ideia dos espiões criada pelo cinema.

Apesar de problemas que existiram devido ao amadorismo de vários espiões e informantes, é fato que graças às comunicações das redes de Engels, os relatórios obtidos pelos agentes nazistas na Argentina, Estados Unidos, México, Equador e Chile foram enviados para a Alemanha através de estações de rádios clandestinas brasileiras. Esta extensa rede conseguiu durante algum tempo enganar muito bem os serviços de contraespionagem britânica e norte-americana. 

O Nordeste Como Alvo 

Entre os homens que Engels conhecia com perfil para trabalharem como espiões estava Herbert Friedrich Julius von Heyer, ou Herbert von Heyer. Este era um filho de alemães nascido no Brasil em 1901, na cidade paulista de Santos, que aos quatro anos von Heyer seguiu com a família para Alemanha e chegou a lutar na Frente Russa durante a Primeira Guerra Mundial. Deu baixa do serviço militar como sargento em 1919, retornando ao Brasil quatro anos depois e desde 1938 trabalhava na sede carioca da empresa de navegação Theodor Wille & Cia.

Herbert Friedrich Julius von Heyer, ou Herbert von Heyer. Fonte – Livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, pág. 37.

Quando von Heyer esteve na Alemanha no outono de 1941, Engels avisou ao capitão Jobst Raven para encontrar, contatar e cooptar o antigo sargento para a causa. O que aconteceu sem maiores problemas e von Heyer passou a utilizar o codinome “Humberto Heyer”.

Engels e o novo colaborador começaram a trabalhar juntos no Rio, em dois escritórios conjugados de um edifício localizado na Rua Buenos Aires, 140, no Centro. Em julho daquele ano Engels informou a Berlim que von Heyer se deslocaria a Recife para recrutar possíveis colaboradores na capital pernambucana e saber das atividades dos norte-americanos na região.

Ele chegou à cidade faltando dez minutos para as cinco da tarde do dia 4 de julho de 1941, uma sexta-feira. Desembarcou do hidroavião “Caiçara”, da empresa Syndicato Condor no chamado “Aeroporto de Santa Rita”, onde então amerissavam os hidroaviões de passageiro na Bacia do Pina-Santa Rita[3].

Hidroavião em Recife – Fonte – http://www.fotolog.comtc211078575

Apesar de não possuir dados comprobatórios sobre isso, provavelmente quando o “Caiçara” sobrevoou a região do Porto de Recife, o espião Humberto deve ter visto atracados quatro belonaves de guerra da marinha dos Estados Unidos, a US Navy. Eram os cruzadores Memphis (CL 13), Cincinnati (CL 6) e os destroieres Davis (DD 395) e Warrington (DD 383) e certamente Von Heyer se questionou o que aquelas naves de guerra faziam ali. Mas aquela não seria sua única e desagradável surpresa no Nordeste do Brasil[4].

Logo o espião hospedou-se no tradicional Grande Hotel e manteve um primeiro contato com Hans Heinrich Sievert.

O Grande Hotel de Recife – Fonte – http://www.fernandomachado.blog.br/novo/?p=88384

Von Heyer passou oito dias em Recife e através do apoio de Sievert realizou várias reuniões na tentativa de angariar novos adeptos para a causa. Algumas foram produtivas e outras nem tanto. Entre estes manteve contato com o engenheiro elétrico alemão Walter Grapentin para a instalação de uma estação de rádio de ondas curtas, mas este recusou o trabalho[5].

Certamente o melhor elemento contatado por von Heyer foi Hans Sievert. Este era um alemão naturalizado brasileiro, tinha 37 anos, havia chegado ao Brasil em 1924, era casado com a alemã Wilma Korr, sendo membro destacado da tradicional comunidade germânica na capital pernambucana, além de gerente e sócio da antiga e conceituada firma Herm Stoltz & Cia. Sievert onde teve uma ascensão muito positiva na Herm Stoltz, saindo do posto de simples empregado, passando a ser gerente e finalmente sócio. Estava tão bem financeiramente que em 1932 retornou da Alemanha para o Recife no dirigível Graf Zeppelin[6].

A Herm Stoltz & Cia. era muito conceituada em todo país e muito conhecida particularmente em Pernambuco, onde eram os agentes da empresa aérea teuto-brasileira Syndicato Condor.

O Serviço em Natal

Segundo o brasilianista Stanley E. Hilton, em seu livro ““Suástica sobre o Brasil : a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944”, nesta viagem a Recife o espião von Heyer já estava sendo vigiado pelo pessoal do Federal Bureau of Investigation – FBI, a mítica unidade de polícia do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Consta que o homem a serviço do Abwehr teria deixado Recife para uma rápida viagem a Natal, provavelmente em algum avião de carreira do Syndicato Condor[7].

Natal, metade da década de 1930.

Na capital potiguar ele teria se encontrado com os alemães Ernest Walter Luck, seu cunhado Hans Werbling e Richard Burgers. É provável que este encontro tenha ocorrido na casa de Luck, que servia de cônsul alemão na cidade, na Rua Trairi, 368, no bairro de Petrópolis. Todos esses alemães já eram radicados há vários anos na capital potiguar, partidários e propagandistas de primeira linha da causa nazista. Mas certamente o que deve ter impressionado o espião von Heyer em Natal foi o acentuado movimento de aviões norte-americanos, a presença de tropas brasileiras nas ruas e o imenso volume das obras desenvolvidas na construção da base aérea em Parnamirim e das bases de hidroaviões e de navios de guerra nas margens do Rio Potengi.

Aquilo era muito grave e von Heyer nem esperou seu retorno para o Rio. Antes de seguir para Fortaleza e Belém, destino final de sua viagem, ele enviou uma carta, certamente feita à base de tinta invisível, contando as preocupantes novidades ao seu chefe Engels.

Abastecimento de um C-87 em Parnamirim Field – Livro-Trampolim para a vitória, pág 129, de Clyde Smith Junior, 1993.

O que estava acontecendo em Recife e Natal, em uma das áreas mais estratégicas de todo Oceano Atlântico, certamente tinha de ser mais bem avaliado para ser informado ao Abwehr. Mas como isso poderia ser feito sem chamar atenção dos americanos?

A solução veio através de Hans Sievert, que conhecia um pernambucano com sólida formação como engenheiro, oriundo de família tradicional, com muitos contatos proveitosos e que poderia ampliar as informações do que acontecia na capital potiguar.

O escolhido foi Luiz Eugênio Lacerda de Almeida. Era filho do desembargador Luiz Cavalcanti Lacerda de Almeida e de Dona Maria Elisa. Tinha 46 anos, havia estudado no tradicional Ginásio Porto Carreiro, casou em 1922 com Maria Cândida Pereira Carneiro, tinha três filhos e residia na Avenida Beira Mar, número 3.000, em Recife. Na época ele trabalhava na Destilaria Central Presidente Vargas, pertencente ao Instituto do Açúcar e do Álcool e localizada no município do Cabo, atual Cabo de Santo Agostinho.

O engenheiro e sua esposa eram muito bem situados na sociedade pernambucana, possuindo parentesco com as tradicionais famílias Brennand e Burle, além do conde Ernesto Pereira Carneiro, empresário, político, jornalista e proprietário do respeitado Jornal do Brasil, com sede no Rio de Janeiro.

Jornais de várias partes do país também enalteceram a ligação do engenheiro pernambucano com o Integralismo, como o Diário da Tarde, de Curitiba-PR, na sua edição de terça feira, 30 de junho de 1942, pág. 1.

Segundo o jornal O Radical, do Rio, Eugênio Lacerda de Almeida havia sido Integralista e ideologicamente tinha um posicionamento favorável em relação ao Terceiro Reich de Adolf Hitler. Provavelmente isso explica a sua amizade com Hans Sievert[8].

Não existe uma comprovação da data que Eugênio Lacerda de Almeida chegou a Natal, mas se sabe que desembarcou em um voo da Panair do Brasil, pago pela Herm Stoltz & Cia. O fato deste engenheiro pernambucano haver chegado a Natal através de um voo desta empresa aérea pode explicar muito sobre sua infiltração nas obras de Parnamirim.

Ceremônia em Parnamirim Field – https://catracalivre.com.br

Em 1941 o Brasil ainda era um país neutro na Segunda Guerra e não queria de modo algum comprometer sua neutralidade. Oscilando ora para o lado do Eixo, ora com acenos aos Aliados, o regime ditatorial de Getúlio Vargas tolerou tanto as atividades dos nazistas no Brasil, quanto à construção de vários aeroportos pelos americanos. Estes aeroportos, cujos principais eram os de Belém e Natal, jamais poderiam ser construídos por militares estadunidenses. A solução encontrada pelo governo americano foi colocar em campo a Panair do Brasil, que nada mais era do que uma subsidiária da empresa aérea americana Pan American Airways, com recursos para tocar as obras vindas do ADP (Airport Development Program – Programa de Desenvolvimento de Aeroportos). Então teve início a construção das instalações destinadas a servirem como principais bases de transporte e transbordo ao longo da rota do Atlântico Sul.

Na foto vemos um Douglas C-47 Dakota em Parnamirim Field.

Evidentemente que muito dinheiro forte estava circulando em Natal, fato este que tanto atraía prostitutas, malandros e ladrões, quanto pedreiros, mestres de obras e engenheiros. Pernambuco já possuía há décadas uma escola de engenharia e alguns engenheiros ali formados convergiram para a capital potiguar atrás de dólares. Certamente a chegada de Eugênio Lacerda de Almeida a Parnamirim, vindo em um avião da Panair do Brasil, possivelmente bem trajado e distribuindo simpatia, não deve ter alertado as autoridades.

Trabalhos de construção em Parnamirim Field – Hart Preston-Time & Imagens de Vida / Getty Images.

Aliado a isso temos que pensar que ele talvez conhecesse alguém na área das obras para apresentar o trabalho que ali era realizado. Esse pretenso contato, de forma inadvertida, ou em estreita cooperação, lhe apresentou o engenheiro encarregado das obras, que lhe trouxe então as plantas da construção das pistas de aterrissagem e dos muitos locais administrativos que seriam utilizados por americanos e brasileiros. Ardilosamente Eugênio Lacerda de Almeida guardou na memória o que viu nas plantas da grande base e depois, reservadamente, desenhou um croqui com detalhes do projeto.

Foto atual da Base Naval de Natal, que teria sido espionada pelo engenheiro Eugênio – Fonte – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/portoes-abertos-base-naval-de-natal-realiza-exposicao/205460

Existe a informação que além de “visitar” as obras da base de Parnamirim, o engenheiro teria igualmente visto as obras da futura Base Naval de Natal[9]. À noite, hospedado em um hotel, ao entabular conversas com pessoas que trabalhavam nas obras em Natal, soube de detalhes dos projetos de ampliação do porto da cidade. No outro dia ele voltou a Recife a bordo do navio Cantuária[10].

Na capital pernambucana, ao se encontrar com Hans Sievert, o engenheiro Eugênio Lacerda de Almeida quis lhe reportar o que viu, mas o alemão exigiu um relatório por escrito, mas afirmou que depois o destruiria. 

Capturando Os Vermes!

Em muito pouco tempo a situação virou completamente.

Os afundamentos e os chocantes relatos dos sobreviventes levaram a um clima de intensa animosidade com a Alemanha, com manifestações em todo o país, algumas violentas, com a depredação de bens ligados a alemães, e onde se exigia que o Brasil declarasse guerra ao Eixo (Alemanha, Itália e Japão), o que foi feito pelo presidente Vargas em agosto de 1942.

O afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães alterou a participação do Brasil no conflito. Foto meramente ilustrativa – Fonte – http://www.navioseportos.com.br/site/index.php/historia/historia-da-mm/195-a-expansao-1941-a-1989

Mesmo tendo vários navios afundados por submarinos alemães e com muitos de seus cidadãos mortos, O Brasil era um país que teimava em ficar em cima do muro, sem se comprometer demasiadamente na Guerra e tentava tirar vantagens dos dois lados da contenda. Mas conforme cresciam os ataques dos submarinos alemães aos navios de carga brasileiros, a revolta da população aflorou intensamente e a boa vida dos espiões alemães acabou completamente em terras tupiniquins[11].

O desmantelamento das redes de espionagem deu um enorme trabalho para o governo Vargas, que levou algum tempo para conseguir este objetivo. Mas em 25 de fevereiro de 1942 os alemães Hans Sievert e Walter Grapentin prestaram depoimentos ao então Secretário de Segurança de Pernambuco, o Dr. Etelvino Lins de Albuquerque, e ao delegado Fabio Correia de Oliveira Andrade, nas dependências da Delegacia de Ordem Política e Social, o DOPS, em Recife e eles entregaram tudo mundo[12].

Logo, para surpresa geral na capital pernambucana, um dos chamados a depor foi Luiz Eugênio Lacerda de Almeida.

Sievert confirmou que o engenheiro foi a Natal por conta da empresa Herm Stoltz & Cia, que o enviou para conhecer a obra para a empresa alemã melhor se preparar para “candidatar-se as concorrências que existiam em Parnamirim”. Uma situação completamente ilógica e ridícula diante do estado de extrema desconfiança e quase beligerância entre alemães e americanos na época.

Já Eugênio Lacerda de Almeida informou que passou apenas um dia em Natal e negou a autoria do croqui produzido sobre a base de Parnamirim. Entretanto, talvez por receio de uma acareação, se retraiu ao ser confrontado com o material e confirmou que foi ele que produziu os desenhos. Afirmou que primeiramente negou o fato por medo de se prejudicar, pois havia recebido de Hans Sievert a garantia que o material havia sido destruído. Eugênio Lacerda de Almeida comentou também que na época da feitura dos desenhos, quando o Brasil ainda se encontrava neutro, ele havia se tornado “admirador das vitórias alemãs” e na sua concepção ele não estava prejudicando o Brasil.

As estratégicas bases aéreas em Natal e Belém foram importantes na engrenagem de guerra doa Aliados no Brasil. Na foto vemos um Douglas C-47 e um Consolidated B-24 Liberator.

A situação do engenheiro foi cada vez mais se complicando, principalmente quando ele teve de explicar a origem de 50 contos de réis (50.000$000) que recebeu de Hans Sievert. Até então a ida de Eugênio Lacerda de Almeida a Natal teria sido, por assim dizer, voluntária. Mas surgiu um depósito em sua conta corrente do Banco do Povo neste valor, creditado no dia 23 de dezembro de 1941. Aparentemente um gordo presente de natal!

