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CHAPÉU DE COURO NORDESTINO – INDENTIDADE DE UMA REGIÃO

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AS FOTOS QUE ILUSTRAM ESTE TEXTO SÃO DE ORGULHOSOS NORDESTINOS QUE CONHECI EM VÁRIOS LOCAIS DA NOSSA REGIÃO, JUNTO COM OUTROS AMIGOS, NOS ÚLTIMOS SEIS ANOS. SÃO PESSOAS QUE NÃO SE ENVERGONHAM DE USAR O CHAPÉU DE COURO – Fazenda Colônia – Carnaíba – Pernambuco – Foto – Solón Almeida Netto – 2008.

Autor – Rostand Medeiros

Este é um artefato que funciona como verdadeiro distintivo do Nordeste e do nordestino. Creio que talvez não existe um material com um aspecto tão forte em termos de identidade, tão representativo do nosso sertão do que o belo e tradicional chapéu de couro.

Um Material Com Fins Práticos 

A pecuária, a criação de gado no interior da atual Região do Nordeste do Brasil foi o primeiro grande fator de geração de renda e permanência do homem nesta região árida. Da atividade de criar o gado se obtinha a carne para alimentação, o leite e em seguida o couro, que era utilizado de diversas maneiras nas propriedades rurais. Em algumas fazendas se desenvolveram rústicos curtumes, que serviram para transformar o couro em mais um meio de geração de renda. Certamente foi nestes locais que se iniciou a tradição da manufatura dos chapéus de couro.

Este tradicional artefato nordestino inicialmente serviu basicamente para fins práticos, principalmente como parte da indumentária de proteção dos vaqueiros.

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Jeremoabo – Bahia – Foto – Rostand Medeiros – 2012

Além de primariamente servirem para proteger a cabeça dos sertanejos do inclemente sol e das chuvas temporárias, igualmente era utilizado para proteger seus usuários das ervas espinhosas da vegetação de caatinga, juntamente com o gibão e a perneira.

Mas apesar da designação comum, os chapéus de couro não possuíam um formato único. Variavam imensamente conforme a localidade do vaqueiro, servindo até mesmo como um identificador de sua proveniência.

Muitos acreditam que o tradicional chapéu de couro nordestino foi criado pelos cangaceiros. Mas isso não é verdade!

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Distrito de Nazaré, município de Floresta – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2016

Entretanto devemos a estes bandoleiros das caatingas a transformação deste material em uma peça característica extremamente marcante na história deste movimento. Os cangaceiros faziam questão de colocar várias moedas (talvez para mostrar o apurado dos saques?), santinhos, cruzes, estrelas e outros símbolos, criando peças únicas em termos de estética e simbologia.

Fabricação Nada Fácil

Fabricar os tradicionais chapéus de couro nordestinos não é nada fácil. Primeiramente o couro do animal é levado para o curtimento vegetal. Lá ele é tratado, onde pode permanecer cru, com ou sem pelo, ser tingido, ou não.

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Barro – Ceará – Foto – Rostand Medeiros – 2015

Na segunda parte do processo o couro é cortado, dependendo das medidas determinadas, sendo tudo geralmente produzido à mão por jovens artesões.
Depois do corte o couro é molhado para ficar mais elástico e assim ser colocado em moldes. É lá que eles ganham forma e vão para a secagem. Esse processo depende da temperatura ambiente e pode durar de duas horas ou mais. Como chove pouco no sertão nordestino, isso não é um grande problema.

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Serra Talhada – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2014

Em seguida o chapéu ganha a aba que vai proteger o rosto do vaqueiro. As oficinas fazem o tamanho das abas de acordo com o gosto do comprador, mas na Paraíba elas se caracterizam por serem curtas, já em algumas regiões da Bahia ela costuma ser maior.
A última etapa é a costura. Primeiro o material vai para a máquina de costura reta receber o acabamento. Mas os desenhos e aplicações ficam por conta da máquina manual, que apesar de ser mais trabalhosa é quem vai dar riqueza de detalhes ao chapéu de couro.

Todo esse trabalho, realizado por abnegados artesões, no meu entendimento o que mais valoriza este rico material.

Identidade Cultural

No meu entendimento foi a partir do sucesso de Luís Gonzaga no Sudeste, que utilizava vários modelos de chapéu de couro em suas apresentações, como marca de sua origem nordestina, estes acessórios passaram gradativamente a ser utilizado como símbolo da vida sertaneja e do homem nordestino. Alem do Velho Lua, estas verdadeiras coroas nordestinas foram, e ainda são, utilizadas por gente do nível de Dominguinhos, Santana e tantos outros verdadeiros cantadores nordestinos.

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Vaqueiro depois de retornar da caatinga – Barro – Ceará – Foto – Rostand Medeiros – 2015

Entretanto, artistas que atualmente se dizem “forrozeiros”, que infelizmente são oriundos do próprio Nordeste, não utilizam mais em suas apresentações estes artefatos característicos.

Que eles não queiram usar estes símbolos nos grandes palcos é problema deles. Até aí tudo bem, gosto não se discute!

Mas o que se lamenta aqui é esse pessoal, travestidos de “modernos”, menosprezarem não apenas o velho e autêntico chapéu de couro, mas toda uma secular e tradicional cultura criada na região.

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Fazenda Barreiras, região da Serra Grande – Serra Talhada – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2013

No meu entendimento o pior é que estes “artistas”, junto com a sua perniciosa e maciça “indústria cultural”, tentam de todas as formas mostrar a cultura tradicional nordestina como algo decadente, ultrapassada, sem serventia e em desuso. Estes seguem propagando músicas de extremo mau gosto, baixo nível e cantadas por gente que no máximo deveria utilizar suas vozes para vender jerimum na feira (com todo respeito aos feirantes).

A coisa é tão forte e o jogo é tão sujo que cheguei a ponto de perceber que aqueles que decidem utilizar um chapéu de couro em algumas regiões do próprio sertão nordestino são vistos de forma jocosa e com um olhar que fica entre o espanto e o mais completo escárnio. Interessante que há tempos atrás eu percebia isso apenas nas capitais.

Apesar desta questão, o bom e velho chapéu de couro está firme e forte na cabeça daqueles nordestinos que valorizam a cultura tradicional de sua terra. Até mesmo como símbolo de resistência cultural.

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Loja em Caruaru – Pernambuco – – Foto – Rostand Medeiros – 2016

E a melhor notícia é que a produção destes belos artefatos está tendo continuidade.

Resistência e Continuidade

Certamente que a maioria destes “artistas” não possuem capacidade mental de perceberem a beleza da arte que está por trás das tradicionais vestimentas e acessórios dos nossos vaqueiros. Verdadeiras obras de arte produzidas com maestria, por quem abraça um artesanato digno de exportação.

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Barro – Ceará – Foto – Rostand Medeiros – 2015

Não posso negar que em toda a região não são muitos os artesões envolvidos no processo de fabrico do tradicional chapéu de couro. Mas, para a sorte dos que valorizam a autêntica cultura nordestina, temos verdadeiros Mestres produzindo e ensinando a sua arte aos seus filhos e netos pelo Nordeste afora.

Este é o caso dos descendentes de Antônia Maria de Jesus, a conhecida “Totonha Marçal”, que continuam a manter a tradição no trabalho com chapéus de couro no Distrito da Ribeira, no município de Cabaceiras, Paraíba. Inclusive este município do Cariri Paraibano, situado a 180 Km de João Pessoa, capital da Paraíba, é atualmente o maior produtor de chapéus de couro do Brasil.

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Fino trabalho de Mestre Aprígio, de Ouricuri, Pernambuco, fotografado na Loja do Vaqueiro, em Caruaru – PE – Foto – Sérgio Azol – 2016.

Temos em Salgueiro, Pernambuco, mais precisamente na Fazenda Cacimbinhas (a 14 quilômetros do centro da cidade), o exemplo de uma família que há um século perpetua o ofício de transformar pedaços de couro em peças artesanais que conquistaram personalidades do mundo artístico e da política brasileira. Tudo começou em 1909 com Mestre Luiz, depois passou o oficio para seu filho, o conhecido Zé do Mestre. Este chegou a fabricar vestimentas (só gibões) para o amigo Luiz Gonzaga, o ex-presidente Médici, o rei Juan Carlos da Espanha e até para o Papa João Paulo II, em sua última visita ao Brasil. Atualmente a arte está preservada e nas mãos de seu filho Irineu Batista, mais conhecido como Irineu do Mestre.

Já em Ouricuri, também em Pernambuco, temos o Mestre Aprígio e o seu filho Romildo, que trabalham juntos mantendo a tradição. Mestre Aprígio tem orgulho em exibir pelas paredes de sua oficina, que outro denominam acertadamente de ateliê, as fotos que contam a história do artesão que começou a trabalhar aos 24 anos de idade. Já são mais de 50 anos de profissão e criatividade produzindo chapéus de couro, gibões e bolsas personalizados.

