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ALGODÃO – A SUPREMACIA DO ALGODÃO MOCÓ NAS LAVOURAS SERIDOENSES

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Ouro Branco – Imagens deste tesxto são meramente ilustrativa 

Texto – Alzira Soares

Fonte – http://papjerimum.blogspot.com.br/2013/05/algodao-supremacia-do-algodao-moco-das.html

“Ouro branco que faz nosso povo feliz / Que tanto enriquece o país / um produto do nosso sertão”

A minha curiosidade de saber um pouco mais sobre algodão foi aguçada na minha infância, de tanto ouvir meu pai cantar a música Algodão – era uma das suas preferidas do nosso Rei do Baião. A música é uma crônica sobre o dia-a-dia do sertanejo na lida com o algodão. Meu pai fazia questão de frisar: Algodão Mocó – é o melhor algodão produzido no Brasil e é plantado aqui nas lavouras do Seridó. Tem outros tipos de algodão, dizia com orgulho de bom sertanejo que era: “Mocozinho”, “Quebradinho”, “Rim de Boi”, mas bom mesmo é o Mocó – esse sim é o Ouro Branco que o Luiz Gonzaga fala na música!.”

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Usina de beneficiamento de algodão.

Planta   da família das Malváceas, espécies nativas  das áreas tropicais da África, Ásia e Américas. O algodão é a matéria fibrosa que envolve as sementes  algodoeiro, e embora macia, suas fibras apresentam boa resistência a esforços de tração, o que permitiu sua utilização na confecção de tecidos.

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A palavra algodão deriva de  al-qu Tum, na língua árabe, porque foram oa árabes que, na qualidade de mercadores, difundiram a cultura do algodão pela Europa. Ela gerou os vocábulos cotton, em inglês, coton em francês e cotone, em italiano.

O algodoeiro é uma planta dotada de raiz principal cônica, profunda, e com pequeno número de raízes secundárias grossas e superficiais. O caule herbáceo ou lenhoso, tem altura variável e é dotado de ramos vegetativos  e ramos frutíferos

As folhas são pecioladas, inteiras ou recortadas (3 a 9 lóbulos). As flores são hermafroditas,. Elas se abrem a cada 3-6 dias entre 9-10 horas da manhã. Os frutos (chamados “maçãs” quando verdes e “capulhos” pós abertura) são capsulas de abertura longitudinal, com 3 a 5 lojas cada uma, encerrando 6 a 10 sementes.

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As sementes são revestidas de pêlos mais ou menos longos, de cor variável, (creme, branco, avermelhado, azul ou verde) que são fibras (os de maior comprimento) e linter (os de menor comprimento e não são retirados pela máquina beneficiadora. As fibras provém das células da epiderme da semente e tem, como características comerciais, comprimento, finuramaturidade, resistência, entre outras.

HISTÓRIA DO ALGODÃO NO MUNDO

As primeiras referências históricas do algodão estão no Código de Manu, do século VII a.C., considerado a legislação mais antiga da Índia.Há cinco mil anos antes de Cristo  escavações arqueológicas feitas no Paquistão, encontraram-se vestígios de tecidos de algodão. No Peru, na mesma época foram encontrados vestígios da cultura e utilização do algodão para suprir as necessidades humanas.

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Os escritos antigos, de antes da era Cristã, apontavam que as Índias eram a principal região de cultura e que o Egito, o Sudão e toda a Ásia menor já utilizavam o algodão como produto de primeira necessidade.

Na Europa, o algodão se tornou conhecido através dos árabes. Foram eles os primeiros a fabricar tecidos e papeis com essa fibra. Em 1736 iniciou-se na Inglaterra a manufatura de fios de algodão com linho. No século XVIII, com o desenvolvimento de novas maquinas de fiação, a tecelagem passou a dominar o mercado mundial de fios e tecidos.

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Durante as colheitas havia uma grande participação das sertanejas.

Nos Estados Unidos, quando Eli Whitney inventou os descaroçadores de serra deflagrou-se uma verdadeira revolução na industria de beneficiamento de algodão, tornando então os Estados Unidos o maior produtor mundial de algodão. Tempos depois, outros países, aproveitando as novas técnicas de plantio e beneficio, passaram também a ser grandes produtores em escala comercial, como Rússia, China, Índia, Paquistão, Egito e Brasil.

HISTÓRIA DO ALGODÃO NO BRASIL

No Brasil, na época do descobrimento, os indígenas já cultivavam o algodão e usavam os fios na confecção de redes e cobertores. Usavam também o caroço esmagado e cozido para fazer mingau e com o sumo das folhas curavam feridas. Os primeiros colonos chegados ao Brasil, logo passaram a cultivar e utilizar o algodão nativo. Os jesuítas do padre Anchieta introduziram e desenvolveram a cultura do algodão (confecção de suas roupas e vestir os índios).

Nessa época o algodão tinha pequena expressão no comércio mundial. A lã e o linho dominavam como tecidos. A cultura era feita em pequenas “roças” em volta das habitações, e o artesanato têxtil era trabalho de mulheres (índias e escravas). Foi só pelos meados do século XVIII com a revolução industrial, que o algodão foi transformado na principal fibra têxtil e no mais importante produto das Américas.

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A cultura de algodão no Brasil começou no Norte e no Nordeste. O primeiro grande produtor foi o Maranhão que em 1760 exportou para a Europa suas primeiras sacas do produto. Ao Maranhão seguiu-se todo o Nordeste tornando-se a primeira grande região produtora do pais com as produções do Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará, Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Bahia que se dedicavam ao plantio do algodão arbóreo perene, de fibras mais longas.

Mais tarde, São Paulo se firma como grande centro produtor. Imigrantes norte-americanos que se localizaram na região de Campinas e Santa Bárbara D`Oeste, trouxeram com eles sementes de algodão herbáceo, de fibra mais curta que os do Nordeste, porém, muito mais produtivos e que são plantados anualmente.

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De São Paulo o algodão expandiu para o Paraná, Mato Grosso e Goiás formando a zona meridional, responsável pela grande produção algodoeira do Brasil.

Hoje o centro algodoeiro brasileiro é composto, principalmente, por Mato Grosso, Goiás e algumas partes da Bahia. Essa nova fronteira algodoeira possibilitou o ressurgimento do algodão no nosso país, quase que por verdadeiro milagre, pois, de grande exportador o Brasil passou a ser importador de grandes quantidades oriundas dos Estados Unidos, Rússia e África. Atualmente voltamos a exportar, e a nossa Industria Têxtil vem tendo a opção de se abastecer tanto no mercado interno quanto no mercado externo.

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HISTÓRIA DO ALGODÃO NO RIO GRANDE DO NORTE

A partir de 1905 o cultivo do algodão ocupa lugar de destaque na economia do Rio Grande do Norte. Embora prioritariamente voltado para o mercado interno, em favor das indústrias têxteis nacionais, o algodão norte-rio-grandense também encontrava colocação no mercado estrangeiro, principalmente o algodão “mocó”, de fibra longa, posto que se destinasse à confecção de tecidos finos.

