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A MILITÂNCIA E O SOFRIMENTO DO COMUNISTA MAIS FAMOSO DE NATAL

Doutor Vulpiano Cavalcanti de Araújo.

EM UMA ENTREVISTA CONCEDIDA EM 1984 AOS JORNALISTAS MARCO AURÉLIO DE SÁ, OSAIR VASCONCELOS E TICIANO DUARTE, O DR. VULPIANO LEMBROUA SUA LONGA MILITÂNCIA E O FAMOSO CASO EM QUE FOI OBRIGADO A FUGIR DE UMA MULTIDÃO EM JUAZEIRO DO NORTE, QUE ACREDITAVA QUE ELE E OUTROS COMUNISTAS ESTAVAM NA CIDADE PARA ROUBAR OS OSSOS DO PADRE CÍCERO.

Vulpiano Cavalcanti, cearense, 74 anos, médico ginecologista e obstetra, é militante do Partido Comunista Brasileiro desde os anos 20, quando se empolgou com a “Coluna Prestes” e começou a conviver nas Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro com os precursores do comunismo no Brasil. Nesses longos anos, à exceção de um curto período entre 1945 e 1946, o seu exercício político tem sido praticado sempre na clandestinidade. E por conta de suas ideias foi preso inúmeras vezes e até torturado. Neste depoimento, ele narra toda a sua trajetória política, principalmente no Rio Grande do Norte, para onde veio há mais de 30 anos, inicialmente para Areia Branca, Mossoró e Macau, e depois para Natal. Detalhes inéditos sobre a atuação do PC, revelação de sofrimento e de torturas físicas que enfrentou nos tempos de maior repressão ao comunismo, nomes de pessoas que perderam a vida em nome da causa em que acreditavam, e até nomes de alguns torturadores que agiram no Rio Grande do Norte são relembrados aqui por Vulpiano, um septuagenário que não se julga velho, mas apenas “usado e maltratado”. Confiante no processo de abertura democrática do país, nas eleições diretas para presidente da República e na legalização do PC, ele – que faz parte do Comitê dos Dirigentes Comunistas – espera que dentro em breve o partido possa levar sua mensagem às massas sem que os seus militantes estejam expostos às represálias e à violência.

MARCOS — Como e quando o sr. decidiu-se a ingressar no Partido Comunista?

VULPIANO — Isto é uma questão de gênese. Meu avô. Melo César, por parte de minha mãe, teve um irmão que morreu na revolução pernambucana, esquartejado. Meu avô por parte de pai foi nomeado comendador do Império, mas era um republicano. De maneira que ele esteve cotado para barão, mas morreu republicano. Ele era um sujeito liberal. Houve uma seca no Ceará e ele construiu um açude lá no Boqueirão de Arara, ao qual os pobres tinham livre acesso a água, que era uma coisa difícil. Por isso que eu digo: sempre fui revolucionário por uma questão de gênese, pois sou descendente de revolucionários.

OSAIR — Mas houve influências que o conduziram ao Comunismo? Os livros, os amigos. . .

VULPIANO — A principio, eu era “prestista”. E quem não era naquela época? Isso foi no tempo da “Coluna Prestes”, aí por 1922. Então, quando estudante de Medicina, eu fui da Aliança Nacional Libertadora, onde fiz grandes amigos e conheci grandes figuras. Na primeira vez que fui preso, tive notícia de que Carlos Lacerda que pertencia à “Juventude comunista” da época, chegou a chorar porque havia publicado um artigo numa revista onde ele mencionava praticamente todos os comunistas daquela época….

MARCOS — E quando foi a sua adesão?

VULPIANO — Eu passei a ler livros comunistas. Por exemplo: “O ABC do Comunismo”, de Bukarin Isso me indicou a direção. A convivência também me ajudou. Comecei a estudar Medicina na Bahia, depois me transferi para o Rio. Fiz amizade com Isnard Teixeira, com Simões de Menezes, e outros, e fui aceitando cada vez mais as ideias do Comunismo. Foi por esse tempo também que Carlos Prestes se decidiu pelo Partido. Desta forma, posso dizer que sou um militante da velha guarda.

TICIANO — O Sr. tem quantos anos de militância?

VULPIANO — Desde 1922, praticamente, até hoje. E nesse tempo todo, se o Partido passou dois anos na legalidade, foi muito!

MARCOS — Então, o Sr. formado em Medicina, militante do PC, como veio parar no Rio Grande da Norte?

VULPIANO — Eu me formei em 1929 e era um dos mais novos estudantes de Medicina, pois entrei na faculdade com apenas 17 anos. Concluído o curso, eu segui para Fortaleza, pois sou cearense. Lá procurei entrar para o Partido Comunista quando ele entrou para a legalidade, mais ou menos pelo ano de 1946. A partir daí, passei a ser membro de um partido legalizado. Depois, veio o problema do fechamento. O Presidente Dutra resolveu fazer uma tragédia por causa da prisão de um bêbado lá em Moscou. O nosso embaixador na Rússia, que era um beberrão, envolveu-se num incidente por lá e terminou sendo preso por desordem. “O Jornal”, de Chateaubriand, publicou então a fotografia do embaixador deitado no chão, apanhando dos cossacos. Isto serviu de pretexto para o nosso país cortar relações com Moscou. Mesmo na ilegalidade, continuei ainda no Partido Comunista. Foi nessa clandestinidade que eu terminei vindo para o Rio Grande do Norte, porque me perguntaram onde é que eu gostaria de servir. Como existia um parente meu — Nestor Falcão, tio do ex-ministro Armando Falcão — que me sugeriu que em Areia Branca havia uma oportunidade para mim, eu me instalei lá, onde venci como médico com uma facilidade incrível. Como Mossoró fica próximo a Areia Branca, eu ia muito até lá. E numa dessas vezes fui procurado por um dos médicos do hospital da cidade que me pediu ajuda. Ele me disse: “Colega, você é do Ceará, venha me dar aqui uma explicação. Estou com uma cliente que está perdendo muito sangue e eu não sei se o seu caso é um aborto ou se é uma gravidez”. Depois de ver o caso, eu disse que a mulher tinha de ser operada de urgência. E ele ponderou: “Mas não tem quem faca esta operação aqui!” Aí olhei para ele e respondi: “Eu faço”. “Mas toda cesariana que se faz aqui, morre mãe e filho” — afirmou o colega. Eu então disse que gostaria de tentar. E deu tudo certo. Com isso, correu logo o boato de que tinha chegado um médico em Mossoró que operava cesariana e não morria nem mãe nem filho. . . Assim foi a minha chegada em Mossoró! Porém quem fez mais propaganda minha mesmo foi o bispo Dom João Batista Porto Carrero Costa. . . Ele fez um sermão na igreja de Mossoró em que avisava às mães cristãs da cidade sobre a minha presença. Dizia ele: “Acaba de chegar a essa cidade um médico hábil, inteligente e culto, e por isto mesmo escolhido a dedo por Moscou para pregar o comunismo no Rio Grande do Norte”! Isto me deu um cartaz imenso e a minha clinica disparou. Eu já não dava vencimento à procura. Eu atendia muito em Areia Branca, mas operava em Mossoró, pois em Areia Branca não havia hospital. E interessante era o seguinte: como um automóvel era muito caro, ficava mais barato viajar de avião. Nessa época. Vieira, que era um ótimo piloto lá em Mossoró, era quem me transportava para Açu, Macau e diferentes cidades daquela área, onde eu atendia. Então, correu o boato de que “tinha chegado um médico, Dr. Vulpiano, que era enviado por Deus e que vinha voando atender as doentes”. E é verdade que eu ia mesmo voando, mas de teco-teco.