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Governador Diz Sept Rosado – RN – Foto – Rostand Medeiros – 2010

Evidentemente que não posso esquecer de Espedito Velozo de Carvalho, o Mestre Espedito Seleiro, de Nova Olinda, no Ceará. Ele tinha oito anos de idade quando começou a ajudar o pai em sua oficina. As histórias que ouvia quando criança eram célebres: foi o pai quem criou as sandálias do cangaceiro Lampião. Com o passar dos anos Mestre Espedito só cresceu na qualidade do seu trabalho, chamando a atenção de estilistas do Sudeste do país e foi ele que assinou as peças que o ator Marcos Palmeira usou no filme “O Homem que Desafiou o Diabo”, de 2007.

Eu acho muito bonito quem, mesmo que se abra para outras culturas, tem orgulho de sua terra e de sua identidade cultural. Para mim, junto com a bondade ao próximo e a humildade, é o tipo de situação que torna um outro ser humano verdadeiramente digno de respeito.

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Renovação, Fazenda Barreiras – Serra Talhada – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2014

Sendo assim, não posso negar que fico muito feliz quando vejo alguém utilizar o bom e velho chapéu de couro nordestino. Quando eu encontro uma pessoa utilizando este tipo de material, penso que a cultura da minha terra ainda resiste em meio a um mar de muita mediocridade.

Eu também tenho os meus chapéus de couro (3) e tenho muito orgulho de utilizá-los, pois tenho a sorte de ser nordestino e amar minha região.

 
FONTES………………………………………………………………………………………………. 

INTERNET

http://sg10.com.br/noticia/colunasespeciais/2014/9/artesao-salgueirense-mantem-tradicao-secular.html

http://tecendotexto.blogspot.com.br/2010/07/chapeu-de-couro-o-capacete-do-vaqueiro.html

http://ribeiradoriotaperoa.blogspot.com.br/2012/02/o-couro-ontem-e-hoje-na-ribeira.html

http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/espedito-seleiro/

LIVROS

FREYRE, G. Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX. Recife: Artenova, 1977.

PERICÁS, L. B. Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica. São Paulo: Boitempo, 2010.

VIANNA, L. C. R. Bezerra da Silva, produto do morro: trajetória e obra de um sambista que não é santo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

VELHOS VAQUEIROS POTIGUARES – SEU TRABALHO, SEU ORGULHO E SUA LUTA

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Vaqueiro potiguar, sítio Gavião, Sítio Novo-RN – Foto – Rostand Medeiros.

Autor – Rostand Medeiros

Descendo de gente que cavalgou encourado de gibão e perneira junto com seus vaqueiros. De gente que desamassou muito chocalho e desempenou muito badalo. Que cavalgou junto com seu pessoal no meio da caatinga atrás de barbatão bruto. Que escutou belos aboios pelas veredas do sertão, ferrou e tratou de muito bezerro. Que passou muito sebo em gibão, que botou muita peia e apertou muito pau de porteira. Que junto com seus vaqueiros vendeu seus rebanhos nas feiras de Itambé e Pedras de Fogo, que dormiu no meio do mato escutando grilo e acordou com o gado. Que trabalhando em conjunto com seu pessoal recuperou muita rês caída, amansou burro brabo e curou doença com erva do mato. Que sofreu com a seca e rezou junto com seu povo pela volta das chuvas. Que tocou gado desde o Piauí até a sombra da Serra da Rajada. Que amou sua terra, sua gente, respeitou seus vaqueiros e deixou nos seus descendentes a marca e a força do sertanejo nordestino.

Vaqueiro do Nordeste, 1941, bico de pena de Percy Lau
Vaqueiro do Nordeste, 1941, bico de pena de Percy Lau

Mas como viviam e trabalhavam estes vaqueiros?

Um conjunto de textos publicados na imprensa potiguar na última década do século XIX pode ajuda os nossos leitores a conhecerem um pouco mais sobre esta questão!

Fama de Sincero e Solidário

Antes de tudo esses vaqueiros do passado possuíam uma fama que os precediam desde o interior potiguar e chegava até as ruas da pequena capital do Rio Grande do Norte – Uma leal e escrupulosa sinceridade.

E o código era tão forte que se um destes vaqueiros não cumprisse os tácitos compromissos que a profissão impunha era desprezado pelos colegas. Isso não estava escrito, mas era lei entre aqueles homens vestidos de couro.

Vaqueiros paraibanos, década de 1920
Vaqueiros paraibanos, década de 1920

Mesmo a maioria dos vaqueiros sem saber nada de letras, eles chamavam atenção de muitos pela inteligência e capacidade. Conheciam palmo a palmo os campos onde cavalgavam, sabendo com precisão todos os nomes das serras e dos riachos. Tinham na mente todas as marcas (ferros) das fazendas da sua região e mantinha relações com todos que labutavam no mesmo trabalho duro.  

Tinham uma grande capacidade visual e auditiva no meio da caatinga. Escutavam de longe o badalo do sino de algum animal, chegando a distinguir qual animal era pelo som do sino e rastejavam as trilhas de seus animais com enorme capacidade.

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Mas seus conhecimentos práticos eram muito amplos. Só de olhar rapidamente uma rês, além de saberem quem era o dono, sabiam a era (o ano) em que o animal nasceu e se tinha alguma doença. Se fêmea sabiam se estava amojada ou parida. Conservavam por muitos dias as informações sobre um determinado animal visto em alguma parte e, se fosse perguntado por um companheiro, transmitia todos os dados sobre aquele animal em um forte espírito de solidariedade profissional.

Se um vaqueiro encontrava em alguma vereda um animal atolado, com bicheira, ou vítima de algum acidente, este era imediatamente socorrido, fosse ele de quem fosse. E tomavam conta do bicho até o dono aparecer.

Vaqueiros cearenses, década de 1920
Vaqueiros cearenses, década de 1920

Se um animal da fazenda em que um vaqueiro trabalhava estivesse nas terras de outras pessoas, normalmente o dono ou encarregado desta propriedade não negava informações e apoio ao homem encourado que necessitasse andar nas suas terras. Não era difícil que este dono ou encarregado montasse na sua cavalgadura e ajudasse o companheiro a encontrar o animal perdido.

Os cronistas do passado apontaram que os vaqueiros de antigamente tinham uma preocupação constante em saber onde e como estavam as cabeças de gado sob a sua responsabilidade, os “da sua conta” como diziam. Montavam seus alazões e, às vezes com a ajuda dos vizinhos mais próximos, passavam horas vigiando os campos, contando e pesquisando os animais. Salvo nos curtos meses de inverno, esta atividade preenchia muito do tempo de trabalho dos antigos vaqueiros.

Na época chuvosa os vaqueiros não tiravam o olho dos seus animais, mas também pegavam na enxada e cuidavam das roças de milho, feijão, jerimum, melão, etc.

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Durante os meses de seca deixavam os currais vazios e poupavam as vacas, ao ponto de nem tirar leite delas para seu consumo e de sua família. Nestas ocasiões davam leite de cabra para as crianças e dele faziam queijos. Os caprinos eram criados soltos, forneciam carne de ótima qualidade e os vaqueiros ainda faturavam algum com suas peles.

Era também nas épocas de estiagem que se dedicavam a abrir cacimbas nos leitos secos dos rios e de barragens. O resultado deste trabalho servia tanto para consumo humano, quanto dos animais. Mas também tinha outra função – reunir o gado solto.

Naquelas eras passadas este trabalho era feito utilizando juntas de bois, que arrastavam a areia dos leitos dos rios em couros, ou tábuas. Os animais utilizados nestas juntas eram fortes e mansos, sendo conhecidos como “bois de areia”. Diante deste duro trabalho o patrão costumava fornecer aos seus vaqueiros uma “matalotagem”. Ou seja, farinha, sal e uma rês para ser carneada e consumida para matar a fome de todos e repor as energias.]

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Aberta a cacimba e após aflorar um pouco de água em meio a terra ressequida, os vaqueiros ficavam aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Estas “esperas” podiam durar três dias ou mais, mas era certo que as cabeças de gado surgiam sedentas do meio da caatinga seca.

O gado que vinha beber possuíam marcas de várias propriedades e era comum que nessas cacimbas ocorressem pequenas e limitadas “apartações”. Os vaqueiros de uma determinada região do interior potiguar reuniam-se sucessivamente em várias cacimbas abertas, juntavam o gado “de sua conta” e levavam para seus currais aquilo de sua responsabilidade. Mas também era comum nestas ocasiões, os vaqueiros apresentarem aos companheiros a sua destreza na montaria e sua perícia na derrubada do boi. Era um aperitivo para o evento maior – a vaquejada…

A Grande Festa de Gado

As vaquejadas da época costumavam acontecer entre maio e junho e as fazendas de maior importância sempre tinham este tipo de evento. Mas diferentemente do que ocorre atualmente, quando a vaquejada é um evento basicamente esportivo, na última década do século XIX as vaquejadas potiguares possuíam um sentido muito prático.

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Na parte específica destinada ao trabalho dos vaqueiros, era um misto do que atualmente costuma se chamar de pega de boi no mato e da atual vaquejada.

Primeiramente um grupo de 50 ou mais vaqueiros, devidamente apetrechado, se reuniam na fazenda de algum fazendeiro de peso financeiro na região e então os grupos saiam em várias direções atrás do gado solto nas caatingas.

