1905 – VERDADEIRA CENA DE VELHO OESTE EM DOM PEDRITO, RIO GRANDE DO SUL

Ultimamente Tenho Visto Alguns Vídeos no YouTube Que Comparam os Vários Aspectos Existentes Entre os Gaúchos Brasileiros e os Cowboys dos Estados Unidos. Já o Histórico Caso Que Aqui Apresento, Mostra Que a Distância Entre Esses Dois Mundos Parece Não Ter Sido Tão Grande.

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

O dia amanheceu quente e seco naquele dia 7 de dezembro de 1905, na cidade gaúcha de Dom Pedrito, região da Campanha, não muito distante da fronteira com o Uruguai. Mas como é normal no verão naquela região, conforme o sol desaparecia no horizonte aquela pequena cidade recebia temperaturas bem mais amenas e as pessoas se encontravam para conversar e apreciar o movimento.

Dom Pedrito no início do século XX – Fonte – Arquivo Nacional.

Por volta das oito e meia da noite um grupo de homens da sociedade local conversavam diante da loja de secos e molhados do Senhor Bernardino Machado da Silveira, na atual Avenida Júlio de Castilho, próximo da esquina da Rua Bernardino Ângelo. Quem se destacava no grupo era o fazendeiro Francisco Moreira da Fontoura, subintendente do Primeiro Distrito de Dom Pedrito, conhecido na comunidade pelo apelido de Cachoeira e possuidor da patente de Capitão da Guarda Nacional.

A conversa seguia franca e tranquila quando surgiram na rua dois cavaleiros desconhecidos. Um deles era branco, possuía estatura regular, cabelos pretos encrespados e devia ter uns 25 anos de idade. Vestia camisa branca, cobria o corpo com um poncho de pala fina e trajava uma bombacha feita de cassineta (um tipo de tecido de lã). Trazia casaco preto, chapéu da mesma cor e no pescoço um vistoso lenço escuro. Calçava botas com esporas e estava montado em um cavalo zaino colorado devidamente encilhado. Já sobre o seu companheiro ficou apenas registrado que ele era “um mulato”. 

A função de Francisco Moreira Fontoura na época desse episódio.

Os dois cavaleiros pararam defronte a loja do Senhor Machado e o branco apeou-se do cavalo, deu boa noite a todos e entrou na loja. No interior do estabelecimento ele escolheu alguns produtos que totalizaram 10.000 réis, puxou uma cédula de 50.000 para pagar a despesa e ficou esperando o troco. Só que o proprietário desconfiou da legitimidade daquela nota graúda e não aceitou recebê-la.

Cenas de Velho Oeste em Dom Pedrito

Apesar de desconfiado, o Senhor Machado disse ao estranho que fosse trocar a nota em outro estabelecimento que ele entregaria as compras.

A antiga Dom Pedrito, vista do Rio Santa Marta.

No Brasil daqueles primeiros anos do século XX, havia um sério problema em vários estados com notas e moedas falsas. Lendo os jornais antigos do Rio Grande do Sul eu encontrei algumas referências sobre esse problema e até mesmo notícias da existência de verdadeiras fábricas clandestinas de dinheiro falsificado.

O Capitão Fontoura acompanhava a negociação e se adiantou ao estranho. Perguntou-lhe então quem ele era, de onde vinha e para onde se dirigia. Mas suas respostas foram repletas de contradições e negativas, o que despertou as suspeitas da autoridade. Nesse momento Fontoura se dirigiu ao cavaleiro que estava fora da loja e ainda montado, pedindo-lhe para descer do seu animal e responder as mesmas perguntas feitas ao seu companheiro. Houve novas contradições e esse rapaz não soube dizer nem onde morava e nem em que trabalhava.

Armas em Dom Pedrito eram comuns no passado. Aqui cavaleiros nesta cidade, durante a Revolução de 1923.

