AS METAMORFOSES DO CORONELISMO

Coronel Marcolino Diniz e seus homens de confiança, Paraíba.

José Murilo de Carvalho – Professor UFRJ (Publicado no Jornal do Brasil em 6/05/2001).

“A lei parava nas porteiras das fazendas. O governo renunciava ao seu caráter público. Um elementar senso de autodefesa dizia à população rural que era mais vantajoso submeter-se ao poder e a proteção do coronel”

Dizia Víctor Nunes Leal, no clássico Coronelismo, enxada e voto, publicado em 1949, que coronelismo era compromisso entre poder privado e poder público. O compromisso, continuava ele, derivava de um longo processo histórico e se enraizava na estrutura social. A urbanização, a industrialização, a libertação do eleitorado rural, o aperfeiçoamento da justiça eleitoral, acreditava, iriam enterrar coronéis e coronelismo.

Pedida a bênção a quem de direito, me aventuro em variações em torno do tema.

Coronel Antônio Ferreira de Carvalho, conhecido como “Antônio Caixeiro”, Sergipe.

No princípio, era o “coronel”. Entre aspas, porque não era chamado assim. Era o homem-bom, o chefe , o patriarca, o mandão, o grande senhor de terras e de escravos, base da organização social da colônia. Alguns historiadores o chamaram até de senhor feudal. Comandava vasto séquito que incluía a família, a parentela, os escravos, os agregados, os capangas. Todos dependiam dele, de seu poder, de seu dinheiro, de sua proteção. Controlava a terra, o trabalho, a política, a polícia e a justiça. Alguns isolavam-se no interior comandando estados à parte. A maioria, no entanto, desde o início vinculava-se à economia exportadora e à administração colonial. O poder colonial não tinha braços suficientes para administrar e delegava aos chefes locais tarefas de governo ou simplesmente deixava que mandassem como bem entendessem.

“Foi na Bahia que os coronéis chegaram ao auge da influência, como tão bem demonstra a obra romanesca de Jorge Amado”

Quando a colônia virou Brasil, o “coronel” virou coronel, sem aspas. A Regência, imprensada entre reacionários de um lado e “povo e tropa”, do outro, não tinha como manter a ordem. Criou a Guarda Nacional, de olho na congênere francesa, para colocar a manutenção da ordem nas mãos dos que tinham o que perder. Faziam parte da Guarda os adultos entre 21 e 60 anos que tivessem renda de 200 mil-réis nas quatro maiores cidades e 100 mil-réis no resto do país. Os oficiais eram nomeados pelo ministro da Justiça, sob recomendação dos presidentes de província. Pode-se adivinhar quem era escolhido. A hierarquia da Guarda seguia a hierarquia da renda e do poder.

Coronal Erônides Ferreira de Carvalho, filho de Antônio Ferreira de Carvalho, Sergipe.

O chefão local virava coronel, o posto mais alto, o segundo mais poderoso virava tenente-coronel, o seguinte major, e assim por diante. Lavradores e artesãos tinham que se contentar em ser praças. A Guarda foi um eficiente mecanismo encontrado pelo governo para cooptar os senhores de terra, para estreitar o laço entre governo e poder privado. Se o posto de coronel não bastava, o governo o fazia barão. Com o tempo, a Guarda deixou de exercer funções de segurança e virou instrumento político-eleitoral. O coronel virou chefe político. A ele se dirigia o deputado para pedir votos. Vangloriava-se das relações com políticos da capital. Alguns iam a cidades próximas para mandar carta para si mesmos, pretendendo ser carta de deputado. Podia ser caprichoso. Na década de 50 do século XX, um coronel ainda se negou a apoiar um pretendente porque não dava votos a quem usava paletó rachado na bunda. A tecnologia eleitoral aperfeiçoou-se em suas mãos. Criou o voto de defunto, o fósforo, que votava várias vezes, o capanga que espantava o opositor, o curral, o bico-de-pena. Para seus subordinados, continuava sendo o chefe, o juiz, o protetor. Seu capanga não era condenado se cometesse crime, seus dependentes não eram recrutados para o serviço militar, seu escravo era solto. Sua mulher não precisava ser defendida das autoridades porque estava submetida a sua justiça particular.

Coronel Horácio Queirós de Matos, Bahia.