Espiões Nazistas que agiam em Santos, São Paulo – Fonte – http://atdigital.com.br/historiasdesantos/?p=94

Mas o dinheiro ficou depositado por seis meses, em uma espécie de conta de renda fixa que existia na época. Sievert afirmou em depoimento que entregou aquele dinheiro ao engenheiro pernambucano em confiança, sem documento comprobatório, para atender as necessidades de sua família no caso de surgirem “imprevistos contra a sua pessoa”[13].

O engenheiro Eugênio Lacerda de Almeida foi identificado, sujou os dedos quando fez sua ficha datiloscópica, fez retratos de frente e de perfil e depois saiu andando tranquilamente pela porta da rua!

Lei Frouxa! 

Ficou a cargo do Dr. José Maria Mac Dowell da Costa, Procurador do Tribunal de Segurança Nacional (TSN), analisar as provas contidas nos autos contra as pessoas acusadas de espionagem, ou de facilitação desta atividade, os chamados “Agentes do Eixo”[14].

Dr. José Maria Mac Dowell da Costa, Procurador do Tribunal de Segurança Nacional (TSN)

O Dr. Mac Dowell da Costa prometia através da imprensa que “seria inflexível no cumprimento do dever” e se algum daqueles 128 homens e mulheres pronunciados estivesse seriamente implicado nos artigos no Decreto Lei Nº 4.766, de 1º de outubro de 1942, que definia os crimes militares e contra a segurança do Estado, ele não hesitaria em aplicar a pena máxima existente – A pena de morte![15]

O nobre engenheiro Luiz Eugênio Lacerda de Almeida sofreu por parte da imprensa carioca, especialmente dos jornais Diário Carioca e O Radical, uma intensa pressão para que fosse condenado e recebesse uma punição exemplar[16]. Eugênio Lacerda de Almeida compareceu ao TSN no Rio e foi indiciado com base no Decreto Lei 431, de 18 de maio de 1938, Artigo 3º, no seu 16º inciso.

Houve forte indignação com a liberdade do engenheiro pernambucano. Manchete do jornal O Radical, Rio de Janeiro, edição de domingo, 13 de junho de 1943, pág. 1.

Notem os leitores que de saída o engenheiro pernambucano não foi indiciado na chamada “Lei de Guerra”, que era o Decreto Nº 4.766, de 1º de outubro de 1942, uma lei bem mais dura, mas no Decreto Lei 431, de 1938. Este na sua parte inicial era definido como “Crimes contra a personalidade internacional, a Estrutura e a segurança do Estado e contra a ordem social”. E trazia no texto do seu inciso 16º o seguinte teor “Incitar ou preparar atentado contra pessoa, ou bens, por motivos doutrinários, políticos ou religiosos; Pena – 2 a 5 anos de prisão; se o atentado se verificar, a pena do crime incitado, ou preparado”[17]. Além disso, trazendo como verdadeiro “abre alas” de sua defesa, havia dezenas de cartas de autoridades e pessoas gradas, atestando a sua conduta e de como ele era uma pessoa ilibada[18].

Quase no fim do ano de 1943, sob a presidência do ministro Frederico de Barros Barreto, natural de Recife, o TSN promulgou várias sentenças contra os acusados de espionagem e vários deles foram condenados a pena de morte, entre eles Albrecht Gustav Engels.

Aparelho achado no Rio servia para mandar informações a nazistas.

Mas para desgosto de muita gente, sedenta de sangue para vingar os mais de 1.081 mortos, em mais de 34 navios brasileiros afundados por submarinos do Eixo, nenhum dos acusados de espionagem foi parar diante de algum pelotão de fuzilamento. O Dr. Mac Dowell da Costa afirmou a um periódico mineiro que os casos que estavam chegando ao TSN eram anteriores ao reconhecimento da declaração de guerra, sendo impossível aplicar a pena de morte[19].

Esses condenados a morte tiveram a pena alteradas para 30 anos de prisão, mas muitos não cumpriram sequer dez anos pelos seus atos. O grande chefe Engels logo saiu da cadeia e foi ser funcionário, logicamente, de uma empresa alemã. No caso a Telefunken do Brasil, aonde chegou a presidência da mesma[20]. Hans Heirich Sievert e Herbert von Heyer foram condenados a 25 anos de prisão cada um. Sievert logo deixou a cadeia e aparentemente foi morar em Petrópolis, Rio de Janeiro, onde faleceu em 17 de novembro de 1979[21].

Já von Heyer penou um pouco mais. Em 1952 vamos encontrá-lo encarcerado no mítico e tenebroso presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, onde era considerado um preso de bom comportamento e dava aulas de inglês para o comandante da instituição prisional[22].

Não consegui apurar, mas acredito que o engenheiro Luiz Eugênio Lacerda de Almeida não passou um dia sequer na cadeia. Ele faleceu no Rio de Janeiro, em 2 de dezembro de 1975[23].

Final Infeliz

Não causa nenhuma surpresa que a maioria dos espiões nazistas que operaram no Brasil não quis retornar para sua tão amada nação de origem após o fim da guerra. Simplesmente após o fim do conflito ninguém no Brasil se importou muito com essa gente e represálias, até onde sei, nunca aconteceram. O tempo apagou quase tudo sobre esses casos!

Já nos Estados Unidos, por exemplo, a coisa foi bem diferente. Começa que o Presidente Franklin D. Roosevelt, temeroso que um tribunal civil fosse demasiado indulgente com espiões nazistas, criou um tribunal militar especial para esse tipo de caso. Isso levou a execução na cadeira elétrica de seis espiões nazistas[24].

Já na Inglaterra foi criada a “Lei da Traição”, que após passar pelo parlamento e receber o assentimento real, tinha apenas uma sentença prioritária: a morte. Lá, Entre 1940 e 1946, dezenove espiões e sabotadores foram processados sob a Lei da Traição e executados. Um vigésimo espião – um jovem diplomata português – foi condenado à morte, mas a sua pena foi comutada para prisão perpétua após a intervenção do governo português[25].

Texto publicado originalmente no blog Papo de Cultura, do jornalista Sérgio Vilar – http://papocultura.com.br/nazista-em-natal/


NOTAS

[1] Ver os livros Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, págs. 17 a 19 e O Brasil na mira de Hitler, Roberto SANDER. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, págs. 23 a 33.

[2] Ver os livros Hitler’s Spy Chief: The Wilhelm Canaris Mystery. New York, NY, EUA: Pegasus Books, 212, págs, 23 a 45. Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, págs. 20 a 24.

[3] Ver Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de sábado, 5 de julho de 1941, pág. 2. O interessante foi que von Heyer desembarcou utilizando seu nome verdadeiro e este antigo ponto de embarque e desembarque de hidroaviões em Recife ficava localizado onde atualmente existem duas grandes torres de apartamentos, construídas pela empresa Moura Dubeux, as margens do Rio Capibaribe. Estas torres são dois edifícios de luxo de 42 andares, construídos no Cais de Santa Rita, no bairro de São José e conhecidas popularmente como as “Torres Gêmeas”. A construção das torres começou em 2005 e foi concluída em 2009, após batalha judicial com o Ministério Público Federal, que apontava irregularidades na obra. Com sua excessiva proximidade com o mar e grande altura, os prédios diferem radicalmente do entorno do bairro histórico. Sobre esse assunto ver – https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/06/01/obra-em-bairro-historico-inflama-debate-sobre-verticalizacao-do-recife.htm

[4] Aquelas naves em Recife estavam sob o comando do vice-almirante Jonas H. Ingran, como parte da Task Force 3, que futuramente, com a ampliação das ações de combate da US Navy no Atlântico Sul, seria designada como Fourth Fleet (Quarta Frota).

[5] Sobre o encontro entre Grapentin e von Heyer ver as declarações do primeiro para a polícia pernambucana, reproduzidas no Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de domingo, 29 de março de 1942, pág. 4 e no livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, pág. 40.

[6] A Herm Stoltz & Cia. foi uma empresa fundada em 1863, muito conceituada em todo país no transporte marítimo, com matriz no Rio e filial até na Alemanha. Era muito conhecida particularmente em Pernambuco, onde eram os agentes da empresa aérea teuto-brasileira Syndicato Condor. Já sobre as declarações de Hans Sievert para a polícia pernambucana, reproduzidas no Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de domingo, 29 de março de 1942, pág. 4. Já sobre a viagem no dirigível Graf Zeppelin, ver o Jornal Pequeno, Recife-PE, edição de quinta feira, 13 de outubro de 1932, pág. 1.

[7] Segundo Stanley E. Hilton a informação da presença do espião von Heyer em Natal está inserida no relatório do FBI intitulado “Totalitarian activities – Brazil Today”, produzido em dezembro de 1942, mas sem referência de páginas. Afora isso não existe nenhum documento comprovatório da passagem deste espião por Natal. Entretanto é bastante crível sua presença na capital potiguar diante do que os americanos desenvolviam aqui em julho de 1941 . Ver o livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, págs. 40 e 41.

[8] Sobre os vários detalhes da vida de Luiz Eugênio Lacerda de Almeida ver o Jornal Pequeno, Recife-PE, edição de segunda feira, 20 de fevereiro de 1922, pág. 1 e O Radical, Rio de Janeiro, edição de domingo, 13 de junho de 1943, págs. 1 e 4.

[9] Ver Diário Carioca, Rio de Janeiro-RJ, edição de sexta feira, 29 de maio de 1942, páginas 1 e 5.

[10] Eugênio Lacerda de Almeida não informou em qual hotel ficou em Natal e nem se manteve contato com os alemães residentes na cidade. Ver seu depoimento reproduzido no jornal O Radical, Rio de Janeiro, edição de domingo, 13 de junho de 1943, págs. 1 e 4 e no Diário Carioca, Rio de Janeiro-RJ, edição de sexta feira, 29 de maio de 1942, páginas 1 e 5.

[11] Sobre a derrocada dos espiões nazistas no Brasil, ver o livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, págs. 235 a 296.

[12] Etelvino Lins de Albuquerque foi Governador de Pernambuco entre 1952 e 1955, senador constituinte, ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) e deputado federal em duas legislaturas.

[13] Ver O Radical, Rio de Janeiro, edição de domingo, 13 de junho de 1943, págs. 1 e 4.

[14] O Tribunal de Segurança Nacional (TSN) foi uma corte de exceção, instituída em setembro de 1936, primeiramente subordinada à Justiça Militar e criada diante dos traumas provocados no poder pela Intentona Comunista de novembro de 1935. Era composto por juízes civis e militares escolhidos diretamente pelo presidente da República e deveria ser ativado sempre que o país estivesse sob o estado de guerra. Com a implantação da ditadura do Estado Novo, em novembro de 1937, o TSN passou a desfrutar de uma jurisdição especial autônoma e tornou-se um órgão permanente. Nesse período passou a julgar não só comunistas e militantes de esquerda, mas também integralistas e políticos liberais que se opunham ao governo. Entre setembro de 1936 e dezembro de 1937, 1.420 pessoas foram por ele sentenciadas. O TSN foi extinto após a queda do Estado Novo, em outubro de 1945.

[15] Dos 128 implicados 77 eram estrangeiros, 40 brasileiros natos e 11 brasileiros naturalizados. Já os processos eram originários do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco e São Paulo. Ver O Radical, Rio de Janeiro-RJ, edição de sábado, 2 de outubro de 1943, pág. 5. Sobre o Decreto Lei 4.766, de 1 de outubro de 1942, ver http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-4766-1-outubro-1942-414873-publicacaooriginal-1-pe.html

[16] Ver O Radical, Rio de Janeiro-RJ, edições de domingo, 30 de junho e 17 de julho de 1942, respectivamente nas páginas 1 e 3.

[17] Sobre o Decreto Lei 431, de 18 de maio de 1938, ver http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1930-1939/decreto-lei-431-18-maio-1938-350768-publicacaooriginal-1-pe.html

[18] Sobre esta questão ver O Radical, Rio de Janeiro-RJ, edições de domingo, 8 de junho de 1943, nas páginas 1 e 2.

[19] Sobre as declarações do Dr. Mac Dowell da Costa ver o Correio de Uberlândia, Minas Gerais-MG, edição de quinta feira, 25 de fevereiro de 1943, pág. 1.

[20] Ver o livro O Brasil na mira de Hitler, Roberto SANDER. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, págs. 106 e 119.

[21] Ver Jornal do Brasil, Rio de Janeiro-RJ, edição de domingo, 17 de novembro de 1979, pág. 38, 1º Caderno.

[22] Ver Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro-RJ, edição de segunda feira, 4 de fevereiro de 1952, pág. 7.

[23] Ver Jornal do Brasil, Rio de Janeiro-RJ, edição de quarta feita, 3 de dezembro de 1975, pág. 24, 1º Caderno.

[24] Ver https://en.wikipedia.org/wiki/Operation_Pastorius

[25] Ver https://www.theguardian.com/world/2016/aug/28/britain-nazi-spies-mi5-second-world-war-german-executed

QUANDO A GRIPE ASIÁTICA ATACOU NATAL

As crianças foram as mais atingidas pela gripe asiática.

A atual Pandemia de COVID-19, o novo coronavírus, não é a primeira situação do gênero que Natal e o Rio Grande do Norte enfrentam. Talvez poucos saibam, mas em 1957 houve uma pandemia que ficou conhecida como gripe asiática, que aqui chegou causando medo e confusão.  

Veículos das Pioneiras Sociais, utilizados contra a gripe asiática. Foi uma ação do governo Juscelino Kubitschek de Oliveira .

Autor – Rostand Medeiros – IHGRN

Esse novo vírus teria se desenvolvido no norte da China e nessa época o regime comunista local era extremamente autoritário e controlava a saída de praticamente todas as informações do país para o exterior. O mundo só tomou conhecimento com maiores detalhes desse surto quando esse vírus chegou a Cingapura, onde foi relatado pela primeira vez em fevereiro de 1957. O certo é que em abril do mesmo ano a gripe avançou de Cingapura para Hong Kong e no verão alcançou as cidades costeiras do oeste dos Estados Unidos, primeiramente na Califórnia. Logo atacou a Oceania, África e Europa.

Qual era o tipo de Vírus

Através de testes o vírus foi reconhecido como sendo do tipo Influenza A e que ele era diferente de qualquer outro encontrado anteriormente em humanos. Pesquisas posteriores apontaram que a gripe asiática foi resultado de um cruzamento entre um vírus encontrado em patos selvagens na China (H2N2) e de uma cepa de vírus da gripe humana (H1N1). Convencionou-se na época denominar esse vírus como H2N2, mas ela ficou conhecida mundialmente como gripe asiática.