Foi quando os dois estranhos perguntaram quem estava querendo saber aquelas informações. Fontoura declinou quem ele era e os dois homens “assumiram atitude ameaçadora”. O Capitão então pediu aos cidadãos Alcindo Orlandes e Tertuliano Joaquim da Silva que ajudassem a prender aqueles homens e foi aí que eles correram para seus cavalos.

Os dois conseguiram até montar em suas alimárias, mas Fontoura e Tertuliano seguraram fortemente nas rédeas dos dois animais e impediram que eles saíssem em acelerado galope. Nesse momento os estranhos sacaram seus revólveres e abriram fogo contra os moradores de Dom Pedrito. Só que o movimento dos cavalos em meio à algazarra e a agilidade de Fonseca e Tertuliano evitaram que fossem atingidos. Nesse momento eles sacaram suas armas e mandaram bala nos estranhos em meio ao forte tiroteio!

O homem branco foi atingido na perna direita e no peito e caiu do seu animal. Morreu na hora e ficou estirado no meio da rua com seu revólver Smith & Wesson ao seu lado. Já o seu companheiro conseguiu fazer Tertuliano soltar as rédeas e disparou a galope pela Rua Bernardino Ângelo. Vários tiros foram feitos contra ele e seu cavalo, mas nunca se soube se foram atingidos.

Infelizmente o cavalo zaino colorado do bandido abatido recebeu dois disparos, um no quarto e outro no pescoço, mas as informações existentes não dizem se ele morreu ou conseguiu se recuperar dos ferimentos.

Essa nota de 50.000 réis do início do século XX é falsa. sobre isso ver o site https://www.jmesquitaleiloes.com.br/peca.asp?ID=4780977&ctd=27&tot=&tipo=&artista

Revólver Smith & Wesson

Bem, evidentemente que Dom Pedrito acordou com tamanha balaceira e vários populares foram ao local do tiroteio. Logo o delegado Adauto Costa chegou e procedeu ao auto de corpo de delito, junto com Juvenal Marques de Araújo, que trabalhou como escrivão ad hoc.

Naquele momento não foi possível identificar o cadáver do falsário, mas com ele foi encontrado uma adaga de cabo de metal, um relógio de algibeira de prata com uma corrente e as iniciais “S.L.”, um cinto com as iniciais “O.M.”, quatro munições do seu revólver, outras três notas falsas de 50.000 réis e 31.700 réis em dinheiro legítimo, dois lenços de algibeira e dois breves, sendo um em português e outro em espanhol. Um breve nessa época era basicamente um objeto devocional muito popular, geralmente consistindo em um pequeno pedaço de tecido, papel ou pergaminho contendo orações, trechos dos Evangelhos ou imagens de santos, usados sobre o corpo com a intenção de “fechá-lo” contra maus olhados, balas e outras coisas. 

Aparentemente o objeto do morto que mais chamou a atenção das pessoas em Dom Pedrito foi o revólver Smith & Wesson, um produto importado dos Estados Unidos e tido por aqueles que lá estavam como uma arma “legítima”. Em 1905 era normal a venda aberta de revólveres importados, sem maiores complicações legais, como podemos ver no anúncio acima de uma loja de armas de Porto Alegre e publicado nessa mesma época. Provavelmente a arma utilizada pelo desconhecido bandido era igual a do anúncio – um Smith & Wesson Modelo 3, de ação simples, com abertura superior, capacidade para seis munições e possivelmente em calibre 44.

Tal como aconteceu na região oeste dos Estados Unidos entre as décadas de 1850 e os primeiros anos do século XX, naquilo que hoje convencionamos chamar de Velho Oeste, Oeste Selvagem ou Faroeste, na manhã do dia 8 de dezembro de 1905 em Dom Pedrito muita gente foi ver o cadáver do bandido morto na delegacia, aonde ele chegou a ser fotografado pelo Alferes Jatahy.

