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1862 – O ESTRANHO DESFILE DOS DEMÔNIOS NEGROS DA NOITE DE SÃO BARTOLOMEU

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Foliões no Bloco Carnavalesco Os Cão, na praia da Redinha,em Natal. Na foto, os foliões saem de dentro do mangue, onde se pintaram com a lama característica do local – FOTO ED FERREIRA/AE – Fonte – http://gilvandejacana.blogspot.com.br/2014/03/bloco-os-cao-completa-50-anos-pelas.html

Que Estranho Cortejo Percorria as Ruas da Cidade do Natal, Com Homens Pintados de Negro, Imitando Demônios e Realizando uma Comemoração? Teria algo Haver Com Um Moderno Bloco Carnavalesco da Redinha? 

Autor – Rostand Medeiros

Tradição é tradição e, quer você goste, ou não, uma das manifestações mais tradicionais, autênticas e originais do moderno carnaval de Natal é o irreverente bloco “Os Cão”.

Em 2016 “Os Cão” (no singular mesmo) comemorou 52 anos de tradição e muita folia na região da Praia da Redinha, na Zona Norte da capital potiguar. Segundo Francisco Ribamar de Brito, Seu Dodô, um dos criadores do bloco, tudo começou quando ele, Zé Lambreta, Chico Baé e mais dois amigos brincaram a festa de Momo de 1964 em um bloco chamado “Brasinhas”, que só saia nas ruas até a segunda-feira de carnaval. Eles resolveram esticar a festa até a terça, mas não tinham nenhuma fantasia para usar naquele último dia de folia!

Enquanto pensavam em como resolveriam esta questão, os rapazes resolveram pegar camarões para servir de tira gosto em um local conhecido como Porto D’água, na área de mangue do estuário do Rio Potengi. Quando lá estavam Chico Baé melou seus cabelos de lama, querendo estirar o cabelo crespo. Todos acharam idéia engraçada e igualmente melaram o corpo de lama. Completaram a fantasia com pedaços de galhos e saíram se divertindo pelo mercado e ruas da Redinha.

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Logo quem passava, ou se recusassem a dar cachaça ao grupo, eles assustavam e as pessoas diziam – “Lá vem os cão!”. Nos anos seguintes eles repetiram a brincadeira e o grupo foi crescendo.

É patente que o “Grand Monde” natalense jamais teve maiores simpatias por este bloco carnavalesco da Redinha. No máximo eles e sua lambuzada festa são vistos como “exóticos” e aturados, pois os políticos da cidade dos Reis Magos não podem ficar indiferentes a uma festa que arrasta mais de 2.000 pessoas para as ruas. Mesmo com pouco apoio os “Os Cão” vão resistindo com sua festa original. Sempre brincando pela Redinha, acompanhados por uma legião de demônios usando como fantasia basicamente a lama do mangue do Potengi, muitos portando tridentes, chifres de animais e galhos de árvores. Sempre pedindo cachaça nas terças-feiras de Momo e com muita irreverência.

O interessante é que descobri uma nota de jornal onde temos a informação que há quase um século e meio, de uma maneira diferenciada e bem distinta, já circulou pelas velhas ruas de Natal algumas pessoas que se fantasiaram de demônios enegrecidos em meio a um festejo religioso, mas que estranhamente parece possuir algumas similaridades com o moderno bloco “Os Cão”.

O Correspondente

Em setembro de 1862 o Brasil ainda era um imenso Império com vastas extensões de terras quase virgem, com forte economia agrícola, tocada pela mão de obra escrava, poucas modernidades e grande número de analfabetos. Apesar de todas as deficiências já existiam muitos jornais nas capitais das Províncias, que hoje chamamos de Estados.

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Antônio Carlos Mariz e Barros, comandante da corveta Belmonte em 1862, que visitou Natal e foi morto na Guerra do Paraguai.