Era então marcado um ponto de reunião e para este local, a uma determinada hora marcada pelo andar do sol no firmamento, seguiam todos os vaqueiros com o gado que pudessem reunir. Era o momento que a captura dos animais se tornava uma grande pega de boi no mato.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Com todos os vaqueiros presentes no local e hora determinada, era então organizada uma grande boiada em direção a sede da fazenda, marchando o gado entre uma grande escolta de cavaleiros. A “testa” da boiada seguiam os “guias”, que além de apontarem o caminho, serviam de segurança para evitar o “arranco”, ou estouro, dos animais. Nos lados da boiada e atrás seguiam outros grupos de vaqueiros encourados para evitar a dispersão.

Já no pátio da casa grande da fazenda, além dos proprietários do lugar, se concentrava numerosa plateia formada por pessoas da região.

Conforme o gado chegava aos currais era normal alguma rês mais afoita se dispersar, ou partir em desabalada carreira pelo campo. Nessa hora os vaqueiros mais “amostrados” saiam em disparada nos seus alazões, apresentando sua destreza e capacidade de trazer os animais de volta ao grande grupo, ou derrubando-os para força uma parada e reconduzi-los a boiada.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Os cronistas antigos comentam que não era algo incomum que alguns vaqueiros, com ânsia de se apresentarem para alguma mocinha que estava assistindo a chegada dos animais, “apertarem” a boiada para algum animal fugir em disparada e eles apresentarem sua destreza ao público derrubando o animal no pátio da fazenda.

Mas ao final todos os animais eram colocados nos currais, muitos destes cercados com muros de pedras erguidos por escravos e antiquíssimos. Das “eras dos mais antigos” como diziam!

Então os animais eram liberados no amplo pátio da fazenda um a um, sendo cada um deles perseguidos por um, ou dois vaqueiros encourados, que tentavam derrubar a rês para delírio de todos que ali estavam.

Era um momento de magia pura. Uma verdadeira emulação de embriaguez e vaidade, onde em meio a aplausos, chistes, xingamentos e assovios, aqueles cavaleiros nordestinos vestidos de couro barateavam 100 vezes as suas vidas e onde não eram raros os acidentes mortais para homens e animais.

Serra Talhada - PE - Foto - Rostand Medeiros
Vaqueiros de Serra Talhada – PE – Foto – Rostand Medeiros

Derrubadores de gado afamados eram convidados para os eventos. Mas os cronistas antigos não informaram quem eram estes vaqueiros, de qual região vinham estes homens e nem se havia prêmios em disputa.

Em relação a afamados vaqueiros, os textos mencionaram um certo Pereirinha. Este era um vaqueiro de baixa estatura, muito famoso e que na década de 1890 era lembrado pelos mais antigos pelo seu aboio e sua inteligência. Diziam que Pereirinha tinha tanta capacidade, que ele deveria ter “secretas inteligências com o diabo”.

Normalmente estas vaquejadas do passado duravam em média de dois a três dias e no final era feita a “apartação”, onde cada vaqueiro seguia com o gado “da sua conta”.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Aquelas vaquejadas, aqueles encontros de vários vaqueiros, serviam para muitas coisas no sertão potiguar de outrora. Em uma região com povoamento limitado, onde as poucas festas sociais que haviam tinha forte conotação religiosa, estas vaquejadas eram na sua natureza mais livres e aparentemente proporcionavam farto meio de encontro social. Havia muita troca de notícias, eram realizados diversos tipos de negócios, solução de questões e nestas ocasiões poderiam se consolidar relacionamentos amorosos (o que também podia gerar conflitos, mas isso fazia parte da festa e da vida).

Evidentemente que um encontro de tantos vaqueiros numa única área durante dois a três dias, facilitava a “pega” do gado solto e o amplo cruzamento de vários animais confinados em currais. O que de alguma maneira ajudava no melhoramento da raça bovina.

Caso de um acidente em vaquejada, em Acari - RN, em 1891.
Caso de um acidente em vaquejada, Acari – RN, 1891.

Se atualmente grupos de direitos dos animais observam a vaquejada de uma maneira negativa e busca impor limites a este esporte, na década de 1890 igualmente havia seus críticos. Alguns fazendeiros proibiam a prática em suas propriedades, alegando que, além do perigo físico para os vaqueiros, o barulho e a movimentação espantavam as reses para longe, tornando-as “embravecidas”, ou seja, semisselvagens.

Um dado interessante existente nos jornais potiguares era que naquela época os autores consideravam que a vaquejada estava cada vez mais rara. Entre as razões estavam o fato do gado está “mais manso”.

Apesar das festas e vida aventurosa, aparentemente a vida dos vaqueiros potiguares estava mudando, para pior, na sua relação com seus patrões.

O Lucro dos Patrões Muda Antigas Relações 

A provável quebra das seculares e costumeiras regras de divisão da produção de uma propriedade rural de criação de gado, visando o lucro com a venda de produtos gerados a partir do trabalho dos vaqueiros e de seus familiares, aparentemente estava gerando questionamentos e desconfianças por parte dos vaqueiros potiguares na década de 1890.

Os textos existentes nos jornais potiguares deixaram registradas as características de alguns destes conflitos entre patrões e seus vaqueiros.

Marcas do trabalho do vaqueiro - Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Marcas do trabalho do vaqueiro – Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Pelo trabalho de cuidas da terra, zelar o gado e outras obrigações que tinham, os patrões davam aos vaqueiros um quarto de toda produção animal e o leite de vaca, um dos principais alimentos nos sertões.

Mesmo com os trabalhadores encourados habitando em terras que não lhes pertenciam, há séculos que estes viviam e labutavam nos sertões potiguares de maneira muito independente. E, mesmo que estivessem livres da presença constante dos patrões, normalmente seus arraigados códigos ancestrais de honra e de dever lhes impediam de se aproveitarem daquilo que não era deles.

Muitas vezes vamos encontrar os proprietários em suas fazendas apenas em “visitas” anuais, principalmente em época de inverno. Nestas ocasiões os proprietários eram recebidos com extrema atenção e espontânea delicadeza pelos vaqueiros e seus familiares. Onde não era difícil existir entre patrões e empregados o regime de compadrio.

Quando os patrões passavam o “verde” (inverno) nas suas propriedades de criação, seus encarregados lhes entregavam todo leite que necessitavam, reservando para eles e suas famílias muitas vezes apenas o estritamente necessário.

Havia anos, principalmente nas épocas de estiagem, em que os patrões sequer apareciam em suas glebas. Mas, dependendo da localização, não era difícil que seu vaqueiro fosse ao seu encontro levando uns tantos quilos de queijo.

Entretanto, provavelmente pelo aumento do consumo de queijo em áreas urbanas cada vez mais povoadas, alguns proprietários rurais passaram a exigir que seus vaqueiros lhes entregassem a cada ano umas “tantas arroubas de queijo”, equivalentes à metade da produção de leite de cada inverno.

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Os cronistas da época consideravam que os proprietários não tinham “razão na exigência” e em claras letras apontavam a prática como sendo uma “extorsão”, tida como “odiosa”, além de “ridícula”.

Pelas características da região em que viviam, pelas sutilezas do seu modo de vida e da maneira como os vaqueiros realizavam o seu trabalho, os textos apontavam que era interessante evitar “recriminações”, que só serviriam para “desmoralizar a autoridade do amo e afrouxar o zelo do vaqueiro”.

Enganado Pelas Poucas Letras

Outros problemas apontados nos textos dizem respeito às divisões dos bezerros nascidos.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Serra Talhada – PE – Foto – Rostand Medeiros

Quando chegavam os tempos da “ferra” e das “partilhas”, quase sempre realizadas nos mesmos períodos das vaquejadas, o vaqueiro apresentava ao patrão, ou ao seu representante, os bezerros nascidos naquele ano. Estes animais eram divididos, segundo o sexo, em “linhas”, ou lotes. Começava então as “ferragens” de uma das “linhas” e, ferrados três bezerros para o patrão, ferrava-se um quarto animal para o vaqueiro. Isso seguia até esgota-se aquele lote e assim procediam com lotes subsequentes.

Acontecia que muitos lotes não eram múltiplos de 4 e ocorriam as “sobras”. E aí começavam os problemas!

Havia patrões que levavam em conta nas partilhas do ano seguinte os restos que foram indivisíveis por 4. Já outros reuniam as sobras de cada lote e realizavam a partilha sem levar em conta “as sobras das sobras”.

Serra Talhada - PE - Foto - Rostand Medeiros
Serra Talhada – PE – Foto – Rostand Medeiros

Mas muitos patrões desprezavam em proveito próprio os restos excedentes e, fazendo uma partilha desigual, argumentavam para o vaqueiro que seria “impossível tirar-se a 4ª parte de 1, de 2, ou de 3 unidades sem frações”. Vaqueiros com mais iniciativa e algum conhecimento argumentavam com os patrões que, reduzidos os bezerros ao valor monetário, estes poderiam lhes pagar em dinheiro vivo a 4ª parte que lhes era de direito.