Duas variedades de algodão eram plantadas no Rio Grande do Norte: o arbóreo (“mocó” ou “Seridó”) e o herbáceo. O algodão “mocó” foi a variedade que melhor se adaptou aos sertões: por suas raízes profundas, era mais resistente às secas; por seu vigor, era uma variedade mais infensa às pragas e ,por outro lado, produzia até por 8 anos. Em suma, era muito mais vantajoso que o herbáceo, que tinha um ciclo vegetativo muito curto – geralmente um ano e, além disso, mais suscetível a pragas. O cultivo do algodão arbóreo “mocó” alimentava um grande número de usinas de beneficiamento. Além da fibra de excelente qualidade, tinha como subprodutos óleo vegetal e ração animal ( torta de algodão). Por ser na época fonte segura de renda para o produtor foi chamado de “ouro branco”.

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A produção do algodão era muito importante no aspecto econômico no Rio Grande do Norte e igualmente movimentava as principais cidades das áreas de produção. Na foto temos um registro da escolha da “Rainha do Algodão”, na cidade de Currais Novos, em 1954, durante um congresso. Da esquerda para direita vemos Maria Lourdes Medeiros (Representando a cidade de Jardim do Seridó), Deise Trindade (De Caicó e vencedora do concurso) e Nazareth Cortez (Currais Novos).

Durante muito tempo o algodão do Seridó deteve a reputação de algodão de primeira qualidade. O Dicionário Geográfico do Brasil em 1922 registrava: O produto é de ótima qualidade. Na exposição Nacional de 1908,o da zona do Seridó obteve o grande prêmio e o de toda região sertaneja alcança sempre cotações superiores nos mercados internos e externo”.

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No entanto, o algodão nordestino foi perdendo paulatinamente,  sua posição hegemônica como principal matéria-prima consumida pela indústria têxtil brasileira. As crises de oferta da fibra nordestina estariam ligadas, por um lado, às devastadoras secas que atingiam impiedosamente as lavouras sertanejas. Por outro lado, com a chegada do bicudo (nos anos 80), praga de difícil controle e depois com a abertura do mercado nacional às importações subsidiadas de países da Ásia nos anos 90, a cultura, que  nos anos 80 chegou a ser plantada em mais de 2 milhões de hectares no Nordeste, entrou em declínio e hoje a área cultivada está em torno de 1.300 hectares.

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Resultado da colheita de algodão guardada em um armazém.

 

FONTES:

  • Antonio Fagundes – Leituras Potyguares – Editora Sebo Vermelho-Natal/2009 ( Edição original/1933)
  • Algodão – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) – Brasília / 1981
  • Breve História do Algodão no Nordeste do Brasil – EMBRAPA Algodão – Brasília / 2003
  • Algodão – Semira Adler Vainsencher –  Fundação Joaquim Nabuco- Recife/PE
  • Pesquisas Google  – Sites:
  1. http://www.cnpa.embrapa.br/produtos/algodão/apresentacao.html
  2. http://www.noticiasagricolas.com.br/noticias.php?id=28594
  3. http://www.cnpa.embrapa.br./publicacoes/2003/DOC117.PDF
  4. http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar
  5. http:??noticiasdeontem.net/materias/anoIV/XXVII/0_algodao_moco_do_serido.html
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NEM AS MARGENS OUVIRAM

Quadro do pintor paraibano Pedro Américo (óleo sobre tela, 1888) - Fonte - pt.wikipedia.org
Quadro do pintor paraibano Pedro Américo (óleo sobre tela, 1888) – Fonte – pt.wikipedia.org

O Grito do Ipiranga não teve qualquer repercussão na época.

Autora – Lucia Bastos

Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/nem-as-margens-ouviram

“Independência ou Morte!” Consagrado pela História, o Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, quase não causou repercussão entre seus contemporâneos. Na imprensa do Rio de Janeiro, somente o número de 20 de setembro do jornal O Espelho exaltou “o grito acorde de todos os brasileiros”. Na prática, a Independência estava longe de chegar.

Três séculos depois do descobrimento, o Brasil não passava de cinco regiões distintas, que compartilhavam a mesma língua, a mesma religião e, sobretudo, a aversão ou o desprezo pelos naturais do reino, como definiu o historiador Capistrano de Abreu. Em 1808, os ventos começaram a mudar. A vinda da Corte e a presença inédita de um soberano em terras americanas motivaram novas esperanças entre a elite intelectual luso-brasileira. Àquela altura, ninguém vislumbrava a ideia de uma separação, mas esperava-se ao menos que a metrópole deixasse de ser tão centralizadora em suas políticas. Vã ilusão: o império instalado no Rio de Janeiro simplesmente copiou as principais estruturas administrativas de Portugal, o que contribuiu para reforçar o lugar central da metrópole, agora na América, não só em relação às demais capitanias do Brasil, mas até ao próprio território europeu.

 D. Pedro I do Brasil, D. Pedro IV em Portugal (1782-1847), Pinacoteca do Estado de São Paulo
D. Pedro I do Brasil, D. Pedro IV em Portugal (1782-1847), Pinacoteca do Estado de São Paulo

O auge do questionamento das práticas do Antigo Regime aconteceu em 24 de agosto de 1820, quando estourou a Revolução Liberal do Porto. Clamava-se por uma Constituição baseada nas liberdades e direitos do liberalismo nascente. A revolução teve importante eco no Brasil, por meio de uma espantosa quantidade de jornais e folhetos políticos. Durante todo o ano de 1821, porém, não surgiu nesses impressos qualquer proposta favorável à emancipação.

Até o início de 1822, ninguém falava de Brasil. Ao partir para as Cortes de Lisboa, para a discussão da Constituição do Reino, os deputados americanos pensavam apenas em suas “pátrias locais”, ou seja, em suas províncias. Só os paulistas demonstraram alguma preocupação em construir uma proposta para o conjunto da América portuguesa. Nem por isso abriam mão da integridade do Reino Unido: sugeriam o Brasil como sede da monarquia, ou então a alternância da residência do rei entre um lado e outro do Atlântico. “Independência” significava, antes de mais nada, autonomia.

Ao longo daquele ano, porém, o discurso se radicalizou. A insatisfação com a metrópole crescia, pois das Cortes vinham propostas para retomar algumas das antigas restrições políticas e econômicas que tinham limitado a autonomia do Brasil no passado. Junto com o projeto constitucionalista surgia a ideia separatista, embora ainda não direcionada a toda a América portuguesa.