Este era um dos principais meios de circulação de informações, onde os melhores jornais contratavam correspondentes nas Províncias vizinhas para reproduzirem notícias regionais. Este era o caso do “Jornal de Recife”, um dos principais jornais de Pernambuco na época, que em Natal tinha como correspondente Joaquim Ignácio Pereira Junior, um súdito português, que também era o Vice-Cônsul honorário de seu país no Rio Grande do Norte. Este informava de Natal, principalmente os eventos sociais e políticos. Notícias do interesse de uma pequena parcela de potiguares, membros da elite local, que tinham negócios, ou estudavam na capital pernambucana.

Há quase 154 anos, na edição do “Jornal de Recife” de quinta-feira, dia 17 de setembro de 1862, Joaquim Ignácio, como era de costume, iniciou sua coluna informando que na manhã do dia 24 de agosto, Pedro Leão Veloso, então Presidente da Província do Rio Grande do Norte, recebeu no Palácio do Governo o jovem primeiro tenente Antônio Carlos Mariz e Barros, comandante da corveta Belmonte, da Marinha do Brasil, que se encontrava no porto para concertar uma pequena avaria na hélice. O encontro protocolar ocorreu no sobrado localizado no bairro da Ribeira, na então Rua do Comércio, atual Rua Chile, a mais imponente e alta edificação (com apenas dois andares) existente em Natal na época[1].

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Nota da edição do “Jornal de Recife” de quinta-feira, dia 17 de setembro de 1862.

Então na sequência do seu informativo, até com certa surpresa, o correspondente Joaquim Ignácio apresentou uma outra notícia que não tinha nenhum caráter oficial.

O Estranho Cortejo

Cerca de vinte “marmanjões” haviam desfilado pelas ruas de terra da pequena Natal, trajando muito pouca roupa, pintados completamente de preto (seria de lama do mangue?) e figurando demônios. Durante o desfile estes homens eram “açoitados” por um figurante vestido de São Miguel, o santo guerreiro, que protegia uma pobre alma vestida de branco da ação dos pretensos membros da legião do mal.

Mesmo estando com a presença de São Miguel, aquele estranho cortejo fazia parte de uma comemoração pelo dia de São Bartolomeu, um dos doze primeiros apóstolos de Cristo.

Consta que São Bartolomeu nasceu em Caná, a quatorze quilômetros de Nazaré, na Galiléia, tendo sido apresentado a Jesus pelo apóstolo Filipe, seu maior amigo. Assim como o apóstolo Tomé, Bartolomeu foi um grande viajante e teria passado por locais no Irã, Síria, Índia, Armênia e por algum tempo na Grécia, com Filipe, especialmente na região da Frigia. Na Índia o apóstolo Bartolomeu pregou a verdade do Senhor Jesus, segundo o Evangelho de São Mateus, onde conseguiu converter muitas pessoas naquela região. Já na Armênia ele conseguiu converter o rei Polímio, sua esposa e muitas outras pessoas em mais de doze cidades. Essas conversões, no entanto, provocaram uma enorme inveja dos sacerdotes locais, que, por meio do irmão do rei Polímio, conseguiram a ordem de tirar a sua pele e depois decapitá-lo[2].

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Imagem de São Bartolomeu.

Apesar daquele cortejo em Natal glorifica a figura de um santo católico, percebemos na pequena e, para tristeza deste pesquisador, econômica nota, que aquele ato público causava estranheza em pessoas da comunidade. Tanto que o correspondente do “Jornal de Recife” apontou que ele estava na função de “transmitir factos, que demonstrem o progresso” e, após informar sobre este estranho evento religioso-teatral pelas ruas da urbe, completava afirmando em tom jocoso se aquilo “É, ou não, civilização!”.

Personagens Estranhos  

Segundo Luís da Câmara Cascudo, em seu livro “História da Cidade do Natal” (Edição do IHG-RN, 1999, páginas 122 a 124), ninguém soube lhe dizer como começou aquele estranho cortejo, mas soube que ele não era autorizado pela igreja católica, tinha um aspecto um tanto macabro e havia sido iniciado por pessoas do povo.