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Mas os cronistas apontam que a maioria dos vaqueiros aceitavam estes acordos espúrios por estarem presos aos seus arraigados e seculares códigos de condutas diante dos patrões, ou por puro desconhecimento aritmético. Muitos baixavam a cabeça por precisarem do emprego. E a dispensa de um vaqueiro por um fazendeiro era algo tão importante que poderia se transformar até em notícia de jornal, conforme vemos acima.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Para o caso da divisão da produção de cavalos e mures utilizava-se os mesmos métodos.

Sobre isso um cronista trouxe um caso específico, que mostra como aconteciam naqueles dias algumas relações de ganhos e perdas entre patrões e vaqueiros.

Certo vaqueiro cuidava de seis éguas e esperava ganhar um quarto da produção. Ocorre que no primeiro ano de trato dos animais as éguas só pariram três potrinhos e o patrão, que se regia pelo sistema que um quarto só se poderia tirar de quatro, não deu nada ao seu vaqueiro. No ano seguinte repete-se a mesma situação. No terceiro ano as éguas deram cinco crias e o patrão só lhe deu um animal e nada mais.

Nova geração de vaqueiros - Serra Talhada - PE - Foto - Rostand Medeiros
Nova geração de vaqueiros e suas marcas – Serra Talhada – PE – Foto – Rostand Medeiros

Enfim, foram três anos de trabalho pesado, cuidando de onze potros e recebendo como paga apenas um animal com meses de vida. Quando havia no lote animais com dois ou três anos.

Conclusão

Muito do que acontecia com os vaqueiros potiguares na década de 1890, acontecia com outros vaqueiros em toda a região que depois seria conhecida como Nordeste do Brasil.

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Posso até está equivocado, mas na minha visão atualmente poucos são os vaqueiros potiguares que envergam a tradicional roupa de couro.

Apesar da força da vaquejada moderna no Rio Grande do Norte, pouco são os locais onde existe a prática da pega do boi tradicional.

Na visão do autor deste artigo, a necessidade de utilizar as tradicionais roupas de couro é pequena no Rio Grande do Norte devido ao intenso desmatamento do sertão aqui praticado, com casos inclusive de acentuada desertificação. Isso com certeza é um fator para o desaparecimento em terras potiguares de um dos maiores símbolos da tradição nordestina.

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PEGA DE BOI NO MATO – TRADIÇÃO E CULTURA DO NORDESTE

Pega de boi no mato - Fonte - http://www.portalserrita.com.br/
Pega de boi no mato – Fonte – http://www.portalserrita.com.br/

Com o objetivo de preservar a memória do sertanejo, reconhecendo a valentia e a importância do vaqueiro nordestino e para manter viva uma tradição, cresce cada vez mais  o esporte da Pega de boi no mato por todo o Nordeste brasileiro.

Vaqueiros nordestinos - Fonte - http://www.portalserrita.com.br/
Vaqueiros nordestinos – Fonte – http://www.portalserrita.com.br/
Fonte - http://www.portalserrita.com.br/
Fonte – http://www.portalserrita.com.br/

Diferente da famosa vaquejada, onde o boi corre numa arena demarcada, perseguido por uma dupla de cavaleiros, a Pega de boi no mato acontece no meio da vegetação catingueira, com os vaqueiros encourados se embrenhando no mato em cima dos seus cavalos ligeiros para pegar o boi.

Partida para pegar os bois - Fonte - http://www.portalserrita.com.br/
Partida para pegar os bois – Fonte – http://www.portalserrita.com.br/

Enfrentando espinhos de juremas e touceiras de xique-xique, demonstrando coragem e valentia. Qualquer acidente pode ser fatal, pois, segundo os sertanejos, os cavalos chegam a alcançar 60 km/h na velocidade máxima da corrida no meio da vegetação ressequida e pontiaguda.

Fonte - http://www.portalserrita.com.br/
Fonte – http://www.portalserrita.com.br/
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As roupas de couro são essenciais, usadas pelos vaqueiros para se proteger de acidentes na busca pelo boi no meio do mato. A principal peça é o gibão, que cobre os homens do pescoço à cintura, como se fosse um paletó de couro. Tem o guarda-peito, que é um pedaço de couro curtido com que os vaqueiros resguardam o peito, preso por meio de correias ao pescoço e à cintura. Depois vem a perneira, que é a calça de couro ajustada ao corpo, vai do pé à virilha, mas deixa o corpo livre para cavalgar. Não pode faltar o tradicionalíssimo chapéu do vaqueiro nordestino, que além de lhe proteger do sol, serve como escudo contra eventuais golpes na cabeça. E nos pés vem as esporas, um instrumento de metal que se põe no salto do calçado para incitar o animal que se monta.

Alegria da vaqueirama - Fonte - http://www.portalserrita.com.br/
Alegria da vaqueirama – Fonte – http://www.portalserrita.com.br/
Tradição que se renova - Fonte - http://www.portalserrita.com.br/
Tradição que se renova – Fonte – http://www.portalserrita.com.br/

A Pega de boi no mato é uma tradição que remonta os primeiros tempos da ocupação do sertão nordestino pelos brancos europeus. Antigamente, numa época onde não existia o arame farpado, os animais eram criados soltos pelas propriedades rurais.

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A ideia era deixar os animais à vontade de para buscarem a alimentação. Em determinadas épocas os vaqueiros encourados adentravam a caatinga para realizar a pega do boi. Sempre em meio a muita destreza, coragem e com os vaqueiros entoando seus cantos, seus aboios no meio das “pegas”. Era tudo uma grande confraternização.

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Depois de reunir os animais, era normal os vaqueiros de uma fazenda encontrarem bichos marcados com ferros de outras propriedades. Então ocorriam as famosas festas de “apartação”, onde os animais eram entregues aos legítimos donos, criando entre os habitantes do sertão fortes laços de amizade. Vemos assim como eram importantes os tradicionais ferros de marcar animais.

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Os atuais eventos são realizados nas mesmas propriedades sertanejas do passado, cujos proprietários disponibilizam seus terrenos, animais e alimentação para todos aqueles que do evento participam. Os vaqueiros precisam pagar uma inscrição, um valor simbólico, bem diferente do que é cobrado nas grandes vaquejadas.

Festa nas fazendas onde ocorrem os eventos - Fonte - http://www.portalserrita.com.br/
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Na  pega de boi no mato os bichos são soltos em uma área de caatinga preservada e quem conseguir recuperar os animais é então declarado o vencedor, ou vencedores, e no término do evento são premiados. A premiação é feita com troféus e brindes (animais, selas, arreios), normalmente doados pelos parceiros que organizam estes eventos.

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Como não poderia deixar de ser em uma tradicional festa nordestina, durante todo o dia tem muito forró pé de serra, aboios, cantorias,  com apresentações de grupos locais, onde a cultura das comunidades sertanejas é valorizada.

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A Pega de boi no mato  é uma forma de resgatar a cultura do vaqueiro, é uma homenagem a todos os vaqueiros do nosso Nordeste, que amam lidar com o gado, viver livre, sendo único dono do seu destino,  mostrando agilidade e valentia.

Valente vaqueiro nordestino - Fonte - http://www.portalserrita.com.br/
Valente vaqueiro nordestino – Fonte – http://www.portalserrita.com.br/

VEJA TAMBÉM SOBRE ESTE TEMA – https://tokdehistoria.com.br/2012/09/09/missa-do-vaqueiro-de-serrita-pernambuco-os-primeiros-anos/

– https://tokdehistoria.com.br/2012/04/16/1922-a-grande-vaqueja-de-nova-cruz-para-as-comemoracoes-do-centenario-da-independencia-do-brasil/

SOU VAQUEIRO NORDESTINO POETA E NAMORADOR

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SOU VAQUEIRO PREPARADO
MONTO EM CAVALO LIGEIRO
E A FILHA DO FAZENDEIRO
SÓ QUER VIVER DO MEU LADO
FAÇO VERSO IMPROVISADO
MESMO SEM SER CANTADOR
E TRAGO COM MUITO AMOR
O MEU SONHO DE MENINO
SOU VAQUEIRO NORDESTINO
POETA E NAMORADOR
.

SER POETA, SER VAQUEIRO
É TER DO CAMPO A IMAGEM
SER O ESPÍRITO SELVAGEM
QUE PERCORRE O TABOLEIRO
MINHA ROUPA TRAZ O CHEIRO
DA CLOROFILA E DA FLOR
FAÇO SEXO POR AMOR
COM A DONA DO MEU DESTINO
SOU VAQUEIRO NORDESTINO
POETA E NAMORADOR. 

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NAMORO AS FLORES DO MATO,
A FACE DA LUA PÁLIDA,
CAMPEIO NA TARDE CÁLIDA,
NAS VEREDAS DO REGATO
VEJO DE DEUS O RETRATO
NA HORA DO SOL SE POR,
SOU DO REBANHO O PASTOR
SOM DE VIOLA É MEU HINO
SOU VAQUEIRO NORDESTINO
POETA E NAMORADOR.

SOU DA MULHER GUARDIÃO
DA VIOLA UM FÃ ETERNO
SOU UM BOÊMIO MODERNO
DO SONETO E DA CANÇÃO
SOU A PURA INSPIRAÇÃO
PRA O MAIS DOCE CANTADOR
CANTANDO EU SOU SONHADOR
PRA GADO SOU TANGERINO
SOU VAQUEIRO NORDESTINO
POETA E NAMORADOR.