Aclamação de D. Pedro I no Campo de Santana, Rio. Quadro de Jean Baptiste Debret
Aclamação de D. Pedro I no Campo de Santana, Rio. Quadro de Jean Baptiste Debret

Considerada na época como a data que oficializou a separação do Brasil de sua antiga metrópole, a aclamação de Pedro I como imperador, em 12 de outubro de 1822, não significou a unidade política do novo Império. A proposta foi aceita pelas Câmaras Municipais de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Pernambuco titubeou durante algum tempo. Por causa das dificuldades de comunicação, Goiás e Mato Grosso só prestaram juramento de fidelidade ao Império em janeiro de 1823. Enquanto isso, Pará, Maranhão, Piauí e Ceará, além de parte da Bahia e da província Cisplatina, permaneceram leais a Portugal, refratárias ao governo do Rio de Janeiro. Foram tempos de guerra.

No início de 1823, enquanto várias províncias já escolhiam seus deputados para a Assembleia Legislativa e Constituinte do Rio de Janeiro, o Maranhão elegia deputados para as Cortes ordinárias de Portugal.

Enfim, apesar dos horrores da guerra e das tensões que não desapareceram, esboçou-se pela força a unidade territorial do Brasil. Mas o rompimento total e definitivo mantinha-se sub judice. Afinal, o imperador era português e sucessor do trono dos Bragança. Capaz, portanto, de reunir novamente, após a morte do pai, os dois territórios que o Atlântico separava.

Somente em 1825, depois de demoradas negociações, D. João VI reconheceu a Independência, em troca de indenizações. Mesmo assim, o gesto veio sob a forma de concessão, transferindo a soberania do reino português, que ele detinha, para o reino do Brasil, sob a autoridade de seu filho. E D. João foi além: reservou para si o título de imperador do novo país, registrado nos documentos que assinou até sua morte, em 1826.

Os laços de sangue faziam da Independência um processo ambíguo e parcial. Foi preciso esperar outra data, a da abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, para que se rompesse definitivamente qualquer vínculo do Brasil com Portugal. Assumia o poder um soberano-menino, também ele um Bragança, mas nascido e criado no Brasil. No linguajar dos exaltados do período regencial, acabava-se “a farsa da independência Ipiranga”.

Lucia Bastos Pereira das Neves é professora titular de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora de Corcundas e constitucionais: a cultura política da Independência (1808-1822) (Revan, 2003).

VELHOS VAQUEIROS POTIGUARES – SEU TRABALHO, SEU ORGULHO E SUA LUTA

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Vaqueiro potiguar, sítio Gavião, Sítio Novo-RN – Foto – Rostand Medeiros.

Autor – Rostand Medeiros

Descendo de gente que cavalgou encourado de gibão e perneira junto com seus vaqueiros. De gente que desamassou muito chocalho e desempenou muito badalo. Que cavalgou junto com seu pessoal no meio da caatinga atrás de barbatão bruto. Que escutou belos aboios pelas veredas do sertão, ferrou e tratou de muito bezerro. Que passou muito sebo em gibão, que botou muita peia e apertou muito pau de porteira. Que junto com seus vaqueiros vendeu seus rebanhos nas feiras de Itambé e Pedras de Fogo, que dormiu no meio do mato escutando grilo e acordou com o gado. Que trabalhando em conjunto com seu pessoal recuperou muita rês caída, amansou burro brabo e curou doença com erva do mato. Que sofreu com a seca e rezou junto com seu povo pela volta das chuvas. Que tocou gado desde o Piauí até a sombra da Serra da Rajada. Que amou sua terra, sua gente, respeitou seus vaqueiros e deixou nos seus descendentes a marca e a força do sertanejo nordestino.

Vaqueiro do Nordeste, 1941, bico de pena de Percy Lau
Vaqueiro do Nordeste, 1941, bico de pena de Percy Lau

Mas como viviam e trabalhavam estes vaqueiros?

Um conjunto de textos publicados na imprensa potiguar na última década do século XIX pode ajuda os nossos leitores a conhecerem um pouco mais sobre esta questão!

Fama de Sincero e Solidário

Antes de tudo esses vaqueiros do passado possuíam uma fama que os precediam desde o interior potiguar e chegava até as ruas da pequena capital do Rio Grande do Norte – Uma leal e escrupulosa sinceridade.

E o código era tão forte que se um destes vaqueiros não cumprisse os tácitos compromissos que a profissão impunha era desprezado pelos colegas. Isso não estava escrito, mas era lei entre aqueles homens vestidos de couro.

Vaqueiros paraibanos, década de 1920
Vaqueiros paraibanos, década de 1920

Mesmo a maioria dos vaqueiros sem saber nada de letras, eles chamavam atenção de muitos pela inteligência e capacidade. Conheciam palmo a palmo os campos onde cavalgavam, sabendo com precisão todos os nomes das serras e dos riachos. Tinham na mente todas as marcas (ferros) das fazendas da sua região e mantinha relações com todos que labutavam no mesmo trabalho duro.  

Tinham uma grande capacidade visual e auditiva no meio da caatinga. Escutavam de longe o badalo do sino de algum animal, chegando a distinguir qual animal era pelo som do sino e rastejavam as trilhas de seus animais com enorme capacidade.

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Mas seus conhecimentos práticos eram muito amplos. Só de olhar rapidamente uma rês, além de saberem quem era o dono, sabiam a era (o ano) em que o animal nasceu e se tinha alguma doença. Se fêmea sabiam se estava amojada ou parida. Conservavam por muitos dias as informações sobre um determinado animal visto em alguma parte e, se fosse perguntado por um companheiro, transmitia todos os dados sobre aquele animal em um forte espírito de solidariedade profissional.

Se um vaqueiro encontrava em alguma vereda um animal atolado, com bicheira, ou vítima de algum acidente, este era imediatamente socorrido, fosse ele de quem fosse. E tomavam conta do bicho até o dono aparecer.

Vaqueiros cearenses, década de 1920
Vaqueiros cearenses, década de 1920

Se um animal da fazenda em que um vaqueiro trabalhava estivesse nas terras de outras pessoas, normalmente o dono ou encarregado desta propriedade não negava informações e apoio ao homem encourado que necessitasse andar nas suas terras. Não era difícil que este dono ou encarregado montasse na sua cavalgadura e ajudasse o companheiro a encontrar o animal perdido.

Os cronistas do passado apontaram que os vaqueiros de antigamente tinham uma preocupação constante em saber onde e como estavam as cabeças de gado sob a sua responsabilidade, os “da sua conta” como diziam. Montavam seus alazões e, às vezes com a ajuda dos vizinhos mais próximos, passavam horas vigiando os campos, contando e pesquisando os animais. Salvo nos curtos meses de inverno, esta atividade preenchia muito do tempo de trabalho dos antigos vaqueiros.

Na época chuvosa os vaqueiros não tiravam o olho dos seus animais, mas também pegavam na enxada e cuidavam das roças de milho, feijão, jerimum, melão, etc.

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Durante os meses de seca deixavam os currais vazios e poupavam as vacas, ao ponto de nem tirar leite delas para seu consumo e de sua família. Nestas ocasiões davam leite de cabra para as crianças e dele faziam queijos. Os caprinos eram criados soltos, forneciam carne de ótima qualidade e os vaqueiros ainda faturavam algum com suas peles.