O evento ocorria sempre pela tardinha do dia 24 de agosto, na medida que as ruas estreitas da cidade começavam a ficar no escuro[3].

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Entre hurros, gritos, risadas histéricas, pulos, guinchos e outras diabruras, os jovens surgiam pintados de preto, com chifres na cabeça, estirando suas línguas cobertas de tecidos vermelhos feitos de baeta e trazendo pequenas asas. Fico imaginando o choque dos natalenses daqueles tempos coloniais.

Mas o Mestre Cascudo aponta algumas diferenças entre o que ele registrou através da memória dos mais velhos que assistiram estes desfiles e o relato de Joaquim Ignácio. Entre estas estava a que existia uma pessoa fantasiada como o próprio demônio, comandando a sua legião de diabos negros e um homem vestido com um larguíssimo hábito de monge, com cordões de São Francisco na cintura, grande capuz que escondia seu rosto e afugentava os “filhos do cão” com chicotadas cênicas.

Outra diferença apontada e que fazia o medo se estampar tanto na cara dos pequenos, quanto dos marmanjões, era a figura da morte.

O ator que interpretava a figura que lembra o fim de todos os seres viventes apresentava-se andando em pernas de pau, com uma roupa alva, que arrastava pelo chão. Mas os textos nada trazem sobre alguma foice estilizada levada pelo pretenso ator.

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Uma outra representação da morte em um jornal carioca no fim do século XIX.

Independentemente disso ele parecia realizar sua função com esmero, pois a figura sinistra era temida e batiam-lhe portas e janelas na cara. Como resposta a afronta, a morte então riscava no ar uma cruz latina e bradava a plenos pulmões “Vá se preparando! Vá se preparando! Eu volto em breve para vim buscá-lo…” Daí a pouco o cortejo parava em frente a alguma outra casa e, se recebesse porta na cara, vinha nova praga rogada. Pelos escritos de Cascudo, essa era a parte mais “terrível” do cortejo[4].

Certamente aquele cortejo fazia muita criança natalense daquele tempo se mijar de medo e seria desaprovada pelas modernas técnicas e normas da psicologia infantil.

Não nós esqueçamos que esta era uma época de medicina limitadíssima, onde morrer por doenças variadas era algo comum e uma sentença dessas proferida na porta de casa, mesmo por brincadeira, certamente deixaria muitos se benzendo, se ajoelhando diante de seus oratórios e declamando benditos.[5]

Estranhamente o fim do cortejo acontecia diante da Igreja Matriz, na antiga Rua Grande, atual Praça André de Albuquerque, com todos os integrantes rezando uma solene ave maria.

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Antiga Rua Palha em festa – Fonte – http://mediocridade-plural.blogspot.com.br/2011/09/natal-antiga.html

Para Cascudo o fim desta estranha manifestação popular ocorreu com um fato pitoresco e bastante hilário…

Não sabemos a data exata, mas entre os anos de 1836 e 1838, o capitão Antônio José de Moura exercia o cargo de primeiro comandante do recém criado Corpo Policial, atual Polícia Militar, e tinha a sua residência na Rua da Palha (atual Rua Vigário Bartolomeu, no Centro). Durante um destes anos, quando o cortejo de 24 de agosto passou em frente à casa do policial, dois cachorros de sua propriedade ficaram extremamente agoniados com a gritaria, pularam a janela da residência e partiram para cima dos integrantes do desfile. Foi literalmente um Deus nos acuda, com satanás e sua legião de demônios fugindo para todos os lados, gente caindo no chão, o capitão Moura no meio da rua apenas vestido de chambre (um roupão caseiro comprido) e com muito trabalho para segurar os seus endiabrados mastins. Paradoxalmente quem mais sofreu foi à morte, pois o ator despencou das pernas de pau e foi mordido “na parte mais carnuda do corpo”.

Ainda segundo Câmara Cascudo o cortejo caiu em desgraça diante do escárnio pelo ocorrido, perdeu força e sumiu.