Pedido para não beijar a criança da foto, durante a pandemia de 1918.

Depois da gripe espanhola de 1918, a pandemia de gripe asiática de 1957 foi a segunda maior pandemia a ocorrer no mundo durante o século XX. Quando esse surto surgiu, apenas pessoas com mais de 70 anos de idade possuíam lembranças claras da experiência ocorrida quase quarenta anos antes. Apesar das advertências dos mais velhos, muitos não acreditaram na letalidade da nova gripe. Logo ficou patente que os mais jovens estavam errados.

No Reino Unido os primeiros casos foram informados no final de junho, com um surto mais grave ocorrendo na população em geral em agosto. O País de Gales e a Escócia tiveram os primeiros casos em setembro e no início de 1958 estima-se que cerca de 9 milhões de súditos da rainha Elizabeth II havia contraído a gripe asiática. Destes, mais de 5,5 milhões foram atendidos por seus médicos e cerca de 14.000 pessoas morreram devido aos efeitos imediatos do ataque. 

Foi relatado no Reino Unido que os pacientes sentiram fortes calafrios, seguido de prostração, dor de garganta, nariz escorrendo e tosse. Na sequência os relatos apontaram para membros doloridos (adultos), cabeça (crianças), seguido de febre alta (ambos os casos). Crianças pequenas, principalmente meninos, sofreram sangramentos no nariz. Cientistas ingleses observaram que a gripe asiática tinha duas ou três fases, sendo a segunda a de natureza mais grave.

Os sintomas eram geralmente leves e a maioria dos pacientes normalmente se recuperava após um período na cama, com medidas antipiréticas simples. Houve complicações em 3% dos casos, com mortalidade de 0,3%. Pneumonia e bronquite foram responsáveis ​​por 50% dos óbitos, sendo o restante por agravamento de doenças cardiovasculares já existentes. Durante a pandemia aumentou bastante a incidência de pneumonia.

Houve uma falta de uniformidade no tratamento ao surto. Alguns médicos prescreveram antibióticos para todos os casos, até os menos complicados. Mais tarde, no entanto, observou-se que o uso indiscriminado de antibióticos não era benéfico.

Na época foi possível detectar o agente com rapidez e trabalhar em novas soluções. Uma vacina para a gripe asiática foi introduzida ainda em 1957 e a pandemia diminuiu. Ocorreu uma segunda onda dessa gripe em 1958 e ela passou a fazer parte daquilo que os cientistas classificam como gripes sazonais. Em 1968 foi comprovado que a gripe asiática H2N2 havia desaparecido na população humana e acredita-se que ela tenha sido extinta na natureza. 

Apesar de praticamente desconhecida nos dias atuais, essa doença matou entre 1,4 e 2 milhões de pessoas, sendo 116.000 nos Estados Unidos. Outros cientistas apontam que esse surtou ceifou muito mais gente. Colocando a cifra em 4 milhões de mortos, principalmente no continente de onde se originou, sendo as crianças suas vítimas preferenciais.

A Gripe Chega a Natal

Juscelino Kubitschek de Oliveira e Dinarte Mariz. Respectivamente presidente do Brasil e governador do Rio Grande do Norte em 1957.

Quem governava o Brasil na época era Juscelino Kubitschek e a gripe asiática aqui chegou entre julho e agosto de 1957, com um primeiro surto no Rio Grande do Sul. No início de setembro, sua presença foi identificada no Rio de Janeiro pelo Instituto Oswaldo Cruz e pelo Instituto de Microbiologia da Universidade do Brasil – hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pouco depois pandemia desembarcou em Belo Horizonte, Salvador e Belém, sempre com alta incidência em crianças.

Dinarte de Medeiros Mariz era o governador do Rio Grande do Norte em 1957 e o médico Dary de Assis Dantas o diretor do Departamento de Saúde Pública, atual SESAP – Secretaria de Estado de Saúde Pública do Rio Grande do Norte. Este último havia nascido na cidade de Serra Negra do Norte, mesmo local de nascimento do governador, se formou em medicina no Rio de Janeiro onde atuou na Santa Casa de Misericórdia e no Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI), quando foi convidado por Dinarte para assumir o cargo. Dary era pessoa de extrema confiança do governador e médico de sua família.

Eider Furtado, correspondente do Diário de Pernambuco em Natal naquela época, informou na edição de 15 de setembro daquele jornal (pág. 7) que na primeira quinzena de agosto Dary Dantas havia formado a Comissão Estadual de Defesa Contra a Gripe. Esse grupo começou a estudar medidas contra a doença que se avizinhava do Rio Grande do Norte. O diretor do Departamento de Saúde Pública também solicitou ao governador uma verba no valor de 500 mil cruzeiros para combater a gripe no estado.

Provavelmente a criação dessa comissão se deveu, ao menos em parte, a divulgação de um primeiro alarme da presença da gripe asiática entre os potiguares. Em agosto de 1957 surgiu a informação que cerca de “400 pessoas” teriam contraído a nova doença no município de Goianinha, 50 quilômetros ao sul da capital. O surto teria surgido na Usina Estivas, mas logo o caso foi negado e devidamente esclarecido pelo médico Luís Antônio dos Santos Lima. O que aconteceu foi que realmente havia naquele lugar um surto de gripe, mas de gripe sazonal. Além disso, nesse período a gripe asiática ainda se encontrava restrita ao sul do Brasil.

Após o susto inicial não demorou a surgir os primeiros casos comprovados da doença no Rio Grande do Norte, ou “Cingapura”, como a doença também ficou igualmente conhecida. NaTribuna do Norte, em O Poti e no Diário de Natal, os principais jornais que circulavam na capital potiguar na época, é possível conhecer detalhes desse acontecimento.

Em 25 de setembro de 1957, na página 6, o Diário de Natal estampou que em uma residência na Rua Apodi, na Cidade Alta, quatro pessoas estavam acamadas, com muita febre e forte gripe. Interessante comentar que esse jornal não informou a localização da casa e nem os nomes das pessoas doentes, mesmo sendo editado em uma cidade com cerca de 140.000 habitantes, onde praticamente todos se conheciam e sabiam do ocorrido.

Médicos da Saúde Pública estiveram presentes ao local. Eles aconselharam o isolamento e recolheram amostras dos pacientes, que foram enviados ao Rio de Janeiro por um avião da Força Aérea Brasileira para confirmação da doença. Esse exame ocorreu no Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos, atual Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ. O resultado foi divulgado dias depois e se confirmou a existência da gripe asiática em Natal.

Mortes no Tradicional Bairro do Alecrim e Cobranças

Após a chegada da confirmação do Rio de Janeiro, Dary Dantas e os membros da Comissão pediram calma a população e informaram que ainda “não estava formado um surto epidêmico em Natal”. Pouco mais de uma semana depois aconteceram as primeiras mortes!

Nessa época o bairro do Alecrim já era considerado o maior da cidade, possuindo um forte comércio, a maior feira de alimentos, concentrando uma grande parte da população de Natal e possuindo uma característica única e marcante – suas principais artérias eram conhecidas pelo povo através de uma antiga numeração. E foi nesse bairro de características tão peculiares e marcantes para os natalenses que em 5 de outubro de 1957 duas crianças faleceram de gripe asiática em suas casas, respectivamente nas antigas Avenidas 7 e 8[1].

Consideram que, apesar das crianças estarem acometidas de forte gripe, suas famílias não tomaram as “necessárias medidas preventivas”. Os jornais só não explicaram quais eram essas medidas. Somente próximo ao final do mês de outubro é que vamos encontrar nas páginas dos jornais algum tipo de material informativo oriundo do Departamento de Saúde Pública explicando o que a população deveria fazer. Aqui trago um exemplo.

Ainda em 18 de outubro, na página 6 do Diário de Natal, é relatado que seus repórteres realizaram um levantamento que, mesmo sem confirmação oficial, indicou que mais de 100 pessoas com sintomas da gripe asiática eram transportadas diariamente pelas ambulâncias Ford F-1 do SAMDU – Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência, para o Hospital Miguel Couto, atual Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL. Existiam casos graves no bairro das Rocas, mais precisamente na Rua Floresta, perto do Canto do Mangue, não muito distante do rio Potengi. Ali eram as crianças as mais atingidas, algumas com relatos de expectoração de sangue do trato respiratório.

O jornal Diário de Natal foi contundente na crítica a ação governamental: “Não obstante as reiteradas e solenes afirmações das nossas autoridades sanitárias, de que o assunto da gripe asiática em Natal era objeto apenas de informações alarmistas, aí está o surto da “Cingapura” tomando conta da cidade”.

Ambulâncias Ford F-1 do SAMDU – Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência, partindo do Hospital Miguel Couto, em Natal.

Apesar da gravidade do caso, não encontrei nos jornais referências sobre aplicação de métodos de isolamento social para a contenção desse surto.

Uma Criança Morre na Calçada

Igualmente não encontramos material oriundo do Departamento de Saúde Pública da Comissão Estadual de Defesa Contra a Gripe com estatísticas sobre o alcance da gripe asiática em Natal. Por isso não temos meios de afirmar se os jornais estavam corretos ao informarem no dia 22 de outubro, que o número de vitimas da doença era “de aproximadamente 6.000 pessoas”. Por outro lado encontramos registros que os profissionais da Saúde Pública já haviam visitado mais de 800 doentes em suas residências e que em um único dia ocorreu mais de 500 notificações de atingidos por essa gripe, apontando para uma provável estagnação na capacidade de atendimento do Hospital Miguel Couto, o principal da cidade. Noutra parte da reportagem informava que famílias inteiras estavam com a gripe em suas casas.

O Instituto Oswaldo Cruz começou a enviar vacinas para Natal, mas o número foi pequeno para a demanda. Não demorou e circulou a informação que o surto atingiu 10.000 natalenses, principalmente no bairro das Rocas.

Houve uma situação trágica, que chamou atenção na cidade e o combativo advogado e jornalista Luís Maranhão Filho registrou em sua coluna no Diário de Natal de 25 de outubro de 1957. No dia anterior, na calçada do Centro de Saúde da cidade, na Avenida Junqueira Aires, atual Câmara Cascudo, foi encontrada uma criança morta. Não existem maiores detalhes sobre seu falecimento, tendo sido creditado a gripe asiática. Luís Maranhão foi extremamente contundente em sua crítica ao descaso do poder público em relação à saúde do povo natalense.  Realmente as notícias envolvendo mortes trágicas de crianças em Natal, mesmo sendo as de origem mais humilde, eram estampadas com destaque nos jornais. Mas não nesse caso. Nem Luís Maranhão foi desmentido por algum dos periódicos locais.

Anúncio Precipitado do Fim da Pandemia

Cerca de trinta dias após a chegada dessa pandemia em Natal, os jornais de 26 de outubro destacam que o número de casos começou a declinar. Realmente alguns jornalistas comprovaram um declínio dos casos nos locais de atendimento na capital. Um dos membros da Comissão Estadual de Defesa Contra a Gripe atestou a redução dos casos, tranquilizando a população. Entretanto fez questão de apontar que “o maior número de gripados foi constatado em bairros afastados, entre a pobreza”.

Mas o anúncio foi precipitado, pois uma semana depois novos casos surgiram, com pessoas tendo febres de 40 graus, fortes calafrios e vômitos. Dessa vez o foco foi principalmente na região conhecida antigamente como Alto do Juruá, no atual bairro de Areia Preta. Nessa região, na Rua 2 de novembro, hoje Major Afonso Magalhães, famílias inteiras foram duramente atingidas, sendo necessário o apoio de vizinhos para solicitar socorro junto a Saúde Pública.

No dia 5 de novembro houve um caso que mereceu bastante destaque na imprensa natalense.

Nessa época existia o bar e restaurante Flórida, que ficava localizado na Avenida Duque de Caxias, nº 45, Ribeira. Ali trabalhava um garçom chamado Antônio Domingos Filho, que devido se encontrar com uma febre muito alta, pediu ajuda ao seu colega de trabalho Abel Gomes para levá-lo ao Hospital Miguel Couto para ser atendido. Eles foram, mas lá informaram que “ali não tratavam mais casos dessa natureza e que eles fossem pra o SAMDU”. Nesse local o garçom teve novamente negado qualquer tipo de atendimento. Sem jeito de resolver a situação, Abel então levou seu amigo Antônio Domingos até a sua residência, em uma humilde casa na Travessa Primeiro de Maio, bairro de Petrópolis. Segundo declarou Abel Gomes aos jornais, devido ao agravamento do quadro, de madrugada Antônio saiu pela rua gritando tresloucadamente em busca de socorro. Mas aí quem veio não foi a Saúde Pública, mas a Polícia Militar. O pobre garçom, tido como alterado, acabou no chão frio de uma cela na 2ª Delegacia de Polícia. O resultado foi que às seis da manhã ele foi encontrado morto.

Logo o caso repercutiu na Rádio Poti e outros meios de comunicação, mas nada foi feito. Não encontrei algum pedido de abertura de inquérito, ou alguma providência por parte do Ministério Público.

Enfim, ele era apenas um pobre garçom!

Até gostaria, mas certamente a atual pandemia de COVID-19 não será a última ocasião em que Natal vai testemunhar. Mas será muito interessante que na atual conjuntura as pessoas mais humildes e necessitadas, que é grande parcela da atual população potiguar, venha ater por parte das autoridades o devido apoio para enfrentar essa situação e que o caso do garçom Antônio Domingos Filho fique restrito a memória histórica dessa terra!

NOTA


[1] Muitos imaginam até hoje que essa situação é fruto da presença das tropas norte-americanas em Natal durante a Segunda Guerra Mundial, onde as autoridades locais teriam numerado as principais vias do Alecrim para facilitar a circulação dos militares estrangeiros na área. Nada disso! Oficialmente o bairro do Alecrim foi criado em 23 de outubro de 1911, mas existem informações que já em 1903, quando a região ainda era um amplo matagal pontilhado por alguns sítios, ali foi criado um traçado numerado de futuras avenidas e ruas. Mesmo sem existir uma documentação comprobatória, acredita-se que essa delimitação foi realizada pelo arquiteto italiano Antônio Polidrelli. Este havia sido contratado pelo poder municipal para desenvolver o traçado da área denominada Cidade Nova (atuais bairros de Petrópolis e Tirol) e a ideia de criar esse traçado no Alecrim tinha o objetivo de facilitar junto a Intendência Municipal de Natal o aforamento de terrenos dos futuros moradores. As antigas Avenidas 7 e 8 são atualmente as Ruas dos Caicos e dos Pajeús. Sobre a história relativa a questão das numerações das ruas do bairro do Alecrim, ver SOUZA, Itamar de. Nova História de Natal, 2008, 2ª Ed. págs. 522 a 524. Mesmo com as numerações das antigas avenidas e ruas do Alecrim tendo sido oficialmente abolidas em 1930, até hoje uma grande parcela dos natalenses continua a utilizar as velhas numerações para se localizar no bairro, inclusive o autor dessas linhas (antigo morador do bairro, na Rua Borborema).