Sabemos que o cadáver do bandido envolvido no tiroteio de Dom Pedrito foi fotografado, só não sei se ele foi clicado da mesma maneira que Reuben Houston Burrow, aqui visto nessa foto colorizada com suas armas. Burrow foi um assaltante de trens e fora da lei do sul e sudoeste dos Estados Unidos Durante os últimos anos da fronteira americana. Ele se tornou um dos homens mais procurados do Velho Oeste até 9 de outubro de 1890, quando foi morto na cidade de Linden, Alabama, após tentar fugir da prisão.

Foram formados vários grupos de homens armados para capturar o bandido que fugiu. Apesar do empenho do pessoal local ele nunca foi encontrado. Talvez tenha conseguido se evadir para o Estado Oriental, como também é conhecido o vizinho Uruguai, cuja fronteira está a cerca de 50 quilômetros de Dom Pedrito em linha reta.

Com o tempo se soube que o nome do bandido morto era Pedro Dias e isso foi divulgado porque o Capitão Francisco Moreira da Fontoura e Tertuliano Joaquim da Silva não escaparam de um processo criminal por aquela morte ocorrida em 7 de dezembro de 1905. Mas ambos foram absolvidos, conforme podemos ver na nota abaixo.

Todas as informações sobre esse episódio eu consegui no carioca Jornal do Commercio, edição de terça-feira, 2 de janeiro de 1906, na página 2, que reproduziu a notícia do hoje praticamente desconhecido jornal gaúcho Correio da Fronteira.Já a nota da absolvição de Fontoura e Tertuliano veio da primeira página do jornal porto-alegrense A Federação, edição de sábado, 14 de abril de 1906.

1923 – UM CONCORRIDO CONCERTO NO TEATRO ALBERTO MARANHÃO

Quem se Apresentou e o Que foi Tocado na Festa de Despedida de Alcides Cicco?

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Muitos podem imaginar que há 101 anos a capital potiguar era uma cidade cujo ritmo da vida era muito lento, calmo e sem maiores novidades. Isso tem muito de verdade e pode estar relacionado com o fato dessa velha urbe possuir nessa época cerca de 32.000 habitantes. Número menor que as 35.725 pessoas que em 2022 viviam no bairro de Lagoa Nova.

Mas se essa situação de calmaria e tranquilidade era normal, nas atividades artísticas do belo Theatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão, a situação era bem diferente.

Inaugurado em 24 de março de 1904, após sete anos de construção, o Carlos Gomes se tornou o principal centro de apresentações culturais de Natal, com variados artistas subindo no seu palco e deleitando o público local. O interessante livro Teatro Carlos Gomes – Alberto Maranhão – 100 Anos de Arte e Cultura, do Professor Cláudio Augusto Pinto Galvão, lista um grande número de recitais, conferências, concertos, apresentações diversas e até eventos políticos que ali se ocorreram durante a sua História.

O antigo Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão – Fonte – Fundação José Augusto.

Para impulsionar o movimento musical em Natal, em 31 de março de 1908 o governador Alberto Maranhão assinou, o Decreto nº 176, criando a Eschola de Musica, que funcionaria anexa ao teatro. Quem ficou à frente desta instituição foi o maestro Luigi Maria Smido, que além dessa função acumulou a direção da banda de música do Batalhão de Segurança (Polícia Militar). Segundo o professor Claudio Galvão, o verdadeiro nome de Smido era Luigi Maria Schmidt und Insbruck e a maioria das fontes aponta que ele era italiano.

Mas em 6 de janeiro de 1914, sete dias após ser empossado pela segunda vez governador do Rio Grande do Norte, o recifense Joaquim Ferreira Chaves extinguiu a escola de música e alegou que fazia isso por falta de dinheiro. Somente dois anos depois foi criada uma nova escola no teatro e sob o comando do italiano Thomaz Babini.

Orquestra do Teatro Calos Gomes nas primeiras dércadas do século XX – Fonte – Livro – Alberto Maranhão – 100 Anos de Arte e Cultura, do Professor Cláudio Augusto Pinto Galvão.