Poeta – Onildo barbosa

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MISSA DO VAQUEIRO DE SERRITA, PERNAMBUCO – OS PRIMEIROS ANOS

Tradição, Religiosidade e Cultura Nordestina

AUTOR – ROSTAND MEDEIROS

A missa do vaqueiro, realizada no município de Serrita, a 536 km do Recife, surgiu em 1971 como uma homenagem ao vaqueiro Raimundo Jacó, sendo considerada atualmente uma das maiores e mais importantes festas do sertão nordestino.

Esse evento atrai anualmente cerca de 50 mil visitantes e é promovido pela Fundação João Câncio, em parceria com a Prefeitura Municipal de Serrita e a Associação de Vaqueiros de Pega de Boi na Caatinga do Alto Sertão de Pernambuco (Apega).

Vamos conhecer um pouco de sua história.

A Morte de Raimundo Jacó

Em 1954 Serrita, no Sertão do Araripe, próximo a cidade de Salgueiro, era bem maior em termos de área territorial e possuía uma população estimada em quase 23.000 habitantes. Mas em um Nordeste ainda prioritariamente agrário, na sede municipal daqueles tempos habitavam pouco menos de 700 pessoas[1].

Vaqueiro do Nordeste, 1941, Percy Lau – Fonte – http://www.desenhandoobrasil.com.br

Em meio à caatinga fechada daquela região, à vegetação cortante e espinhenta que caracteriza este ecossistema, o vaqueiro encourado Raimundo Jacó se destacava na sua lide.

Conhecido pela sua dedicação ao trabalho era muito estimado pela população local. Ficou afamado pela coragem ao capturar, ou “pegar”, o boi no meio do mato. Ele também era conhecido por saber no meio da caatinga fechada, onde descansava e bebia cada um dos animais que ele tomava conta.

De tão destemido, o vaqueiro tinha o apelido de “Raimundo Doido”. Era casado com Odília de Jesus e tinha como filhos Francisca e Vicente. Em Rancharia, atualmente distrito do município de Granito, era admirado pelo seu aboio afinado, daqueles vibrantes, cantado “com o dedo no ouvido” [2].

Sobre o vaqueiro Raimundo Jacó, os irmãos cantadores Pedro e João Bandeira de Caldas assim cantaram a sua fama;

“Não respeitava favela

Serra, facheiro, cipó

Sua calça era a perneira

Seu gibão o paletó

Fosse a cavalo ou a pé

Era uma coisa só” [3]

Raimundo Jacó trabalhava como vaqueiro para o fazendeiro José de Sá Barreto, conhecido como Seu “São” e Dona Tereza Teles, a Dona “Tetê”. Consta que ele cuidava do gado do patrão e José Miguel Lopes, seu colega de profissão, era o responsável pelo plantel da patroa.

No dia 8 de julho de 1954, ano seco, os dois vaqueiros saíram pelo sertão em busca de uma rês arisca que havia fugido e era famosa pelas suas astúcias.

Mas no fim do dia apenas Miguel retornou a sede da fazenda.

Contou que não havia encontrado Raimundo Jacó e logo a notícia se espalhou. Em pouco tempo várias pessoas rasgavam a caatinga na busca pelo afamado vaqueiro.

Dois dias após seu desaparecimento, o cadáver de Jacó foi encontrado junto a um pé de imbaúba, em um lugar conhecido como sítio Lajes. A pouca distância do corpo estava amarrado o garrote fugitivo, o seu cavalo e, guardando o cadáver dos urubus, estava o seu fiel cachorro.

No crânio do vaqueiro havia duas marcas de ferimentos e não muito distante do seu corpo, uma pedra com sangue. Todo o cenário apontava para um possível assassinato[4].

Consta que Raimundo Jacó foi sepultado no local onde fora morto. Afirma-se que o seu fiel cachorro acompanhou todo o enterro e que depois ficou no local, até morrer de sede e de fome, guardando o túmulo do seu amo.

O Nascimento de Um Mito

Logo, para a opinião pública e para a justiça local, Miguel Lopes surgiu como o mais provável suspeito da morte de Raimundo Jacó. Afirmavam que Miguel invejava o colega de profissão por suas habilidades como vaqueiro e que entre ambos havia uma rixa muito forte.

Para muitos o assassinato teria acontecido quando Miguel chegou às margens do açude do sítio Lajes e se deparou com Raimundo Jacó fumando tranquilamente um cigarrinho. Junto estava o seu cavalo, seu cachorro e a rês fugitiva, já devidamente amarrada. A cena deixou Miguel bastante alterado. Logo, motivado pela inveja, o ódio aflorou e de posse de uma pedra ele bateu fortemente na cabeça de Jacó.

Foi aberto um processo crime contra Miguel Lopes, que afirmava ser inocente e houve controvérsias e discussões em relação à morte de Jacó.

Clarisbalte Figueiredo Sampaio, o Promotor Público da cidade, desistiu do processo contra Miguel Lopes. No calhamaço de papeis que compunha a peça processual havia declarações de cinco testemunhas, que nem mesmo assistiram o episódio da morte do vaqueiro.

Logo o processo foi arquivado por falta de provas e a morte de Raimundo Jacó até hoje não foi esclarecida.

Ocorre que desde 1949 os Alencar e os Sampaios, as duas mais poderosas famílias da cidade de Exu, mantinham uma luta ferrenha entre seus membros. Estas famílias, como se diz na região oeste do Rio Grande do Norte, “se acabavam na bala”. Miguel era então ligado a um dos clãs e, para muitos na região, foi através desta ligação que ele não foi preso[5].

Vinte e dois anos depois da morte do vaqueiro, encontramos em um jornal pernambucano uma interessante e controversa declaração de Geraldo Teles, filho de Tereza Teles, a Dona “Tetê”, patroa de Raimundo Jacó e Miguel Lopes.

Ele afirmou que a morte de Jacó poderia ter sido acidental, pois este “sofria do coração e bebia muito” e afirmava que Miguel, que ainda estava vivo na época da reportagem, seria “incapaz de fazer mal a alguém”. Geraldo Teles levantou a hipótese que Jacó poderia ter tido um colapso. Após o ataque, consequentemente o vaqueiro teria caído do cavalo, batido a cabeça na pedra e falecido sem assistência médica[6].

Mas se da justiça não teve castigo, de uma parte da população da região o acusado da morte de Jacó só recebeu ódio e desprezo[7].

Como ocorre em muitos locais do Nordeste onde pessoas assassinadas em mortes trágicas eram enterradas, logo a cruz que marcava o túmulo de Raimundo Jacó passou a receber várias pessoas, principalmente vaqueiros. Estes, além de deixarem fitas e velas, rezavam e pediam ao falecido que intercedesse por alguma causa. 

Mas foi um primo legítimo do falecido, que empunhava uma sanfona e fazia sucesso no Rio de Janeiro, que imortalizaria para sempre a figura de Raimundo Jacó em uma inesquecível canção.

A Morte do Vaqueiro na Voz de Luiz Gonzaga

Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu na fazenda Caiçara, em Exu, no dia 13 de dezembro de 1912, dia consagrado no catolicismo a Santa Luzia. Era filho de Januário José dos Santos e de Ana Batista de Jesus, mais conhecida como Santana. Além de agricultor seu pai era um afamado tocador de acordeon e igualmente conhecido por concertar este tipo de instrumento musical.

Luiz Gonzaga no início da carreira – Fonte – http://blogln.ning.com

Foi com Januário que Luiz Gonzaga aprendeu a tocar ainda criança e passou a se apresentar acompanhando seu pai.

Em meio a muito talento, grande capacidade musical, inúmeras peripécias, aventuras e sorte, em 1963 vamos encontrar Luiz Gonzaga como um consagrado músico e cantor, com seu sucesso alcançando todo o Brasil e tendo se tornado um verdadeiro ícone da música nordestina.

Apesar de 1963 não ser um dos períodos mais felizes na carreira de Luiz Gonzaga, devido à concorrência com as músicas modernas e os rock vindos do exterior, naquele ano o músico pernambucano lançou pela empresa fonográfica RCA, o Long Play, ou “LP”, intitulado “Pisa no Pilão – Festa do Milho”.

Este disco de vinil tinha um acervo musical mais apropriada para ser tocado em festas juninas, pois possuía músicas intituladas “Festa do Milho”, “Festa de São João” e “Pisa no Pilão”.

Mas a quarta faixa do lado “A” do LP trazia uma toada diferente. Nomeada “A Morte do Vaqueiro”, é uma música marcante e de longe a mais importante deste disco de Luiz Gonzaga.

Capa do LP onde foi primeiramente divulgado a música “A morte do vaqueiro” – Fonte – discotecapublica.blogspot.com.br

Nas páginas 229 e 230 do livro “A vida do viajante: A saga de Luiz Gonzaga”, da francesa Dominique Dreyfrus, a música foi composta em uma única tarde na casa de Nelson Barbalho, amigo de Gonzaga[8].

O famoso cantador do Sertão do Araripe queria homenagear seu primo, o vaqueiro Raimundo Jacó. Ele narrou a Nelson como foi o episódio da morte do parente e em pouco tempo a “A Morte do Vaqueiro” ficou pronta.