TICIANQ — E quando se deu a sua primeira prisão?

VULPIANO — Foi mais ou menos em 1952, quando eu me encontrava em Areia Branca. Chegando à cidade, fui me hospedar numa casa do Sindicato dos Salineiros. Então, por perversidade ou não, picharam na frente do prédio a frase “Viva o Partido Comunista”. Com isto, me botaram para fora do prédio. Ai houve um gesto muito bacana: os salineiros se reuniram e disseram: “Botaram o Dr. Vulpiano para fora. . . Pois a agora ele vai ser o nosso médico, o médico das nossas famílias”. E me contrataram me pagando um salário muito grande! Eu me senti reabilitado pela solidariedade. E eu atendia a todo mundo, até de graça.

MARCOS — E aí veio a prisão?. . .

VULPIANO — Eu estava em Macau… Já era o “assombro” do Rio Grande do Norte, com “a foice e o martelo na testa”, quando prepararam a minha prisão. Havia um sargentinho por lá que bebia muito… Ele reuniu o Tiro de Guerra e mandou me cercar, prendendo-me. Eu estava nessa ocasião com um plano de trabalho do Partido, onde constava exatamente uma greve dos trabalhadores das salinas. Mas eu escrevia tudo com uma letra muito miúda, que não se lia facilmente. Se letra de médico é ruim, vocês imaginem a gente querendo fazê-la ainda pior! Pegaram meus documentos.  Ai o sargento disse “Depois eu vejo. . .” e colocou-os de lado. No meio deles, estava o plano da greve. E eu fiquei pensando como tirar aquilo das mãos dele. Aí fixei os olhos em algum objeto do outro lado e ele acompanhou meu olhar. Enquanto isto eu passei a mão no papel e botei-o na boca. E foi aí que eu vi como é difícil a gente engolir papel. Lutei mas não consegui engolir. Depois, fui ao banheiro e o cuspi lá, dando descarga. Bom, essa foi a minha prisão de estreia. Eu me encontrava na companhia de Luiz Maranhão e mais dois outros companheiros de Partido.

TICIANO — Passou quanto tempo preso?

VULPIANO — Fiquei preso no Tiro de Guerra em Macau e depois me mandaram para Natal, com um pelotão de soldados me escoltando. Nesse momento eu disse a Luiz Maranhão: “Não estou gostando disto. É bem possível que sejamos mortos e digam depois que tentamos fugir”. Mas viemos sem problemas, a ponto de numa parada a meio do caminho, em João Câmara, eu informar a uma senhora que estava seguindo preso para Natal e ela dizer que não acreditava. Aí me voltei para os oficiais e perguntei “Vou ou não preso para Natal”? “Vai”. Aí a mulher acreditou e disse: “Ah, o Sr. é que é o Dr. Vulpiano? Já ouvi falar muito do seu nome e queria que o Sr. examinasse a minha filha que vai ser submetida a uma operação de fibroma. “Eu tive permissão de ir fazer o exame. Fui e vi que em vez de um fibroma, era um “filhoma”. . . E eu disse à mãe que não deixasse operar a moça, pois em três ou quatro meses o “fibroma” sairia naturalmente. . . (Risos). Então, vim para Nata! e não me lembro que tempo eu passei na prisão. Sei que estive preso aqui em Natal várias vezes. Numa das vezes um tenente da Aeronáutica — que depois foi servir no Canadá — criou um sistema de celas que tinham apenas uns quatro palmos de largura por sete de altura. E eu fui colocado numa dessas, nu, sem agasalho, com dois alto-falantes desses de rua, voltados para dentro da cela. Esses autofalantes ficavam a irradiar músicas.Não sei se vocês se lembram de uma música que imitava toda a bicharada? Que imitava o pato, o porco, o boi? Aquilo não tinha quem aguentasse ouvir três vezes, tão chata era a música. E eu tinha de ouvir aquilo dia e noite, a todo volume. A cela era de cimento armado, sem grades, e para o sujeito não morrer sufocado havia uma porta de ferro com uns furinhos que não dava para passar um dedo. Era um negócio chatérrimo. O Tenente Bravo da Câmara chegou algumas vezes a urinar por um desses buracos da porta, caindo a urina sobre meu rosto. Em me lembro de que eles aplicavam vários tipos de tortura. Um deles era o rádio relógio. Hoje, o rádio relógio é muito diferente: tem notícias, tem músicas. Naquele tempo era só aquele barulho: tum, rum, rum, tum . Tantos minutos para seis horas… tum, tum, tum. Passa um minuto de seis horas.  Tum, tum, tum . . . Aquilo era de lascar! O único momento de alívio que eu tinha ali em Parnamirim era quando eles chamavam a gente para o banho. Aquela aguazinha fria me fazia sentir retemperado para começar de novo. . . Eram proibidas as visitas. Eu ficava sem poder ver até a minha mulher. . . Havia do lado de fora um pássaro que repetia as primeiras notas da “Sonata Aurora” de Beethoven. Eu que sempre apreciei a música erudita, me deliciava com o canto da ave, mas ao mesmo tempo me revoltava mais com a prisão, vendo o pássaro em liberdade.