Era também nas épocas de estiagem que se dedicavam a abrir cacimbas nos leitos secos dos rios e de barragens. O resultado deste trabalho servia tanto para consumo humano, quanto dos animais. Mas também tinha outra função – reunir o gado solto.

Naquelas eras passadas este trabalho era feito utilizando juntas de bois, que arrastavam a areia dos leitos dos rios em couros, ou tábuas. Os animais utilizados nestas juntas eram fortes e mansos, sendo conhecidos como “bois de areia”. Diante deste duro trabalho o patrão costumava fornecer aos seus vaqueiros uma “matalotagem”. Ou seja, farinha, sal e uma rês para ser carneada e consumida para matar a fome de todos e repor as energias.]

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Aberta a cacimba e após aflorar um pouco de água em meio a terra ressequida, os vaqueiros ficavam aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Estas “esperas” podiam durar três dias ou mais, mas era certo que as cabeças de gado surgiam sedentas do meio da caatinga seca.

O gado que vinha beber possuíam marcas de várias propriedades e era comum que nessas cacimbas ocorressem pequenas e limitadas “apartações”. Os vaqueiros de uma determinada região do interior potiguar reuniam-se sucessivamente em várias cacimbas abertas, juntavam o gado “de sua conta” e levavam para seus currais aquilo de sua responsabilidade. Mas também era comum nestas ocasiões, os vaqueiros apresentarem aos companheiros a sua destreza na montaria e sua perícia na derrubada do boi. Era um aperitivo para o evento maior – a vaquejada…

A Grande Festa de Gado

As vaquejadas da época costumavam acontecer entre maio e junho e as fazendas de maior importância sempre tinham este tipo de evento. Mas diferentemente do que ocorre atualmente, quando a vaquejada é um evento basicamente esportivo, na última década do século XIX as vaquejadas potiguares possuíam um sentido muito prático.

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Na parte específica destinada ao trabalho dos vaqueiros, era um misto do que atualmente costuma se chamar de pega de boi no mato e da atual vaquejada.

Primeiramente um grupo de 50 ou mais vaqueiros, devidamente apetrechado, se reuniam na fazenda de algum fazendeiro de peso financeiro na região e então os grupos saiam em várias direções atrás do gado solto nas caatingas.

Era então marcado um ponto de reunião e para este local, a uma determinada hora marcada pelo andar do sol no firmamento, seguiam todos os vaqueiros com o gado que pudessem reunir. Era o momento que a captura dos animais se tornava uma grande pega de boi no mato.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Com todos os vaqueiros presentes no local e hora determinada, era então organizada uma grande boiada em direção a sede da fazenda, marchando o gado entre uma grande escolta de cavaleiros. A “testa” da boiada seguiam os “guias”, que além de apontarem o caminho, serviam de segurança para evitar o “arranco”, ou estouro, dos animais. Nos lados da boiada e atrás seguiam outros grupos de vaqueiros encourados para evitar a dispersão.

Já no pátio da casa grande da fazenda, além dos proprietários do lugar, se concentrava numerosa plateia formada por pessoas da região.

Conforme o gado chegava aos currais era normal alguma rês mais afoita se dispersar, ou partir em desabalada carreira pelo campo. Nessa hora os vaqueiros mais “amostrados” saiam em disparada nos seus alazões, apresentando sua destreza e capacidade de trazer os animais de volta ao grande grupo, ou derrubando-os para força uma parada e reconduzi-los a boiada.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Os cronistas antigos comentam que não era algo incomum que alguns vaqueiros, com ânsia de se apresentarem para alguma mocinha que estava assistindo a chegada dos animais, “apertarem” a boiada para algum animal fugir em disparada e eles apresentarem sua destreza ao público derrubando o animal no pátio da fazenda.

Mas ao final todos os animais eram colocados nos currais, muitos destes cercados com muros de pedras erguidos por escravos e antiquíssimos. Das “eras dos mais antigos” como diziam!

Então os animais eram liberados no amplo pátio da fazenda um a um, sendo cada um deles perseguidos por um, ou dois vaqueiros encourados, que tentavam derrubar a rês para delírio de todos que ali estavam.

Era um momento de magia pura. Uma verdadeira emulação de embriaguez e vaidade, onde em meio a aplausos, chistes, xingamentos e assovios, aqueles cavaleiros nordestinos vestidos de couro barateavam 100 vezes as suas vidas e onde não eram raros os acidentes mortais para homens e animais.

Serra Talhada - PE - Foto - Rostand Medeiros
Vaqueiros de Serra Talhada – PE – Foto – Rostand Medeiros

Derrubadores de gado afamados eram convidados para os eventos. Mas os cronistas antigos não informaram quem eram estes vaqueiros, de qual região vinham estes homens e nem se havia prêmios em disputa.

Em relação a afamados vaqueiros, os textos mencionaram um certo Pereirinha. Este era um vaqueiro de baixa estatura, muito famoso e que na década de 1890 era lembrado pelos mais antigos pelo seu aboio e sua inteligência. Diziam que Pereirinha tinha tanta capacidade, que ele deveria ter “secretas inteligências com o diabo”.

Normalmente estas vaquejadas do passado duravam em média de dois a três dias e no final era feita a “apartação”, onde cada vaqueiro seguia com o gado “da sua conta”.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Aquelas vaquejadas, aqueles encontros de vários vaqueiros, serviam para muitas coisas no sertão potiguar de outrora. Em uma região com povoamento limitado, onde as poucas festas sociais que haviam tinha forte conotação religiosa, estas vaquejadas eram na sua natureza mais livres e aparentemente proporcionavam farto meio de encontro social. Havia muita troca de notícias, eram realizados diversos tipos de negócios, solução de questões e nestas ocasiões poderiam se consolidar relacionamentos amorosos (o que também podia gerar conflitos, mas isso fazia parte da festa e da vida).

Evidentemente que um encontro de tantos vaqueiros numa única área durante dois a três dias, facilitava a “pega” do gado solto e o amplo cruzamento de vários animais confinados em currais. O que de alguma maneira ajudava no melhoramento da raça bovina.

Caso de um acidente em vaquejada, em Acari - RN, em 1891.
Caso de um acidente em vaquejada, Acari – RN, 1891.

Se atualmente grupos de direitos dos animais observam a vaquejada de uma maneira negativa e busca impor limites a este esporte, na década de 1890 igualmente havia seus críticos. Alguns fazendeiros proibiam a prática em suas propriedades, alegando que, além do perigo físico para os vaqueiros, o barulho e a movimentação espantavam as reses para longe, tornando-as “embravecidas”, ou seja, semisselvagens.

Um dado interessante existente nos jornais potiguares era que naquela época os autores consideravam que a vaquejada estava cada vez mais rara. Entre as razões estavam o fato do gado está “mais manso”.

Apesar das festas e vida aventurosa, aparentemente a vida dos vaqueiros potiguares estava mudando, para pior, na sua relação com seus patrões.