HISTÓRIA DE SOBREVIVÊNCIA – COMO DESOBEDECI AO COMISSÁRIO DE BORDO E ME TORNEI O ÚNICO PASSAGEIRO A SOBREVIVER AO DESASTRE DE UM BOEING 707

Aos 21 anos, Ricardo Trajano desobececeu ordens de tripulação durante incêndio à bordo de voo da Varig em 1973, em Paris – A transgressão salvou sua vida.

Em 1973, um avião em chamas fez um pouso forçado em um campo nos arredores de Paris. O acidente deixou 123 pessoas mortas. Entre os 11 sobreviventes, apenas um era passageiro. E por que sobreviveu? Porque o passageiro, um brasileiro com 21 anos à época, desobedeceu todas as instruções de segurança que havia recebido. Seu nome é Ricardo Trajano.

Hoje, aquele jovem transgressor – cujo estado ao ser retirado do avião em chamas era tão grave que os médicos não lhe davam mais do que uma semana de vida – é pai de duas filhas e descobriu uma nova paixão: auxiliar outros sobreviventes de acidentes a superarem seus traumas.

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Acidente com o avião da Varig em Orly deixou 123 mortos em 1973 — Foto: Reprodução – Fonte – https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/10/13/como-desobedeci-comissario-de-bordo-e-me-tornei-o-unico-passageiro-a-sobreviver-a-desastre-de-aviao.ghtml

No texto a seguir, Ricardo Trajano relembra a experiência em comovente depoimento a Thomas Pappon, do programa Witness, do BBC World Service.

“Eu estava estudando engenharia em Petrópolis, no Rio. Era músico, roqueiro, já tinha tocado em bandas. E decidi visitar Londres, que era a Meca do rock na década de 1970.”

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“Era meu primeiro voo e eu tinha lido que a cauda do avião ficava mais protegida em acidente aéreo, então decidi me sentar atrás. Era um Boeing 707, da Varig.”

Mas Ricardo não ficou na última fileira. Naquela época, as tripulações dos aviões eram numerosas, e alguns dos 17 comissários ocupavam os últimos assentos. Ricardo sentou-se na penúltima fileira, logo à frente deles.

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Revista de 1973 sobre artistas e cantores, noticiando a morte do paulistano Agostinho dos Santos nesse acidente – Fonte – http://revistaamiga-novelas.blogspot.com/2015/03/agostinho-dos-santos.html

Na poltrona à frente de Ricardo estava um artista famoso.

“Você já ouviu falar do Agostinho dos Santos, um cantor muito famoso naquela época? Era como se (hoje) entrasse no avião o Gilberto Gil. Todo mundo ia reconhecer – e todo mundo reconheceu o Agostinho. Ele se sentou na minha frente.”

E mais à frente ainda, estava a passageira Rita, com quem Ricardo passaria horas conversando.

“Ela era filha do embaixador da Índia no Brasil, morava com o pai em Brasília. Tinha a minha idade, era inteligente, simpática. Trocamos contato porque ela também ia para Londres, íamos nos encontrar lá.”

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Ricardo Trajano tinha 21 anos quando sobreviveu ao acidente aéreo — Foto: Reprodução – Fonte – https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/10/13/como-desobedeci-comissario-de-bordo-e-me-tornei-o-unico-passageiro-a-sobreviver-a-desastre-de-aviao.ghtml

Fumaça no banheiro

O voo foi tranquilo. O avião faria uma escala no aeroporto de Orly, em Paris.

“Quando faltavam cinco minutos para pousarmos, uma fumaça branca começou a sair do banheiro atrás de mim. Os passageiros sentados atrás notaram, e os comissários, também. Um deles veio com um extintor e tentou apagar o fogo, mas eu vi que a fumaça não estava diminuindo.”

O avião já tinha iniciado a descida e todos os passageiros estavam sentados, com os cintos afivelados. Nesse momento, Ricardo decidiu sair do seu assento.

“Eu simplesmente desconectei o cinto e fui caminhando para a frente do avião. Eu já tinha visitado a cabine duas vezes, naquela época você podia fazer isso. Então, fui para a frente do avião. Todos os outros passageiros ficaram nos seus lugares. Eles devem ter pensado que eu estava indo ao outro banheiro lá na frente.”

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O Boeing 707-345C da Varig, o avião do acidente – (Werner Fischdick – aviation-safety.net) – Fonte – https://www.autoentusiastas.com.br/2018/04/aviacao-comercial-tragedia-de-orly-45-anos/#foobox-2/0/Varig.jpg

“Quando cheguei lá, um comissário estava dizendo aos passageiros que ficassem tranquilos, que eles estavam resolvendo um problema lá atrás, e que todo mundo devia ficar onde estava, com os cintos afivelados. Quando ele me viu, me deu uma bronca. ‘Rapaz, o que você está fazendo aqui? Vai sentar no seu lugar, você não pode ficar aqui, em pé!'”

“E aí, por impulso, não sei o que foi, instinto, eu desobedeci o cara. Eu podia ter voltado. E se eu não tivesse feito essa transgressão, eu provavelmente não estaria aqui hoje.”

“Andei mais para a frente. Fiquei na divisória, aquela área que fica entre a cabine do piloto e a primeira classe. Tinha alguns comissários ali perto.”

Mortes silenciosas

Agora, a fumaça já não era branca. E tomava conta de toda a aeronave.

“Era uma fumaça densa, negra e muito tóxica – como aquela fumaça de pneu queimado, sabe? Você inalava aquilo, na primeira vez, já ficava paralisado. Na segunda ou terceira, te matava. Todos os passageiros morreram sentados, com seus cintos afivelados, asfixiados.”

A fumaça já tinha chegado à parte fronteira do avião, onde Ricardo estava. Os comissários ao seu lado, que antes conversavam nervosamente entre si, agora estavam calados.

“Eu senti que eles estavam morrendo porque pararam de falar. Eu não via mais de um palmo na minha frente. Estava tudo negro. Eu fechei o olho. O que me ajudou muito é que eu fiquei calmo. Veio aquele flashback na minha cabeça, me despedindo da vida, dos amigos, da minha família. Sentindo a morte me abraçar. Mas a calma me ajudou muito.”

“Senti que o avião perdeu muita altura. Parecia que estava a 90 graus. Claro que não estava, mas estava muito inclinado, então eu caí. A fumaça embaixo é mais rarefeita e isso te ajuda (a respirar).”

Cabeça fria

A cabine do avião também havia sido tomada pela fumaça.

“Senti, ou ouvi, o co-piloto abrir a janelinha para poder pilotar o avião.”

Estranhamente, não houve gritaria.

“A fumaça foi envolvendo todo mundo, foi saindo pelo revestimento do avião. O revestimento era polipropileno, era plástico. Você imagina aquilo queimando. Era uma fumaça muito forte e foi pegando todos os passageiros desprevenidos. Eu, lá na frente, não ouvi absolutamente nada. Podia ter havido tumulto, gente correndo lá para a frente. Não teve nada disso. “

Dentro da cabine, no entanto, o cenário era outro. Vários comissários tinham se refugiado ali.

“A única coisa que eu ouvi foi o tumulto dentro da cabine, dos comissários apavorados. Um deles falou para o piloto: ‘joga logo esse avião no chão que eu não aguento mais!'”

“Mas os pilotos foram muito frios e corajosos. Primeiro, não desceram as máscaras de oxigênio porque o oxigênio é inflamável, então o fogo ia se alastrar mais ainda.”

Os pilotos também tomaram a decisão de pousar antes de chegar ao aeroporto – embora já houvesse bombeiros de prontidão no local.

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A bela atriz Regina Maria Rosemburgo Leclery, uma das vítimas fatais do acidente – Fonte – http://www.alemdaimaginacao.com/Noticias/o_numero_7_e_o_desastre_do_aviao.html

“Não dava tempo de chegar ao aeroporto porque o avião podia explodir no ar. Então, o comandante Gilberto Araújo fez um pouso forçado. Desviou de um vilarejo, de um fio de alta tensão, e pousou numa plantação de cebola. Quando ele pousou, eu apaguei.”

Resgate

Lutando contra dificuldades de acesso, as equipes de resgate demoraram entre dez e 15 minutos para chegar ao avião.

“Ainda fiquei naquela fornalha uns dez minutos.”

Tomado pelas chamas, o teto da aeronave começou a cair sobre as pessoas. Passageiros que talvez tivessem sobrevivido até aquele momento, possivelmente desmaiados, morreram carbonizados.

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Considerado herói, o piloto do 707 do acidente de Orly sobreviveu à tragédia. Seis anos depois Gilberto Araújo da Silva, paraibano da cidade de Santa Luzia, desapareceria com toda sua tripulação enquanto comandava outro voo, de carga, sobre o Oceano Pacífico, na rota Tóquio–Los Angeles–Rio de Janeiro – Fonte – http://www.desastresaereos.net/historia_08_Varig_967_desaparecimento.htm#heroi

“Caiu uma placa de metal grande, da fuselagem, nas minhas costas. Por sorte eu estava de costas. Se eu tivesse caído de barriga para cima, provavelmente teria morrido porque os órgãos teriam ficado mais expostos.”

A placa queimou a metade inferior das costas, parte das nádegas e das coxas de Ricardo.

Ele não tem qualquer lembrança do resgate. “Acordei no hospital sem entender nada, tinha ficado desacordado, em coma, 30 horas.”

Segundo Tempo

Ricardo chegou ao hospital sem roupas – e, portanto, sem documentos ou objetos que permitissem sua identificação. No entanto, seu porte físico – ele é magro e tem 1m e 92cm de altura – era muito parecido com o de um membro da tripulação. Isso levou a equipe do hospital a concluir que ele era o comissário da Varig Sérgio Balbino.

A primeira notícia, quando eu entrei no hospital, era de que eu era o comissário, Sérgio Balbino.

“Ligaram para o Brasil avisando a família do Sérgio Balbino que ele estava vivo. E para a minha família, avisando que eu estava morto.”

O pai de Ricardo já estava encomendando a sepultura do filho e os amigos foram informados sobre sua morte.

“Minha mãe, que faleceu no ano passado, aos 96 anos de idade, era a única que dizia, ‘não, meu filho não morreu’. A mamãe falava isso e todo mundo dizia, ‘coitada da dona Quéti, não quer cair na real.’ “

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‘Esse bilhete, eu posso dizer que psicografei’, diz Trajano — Foto: Reprodução – Fonte – https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/10/13/como-desobedeci-comissario-de-bordo-e-me-tornei-o-unico-passageiro-a-sobreviver-a-desastre-de-aviao.ghtml

“Eu fiquei 30 horas em coma, mas em um determinado momento, pedi uma folha (de papel e uma caneta). Esse bilhete, eu posso dizer que psicografei. Eu estava desacordado, mas peguei uma caneta e com uma letra de criança, toda tremida, coloquei os telefones, o nome do meu pai, (meu) endereço.”

Festa no velório

Os atendentes procuraram o nome de Ricardo na lista dos tripulantes e não encontraram. Então, olharam a lista de passageiros. Lá estava o nome. Ricardo Trajano.

“Quando me resgataram, havia vários corpos de tripulantes mortos (perto de mim). ‘Como é que esse cara estava lá na frente, com os tripulantes?’ “

“Aí, a Varig liga para a família do Balbino comunicando que, infelizmente, ele tinha morrido. E liga para a minha casa, meu pai atende: ‘Queremos comunicar que seu filho está mal, mas ainda está vivo.’ “

“Você imagina? Lá em casa tinha um velório, virou uma grande festa.”

Cicatrização demorada

A companhia aérea enviou passagens e, imediatamente, os pais de Ricardo voaram para a França.

“Aí tem o segundo tempo, no hospital. Eu acordo e não entendi anda, era tudo um grande quebra-cabeças e faltavam dezenas de peças.”

“Quando eu acordei e comecei a ter a ideia de que tinha acontecido um acidente, a primeira pergunta que eu fiz – eu estava todo entubado, todo escangalhado, numa tenda de oxigênio – eu perguntei pelo Agostinho dos Santos e o resto do pessoal.”

Os atendentes diziam que estava tudo bem, mas Ricardo sabia que não era bem assim. Ele sabia, por exemplo que seu estado de saúde não era bom.

“Fiquei sabendo, bem mais tarde, que os médicos não me davam uma semana de vida. Minha primeira radiografia de pulmão é um atestado de óbito. Minhas vias aéreas estavam todas queimadas pela fumaça que eu tinha respirado. Eu expelia todo o meu sangue envenenado pela boca. Tinha taquicardia. Minha queimadura não cicatrizava e podia infeccionar os rins. Tomei muitas transfusões de sangue, tinha febre alta.”

Rumo ao Rio

Ricardo ficou 52 dias no CTI (Centro de Terapia Intensiva) do hospital na França.

“Eu procurava extrair daquele ambiente conturbado as coisas boas que me rodeavam. Para começar, os enfermeiros. Um pessoal jovem, legal demais, uma energia boa. Um bom humor incrível.”

“Minha recuperação foi lenta e gradual. Depois de dois meses no hospital, de um dia para o outro, minhas queimaduras começaram a cicatrizar. Os médicos começaram a pensar no meu retorno para o Rio. E eu comecei a pensar em continuar minha viagem pra Londres, olha que loucura. Os médicos falaram, ‘meu amigo, negativo. Você vai ter de voltar para o Brasil e ainda vai ter de ficar no hospital.’ “

Encontro com bombeiro: abraço e muito choro

A equipe médica temia que Ricardo tivesse problemas para voltar a voar de avião.

“Conversei com eles. ‘Por favor, eu quero viajar aceso o tempo todo. Não me deem comprimidos, suco de maracujá, injeção. Quero vir aceso.”

E assim foi feito. Ricardo viajaria em um compartimento separado, criado especialmente para ele.

