AS METAMORFOSES DO CORONELISMO

Coronel Marcolino Diniz e seus homens de confiança, Paraíba.

José Murilo de Carvalho – Professor UFRJ (Publicado no Jornal do Brasil em 6/05/2001).

“A lei parava nas porteiras das fazendas. O governo renunciava ao seu caráter público. Um elementar senso de autodefesa dizia à população rural que era mais vantajoso submeter-se ao poder e a proteção do coronel”

Dizia Víctor Nunes Leal, no clássico Coronelismo, enxada e voto, publicado em 1949, que coronelismo era compromisso entre poder privado e poder público. O compromisso, continuava ele, derivava de um longo processo histórico e se enraizava na estrutura social. A urbanização, a industrialização, a libertação do eleitorado rural, o aperfeiçoamento da justiça eleitoral, acreditava, iriam enterrar coronéis e coronelismo.

Pedida a bênção a quem de direito, me aventuro em variações em torno do tema.

Coronel Antônio Ferreira de Carvalho, conhecido como “Antônio Caixeiro”, Sergipe.

No princípio, era o “coronel”. Entre aspas, porque não era chamado assim. Era o homem-bom, o chefe , o patriarca, o mandão, o grande senhor de terras e de escravos, base da organização social da colônia. Alguns historiadores o chamaram até de senhor feudal. Comandava vasto séquito que incluía a família, a parentela, os escravos, os agregados, os capangas. Todos dependiam dele, de seu poder, de seu dinheiro, de sua proteção. Controlava a terra, o trabalho, a política, a polícia e a justiça. Alguns isolavam-se no interior comandando estados à parte. A maioria, no entanto, desde o início vinculava-se à economia exportadora e à administração colonial. O poder colonial não tinha braços suficientes para administrar e delegava aos chefes locais tarefas de governo ou simplesmente deixava que mandassem como bem entendessem.

“Foi na Bahia que os coronéis chegaram ao auge da influência, como tão bem demonstra a obra romanesca de Jorge Amado”

Quando a colônia virou Brasil, o “coronel” virou coronel, sem aspas. A Regência, imprensada entre reacionários de um lado e “povo e tropa”, do outro, não tinha como manter a ordem. Criou a Guarda Nacional, de olho na congênere francesa, para colocar a manutenção da ordem nas mãos dos que tinham o que perder. Faziam parte da Guarda os adultos entre 21 e 60 anos que tivessem renda de 200 mil-réis nas quatro maiores cidades e 100 mil-réis no resto do país. Os oficiais eram nomeados pelo ministro da Justiça, sob recomendação dos presidentes de província. Pode-se adivinhar quem era escolhido. A hierarquia da Guarda seguia a hierarquia da renda e do poder.

Coronal Erônides Ferreira de Carvalho, filho de Antônio Ferreira de Carvalho, Sergipe.

O chefão local virava coronel, o posto mais alto, o segundo mais poderoso virava tenente-coronel, o seguinte major, e assim por diante. Lavradores e artesãos tinham que se contentar em ser praças. A Guarda foi um eficiente mecanismo encontrado pelo governo para cooptar os senhores de terra, para estreitar o laço entre governo e poder privado. Se o posto de coronel não bastava, o governo o fazia barão. Com o tempo, a Guarda deixou de exercer funções de segurança e virou instrumento político-eleitoral. O coronel virou chefe político. A ele se dirigia o deputado para pedir votos. Vangloriava-se das relações com políticos da capital. Alguns iam a cidades próximas para mandar carta para si mesmos, pretendendo ser carta de deputado. Podia ser caprichoso. Na década de 50 do século XX, um coronel ainda se negou a apoiar um pretendente porque não dava votos a quem usava paletó rachado na bunda. A tecnologia eleitoral aperfeiçoou-se em suas mãos. Criou o voto de defunto, o fósforo, que votava várias vezes, o capanga que espantava o opositor, o curral, o bico-de-pena. Para seus subordinados, continuava sendo o chefe, o juiz, o protetor. Seu capanga não era condenado se cometesse crime, seus dependentes não eram recrutados para o serviço militar, seu escravo era solto. Sua mulher não precisava ser defendida das autoridades porque estava submetida a sua justiça particular.