O Lucro dos Patrões Muda Antigas Relações 

A provável quebra das seculares e costumeiras regras de divisão da produção de uma propriedade rural de criação de gado, visando o lucro com a venda de produtos gerados a partir do trabalho dos vaqueiros e de seus familiares, aparentemente estava gerando questionamentos e desconfianças por parte dos vaqueiros potiguares na década de 1890.

Os textos existentes nos jornais potiguares deixaram registradas as características de alguns destes conflitos entre patrões e seus vaqueiros.

Marcas do trabalho do vaqueiro - Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Marcas do trabalho do vaqueiro – Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Pelo trabalho de cuidas da terra, zelar o gado e outras obrigações que tinham, os patrões davam aos vaqueiros um quarto de toda produção animal e o leite de vaca, um dos principais alimentos nos sertões.

Mesmo com os trabalhadores encourados habitando em terras que não lhes pertenciam, há séculos que estes viviam e labutavam nos sertões potiguares de maneira muito independente. E, mesmo que estivessem livres da presença constante dos patrões, normalmente seus arraigados códigos ancestrais de honra e de dever lhes impediam de se aproveitarem daquilo que não era deles.

Muitas vezes vamos encontrar os proprietários em suas fazendas apenas em “visitas” anuais, principalmente em época de inverno. Nestas ocasiões os proprietários eram recebidos com extrema atenção e espontânea delicadeza pelos vaqueiros e seus familiares. Onde não era difícil existir entre patrões e empregados o regime de compadrio.

Quando os patrões passavam o “verde” (inverno) nas suas propriedades de criação, seus encarregados lhes entregavam todo leite que necessitavam, reservando para eles e suas famílias muitas vezes apenas o estritamente necessário.

Havia anos, principalmente nas épocas de estiagem, em que os patrões sequer apareciam em suas glebas. Mas, dependendo da localização, não era difícil que seu vaqueiro fosse ao seu encontro levando uns tantos quilos de queijo.

Entretanto, provavelmente pelo aumento do consumo de queijo em áreas urbanas cada vez mais povoadas, alguns proprietários rurais passaram a exigir que seus vaqueiros lhes entregassem a cada ano umas “tantas arroubas de queijo”, equivalentes à metade da produção de leite de cada inverno.

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Os cronistas da época consideravam que os proprietários não tinham “razão na exigência” e em claras letras apontavam a prática como sendo uma “extorsão”, tida como “odiosa”, além de “ridícula”.

Pelas características da região em que viviam, pelas sutilezas do seu modo de vida e da maneira como os vaqueiros realizavam o seu trabalho, os textos apontavam que era interessante evitar “recriminações”, que só serviriam para “desmoralizar a autoridade do amo e afrouxar o zelo do vaqueiro”.

Enganado Pelas Poucas Letras

Outros problemas apontados nos textos dizem respeito às divisões dos bezerros nascidos.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Serra Talhada – PE – Foto – Rostand Medeiros

Quando chegavam os tempos da “ferra” e das “partilhas”, quase sempre realizadas nos mesmos períodos das vaquejadas, o vaqueiro apresentava ao patrão, ou ao seu representante, os bezerros nascidos naquele ano. Estes animais eram divididos, segundo o sexo, em “linhas”, ou lotes. Começava então as “ferragens” de uma das “linhas” e, ferrados três bezerros para o patrão, ferrava-se um quarto animal para o vaqueiro. Isso seguia até esgota-se aquele lote e assim procediam com lotes subsequentes.

Acontecia que muitos lotes não eram múltiplos de 4 e ocorriam as “sobras”. E aí começavam os problemas!

Havia patrões que levavam em conta nas partilhas do ano seguinte os restos que foram indivisíveis por 4. Já outros reuniam as sobras de cada lote e realizavam a partilha sem levar em conta “as sobras das sobras”.

Serra Talhada - PE - Foto - Rostand Medeiros
Serra Talhada – PE – Foto – Rostand Medeiros

Mas muitos patrões desprezavam em proveito próprio os restos excedentes e, fazendo uma partilha desigual, argumentavam para o vaqueiro que seria “impossível tirar-se a 4ª parte de 1, de 2, ou de 3 unidades sem frações”. Vaqueiros com mais iniciativa e algum conhecimento argumentavam com os patrões que, reduzidos os bezerros ao valor monetário, estes poderiam lhes pagar em dinheiro vivo a 4ª parte que lhes era de direito.

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Mas os cronistas apontam que a maioria dos vaqueiros aceitavam estes acordos espúrios por estarem presos aos seus arraigados e seculares códigos de condutas diante dos patrões, ou por puro desconhecimento aritmético. Muitos baixavam a cabeça por precisarem do emprego. E a dispensa de um vaqueiro por um fazendeiro era algo tão importante que poderia se transformar até em notícia de jornal, conforme vemos acima.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Para o caso da divisão da produção de cavalos e mures utilizava-se os mesmos métodos.

Sobre isso um cronista trouxe um caso específico, que mostra como aconteciam naqueles dias algumas relações de ganhos e perdas entre patrões e vaqueiros.

Certo vaqueiro cuidava de seis éguas e esperava ganhar um quarto da produção. Ocorre que no primeiro ano de trato dos animais as éguas só pariram três potrinhos e o patrão, que se regia pelo sistema que um quarto só se poderia tirar de quatro, não deu nada ao seu vaqueiro. No ano seguinte repete-se a mesma situação. No terceiro ano as éguas deram cinco crias e o patrão só lhe deu um animal e nada mais.

Nova geração de vaqueiros - Serra Talhada - PE - Foto - Rostand Medeiros
Nova geração de vaqueiros e suas marcas – Serra Talhada – PE – Foto – Rostand Medeiros

Enfim, foram três anos de trabalho pesado, cuidando de onze potros e recebendo como paga apenas um animal com meses de vida. Quando havia no lote animais com dois ou três anos.

Conclusão

Muito do que acontecia com os vaqueiros potiguares na década de 1890, acontecia com outros vaqueiros em toda a região que depois seria conhecida como Nordeste do Brasil.

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Posso até está equivocado, mas na minha visão atualmente poucos são os vaqueiros potiguares que envergam a tradicional roupa de couro.

Apesar da força da vaquejada moderna no Rio Grande do Norte, pouco são os locais onde existe a prática da pega do boi tradicional.

Na visão do autor deste artigo, a necessidade de utilizar as tradicionais roupas de couro é pequena no Rio Grande do Norte devido ao intenso desmatamento do sertão aqui praticado, com casos inclusive de acentuada desertificação. Isso com certeza é um fator para o desaparecimento em terras potiguares de um dos maiores símbolos da tradição nordestina.