“Fui o primeiro a entrar no avião. E aí chegaram umas pessoas na minha frente com um cara jovem, um pouco mais velho do que eu. Eles falaram, ‘esse aqui é o bombeiro, que subiu a escada e te tirou do avião.’ “

“Foi um momento único. Segurei a mão dele, abraçava ele. Eu e ele não conseguíamos falar, chorávamos o tempo todo. É um momento em que penso até hoje, está muito presente, esse encontro.”

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Visão assustadora dos estragos do incêndio a bordo. Observem que o fogo queimou o teto da aeronave. Essa imagem foi feita olhando de frente para a cauda da aeronave pelo lado esquerdo. Note os flaps “Krueger” do bordo de ataque acionados. (baaa-acro.com) – Fonte – https://www.autoentusiastas.com.br/2018/04/aviacao-comercial-tragedia-de-orly-45-anos/#foobox-1/1/PP-VJZ-2.jpg?ssl=1

Pai de Rita: ‘Corajosa até o fim’

No Brasil, Ricardo ficou mais um mês no hospital. Quando chegou em casa, recebeu uma carta do embaixador da Índia, o pai da Rita.

“Ele soube que eu tinha estado com ela. Eu conversei com ela várias horas no avião e isso saiu no jornal. Ele viu e me mandou uma carta, que eu guardo com muito carinho. Uma carta singela, uma folha. Falando, ‘eu soube que você esteve com a minha filha no avião, fico muito feliz de saber que você está bem.’ No final, ele coloca, ‘espero que ela tenha sido corajosa até o fim.’ Foi muito emocionante.”

Um ano depois, Ricardo voltou à mesma agência da Varig onde havia comprado sua passagem. Estava determinado a completar a viagem interrompida.

“Voltei lá e falei, ‘quero uma passagem para Londres com escala no aeroporto de Orly, em Paris.’ Cabeça dura, teimoso.”

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Atualmente, Trajano auxilia outros sobreviventes de acidentes a superarem o trauma – Foto: Reprodução – Fonte – https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/10/13/como-desobedeci-comissario-de-bordo-e-me-tornei-o-unico-passageiro-a-sobreviver-a-desastre-de-aviao.ghtml

A atendente lhe passou o preço.

“Eu falei, ‘você não está entendendo. Sabe aquele acidente um ano atrás? Que teve um sobrevivente? Pois é, fui eu. Paguei minha passagem de ida e volta, em dinheiro, e não cheguei nem na primeira escala da ida. Você não acha que a Varig tem de me dar uma passagem?’ “

“A mulher olhou – ‘é você!’ – me deu um abraço super carinhoso. Minutos depois, eu já estava com a passagem no bolso.”

Ricardo viajou com um amigo, o fotógrafo e apresentador de rádio Maurício Valadares.

“Finalmente, assisti o (Led) Zeppelin. Eu queria ver Zeppelin, (The) Who, (The Rolling) Stones. Vi um monte de coisas, no Rainbow (Theatre), no Royal Albert Hall, no One Hundred Club. E fui lá no Marquee, que foi fechado anos depois. Fiquei doidão vendo as bandas ali – ali era o templo (do rock), né?”

Hoje: uma nova razão para viver

As únicas sequelas físicas deixadas pelo acidente são as queimaduras nas costas, nádegas e coxas de Ricardo. Ele não quis fazer cirurgia para removê-las.

“Eu quero fazer disso o meu troféu, que carrego até o final da vida.”

“O pulmão, eu recuperei. Seis meses depois, estava jogando basquete na faculdade. Eu fui atleta, fui nadador. , competi pelo Flamengo na adolescência. Depois joguei basquete pelo Botafogo. Isso também me ajudou muito, com certeza.”

Ricardo se formou engenheiro civil, mas hoje trabalha com comércio – é dono de uma loja de sapatos em Belo Horizonte. E, não faz muito tempo, meio por acaso, descobriu, talvez, uma nova vocação. Foi convidado para contar a história de seu acidente em uma palestra. E percebeu que tem uma contribuição importante a fazer.

“Não tenho o menor trauma, nunca sonhei com esse acidente. Fui. Sem roteiro. As coisas foram saindo, fui falando. (No final), um garoto chegou e falou, ‘uns anos atrás sofri um acidente e minha cabeça está zonza o tempo todo. Ouvir você falar foi bom para mim’.”

Agora, Ricardo está apresentando sua palestra, “Reflexões de um sobrevivente”, pelo Brasil.

“Tem sido de uma realização interna muito grande. Falo muito sobre a vida. Estou aqui. É possivel recomeçar a vida após um trauma, um fracasso, uma perda. A vida continua. Isso aqui é um grande palco.”

Segundo autoridades da aviação, o fogo no avião foi, provavelmente, causado por um cigarro aceso jogado no compartimento de lixo de um dos banheiros.

Esta reportagem foi adaptada a partir de depoimento dado a Thomas Pappon, do programa de rádio Witness, do BBC World Service.

MORREU DOM PAULO EVARISTO ARNS

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Celebração eucarística dos 65 anos de Ordenação Sacerdotal de Dom Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Emérito de São Paulo realizado na Catedral da Sé região central da capital paulista. Na foto Dom Paulo Evaristo Arns – 27/11/2010 (Werther Santana/Estadão Conteúdo) – Fonte – http://veja.abril.com.br/brasil/como-arcebispo-dom-paulo-fez-a-opcao-pelos-mais-pobres/

Igreja e Ditadura: do apoio ao combate – Como D. Paulo Evaristo Arns e outros religiosos encabeçaram a luta contra o regime militar

Autor – Igor Natusch

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/igreja-e-ditadura-do-apoio-ao-combate.phtml#.WFKxjOArKhcsiva

O golpe que lançou o Brasil em 21 anos de regime militar em 1964 encheu de euforia o coração de um presbítero de Petrópolis (RJ). Reconhecendo na “revolução” a chance de um novo país, livre do comunismo ateu que ameaçava a cristandade, o padre deslocou-se até o Rio de Janeiro com um só objetivo: dar a bênção às tropas do general Olímpio Mourão Filho, que tinham vindo desde a mineira Juiz de Fora para ocupar a Guanabara.

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Dom Paulo em 1967 – Fonte – http://veja.abril.com.br/brasil/como-arcebispo-dom-paulo-fez-a-opcao-pelos-mais-pobres/

Dois anos depois, esse religioso, chamado Paulo Evaristo Arns, foi ordenado bispo; em 1970, assumiu como arcebispo de São Paulo. Desde então, o outrora entusiasta da ascensão dos militares assumiu posição decisiva na contestação e denúncia dos crimes da ditadura. Lutou contra a tortura, liderou o histórico ato na Catedral da Sé em memória do jornalista Vladimir Herzog, criou a Comissão Justiça e Paz e abraçou o projeto Brasil: Nunca Mais, que evitou o sumiço de milhares de documentos fundamentais para contar a história daqueles dias. Até o fim da vida, foi considerado, com justiça, um herói da resistência aos generais – um contraste e tanto com o apoio prestado ao então recém-nascido regime.

As posturas de Dom Paulo são representativas da trajetória da Igreja Católica durante a ditadura no Brasil. Um caminho acidentado no qual, após a euforia pela queda de João Goulart, posições conservadoras e atos de reação conviveram durante muito tempo, até que a ilusão de um governo redentor desabasse e a redemocratização se tornasse inevitável. Em um país de forte base católica, os movimentos da Igreja desenham a própria postura da sociedade civil diante do estado de exceção que a muitos pareceu promissor, mas que com o tempo se revelou intolerável.

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Dom Paulo Evaristo Arns (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR / Divulgação) – Fonte – http://vejasp.abril.com.br/materia/morre-dom-paulo-evaristo-arns-arcebispo-emerito-sao-paulo

O apoio

“Em maio de 1964”, diz o historiador Paulo César Gomes Bezerra, “um manifesto assinado por 26 bispos da CNBB agradecia aos militares por ‘salvarem’ o país do perigo iminente do comunismo”. A declaração dos bispos manifestava gratidão aos novos governantes por terem “acudido a tempo” e impedido a consumação de um “regime bolchevista” no Brasil. “Ao rendermos graças a Deus”, dizia o documento, “agradecemos aos militares que, com grave risco de suas vidas, se levantaram em nome dos supremos interesses da nação.”

As palavras refletem um sentimento que animou boa parte das ações da Igreja naqueles dias: o temor diante do comunismo, destruidor da família, que vinha para esmagar os preceitos cristãos. Mas demonstra também uma proximidade com o poder, o que, no caso brasileiro, não era novidade. No país, até o final do século 19, a Igreja nem sequer existia como entidade autônoma. No sistema do padroado, eram os governantes que nomeavam bispos e padres, além de financiarem e administrarem grande parte da estrutura eclesiástica. Mesmo com a República e a institucionalização do Estado laico, a ligação estreita se manteve – e os dirigentes entendiam bem a importância do apoio religioso às suas decisões.

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Paulo Evaristo Arns visita o general Canavarro Pereira em 1970, em São Paulo – Fonte – http://acervofolha.blogfolha.uol.com.br/2016/12/14/dom-paulo-evaristo-arns-e-seu-coracao-corintiano/

A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, decisiva como suporte ideológico e popular ao movimento militar, evidenciava tais laços, uma vez que a Igreja atuou fortemente na organização das manifestações. Em São Paulo, Leonor Mendes de Barros, esposa do governador Ademar de Barros, ao fim da marcha, assistiu à missa do padre irlandês Patrick Peyton, que estava no Brasil a convite do cardeal Jaime de Barros Câmara, da Arquidiocese do Rio.

Manifestações semelhantes ocorreram no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba. O padre Antônio Abreu, ligado há mais de 40 anos ao Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (Ibrades), organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), descreve outros aspectos que influenciaram a posição da instituição. Segundo ele, além de proteger a Igreja e a cristandade, havia entre alguns simpatia por um nacionalismo popular de base militar, a exemplo do que Gamal Abdel Nasser promovia no Egito. “No momento do golpe, a identificação da Igreja era com as elites em geral, em uma postura política antiliberal e antidemocrática”, afirma Abreu. “Entre os que realmente queriam políticas públicas de caráter social, parcela razoável acreditava ser mais provável os militares realizarem aquilo que na democracia não era viável. Julgavam ditaduras esclarecidas mais eficazes para o bem público.”

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Fonte – http://memorialdademocracia.com.br/card/vladimir-herzog-e-assassinado-no-doi-codi

Fundada em 1952, a CNBB elegeu em 1964 uma direção conservadora. A presidência ficou com dom Agnelo Rossi, que logo em seguida seria nomeado pelo papa Paulo VI arcebispo de São Paulo. O então secretário-geral da entidade, dom Hélder Câmara, opositor de primeira hora do regime, foi deslocado do Rio de Janeiro para a arquidiocese de Olinda e Recife, sendo substituído por dom José Gonçalves, mais simpático aos novos tempos. Com uma elite católica pronta a dar seu aval, os militares estavam legitimados para agir.

Apesar do conservadorismo da cúpula, vivia-se um período de renovação na Igreja Católica. Entre 1962 e 1965, ocorreu o Concílio Vaticano II, uma das mais amplas reformas da história do catolicismo. A partir dele, a Igreja tentou transformar sua relação com a sociedade, colocando em primeiro plano a justiça social, a defesa dos direitos humanos e o auxílio aos necessitados de todos os tipos. Era momento de repensar a relação da fé católica com o ambiente político e social que a cercava – um sopro de mudança que demorou um pouco a arejar o alto comando da Igreja brasileira, ainda que tenha sido percebido em outros lugares.

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Dom Paulo Evaristo Arns e o presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter – Fonte – http://acervofolha.blogfolha.uol.com.br/2016/12/14/dom-paulo-evaristo-arns-e-seu-coracao-corintiano/

A contestação

O apoio da Igreja Católica ao golpe pode ter sido majoritário, mas não foi unânime. O bispo de Volta Redonda, Dom Waldyr Calheiros, foi quase um pioneiro: já na noite do 31 de março de 1964, leu um sermão cheio de comentários desabonadores à derrubada de Jango. Sem contar a oposição férrea de dom Hélder Câmara – um homem tão combativo que logo passou a ser monitorado de perto pelos militares. Pelo menos desde 1966, o Centro de Informações da Polícia Federal abastecia um dossiê sobre o bispo, e a divisão de segurança e informações do Itamaraty fazia de tudo para impedir suas viagens ao exterior – nas quais ele invariavelmente denunciava a violência da ditadura brasileira. A partir de 1970, a imprensa não podia nem ao menos citar o nome de dom Hélder, para o bem ou para o mal; era como se o religioso, mesmo vivo e atuante, não existisse.

Os mandatários religiosos seguiam alinhados aos militares, mas outras esferas adotavam uma postura crescente de resistência e contestação. “A Igreja, em todos os tempos e lugares, sempre refletiu a luta de classes, como todas as instituições”, afirma Frei Betto, da ala mais radical da oposição à ditadura. Ele tomou parte direta na mais explícita atuação de setores da Igreja junto à guerrilha: o alinhamento com a Aliança Libertadora Nacional, de Carlos Marighella. E ainda hoje apoia explicitamente o regime cubano.

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Dom Paulo e sua irmã, a médica Zilda Arns Neumann. Médica pediatra e sanitarista, fundadora da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, organismos de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Zilda Arns faleceu na cidade de Porto Príncipe – Haiti, no terremoto que vitimou mais de 200 mil pessoas. Dom Paulo, ao saber da morte da irmã, disse: “Não é hora de perder a esperança. Ela morreu de uma maneira muito bonita, morreu na causa que sempre acreditou” – Fonte – http://a12.com/blogs/paginasanimadas/120115-za/

Enquanto os dominicanos como Frei Betto auxiliavam pessoas a fugir do Brasil, o arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eugênio Sales, oferecia ajuda a indivíduos perseguidos por outras ditaduras da América do Sul. Iniciado em 1976, o processo ganhou tal volume que, a partir de 1979, o bispo chegou a hospedá-los em sua própria residência, na Rua da Glória. Ao todo, com o apoio da Cáritas brasileira e do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), dom Eugênio teria socorrido, até 1982, mais de 4 mil pessoas. Alguns chegavam por iniciativa do então padre da Companhia de Jesus argentina Jorge Mario Bergoglio, hoje papa Francisco. Tanto dom Eugênio quanto dom Paulo Evaristo Arns teriam recebido pessoas enviadas por Bergoglio ao Brasil – uma das muitas histórias que evidenciam a colaboração entre religiosos no continente.

