CEGO ADERALDO – O CANTO SOLITÁRIO DO NORDESTE

Os cantadores violeiros e repentistas do Nordeste são a maior, mais espontânea, mais pura e mais apaixonante reserva da poesia do Brasil. Cego Aderaldo, o mais famoso patriarca de todos eles, atualmente com 92 anos de idade está morrendo mais de solidão do quê de velhice.

Aderaldo Ferreira de Araújo completa agora 74 anos de escuridão. Nasceu no Crato, Ceará, entre os Canaviais do Cariri, entre caboclos beliciosos e ágeis. Como diria o poeta Jáder de Carvalho.

Aos 18 anos quando trabalhava de folguista no motor de descaroçar algodão tomou um copo d’água com corpo quente e seus olhos explodiram no mesmo instante. Três meses depois morria ali a mãe, um ano depois o pai e ele ficou só no mundo.

Sua família passou a ser a escuridão porque ainda hoje dialoga na eternidade de sua noite. Com vergonha de pedir esmola tornou-se cantador.

Cheguei aos 18 anos

perdendo a vista a clareza

não posso enxergar os campos

os quadros da natureza

até de vista tocou-me

esse quinhão de pobreza!

Hoje, não vejo os refolhos

dois lindos cravos azuis,

não vejo o mar cheio de escolhos

mas tenho fé que meus olhos

um dia enxergam Jesus!

Peleja com Zé Pretinho

Ídolo do povo nordestino, mobilizador de auditórios, centralizador das atenções da massa nas feiras e ajuntamentos, alvo de curiosidade e estima nas grandes cidades, inclusive Rio e São Paulo: enfim, uma figura quase lendária pela sua fama de mais de meio século varando fronteiras, sempre esteve cercado de carinho e de afeto  de alegria e de loquacidade, de risos e gargalhadas, de prestígio e de glória, escancarando a alma dura e rude, simples e boa, em constante sintonia com a sensibilidade de milhares de brasileiros que se criaram ouvindo o nome, as histórias, os versos, principalmente aqueles de sua peleja com Zé Pretinho do Tucum, quem foi publicada em primeira mão pela Tipografia Guajarina, de Belém do Pará, em 1916.

Material de jornal publicado em 1921, sobre uma palestra do cearense Leonardo Mota no Rio de Janeiro.

Zé Pretinho:

“Cala-te, cego ruim,

Cego aqui não faz figura;

Cego quando abre a boca

É uma mentira pura;

O cego quanto mais mente,

Ainda mais sustenta e jura.”

Cego Aderaldo:

“Esse negro foi escravo,

Por isso é tão positivo;

Quer ser na sala de branco

Exagerado e Altivo:

Nego de canela seca,

Todo ele já foi cativo.”

Zé Pretinho:

“No sertão eu peguei,

Um cego mal criado,

Danei-lhe o machado,

Caiu, eu sangrei,

O couro eu tirei, 

Em regra de escala,

Espichei na sala,

Puxei para um beco,

Depois de bem seco,

Fiz mais de uma mala.”

 Cego Aderaldo:

 “Negro é monturo,

 Mulambo rasgado,

 Cachimbo apagado,

 Recanto de muro,

 Negro sem futuro,

 Perna de tição,

 Boca de pilão,

 Beiço de gamela,

 Venta de moela,

 Moleque ladrão.”

A certa altura da Peleja, o cego puxou um trava-língua, o que foi a derrota de Zé Pretinho:

“Amigo José pretinho,

Eu não sei o que será,

De você no fim da luta,

Porque vencido já está:

Quem a paca cara compra,

Paca cara pagará.”

Zé Pretinho:

“Cego, eu estou apertado,

Que só um pinto no ovo.

Estás cantando aprumado,

E satisfazendo ao povo;

Esse teu tema de paca

Por favor diga de novo.”

Cego Aderaldo:

“Diga uma vez, digo dez,

No cantar não tenho pompa,

Presentemente não acho,

Quem este meu mapa roupa;

Paca cara pagará

Quem a paca cara comprar“.

Zé Pretinho:

“Cego teu peito é de aço,

Foi bom Ferreiro que fez, 

Pensei que o cego não tinha

No verso tal rapidez,

Segue, se não for maçada,

Repita a paca outra vez”.

Cego Aderaldo:

“Arre com tanta pergunta 

Desse nego capivara!