Coronel Horácio Queirós de Matos, Bahia.

A federação de 1891 abriu as portas do paraíso para o coronel. Agora havia um governador de estado eleito que dependia mais dele do que o ministro da Justiça. Surgiu o coronelismo como sistema na terminologia de Víctor Nunes. O coronel municipal apoiava o coronel estadual que apoiava o coronel nacional, também chamado de presidente da República, que apoiava o coronel estadual, que apoiava o coronel municipal. Aperfeiçoou-se ao máximo a técnica eleitoral. Quanto mais regular a eleição, de acordo com as atas, mais fraudada era. Nem a capital da República escapava. Um coronel da Guarda costumava incluir entre os preparativos das eleições cariocas a contratação de um médico para assistir os feridos nos inevitáveis rolos que seus próprios capangas provocavam. Aumentou também o dá-cá-toma-lá entre coronéis e governo. As nomeações de funcionários se faziam sob consulta aos chefes locais. Surgiram o “juiz nosso” e o “delegado nosso”, para aplicar a lei contra os inimigos e proteger os amigos. O clientelismo, isto é, a troca de favores com o uso de bens públicos, sobretudo empregos, tornou-se a moeda de troca do coronelismo. Em sua forma extrema, o clientelismo virava nepotismo. O coronel nomeava, ou fazia nomear, filho, genro, cunhado, primo, sobrinho. Só não nomeava mulher e filha porque o lugar delas ainda era dentro de casa.

Os coronéis tornaram-se poderosos e onipresentes. Em São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul foram enquadrados pelos partidos republicanos estaduais, o PRP, PRM, PRR. No Rio Grande do Sul, seu enquadramento foi feito por Júlio de Castilhos. Dele se conta que ao ouvir um coronel interiorano começar uma frase assim: “Chefe, eu penso que…” interrompeu-o bruscamente dizendo: “Você não pensa, quem pensa sou eu”. Outros estados, como Bahia e Pernambuco, tiveram maiores dificuldades em controlá-los. Nesses estados, alguns coronéis se tornaram legendários. Em Pernambuco, Chico Romão, Chico Heráclio, Veremundo Soares, coronel intelectual, e José Abílio, de que um padre disse poder ser enquadrado em todos os artigos do Código Penal.

Coronel Audálio Tenório de Albuquerque, Pernambuco.

Foi na Bahia que os coronéis chegaram ao auge da influência, como tão bem demonstra a obra romanesca de Jorge Amado. De tão fortes, desafiavam o governo do estado. O coronel estadual, ou governador, em geral membro das velhas oligarquias, não conseguia controlar os coronéis municipais, chefes de estados dentro do estado. Os partidos, Republicano da Bahia e Republicano Democrático, eram meras aglomerações de coronéis rivais. O maior dos coronéis baianos na Primeira República foi Horácio de Matos, senhor das Lavras Diamantinas. Em fins de 1919, ele chefiou uma revolta de coronéis contra o governo do estado. Reuniu mais de 4 mil homens em armas. O governo federal interveio e assinou um tratado de paz com os coronéis, passando por cima do governador. Horácio lutou contra a coluna Prestes e contra Lampião. Em 1930, a pedido de Washington Luís, reuniu milhares de homens para atacar Minas Gerais na expectativa de fazer abortar a revolução que a Aliança Liberal pusera na rua.

Coronel José Pereira Lima, Paraíba.

O coronelismo, como sistema nacional de poder, acabou em 1930, mais precisamente com a prisão do governador gaúcho, Flores da Cunha, em 1937. O centralismo estado-novista destruiu o federalismo de 1891 e reduziu o poder dos governadores e de seus coronéis. Mas os coronéis não desapareceram. Alguns da velha estirpe ainda sobreviveram ao Estado Novo. Chico Romão viveu até a década de 60, assustado ao final da vida com o surgimento das Ligas Camponesas. E surgiu o novo coronel, metamorfose do antigo, que vive da sobrevivência de traços, práticas e valores remanescentes dos velhos tempos.