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ARQUITETURA DO SERTÃO

Casa da fazenda Sabugi, no Rio Grande do Norte - Foto - Nathália Diniz
Casa da fazenda Sabugi, no Rio Grande do Norte – Foto – Nathália Diniz

Estudo revela a arquitetura rural do século XIX no interior do Nordeste

Juliana Sayuri | Edição 216 – Fevereiro de 2014

Fonte- http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/02/12/outros-sertoes/

O sertão é do tamanho do mundo, dizia Guimarães Rosa. Dizia como ainda dizem os que se enveredam pelos tortuosos caminhos dos rincões nordestinos em busca de histórias, respostas, saberes. Não raro, porém, muitos retornam dessas terras ainda mais intrigados com novas questões. A pesquisadora Nathália Maria Montenegro Diniz mergulhou diversas vezes nesse território. Ali nasceram a dissertação de mestrado Velhas fazendas da Ribeira do Seridó (defendida em 2008) e a tese de doutorado Um sertão entre tantos outros: fazendas de gado nas Ribeiras do Norte (em 2013), ambas realizadas sob orientação de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Nessas empreitadas, ela encontrou não apenas respostas a seus estudos sobre a arquitetura rural do século XIX sertão adentro, mas também questionamentos novos que deram fôlego para um novo projeto de pesquisa, vencedor da 10ª edição do Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica – Clarival do Prado Valladares, divulgado em dezembro. O projeto O conhecimento científico do mundo português do século XVIII, de Magnus Roberto de Mello Pereira e Ana Lúcia Rocha Barbalho da Cruz, também foi premiado. Os vencedores foram escolhidos entre 213 trabalhos inscritos pela originalidade dos temas. O prêmio inclui a produção e publicação de um livro, sem valor predeterminado.

É difícil desvencilhar a história pessoal de Nathália Diniz de seu itinerário intelectual. De uma família de 11 filhos originária de Caicó, na região do Seridó, interior do Rio Grande do Norte, ela foi a primeira a nascer na capital potiguar. Em 1975, a família mudou-se para Natal – professores de matemática por ofício, os pais pretendiam oferecer melhores condições educacionais para os filhos. Nas férias e feriados todos retornavam à pequena cidade, onde ficavam em uma das casas das fazendas que pertenceu ao tataravô da pesquisadora. “Logo cedo pude notar as visões diferentes construídas sobre o sertão nordestino. As casas que eu via não eram as mesmas retratadas nas novelas de época, da aristocracia rural. Era outro sertão”, lembra.

Graduada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Nathália quis explorar os outros sertões esquecidos no século XIX, mais especialmente no Seridó, uma microrregião do semiárido que ocupa 25% do território do estado. Lá o povoamento se iniciou no século XVII com as fazendas de gado e o cultivo de algodão. Ainda estudante, deu o primeiro passo nessa direção quando participou de um projeto de extensão que investigou os núcleos de ocupação original do Seridó a partir de registros fotográficos e fichas catalográficas feitas por estudantes e pesquisadores. Descobriram, assim, que essas casas, posteriores ao período colonial, mantinham características herdadas da arquitetura colonial ao lado de elementos ecléticos modernos.

Uma vez bacharel, Nathália viajou a São Paulo para participar de um encontro de arquitetos e deparou com o processo seletivo para mestrado na FAU. Decidiu, então, despedir-se do Nordeste para estudar na capital paulista. “Foi preciso partir para poder redescobrir os sertões”, diz ela. Para seu projeto de dissertação, a jovem arquiteta tinha um trunfo: a originalidade da pesquisa sobre as casas de Seridó. “Quase ninguém conhece aquele patrimônio. Quis apresentar essa realidade nas minhas pesquisas.”

Acervo arquitetônico

Nathália investigou o acervo arquitetônico rural do Seridó, de formas simples e austeras, sem o apelo estético de outros exemplares do litoral nordestino. Essas construções, entre casas de famílias, casas de farinha e engenhos, representam um tipo de economia do século XIX alicerçado no pastoreio e no cultivo de algodão. Embora fundamental para a identidade da região, segundo o estudo, esse acervo composto por 52 edificações conta com poucas iniciativas concretas para tornar viável sua preservação.

Casa da fazenda Almas de Cima, também no Rio Grande do Norte: preservação ainda precária - Fonte - Nathália Diniz
Casa da fazenda Almas de Cima, também no Rio Grande do Norte: preservação ainda precária – Fonte – Nathália Diniz

No início do século XVII, com o povoamento do interior do Rio Grande do Norte, sesmeiros pernambucanos fincaram raízes no Seridó. Foi no século XVIII que surgiram as casas na região feitas de taipa, com madeiramento amarrado com couro cru, chão de barro batido e térreas, com telhado de beira e bica. Lentamente, as casas de taipa passaram a alvenaria, com tijolos apenas na fachada. Por fim, no século XIX, o Seridó ficou marcado pela construção de grandes casas de fazenda, habitadas pelo proprietário, familiares, agregados e escravos.

No doutorado, a arquiteta expandiu horizontes, territoriais e teóricos. Por um lado, debruçou-se sobre a arquitetura rural vinculada às fazendas de gado nos sertões do Norte (atuais estados da Bahia, Paraíba, Pernambuco, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte). Ela mapeou um acervo de 116 casas-sede a partir de levantamentos arquitetônicos do Piauí, Ceará e Bahia. A fim de melhor compreender o patrimônio material e imaterial nas habitações rurais dessa região, entrou nos campos da história social e da história econômica.

Do inventário de 116 casas-sede alicerçadas em pedra bruta, erigidas em diferentes ribeiras (Ribeira do Seridó, do Piauí, da Paraíba, dos Inhamuns e do São Francisco e Alto Sertão Baiano), a pesquisadora notou a heterogeneidade das construções arquitetônicas nas rotas do gado no Nordeste, que mantinham um mercado interno agitado, embora desconhecido, no calcanhar da economia do litoral exportador. Eram ainda construções pensadas para a realidade sertaneja, com sótãos e outras estruturas propícias para arejar os ambientes castigados pela alta temperatura e pelo tempo seco.

A casa da fazenda Santa Casa - Foto - Nathália Diniz
A casa da fazenda Santa Casa – Foto – Nathália Diniz

Contornando ribeiras e atravessando sertões, Nathália Diniz construiu suas investigações a partir de vestígios de tijolo, pedra e barro. Muitas casas de taipa, mencionadas nos arquivos, não resistiram ao tempo e desapareceram. Restaram fazendas formadas por casas-sede e currais. Entre as características da maioria das construções estavam à disposição dos ambientes: os serviços nos fundos do terreno, com tachos de cobre, pilões, gamelas; e a intimidade da vida doméstica no miolo das edificações, com mobiliário trivial, como mesas rústicas e redes, assentos de couro e de sola, baús e arcas de madeira. Em muitas fazendas, em paralelo a criação de gado, cultivaram-se cana-de-açúcar e mandioca, de onde viriam a rapadura e a farinha, que, ao lado da carne de sol, tornaram-se a base da alimentação sertaneja. “A arquitetura rural não segue modelos”, diz Nathália. “Os primeiros proprietários dessas casas eram filhos dos antigos senhores de engenho do litoral. Se a arquitetura rural tivesse um modelo, eles teriam construído casas similares às de seus pais no litoral, o que não ocorreu. A arquitetura dos sertões mostra a formação de uma sociedade a partir da interiorização dos sertões do Norte, de uma economia marcada pelo gado.”