Não há quem cuspa pra cima 

Que não lhe caía na cara;

Quem a paca cara compra,

Pagará a paca cara”.

Zé Pretinho:

Agora cego me ouça,

Cantarei a paca já,

Tema assim é um cabrito,

No bico do Carcará,

Quem a cara, cara compra

Caca… caca… Carcará”.

Houve um trovão de risadas,

Com verso do Pretinho,  

O capitão Duda disse

-Arreda para lá Negrinho,

O Cego canta sozinho”.

Poucos meses após conceder essa entrevista a Rogaciano leite, o velho poeta descansou e certamente viu a luz.

Essa peleja, largamente difundida nos livros de Leonardo Mota, levou o nome do Cego Aderaldo para aos quatro cantos do Brasil, projetando-o além-fronteiras e em diversas línguas. Ano passado (1966), o escritor Robert Lewis, da Universidade de Cambridge, veio diretamente de Londres para o entrevistar no Quixadá. Recentemente, a estudante francesa Anne Arnichand, bolsista da Universidade de São Paulo, esteve em Fortaleza com a finalidade exclusiva de conhecê-lo e fazer um estudo sobre a Literatura de Cordel como um elemento de formação cultural do Nordeste.

Não está na miséria

Ao contrário do que foi noticiado, o Cego Aderaldo não está na miséria nem passando qualquer privação. Em reconhecimento ao seu valor e a projeção que têm dado ao Nordeste e ao Brasil como uma das maiores figuras do nosso folclore, o velho cantador do povo, que é, por assim dizer, o maior patrimônio humano do Ceará, vem recebendo há já vários anos uma pensão da União, do Estado e da Prefeitura de Fortaleza, de sorte que sua velhice não sofre nenhum dissabor de ordem financeira. Além disso, conta com um “pai rico”, na figura do seu amigo Francisco Pinto, industrial cearense em São Paulo, que não lhe deixa faltar nada, inclusive médico à cabeceira. Atacado, ultimamente, de diabetes, Aderaldo perdeu quase vinte quilos, porém já se encontra em fase de restabelecimento, com vontade de entrar na casa dos cem anos. Só não se conforma com a dieta e com a solidão, pois só gosta de estar “onde tem barulho de gente”. Por ocasião de nossa visita, improvisou;

“Vivo aqui nesse silêncio,

Contra minha natureza,

Sem falar com os amigos, 

Sem ver do mundo a beleza, 

Além de cego sozinho, 

Eu vou morrer de tristeza.”

As três maiores figuras do Nordeste

Padre Cícero, Lampião e cego Aderaldo são as três figuras marcadamente típicas e legendárias, que por muito tempo ainda viverão na lembrança e no amor das gentes sertanejas. Virgulino Ferreira, o terrível dínamo de energias bárbaras, a espalhar o terror e calafrios na zona de caatinga, marcou, ao longo de sua sinistra carreira de crimes e violências, toda uma fase da vida do Nordeste, que a Sociologia do Cangaço, há despeito da exploração desenfreada e quase abusiva do tema, Ainda não conseguiu caracterizar definitivamente em suas múltiplas facetas.

Padre Cícero, o grande carismático, o grande taumaturgo de rosário e punhal, o santo que andava meio metros acima do chão, continua a exercer poderosa influência na fé e devoção de milhares de romeiros ou fanáticos que se deslocam dos mais longínquos recantos do Nordeste, muitas vezes a pé, esmolambados e famintos, para pagar ao meu padim, em Juazeiro do Norte, comovidas promessas por milagres e graças alcançadas. É uma figura cada vez mais viva no misticismo de gerações sucessivas. 

Aderaldo é solteiro, porém, criou e educou 26 filhos. Numa estrofe sentida, confessa:

“Quis casar me, oh, que loucura,

Quando pensei em casar, 

Deixei e fui meditar, 

Fui pensar na vida escura, 

Nesse cálice de amargura,

Que recebo dia a dia,

Ouço apenas melodia,

Acostei-me à flor de um goivo, 

De repente fiquei noivo,

Me casei com a poesia”. 

É pena que a Comissão Nacional do Folclore nunca se tenha dado ao trabalho de documentar em disco, ou mesmo fita, ao menos uma pequena parte de sua obra.

Texto e fotos de Rogaciano Leite – Jornal do Brasil quarta-feira 14 de junho de 1967, Caderno B, página 5.