MARCOS — Mas o que ocasionou as suas prisões? Havia algum movimento a ser deflagrado?

 VULPIANO — Nunca houve movimento preparado aqui no Rio Grande do Norte. Se houve movimento aqui, preparado peles comunistas, foi no tempo de Getúlio, em 1935. O meu trabalho era apenas o de arregimentar. Eu, por exemplo, saía à noite com outro companheiro, para visitar algumas pessoas. Havia uma vigilância tremenda! Eu arranjei uma cabocla, filha do dono de uma casa para onde a gente ia, e saí de braço com ela, tentando despistar. Mas, quando vi, estava diante de um carro da Aeronáutica, do qual desceram os soldados para me prenderem. 0 interessante nessa ocasião foi que a Aeronáutica deu uma nota pelo jornal “tranquilizando as famílias norte-rio-grandenses” e dizendo que a Aeronáutica estava preparada para repelir qualquer movimento Comunista. Só que esse movimento nunca houve.

MARCOS — Havia que tipos de torturas físicas?

VULPIANO — Vejam com os seus próprios olhos. . . Esta grande cicatriz no meu braço esquerdo foi causada por pontas de cigarro. A água fervendo, chega a 100 graus. A chama de um cigarro vai a 600 graus. Enquanto eu era interrogado, na presença do major Hipólito da Costa, do capitão Souza Mendes e do tarado sargento Correia, eles queriam que eu dissesse os nomes da outros membros do Partido. E, diante do meu silêncio, eles encostavam o cigarro no meu braço e pelo corpo inteiro e gritavam “Responda, seu filho da… ” Como eu não nasci para ser dedo-duro, eu não falava. No auge das torturas, eu me lembrava dos nomes de alguns que já estavam presos e os citava, mas nunca denunciei ninguém, é claro! Outra tortura que eu recebi foi quando me pegaram uma vez no consultório, quando eu já morava em Natal e tinha o meu consultório numa sala ali na Avenida Rio Branco, no primeiro andar da Galeria Olímpio. Eu estava examinando uma senhora, quando chega o major Hipólito. Naquele tempo, a Aeronáutica usava uma farda caqui e eu pensei que fosse um- “mata mosquito”, um daqueles guardas da malária. Quando vi o sujeito empurrando a porta do consultório, eu disse: “Não é possível! O Sr. vai entrar aqui desta maneira?” Ele me deu voz de prisão e perguntou se eu ia reagir. Eu respondi que não e que estava ali realizando um atendimento médico a uma paciente. A mulher ficou lá tendo um ataque, fazendo o maior alarde. Então, o major Hipólito me arrastou escada abaixo e me levou preso em um jipe. Fui posto naquela mesma cela que eu já descrevi. Eu fui na ilusão de que não demoraria muito a ser liberado. Levei a minha identidade de oficial da reserva, joguei em cima da mesa com toda elegância, e o filho da mãe só fez olhar para mim, rasgar o documento e atirar na minha cara. Aí eu perdi qualquer ilusão. Essa prisão, as torturas, além dos alto-falantes, tinha uma sessão noturna de charanga, quando vinham aquelas pessoas com tambores bater nas portas das celas, para chacoalhar, acabar com os meus nervos. Mas não conseguiram não.

MARCOS — Quanto tempo o Senhor esteve preso?

VULPIANO — Eu sofri quatro prisões. A última, em 1964, me durou dois anos e dois meses. É preciso que vocês vejam o seguinte: pela legislação da época, eles só tinham direito de me prender pelo prazo de 60 dias, que era o período de averiguações. Mas isto foi esquecido! Depois de um ano e um mês, eu ouvi um boato de que ia sersolto. A empregada da minha casa ia me levar almoço no quartel e então mandei dizer à minha mulher que havia o boato da minha soltura, embora eu ainda não estivesse acreditando. São coisas que eu nunca consegui compreender. . . Eu tenho impressão de que um juiz, naquela época, queria me libertar. Eles não deixaram. Então, resolveram me botar num avião e me levaram para Pernambuco. Passei lá dois dias, fui muito bem tratado, bem alimentado e tive condições de cortar minhas unhas, fazer minha barba. Voltei de novo para cá, novinho.

TICIANO — Durante esse período o Senhor voltou a ser torturado?

VULPIANO — Não. Não digo que tenham me tratado bem, mas me trataram com respeito.

TICIANO — Mas o Senhor voltou ainda a ser preso outras vexes, não foi?

VULPIANO — Sim, a Polícia Federal. Sofri ainda duas ou três prisões pela Polícia Federal, mas não fui mais torturado. Fui bem tratado. Não sei se é porque eu sou maçon. Eu fiz os sinais maçônicos de socorro, que a gente faz sempre, e não me trataram mal. Pelo contrário!

OSAIR — Ao longo da sua trajetória profissional e política, o Senhor sofreu alguma discriminação da sociedade por ter uma ideologia diferente?

VULPIANO — Não. Jamais notei esse tipo de discriminação.

OSAIR — Embora o Senhor seja um comunista, nós estamos vendo aqui na sua biblioteca um exemplar da Bíblia.

VULPIANO — Esta Bíblia pertence à minha filha. Ê um dos maiores livros da humanidade. É um livro muito interessante. Se todo mundo lesse a Bíblia, a humanidade seria melhor, mas é um livro muito interessante.

TICIANO — Qual é a imagem que hoje você faz de Carlos Prestes?

VULPIANO — Eu já disse uma vez que tinha uma verdadeira adoração pelo “Cavaleiro da Esperança”. Eu tenho na minha biblioteca um livro de Prestes, que me foi oferecido por ele. Mas eu não gostei do livro, que é um negócio muito pessoal. O pessoal da direção do Partido chamou várias vezes Prestes para fazer crítica, autocrítica, e ele sempre recusou. Eu percebia que estava havendo alguma coisa, mas não podia imaginar que ia chegar à profundidade que chegou. Acabaram afastando, eu não diria expulsando Prestes do Partido. Ele continuou como um patrimônio histórico e não era possível expulsar um cara daquele, como os jornais geralmente afirmam. Giocondo Dias assumiu a secretario geral do Partido. Um amigo meu, Dr. Sarinho, uma vez me perguntou: “Com quem você está? Com Giocondo ou com Prestes?” Eu respondi: “Continuo com o Partido, Sarinho”.