O coronel típico da Primeira República dependia do governo para manter seu poder. Era governista por definição. Nos casos extremos em que se revoltava contra o governo estadual, fazia-o em conluio com o governo federal. Víctor Nunes percebeu com clareza o problema. O coronel não era funcionário do governo, mas tão pouco senhor absoluto, independente, isolado em seus domínios. Era um intermediário. Sua intermediação sustentava-se em dois pilares. Um deles era a incapacidade do governo de levar a administração, sobretudo da justiça, à população. Constrangido ou de bom grado, o governo aliava-se ao poder privado, renunciando a seu caráter público.

Coronel Joaquim da Silva Saldanha, o “Quincas Saldanha”, Rio Grande do Norte.

A lei parava na porteira das fazendas. O outro era a dependência econômica e social da população. Até 1940, a população brasileira era predominantemente rural (60% nessa data), pobre e analfabeta. Um elementar senso de autodefesa lhe dizia que era mais vantajoso submeter-se ao poder e à proteção do coronel. Fora dessa proteção, restava-lhe a lei, isto é, o total desamparo. Não havia direitos civis, não havia direitos políticos autênticos, não havia cidadãos. Havia o poder do governo e o poder do coronel, em conluio.

Com base nessas premissas, Víctor Nunes previa o fim do coronelismo e do coronel quando o país se industrializasse e urbanizasse, as eleições se moralizassem, o cidadão se emancipasse. O país urbanizou-se (81% da população são hoje urbanos), industrializou-se (só 24% da mão de obra se emprega na agricultura), o direito do voto se estendeu a 65% da população, a justiça eleitoral acabou com a fraude. Diante desses dados, é preciso optar por uma das seguintes saídas: ou dizer que Víctor Nunes se enganou na previsão; ou admitir que ele acertou e que falar hoje em coronel é mera figura de linguagem, retórica política; ou afirmar que a palavra está sendo usada com outro sentido.

Coronel Abílio Wolney, Goiás.

Vamos por partes. São inegáveis as drásticas mudanças econômicas e demográficas por que passou o país desde 1950. Mas algumas coisas não mudaram tanto. Não mudaram a pobreza, a desigualdade e, até recentemente, o nível educacional. Os 50% mais pobres da população ainda recebem apenas 14,5% da renda nacional, ao passo que o 1% mais rico fica com quase a mesma parcela, 12,5%. Adotando-se a linha divisória de 70 dólares, definida pela Organização Mundial de Saúde, mais de 50% dos brasileiros devem ser classificados como pobres. Para o Nordeste, a porcentagem sobe para 80%. A renda per capita de São Paulo equivale a 5 vezes a do Piauí. Cerca de 30% da população de 15 anos ou mais são analfabetos funcionais (menos de quatro anos de estudo). No Nordeste, a porcentagem é de 50%, no Nordeste rural, de 72%. A pobreza e a baixa escolaridade mantêm a dependência de grande parte do eleitorado. O clientelismo tem aí terreno fértil em que vicejar.

Coronel Francisco Heráclio do Rêgo, o “Chico Heráclio”, Pernambuco

Além disso, a política nem sempre segue de perto, de imediato e em linha reta, as transformações sociais. Uma consequência política das mudanças pode ser detectada na década de 30. Surgiu no Rio de Janeiro o populismo, que se difundiu pelas grandes cidades nas décadas de 50 e 60. Ao mesmo tempo que invadia as cidades, a população foi pela primeira vez na história do país admitida em massa ao exercício do voto. Era um passo à frente, mas estávamos longe de um eleitorado maduro. No populismo, o eleitor dispensava a mediação do coronel mas fazia do líder um grande coronel urbano de que esperava ajuda e proteção. No Rio de Janeiro, o populismo montou uma máquina clientelística de corrupção e distribuição de favores à custa de recursos públicos. Mas quando o eleitorado começou a emancipar-se, o golpe de 1964 paralisou a experiência e atrasou o aprendizado democrático por 26 anos, criando um descompasso entre o social e o político. Grande parte do eleitorado de hoje começou a votar sob a ditadura. Muitos desses eleitores ainda funcionam no antigo esquema clientelístico.