POESIA COM O CARIMBO POPULAR

1233680225_j-borges-mo-a-roubada-48x66cm-xilo_(500x350)

No Brasil, a xilogravura se disseminou como técnica de expressão à medida que foi associada à literatura de cordel

Beliza Áurea de Arruda Mello

No princípio era a voz que se fez letra e, depois, xilogravura. Esta é a gênese do cordel no Brasil. A voz da poesia cantada que depois vira letra impressa no folheto e, por último, é acompanhada da xilogravura como ilustração. A história da xilografia, aqui, se mistura com a do cordel. Não há como desvincular uma da outra.

O folheto de cordel nasceu como forma de imprimir os versos entoados pelos cantadores-poetas do povo que interpretam os desafios. O primeiro folheto de que se tem notícia apareceu em Recife, em 1865, impresso na Tipografia de F. C. Lemos e Silva, com o título imenso de Testamento que faz um macaco especificando suas gentilezas, gaitices, sagacidade, etc. Mas foi a partir da abolição da escravidão do Brasil, em 1888, que houve o fortalecimento dessa nova forma de expressão.

Os ex-escravos podiam agora ser integrados ao mercado de trabalho formal e assalariado. Entre as novas profissões, proliferava a de vaqueiros, encarregados de transportar o gado pelos sertões do Nordeste. Muitos desses vaqueiros eram poetas do povo que entoavam aboios, canto típico do trabalho para tanger o boi; ou desafios, uma disputa poética cantada de improviso; ou ainda pelejas, outra espécie de luta poética de improviso em horas de trabalho, de folga e de festa. Os poetas, nascidos em zona rural, estavam “livres” e tinham certa autonomia para deslocamentos físicos.

Um dos primeiros e mais conhecidos poetas populares do Nordeste foi Leandro Gomes de Barros, nascido em 1865, na cidade de Pombal, no sertão da Paraíba. Em seus folhetos é possível encontrar narrativas sobre bois muito recorrentes nos sertões nordestinos, como O Rabicho da Geralda. A história é tão comum que o escritor José de Alencar chegou a classificá-la de “poemeto sertanejo”.São dele célebres folhetos de cordel, como O cavalo que defecava dinheiro, que inspirou o Auto da Compadecida, do escritor Ariano Suassuna, e a Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, um clássico baseado no tema do rei Carlos Magno e sua luta com o diabo. Pela qualidade dos seus cordéis, ele foi chamado por Carlos Drummond de Andrade de o “príncipe dos poetas”.

030

Outros pioneiros – todos paraibanos – são: Silvino Piruá de Lima, nascido em 1848, que escreveu A História de Zezinho Mariquinha; Francisco das Chagas Batista, nascido em 1882, que em 1902 publicou Saudades do sertão; e João Martins de Athayde, nascido em 1880, autor de O preto e o branco apurando qualidade, de 1908, e responsável por introduzir ilustrações nas capas dos folhetos de cordel no Brasil. Tanta ebulição cultural na Paraíba produziu, em 1913, a Popular Editora, uma casa de cordéis criada pelo poeta Francisco das Chagas Batista – tão importante para a expressão cultural do Brasil que Mário de Andrade chegou a dizer que merecia ser “célebre no país inteiro, se nós fossemos verdadeiros patriotas”.

xilo

Mas além das ilustrações trazidas por João Martins de Athayde, os poetas queriam mais inovações – e é aqui que o casamento entre cordel e gravura é celebrado. Começaram a usar esta antiga técnica de impressão principalmente por ser barata e simples: desenha-se uma imagem em madeira macia, como a cajazeira e a imburana, árvores nativas da caatinga nordestina, ou até mesmo em borracha de pneus usados; depois se escavam as partes destinadas a ficarem brancas; joga-se a tinta, que fica depositada nas partes mais salientes da matriz e, ao comprimir a madeira no papel, aparece a imagem, num processo semelhante ao do carimbo. É o mesmo processo usado na Idade Média europeia. Trata-se de uma técnica ancestral que provavelmente se originou na China, no século II a.C. No extremo Oriente, ela era utilizada para a impressão em tecidos, além do papel. Na Europa, foi amplamente empregada para ilustrações e impressão de cartas de baralho, imagens de santos, guerreiros, reis e rainhas, e cenas de calendários.