TICIANO — E sua impressão de Giocondo?

VULPIANO — Eu conversei muito com Giocondo Dias, inclusive sobre um episódio que se comenta aqui no Rio Grande do Norte que teria ocorrido logo depois da revolução de 35, quando ele era cabo e liderou o movimento em Natal. Dizem que, depois da revolução, ele refugiou-se em Lages e lá teria tentado conquistar a mulher de um fazendeiro que o escondia. Ele nega o assunto completamente. Diz ele que naquele tempo tinha a ilusão da pureza do Partido. A mulher insistia para ter relações com ele. Com raiva da sua resistência, a mulher foi dizer ao marido que ele estava tentando conquistá-la. A coisa foi mais ou menos assim.

MARCOS — Por que o Partido Comunista nunca conseguiu um apoio popular mais amplo no Brasil?

VULPIANO — Em primeiro lugar, ainda não nos deram oportunidade de mobilização, não é? Se o Partido passou dois anos na legalidade, passou muito! E nesse curto espaço de tempo, Carlos Prestes se elegeu senador com 600 mil votos! Para fazer um proselitismo como nós desejaríamos, o tempo foi muito curto. Eu não creio que o Partido, apesar dos erros que tem — incontestavelmente tem e são sérios — não tenha capacidade de atrair o povo. Entre os maiores erros eu cito, por exemplo: o Partido Comunista, no chamado “manifesto de agosto”, preconizou o que nós chamávamos de preparação para a guerrilha, na esperança de que aqui no Brasil nós devíamos fazer como na China. Isto, mas ganhou em Natal. Natal ficou até conhecida com o “moscouzinho”.

MARCOS — Mas o que eu dizia é o seguinte; a nível nacional, talvez o PC não tenha influído na eleição de ninguém, mas a nível estadual os comunistas já deram valiosas contribuições na eleição de diversos governadores. Aqui mesmo no Rio Grande do Norte nós sabemos que em 1960, Aluízio contou com a simpatia dos comunistas.

VULPIANO — Um dia desses, até Ticiano escreveu uma história interessante, sobre o relacionamento de Aluízio com os comunistas. Quando eu estava preso em 1964, quiseram que eu informasse quanto Aluízio tinha dado ao Partido Comunista , e eu disse : “Ele até prometeu dar algum a contribuição, mas dizem que ele não gosta muito d e cumprir seus compromissos” .

MARCOS — O Senhor poderia relatar algo mais sobre sua militância comunista?

VULPIANO — Vou contar alguns episódios da época da legalidade. Uma vez eu saí de Fortaleza para o interior do Crato, de Juazeiro. Ia com Jeová Mota, Luiz Mendes e outro s companheiros. Estávamos tomando café num a pensão lá em Juazeiro quando entrou um matuto e cravou o punhal na mesa, declarando: “Quem for homem, diga que é comunista! “Quem é que ia ter coragem de dizer que era”? Nós íamos fazer um comício na cidade e mandamos distribuir uns panfletos. 0 padre então reuniu as “Filhas de Maria” dizendo-lhes que os comunistas iam roubar os ossos do Padre Cícero para mandá-los para Moscou. E insuflou-as contra nós. Nós estávamos na casa de um camarada que dizia ter muitos votos, mas terminamos vendo que ele só tinha conversa. E vimos aquela massa avançando em nossa direção. A sorte é que a casa tinha fundos para outra rua e nós tivemos tempo de correr. A massa ignara nos perseguia, entrando de casa em casa, revistando tudo , abrindo guarda-roupas . Fomos salvos por um maçon que despistou o pessoal, indicando que nós tínhamos fugido numa direção oposta à que nós realmente seguimos.

MARCOS — Com o Senhor pessoalmente está vendo essa luta da sociedade pelas liberdades, pela eleição democrática, por uma nova constituição, pelas diretas? Isto tudo pode acabar num novo fechamento do regime, ou a gente tende mesmo a encontrar uma saída democrática para o país?

VULPIANO — Incontestavelmente, o presidente é presidente só porque está cercado por alguns que o forçam a fazer certas coisas. Vejam por exemplo a saída do ministro Maximiano. Ele pediu demissão. Você s deve m ter percebido — e eu vi aqui pela televisão — a solidariedade que recebeu da própria Marinha. Quinhentos oficiais de alta patente foram recebê-lo no aeroporto. Não houve discurso, houve nada. Mas só a presença era como se eles estivessem dizendo “conte conosco”.

MARCOS — E a emenda que o governo deve estar mandando ao Congresso, propondo eleição direta para presidente só e m 1990?

VULPIANO — Eu vejo isto como uma coisa feita para atender a Figueiredo, mas não creio que isto aconteça não. Diante da campanha do país inteiro pelas eleições diretas-já , eles vão ter muita dificuldade de impor essa solução.

MARCOS — O Senhor acredita que saia a curto prazo a legalização do Partido Comunista no Brasil?

VULPIANO — Não só acredito como afirmo que não há democracia sem o funcionamento do Partido Comunista. No s Estados Unidos existe o Partido Comunista. Embora seja considerada uma entidade estrangeira, mas está lá! Vai haver a legalização no Brasil. É o povo que quer. Podem surgir ainda muitas dificuldades, mas essa luta será vitoriosa.

TICIANO — Cite uma figura importante do Comunismo no Rio Grande, do Norte, uma figura de sua admiração, a quem você atribua importância na luta pelos ideais comunistas no Rio Grande do Norte.

VULPIANO — Há quem diga que o Rio Grande do Norte teve dois mártires : Frei Miguelinho e Luiz Maranhão, sendo que este último morreu pela causa socialista.

MARCOS — O Senhor poderia enumerar alguns membros do Partido Comunista no Rio Grande do Norte que perderam a vida a o longo dessas lutas na clandestinidade?