Coronel Pacífico Clementino de Medeiros, Rio Grande do Norte e Padre Cícero Romão Baptista, Ceará.

Por fim, quando se fala, melhor, quando eu falo, de coronéis hoje uso a parte pelo todo. O coronel de hoje não vive num sistema coronelista que envolvia os três níveis de governo, não derruba governadores, não tem seu poder baseado na posse da terra e no controle da população rural. Mas mantém do antigo coronel a arrogância e a prepotência no trato com os adversários, a inadaptação às regras da convivência democrática, a convicção de estar acima da lei, a incapacidade de distinguir o público do privado, o uso do poder para conseguir empregos, contratos, financiamentos, subsídios e outros favores para enriquecimento próprio e da parentela. Tempera tudo isso com o molho do paternalismo e do clientelismo distribuindo as sobras das benesses públicas de que se apropria. Habilidoso, ele pode usar máscaras, como a do líder populista, ou do campeão da moralidade. Para conseguir tudo isso, conta hoje, como contava ontem, com a conivência dos governos estadual e federal, prontos a comprar seu apoio para manter a base de sustentação, fazer aprovar leis, evitar investigações indesejáveis. Nesse sentido, o novo coronel é parte de um sistema clientelístico nacional.

Joaquim Paulino de Medeiros, o “Quincó da Ramada”, Rio Grande do Norte.

Nem errou Víctor Nunes, nem uso figura de linguagem. Apenas opero ligeiro deslizamento semântico do conceito. Tudo resolvido? Não. Que os pobres, os analfabetos funcionais, os eleitores iniciantes, elejam e reelejam os neo-coronéis, pode-se entender. Mas quando artistas e intelectuais se solidarizam com paizinhos e paizões, a análise precisa ir mais fundo, além da sociologia. Ela precisa questionar a natureza mesma de nossa cidadania, aventurando-se nos subterrâneos da cultura e da psicologia coletiva. Os valores subjacentes aos pólos coronel/cliente, pai/filho, senhor/servo, parecem persistir na cabeça de muitos de nossos melhores cidadãos e cidadãs, bloqueando a consolidação democrática.

QUANDO LAMPIÃO SENTIU FRIO

Autor – Rostand Medeiros

Quem visita a bela cidade pernambucana de Triunfo se encanta com seu intenso frio que ocorre em algumas épocas do ano, a hospitalidade do seu povo, as belezas do lugar e muitas outras atrações.

O antigo Cine Teatro Guarany, exemplo do belo casario histórico de Triunfo – Foto – Rostand Medeiros

Certamente que o clima diferenciado, bem distinto do que estamos acostumados a encontrar pelo interior do Nordeste, é o que mais me marcou nas várias visitas que realizo na região, desde 1999.

Enfim, para quem mora em Natal, não é todo dia que dá para sentir temperaturas que variam de 10 a 19 graus.

Em Triunfo, Sertão do Pajeú, é possível realizar por preços bem razoáveis, ótimos passeios em camionetes, conhecendo as belezas naturais e históricas que existem na região.

Encoberta pela névoa vemos a sombra da torre da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, em Triunfo – Foto – Rostand Medeiros

A muito que desejava conhecer o Pico do Papagaio, ponto culminante da região e de todo estado de Pernambuco. Se na cidade o frio já era muito bom, a visita ao Pico do Papagaio foi uma experiência muito mais “gelada” e gratificante.

Belos Visuais e Muita História

O trajeto até o local é feito por estradas simples, mas bem conservadas.

Dá para ter até mesmo uma recordação em relação ao Seridó Potiguar, nas extensas e antigas cercas de pedras. Estas são muito parecidas as existentes nas zonas rurais de Caicó, Acari, Jardim e outras cidades seridoenses. A diferença proporcionada pelo clima é que enquanto no Seridó as cercas quase sempre se encontram desprovida de vegetação, em Triunfo estas pedras alinhadas, normalmente estão sempre cobertas por muito verde.