A música se tornou um marcante sucesso da carreira de Luiz Gonzaga, imortalizando a morte de Jacó e se tornando um dos motores que impulsionaria um dos mais importantes eventos do sertão nordestino – A Missa do Vaqueiro de Serrita.

Mas toda missa precisa de um padre!

Um Padre Antes de Tudo Autêntico

Mesmo hoje em dia, em meio a toda uma plêiade de padres cantores, que estão sempre na televisão e surgem na velocidade da internet, certamente chamaria a atenção de todos se fosse divulgado que um sacerdote nascido no sertão de Pernambuco valorizava tanto as tradições de sua terra ao ponto de utilizasse normalmente o gibão de couro, participasse de constantes vaquejadas e fosse conhecido como “Padre Vaqueiro”.

Padre João Câncio

Imagine isso então no final da década de 1960?

João Câncio dos Santos nasceu em Petrolina, Pernambuco, em 21 de outubro de 1936, era filho de Francisco Avelino dos Santos e de Laudemira Carvalho Sales e seguiu sua vocação sacerdotal logo cedo. Estudou no seminário do Crato, depois foi para Salvador e João Pessoa, onde se formou padre em 1965.

Sua primeira paróquia foi em Serrita, onde iniciava seu trabalho pastoral com a consciência de que a religião e a fé estão presentes em todas as pessoas. Segundo material produzido pela Fundação Padre João Câncio, o pároco não impôs a comunidade a sua oratória de seminário, mas buscou aproximar-se da comunidade, vivenciando e praticando seus hábitos, com o propósito de entendê-los melhor[9].

No livro “A vida do viajante: A saga de Luiz Gonzaga”, nas páginas 246 e 247, Dominique Dreyfrus informa que em uma vaquejada realizada em Exu, no verão de 1970, ano de forte seca, o padre conheceu Luiz Gonzaga e daí nasceu uma grande amizade.

O padre Câncio adorava a música “A Morte do Vaqueiro”, que escutava no toca fitas de sua Ford Rural, enquanto seguia para alguma obrigação sacerdotal no meio do sertão.

A autora francesa informou que em meio à seca de 1970, durante as celebrações que ocorriam nas frentes de emergência, que proporcionava aos trabalhadores rurais alguma renda (mínima) em meio à calamidade climática, alguém comentou que “existia missa para todo tipo de gente, mas não havia para vaqueiros”. Logo foi sugerido que uma missa dessas poderia ocorrer no local onde Raimundo Jacó foi assassinado.

1971-Primeiro ano da Missa do Vaqueiro de Serrita, Pernambuco

Como o padre Câncio era um vaqueiro, gostava da música e conhecia Luiz Gonzaga, estava pavimentado o caminho para a Missa do Vaqueiro de Serrita.

Entretanto, ao lermos o trabalho intitulado “Padres do interior II – Os padres da Paroquia de Nossa Senhora do Bom Concelho de Granito”, produzido pelo padre Francisco José P. Cavalcante e publicado na internet em 2010, afirma que a ideia da famosa Missa do Vaqueiro de Serrita tem relação direta com uma celebração pela vida do vaqueiro e havia sido criada primeiramente na Diocese de Petrolina, no ano de 1941.

Segundo o padre Cavalcante foi no dia 2 de agosto de 1941, com uma concentração na fazenda Lagoa Seca, que se realizou pela primeira vez o “Dia do Vaqueiro”, evento idealizado pelo padre Américo Soares.

Registros informam que os vaqueiros estavam neste evento com a indumentária de couro apropriada e entraram nesta cidade do interior de Pernambuco dispostos em filas de quatro em quatro. Depois se dirigiram para a igreja matriz de Nossa Senhora Rainha dos Anjos, onde houve palestra preparando os vaqueiros para o sacramento da penitência. No dia seguinte, pela manhã, os vaqueiros participaram de uma missa na Matriz, presidida por Dom Idílio José Soares. Após duas missas realizadas no mesmo dia, os vaqueiros se concentraram diante do Palácio Diocesano e em seguida partiram em passeata pela cidade.

No ano seguinte a festa se repetiu com cerca de 150 vaqueiros. A programação foi semelhante à apresentada acima, mas com a diferença que o pregador foi famoso e carismático frei Damião de Bozzano.

Celebrações de vaqueiros pelo interior do Nordeste não eram incomuns nas décadas de 1940 e 1950. Aqui vemos um encontro de vaqueiros nas ruas de Icó, Ceará – Fonte – http://www.icoenoticia.com

No livro de tombo da Paróquia de Nossa Senhora Rainha dos Anjos, de Petrolina, há uma anotação informando que em 1946 continuava a ser celebrada a Festa do Vaqueiro. Em 21 de julho de 1951 o evento passou a ser presidido pelo padre José de Castro, vigário cooperador de Petrolina. Apesar das dificuldades o padre José conseguiu reunir uns 200 vaqueiros naquele ano.

A ideia de celebrar a vida do Vaqueiro foi seguida em outras paróquias da Diocese, como foi o caso na cidade de Araripina, Pernambuco, onde os vaqueiros entravam na cidade tocando os seus búzios nos eventos celebrados pelo padre Gonçalo Pereira Lima[10].

1971 – A Primeira Missa

Os jornais pesquisados na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco não são muito pródigos em relatos sobre a primeira Missa do Vaqueiro realizada em Serrita.

1971 – Luiz Gonzaga na primeira celebração

Ao folhear as velhas páginas, posso entender que o evento estava restrito a ser uma comemoração religiosa que ocorria em uma pequena cidade sertaneja, localizada a mais de 550 quilômetros da capital pernambucana.

Segundo o padre Câncio a primeira missa contou com o apoio decisivo de Luiz Gonzaga, que patrocinou grande parte do evento. Vários vaqueiros (o número não é especificado) e cerca de “50 outras pessoas” atenderam ao chamamento do padre e do cantador e se fizeram presentes no sítio Lajes.

Os cavaleiros vieram a celebração montados em seus alazões, trajados a caráter e assistiram a missa montados. A comunhão foi celebrada não com hóstias tradicionais, mas com queijo de coalho e rapadura. A missa foi celebrada sobre um tablado de madeira e junto ao padre estavam os familiares de Raimundo Jacó.

Os poucos relatos que me forneceram sobre este primeiro evento mostram uma foto com o consagrado Luiz Gonzaga, de sanfona em punho, cantando o sermão da missa. A pesquisadora francesa Dominique Dreyfus informa em seu livro, página 248, que Gonzaga participou ativamente dos primeiros anos da Missa do vaqueiro de Serrita e apoiou financeiramente o evento até 1974.[11]

Os primeiros eventos foram caracterizados pela simplicidade

Não foi possível precisar a data, mas acredito ter sido no terceiro domingo de julho de 1971, 18 de julho, pois nos anos seguintes seria nesta data que normalmente o evento passaria a ocorrer.[12]

Mas percebemos através dos antigos periódicos que foi tudo muito simples, sem sofisticação, sem recursos eletrônicos, mas com muita fé e um positivo sentimento participativo de todos que ali estavam.[13]

Mas algo aconteceu!

A simplicidade do altar nos primeiros eventos

Não sabemos como se processou, mas em meio à missa simples e tradicional de 1971, com todos os vaqueiros encourados presentes, foram realizadas as tomadas cinematográficas para um documentário.

Intitulado “A Missa do Vaqueiro”, era um curta-metragem rodado em 16 m.m., colorido, com 25 minutos de duração e tinha a direção do baiano José Carlos Capinam e do carioca José Carlos Avellar.[14]

Repercussão no Sul do País

Em janeiro de 1972 vamos encontrar o padre João Câncio e os poetas e cantadores Pedro e João Bandeira reunidos na casa de Luiz Gonzaga, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Estavam na Cidade Maravilhosa para assistir a uma exibição do trabalho de Capinam e Avellar, mas concederam entrevistas para os periódicos locais O Jornal e Jornal do Brasil, onde o padre Câncio conseguiu chamar a atenção dos jornalistas cariocas tanto para o seu trabalho sacerdotal, como para a incipiente e diferenciada celebração religiosa na zona rural de Serrita[15].

Os jornalistas se impressionaram com a simplicidade e a inteligência do padre Câncio. Afirmaram que ele poderia tanto comentar sobre problemas do sertão, como sobre a “Crise de Bagladesh”[16].

Nos anos posteriores a Missa do Vaqueiro de Serrita se consolidou e foi notícia em inúmeros jornais do sul do país. Com a divulgação na mídia o evento cresceu em movimento e fluxo de pessoas, tornando-se uma dos mais importantes eventos do calendário turístico de Pernambuco.

Ao violão o poeta Bandeira, tendo ao seu lado o padre Câncio com seu chapéu de couro. Foto da edição de 12 de janeiro de 1972, do periódico carioca “O Jornal”

Se nos anos seguintes a celebração só cresceu, igualmente ocorreram criticas relativas a descaracterização da pequena e simples festa, da participação negativa das forças políticas regionais no evento.