VULPIANO — Daqui morreu bastante gente. Cito, por exemplo, aquele guerrilheiro macauense Migue l Moreira. Num livro sobre a Intentona Comunista, João Medeiros Filho conta como morreu Miguel Moreira. Ele convidou um companheiro para acompanhá-lo num assalto que ia fazer — assalto politico! — e o companheiro o seguiu, indo sempre atrás. Quando viu que ele estava a uma distância segura, matou- o pelas costas com um tiro de revólver. Tratava-se de um elemento infiltrado. Agora, dizer quem são os outros que perderam a vida, eu prefiro não dizer. Há tanta gente importante no meio disso. E o Dr. Vulpiano não é o único a saber.

ATENÇÃO – AS FOTOS AQUI APRESENTADAS FORAM REALIZADAS NO DIA 14 DE JUNHO DE 1984, NA CÂMARA MUNICIPAL DE NATAL, NA OCASIÃO EM QUE O DR. VULPIANO RECEBEU O TÍTULO DE CIDADÃO NATALENSE. INFELIZMENTE NÃO DESCOBRI A AUTORIA DESSAS FOTOS.

VIAGEM AO SERTÃO DOS MISSIONÁRIOS DO NORDESTE: PADRES ROLIM, IBIAPINA E CÍCERO

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Fonte – http://evans1309.blogspot.com.br/2012/12/a-cruz-da-estrada-castro-alves.html

Foi num sábado de primavera que de Natal partimos em direção ao sertão do padre Cícero Romão Batista. Na tripulação de quatro amigos (DaMata, Abimael, Homero e Antonio Medeiros), nenhum beato ou devoto do Padim Ciço.

Desde pequeno ouvimos nossos pais e avós falarem das romarias ao Juazeiro do Norte – A Meca do Nordeste. Sempre desejei fazer essa viagem assim como quem tem uma dívida com a sua cultura. Das promessas feitas e das graças alcançadas em tempos de privações e doenças por muitos familiares e amigos. Até os dias atuais essas romarias não arrefeceram e milhares de pessoas continuam fazendo a mesma peregrinação em direção ao Juazeiro onde está situado grande monumento do famoso padre do nordeste brasileiro.

A viagem ao cariri cearense foi feita via Caicó-RN, passando por Brejo do Cruz e Catolé do Rocha, na Paraíba. Terras-origens-cantadas pelos paraibanos Zé Ramalho e Chico César. Depois Sousa – terra dos Dinossauros – e, Cajazeiras. Viagem por um sertão profundo, cheio de mistérios e arcanos indecifráveis. Reserva cultural de um povo atencioso e pronto para qualquer informação. O Cariri Novo, de grandes engenhos de açúcar, beatos, cangaceiros, coronéis e rica cultura popular.

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Vale dos Dinossauros, Sousa, Paraíba – Fonte – gestao.patrimoniodetodos.gov.br

O Vale dos Dinossauros

Indo ao nordeste do Brasil e passando em Sousa ( Pb), é obrigatória a visita ao Lajedo da Passagem de Pedras, onde fica situado o famoso “Vale dos Dinossauros” com as pegadas deixadas por dinossauros que habitavam essa região alagada. A visita é melhor ainda se for acompanhada pelo guia Robson Araújo Marques, o “Velho do Rio”. Robson é um norte-rio-grandense, nascido em Florânia e há 35 anos trabalhando nesse importante sítio arqueológico que precisava ser melhor preservado e estudado. Seu avô Anísio Fausto da Silva indo em busca de animais perdidos, descobriu essas importantes pegadas e denominou “Rastro do Boi e da Ema”. Analisada depois por paleontólogos descobriu-se que aqueles rastros que impregnaram os lajedos da “Passagem das Pedras” eram fabulosos rastros de gigantes dinossauros que por ali passeavam e caçavam há milhões de anos.

A Cajazeiras do Padre Rolim

Em Cajazeiras o encontro marcado com o amigo e historiador Francisco Pereira. Um grande estudioso do Cangaço e da cultura nordestina. A paixão de Pereira por esses temas o levou a colecionar e comercializar livros referentes ao Cangaço, Canudos e cultura nordestina. Conversar com o simpático amigo professor Pereira é uma viagem por essa rica cultura de beatos, coronéis e cangaceiros. Já o conhecia via internet e foi uma alegria conversar pessoalmente com ele e comprar uma dezena de livros sobre o nordeste profundo, seus costumes e crenças.

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Cajazeiras, Paraíba – Fonte – cajazeiras.pb.gov.br

Pergunto ao Pereira sobre o filme “O Sonho de Inacim”, e ele diz que não gostou. Não gostou das liberdades do filme que poderia ser um belo documentário, e não é. Não gostou do pai do menino como cantor brega e achou – como historiador- que o filme presta um péssimo serviço à memória historiográfica nacional ao filmar o padre Rolim num colégio num colégio diferente daquele criado e mantido pelo pioneiro educador Rolim.

“O Sonho de Inacim” – O filme sobre o Padre Rolim

Duzentos anos após o nascimento do padre Ignácio de Sousa Rolim, nascido em 22 de agosto de 1800, o filme o “Sonho de Inacim” resgata a história desse “Educador do Sertão” que viveu na cidade de Cajazeiras, Pb, onde fundou um colégio. O menino Inacim sonha tendo contato com o Pe Botânico e sofre muitas discriminações. Expulso da escola vai para o psicólogo, médico, lançadora de Búzios e deixa a todos perplexos com os seus poderes para-normais. O menino vira celebridade na pequena cidade de cajazeiras já dominada por traficantes. Todas as revelações do menino Inacim são depois confirmadas pelo biógrafo do Pe Rolim, Padre Heliodoro Pires, que escreveu o importante “Padre Mestre Ignácio Rolim”, onde narra o pioneirismo do Pe Rolim no ensino da região da Paraíba. Rolim foi o melhor professor de Grego em seu tempo e a Paraíba teve que lutar para não perder o mestre para Olinda- PE.

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Fonte – http://rpscom1.blogspot.com.br/2010/11/eliezer-rolim-sobrinho-do-monsenhor-ze.html

O naturalista Pe Rolim de descendência francesa escreveu os importantes livros “Extracto de Gramática Grega” e “Noções de História Natural”, onde descreve a fauna e flora do Sertão. Do colégio fundado pelo Pe Sábio saíram alguns dos maiores sacerdotes e personalidades do Brasil: O controvertido Padre Cícero Romão Batista, o Cardeal Arcoverde (Primeiro cardeal da América Latina), Peregrino de Araújo (Governador da Paraíba 1900-1904), Irineu Joffily (historiador, jornalista e advogado Paraibano) e outros.