A federação de 1891 abriu as portas do paraíso para o coronel. Agora havia um governador de estado eleito que dependia mais dele do que o ministro da Justiça. Surgiu o coronelismo como sistema na terminologia de Víctor Nunes. O coronel municipal apoiava o coronel estadual que apoiava o coronel nacional, também chamado de presidente da República, que apoiava o coronel estadual, que apoiava o coronel municipal. Aperfeiçoou-se ao máximo a técnica eleitoral. Quanto mais regular a eleição, de acordo com as atas, mais fraudada era. Nem a capital da República escapava. Um coronel da Guarda costumava incluir entre os preparativos das eleições cariocas a contratação de um médico para assistir os feridos nos inevitáveis rolos que seus próprios capangas provocavam. Aumentou também o dá-cá-toma-lá entre coronéis e governo. As nomeações de funcionários se faziam sob consulta aos chefes locais. Surgiram o “juiz nosso” e o “delegado nosso”, para aplicar a lei contra os inimigos e proteger os amigos. O clientelismo, isto é, a troca de favores com o uso de bens públicos, sobretudo empregos, tornou-se a moeda de troca do coronelismo. Em sua forma extrema, o clientelismo virava nepotismo. O coronel nomeava, ou fazia nomear, filho, genro, cunhado, primo, sobrinho. Só não nomeava mulher e filha porque o lugar delas ainda era dentro de casa.

Os coronéis tornaram-se poderosos e onipresentes. Em São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul foram enquadrados pelos partidos republicanos estaduais, o PRP, PRM, PRR. No Rio Grande do Sul, seu enquadramento foi feito por Júlio de Castilhos. Dele se conta que ao ouvir um coronel interiorano começar uma frase assim: “Chefe, eu penso que…” interrompeu-o bruscamente dizendo: “Você não pensa, quem pensa sou eu”. Outros estados, como Bahia e Pernambuco, tiveram maiores dificuldades em controlá-los. Nesses estados, alguns coronéis se tornaram legendários. Em Pernambuco, Chico Romão, Chico Heráclio, Veremundo Soares, coronel intelectual, e José Abílio, de que um padre disse poder ser enquadrado em todos os artigos do Código Penal.

Coronel Audálio Tenório de Albuquerque, Pernambuco.

Foi na Bahia que os coronéis chegaram ao auge da influência, como tão bem demonstra a obra romanesca de Jorge Amado. De tão fortes, desafiavam o governo do estado. O coronel estadual, ou governador, em geral membro das velhas oligarquias, não conseguia controlar os coronéis municipais, chefes de estados dentro do estado. Os partidos, Republicano da Bahia e Republicano Democrático, eram meras aglomerações de coronéis rivais. O maior dos coronéis baianos na Primeira República foi Horácio de Matos, senhor das Lavras Diamantinas. Em fins de 1919, ele chefiou uma revolta de coronéis contra o governo do estado. Reuniu mais de 4 mil homens em armas. O governo federal interveio e assinou um tratado de paz com os coronéis, passando por cima do governador. Horácio lutou contra a coluna Prestes e contra Lampião. Em 1930, a pedido de Washington Luís, reuniu milhares de homens para atacar Minas Gerais na expectativa de fazer abortar a revolução que a Aliança Liberal pusera na rua.

Coronel José Pereira Lima, Paraíba.

O coronelismo, como sistema nacional de poder, acabou em 1930, mais precisamente com a prisão do governador gaúcho, Flores da Cunha, em 1937. O centralismo estado-novista destruiu o federalismo de 1891 e reduziu o poder dos governadores e de seus coronéis. Mas os coronéis não desapareceram. Alguns da velha estirpe ainda sobreviveram ao Estado Novo. Chico Romão viveu até a década de 60, assustado ao final da vida com o surgimento das Ligas Camponesas. E surgiu o novo coronel, metamorfose do antigo, que vive da sobrevivência de traços, práticas e valores remanescentes dos velhos tempos.

O coronel típico da Primeira República dependia do governo para manter seu poder. Era governista por definição. Nos casos extremos em que se revoltava contra o governo estadual, fazia-o em conluio com o governo federal. Víctor Nunes percebeu com clareza o problema. O coronel não era funcionário do governo, mas tão pouco senhor absoluto, independente, isolado em seus domínios. Era um intermediário. Sua intermediação sustentava-se em dois pilares. Um deles era a incapacidade do governo de levar a administração, sobretudo da justiça, à população. Constrangido ou de bom grado, o governo aliava-se ao poder privado, renunciando a seu caráter público.

Coronel Joaquim da Silva Saldanha, o “Quincas Saldanha”, Rio Grande do Norte.