Eterna Estranheza

Mas diante da nota publicada pelo correspondente do “Jornal de Recife”, vinte anos depois do ataque dos cães do capitão Moura na Rua da Palha, mesmo sendo vistos com estranheza, como algo diferente e burlesco, o desfile do dia de São Bartolomeu em Natal resistiu e continuou de alguma forma.

Nada sabemos quem eram seus participantes, apenas que eram pessoas “conhecidas de todos”. Mas acredito que provavelmente não pertenciam as classes privilegiadas da provinciana cidadela e não existe nada sobre a presença feminina no desfile.

O desfile foi esquecido e São Bartolomeu em Natal é lembrado atualmente na comunidade de Vila Paraíso, na Zona Norte, por uma capela que inclusive desabou devido a chuvas em julho de 2013. Não sei se esta pouca lembrança nos dias atuais seria devido ao desfile do dia de São Bartolomeu no século XIX, mais que festejar o santo, servir para que uma parte da população, de maneira alegre e irreverente, afrontasse indiretamente a elite e as instituições da cidade?

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Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/os-cao-baiacu-na-vara-outros-blocos-tradicionais-tem-48h-para-se-habilitarem-participar-carnaval-de-natal/

Em tempo – Nada encontrei que ligasse o desfile do dia de São Bartolomeu, com seus demônios pintados de negro, ao moderno bloco carnavalesco “Os Cão”.

A não ser uma estranheza da elite de outrora e atual, com tudo que é espontaneamente criado pelo povo de Natal, que parece nunca acabar e onde se percebe muito preconceito.

NOTAS


Fontes – http://www.nominuto.com/noticias/cultura-e-lazer/os-cao-bloco-segue-a-tradicao-de-52-anos-nesta-terca-feira/136643/

http://www.vntonline.com.br/2015/02/bloco-os-cao-reune-centenas-de-folioes.html

[1] Quatro anos depois este mesmo tenente Mariz e Barros se tornaria um dos grandes heróis da Marinha do Brasil, quando no comando do encouraçado Tamandaré em plena Guerra do Paraguai, morreu no combate travado contra o forte Itapiru.

[2] O dia de São Bartolomeu é bastante festejado em Portugal, possuindo extensa tradição. Em vários locais deste país este dia é dedicado àquele que é conhecido como padroeiro das crianças, fazendo reviver tradições que se misturam com a fé e devoção. Na foz do rio Douro, no Porto, norte de Portugal, ainda hoje se acredita que o banho de mar tomado no dia 24 de Agosto serve para a cura e prevenção contra o mal, sendo todo malefício exorcizado pela ação da água tornada miraculosa nesse dia por parte de São Bartolomeu. Nesta região além do banho ritual existe a tradição do cortejo de São Bartolomeu, também conhecido como Cortejo do Traje de Papel. Trata-se de um desfile, com centenas de figurantes com trajes feitos de papel crepe de diversas cores, onde ao final os participantes se juntam para um banho coletivo.

[3] Pesquisando nos jornais antigos eu descobri que o evento de 1862 ocorreu no início da lua nova do mês de agosto, quando provavelmente as velhas ruas natalenses, que não tinha mesmo muita iluminação pública, estavam bem escuras. 

[4] Provavelmente a propagação da sentença final ocorria defronte a casa de alguém que recusava dar aos integrantes do cortejo algum alimento, ou uma bebida.

[5] Joaquim Inácio, o correspondente do “Jornal de Recife”, na mesma nota sobre o cortejo do dia de São Bartolomeu, descreveu que naquele agosto de 1862 a cólera não apareceria em Natal, que havia se extinguido na Penha, atual Canguaretama, mas grassava no engenho “Estrella”, próximo à comunidade de Flores.

BRASIL, O PAÍS DOS “DOUTORES”

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Praga das pragas e indicativo severo do grau de subdesenvolvimento humano da nação, a utilização indiscriminada do “Doutor” para referir-se a outras pessoas é algo que deveria ser combatido diuturnamente.