Cercas de pedra, tal como no Seridó Potiguar – Foto – Rostand Medeiros

Outra coisa interessante é a existência de plantações de café. Foi muito comum durante o trajeto ver grandes quantidades deste produto secando em pátios de cimento, diante das casas da região.

Em certo ponto fui tomado de completa surpresa, com a informação transmitida pelo nosso Guia de Turismo, o Sr. Antônio, que de um mirante apontou para os contrafortes da Serra do Pau Ferrado e da região do Saco dos Caçulas, antigos esconderijos de Lampião e seus homens. Além destes, o Sr. Antônio apontou o antigo “Casarão dos Patos”, que pertencia a Marcolino Diniz, filho do coronel Marçal, dois grandes coiteiros de Lampião na região e palco de sérios combates na época da Guerra de Princesa, ocorrida em 1930. Chamou-me atenção que, apesar da altitude, a distância relativa em quilômetros era um tanto curta, mostrando que não seria difícil o deslocamento entre aqueles locais e a região do Pico do Papagaio.

A distância se vê o contorno da Serra do Pau Ferrado, em território paraibano. Ao pé desta serra estão as propriedades Patos e Saco dos Caçulas, importantes coitos de Lampião – Foto – Rostand Medeiros

Seguimos com o Sr. Antônio na direção do ponto culminante do pico, na valente e vetusta D-20 azul, a diesel, cabine dupla.

Um Belo e Diferente Nordeste

A área onde se encontra o Pico do Papagaio é caracterizada a distância pela existência de várias antenas de comunicação e uma estátua de um tradicional Careta de Triunfo.

Caretas do carnaval de Triunfo – Foto Cristina barbosa-Fonte – httpne10.uol.com.br.jpg

Os chamados Caretas são os principais personagens do Carnaval de Triunfo e uma marca registrada desta bela cidade. Eles ganham as ruas da cidade nesta época de festejos com fantasias compostas por belos e extremamente característicos traços desta manifestação cultural. Os Caretas se fantasiam com máscaras feitas de papel, grude e amido de mandioca, além de chapéu de palha quebrado na testa, tal como os cangaceiros. Trazem um relho, ou chicote, e uma tabuleta onde são escritas frases satíricas, como as existentes nos para-choques de caminhão.

Segundo alguns estudiosos, a origem da festividade não faz parte do período carnavalesco, mas do ciclo natalino e teria se iniciado por uma proibição. Durante uma apresentação, dois triunfenses que representavam os personagens “Mateus”, de um reisado que ocorria na cidade, se embriagaram e foram proibidos de participar da manifestação. Inconformados, eles vagaram fantasiados pelo município, fazendo barulho com um chocalho e inaugurando a brincadeira dos Caretas.

Em meio a névoa, com o relho na mão, vemos a estátua do Careta do Pico do Papagaio – Foto – Rostand Medeiros

Ao chegarmos ao cume do pico, encontramos uma pequena área de estacionamento. Existem algumas edificações já bem desgastadas pelas chuvas e umidade, mas a paisagem é estonteante. Estamos cercados de serras, muito verde, nuvens e, evidentemente muito frio. Segundo o nosso Guia de Turismo, o Sr. Antônio, o Pico do Papagaio é o segundo ponto culminante do Nordeste, com 1.260 metros. Perde apenas para uma elevação com 1.860 metros, na Chapada Diamantina, Bahia e fica acima do Pico do Jabre, localizado no município de Maturéia, na Paraíba, este último com 1.197 metros de altitude.

Independente de quem é maior no quesito altitude, no dia em que estive neste local o frio era de rachar os ossos. Ventava muito e certamente a temperatura estava entre 10 e 13 graus, segundo informação do nosso Guia. Mesmo protegido, para um cidadão que cresceu aproveitando as tépidas águas existentes na Praia de Búzios, ao sul de Natal, o frio já estava me incomodando.