A lei parava na porteira das fazendas. O outro era a dependência econômica e social da população. Até 1940, a população brasileira era predominantemente rural (60% nessa data), pobre e analfabeta. Um elementar senso de autodefesa lhe dizia que era mais vantajoso submeter-se ao poder e à proteção do coronel. Fora dessa proteção, restava-lhe a lei, isto é, o total desamparo. Não havia direitos civis, não havia direitos políticos autênticos, não havia cidadãos. Havia o poder do governo e o poder do coronel, em conluio.

Com base nessas premissas, Víctor Nunes previa o fim do coronelismo e do coronel quando o país se industrializasse e urbanizasse, as eleições se moralizassem, o cidadão se emancipasse. O país urbanizou-se (81% da população são hoje urbanos), industrializou-se (só 24% da mão de obra se emprega na agricultura), o direito do voto se estendeu a 65% da população, a justiça eleitoral acabou com a fraude. Diante desses dados, é preciso optar por uma das seguintes saídas: ou dizer que Víctor Nunes se enganou na previsão; ou admitir que ele acertou e que falar hoje em coronel é mera figura de linguagem, retórica política; ou afirmar que a palavra está sendo usada com outro sentido.

Coronel Abílio Wolney, Goiás.

Vamos por partes. São inegáveis as drásticas mudanças econômicas e demográficas por que passou o país desde 1950. Mas algumas coisas não mudaram tanto. Não mudaram a pobreza, a desigualdade e, até recentemente, o nível educacional. Os 50% mais pobres da população ainda recebem apenas 14,5% da renda nacional, ao passo que o 1% mais rico fica com quase a mesma parcela, 12,5%. Adotando-se a linha divisória de 70 dólares, definida pela Organização Mundial de Saúde, mais de 50% dos brasileiros devem ser classificados como pobres. Para o Nordeste, a porcentagem sobe para 80%. A renda per capita de São Paulo equivale a 5 vezes a do Piauí. Cerca de 30% da população de 15 anos ou mais são analfabetos funcionais (menos de quatro anos de estudo). No Nordeste, a porcentagem é de 50%, no Nordeste rural, de 72%. A pobreza e a baixa escolaridade mantêm a dependência de grande parte do eleitorado. O clientelismo tem aí terreno fértil em que vicejar.

Coronel Francisco Heráclio do Rêgo, o “Chico Heráclio”, Pernambuco

Além disso, a política nem sempre segue de perto, de imediato e em linha reta, as transformações sociais. Uma consequência política das mudanças pode ser detectada na década de 30. Surgiu no Rio de Janeiro o populismo, que se difundiu pelas grandes cidades nas décadas de 50 e 60. Ao mesmo tempo que invadia as cidades, a população foi pela primeira vez na história do país admitida em massa ao exercício do voto. Era um passo à frente, mas estávamos longe de um eleitorado maduro. No populismo, o eleitor dispensava a mediação do coronel mas fazia do líder um grande coronel urbano de que esperava ajuda e proteção. No Rio de Janeiro, o populismo montou uma máquina clientelística de corrupção e distribuição de favores à custa de recursos públicos. Mas quando o eleitorado começou a emancipar-se, o golpe de 1964 paralisou a experiência e atrasou o aprendizado democrático por 26 anos, criando um descompasso entre o social e o político. Grande parte do eleitorado de hoje começou a votar sob a ditadura. Muitos desses eleitores ainda funcionam no antigo esquema clientelístico.

Coronel Pacífico Clementino de Medeiros, Rio Grande do Norte e Padre Cícero Romão Baptista, Ceará.

Por fim, quando se fala, melhor, quando eu falo, de coronéis hoje uso a parte pelo todo. O coronel de hoje não vive num sistema coronelista que envolvia os três níveis de governo, não derruba governadores, não tem seu poder baseado na posse da terra e no controle da população rural. Mas mantém do antigo coronel a arrogância e a prepotência no trato com os adversários, a inadaptação às regras da convivência democrática, a convicção de estar acima da lei, a incapacidade de distinguir o público do privado, o uso do poder para conseguir empregos, contratos, financiamentos, subsídios e outros favores para enriquecimento próprio e da parentela. Tempera tudo isso com o molho do paternalismo e do clientelismo distribuindo as sobras das benesses públicas de que se apropria. Habilidoso, ele pode usar máscaras, como a do líder populista, ou do campeão da moralidade. Para conseguir tudo isso, conta hoje, como contava ontem, com a conivência dos governos estadual e federal, prontos a comprar seu apoio para manter a base de sustentação, fazer aprovar leis, evitar investigações indesejáveis. Nesse sentido, o novo coronel é parte de um sistema clientelístico nacional.