A ditadura não estava alheia a esses movimentos e começou a agir de forma cada vez mais dura. Em 1966 o padre Henrique Pereira Neto, auxiliar de dom Hélder Câmara, foi assassinado pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), um grupo paramilitar. A partir daí, o porão do regime perdeu o constrangimento e se voltou contra a Igreja. A reação dos órgãos eclesiásticos, em princípio, foi tímida: apenas em maio de 1970 viria o primeiro documento da CNBB denunciando a prática de tortura no país, ainda assim com o cuidado de criticar também ações atribuídas à esquerda, como assaltos e sequestros. Em outubro daquele ano, porém, a prisão do secretário-geral da CNBB, dom Aloísio Lorscheider, durante uma ação do Departamento de Ordem Pública e Social (Dops) na sede do Ibrades, azedou totalmente o diálogo. Foi a primeira vez que um alto dirigente da CNBB viu-se nas mãos dos militares.

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Lorscheider ficou preso durante cerca de quatro horas. Tempo suficiente para o alto clero atacar o regime com ousadia inédita. Os cardeais chegaram a enviar carta diretamente ao então presidente, o general Emílio Garrastazu Médici, lamentando a “deterioração” de seus vínculos. O impacto internacional também foi péssimo: a imprensa do Vaticano noticiou o fato e até o papa Paulo VI manifestou publicamente apoio aos bispos brasileiros. “Foi quando se resolveu criar a Comissão Bipartite, que funcionou entre 1970 e 1974, com o intuito de promover diálogos entre a Igreja e o Estado e evitar a ruptura”, afirma o historiador Paulo César Gomes Bezerra. O efeito da medida, contudo, foi limitado: as relações entre as instituições jamais voltariam a ser as mesmas.

Dominicanos no cárcere

Nenhum setor da Igreja brasileira foi tão fundo na oposição ao regime quanto os dominicanos adeptos da ainda hoje, dentro e fora da Igreja, controversa Teologia da Libertação. 

Os frades passaram a apoiar perseguidos políticos que precisavam esconder-se ou fugir do país. Foi essa ação que os aproximou de Carlos Marighella e da Aliança Libertadora Nacional. Em 1968, com o advento do AI-5, a repressão chegou ao momento mais duro – e Frei Betto, morando no Rio Grande do Sul, ajudou dezenas de pessoas a atravessar a fronteira do Uruguai.

A ligação dos dominicanos com questões sociais e políticas vem desde os anos 1940, a partir da Ação Católica (AC), movimento que buscava maior inserção da Igreja junto aos movimentos da sociedade civil. Como forma de recrutar estudantes, surgiram dentro da AC grupos como a Juventude Estudantil Católica (JEC) e a Juventude Universitária Católica (JUC). A partir deles, nasceu a Ação Popular (AP), segundo Frei Betto “um movimento de esquerda, laico, independente da Igreja”, com forte presença dos dominicanos e forte inserção no meio universitário. Depois do golpe, a organização passou à clandestinidade.

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Dom Paulo e general Dilermando Monteiro – Fonte – http://veja.abril.com.br/brasil/como-arcebispo-dom-paulo-fez-a-opcao-pelos-mais-pobres/

Com o endurecimento do regime, os serviços de inteligência passaram a prestar especial atenção nos dominicanos, levando a uma série de prisões, como a dos frades Fernando, Ivo e Tito, todos alvo de torturas e expostos como terroristas. O caso de frei Tito tornou-se tristemente célebre: incapaz de conciliar-se com as memórias dos padecimentos, ele se suicidou nos arredores de um convento francês em 1974, aos 28 anos. No exílio ou na cadeia, os dominicanos continuavam incomodando o poder.

“Nós, religiosos presos, éramos a principal fonte de denúncia no exterior dos crimes praticados pela ditadura. E o papa Paulo VI nos deu ouvidos e apoio”, diz Frei Betto. “Na tentativa de nos neutralizar, nos obrigaram a partilhar do mesmo regime carcerário dos presos comuns. Nem assim cessamos as denúncias, pois as informações sempre nos chegavam.” A voz dos dominicanos ecoou em todo o mundo e levou a uma rejeição cada vez maior à ditadura no exterior.

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Dom Paulo Evaristo Arns (Foto – PEDRO MARTINELLI/Dedoc) – http://veja.abril.com.br/brasil/como-arcebispo-dom-paulo-fez-a-opcao-pelos-mais-pobres/

A denúncia

Em 1970, a mudança de comando na Arquidiocese de São Paulo aumentou o fosso entre Igreja e militares. Frei Betto afirma que, mesmo após visitar dominicanos no Dops e ouvir seus relatos, o então arcebispo, dom Agnelo Rossi, seguia negando que houvesse tortura nas prisões. O Vaticano, então, resolveu transferir dom Agnelo a Roma – uma espécie de promoção às avessas, já que abriu espaço para seu auxiliar, dom Paulo Evaristo Arns, assumir a arquidiocese.

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Fonte – http://veja.abril.com.br/brasil/como-arcebispo-dom-paulo-fez-a-opcao-pelos-mais-pobres/

A essa altura, a simpatia de dom Paulo pelo golpe já tinha virado fumaça. Ele se tornou firme opositor da ditadura no Brasil, tanto no discurso quanto na prática: fundou a Comissão Justiça e Paz, o grupo Clamor (uma rede de solidariedade a fugitivos das ditaduras sul-americanas) e o projeto Brasil: Nunca Mais, que reunia em segredo documentos relativos aos porões da ditadura militar. Além disso, promoveu a criação de várias pastorais (como a da Moradia, a da Criança e a Operária), de valioso papel na consolidação dos movimentos sociais na reta final do período dos militares no comando do país.

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Fonte – https://www.catarse.me/dom_paulo_evaristo_arns_coragem_resistencia_e_esperanca_nos_tempos_da_ditadura_militar_no_brasil_8b59

Durante os anos de chumbo, surgiram também as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Incentivadas por seguidores da Teologia da Libertação, como Leonardo Boff e o próprio Frei Betto, as CEBs tentavam suprir a falta de sacerdotes nas áreas de baixa renda, em especial no Nordeste. “Por serem movimento de Igreja, a repressão não deu muita importância a elas, que se tornaram incubadoras de movimentos populares”, diz Frei Betto.

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Dom Paulo Evaristo Arns sendo entrevistado ao lado de Ulysses Guimarâes – Fonte – http://acervofolha.blogfolha.uol.com.br/2016/12/14/dom-paulo-evaristo-arns-e-seu-coracao-corintiano/

Em 1975, o caso do jornalista Vladimir Herzog, torturado até a morte no quartel-general do II Exército, em São Paulo (veja ao lado), abalou os alicerces do regime. A partir do episódio, ficou impossível negar o que acontecia nos porões. No ano seguinte, o metalúrgico Manuel Fiel Filho foi outra vítima fatal da tortura nas prisões do Doi-Codi. A repercussão do assassinato – mais um suicídio por enforcamento, na versão dos militares – foi tão expressiva que o general Ednardo d’Ávila Mello, advertido pelo presidente Ernesto Geisel no caso Herzog, foi exonerado do comando do II Exército. Para o jornalista Elio Gaspari, autor da maior obra sobre a ditadura militar brasileira, o enquadramento de Geisel aos militares do porão no episódio marcou o fim da bagunça na tropa.

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Fonte – https://www.catarse.me/dom_paulo_evaristo_arns_coragem_resistencia_e_esperanca_nos_tempos_da_ditadura_militar_no_brasil_8b59

A essa altura, a Igreja tinha assumido uma postura de clara oposição. No final dos anos 1970, as Forças Armadas tentaram sem sucesso deportar dom Pedro Casaldáliga, bispo de origem catalã que atuava na região de São Félix do Araguaia (MT). Próximo de dom Pedro, o padre João Bosco foi morto em 1976 com um tiro dentro de uma delegacia onde tinha ido denunciar abusos contra camponeses. A sequência da queda de braço com os religiosos incluiu investigação a outros bispos, como dom Fernando Gomes e dom Waldyr Calheiros, e o monitoramento de perto do jornal O São Paulo, da Arquidiocese da cidade – o último veículo brasileiro a livrar-se da censura prévia, já em 1978.

O ato ecumênico por Herzog na Sé

“A morte do Vlado evidenciou muitas ações dos bispos. Antes, o registro do que diziam ficava no canto de página dos jornais. Isso quando saía”, diz o jornalista Audálio Dantas, autor de As Duas Guerras de Vlado Herzog, livro-reportagem que recebeu o Prêmio Jabuti em 2013. A versão de suicídio apresentada pelos militares foi contestada não apenas pelos colegas do jornalista morto, mas também por líderes religiosos. Herzog era judeu. Segundo o rito judaico, os suicidas devem ser enterrados perto dos muros dos cemitérios. Mas ao ver o corpo, o rabino Henri Sobel tomou uma decisão que teve o peso de denúncia: ordenou que Herzog fosse enterrado na área comum do Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo, um claro desmentido à versão dos militares.

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Fonte – https://www.catarse.me/dom_paulo_evaristo_arns_coragem_resistencia_e_esperanca_nos_tempos_da_ditadura_militar_no_brasil_8b59

Foi o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, do qual Audálio fazia parte, que teve a ideia de um culto ecumênico em memória de Herzog. No dia 28 de outubro, mesma data em que dom Paulo concordou em ceder a Catedral da Sé para o ato, dom Eugênio Salles recusou no Rio de Janeiro pedido da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) para uma missa com o mesmo objetivo. A recusa não era inexplicável: o clima era de tensão, com constantes ameaças. Pouco antes do ato na Sé, dom Paulo Evaristo Arns foi visitado por dois secretários do governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins. Segundo os emissários, centenas de policiais tinham ordens de atirar ao menor sinal de confusão. Usando uma inauguração como pretexto, o presidente Geisel abalou-se de Brasília para a capital paulista para acompanhar os desdobramentos. “Só foi embora quando o culto terminou”, diz Audálio.

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Dom Helder Câmara ao lado de Dom Paulo Evaristo Arns – Fonte – http://acervofolha.blogfolha.uol.com.br/2016/12/14/dom-paulo-evaristo-arns-e-seu-coracao-corintiano/

O culto ecumênico aconteceu no dia 31 de outubro de 1975, presidido por dom Paulo e com a presença do rabino Henri Sobel e do pastor protestante James Wright. Mesmo proibida qualquer menção a seu nome em veículos de imprensa, dom Hélder Câmara também compareceu, sem pronunciar palavra. Mais de 300 barreiras policiais impediam o acesso da população à catedral; ainda assim, 8 mil pessoas lotaram o lugar.

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Fonte – https://www.catarse.me/dom_paulo_evaristo_arns_coragem_resistencia_e_esperanca_nos_tempos_da_ditadura_militar_no_brasil_8b59

A memória

Da segunda metade dos anos 1970 em diante, a Igreja brasileira acertou o passo com a sociedade civil na caminhada de retorno à democracia. Entre 1976 e 1977, a CNBB lançou documentos denunciando de forma explícita casos como o que vitimou o padre João Bosco e o operário Fiel Filho. “A segurança, como bem da Nação, é incompatível com uma permanente insegurança do povo”, dizia uma dessas notas, condenando as “medidas arbitrárias”, os “desaparecimentos inexplicáveis” e “inquéritos aviltantes” promovidos pelos militares. Ainda assim, alguns bispos – entre eles dom Antônio Castro Mayer e dom Geraldo Sigaud – teriam, segundo o historiador Paulo César Bezerra, permanecido fiéis ao regime militar até o fim.

Com a consolidação da abertura política, a tensão entre religiosos e militares diminuiu. Entretanto, o lado da fé continuou somando vítimas, como o líder metalúrgico Santo Dias da Silva, militante da Pastoral Operária, morto pela Polícia Militar em outubro de 1979 enquanto participava de uma greve em São Paulo. A violência representou mais um abalo nas já frágeis estruturas do regime: o velório, novamente na Catedral da Sé, reuniu mais de 15 mil pessoas e o cenário forçou uma mudança de postura do governo com relação às entidades sindicais.

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Velório de Dom Paulo. Foto Evaristo Dantas, Agência O Globo – Fonte – http://oglobo.globo.com/brasil/veja-as-imagens-do-velorio-de-paulo-evaristo-arns-20656677

A CNBB assumiu no final da década papel ativo na campanha pela anistia e depois contribuiu na articulação do movimento Diretas Já. Além disso, seguiam os esforços para preservar a memória do período. A Editora Vozes, vinculada à Igreja Católica, editou o livro Brasil: Nunca Mais em 1985, meses depois da retomada da democracia. Se tinham sido fundamentais na sustentação do regime militar quando este se iniciou, no apagar das luzes da ditadura os religiosos abriam caminho para que não fossem esquecidos os duros anos de repressão.

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Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo (Foto: Divulgação) – Fonte – Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo (Foto: Divulgação)

O projeto Brasil: Nunca Mais resultou em cerca de 900 mil páginas, referentes a centenas de processos. O material foi microfilmado e enviado ao Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, na Suíça, para evitar que fosse apreendido e destruído pelos militares. Foram necessários 25 anos até que esse pedaço da história brasileira fosse repatriado. Em 2011, os microfilmes voltaram ao país, e em agosto de 2013 foi lançado o BNM Digital, site que disponibiliza a consulta a toda essa documentação.

Hoje, com a Comissão Nacional da Verdade e suas ramificações estaduais, o país busca iluminar os cantos escuros do período gerado pelo golpe e, a partir deles, enxergar melhor a si mesmo. A ditadura talvez não tivesse se consolidado sem a bênção inicial da Igreja Católica ao novo regime, mas as denúncias e a combatividade dos religiosos foram igualmente fundamentais na retomada da democracia.

SAIBA MAIS

Livros

Brasil Nunca Mais, dom Paulo Evaristo Arns, Editora Vozes, 1996

Os Bispos Católicos e a Ditadura Militar Brasileira: A Visão da Espionagem, Paulo César Gomes Bezerra, Editora Multifoco, 2013

A Ditadura Derrotada, Elio Gaspari, Cia. Das Letras, 2003

LAMPIÃO E OS ESCOTEIROS VENEZUELANOS – VERDADE OU FANTASIA?

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Teria realmente acontecido um encontro entre o cangaceiro Lampião e um grupo de escoteiros venezuelanos na caatinga nordestina?

Autor – Rostand Medeiros

Principalmente por ser um movimento que tem como objetivo apoiar os jovens em seu desenvolvimento mental, físico e espiritual, para que possam desempenhar um papel construtivo na sociedade, com um forte foco em atividades ao ar livre e habilidades de sobrevivência, foi que nas primeiras décadas do século passado o escotismo se tornou uma atividade extremamente popular em todo o mundo[1].