Essas iniciativas educacionais na área musical deixaram muitos frutos, pois uma interessante plêiade de artistas passou a existir na cidade e estes tinham no Theatro Carlos Gomes o local ideal para desenvolver a sua arte. No livro do Professor Claudio Galvão existe muitas informações sobre essa evolução e o desenvolvimento musical em Natal nessa época.

Ele nos conta que com o passar dos anos o teatro passou por altos e baixos, com momentos em que sua orquestra ficou reduzida a um sexteto e quando o local precisou de uma reforma, a luta para conseguir a verba destinada para esse trabalho foi duríssima. Mas no ano de 1922, diante as comemorações do centenário da Independência em Natal, o governador Antônio de Souza caprichou nos festejos e apoiou no que foi necessário para que o Theatro Carlos Gomes pudesse receber apresentações dignas da casa e do público natalense.

Praça Augusto Severo e Estação da Great Western of Brazil Railway em 1906, na Ribeira, na mesma área onde se encontra o Teatro Alberto Maranhão – Fonte – Fundação José Augusto.

Em meio a todos esses problemas e processos, cada vez mais crescia o número de músicos em Natal e a muitos deles mostravam extrema capacidade musical. Um desses músicos foi Alcides Cicco.

O Escriturário Que Era Barítono

Alcides Cicco nasceu em 1894 na cidade de São José de Mipibu, sendo filho de Vincenzo De Cicco, um italiano da comuna de Sapri, província de Salerno, região da Campânia, sudoeste da Itália. Vincenzo imigrou para o Brasil e casou em São José de Mipibu com Ana Albuquerque e Melo, com quem teve doze filhos. Depois ele se mudou com toda a família para Natal e se tornou comerciante.  

Alcides Cicco – Fonte – – Livro – Alberto Maranhão – 100 Anos de Arte e Cultura, do Professor Cláudio Augusto Pinto Galvão.

Sobre os primeiros anos de Alcides eu não tenho muitas informações, mas sei que ele não seguiu seus irmãos Januário na medicina e nem Celso como padre. A música falou mais alto!

Segundo o Professor Claudio Galvão, o jovem Alcides fez parte da Eschola de Musica do Carlos Gomes em 1908 e desde cedo apresentou inclinação para o canto lírico, mas também tocava violino. Existem nos antigos jornais natalenses da década de 1920, várias citações da participação de Alcides em um grande número de eventos e sempre fazendo bom uso da sua privilegiada voz.

Uma das muitas referências da participação de Alcides em eventos musicais em Natal.

Foi quando se espalhou a notícia em Natal que o virtuoso Alcides estava de partida para centros maiores e mais desenvolvidos, em busca de aprimoramentos para a sua capacidade artística. E seria com tudo pago pelo erário público e com direito a Lei proferida pelos altos dirigentes do Estado. Enfim, não dava mesmo para um 4º Escriturário do Tesouro do Rio Grande do Norte bancar do próprio bolso dois anos de estudos musicais lá fora.

Diante da notícia, a classe musical local decidiu realizar um evento no Theatro Carlos Gomes. Ficou acertado que aquele acontecimento se chamaria pomposamente “Festival de Artes e Letras”, seria dedicado ao governador Antônio de Souza e teria a participação de Luigi Maria Smido, Thomaz Babini, o jovem músico Waldemar de Almeida e outros mais. Apesar do nome oficial, todo mundo em Natal sabia que a festa era o “bota-fora” de Alcides Cicco para o Rio de Janeiro…

Finalmente, às oito e meia da noite de sábado, 27 de janeiro de 1923, a festa começou!

A Festa de Alcides

O Theatro Carlos Gomes lotou, ficou até apertado, estava “à cunha” como expressou um jornalista na época. O governador e sua família estiveram presentes e mais um grande número de políticos que hoje são nomes de ruas e avenidas em Natal. Mas o que valeu mesmo foram as apresentações no palco.

Waldemar de Almeida na juventude – Fonte – Livro – Alberto Maranhão – 100 Anos de Arte e Cultura, do Professor Cláudio Augusto Pinto Galvão.