Joaquim Paulino de Medeiros, o “Quincó da Ramada”, Rio Grande do Norte.

Nem errou Víctor Nunes, nem uso figura de linguagem. Apenas opero ligeiro deslizamento semântico do conceito. Tudo resolvido? Não. Que os pobres, os analfabetos funcionais, os eleitores iniciantes, elejam e reelejam os neo-coronéis, pode-se entender. Mas quando artistas e intelectuais se solidarizam com paizinhos e paizões, a análise precisa ir mais fundo, além da sociologia. Ela precisa questionar a natureza mesma de nossa cidadania, aventurando-se nos subterrâneos da cultura e da psicologia coletiva. Os valores subjacentes aos pólos coronel/cliente, pai/filho, senhor/servo, parecem persistir na cabeça de muitos de nossos melhores cidadãos e cidadãs, bloqueando a consolidação democrática.

AS GRUTAS DA FAZENDA COLÔNIA

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Uma viagem de pesquisa sobre a vida do cangaceiro Antonio Silvino, o grande bandoleiro das caatingas.

O cangaceiro Antônio Silvino

Para quem gosta da história da região Nordeste, um convite destes é tentador e seguimos para o sertão de Pernambuco, mais precisamente na região do Pajeú, área de onde surgiram os maiores expoentes do movimento de banditismo rural, que ficaria conhecido como cangaço.

A primeira parte da nossa pesquisa buscava conhecer o local de nascimento de Manoel Batista Moraes, este o nome verdadeiro de Antonio Silvino, procurando assim conhecer suas origens e entender a sua trajetória. A informação que possuía era que o cangaceiro havia nascido em uma fazenda chamada Colônia, que estaria na zona rural da cidade pernambucana de Afogados da Ingazeira. A partir desta cidade soubemos que a fazenda Colônia se localizava próxima a um distrito chamado Ibitiranga, já em território do município de Carnaíba, ainda em Pernambuco, a apenas quatro quilômetros da fronteira com o município paraibano de Tavares.

A história do cangaceiro Antônio Silvino se inicia quando seu pai, o fazendeiro Pedro Batista Rufino de Almeida, conhecido como “Batistão”, é assassinado por Desidério José Ramos e membros de sua família, em 3 de janeiro de 1897. Meses depois, escandalosamente os assassinos de “Batistão” são absolvidos em um júri controlado por famílias poderosas que apoiavam os Ramos. A família de Antonio Silvino impetra uma apelação, os acusados são recambiados para a Casa de Detenção, em Recife. Quando os assassinos do fazendeiro são novamente trazidos escoltados para a região, para enfrentarem um novo júri, o policial que comandava o grupo facilitou a fuga de todos. Revoltado o jovem Manoel Batista de Moraes, então com 23 anos, e outro irmão, buscam fazer justiça com as próprias mãos. Eles entram no bando de cangaceiros de um parente conhecido como Silvino Aires para conseguir sua vingança.

Fazenda Colônia. Foto-Alex Gomes

Um ano depois Silvino Aires é preso e Manoel Batista assume o bando, passando a ser conhecido como Antônio Silvino. Antônio em homenagem ao santo de devoção, o mesmo da capela da fazenda Colônia e Silvino em homenagem ao parente que o adotou nas hostes cangaceiras e de quem herdou o bando em 1898, iniciando sua vida de estripulias.

Seguimos em nossa busca a vida deste homem por estradas de terra em bom estado, até Ibitiranga, onde logo encontramos uma pessoa que se colocou a disposição para nos mostrar o caminho até a fazenda Colônia. Conforme nos aproximávamos do local, já avistávamos três grandes serras de granito, uma delas chamada de Serra da Colônia.

Cobertas com farta vegetação, juntas formavam uma espécie de “ferradura”, onde na base desta se encontra a fazenda. Logo percebemos que só havia uma entrada e uma saída daquele local e observamos que quem estivesse no alto daquelas elevações teria total condição de monitorar a chegada de estranhos.

Em meio a uma paisagem muito bonita fomos seguindo e vendo surgir algumas habitações que a distância já se apresentava imponentes.

Para nossa surpresa, pensávamos encontrar uma fazenda acanhada, simples, sem maiores demonstrações de riqueza. Encontramos na verdade quatro antigas e bem preservadas edificações, que claramente nós mostrava que a origem de Manuel Batista Moraes, não era tão singela ou humilde como imaginávamos.