Pra começar, “Doutor” não é pronome de tratamento. Pronome de tratamento é “Vossa Excelência”, “Vossa Senhoria”, “Vossa Santidade”, etc. “Doutor”é título. Designa a pessoa que concluiu, com sucesso, um curso de doutoramento, alcançando o mais alto grau acadêmico. A rigor, somente para essas pessoas se deveria conceder tal distinção. Mas, como todo mundo sabe, não é isso que acontece na prática.

Por atenção a uma suposta “tradição”, costuma-se dispensar também o “tratamento” a bacharéis em medicina. Coloco entre aspas porque não faço idéia nem consegui achar a origem da tal “tradição”. Vá lá. Pode ser que haja alguma explicação histórica que justifique o uso.

Para os bacharéis em direito, a origem da “tradição” é legal. Havia uma Lei de 11 de agosto de 1827 a determinar que os bacharéis em direito adquirissem o título de doutor pelo tão-só fato de se formarem. Coisa de país escravocrata; uma forma sub-reptícia de legitimar a exclusão social. Apesar de a lei já ter sido revogada, seu uso ainda persiste na prática. Vira e mexe, encontram-se no endereçamento de petições judiciais referências ao “Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz Fulano de Tal”.

Francamente, não sei o que o advogado pretende ganhar babando o ovo do juiz a esse ponto. Juiz não vai deixar de deferir ou indeferir um pedido porque foi chamado de “doutor”. Aliás, desconheço julgador que tenha por hábito ler endereçamento de peça. Vai-se normalmente direto ao pedido. Depois, se o caso exigir, lê-se o relato dos fatos. Por último, lê-se a fundamentação, quando não houver da parte do próprio julgador convicção formada sobre a matéria.

Esse hábito não é recomendado pelo Manual de Redação e Estilo da Presidência da República Brasileira. Segundo ele, “doutor não é forma de tratamento, e sim título acadêmico. Evite usá-lo indiscriminadamente. Como regra geral, empregue-o apenas em comunicações dirigidas a pessoas que tenham tal grau por terem concluído curso universitário de doutorado. É costume designar por doutor os bacharéis, especialmente os bacharéis em Direito e em Medicina. Nos demais casos, o tratamento Senhor confere a desejada formalidade às comunicações“(Wikipedia).

Por isso, no seu dia-a-dia, evite o uso indiscriminado da expressão. Restrinja seu uso àqueles que fizeram por merecer. O uso atual só desfavorece a civilidade e o respeito às boas maneiras.

Fonte – http://blogdomaximus.com/2011/06/28/brasil-o-pais-dos-doutores/

TRADICIONAL VAQUEIRO NORDESTINO-TIPO RARO

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Vaqueiro potiguar, sítio Gavião, Sítio Novo-RN – Foto – Rostand Medeiros.

“Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão”     

A Morte do Vaqueiro – Luiz Gonzaga

Vemos na foto que abre este texto, produzida na metade do século passado, um encourado vaqueiro nordestino, uma visão cada vez mais rara nos sertões potiguares.

A roupa era feita para enfrentar os espinhos da mataria da caatinga nordestina. O vaqueiro corria célere pela mata, com a cabeça escorada no pescoço do seu animal, em busca de uma rês desgarrada.

Quem confeccionava estas peças eram verdadeiros mestres e no Rio Grande do Norte havia vários deles. Sobre isto tenho uma história interessante.

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Em 4 de abril 1921 desembarcava no Rio de Janeiro a chamada “Missão Internacional Algodoeira”, sob o comando do Secretário Geral da International Federacion of Máster Cotton Spinner’s & Manufacturers, o inglês Arno S. Pearce e mais dois técnicos.

Pearce desejava ver a maneira como o Brasil tratava esta malvácea e queria ir até os produtores. As visitas iniciaram-se pelo estado de São Paulo, depois foram de trem para Minas Gerais, seguindo no Rio São Francisco para a Bahia e depois em direção a Pernambuco, Paraíba e Rio grande do Norte. Sempre visualizando os tipos de fibras, os solos onde o algodão era plantado, as prensas, as fazendas.