Nos jornais antigos temos em detalhes a sequência das apresentações, com as obras que foram executadas e seus respectivos autores naquela. O nosso BLOG TOK DE HISTÓRIA, fazendo uso das atuais tecnologias existentes, traz para seus leitores a sequência exata de quase todas as obras que ali foram executadas. Essa é uma interessante oportunidade de compreender que tipo de música os natalenses apreciavam no seu principal teatro, em uma época onde o rádio ainda dava os primeiros passos (e demoraria quase vinte anos para chegar a Natal), a televisão estava engatinhando e a internet não era nem ficção cientifica.

O evento iniciou com a orquestra do teatro sendo conduzida pelo maestro Smido e tocando uma ouverture, ou abertura, intitulada Poète et Paysan, do austríaco Franz von Suppé (1819 – 1895). Essa peça estreou em Viena no ano de 1846, mas após a morte do autor foi transformada em uma opereta em três atos, sendo a sua abertura a mais difundida e tocada.

Após a execução da abertura de Suppé, houve uma “Ligeira sessão literária”. Mesmo sem maiores detalhamentos de como se desenrolou esse momento, sabemos que primeiramente subiu ao palco o Doutor Sebastião Fernandes de Oliveira, então juiz de direito de Ceará-Mirim e diretor do “Centro Polymathico”, que trouxe perante o público natalense os “belletristas” Luís da Câmara Cascudo, José Gabat (sic), Ezequiel Wanderley, Othoniel Menezes, F. Palma, Virgílio Trindade e Jayme Wanderley.

Na sequência houve a 2ª Parte, que começou com Thomaz Babini assumindo a orquestra e Alcides Cicco como barítono. Foi executada com maestria a terceira função da ópera Zazà, do italiano Rugero Leoncavallo (1857 – 1919). A estreia dessa ópera aconteceu no Teatro Lírico de Milão, Itália, em 10 de novembro de 1900 e essa terceira função se chamava Cascart, um cantor de sala de concertos.

A segunda obra da 2ª parte da apresentação foi a Polonais em dó sustenido menor, Opus 26, 1, composta pelo polonês Frédéric Chopin (1810 – 1849). Quem tocou essa obrafoi o jovem pianista Waldemar de Almeida, então com 19 anos e natural da cidade de Macau, Rio Grande do Norte.

Veio então a 3ª Parte, a mais longa, que começou com a peça Air de Ballet, do francês Jules Massenet (1842 – 1912), novamente com a participação da orquestra do teatro, com o maestro Babini na regência.

A segunda obra dessa parte do espetáculo foi Fantaisie-Impromptu, Op. 66, de Frédéric Chopin. Essa foi peça composta em 1834 e publicada postumamente em 1855, sendo uma das composições mais frequentemente executadas e populares de Chopin. Naquela noite de 1923 no nosso teatro, foi o jovem Waldemar de Almeida que a executou ao piano.

Bem, nessa altura das apresentações não dava para deixar de fora algum compositor brasileiro e a escolha foi pelo cearense Alberto Nepomuceno (1864 – 1920). Este foi um compositor, pianista, organista, regente e membro da Academia Brasileira de Música, sendo considerado o “pai” do nacionalismo na música erudita brasileira. Coube a Waldemar de Almeida tocar ao piano o Noctuno, Op. 33.

A última peça a ser tocada foi executada pela orquestra do teatro, sob a regência de Luigi Maria Smido e se chamava Romance em fá. Infelizmente o texto não comentou quem era o autor dessa obra. Talvez o próprio Smido. Nesse caso não encontrei nenhum material em áudio e vídeo que mostrasse a apresentação dessa peça.

Então o evento se encerrou e Alcides Cicco partiu para o Rio de Janeiro. Em poucos anos voltou para a sua terra e seu teatro.