Na entrada da fazenda, recebendo os visitantes, tínhamos uma casa onde ainda existe uma imponente moenda puxada a bois, em madeira maciça, ainda com plena capacidade de funcionamento. A fazenda Colônia era então uma área de grande produção de cana-de-açúcar e criação de gado.

Ao lado da moenda, com grossas paredes e uma bela arquitetura colonial que impressionam a vasta casa grande. Próximo tem o que se chama no Nordeste da “casa do vaqueiro”, ou a casa do capataz, que diferente de muitas que existem por aí, esta era grande, bem construída e confortável. Acima de todas, construída no plano mais elevado do largo pátio gramado, está a simples, mas imponente capela de Santo Antonio, onde a imagem do santo, trazida de Portugal em fins do século XIX, sendo até hoje venerada por muitas pessoas na região no dia do santo padroeiro.

Jornal de época informando uma ação de Antônio Silvino

Recebidos de forma tranqüila pelos moradores do lugar, fomos levados a conhecer a igreja, a casa grande e os outros locais. Nesta visita, travamos um animado diálogo com um dos trabalhadores da fazenda, que nos comentou que os mais velhos narravam às peripécias deste cangaceiro. Daí surgiu à história que nas encostas de uma das serras existe uma gruta que foi inúmeras vezes utilizadas por Antônio Silvino e seu bando como esconderijo. O vaqueiro que nos comentou este fato falou que quem conhecia bem poderia narrar muito bem esta história eram os “irmãos Braz”, que moravam no lugar, mas não se encontravam no momento.

A informação inédita em relação à história de Silvino logo despertou o interesse de conhecer o local, mas como a pesquisa que realizava era sobre um tema específico, que não envolvia nada no sentido espeleológico, associado à falta de material para subir a serra, além do tempo exíguo, mostravam que não existiam condições de conhecer o local naquele momento.

Prometi ao pessoal do local retornar em momento oportuno, subir a serra e visitar esta cavidade que guardava lembranças da história deste cangaceiro.

Voltando a Fazenda Colônia

Nos primeiros momentos como chefe de bando, Antonio Silvino ainda tentou matar os assassinos de seu pai, buscando esta vingança inicialmente nas zonas rurais das cidades pernambucanas de Afogados da Ingazeira e Flores. Consta que nesta época, quando perseguido tenazmente pela polícia, o bando misteriosamente desaparecia de circulação, para desespero das autoridades. Uma das hipóteses dos esconderijos utilizados nestes períodos de inatividade poderia ser a caverna comentada na Serra da Colônia.

Retornando a Natal, algum tempo depois, transmiti aos companheiros da SEP-Sociedade Espeleológica Potiguar e da SEPARN-Sociedade para Pesquisas e Desenvolvimento Ambiental, Cultural e Histórico do Rio Grande do Norte, sobre as indicações deste local e a intenção de retornar para conhece as grutas. A minha ideia foi acolhida de forma positiva por todos.

Mas outros projetos e viagens tinham prioridade. Além do que as entidades espeleológicas do Rio Grande do Norte, sem vínculos governamentais, possuem fortes limitações orçamentárias. Diferentemente dos órgãos governamentais de “proteção” das cavernas, que possuem forte aporte de dinheiro da nação, para gastar em extensas diárias de viagem, produzindo pouco, ou quase nada, de prático para a preservação destes ambientes, que ainda se associam a empresas de exploração mineral, deixando este pessoal agir da forma que quiserem. Mas isto é outra história.

Igreja de Santo Antônio. Foto-Alex Gomes

Finalmente em dezembro de 2008, acompanhado de Sólon Almeida e Alex Gomes, seguimos em direção a Pernambuco, equipados e motivados para conhecer estes locais e trazer estas informações para os leitores da revista eletrônica “Lajedos” (www.lajedos.com.br).

Na fazenda Colônia o grupo foi recebido pelos afamados irmãos Antônio e Damião Braz de Araújo, aqueles que conheciam maiores detalhes sobre a utilização da gruta pelo bando de Antônio Silvino. Nascidos neste local, eles nunca se afastaram muito tempo da região. Seu Antônio comenta que desde criança ouviu muitas histórias sobre o chefe cangaceiro através de um velho vaqueiro da fazenda, que se dizia contemporâneo de Antônio Silvino, conhecido como João Adriano.