8__cordel_xilogravura_f_003

A xilogravura ajudava a fazer a “propaganda” dos fatos que interessavam à população. Era tão popular nos século XIV, XV e XVI que passou a ilustrar os romances de cavalaria, e até os autos de Gil Vicente – peças teatrais curtas sobre temas religiosos e cômicos, que também influenciaram Ariano Suassuna no seu Auto da Compadecida.

No Brasil, a xilogravura passou a ser produzida em 1808 pela imprensa, que fazia pequenos anúncios de publicidade em jornais, revistas, e também em ilustração de livros.A técnica propagou-se rapidamente no Nordeste. Quase um século depois, em 1907, apareceu o primeiro cordel ilustrado com uma xilogravura: A história de Antônio Silvino,escrito por Francisco das Chagas Batista.

O desenho da capa é baseado no retrato de Antônio Silvino, cognome de Manoel Batista de Morais, nascido em 1875, na cidade de Afogados da Ingazeira, sertão do Pernambuco. Sua história é típica de cangaceiros. Seu pai, em virtude de brigas políticas com o governador de Pernambuco, decidiu formar um bando de homens que espalhava terror pelos sertões do Nordeste.Quando um dos elementos do bando foi preso, Manoel Batista assumiu o comando do cangaço e mudou o seu primeiro nome para Antônio e o segundo para Silvino, em homenagem ao tio, ex-chefe do bando, por quem nutria admiração. Passou a ser conhecido pelo nome de guerra, Antônio Silvino, e pelo apelido de “Rifle de Ouro”. Antes de Lampião, foi o cangaceiro mais famoso e temido do sertão nordestino.

Se a Paraíba é o estado dos pioneiros do cordel, o Ceará é um celeiro de bons xilógrafos, alavancados por José Bernardo da Silva, o maior editor de literatura de cordel durante os anos de 1940 a 1960. José Bernardo chegou a Juazeiro do Norte, no Ceará, na década de 1920, e logo iniciou suas atividades como folheteiro – como eram conhecidos os vendedores de cordel. Em 1932, comprou sua primeira máquina (uma rudimentar impressora de pedal) e fundou a Tipografia Lira Nordestina. Sua atividade editorial alcançaria o apogeu em 1950 por causa da ilustração em xilogravura de muitos folhetos do cordel: Alonso e MarinaJuvenal e o dragãoJoão Grilo e Donzela Teodora, entre muitos outros. Logo, a xilo passou a ser o grande atrativo dos cordéis. Graças ao incentivo de José Bernardo, outros grandes xilógrafos, como Mestre Noza, Antônio Relojoeiro e Expedito Sebastião da Silva, ficaram conhecidos. A tradição da gravura no Ceará se mantém até os nossos dias, com Abrão Batista, ilustrador dos seus próprios cordéis, e com o poeta e xilógrafo José Louzeiro.

sertao2

Também representante da nova geração de poetas de cordel e da xilogravura popular, o pernambucano Marcelo Soares alia o desenho da tradição ao design da modernidade. Bebeu nas fontes populares por influência de seu pai, José Soares (1914-1981), um renomado cordelista conhecido como “O poeta repórter”. Marcelo aprendeu a técnica da xilogravura fazendo capas para folhetos e participou de novas experiências com esta técnica no Rio de Janeiro, onde fez curso de xilogravura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Expandiu suas atividades, criando capas e ilustrações para livros, discos, cartazes para cinema, shows, teatro e outros eventos.

A xilogravura, como imagem ilustrativa de folhetos de cordel, tem traços firmes e identitários da cultura nordestina, e é facilmente vinculada com o público popular. O trabalho em capas de folhetos de cordel mapeia a história da xilografia popular no Brasil. Vai além do universo dos poetas populares e se expande, com seus temas, para os gravuristas urbanos. O percurso da xilogravura no nordeste do Brasil é longo e rico. Sua relação com o folheto de cordel, além de informativa sobre histórias contadas, é a de capturar o olhar do leitor a partir da imagem da capa. Além de contar a história, contribui para gravá-la, mais facilmente, na memória.

Beliza Áurea de Arruda Mello é professora da Universidade Federal da Paraíba e autora de “Poética de um poeta popular: travessia da memória” (Sapienza, Recife, n. 1, 2009).

Do amor à guerra

Os folhetos de cordel são uns pequenos livrinhos em folhas de papel jornal. Podem ter dois tamanhos, dependendo da extensão da narrativa contada. Quando ela é curta, o folheto mede 11 x 36 cm e contém oito páginas; quando a narrativa é mais extensa, ele mede 13 x 18 cm e pode ter até 64 páginas.