E tudo começou com o major-general do exército britânico Robert Stephenson Smyth Baden-Powell. Este possuía uma excelente carreira no serviço militar e tinha adquirido muito prestígio na Inglaterra pela sua atuação na Segunda Guerra dos Bôeres[2].

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Robert Stephenson Smyth Baden-Powell – Fonte – wpsess.octhium.com.br

Sua ascensão à fama alimentou as vendas de um pequeno manual militar denominado Aids to Scouting. Neste trabalho lançado em 1899, Baden-Powell tratou principalmente do treinamento de soldados na função de observadores, batedores e trouxe explicações sobre orientação no campo, além de métodos de como sobreviver com a alimentação encontrada na natureza.

Em seu retorno à Inglaterra o general soube que Aids to Scouting era utilizado por professores e organizações de juventude como um primeiro manual escoteiro. Ele também percebeu que muitos garotos mostraram considerável interesse no seu trabalho e aquilo lhe apontou que deveria escrever um manual para o público mais jovem.

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Fonte – http://farnhamscouting.com/website/home/scouting-history/

Baden-Powell publicou no início de 1908, em seis edições quinzenas, uma “revista” chamada Scouting for boys (Escotismo para Rapazes). Este trabalho estabeleceu as atividades e programas que as organizações de juventude poderiam utilizar em saídas no campo. 

A reação a este material foi fenomenal, além de bastante inesperada. Em um tempo muito curto patrulhas escoteiras foram criadas em toda Inglaterra, todos seguindo os princípios de Baden-Powell. No mesmo ano Scouting for boys foi lançado no formato de um livro[3].

O sucesso foi tanto que em 1909 era fundada no Chile a primeira associação de escoteiros da América do Sul. Logo jovens de outros países da região adotavam a ideia.

Escotismo na Venezuela

Foi Ramón Ocando Pérez que organizou em 1913 as primeiras patrulhas escoteiras na cidade de Maracaibo, Venezuela, sendo ele considerado o percursor do escotismo neste país. Tal como noutras partes do mundo, na Venezuela o movimento escoteiro logo conseguiu grande aceitação na sociedade e uma forte participação dos jovens.

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Escoteiros venezuelanos – Fonte – http://museovirtualscoutvzla.com

Ao longo dos anos foram criados novos grupos de escoteiros no país, com intensa movimentação. Logo as patrulhas seguiam para locais cada vez mais distantes, realizando o que era conhecido na época como “Raid pedestre.

Em 12 de dezembro de 1934 um grupo de vinte escoteiros venezuelanos iniciou uma destas aventuras, cujo objetivo era sair de Caracas e chegar caminhando ao Rio de Janeiro[4]. A liderança destes escoteiros estava a cargo do “Capitán Scouts” Andrés Zambrano, um jovem oriundo de Maracaibo, então com 21 anos e filho do general Alejandro Rondón Zambrano[5].

O grupo teria então entrado pelo Brasil através da fronteira amazônica, mas infelizmente são mínimas as informações sobre o trajeto destes escoteiros, as cidades em que estiveram e o que fizeram. Mas, segundo entrevistas do próprio Andrés Zambrano, ele e seus colegas tiveram um terrível encontro nas caatingas nordestinas com ninguém menos que o cangaceiro Lampião.

A Primeira Notícia e o Desconhecimento dos Diplomatas Venezuelanos Sobre os Escoteiros

Esse episódio da história do cangaço de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, ocorreu no último mês de 1935 e foram correspondentes na Bahia que primeiro transmitiram noticias deste encontro para o periódico carioca “A Noite”. Este era um jornal que sempre publicava notícias relacionadas a Lampião e ao cangaço que existia no distante Nordeste.

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Tudo indica que o grupo de escoteiros chegou a Salvador no dia 14, ou 15 de dezembro. O certo é que já no dia 16 daquele mês a notícia era publicada na primeira página de “A Noite”. Mas, de maneira geral, as primeiras notícias divulgadas sobre estes escoteiros foram limitadas.

Informou-se basicamente que Zambrano e seus amigos haviam adentrado o território baiano em outubro de 1935. Ao seguirem a pé pela caatinga os venezuelanos ouviram várias histórias dos sertanejos sobre o temível Lampião, até que em certo momento foram surpreendidos por cangaceiros armados em um lugar chamado “Água Bella”[6].

Nesta primeira reportagem publicada o venezuelano Zambrano informou que no início houve certa confusão pela incompreensão dos cangaceiros diante dos jovens que falavam espanhol, mas ele e seus amigos passaram a noite toda presos, esperando serem trucidados. Foram duas mulheres, entre elas Maria Bonita, que pediram pelas vidas dos estrangeiros e eles foram libertados.

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Notoriedade – Lampião e Maria Bonita com um exemplar do jornal carioca “A Noite Ilustrada”

O mais interessante (e estranho) nas primeiras notícias divulgadas por Zambrano, é que os venezuelanos estavam “armados” e foram despojados pelos homens de Lampião do armamento e de suas munições[7].

O texto do jornal finalizava comentando que o grupo estava Salvador e, como era praxe nesta época quando um grupo de escoteiros estrangeiros chegava a uma cidade que estava no itinerário de um “Raid pedestre”, normalmente eles foram recebidos pelas autoridades locais e tencionavam seguir o mais rapidamente possível para o Rio de Janeiro.

Enquanto os venezuelanos se preparavam para partir de Salvador, na então Capital Federal, após receberem as notícias do correspondente na Bahia, os jornalistas de “A Noite” não perderam tempo e partiram céleres para buscar informações oficiais sobre aqueles escoteiros na representação diplomática da Venezuela. A resposta dos membros da legação daquele país no Brasil foi que aquela empreitada era “um empreendimento sem caráter oficial” e “nada sabiam a respeito” [8].

Junto a Polícia Mineira

Mas somente com a chegada do novo ano de 1936 é que vamos ter mais detalhes deste encontro dos escoteiros com Lampião e alguma nova notícia dos venezuelanos.

No final de fevereiro o “Capitán Scouts” Andrés Zambrano estava sozinho em Belo Horizonte, onde deu uma declaração ao correspondente do jornal “A Noite” lotado naquela cidade[9].

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Zambrano comentou que estivera na cidade mineira de Corinto, mais de 1.200 quilômetros de Salvador, onde passou por vários problemas. Ali o delegado Oswaldo Machado prendeu o escoteiro que “pregava” para a pequena comunidade. O delegado tinha a suspeita que o venezuelano fardado fosse um “elemento extremista”. O jovem escoteiro foi conduzido sob escolta para a capital mineira, distante cerca de 240 quilômetros de Corinto[10].

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A sede da Polícia Central em Belo Horizonte na década de 1930.

Na sede da Polícia Central o estrangeiro aparentemente passou nos policiais mineiros uma versão venezuelana do brasileiríssimo “sabe com quem tá falando?”. Pois junto às autoridades presentes Zambrano informou que “era filho do general Alejandro Rondón Zambrano” e foi “prevenindo” os policiais que estes não poderiam detê-lo por “mais de 24 horas”, que ele “conhecia direito internacional” e que se necessário faria “valer seu direito se fosse preciso”.

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Lampião – Fonte – lounge.obviousmag.org

Talvez pelo uniforme, ou pela segurança nas palavras, o certo é que o escoteiro venezuelano “não esquentou a cadeira” na chefatura de polícia. Logo suas declarações foram registradas no então Cartório de Vigilâncias e Capturas e ele foi liberado. 

Da polícia seguiu para ser entrevistado pelo jornalista correspondente de “A Noite”. Que por sinal estava muito mais interessado sobre o encontro de Zambrano com Lampião, do que as suas peripécias junto aos “homens da lei”.

“-Toca, Negrada, Levanta. Vamos ao Chefe”

Durante a entrevista Zambrano se apresentou vestido de uniforme cáqui, com galões de capitão e um grande chapéu de feltro escuro e abas largas. Já o correspondente de “A Noite” mostrou ao venezuelano a edição de dezembro de 1935 daquele jornal, onde estava a primeira reportagem sobre a aventura dos escoteiros venezuelanos. Zambrano também apresentou ao jornalista uma caderneta com anotações e declarações de autoridades brasileiras, comprovando a sua passagem por vários locais do nosso país.

Para Zambrano a viagem pelo Brasil seguiu sem maiores problemas, mas que o nome e o medo que existia em relação a Lampião era comentado em vários locais por onde ele passou. Entretanto Zambrano e seus amigos fizeram pouco caso das façanhas do cangaceiro. Pensavam até que Lampião seria uma espécie de “superstição” dos brasileiros incultos do norte.

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Zambrano entrevistado em Belo Horizonte.

Superstição, ou não, Zambrando conta que em uma manhã tranquila, quando ele e seus camaradas se encontravam a “14 léguas” (84 quilômetros) de “Água Bella”, pararam todos embaixo de algumas árvores para beber água e comer bananas, foi quando o grupo foi cercado por 24 cangaceiros fortemente armados “de fuzis e facas” e montados em alimárias.

Os guerreiros encourados apearam e o que comandava o grupo falou com extremo autoritarismo “-Toca, negrada, levanta. Vamos ao chefe”. Na mesma hora Zambrano entendeu que iria ficar frente a frente com Lampião.

Os venezuelanos então acompanharam o bando de cangaceiros por cerca de cinco léguas (30 quilômetros), em meio a uma caatinga fechada.

No esconderijo Zambrano descreveu que Lampião recebeu os estrangeiros no final da tarde, muito a vontade, embalando-se “em uma rede vermelha e amarella” e que entre suas pernas estava “um fuzil cravejado de libras”, que após a “análise” do venezuelano, constatou serem “canadenses”[11].

Sem perda de tempo Lampião ordena autoritariamente aos estrangeiros explicarem quem eles eram e Zambrano cai na besteira de responder em espanhol. No seu relato o escoteiro afirma que nesse momento o cangaceiro deu um salto da rede e gritou “-Vocês são é polícia paulista. Morrerão todos amanhã!”.

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Manchete do Diário de Pernambuco, de 4 de outubro de 1935, sobre a morte de quatro cangaceiros na propriedade Cachoeirinha. Provavelmente foi sobre estas mortes que Lampião comentou com Zambrano.

Em meio a muitos impropérios Lampião continuou vociferando “-Vocês já mataram quatro tenentes meus, cada tenente meu vale cem de vocês, logo, são quatrocentos que eu tenho de vingar” [12].

Na sequência o chefe ordenou ”-Passa a revista” e os escoteiros foram despojados de quatro contos e quinhentos mil réis, chapéus, suas fardas de cor kaki e ficaram amarrados “apenas de cuecas”. Zambrano não relatou nesta entrevista em Minas Gerais, conforme tinha dito anteriormente em Salvador, que ele e seus amigos entregaram armas e facas aos cangaceiros.

Lampião também comentou com o venezuelano que ele parecia com “Manoel Neto”, um valente policial, membro do famoso grupo dos Nazarenos, que infligia séria perseguição aos cangaceiros. Zambrano, logicamente, se derramou em negativas.

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Lampião e Maria Bonita – Fonte – blogdomendesemendes.blogspot.com

Em outro momento, buscando ser extremamente polido com seu algoz, Zambrano o chamou de “-Sr. Lampião”, mas a resposta veio rápido, indignada e transmitida na base do grito: “-Meu nome é Virgulino Ferreira, seu malcriado!”.

Amarrados e despidos, por volta das seis da noite a fome e a sede apertaram os estrangeiros, que clamaram por água e comida. Lampião não estava sendo um bom anfitrião e mandou para os escoteiros algumas canecas com café com sal e água com pimenta. No que Zambrano esboçou gesto de repulsa pelo que lhes foi oferecido, Lampião comentou aos gritos “-Não gostou? Aqui se trata bem assim os que vão morrer”. Depois completou ameaçadoramente para o grupo: “-Ou bebem, ou parto a testa de vocês na bala. Aqui tenho a minha lei”. E abriu fogo para o alto com uma pistola Parabélum.

Salvos Pela Maria do Capitão e as Contradições do Escoteiro

Os escoteiros venezuelanos passaram parte da noite amarrados e, segundo declarações de Zambrano, por volta da meia noite chegou ao coito de Lampião um grupo com cerca de quinze cangaceiros. Dentre estes estava uma jovem cabocla, esbelta, trajando camisa branca, culotes, perneiras, com várias joias, um punhal na cintura e que ele a considerou de estatura “alta”.

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A Maria do Capitão Lampião

Esta perguntou a um dos cabras de Lampião que vigiava o grupo quem eram eles e o que pretendiam fazer com aqueles estranhos? “-Liquida-los” foi a resposta[13].

A cabocla então se aproximou do venezuelano e este lhe fez rogos pela sua liberdade e de seus amigos. A jovem brasileira pegou no queijo do venezuelano, balançou sua cabeça e disse “-Não se assuste. Não lhe faremos mal. Você é bonitinho, rapaz”. Na sequência a mulher seguiu faceiramente para perto do chefe. Depois os escoteiros souberam que ela era Maria Bonita, a mulher do chefe, a Maria do Capitão Lampião.

Zambrano afirmou que considerou “esquisita” a atitude daquela mulher. Mas o que deixou a ele e seus companheiros verdadeiramente “estupefatos” foi que dez minutos depois do encontro com Maria Bonita eles foram desamarrados pelos cangaceiros, que lhes entregaram suas roupas, seus chapéus e os mandaram embora. Como pilheria final dos “Guerreiros do Sol” nos escoteiros venezuelanos, cada um dos estrangeiros foi contemplado com um belo chute na bunda como forma de despedida[14].

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Como apontamentos finais sobre esta entrevista concedida por Zambrano em Belo Horizonte, se insere algumas declarações bastante contraditórias.

Segundo consta nas notícias transmitidas de Salvador em dezembro de 1935, e publicadas no jornal carioca “A Noite”, Zambrano e seus amigos iriam partir de Salvador em direção ao sul do Brasil[15]. Mas, contradizendo o que foi escrito anteriormente, Zambrano afirmou ao correspondente mineiro que o medo dos seus companheiros foi tanto após o encontro com Lampião, que os outros retornaram para a Venezuela de navio e apenas ele seguia na jornada a pé pelo nosso país.

Mas estranho ainda está no fato de Zambrano, mesmo com ele e seus companheiros tendo sido revistados pelos cangaceiros, pedir publicamente no final da reportagem que Oswaldo Machado, o delegado da cidade de Corinto, lhe devolvesse um revólver tomado por esta autoridade quando ele foi detido na pequena cidade mineira. O venezuelano justificava a devolução da arma pelo fato dela ser um presente do Dr. Aquiles Lisboa, então governador do Maranhão.