De saída os irmãos Braz informaram que não existia apenas uma gruta para visitarmos, mas quatro cavidades que João Adriano contava terem sido utilizadas pelo bando. Elas são a Gruta dos Morcegos, considerada a maior delas e a Gruta da Pedra Rajada, estando localizadas na serra que os mapas apontam como Serra da Colônia, mas é conhecida na região como Serra da Lagoa. As outras duas cavidades estão na Serra do Lava Pés, onde são conhecidas como Furna do Caboclo e Furna da Laje do Mamão. Todas localizadas dentro da área que compõem as terras da fazenda Colônia.

O altar da velha igreja.

Percebemos que dentro do nosso planejamento não havia condições de conhecer todos os locais comentados. Decidimos então visitar as Grutas dos Morcegos e a da Pedra Rajada, as mais próximas. Ainda na sede da fazenda, os irmãos Braz nos mostram ao longe os pontos onde existem duas grandes concentrações de blocos de granito, não muito distantes um do outro, são estes os nossos objetivos.

Encontrando a Gruta do Morcego

Iniciamos a subida da serra no pior horário possível; ao meio dia, com sol a pino. Para compensar a conversa rola solta, segundo seu Damião Braz, após a morte de “Batistão” e a entrada de Antônio Silvino no cangaço, a fazenda Colônia é adquirida pelo “coronel” Luís de Góis e sua mulher, conhecida como Dona Sinhá, para quem seu pai vem trabalhar na década de 1930 e a sua família passou a viver neste local desde então. Até hoje a fazenda Colônia pertence à mesma família, sendo seu atual proprietário o senhor Zeti Góis.

Ele nos conta que após a morte de Luís de Góis, quem assume a fazenda é a Dona Sinhá. Mulher altiva, valente, politicamente bem relacionada e sua voz era lei no seu feudo. Costumava proteger pessoas perseguidas por políticos e policiais da região. Era nota corrente que se uma pessoa estivesse dentro de suas terras, sob sua proteção, nenhum policial entrava em sua propriedade e ela era regiamente obedecida.

Antônio Braz diante da Gruta do Morcego. Foto-Alex Gomes.

Em meio às histórias, a caminhada prossegue por um terreno que primeiramente se mostra bem acentuada, com a trilha da serra bem marcada. Depois o trecho melhora, tornando-se de fácil locomoção. Durante o trajeto encontramos grande quantidade das interessantes “barrigudas de espinho” (Chorisia crispifolora), árvores de grande porte e atualmente rara em grande parte do Rio Grande do Norte. Possui como característica principal a parte média do tronco bem espinhoso e dilatado, dcomo caracteristica m lhe contou muitas histo como Joda Colonia,daí seu nome característico.

A subida segue até um ponto onde grandes blocos graníticos estão encobertos por cerrada vegetação típica da região. A união destes blocos rolados pelas intempéries forma a Gruta dos Morcegos. A entrada é uma fenda diagonal, onde temos que entrar “se entortando” segundo seu Damião. O local é amplo, arejado, com uma saída pela lateral esquerda, agora coberta por vegetação, mas que no passado servia como rota de fuga para outros locais da Serra da Lagoa. Apesar da toponímia, não vimos um único morcego, mesmo existindo na área uma grande quantidade de árvores frutíferas.

Os irmãos Braz comentam que ao longo dos anos várias pessoas que caçavam naquelas serras, encontraram objetos na Gruta do Morcego. Foram, talheres, estribos, estojos de munição deflagrados e moedas. Entre estes objetos eles nos mostraram pedaços de talheres e estribos, além de três modas de bronze do período colonial, onde em uma delas se lê claramente o ano de “1781”. Estas moedas não são tão raras de serem encontradas no Nordeste, mas a sua descoberta pode apontar para uma série de possibilidades, até mesmo a utilização mais antiga deste abrigo como possível esconderijo de bandoleiros.

Gruta do Morcego. Foto-Solón Almeida

No Abrigo da Pedra da Rajada

Sem querer especular mais sobre estes achados, saímos da Gruta dos Morcegos em direção ao alto da Serra da Lagoa, onde o GPS apontava uma altitude de 814 metros. Nossos guias nos mostraram um poço de água bastante cristalina, segundo eles o local até hoje é utilizado, sendo bastante antigo. O informante de seu Antônio Braz, o falecido João Adriano, comentou que os cangaceiros de Antônio Silvino se abasteciam desta água e neste dia nós igualmente utilizamos a limpa e boa água do poço.

Alto da Serra. Foto-Alex Gomes.