Um belo filme dirigido por Eliezer Filho que resgata a fundação da cidade de Cajazeiras na Paraíba (terra do diretor). A importância na nossa formação e cultura dos padres que aqui chegaram. Um belo elenco, fotografia e a música do Chico César. O som das vozes (mesmo em Dolby) não está muito bom.

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Fonte – http://noticiasdecajazeiras-claudiomar.blogspot.com.br/2011/08/uma-homenagem-significativamente-ao.html

José Wilker (sempre o mesmo) fez o Pe Rolim. Completa o elenco a excelente Marcelia Cartaxo, como mãe do menino Inacim (Gabriel Batistuta). E o excelente (meu voto de melhor ator) José Dumont – o Miguel do Jegue – toma uma cachaça amuada. O cantor brega Zé das Antas (Fubá) – o pai do menino – deixa a sua mãe e é suspeito de envolvimento com drogas.

Onde estão os restos mortais do padre Rolim, querem saber as autoridades da cidade para comemorar em grande estilo o seu bicentenário em 2000. Ninguém sabe. Inacim diz que o Padre está vivo. Claro, ele está sempre vendo o sacerdote professor e fala com o padre. Vê seu belo museu, etc.

Padre Ibiapina – o “Taumaturgo da Caridade”

Padre Ibiapina nasceu na cidade de Sobral (Ceará) em cinco de Agosto de 1806, seis anos após o nascimento do padre Rolim. Foi um grande peregrino do sertão nordestino e criador de inúmeras casas de caridade. Multidões seguiam seus ensinamentos de amor ao próximo, Mulheres eram acolhidas em suas 22 casas de caridades (dez só na Paraíba) deixadas por ele no Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Piauí e Ceará.

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José Antônio Maria Ibiapina, o Padre Ibiapina – Fonte – http://3.bp.blogspot.com/-dSexDaPLkGw/T7uHtOENRbI/AAAAAAAACN0/y7tug6IKBbc/s1600/Ibiapina.JPG

O padre Ibiapina foi o precursor de um catolicismo popular, inspirador de Antonio Conselheiro, Padre Cícero e de muitos outros padres, beatos ( Gedeões) e missionários. Um grande educador do nordeste deixou marcas profundas num séquito de fiéis seguidores, Nas casas de caridades as mulheres abrigadas aprendiam a ler, a contar, Aprendiam cozinhar, artesanar e recebiam também uma educação religiosa e moral. Quantos recém-nascidos não foram deixados na “ Roda dos Enjeitados” ou Expostos e abrigados pelas caridosas do padre educador da Paraíba e de todo nordeste brasileiro.

Padre Ibiapina realizou missões, organizou o povo humilde pólvora dos coronéis, conciliou intrigas, levantou e restaurou igrejas e capelas. Construiu em mutirões, o refrigério do nordeste: açudes, cacimbas e barragens.

O escritor e amigo Bartolomeu ganhou de herança e forneceu a um amigo uma bandeira daquelas usadas nas missões evangelizadoras do grande padre Ibiapina.

No dia 19 de fevereiro de 1883 falece o apostolo Ibiapina e seu tumulo está situado em Santa Fé, Paraíba.

Padim Ciço

O destino motivador da nossa viagem era o Juazeiro do padre Cícero Romão. Juazeiro, árvores que abriga o nordestino do sol inclemente, Já do hotel avistávamos a grande estátua do nosso Padim Ciço. A chegada ali foi coberta de grande emoção e sentimentos que amolecem o coração mais empedernido. Centenas e centenas de ônibus trazem os penitentes numa segunda feira imprensada, véspera do feriado da padroeira do Brasil. Tudo na cidade vive em função do padre Cícero e de suas pregações seguidas por uma multidão de fieis de todo o Brasil. Nordestinos eternamente pregados na cruz de uma terra seca e um sol inclemente.

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Padre Cícero Romão Batista

Subimos a serra do horto cheio de penitentes e vendedores da fé, Imagens, fitas do padim Santo e velas para acender e rezar. Ouvem-se muitas rezas e loas em homenagem ao santo do nordeste.

Na casa de orações – ao lado – muitos ex-votos de madeira e fotos, A estátua do padre Cícero ao lado da beata Maria de Araújo, que em 1891 deixou a todos estupefatos quando a hóstia ficou vermelha em sua língua.

Romeiros com suas túnicas marrons, A ordem dos penitentes com seus costumes medievais e seguidores que se flagelam e entoam benditos. Tudo isso compõe um cenário de fé e de uma cultura viva, para alem das discussões acadêmicas sobre a beatitude e comportamento coronelístico do padre Cícero.

Multidões sobem as escadas para chegar mais perto da estátua do padre. Estátua que olha e abençoa o Cariri e seus devotos. Subo também e fico comovido com tanta fé e adorações. Assino meu nome no pé da estátua gigante. Muitos outros assinam formando um manto de letras e preces abençoadas pelo sacerdote nordestino.

Desço e digo para os meus amigos que ficaram em baixo que me sinto purificado. Um responde que estar cansado. Outro diz que tem sede.

É hora de voltar. Promessa cumprida. Muitos pedintes aproveitam para receber um dízimo dos beatos que rezam, pagam promessas e pedem pelos seus entes vivos e mortos.

Autor – João Da Mata

Professor de Física da UFRN. Amante da Literatura, dos Livros das Artes.

Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/viagem-ao-sertao-dos-missionarios-do-nordeste-padres-rolim-ibiapina-e-cicero/

 

MORRE SEU LUNGA, SUCATEIRO QUE SE TORNOU UM PERSONAGEM FOLCLÓRICO NO PAÍS

 

Fonte - http://jornaldehoje.com.br/morre-seu-lunga-sucateiro-que-se-tornou-um-personagem-folclorico/
Fonte – http://jornaldehoje.com.br/morre-seu-lunga-sucateiro-que-se-tornou-um-personagem-folclorico/

Sucateiro que morava em Juazeiro do Norte, famoso por seu mau humor, morreu em decorrência de um câncer no esôfago 

Seu lunga!! Quem nunca ouviu falar nele no Nordeste?