Aspecto da região do Pico do Papagaio no dia da nossa visita – Foto – Rostand Medeiros

Memórias dos Cangaceiros no Alto da Serra

O Sr. Antônio então chamou para conhecer a pequena loja de artesanato do lugar. Confesso que fiquei surpreso, pois não vi nenhuma placa indicativa.

A lojinha está situada em uma casa bem simples, mas interiormente possui muito calor, além da riqueza e diversidade do artesanato local. Este local de apoio foi criado pela associação UNAM-Unidade Agrícola Microondas.

Loja de artesanato no alto do pico – Foto – Rostand Medeiros

Fomos recebidos por três senhoras, muito prestativas e atenciosas, que prontamente ofereceram um quente e gostoso café orgânico, das plantações dos sítios das proximidades.

Bem, como eu gosto de café e de conversar, além de estar em uma região onde o cangaço proliferou, não dava para deixar de perguntar se alguém tinha ouvido falar sobre a passagem de cangaceiros por aquelas terras altas. Todas as três senhoras responderam que “sim”!

Delas, a que tinha mais informações foi Dona Terezinha, de 67 anos, nascida e criada naquele alto de serra, mais precisamente no Sítio Fortaleza. Ela comentou que Antônio José, seu pai, viu em algumas ocasiões a passagem do “Rei do Cangaço” e seus “Cabras“ pela região, onde recebiam apoio de sua família.

“-Ele era mocinho, mas recordava muito a passagem dos cangaceiros”. Comentou Dona Terezinha.

Ela afirma que  o esconderijo, ou coito, mais utilizado era no Sítio Espirito Santo. A área servia com local de passagem, onde os cangaceiros sabiam que não teriam maiores problemas.

Segundo seu pai, os cangaceiros tratavam a todos com extrema cortesia. Normalmente pediam comida aos moradores da região e solicitavam descrição em relação à presença deles na área.

A Época da Passagem dos Cangaceiros

Para ela os cangaceiros passaram pela região do Pico do Papagaio nas “eras de 20”, antes da “Questão de Princesa”.

O coronel José Pereira, com o chapéu na mão direita, durante a Guerra de Princesa

Seguramente Dona Terezinha estava apontando a passagem de Lampião pela região nos primeiros anos da década de 1920, quando Lampião deixou de frequentar a área, devido a bem sucedida invasão a cidade paraibana de Sousa.

Este ataque foi realizado na madrugada de 27 de julho de 1924, pelos homens de Lampião (que estava ausente devido a um ferimento), na companhia do cangaceiro paraibano Chico Pereira, que tinha questões a serem resolvidas com a influente família Mariz.

O assalto a Sousa, a “Mossoró que deu certo”, teve uma enorme repercussão nos meios políticos da época. Onde ficou difícil para o coronel Marçal, seu filho Marcolino e o coronel José Pereira Lima, o líder político da cidade paraibana de Princesa, atual Princesa Isabel, manter o apoio a Lampião e seus homens.

Coronel José Pereira de Lima

O coronel José Pereira possuía laços de parentesco com Marçal Florentino e seu filho. Consta que ele apoiou a proteção que seus parentes forneciam a Lampião e seus homens, talvez por ter algum tipo de vantagem. Mas diante do que aconteceu em Sousa, José Pereira, que era deputado estadual na Paraíba, solicitou aos parentes que mandassem Lampião seguir para outras regiões.

Já a “Questão de Princesa”, foi a famosa guerra ocorrida no sertão paraibano, que teve início em fevereiro de 1930, onde grupos de jagunços, ex-cangaceiros, desertores da polícia paraibana, sob o comando do coronel José Pereira, se defrontaram contra forças legalistas do governador João Pessoa. Foi um acontecimento que marcou e transformou a vida nacional, considerado por muitos historiadores, o ponto inicial da Revolução de 1930.