Próximo ao poço existe uma capa de sedimentos, formado por uma areia fina, que os agricultores locais aproveitam para plantar cereais para a sua subsistência. Estamos nas proximidades do ponto culminante da serra, onde é possível divisar toda a região, até mesmo a cidade de Afogados da Ingazeira, a quase vinte quilômetros de distância. A visão é maravilhosa, mostrando que a idéia que tínhamos ao chegarmos à fazenda era correta. Bastaria Antônio Silvino colocar um homem vigilante neste ponto e seria possível visualizar muitos quilômetros da área ao redor e saber quem estaria chegando.

Entrada da Gruta da Pedra Rajada. Foto-Solón Almeida

A partir do poço, seguimos a conhecer a Gruta da Pedra Rajada. Antes tivemos oportunidade de passar por um imenso lajedo de rocha granítica, onde existe um reservatório natural de água, conhecido na região como “tanque”, ou “piscina”, ou ainda “lagoa”, por esta razão eles chamam aqueles montes de “Serra da Lagoa”, onde a água acumulada serve para enfrentar os difíceis períodos de secas.

A caminhada para a próxima cavidade é bem mais difícil, pois mesmo o caminho sendo em declive, não existe uma trilha aberta e uma grande quantidade de árvores e cipós dificultam o acesso. Se o local foi realmente utilizado pelos cangaceiros, pela quantidade de vegetação dificultando a locomoção, é fácil deduzir que desde a época de Antônio Silvino, poucos se atreveram a chegar ao local.

Seu Antônio Braz comenta que esta gruta era um ponto que os cangaceiros utilizavam de forma temporária, esporádica, até mesmo pelas suas características. No local vemos dois grandes blocos graníticos rolados, que criam um pequeno abrigo, bem protegido, onde um pequeno grupo de homens poderia se acomodar com o intuito de buscar um esconderijo de difícil acesso a pretensos perseguidores.

Moedas e outros materiais encontrados na Gruta do Morcego. Foto Solón Almeida

Há muitos anos um caçador, amigo dos nossos guias, encontrou neste local uma alavanca de remuniciamento do famoso rifle “Winchester”, já bem enferrujada. Conhecido no Brasil como “Papo-Amarelo”, este modelo de arma era a mais utilizada pelos cangaceiros do bando de Antônio Silvino. Não tivemos oportunidade de ver esta peça, pois a mesma atualmente se encontra na casa do proprietário da fazenda Colônia, em Recife.

Conclusão da Visita

Fomos encerrar nossa caminhada às quatro da tarde, onde percorremos, segundo o GPS, três quilômetros entre subidas e descidas.

Analisando nossa visita podemos observar que estes abrigos, sob muitos aspectos, lembram os mesmos locais, bem como o mesmo modo de utilização, que fez com que o cangaceiro potiguar Jesuíno Brilhante buscasse esconderijos em cavidades localizadas na Serra do Cajueiro, na cidade de Patu, no Rio Grande do Norte.

Mesmo sabendo que as razões, período, motivações para a entrada e permanência no cangaço por parte de Jesuíno Brilhante é distinta de Antônio Silvino, vemos muitos pontos em comum na utilização destes locais.

Igualmente como o bando de Antônio Silvino, Jesuíno usava pelo menos três grutas, em áreas de altitude, com ótimos pontos de observação, interligadas por trilhas, com acesso a locais com água, que poderiam garantir a permanência do grupo nestes pontos por um tempo mais largo. Mas Jesuíno Brilhante atuou principalmente na década de 1870, quando a quantidade de estadas e caminhos eram mais limitados, tornando sua mobilidade restrita, ficando sua área de atuação centralizada na região da fronteira entre a Paraíba e o seu estado de origem. Conseqüentemente a utilização destas grutas por parte do grupo de Jesuíno Brilhante como esconderijos era mais freqüente.

Pelas informações dos moradores da fazenda Colônia, aparentemente Antônio Silvino utilizou estes locais como esconderijos secundários, alternativos a sede da fazenda de sua família.

Nota sobre o tiroteio que resultou na captura de Antônio Silvino

Depois de 1898, provavelmente com o incremento das perseguições, a existência de novos caminhos fará o bando seguir novos horizontes. Logo estará atuando principalmente na região da zona canavieira de Pernambuco, Paraíba e no Rio Grande do Norte, aonde chega próximo da zona litorânea.

Segundo informações dos moradores da fazenda Colônia, após algum tempo, Antônio Silvino deixou a região e nunca mais voltou à antiga propriedade do seu pai.