A chegada a terras potiguares ocorre em 5 de julho de 1921, quando os integrantes desembarcam de trem na capital, às cinco da tarde, sendo recebidos pelo Delegado Regional do Serviço do Algodão no estado, Antídio Guerra, e ficando alojados na “Villa Cincinnato” ([1]).

No outro dia ocorreram visitas ao governado Antônio José de Melo e Sousa, a Escola Doméstica ([2]), a redação de “A Republica” e outros locais. Os jornais apontavam Pearce como uma “autoridade mundial em assuntos referente a algodão” e sua visita despertava vivo interesse nas classes dirigentes e econômicas do estado ([3]).

Mas como o gringo não estava para salamaleques, no dia 7 parte para o ressequido sertão potiguar, acompanhando de várias autoridades locais.

Vamos encontrá-los dias depois saindo de Mossoró por um tortuoso caminho, o grupo segue para o Brejo do Apodi, atualmente distrito do Brejo, zona rural do município de Felipe Guerra, onde os familiares maternos de Antídio, onde são regiamente recebidos pelo coronel Antônio Gurgel do Amaral ([4]).

Então os técnicos agrícolas suíços Max Syx e F. Genny, que acompanhavam Pearce na sua missão, acompanhados de Antídio Guerra e alguns de seus parentes, foram visitar a pequena vila de Pedra de Abelha, atual cidade de Felipe Guerra.

Os estrangeiros estavam desejosos de levar para Europa um souvenir da região, então lhes é mostrado a selaria de João Inácio. Consta que os europeus se mostram extremamente interessados na forma como o analfabeto João Inácio consegue lhes tomas as medidas para a confecção das roupas, utilizando métodos então em desuso na Europa de 1921. Eles se impressionam com a confecção utilizando couro de veado e se encantam com a beleza das peças. Max Syx encomenda por 350$000 réis, um traje completo de couro que será enviado pelos amigos brasileiros quando estivesse pronto. Já o artesão Inácio se impressiona com a estatura e as largas medidas que apura no suíço Syx, chamando a atenção de todos que moram no lugarejo ([5]).

Conheço bem Felipe Guerra e suas cavernas e sempre vou por lá. Ao descobrir este texto, em uma visita posterior que fiz a esta cidade eu procurei, melhor, pelejei para encontrar um Cristão que me desse o mínimo fiapo de notícia deste Mestre na arte da confecção do couro. Fui até no cemitério, mas não encontrei nada, nenhuma informação.

Realmente o seleiro João Inácio chamou a atenção dos estrangeiros, mas não de sua gente.

Mas este esquecimento não é restrito aquele município. É raro ver um vaqueiro encourado nos sertões potiguares da atualidade.

Além do mais, hoje em dia os vaqueiros do nosso estado não precisam usar esta roupa, pois quase não temos mais caatinga que justifique seu uso. Pois esta vegetação típica está sendo sistematicamente desmatada para abastecer olarias, caieiras e outros fins econômicos que utilizam lenha.

Como foi comentado, antigamente as peças que compunham este tradicional vestuário eram confeccionadas com pele de veado, pois tinham resistência e eram maleáveis. Hoje não dá. Se alguém matar um veado para arrancar o couro e fazer uma roupa de vaqueiro, o IBAMA vai tratar o vaqueiro e o artesão como bandidos. Se um vaqueiro quiser criar uma pequena quantidade destes cervídeos em um curralzinho, para também aproveitar a carne para sua família e fornecer as peles para a roupa de trabalho, se lascou de novo. Pois está criando sem autorização, sem papeis, sem seguir os mandamentos dos burocratas que vivem na cidade grande, que se acham superiores por serem “Federais” e possuírem títulos acadêmicos.

Mas vamos em frente…

Acredito que hoje, encontrar vaqueiros encourados nos sertões potiguares, como estão aqui apresentados nas fotos, só na festa da pega do boi da Fazenda Pitombeira, em Acari.