João Pessoa, governador paraibano em 1930

A situação foi tão radical que José Pereira resolveu proclamar independência da sua cidade em relação ao Estado da Paraíba, sendo subordinado diretamente ao Governo Federal. O Território Livre de Princesa ganhou projeção nacional e internacional. Tinha suas  próprias leis, hino, bandeira, jornal, ministros e até exército.

O conflito se encerra após a morte de João Pessoa e a ocupação da região de Princesa em 11 de agosto de 1930, por tropas do exército brasileiro.

Fortes Ligações

Mas voltando a passagem dos cangaceiros pela região do Pico do Papagaio, Dona Terezinha afirma que nunca houve combates entre os cangaceiros e policiais, pois a polícia não chegava até ali.

Indagado do porque desta situação, ela me comentou que era devido ao respeito e força política do coronel Marçal, parente de sua família.

Marcolino Diniz

Aí perguntei seu nome completo. Ela se chama Terezinha Florentino de Souza Barbosa, seu pai era Antônio José Florentino.

Belas paisagens da região – Foto – Rostand Medeiros

É provável que a informação de Dona Terezinha esteja correta e, a pedido do parente abastardo, os Florentinos que viviam no Pico do Papagaio forneciram apoio a Lampião e seus cangaceiros naqueles anos conturbados. Vale ressaltar que Lampião jamais molestou ninguém da região. Além do mais, a região do Pico do Papagaio está situada geograficamente entre a cidade Triunfo e a atual Princesa Isabel, mais próximo desta última.

Lampião “O Rei do Cangaço”

Dona Terezinha comentou que a relação era tão positiva, que um membro de sua família, conhecido como Roldão Florentino, um dia decidiu seguir Lampião e nunca mais deu notícia.

Influência

É fato mais que conhecido que Marçal e seu filho Marcolino forneciam proteção a Lampião em várias de suas propriedades. Desde a Fazenda Abóboras, próximo a Serra Talhada, como no Casarão dos Patos, mais próximo de Princesa.

Temperatura matutina em Triunfo – Foto – Rostand Medeiros

Mas além de cederem suas propriedades para os cangaceiros, Marçal e Marcolino parecem ter utilizado de sua influência para conseguir este apoio junto aos seus parentes na região do Pico do Papagaio. Certamente com o conhecimento do coronel José Pereira.

Para os Florentinos que viviam nas elevações não havia muito que fazer. Negar um pedido a alguém da família que era rico e influente, era uma descortesia. Mas seria verdadeiro sacrilégio, além de um risco a saúde, negar este pedido quando o beneficiário era o próprio Lampião.

No ponto mais alto do Pico do Papagaio – Foto – Rostand Medeiros

Certamente que havia o compromisso tácito de Lampião para não atacar as propriedades e os interesses de Marçal e Marcolino. Mas existe a dúvida se estes fazendeiros não repartiam com o maior bandido que pisou em solo brasileiro, os lucros das diversas ações de rapinagem que ele praticou com seus homens nos sertões pernambucano, alagoano, paraibano e cearense.

Aspecto de uma casa típica da região serrana de Triunfo – Foto – Rostand Medeiros

Existem informações que o coronel José Pereira guardava grandes somas de dinheiro do cangaceiro Lampião, tudo fruto de produto de roubo. Quando Lampião foi “convidado” a deixar esta região de fronteira entre Pernambuco e a Paraíba, José Pereira “esqueceu” de devolver a grana de Lampião e este jamais perdoou o poderoso fazendeiro e político.

Eu acredito que Triunfo é um dos poucos locais que se pesquisa sobre o cangaço com roupa contra o frio

Se isso é verdade, ou não, eu não sei e nem os protagonistas deixaram em algum cartório documentos sobre estes fatos registrados em três vias. Mas o que fica patente diante das informações prestadas por Dona Terezinha, é que a influência destes poderosos em favor de Lampião chegava até o ponto culminante da região.

A bela Triunfo – Foto – Rostand Medeiros

Ainda ligados a este assunto veja;

https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/07/20/fazenda-abobora-%E2%80%93-um-importante-local-para-historia-do-nordeste/

https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/06/07/a-batalha-do-casarao-dos-patos/  

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