O sucateiro que se tornou um personagem da cultura popular nordestina, Joaquim Santos Rodrigues, conhecido como “Seu Lunga”, morreu hoje, 22 de novembro de 2014, por volta de 9h30, aos 87 anos, em decorrência de um câncer no esôfago. 

Fonte - http://jornaldehoje.com.br/morre-seu-lunga-sucateiro-que-se-tornou-um-personagem-folclorico/
Fonte – http://jornaldehoje.com.br/morre-seu-lunga-sucateiro-que-se-tornou-um-personagem-folclorico/

Nascido em 18 de agosto de 1927 no município de Caririaçu, Joaquim dos Santos Rodrigues passou a infância com os pais e sete irmãos no município de Assaré. Voltou a Juazeiro do Norte aos 20 anos, em 1947, onde casou em 1951e desta união nasceram 13 filhos – três homens e 10 mulheres. Ele sempre foi conhecido no Nordeste por esse “carisma”, mas não fazia mal a ninguém, todos o adoravam e foi.inspirador de vários comediantes. .

Em novembro de 2009, ao dar uma entrevista para o jornal cearense O Povo, Seu Lunga, como é conhecido desde “menino novo”, fez questão de negar a autoria das piadas grosseiras atribuídas a ele. Os cordelistas eram o principal alvo da mágoa de Seu Lunga. “Eles ficam falando da minha pessoa, dizendo o que eu não sou”, lamenta. 

Aos 87, poeta tratava câncer no esôfago - Fonte - http://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2014/11/22/noticiafortaleza,3351903/morre-poeta-e-personagem-cearense-seu-lunga.shtml
Aos 87, poeta tratava câncer no esôfago

Durante a conversa com a reportagem de O Povo, seu Joaquim falou sobre sua devoção a Padre Cícero, distribuiu sorrisos e até recitou poesias. “Nenhuma dessas histórias (contadas nos cordéis) é verdade. É tudo inventado”, se queixou Seu Lunga, na época. De toda forma virou folclore nordestino!

Sem nenhuma dúvida podemos dizer que O Nordeste perde uma figura notória, para ganhar uma lenda!

Uma figura que ficou conhecida e folclórica do nosso querido NORDESTE. Direto sem arrodeio e sem mais, mais. QUE DEUS O TENHA EM UM BOM LUGAR.

POESIA COM O CARIMBO POPULAR

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No Brasil, a xilogravura se disseminou como técnica de expressão à medida que foi associada à literatura de cordel

Beliza Áurea de Arruda Mello

No princípio era a voz que se fez letra e, depois, xilogravura. Esta é a gênese do cordel no Brasil. A voz da poesia cantada que depois vira letra impressa no folheto e, por último, é acompanhada da xilogravura como ilustração. A história da xilografia, aqui, se mistura com a do cordel. Não há como desvincular uma da outra.

O folheto de cordel nasceu como forma de imprimir os versos entoados pelos cantadores-poetas do povo que interpretam os desafios. O primeiro folheto de que se tem notícia apareceu em Recife, em 1865, impresso na Tipografia de F. C. Lemos e Silva, com o título imenso de Testamento que faz um macaco especificando suas gentilezas, gaitices, sagacidade, etc. Mas foi a partir da abolição da escravidão do Brasil, em 1888, que houve o fortalecimento dessa nova forma de expressão.

Os ex-escravos podiam agora ser integrados ao mercado de trabalho formal e assalariado. Entre as novas profissões, proliferava a de vaqueiros, encarregados de transportar o gado pelos sertões do Nordeste. Muitos desses vaqueiros eram poetas do povo que entoavam aboios, canto típico do trabalho para tanger o boi; ou desafios, uma disputa poética cantada de improviso; ou ainda pelejas, outra espécie de luta poética de improviso em horas de trabalho, de folga e de festa. Os poetas, nascidos em zona rural, estavam “livres” e tinham certa autonomia para deslocamentos físicos.

Um dos primeiros e mais conhecidos poetas populares do Nordeste foi Leandro Gomes de Barros, nascido em 1865, na cidade de Pombal, no sertão da Paraíba. Em seus folhetos é possível encontrar narrativas sobre bois muito recorrentes nos sertões nordestinos, como O Rabicho da Geralda. A história é tão comum que o escritor José de Alencar chegou a classificá-la de “poemeto sertanejo”.São dele célebres folhetos de cordel, como O cavalo que defecava dinheiro, que inspirou o Auto da Compadecida, do escritor Ariano Suassuna, e a Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, um clássico baseado no tema do rei Carlos Magno e sua luta com o diabo. Pela qualidade dos seus cordéis, ele foi chamado por Carlos Drummond de Andrade de o “príncipe dos poetas”.

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Outros pioneiros – todos paraibanos – são: Silvino Piruá de Lima, nascido em 1848, que escreveu A História de Zezinho Mariquinha; Francisco das Chagas Batista, nascido em 1882, que em 1902 publicou Saudades do sertão; e João Martins de Athayde, nascido em 1880, autor de O preto e o branco apurando qualidade, de 1908, e responsável por introduzir ilustrações nas capas dos folhetos de cordel no Brasil. Tanta ebulição cultural na Paraíba produziu, em 1913, a Popular Editora, uma casa de cordéis criada pelo poeta Francisco das Chagas Batista – tão importante para a expressão cultural do Brasil que Mário de Andrade chegou a dizer que merecia ser “célebre no país inteiro, se nós fossemos verdadeiros patriotas”.

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Mas além das ilustrações trazidas por João Martins de Athayde, os poetas queriam mais inovações – e é aqui que o casamento entre cordel e gravura é celebrado. Começaram a usar esta antiga técnica de impressão principalmente por ser barata e simples: desenha-se uma imagem em madeira macia, como a cajazeira e a imburana, árvores nativas da caatinga nordestina, ou até mesmo em borracha de pneus usados; depois se escavam as partes destinadas a ficarem brancas; joga-se a tinta, que fica depositada nas partes mais salientes da matriz e, ao comprimir a madeira no papel, aparece a imagem, num processo semelhante ao do carimbo. É o mesmo processo usado na Idade Média europeia. Trata-se de uma técnica ancestral que provavelmente se originou na China, no século II a.C. No extremo Oriente, ela era utilizada para a impressão em tecidos, além do papel. Na Europa, foi amplamente empregada para ilustrações e impressão de cartas de baralho, imagens de santos, guerreiros, reis e rainhas, e cenas de calendários.