Anos depois o padre Câncio decidiu deixar a batina, casou com Helena Câncio e veio a falecer no dia 10 de fevereiro de 1989. Não sei até quando o grande Luiz Gonzaga continuou a frequentar o evento. Mas indubitavelmente a Missa do Vaqueiro, mantendo ou não suas características iniciais, deve a estes dois homens, que tanto amavam o sertão, o seu sucesso.

 

NOTAS


[1] Sobre dados estatísticos de Serrita na década de 1950, ver “Enciclopédia dos Municípios Brasileiros”, 18º Volume, IBGE, 1958, págs. 279 a 281.

[2] Este costume de muitos vaqueiros aboiadores colocarem o dedo no ouvido ao começar a cantar provem da necessidade da transformação da voz do rapsodo, de “voz do peito” em “voz da cabeça”, e à necessidade de manter o equilíbrio em face da vertigem que a cantiga provoca. Ver http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=892

[3] Ver “O Jornal”, Rio de Janeiro, edição de quarta feira, 19 de janeiro de 1972, págs. 4 e 5. Pedro e João Bandeira de Caldas, salvo engano, são netos do afamado violeiro Manuel Galdino Bandeira e são naturais do Sítio Riacho da Bela Vista, município de São José de Piranhas, sertão da Paraíba. Mas a vida artística destes respeitados violeiros se desenvolveu na cidade do Crato, Ceará.

[4] Ver o “Diário de Pernambuco”, edição de domingo, 20 de julho de 1975, págs. 12 e 13 e a edição de terça feira, 27 de agosto de 1996, págs. 10 e 11, existentes na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. O “Jornal do Commércio”, de Recife, na sua edição de quarta feira, 16 de julho de 1976, pág. 10, aponta que o corpo de Jacó foi encontrado um dia após o seu assassinato.

[5] A cidade de Exu se encontra a cerca de 70 quilômetros de Serrita. O conflito entre as famílias Alencar e Sampaio marcou profundamente a região do Sertão do Araripe, principalmente na década de 1970. Esta briga entre famílias tradicionais só acabou quando o próprio Governo Federal chegou a intervir na cidade, em parceria com outras instituições de Pernambuco, inclusive a igreja católica.

[6] “Diário de Pernambuco”, edição de terça feira, 20 de julho de 1976, página 9. Ver a reportagem sobre a Missa do Vaqueiro.

[7] Na edição de domingo, 27 de agosto de 1996, do “Diário de Pernambuco”, de Recife, trás a informação que José Miguel Lopes, ainda vivo a época da reportagem, jamais participou da celebração famosa, vivendo  praticamente recluso no distrito de Rancharia.

[8] Segundo site http://www.onordeste.com, Nelson Barbalho nasceu no dia 2 de junho de 1918, na cidade de Caruaru, Pernambuco. Não chegou a concluir o curso secundário no Colégio Americano Batista do Recife, regressando à terra natal para trabalhar. Aposentou-se como fiscal do IAPAS, função que lhe permitiu conhecer quase todas as cidades do interior pernambucano, recolhendo, assim, farto material para seus livros. Jornalista, historiador, pesquisador, lexicógrafo, compositor musical (parceiro em diversas músicas com Luís Gonzaga – o Rei do Baião), Nelson Barbalho sempre foi um escritor, autor de quase uma centena de livros, entre os quais destacamos “Cronologia Pernambucana” (com vinte volumes publicados dos quase cinquenta que compõem a obra), perto de vinte livros sobre Caruaru (“Meu povinho de Caruaru”, “Major Sinval”, “Caruaru do meu tempo”, etc.) e outros trabalhos folclóricos como “Dicionário da Cachaça”, “Dicionário do Açúcar”, sem contar vários ensaios publicados em jornais e revistas especializadas, na qualidade de estudioso da história e costumes do povo do Nordeste. Faleceu na cidade do Recife, no dia 22 de outubro de 1993.

[9] Ver http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Padre+Jo%C3%A3o+C%C3%A2ncio

[10] Certas espécies de búzios marinhos possuem a capacidade de produzir sons fortes, que serviam para comunicação a distância e foram utilizados para esta prática em várias partes do mundo, por vários povos, através dos séculos. No sertão nordestino, de largas paragens, a utilização de búzios era uma forma de comunicação prática entre vaqueiros que tangiam gado no meio da caatinga. Vem daí o termo “buzar”, para tocar o instrumento.

[11] A foto comentada está na edição do periódico carioca “O Jornal”, de quarta feira, 19 de janeiro de 1972.

[12] Ver as páginas do periódico carioca “Jornal do Brasil”, edição de quinta feira, 1 de agosto de 1974, em reportagem realizada pela jornalista Leticia Lins, que seguiu para Serrita para realizar a cobertura da missa que acontecia pela terceira vez, onde temos informes do primeiro evento. Ainda sobre a primeira missa, ver o “Jornal do Commércio”, de Recife, edição de terça feira , 18 de julho de 1978.

[13] Em entrevista concedida pelo padre João Câncio e Luiz Gonzaga, ao periódico carioca “O Jornal”, de 19 de janeiro de 1972, afirma que a missa teve a participação de “cinco mil vaqueiros”, número que considero exagerado.

[14] No site http://cinemateca.gov.br temos detalhes deste documentário, mas com o título “A Morte do Vaqueiro”. José Carlos Capinam é poeta e compositor. Natural de Esplanada, Bahia, é considerado um dos grandes letristas de sua geração.  Poeta desde a adolescência mudou-se para Salvador aos 19 anos, onde iniciou o curso de direito, na Universidade Federal da Bahia, onde conheceu os estudantes Gilberto Gil e Caetano Veloso, respectivamente dos cursos de Administração e Filosofia. Capinam participou ativamente do movimento Tropicalista no fim da década de 1960. Uma de suas músicas mais famosas é uma homenagem ao guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara e intitulada “Soy loco por ti, América”, com parceria de Gilberto Gil. Também é compositor da música “Papel Marche”, junto com João Bosco, Em 2000 compôs a ópera Rei Brasil 500 Anos, ao lado de Fernando Cerqueira e Paulo Dourado, uma crítica as comemorações dos 500 anos de Descobrimento do Brasil. Além de letrista, poeta e escritor, Capinam é publicitário, jornalista e médico!  Ver http://www.salvadorcomh.com.br. Já o carioca  José Carlos Avellar é Jornalista de formação, trabalhou por mais de vinte anos como crítico de cinema do Jornal do Brasil. Atualmente é integrante do conselho editorial da revista Cinemais e da publicação virtual “El ojo que piensa”, da Universidade de Guadalajara (México). É consultor dos festivais internacionais de cinema de Berlim (desde 1980), de San Sebastián (desde 1993) e de Montreal (desde 1995). Desde 2006 é também curador (com Sérgio Sanz) do Festival de Gramado e já publicou vários livros de ensaios sobre cinema. Ver http://bancocultural.com.br/cinema/?p=71.

[15] Descobri que o documentário “Missa do Vaqueiro” foi premiado na Jornada Nordestina de Curta-metragem, sendo exibido no MAM – Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, no início de outubro de 1973. Ver o “Diário de Notícias”, Rio de Janeiro, edição de domingo, pág. 16, 30 de setembro de 1973.

[16] Bangladesh, antigo Paquistão Oriental, é um país asiático, superpopuloso, que fica entre a Índia e o Golfo de Bengala. Independente do Paquistão em 1971, enfrentou uma sangrenta guerra pela sua liberdade que durou nove meses, encerranda no dia 16 de dezembro de 1971. Bangladesh contou com o apoio da Índia, que se envolveu no conflito contra o Paquistão. Este conflito, devido ao alto número de mortos civis, as terríveis imagens de pessoas famintas em meio aos combates, chamou a atenção dos países ocidentais.

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O VAQUEIRO – PATATIVA DO ASSARÉ


Vaqueiro da região de Serra Talhada, Pernambuco - Foto - Araquém Alcântara - Fonte - http://www.abi.org.br

Eu venho dêrne menino,
Dêrne munto pequenino,
Cumprindo o belo destino
Que me deu Nosso Senhô.
Eu nasci pra sê vaquêro,
Sou o mais feliz brasilêro,
Eu não invejo dinhêro,
Nem diproma de dotô.

Sei que o dotô tem riquêza,
É tratado com fineza,
Faz figura de grandeza,
Tem carta e tem anelão,
Tem casa branca jeitosa
E ôtas coisa preciosa;
Mas não goza o quanto goza
Um vaquêro do sertão.

Da minha vida eu me orgúio,
Levo a Jurema no embrúio
Gosto de ver o barúio
De barbatão a corrê,
Pedra nos casco rolando,
Gaios de pau estralando,
E o vaquêro atrás gritando,
Sem o perigo temê.

Criei-me neste serviço,
Gosto deste reboliço,
Boi pra mim não tem feitiço,
Mandinga nem catimbó.
Meu cavalo Capuêro,
Corredô, forte e ligêro,
Nunca respeita barsêro
De unha de gato ou cipó.

Tenho na vida um tesôro
Que vale mais de que ôro:
O meu liforme de côro,
Pernêra, chapéu, gibão.
Sou vaquêro destemido,
Dos fazendêro querido,
O meu grito é conhecido
Nos campo do meu sertão.