Os temas são variados: seca, histórias de encantamentos, cangaço, gracejos, carestia, política, narrativas engraçadas para o povo rir, sátira. As narrativas mais extensas contam histórias de guerra e aventuras de amor, em poesia cantada e impressa. São os chamados romances. Originam-se do Romanceiro, um gênero poético oral de origem medieval, datado de 1421, que sempre narrava sobre algo que havia acontecido numa época concreta.

A memória desses romances vive nos cantos das brincadeiras de roda e nos folhetos de cordel que, quando começaram a circular no Brasil, não tinham nenhuma ilustração em suas capas. Na parte superior havia o título em grande destaque, com letra maior e com adornos; desenho centralizado, contornado com uma frisa tipográfica, uma espécie de pequeno traço colocado em torno do título para dar-lhe maior destaque; na parte inferior há indicação do local, data e nome da tipografia.

SAIBA MAIS

CARVALHO. Gilmar de. Desenho gráfico popular. Catálogo das matrizes xilográficas de Juazeiro. São Paulo: IEB/ USP, 1998.

SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos. “A imagem do folheto”. In: ___. Memórias das vozes: cantoria, romances & cordel. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo. Fundação do Estado da Bahia, 2006. p. 84-92.

SOUZA, Liêdo Maranhão de. O folheto de cordel, sua capa e seus ilustradores. Recife: Massangana, 1981.

Internet

Fundação Casa de Rui Barbosa – Literatura de cordel

http://www.casaruibarbosa.gov.br/interna.php?ID_S=99

Centro Nacional do Folclore – Xiloteca

http://www.cnfcp.gov.br/interna.php?ID_Secao=64 

 

AS APRESENTAÇÕES DO POETA ASSUENSE RENATO CALDAS EM NATAL E ARACAJU

7 de agosto de 1937

Rostand Medeiros – IHGRN

O poeta Renato Caldas nasceu na cidade de Assú no dia 8 de outubro de 1902, sendo considerado o maior representante da poesia matuta no Rio Grande do Norte.

Ficou conhecido como o “poeta das melodias selvagens”, por seus versos apresentarem de maneira simple e espontânea, para alguns até mesmo rude, mas sempre original, aspectos do amor, da simplicidade da vida do homem do campo, da natureza sertaneja e da beleza feminina.

Homem expansivo, o poeta Renato Caldas era um grande boêmio e um apreciador das cantigas populares.

A sua obra mais conhecida é o livro de poesias “Fulô do Mato”.

O jornalista Franklin Jorge (http://almadobeco.blogspot.com/2005/02/renato-caldas.html) nos mostra que ele era um “Autor de uma verve espontânea, irreverente e fecunda, que por muitos anos surpreendeu e deliciou gerações”.

Em 1987, este jornalista entrevistou longamente o poeta para o Caderno de Domingo, suplemento que então se publicava no jornal natalense “Tribuna do Norte”. Neste trabalho Jorge encontrou o velho homem de letras já “bastante alquebrado pela doença e pela velhice”, mas ainda memorioso, lúcido e frequentando um bar em Assú.

O jornalista comenta que em 1993, pouco tempo depois da morte de Caldas, o então prefeito de Assú, Lourinaldo Soares desejava construir um memorial em honra do poeta. Coube a Franklin Jorge a tarefa de organizar e classificar os papéis de Renato Caldas.

Infelizmente em sua busca, ele encontrou algumas poucas cartas e fotos. Segundo o jornalista “Não havia nenhum livro, nenhum manuscrito; nada, enfim, que justificasse a criação de um memorial. Da sua copiosa produção, dispersa ao longo dos anos, não restara nada”.

É uma pena que nada tenha sido encontrado. Li “Fulô do Mato” e considero uma obra verdadeiramente maravilhosa.

Renato Caldas Fonte – recantodasletras.com

Fui à busca de algum material sobre este poeta nos meus arquivos e encontrei duas interessantes reportagens sobre apresentações realizadas por Caldas.

Em 1937, no dia 7 de agosto, um sábado, o jornal “A Republica” trazia na sua terceira página o anúncio “O sertão na cidade – O que será o recital de Renato Caldas”. Neste jornal o poeta era apresentado como “magnífico intérprete da poesia matuta”.