Fico feliz com o sucesso desta importante iniciativa. Recentemente vi e fiquei admirado com um documentário que mostra este evento. A produção teve a teve a narração forte e vibrante do batalhador jornalista e amigo Alex Gurgel, com filmagens realizadas pelo grande Hélio Galvão.

Ainda bem que na Pitombeira a tradição existe.

Autor – Rostand Medeiros

P.S. – Posso até estar errado e em muitas áreas do nosso Rio Grande do Norte os vaqueiros encourados estão correndo nas caatingas. Se assim for, tenho tido azar, mas não sou cego.

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[1] Então residência oficial do governo, localizada na Praça Pedro Velho. 

[2] Era prática comum na década de 1920, as autoridades locais agendarem visitas de pessoas ilustres que estivessem em Natal a Escola Doméstica. Localizada então na Praça Augusto Severo, esta escola era uma referência no ensino feminino no Brasil.

[3] Ver “A Republica”, de 7 de junho de 1921, pág. 1.

[4] O coronel Antônio Gurgel do Amaral será capturado pelo bando de Lampião em 12 de junho de 1927, quando do ataque deste cangaceiro a Mossoró e ficará prisioneiro dos quadrilheiros por vários dias.

[5] Sobre a missão Pearce no Brasil ver; Pearse, A. S., “Brazilian Cotton, being the Report of the Journey of the International Cotton Mission through the Cotton States of Sao Paulo, Minas, Geraes, Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Parahyba, Rio Grande do Norte”, pág. 10, 1ª Edição, 1923, Manchester, Inglaterra.

A CIDADE POTIGUAR DE VENHA VER E A SUA POSSÍVEL TRADIÇÃO JUDAICA

A pequena e acolhedora Venha Ver, no extremo oeste do Rio Grande do Norte. O único município potiguar que faz fronteira com dois estados, Paraíba e Ceará

Uma pequena cidade perdida no interior do Rio Grande do Norte guarda vestígios da origem judaica de sua população, cujos fundadores, em 1811, eram descendentes de cristãos-novos — judeus convertidos à fé cristã. Mesmo cristãos, os habitantes de Venha-Ver (440 km a oeste de Natal) revelam em hábitos cotidianos uma tradição particular, transmitida há séculos de geração a geração. A maioria dos habitantes, porém, não tem consciência da origem de seus ancestrais.

Os sinais mais evidentes da tradição judaica encontrados na pequena cidade pela Agência Folha são a fixação de cruzes em formato hexagonal na porta de entrada das casas, o enterro dos corpos em mortalhas brancas e os sobrenomes típicos de cristãos-novos. Os costumes de retirar totalmente o sangue da carne animal após o abate e de colocar seixos sobre os túmulos também podem ser relacionados à ascendência judaica dos habitantes. Os judeus colocam seixos sobre as sepulturas com o significado de que o morto não será esquecido.

Apesar da pretensa e antiga tradição judaica, atualmente a figura religiosa mais importante na cidade é Frei Damião, cuja a grande estátua protege a cidade

Em Venha-Ver, pôr um seixo sobre o túmulo significa uma oração à pessoa ali enterrada. O próprio nome da cidade é uma provável fusão da palavra “vem” (do verbo vir, em português) com o termo hebraico “chaver” (pronuncia-se ráver), que significa amigo, companheiro. Ou seja, Venha-Ver seria uma corruptela de “Vem, Chaver”.
Esses foram parte dos indícios relatados pelo rabino Jacques Cukierkorn em sua tese de rabinato (equivalente a mestrado) sobre a ascendência judaica entre a população do Rio Grande do Norte.

A preservação de tradições centenárias entre a comunidade de Venha-Ver foi facilitada pelo isolamento do município, situado no extremo oeste do Rio Grande do Norte, nas fronteiras do Ceará e Paraíba. Só se chega ali por uma sinuosa estrada de terra.