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A xilogravura ajudava a fazer a “propaganda” dos fatos que interessavam à população. Era tão popular nos século XIV, XV e XVI que passou a ilustrar os romances de cavalaria, e até os autos de Gil Vicente – peças teatrais curtas sobre temas religiosos e cômicos, que também influenciaram Ariano Suassuna no seu Auto da Compadecida.

No Brasil, a xilogravura passou a ser produzida em 1808 pela imprensa, que fazia pequenos anúncios de publicidade em jornais, revistas, e também em ilustração de livros.A técnica propagou-se rapidamente no Nordeste. Quase um século depois, em 1907, apareceu o primeiro cordel ilustrado com uma xilogravura: A história de Antônio Silvino,escrito por Francisco das Chagas Batista.

O desenho da capa é baseado no retrato de Antônio Silvino, cognome de Manoel Batista de Morais, nascido em 1875, na cidade de Afogados da Ingazeira, sertão do Pernambuco. Sua história é típica de cangaceiros. Seu pai, em virtude de brigas políticas com o governador de Pernambuco, decidiu formar um bando de homens que espalhava terror pelos sertões do Nordeste.Quando um dos elementos do bando foi preso, Manoel Batista assumiu o comando do cangaço e mudou o seu primeiro nome para Antônio e o segundo para Silvino, em homenagem ao tio, ex-chefe do bando, por quem nutria admiração. Passou a ser conhecido pelo nome de guerra, Antônio Silvino, e pelo apelido de “Rifle de Ouro”. Antes de Lampião, foi o cangaceiro mais famoso e temido do sertão nordestino.

Se a Paraíba é o estado dos pioneiros do cordel, o Ceará é um celeiro de bons xilógrafos, alavancados por José Bernardo da Silva, o maior editor de literatura de cordel durante os anos de 1940 a 1960. José Bernardo chegou a Juazeiro do Norte, no Ceará, na década de 1920, e logo iniciou suas atividades como folheteiro – como eram conhecidos os vendedores de cordel. Em 1932, comprou sua primeira máquina (uma rudimentar impressora de pedal) e fundou a Tipografia Lira Nordestina. Sua atividade editorial alcançaria o apogeu em 1950 por causa da ilustração em xilogravura de muitos folhetos do cordel: Alonso e MarinaJuvenal e o dragãoJoão Grilo e Donzela Teodora, entre muitos outros. Logo, a xilo passou a ser o grande atrativo dos cordéis. Graças ao incentivo de José Bernardo, outros grandes xilógrafos, como Mestre Noza, Antônio Relojoeiro e Expedito Sebastião da Silva, ficaram conhecidos. A tradição da gravura no Ceará se mantém até os nossos dias, com Abrão Batista, ilustrador dos seus próprios cordéis, e com o poeta e xilógrafo José Louzeiro.

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Também representante da nova geração de poetas de cordel e da xilogravura popular, o pernambucano Marcelo Soares alia o desenho da tradição ao design da modernidade. Bebeu nas fontes populares por influência de seu pai, José Soares (1914-1981), um renomado cordelista conhecido como “O poeta repórter”. Marcelo aprendeu a técnica da xilogravura fazendo capas para folhetos e participou de novas experiências com esta técnica no Rio de Janeiro, onde fez curso de xilogravura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Expandiu suas atividades, criando capas e ilustrações para livros, discos, cartazes para cinema, shows, teatro e outros eventos.

A xilogravura, como imagem ilustrativa de folhetos de cordel, tem traços firmes e identitários da cultura nordestina, e é facilmente vinculada com o público popular. O trabalho em capas de folhetos de cordel mapeia a história da xilografia popular no Brasil. Vai além do universo dos poetas populares e se expande, com seus temas, para os gravuristas urbanos. O percurso da xilogravura no nordeste do Brasil é longo e rico. Sua relação com o folheto de cordel, além de informativa sobre histórias contadas, é a de capturar o olhar do leitor a partir da imagem da capa. Além de contar a história, contribui para gravá-la, mais facilmente, na memória.

Beliza Áurea de Arruda Mello é professora da Universidade Federal da Paraíba e autora de “Poética de um poeta popular: travessia da memória” (Sapienza, Recife, n. 1, 2009).

Do amor à guerra

Os folhetos de cordel são uns pequenos livrinhos em folhas de papel jornal. Podem ter dois tamanhos, dependendo da extensão da narrativa contada. Quando ela é curta, o folheto mede 11 x 36 cm e contém oito páginas; quando a narrativa é mais extensa, ele mede 13 x 18 cm e pode ter até 64 páginas.

Os temas são variados: seca, histórias de encantamentos, cangaço, gracejos, carestia, política, narrativas engraçadas para o povo rir, sátira. As narrativas mais extensas contam histórias de guerra e aventuras de amor, em poesia cantada e impressa. São os chamados romances. Originam-se do Romanceiro, um gênero poético oral de origem medieval, datado de 1421, que sempre narrava sobre algo que havia acontecido numa época concreta.

A memória desses romances vive nos cantos das brincadeiras de roda e nos folhetos de cordel que, quando começaram a circular no Brasil, não tinham nenhuma ilustração em suas capas. Na parte superior havia o título em grande destaque, com letra maior e com adornos; desenho centralizado, contornado com uma frisa tipográfica, uma espécie de pequeno traço colocado em torno do título para dar-lhe maior destaque; na parte inferior há indicação do local, data e nome da tipografia.

SAIBA MAIS

CARVALHO. Gilmar de. Desenho gráfico popular. Catálogo das matrizes xilográficas de Juazeiro. São Paulo: IEB/ USP, 1998.

SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos. “A imagem do folheto”. In: ___. Memórias das vozes: cantoria, romances & cordel. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo. Fundação do Estado da Bahia, 2006. p. 84-92.

SOUZA, Liêdo Maranhão de. O folheto de cordel, sua capa e seus ilustradores. Recife: Massangana, 1981.

Internet

Fundação Casa de Rui Barbosa – Literatura de cordel

http://www.casaruibarbosa.gov.br/interna.php?ID_S=99

Centro Nacional do Folclore – Xiloteca

http://www.cnfcp.gov.br/interna.php?ID_Secao=64