Um Boêmio Bondoso e Tímido

Luís da Câmara Cascudo assim se expressou em uma Acta Diurna Sobre Alcides Cicco, publicada no jornal natalense A República, edição de 20 de junho de 1959. O Professor Claudio Galvão a transcreveu em parte no seu interessante livro Teatro Carlos Gomes – Alberto Maranhão – 100 Anos de Arte e Cultura.

Cascudo o descreveu como modesto, tímido, raras vezes se apresentou em público. Quanto ao seu objetivo artístico, comentou: Preparou-se a vida inteira para ser o que não conseguiu realizar: um artista dramático, um tenor de óperas, de óperas especialmente italianas, Verdi, Puccini, Leoncavallo, Mascagni. Sobre seu trabalho como administrador do Theatro Carlos Gomes, evocava: […] prestou inolvidáveis serviços, batendo-se pela manutenção, trabalhando diretamente na sua conservação. Quantas vezes o vi, de pincel na mão, pintando paredes e gradis, com tinta paga do seu bolso.  

Três anos antes de Alcides Cicco falecer, o escritor Gumercindo Saraiva escreveu uma interessante crônica sobre ele no jornal O Poti, edição de 13 de julho de 1956, que achei mais interessante transcrever na íntegra.

POR QUE ALCIDES NÃO SE CASOU?

Alcides Cicco, antigo diretor do Teatro Carlos Gomes, é figura excêntrica de boêmio da cidade. Vez por outra o encontro num dos bares da Ribeira tomando cerveja e cantando trechos de óperas, com toda força de seus pulmões.

Sempre achei que Alcides deve ser personagem de uma opereta, ou de um desgarrado na vida em um romance de Balzac. Seu tipo físico, bondade, boêmia, sua vida sem ambições e sem pessimismos, tudo nele é estranho e romanesco.

Creio que quase todo mundo sabe por que Alcides não seguiu a sua carreira de cantor lírico. Estudava no Rio e conseguiu uma bolsa de estudos na Itália. Veio a Natal se despedir dos seus parentes. Aqui, uns amigos convidaram-no a dar um passeio em Papari (atual cidade de Nísia Floresta) e comer uns camarões. Pois bem. Ele gostou tanto dos camarões que desistiu para sempre de sua viagem à Europa…

E não se diga que Alcides não tem habilidades que o destacam do comum dos homens. Uma das melhores macarronadas que já comi nesta cidade foi feita por Alcides Cicco em sua própria casa, faz alguns anos. Ele preparou os quitutes com verdadeiro gosto artístico.

Numa roda de amigos João Meira Lima divulgou o motivo por que ainda hoje Alcides Cicco persiste solteirão. Ouviu a história de sua própria boca, num momento de recordações e confidências…

Alcides era jovem e passava uma noite na antiga rua da Palha (atual rua Vigário Bartolomeu, no Centro). Casualmente, viu numa janela uns olhos cintilantes, quase de fogo. Achou-os maravilhosos e sentiu que estava loucamente apaixonado. Todas as noites, infalivelmente, Alcides desfilava pela rua de Palha para contemplar os mais belos olhos de sua vida. Tímido e romântico – foi sempre assim – não tinha coragem de abordar a criatura dos lindos olhos. Afinal, uma noite, tomou umas cervejas, encheu-se de coragem e resolveu enfrentar a dama dos seus sonhos. De longe viu os olhos brilhantes e aproximou-se, quase hipnotizado pelo fogo daquele olhar… Quando chegou em frente á janela – foi a maior decepção de sua vida – ouviu um miado longo e notou que a dona dos olhos de fogo era apenas uma velha gata de estimação… Desde esse dia não quis mais saber de casamento…

Alcides Cicco faleceu por volta das seis da manhã do dia 19 de junho de 1959, de complicações do diabetes. Expirou na antiga residência da família Cicco, no número 190 da Avenida Duque de Caxias, na Ribeira, e que por um verdadeiro milagre ainda se conserva preservada.

Alcides nunca casou, mas criou uma união permanente com a música e o velho teatro de Natal.