A apresentação de “O sertão na cidade” aconteceria às oito e meia da noite, no então Teatro Carlos Gomes, atual Alberto Maranhão, no bairro da Ribeira. Para aqueles que se fizessem presentes, o jornal anunciava que a apresentação traria “tudo que o sertão tem de beijo, através dos versos esplêndidos de Renato Caldas”, que era designado pelo jornal como sendo um “folklorista”.

O poeta é apresentado de forma solene e exuberante. Mostrando que parecia estar em uma fase muito positiva de sua carreira e com uma enorme aceitação por parte da sociedade natalense.

Naquela noite de sábado, antes de Renato Caldas começar a declamar seus versos, subiu ao palco do Carlos Gomes o também poeta Genar Wanderley, que logo se tornaria radialista e seria conhecido como o “Cacique do Rádio Potiguar”. Genar fez uma apresentação sobre a vida de Caldas e enalteceu a sua poesia.

Também se apresentou o músico e cantor Santos Lemos, ou Santos Lins (Devido ao estado do jornal não foi possível ter uma certeza deste nome). O jornal informava que este era o “Cantor que todos conhecem”.

Sobre o recital de Renato Caldas propriamente dito, encontramos basicamente a informação que ele foi realizado com “muita expressão” e que o poeta aproveitou e contou “várias anedotas”.

Vemos que o relato da apresentação, publicado em 10 de agosto, foi uma nota extremamente curta e econômica nas informações. Se compararmos com a nota que informava sobre o mesmo espetáculo, percebemos uma nítida diferença.

Devido à qualidade da poesia de Renato Caldas, acho difícil que o público presente ao Carlos Gomes não tenha gostado do que viu e ouviu. O que talvez justificasse uma nota informativa tão limitada.

Não sei se o poeta de Assú, talvez ao contar suas piadas, tenha se excedido perante os rigores da sociedade natalense da época. Não podemos esquecer que era 1937, o ano da implantação do Estado Novo, onde os ideais apregoados pela ditadura Vargas em relação a moral, os bons costumes e o civismo eram extremamente rígidos.

Apesar de não havermos conseguido maiores informações sobre o desenrolar deste evento, vamos encontrar informações de outro espetáculo de Renato Caldas. Mas desta vez seu palco foi em Aracaju, Sergipe.

Quase um ano depois do evento em Natal, no dia 22 de julho de 1938, uma Sexta-Feira, Caldas fazia uma apresentação na Biblioteca Pública de Aracaju.

Na primeira página do periódico “O Nordeste”, de 23 de julho, temos a  manchete “Folklorista Renato Caldas”. A nota trás a informação que na Biblioteca Pública, localizada próximo ao palácio do governo, no centro da cidade, o potiguar realizou duas apresentações.

Para a plateia local ele veio como “Um verdadeiro caipira”, provocando no público “Desopitantes gargalhadas”. O jornal afirmou que Caldas soube trazer a alma do matuto ao som de sua viola e dos seus versos.

O poeta José Maria Fontes (1908-1994), precursor do Modernismo em Sergipe, foi quem realizou a apresentação do vate de Assú ao público presente.

Antiga Biblioteca Pública de Aracaju, atual Câmara de Vereadores Fonte – http://aracajuantigga.blogspot.com

Renato Caldas vinha se apresentando em outras capitais nordestinas, pois o poeta Fontes comentou que o mesmo não era um “Neófito”, que já tinha “Seu nome aureolado pelas plateias dos estados nordestinos”. Sobre esta informação, Segundo Fernando Caldas, blogueiro nascido em Assú (http://blogdofernandocaldas.blogspot.com/2007/10/sobre-o-poeta-de-ful-do-mato.html), informa que o autor de “Fulô do Mato” realizou viagens pelo Nordeste, onde se apresentava em palcos de cinemas, teatros e outros locais improvisados, declamando suas poesias irreverentes, amorosas, cantando emboladas e modinhas que também sabia produzir a seu modo.

Estas reportagens mostram que Renato Caldas conseguiu seu espaço fora do Rio Grande do Norte, mostrando a qualidade dos versos que o consagraram. Não sei se devido ao seu espírito irreverente, sua boêmia, sua inquietude, ele não tenha alcançado um espaço mais amplo e merecedor da qualidade do seu trabalho.

Renato Caldas faleceu em 26 de outubro de 1991.

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.