Na região ainda é comum a utilização de caçuas de couro de boi, bem rígidos e feitos com uma preparação bem tradicional, para o transporte de mercadorias em jumentos e cavalos

Para o rabino Cukierkorn, as cruzes de Venha-Ver têm sua origem na mezuzá — pequena caixinha com uma reza que os judeus fixam nos batentes das portas. Muitas delas têm formato hexagonal, como a Estrela de David, símbolo da fé judaica. A população explica as cruzes nas portas de suas casas como uma proteção contra o mal, o demônio, a ventania e os raios. Os judeus fixam a mezuzá nos batentes para demarcar a proteção divina sobre a casa.

Na pequena localidade, os cadáveres são envolvidos em mortalhas para serem conduzidos até a sepultura. É o que determina a tradição judaica. Esse costume é explicado pelos habitantes de Venha-Ver como algo passado de pai para filho. Há um preconceito contra o uso de caixão — recentemente introduzido nos funerais locais.

Nas portas das casas de Venha Ver é normal se encontrar cruzes feitas com palhas de coqueiros, benzidas no dia de Domingo de Ramos. Para alguns, a forma como a população coloca estes símbolos, é uma representação antiga de uma Estrela de Davi Será?

Cukierkorn vê, na forma de tratar a carne animal, a presença das regras da culinária “kasher” — determinadas pelo judaismo. Logo após o abate de um animal em Venha-Ver, os pedaços de carne são dependurados com uma corda sobre um tronco de árvore, para que todo o sangue escorra. Depois disso, a carne é salgada — prática usual entre os judeus ortodoxos.

Os sobrenomes mais comuns da população branca de Venha-Ver (parte da comunidade, de fixação mais recente, tem origem negra) são Carvalho, Moreira, Nogueira, Oliveira e Pinheiro, notadamente de cristãos-novos, conforme estudo do professor de antropologia José Nunes Cabral de Carvalho (1913 – 1979) fundador da Comunidade Israelita do Rio Grande do Norte. A repressão religiosa desencadeada pela Inquisição, particularmente nos séculos 15 e 16, fez com que uma ampla população judaica tenha sido forçada a se converter ao cristianismo em Portugal, Espanha e também no Brasil, alterando sua fé religiosa, sobrenome e comportamento social.

Entrada principal de Venha Ver

Em Natal, cinquenta famílias no inicio da cerimônia — cerca de 200 pessoas — formam a “comunidade marrana”. São famílias cujos ancestrais eram cristãos-novos e que, nas últimas gerações, retornaram à fé judaica. As famílias se reúnem uma vez por semana na sinagoga do Centro Israelita do Rio Grande do Norte, que foi fundado, em 1929, pela família Palatnik e reinangurado, em 1979, pelo ex-pastor presbiteriano e lider espiritual João Dias Medeiros.

Às sextas-feiras à noite, é celebrado o cabalat-shabat, a cerimônia religiosa que marca o início do dia sagrado para os judeus. Não há rabino. Um orador entoa as orações cantadas e seguidas pelos freqüentadores por meio de um livro (sidur) doado pela Congregação Israelita Paulista (CIP). No início da cerimônia, velas são acesas e, no final, é feita a bênção do vinho e a repartição da chalá (pronuncia-se ralá), o pão de tranças. Mulheres e homens cobrem as cabeças. A cerimônia é um rito judaico. “Nós também celebramos as festas tradicionais, como o Yom Kipur (Dia do Perdão), Rosh Hashaná (Ano Novo), Pessach (Páscoa), Purim e Shavuot”, afirma Éder Barosh. Seu sobrenome original era Barros.

Na praça principal da cidade existe uma réplica de uma antiga casa de barro típica da região, para os mais jovens conhecerem a sua história

Os integrantes da comunidade natalense também seguem a dieta Kasher, que prevê a separação entre as refeições de leite e carne. Uma ala israelita no Cemitério do Alecrim demarca a presença judaica em Natal.

Originalmente publicado pela jornalista Andréa de Lima, da Agência Folha, em Venha-Ver e Agência Folha, em Natal e copiado do site http://oestepotiguar-venhaver.blogspot.com

Fotos – Rostand Medeiros

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