O pulo do meu cavalo
Nunca me causou abalo;
Eu nunca sofri um galo,
pois eu sei me desviá.
Travesso a grossa chapada,
Desço a medonha quebrada,
Na mais doida disparada,
Na pega do marruá.

Se o bicho brabo se acoa,
Não corro nem fico à tôa:
Comigo ninguém caçoa,
Não corro sem vê de quê.
É mêrmo por desaforo
Que eu dou de chapéu de côro
Na testa de quarqué tôro
Que não qué me obedecê.

Não dou carrêra perdida,
Conheço bem esta lida,
Eu vivo gozando a vida
Cheio de satisfação.
Já tou tão acostumado
Que trabaio e não me enfado,
Faço com gosto os mandado
Das fia do meu patrão.

Vivo do currá pro mato,
Sou correto e munto izato,
Por farta de zelo e trato
Nunca um bezerro morreu.
Se arguém me vê trabaiando,
A bezerrama curando,
Dá pra ficá maginando
Que o dono do gado é eu.

Eu não invejo riqueza
Nem posição, nem grandeza,
Nem a vida de fineza
Do povo da capitá.
Pra minha vida sê bela
Só basta não fartá nela
Bom cavalo, boa sela
E gado pr’eu campeá.

Somente uma coisa iziste,
Que ainda que teja triste
Meu coração não resiste
E pula de animação.
É uma viola magoada,
Bem chorosa e apaxonada,
Acompanhando a toada
Dum cantadô do sertão.

Tenho sagrado direito
De ficá bem satisfeito
Vendo a viola no peito
De quem toca e canta bem.
Dessas coisa sou herdêro,
Que o meu pai era vaquêro,
Foi um fino violêro
E era cantadô tombém.

Eu não sei tocá viola,
Mas seu toque me consola,
Verso de minha cachola
Nem que eu peleje não sai,
Nunca cantei um repente
Mas vivo munto contente,
Pois herdei perfeitamente
Um dos dote de meu pai.

O dote de sê vaquêro,
Resorvido marruêro,
Querido dos fazendêro
Do sertão do Ceará.
Não perciso maió gozo,
Sou sertanejo ditoso,
O meu aboio sodoso
Faz quem tem amô chorá.

Patativa do Assaré (1909 – 2002)
Encontro de vaqueiros nas ruas de Icó, Ceará, na metade do século passado - Fonte - http://www.icoenoticia.com

TRADICIONAL VAQUEIRO NORDESTINO-TIPO RARO

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Vaqueiro potiguar, sítio Gavião, Sítio Novo-RN – Foto – Rostand Medeiros.

“Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão”     

A Morte do Vaqueiro – Luiz Gonzaga

Vemos na foto que abre este texto, produzida na metade do século passado, um encourado vaqueiro nordestino, uma visão cada vez mais rara nos sertões potiguares.

A roupa era feita para enfrentar os espinhos da mataria da caatinga nordestina. O vaqueiro corria célere pela mata, com a cabeça escorada no pescoço do seu animal, em busca de uma rês desgarrada.

Quem confeccionava estas peças eram verdadeiros mestres e no Rio Grande do Norte havia vários deles. Sobre isto tenho uma história interessante.

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Em 4 de abril 1921 desembarcava no Rio de Janeiro a chamada “Missão Internacional Algodoeira”, sob o comando do Secretário Geral da International Federacion of Máster Cotton Spinner’s & Manufacturers, o inglês Arno S. Pearce e mais dois técnicos.

Pearce desejava ver a maneira como o Brasil tratava esta malvácea e queria ir até os produtores. As visitas iniciaram-se pelo estado de São Paulo, depois foram de trem para Minas Gerais, seguindo no Rio São Francisco para a Bahia e depois em direção a Pernambuco, Paraíba e Rio grande do Norte. Sempre visualizando os tipos de fibras, os solos onde o algodão era plantado, as prensas, as fazendas.

A chegada a terras potiguares ocorre em 5 de julho de 1921, quando os integrantes desembarcam de trem na capital, às cinco da tarde, sendo recebidos pelo Delegado Regional do Serviço do Algodão no estado, Antídio Guerra, e ficando alojados na “Villa Cincinnato” ([1]).

No outro dia ocorreram visitas ao governado Antônio José de Melo e Sousa, a Escola Doméstica ([2]), a redação de “A Republica” e outros locais. Os jornais apontavam Pearce como uma “autoridade mundial em assuntos referente a algodão” e sua visita despertava vivo interesse nas classes dirigentes e econômicas do estado ([3]).

Mas como o gringo não estava para salamaleques, no dia 7 parte para o ressequido sertão potiguar, acompanhando de várias autoridades locais.

Vamos encontrá-los dias depois saindo de Mossoró por um tortuoso caminho, o grupo segue para o Brejo do Apodi, atualmente distrito do Brejo, zona rural do município de Felipe Guerra, onde os familiares maternos de Antídio, onde são regiamente recebidos pelo coronel Antônio Gurgel do Amaral ([4]).

Então os técnicos agrícolas suíços Max Syx e F. Genny, que acompanhavam Pearce na sua missão, acompanhados de Antídio Guerra e alguns de seus parentes, foram visitar a pequena vila de Pedra de Abelha, atual cidade de Felipe Guerra.

Os estrangeiros estavam desejosos de levar para Europa um souvenir da região, então lhes é mostrado a selaria de João Inácio. Consta que os europeus se mostram extremamente interessados na forma como o analfabeto João Inácio consegue lhes tomas as medidas para a confecção das roupas, utilizando métodos então em desuso na Europa de 1921. Eles se impressionam com a confecção utilizando couro de veado e se encantam com a beleza das peças. Max Syx encomenda por 350$000 réis, um traje completo de couro que será enviado pelos amigos brasileiros quando estivesse pronto. Já o artesão Inácio se impressiona com a estatura e as largas medidas que apura no suíço Syx, chamando a atenção de todos que moram no lugarejo ([5]).

Conheço bem Felipe Guerra e suas cavernas e sempre vou por lá. Ao descobrir este texto, em uma visita posterior que fiz a esta cidade eu procurei, melhor, pelejei para encontrar um Cristão que me desse o mínimo fiapo de notícia deste Mestre na arte da confecção do couro. Fui até no cemitério, mas não encontrei nada, nenhuma informação.

Realmente o seleiro João Inácio chamou a atenção dos estrangeiros, mas não de sua gente.

Mas este esquecimento não é restrito aquele município. É raro ver um vaqueiro encourado nos sertões potiguares da atualidade.

Além do mais, hoje em dia os vaqueiros do nosso estado não precisam usar esta roupa, pois quase não temos mais caatinga que justifique seu uso. Pois esta vegetação típica está sendo sistematicamente desmatada para abastecer olarias, caieiras e outros fins econômicos que utilizam lenha.

Como foi comentado, antigamente as peças que compunham este tradicional vestuário eram confeccionadas com pele de veado, pois tinham resistência e eram maleáveis. Hoje não dá. Se alguém matar um veado para arrancar o couro e fazer uma roupa de vaqueiro, o IBAMA vai tratar o vaqueiro e o artesão como bandidos. Se um vaqueiro quiser criar uma pequena quantidade destes cervídeos em um curralzinho, para também aproveitar a carne para sua família e fornecer as peles para a roupa de trabalho, se lascou de novo. Pois está criando sem autorização, sem papeis, sem seguir os mandamentos dos burocratas que vivem na cidade grande, que se acham superiores por serem “Federais” e possuírem títulos acadêmicos.

Mas vamos em frente…

Acredito que hoje, encontrar vaqueiros encourados nos sertões potiguares, como estão aqui apresentados nas fotos, só na festa da pega do boi da Fazenda Pitombeira, em Acari.

Fico feliz com o sucesso desta importante iniciativa. Recentemente vi e fiquei admirado com um documentário que mostra este evento. A produção teve a teve a narração forte e vibrante do batalhador jornalista e amigo Alex Gurgel, com filmagens realizadas pelo grande Hélio Galvão.

Ainda bem que na Pitombeira a tradição existe.

Autor – Rostand Medeiros

P.S. – Posso até estar errado e em muitas áreas do nosso Rio Grande do Norte os vaqueiros encourados estão correndo nas caatingas. Se assim for, tenho tido azar, mas não sou cego.

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[1] Então residência oficial do governo, localizada na Praça Pedro Velho. 

[2] Era prática comum na década de 1920, as autoridades locais agendarem visitas de pessoas ilustres que estivessem em Natal a Escola Doméstica. Localizada então na Praça Augusto Severo, esta escola era uma referência no ensino feminino no Brasil.

[3] Ver “A Republica”, de 7 de junho de 1921, pág. 1.

[4] O coronel Antônio Gurgel do Amaral será capturado pelo bando de Lampião em 12 de junho de 1927, quando do ataque deste cangaceiro a Mossoró e ficará prisioneiro dos quadrilheiros por vários dias.

[5] Sobre a missão Pearce no Brasil ver; Pearse, A. S., “Brazilian Cotton, being the Report of the Journey of the International Cotton Mission through the Cotton States of Sao Paulo, Minas, Geraes, Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Parahyba, Rio Grande do Norte”, pág. 10, 1ª Edição, 1923, Manchester, Inglaterra.