Ele continua como chefe cangaceiro até o dia 27 de novembro de 1914, quando foi ferido no lugar denominado Lagoa da Laje, então pertencente ao município pernambucano de Taquaritinga do Norte, sendo detido pela volante do Alferes Teófanes Ferraz Torres. Depois de 18 anos de cangaço, Antônio Silvino é preso, julgado e condenado a trinta e nove anos de prisão, a serem cumpridos na Casa de Detenção de Recife.

Nota sobre a prisão do famoso cangaceiro.

Durante seu tempo de reclusão foi considerado um prisioneiro calmo, uma liderança entre os apenados, que realizava trabalhos artesanais para sustentar os estudos dos filhos, onde nenhum deles seguiu seus passos no cangaço e um deles chegou a ser um membro respeitado dos quadros da Marinha do Brasil. Durante esta época, muitos estudiosos estiveram junto ao antigo chefe, entrevistando-o sobre suas andanças, entre estes o potiguar Câmara Cascudo. Somente foi libertado em fevereiro de 1937, depois de 23 anos de cárcere.

Morreu pobre, em 1944, em uma casa simples na cidade paraibana de Campina Grande.

A sua atuação no cangaço foi considerada, mais tranqüila, com menor grau de violência, sendo lembrado por muitos cantadores de viola, por repentistas e escritores como um “injustiçado”. Apesar disto, nunca conseguiu vingar a morte do seu pai.

Sem ter a mesma fama do famoso Virgulino Ferreira da Silva, o “Lampião”, Antônio Silvino é uma das figuras basilares do imaginário criado em torno do cangaço e da história nordestina. Sua vida é hoje tema de variadas teses acadêmicas de sociólogos, antropólogos e historiadores, até mesmo fora do Brasil.

Lembranças que os Medeiros da Rajada têm de Antônio Silvino

Quando criança eu escutei várias vezes a minha avó paterna, Benícia Jacob de Medeiros, narrar que na época em que ela e o meu avô Joaquim Paulino de Medeiros, conhecido como Jaco, moravam em Campina Grande, teve oportunidade de ver o idoso Antônio Silvino. Ela nunca falou com ele, mas me disse que ele era alto, não andava de cabeça baixa como se estivesse se escondendo, pelo contrário, andava empertigado, ereto e todos sabiam quem ele era. Recordou também que o velho cangaceiro tinha sempre um semblante fechado, uma cara dura, sem sorrisos e sem muita conversa.

Sofrimento para visitar as grutas esconderijo.

Mas não era a primeira vez que pessoas da minha família tinham contato com Antônio Silvino. Na nossa história oral ficou guardado o episódio que em uma das passagens do cangaceiro e seu bando por Acari, ele esteve na casa que servia de sede da fazenda Rajada, que pertencia ao meu bisavô, o fazendeiro e coronel da guarda nacional, Joaquim Paulino de Medeiros, conhecido como Coronel Quincó, ou Quincó da Rajada. Consta que Silvino não fez nenhuma alteração, deixou o bando afastado da casa, chegou tranquilo e pediu certa quantia em dinheiro, pois afirmou que “o governo não o deixava trabalhar”. O coronel o recebeu sem afrontas e lhe deu o que podia que a memória da família não guardou o valor.

Esta história está na nossa família a gerações e só posso afirmar sua veracidade dentro dos aspectos complicados que giram em torno da questão da tradição oral. Entretanto em uma ocasião ocorreu uma situação bem irônica sobre este encontro.

Certo pesquisador do tema do cangaço, ao realizar uma pesquisa sobre este cangaceiro pernambucano, soube desta história através da minha pessoa. O ilustre detetive da história procurou saber detalhes, como foi, como não foi, onde aconteceu, etc. Se mostrou educado, mas me disse com bastante segurança, que “esta história só tinha valor se fosse acompanhada de documentos comprobatórios”.

Aí eu ri por dentro e pensei o quanto tolo era aquele pesquisador.

Fiquei imaginando se ele pensava que por acaso meu bisavô se sentou em um tamborete no alpendre da fazenda Rajada, com ninguém menos que Antônio Silvino, que pacientemente esperou o velho fazendeiro preparar um documento de três laudas e depois este pediu ao cangaceiro para sapecar a sua assinatura nas três folhas que comprovavam o gasto do dinheiro dado?

O que eu achei mais engraçado é que certamente muito do que ele conseguiu em sua pesquisa foi através de história oral e quase com certeza sem documentos.

Mas assim é a humanidade.

O autor deste artigo junto a cruzes de “morte matada”. Foto-Alex Gomes
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