Depois do doutoramento em São Paulo, a pesquisadora retornou a Natal, onde é professora de história da arte e de arquitetura no Centro Universitário Facex. Seu projeto atual é aprofundar a análise arquitetônica das casas-sede, explorando uma lacuna na historiografia brasileira sobre as relações sociais e suas consequências materiais nos sertões, ainda hoje um universo inóspito e incógnito, marcado por longas distâncias e imensos vazios. Esses territórios ficaram esquecidos, apesar de presentes na literatura e nos relatos memorialistas. Daí brotaram generalizações sobre o Nordeste e sua arquitetura rural, ainda compreendida a partir dos padrões dominantes da Zona da Mata pernambucana e do Recôncavo Baiano – o que, nas palavras da pesquisadora, não condiz com a realidade.

Exemplos da arquitetura sertaneja na Paraíba: sede da fazenda Sobrado - Foto - Nathália Diniz
Exemplos da arquitetura sertaneja na Paraíba: sede da fazenda Sobrado – Foto – Nathália Diniz

Originalidade do tema

O novo trabalho será bancado com o prêmio ganho em dezembro e desenvolvido com o apoio de Beatriz Bueno, da FAU-USP. “O projeto de Nathália foi escolhido pela originalidade do tema e pela oportunidade que nos proporciona de compreender o processo de ocupação do sertão brasileiro e suas dimensões econômica, histórica e social”, diz o coordenador do Comitê Cultural da Odebrecht, Márcio Polidoro. Na economia, ela destacará o ferro que marcava o gado e que permitia identificar a fazenda à qual pertencia – até agora, a pesquisadora já coleciona 653 desenhos de ferro diferentes. “Num sertão disperso, sem fronteiras claramente visíveis, pontuado por tribos indígenas inimigas, o gado carregou a representação do território e da própria propriedade dos que vinham de outros lugares”, define. Na sociedade, ao cruzar os inventários post-mortem encontrados nos arquivos e nas casas, pretende compreender e revelar a vida cotidiana do sertanejo que se desenrolava a morosos passos no século XIX. Fará novas viagens para refazer fotografias e rever anotações. Mais uma vez, um retorno às suas raízes e às terras, tão diferentes das que via nas novelas na sua infância. “Ainda procuro o que buscava desde o início: quero mostrar o que eram esses outros sertões. Nós conhecemos a riqueza da arquitetura litorânea, a arquitetura do açúcar e do café. Falta a arquitetura sertaneja”, conclui.

ProjetoPaisagem cultural sertaneja: as fazendas de gado do sertão nordestino (nº 2009/09508); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisadora responsável Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno; Bolsista Nathália Maria Montenegro Diniz; Investimento R$ 130.587,92 (FAPESP).

A PRISÃO DE JUAREZ TÁVORA PELOS POTIGUARES NO PIAUÍ

Autor – Rostand Medeiros

Nos últimos dois anos, em razão da pesquisa do meu livro “João Rufino-Um visionário de fé”, estive várias vezes na cidade de São Miguel (RN).

Nesta pitoresca localidade, seguramente um dos seus principais acontecimentos históricos ocorridos durante o século XX, foi a passagem no ano de 1926 do grande grupo revolucionário que ficaria conhecido como “Coluna Prestes”.

Juarez Távora

Durante a pesquisa que realizei nos velhos jornais do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, percebi o quanto a passagem deste grupo foi marcante nos vários estados da região Nordeste onde eles estiveram. Conhecidos em sua época como “Revoltosos”, os membros deste grupo tinham como uma de suas principais lideranças um cearense chamado Juarez Távora. Este fazia parte da revolta desde o seu início, mas foi preso no Piauí. E quem o prendeu foram policiais potiguares que estavam neste estado ao lado da “legalidade”, ou do governo, para combater a “revolta”.

Lendo as páginas dos jornais antigos percebi uma história pouco conhecida.

Os Revoltosos e Juarez Távora

Sem nenhuma dúvida a Coluna Prestes foi um dos movimentos militares mais importantes da história do Brasil no século XX. Era formada por militares que tinham como objetivo derrubar do seu cargo o então presidente da República, Arthur Bernardes.

Para muitos os revoltosos buscavam a queda de Bernardes em nome da solução dos problemas sociais que afetavam a chamada República Velha. Para outros o movimento rebelde, não obstante seu espetacular deslocamento pelo interior do Brasil, no fundo não passava de uma ação conservadora e elitista, por ter sido criado no interior das academias militares do Exército Brasileiro, ambiente onde proliferava o pensamento positivista oriundo das ideias do francês Augusto Comte.

Independente desta questão, desde 1922, principalmente os tenentes do Exército conspiravam contra o governo e chegaram a realizar ações, como a Revolta do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, que foram violentamente reprimidas.

O garboso oficial Távora

Já Juarez do Nascimento Fernandes Távora nasceu na fazenda do Embargo, no município de Jaguaribemirim, atual Jaguaribe (CE), no ano de 1898. Estudou na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, graduando-se aspirante a oficial em 1919. Participa das várias revoltas militares do período. Foi preso e julgado, tendo sido condenado a três anos de prisão. Acabou perdendo sua patente no Exército e daí desertou. Participou da rebelião em São Paulo de 1924, onde morreu seu irmão Joaquim Távora. Diante da derrota neste estado Juarez segue com seus comandados em direção ao Paraná e se junta a coluna de revoltosos sob o comando do capitão Luís Carlos Prestes, que vinham do Rio Grande do Sul onde igualmente promoveram revoltas.

Luís Carlos Prestes

Com a unificação dos grupos rebeldes estes saíram a pé e a cavalo pelo país afora. Ocorreram apoios por parte da sociedade e os combatentes utilizavam a tática da “guerra em movimento”, para combater as tropas governamentais que não lhes davam trégua.

Durante o trajeto dos revoltosos o militar cearense foi um dos seus principais líderes, fazendo parte de seu Estado Maior.

Envio dos Potiguares e o Tiroteio em Flores

As forças do governo perseguiam fortemente os revoltosos. O presidente Bernardes solicitou a participação de forças de vários estados para engrossarem o combate aos homens de Prestes. Haviam forças policiais estaduais, onde se tinha a ideia que estes elementos possuíam um melhor conhecimento do terreno a ser percorrido no combate aos revoltosos. Mas no caso do então Regimento de Polícia Militar do Rio Grande do Norte, a solicitação de Bernardes ao mandatário do executivo potiguar na época, José Augusto Bezerra de Medeiros, foi de enviar um contingente da nossa polícia ao Maranhão.