Bem, ou esse correspondente de “A Noite” falseou as declarações do escoteiro venezuelano, ou os cangaceiros de Lampião eram muito incompetentes na hora de revistar os prisioneiros do grupo, ou Zambrano era um grande de um mentiroso!

Outra Entrevista e Novas Contradições

Aparentemente a direção do jornal “A Noite” achou que valia a pena investir um pouco mais no escoteiro, pois ele concedeu uma nova entrevista na sede deste periódico no Rio. Ele chegou a então Capital Federal em 15 de fevereiro e veio de Minas Gerais por via férrea[16].

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Zambrano concedendo uma entrevista na sede do jornal “A Noite”, no Rio.

Sobre o local de sua captura voltou a afirmar que tinha sido a “14 léguas” de “Água Bella”, mas agora informou que o grupo partiu de Aracaju, Sergipe, e durante a jornada houve o encontro com os bandoleiros[17].

Já em relação ao seu encontro com o chefe cangaceiro no meio da caatinga, o escoteiro acrescentou que viu o mesmo retirando de uma bolsa, e contando, uma grande quantidade de dinheiro em cédulas e todas amarradas em volumosos maços.

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Lampião e seus cangaceiros

Descreveu que o “Rei do Cangaço” estava com uma “gravata vermelha” (provavelmente um lenço) com um rico alfinete brilhante, caçava botas, culotes, camisa kaki e tinha nos dedos das mãos vários anéis de fina qualidade, todos com valiosas pedras preciosas.

Lampião perguntou quem eram aqueles rapazes fardados. “-Quem é o chefe deste batalhão?”, inquiriu Virgulino. Foi quando Andrés Zambrano se apresentou, afirmando ser da Venezuela e não trabalhar para a polícia. Como o venezuelano Zambrano insistia em dialogar no seu idioma nativo com Lampião, este último pegou um fuzil e lhe deu uma coronhada no peito e o estrangeiro foi ao chão. Após o escoteiro se colocar de pé, seguro por dois cangaceiros, este dispara na cara do “Rei do Cangaço: “O senhor deve me tratar como eu mereço. Sou um estrangeiro e tenho direito a ser respeitado. O senhor está desrespeitando a sua lei e o seu governo”.

Realmente nessa nova entrevista o jovem escoteiro Zambrano se apresentou ao jornalista como um homem muito mais decidido e “macho” na ocasião do seu encontro com o maior bandoleiro da história do Brasil.

Chamou atenção do jornalista que entrevistava Zambrano a declaração que o cangaceiro Lampião dormia uniformizado, com a sua arma muito próximo, tinha o sono “levíssimo” e acordava ao menor barulho. Para o estrangeiro o chefe cangaceiro desconfiava de todos, pois ele presenciou Lampião inicialmente dormindo em uma rede e depois de algum tempo este se levantou, pegou uma lona e foi dormir em um local escuro. Outro fato comentado sobre Lampião foi que, na opinião do venezuelano, ele poderia “está tuberculoso” por ter uma tosse seca.

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Quanto a Maria Bonita o venezuelano acrescentou que ela vinha acompanhada de “um menino de onze anos de idade”, mas não disse quem seria esse garoto. Desta vez também informou que a mulher de Lampião convenceu o chefe a soltá-los, depois dos “visitantes” terem dado sua palavra de honra de que não informariam à polícia o paradeiro do bando.

Talvez isso explique, mesmo em parte, informações tão desencontradas de Zambrano sobre o local onde se deu o encontro com os cangaceiros.

Mas nesta nova entrevista existe algo de chega a ser verdadeiramente hilário nas declarações do venezuelano, que mostra claramente seus exageros e contradições. Na primeira entrevista ele afirmou que ele e seus colegas ficaram amarrados “apenas de cuecas”. Já nesta segunda declaração os venezuelanos ficaram presos totalmente “nus”.

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Fonte – www2.uol.com.br

Se, diante do antigo e tradicional recato sertanejo em relação às mulheres, já era complicado aceitar que os cangaceiros deixaram estes homens presos em pleno acampamento, com cangaceiras presentes, amarrados em “trajes menores”, mais difícil ainda é aceitar a segunda declaração de Zambrano. Poder-se-ia até mesmo ser comentado que eles ficaram presos com poucas roupas para, no caso de uma fuga, a tentativa ser dificultada pelas plantas cortantes da caatinga. Mas as mudanças de versões de Zambrano atenta contra suas declarações.

Ao final da entrevista Zambrano informava que considerava sua aventura concluída, iria se apresentar as autoridades consulares venezuelanas lotadas no Rio e retornar ao seu país de navio[18].

Zambrano em São Paulo Com Seus Companheiros

Mas, segundo noticiaram dois jornais brasileiros, o “Capitán Scouts” Andrés Zambrano não voltou para sua terra natal.

Dez dias depois de conceder a entrevista no Rio para o jornal “A Noite”, Zambrano estava em São Paulo, onde inclusive foi recebido em audiência oficial pelo engenheiro Fabio Prado, então prefeito da capital paulista.

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Nota do jornal Correio da Manhã 23 de fevereiro de 1936

Um detalhe interessante deste encontro foi que desta vez Zambrano estava acompanhado dos seus amigos escoteiros, os mesmo que haviam supostamente retornado de Salvador para Venezuela.

Depois destas notícias dos escoteiros venezuelanos em São Paulo, não consegui mais nenhuma informação deste grupo no Brasil.

Depois de tantas contradições, tantas histórias estranhas, são muitas as conjecturas e dúvidas em relação ao que Zambrano comentou sobre os cangaceiros.

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Nota da Prefeitura de São Paulo, publicado no Diário de São Paulo em 21 de fevereiro de 1936

Será que estes escoteiros realmente estiveram no coito de Lampião?

Ou será que talvez, em meio às andanças pelo sertão, Zambrano tenha recebido várias informações sobre Lampião de pessoas que estiveram com o cangaceiro e, buscando a fama no Brasil, criou toda essa história?

Ou seria possível que tudo tenha sido uma criação dos jornalistas de “A Noite”, com o intuito de vender exemplares no Rio e o venezuelano participando da farsa para ganhar notoriedade?

E os outros escoteiros venezuelanos, onde estavam enquanto Zambrano aparecia nas páginas dos jornais brasileiros? 

No final das contas percebemos, por razões óbvias, que todos os relatos apresentados por Zambrano eram informações sumamente difíceis de serem averiguadas junto a Lampião, Maria Bonita e os outros cangaceiros[19].

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Escoteiros venezuelanos nos Estados Unidos. – Foto enviada por Douglas Aguiar

O fato que mais me intrigou em toda esta história foi a total ausência de quaisquer referências sobre o “Capitán Scouts” Andrés Zambrano, seus companheiros e a sua rocambolesca aventura por terras brasileiras nos inúmeros sites da internet que tratam da história do escotismo na Venezuela.

Ao realizar esta pesquisa descobri que os escoteiros venezuelanos valorizam muito a história deste movimento em seu país e fazem questão de divulgar a maior quantidade possível de informações. Inclusive os sites que encontrei são extremamente informativos, realizados com esmero, qualidade e trazendo uma grande quantidade de informações históricas produzidas e dispostas de maneira clara e ágil.

Bem diferente do caso dos escoteiros que estiveram no Brasil, temos inúmeras referências sobre o “Raid pedestre” que ligou Caracas e Washington, capital dos Estados Unidos.

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Jornal venezuelano El Heraldo, 17 de junho de 1937

Em 11 de janeiro de 1935 partiram a pé de Caracas, a capital venezuelana, em direção a Washington, a capital dos Estados Unidos, os escoteiros Rafael A. Petit e Juan Carmona. Este evento, ou teve uma grande repercussão no país, sendo a aventura dos dois escoteiros reproduzida extensamente pela imprensa local, sendo cultuada até os dias de hoje[20].

Mas nada sobre Zambrano, seus companheiros e sua passagem pelo Brasil.


NOTAS

[1] Sobre a história do escotismo ver https://en.wikipedia.org/wiki/Scouting (Em inglês).

[2] As Guerras dos Bôeres (ou Guerras de libertação na historiografia bôer) é o nome dado aos dois conflitos travados entre o Reino Unido e as duas repúblicas bôeres independentes, o Estado Livre de Orange e a República Sul-Africana (República do Transvaal). Os dois conflitos ocorreram, respectivamente de 16 de dezembro de 1880 a 23 de março de 1881 e de 11 de outubro de 1899 a 31 de maio de 1902. O cerne do conflito estava na gradual expansão britânica pelo sul do continente africano, em territórios previamente ocupados por descendentes de antigos colonos holandeses.

[3] Sobre a vida de Baden-Powell ver http://www.scatacook.org/HistoryBadenPowell.htm (Em inglês).

[4] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de segunda-feira, 16 de dezembro de 1935, Pág. 1.

[5] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 30 de janeiro de 1936, Pág. 1.

[6] Zambrano declarou que este encontro aconteceu no sertão baiano, a “14 léguas” (84 quilômetros) de um local chamado “Água Bella”. Efetivamente existe uma localidade denominada Água Bela  na Bahia, entretanto esta comunidade fica localizada na Mesorregião do Centro Sul Baiano, na área territorial do município de Bom Jesus da Serra, a 120 km da cidade de Vitória da Conquista e a 470 de Salvador. Uma área na qual Lampião e seu bando jamais pisou. Em relação à história do cangaço, o local mais comentado e com um nome mais parecido ao narrado por Zambrano é o município pernambucano de Águas Belas. Mas este está localizado a cerca de meros 20 quilômetros da fronteira alagoana e a mais de 100 da fronteira baiana.

[7] Não foi informado o tipo de armamento que os escoteiros levavam. Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 16 de dezembro de 1935, Pág. 2.

[8] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 16 de dezembro de 1935, Páginas 1 e 8.

[9] Zambrano concedeu a entrevista em Belo Horizonte na manhã de sexta-feira, 30 de janeiro de 1936, tendo sido publicada uma pequena nota sobre o escoteiro venezuelano na edição carioca do jornal naquele mesmo dia. Mas na edição do sábado houve uma publicação bem mais detalhada e destacada. Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de sábado, 1 de fevereiro de 1936, Pág. 1 e 2.

[10] Não podemos esquecer que menos de dois meses antes, em 23 de novembro de 1935, eclodira em Natal a fracassada Intentona Comunista e as forças policiais do país estavam em total estado de alerta e a caça de elementos suspeitos de colaboração com os comunistas.

[11] Parece meio improvável que o “Rei do Cangaço” tenha deixado este escoteiro estrangeiro examinar as moedas presas na bandoleira de sua arma pessoal. A não ser que Zambrano tenha ficado muito próximo ao cangaceiro e do seu fuzil.

[12] Provavelmente Lampião comentou para os venezuelanos sobre a morte de quatro cangaceiros ocorrida três meses antes. Mas neste caso, entre os algozes dos bandidos, não existiu nenhum policial. No dia 19 de setembro de 1935, no município alagoano de Mata Grande, na fazenda Aroeirinha, o proprietário Felix Alves Rocha, seus quatro filhos, dois sobrinhos e outro proprietário rural da região, montaram uma emboscada contra os cangaceiros Limoeiro, Suspeita, Fortaleza e Medalha. A ideia desta ação se deveu ao fato de Felix Alves ser suspeito de proteger e dar apoio a cangaceiros e, para evitar as fundamentadas suspeitas dos policiais, nada melhor do que matar alguns bandoleiros. Apesar da ação violenta ter redundado na morte dos quatro cangaceiros, Felix Alves também pereceu neste combate. Ver “Diário de Pernambuco”, Recife, edição de quinta-feira, 10 de outubro de 1935. Pág. 10.

[13] Diferentemente da primeira entrevista concedida em Salvador, quando “duas mulheres” pediram pela vida dele e de seus companheiros, nas entrevistas que Zambrano concedeu então só relatou que foi salvo por Maria Bonita.

[14] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de sábado, 1 de fevereiro de 1936, Pág. 1 e 2.

[15] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 16 de dezembro de 1935, Páginas 1 e 8.

[16] Para a imprensa do Sudeste do país, relatos sobre a brutalidade de Lampião sempre atraíam leitores e a existência de um estrangeiro que conseguiu ser libertado depois de encarar o maior dos cangaceiros era mais do que o esperado. Era valioso!

[17] Se a declaração de Zambrano é verdadeira, dificilmente o município pernambucano de Águas Belas poderia ser o ponto de referência para saber com alguma segurança o local de encontro dos venezuelanos com os cangaceiros. Pois é sumamente ilógico, em termos geográficos, para o viajante que parte de Aracaju e deseja seguir em direção a Salvador, ou ao sul do país, tomar o rumo até este município pernambucano. Talvez essa informação com tamanho erro geográfico fosse uma ação deliberada do venezuelano, conforme o leitor pode encontrar a razão na continuidade do texto.

[18] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de sábado, 16 de fevereiro de 1936, páginas 1 e 3. Esta reportagem foi reproduzida integralmente em vários jornais brasileiros. Entre estes ver “Diário de Pernambuco”, Recife, edição de sábado, 22 de fevereiro de 1936, páginas 1 e 8.

[19] Ver os jornais “Diário de São Paulo”, São Paulo, edição de terça-feira, 21 de fevereiro de 1936, página 3 e “Correio da Manhã”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 23 de fevereiro de 1936, página 4.

[20] Petit e Carmona finalizaram com sucesso a aventura e chegaram em Washington em junho de 1937, depois de 29 meses de caminhada. Ver http://myslide.es/documents/historia-del-escultismo-venezolano.html

Sobre o escotismo na Venezuela ver –

http://scoutsorinoco.blogspot.com.br/2013/11/historia-del-escultismo-en-venezuela.html

http://fm44.tripod.com/scouts1.htm/

http://tropafemeninajohnstelzer.blogspot.com.br/2011/07/historia-del-escultismo-venezolano.html

http://museovirtualscoutvzla.blogspot.com.br/2012/01/notas-sobre-la-historia-del-escultismo.html

http://scoutenparaguana.blogspot.com.br/p/historia-de-los-scouts-en-venezuela.html

http://myslide.es/documents/historia-del-escultismo-venezolano.html

http://blogs.diariodepernambuco.com.br/diretodaredacao/2015/09/14/o-estrangeiro-que-peitou-lampiao/