Membros da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, diante do antigo quartel próximo ao centro de Natal

Segundo o jornal “A Republica”, o principal de Natal na época, as cinco da tarde do dia 14 de dezembro de 1925 partia do porto de Natal no vapor “Pará”, uma companhia composta de quase 100 homens, comandados pelo capitão Apolônio Seabra de Melo e mais cinco oficiais. Dias depois a tropa policial potiguar chegou ao Maranhão e se uniu aos homens do 29º Batalhão de Caçadores do Exército, que igualmente haviam saído de Natal. No dia 25, em plena comemoração natalina, a tropa seguiu primeiramente para Caxias e depois o seu destino foi a cidade de Flores, atual Timon, na fronteira do Piauí, próximo a Teresina.

Quando as tropas das duas instituições militares baseadas em Natal chegaram a Flores, a capital do Piauí sofria um cerco por parte dos revoltosos desde o dia 23 de dezembro e a ação das forças potiguares, juntamente com outras unidades do Exército e de policíais estaduais, era romper as linhas de Prestes.

Na noite de ano novo na pequena Flores, os policiais potiguares foram severamente atacados pelos rebeldes. No livro “História do Batalhão de Segurança”, de Rômulo C. Wanderley (1969 – págs. 60 a 69), segundo o relato do então aspeçada (patente atualmente extinta) Pedro Silvio de Moraes, em meio a uma forte chuva e trovoadas ocorreu este combate, que se prolongou até às dez horas da manhã do dia seguinte e os rebeldes chegaram a utilizar armas automáticas.

A refrega foi violenta. Do lado potiguar caiu ferido o cabo Dário Correia e morreu varado por vários balaços o 2º sargento Augusto Azevedo de Souza. Este foi postumamente promovido a 2º tenente. Neste mesmo combate, segundo uma nota publicada em “A Republica”, de 20 de janeiro de 1926, intitulada “Em defesa da legalidade”, o jovem Elias Ferreira de Mello, cabo do 29º Batalhão de Caçadores e natural da então Vila da região seridoense de Parelhas, foi promovido por bravura.

Notícia sobre a luta na cidade de Flores, hoje Timón, no Maranhão

O cerco a Teresina durou nove dias e se prolongou até 1 de janeiro de 1926.

A Prisão de Juarez Távora

Consta no livro de Rômulo C. Wanderley que após o tiroteio, Juarez Távora foi fazer um reconhecimento do terreno e teria se equivocado na direção de onde estavam seus comandados. Como consequência teria se encontrado com uma tropa legalista potiguar, comandada pelo cabo José Paulino de Medeiros. Diante da surpresa e na eminência do confronto, Távora se entregou sem resistência.

Na edição de 22 de fevereiro de 1926, o jornal recifense “A Provincia” transcreveu um artigo do padre, jornalista, escritor e membro da Academia Carioca de Letras, o cearense Assis Memória, sobre uma visita que fez ao conterrâneo Juarez Távora. Este era prisioneiro da Marinha na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro e comentou com o padre que foi detido nas margens do rio Parnaíba.

Texto do Padre Assis Memória sobre Távora

No livro “A Coluna Prestes no Piauí” (2009), o jornalista piauiense Chico Castro defende outra tese: Juarez Távora não foi capturado, ele se entregou. Para o autor, em uma entrevista a Agência Senado quando do lançamento do seu livro, comentou que “A elucidação da suposta prisão de Juarez Távora é importante porque, a partir desse episódio, a Coluna Prestes perdeu forças e, ao invés de avançar para o norte do Brasil, recuou em direção à Bolívia para o exílio. No livro eu contesto a versão do próprio Juarez, de que ele foi preso. Na verdade ele praticamente se entregou”.

Logo após sua prisão Juarez Távora foi enviado para São Luís, capital do Maranhão, para embarcar em um navio em direção a então Capital Federal, o Rio de Janeiro.

No livro Rômulo C. Wanderley, João Paulino comentou que durante o trajeto o prisioneiro se manteve imperturbável e com exceção de um copo de leite não aceitou alimento algum. Durante o trajeto o Capitão Apolônio Seabra teria conversado com Juarez, buscando demovê-lo de sua luta e voltar ao Exército. Mas este pediu ao capitão para “não estragar suas palavras”, pois ele era “um idealista” e assim morreria.

Foto pouco conhecida de Juarez Távora detido, provavelmente em São Luiz. O militar sorridente ao seu lado não foi indentificado, mas pode ser o cabo João Paulino que o deteve.

Em São Luís, o prisioneiro Távora embarcou no vapor “Rodrigues Alves”, junto com o companheiro de revolta e igualmente membro do Estado Maior revoltoso, o capitão Paulo Krugger da Cunha Cruz, capturado no Maranhão. Segundo nota do jornal recifense “A Notícia”, de 18 de janeiro de 1926, estes prisioneiros de alto valor para o Exército estavam incomunicáveis, sob escolta de militares do 21º Batalhão de Caçadores, comandados pelo capitão Leal Ferreira.

Nota sobre a passagem de Távora e Paulo Krugger por Recife

O Que Ocorreu Depois

Depois da prisão de Juarez Távora a Coluna Prestes seguiu pelo Piauí, sempre perseguidos pelas tropas legalistas. Passaram pelos municípios de Altos, Alto Longá, Campo Maior, Castelo, Piripiri, Pedro II, Valença, Oeiras, Picos, Pio IX, Simões, Jaícós e Uruçui. Depois seguiram para o Ceará e adentraram no Rio Grande do Norte pelo município de São Miguel, na sequência estiveram na cidade de Luís Gomes e seguiram para a Paraíba.

Em 1927 a Coluna Preste se dissolve depois de percorrer mais de 24.000 quilômetros. Muitos dos seus participantes, que ficaram ao lado de Luiz Carlos Prestes até o fim, conseguiram asilo político por parte do governo da Bolívia.

Depois de sua captura, Juarez Távora foi enviado ao Rio de Janeiro, onde ficou prisioneiro na ilha de Trindade e depois na ilha das Cobras. Deste local conseguiu fugir e viajou com uma identidade falsa para o Uruguai. Ele continuou na sua luta pela revolução e se dirigiu para o Nordeste. Na região começou as articulações com as forças políticas e militares, onde ele comandaria a conhecida Revolução de 30 entre os nordestinos.

À exceção de Prestes, os outros integrantes da Coluna mais tarde estariam aliados a Getúlio Dorneles Vargas, no golpe de 1930. Consta que Prestes, após receber dinheiro de Lindolfo Collor e Osvaldo Aranha para organizar forças que participariam do golpe de 1930, tomou outro caminho. Foi para Moscou, onde passou a integrar os quadros da Internacional Comunista.

Mas isso é outra história.

Ele retornou ao Brasil na ilegalidade e com identidade falsa. Aqui organizou uma tentativa fracassada de golpe comunista em 1935.

Já os policiais do Rio Grande do Norte desembarcaram em Natal, mais precisamente no Cais da Tavares de Lira, no dia 25 de fevereiro de 1926, em meio a um grande júbilo por parte das autoridades e do povo da cidade.

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