Ultimamente Tenho Visto Alguns Vídeos no YouTube Que Comparam os Vários Aspectos Existentes Entre os Gaúchos Brasileiros e os Cowboys dos Estados Unidos. Já o Histórico Caso Que Aqui Apresento, Mostra Que a Distância Entre Esses Dois Mundos Parece Não Ter Sido Tão Grande.
O dia amanheceu quente e seco naquele dia 7 de dezembro de 1905, na cidade gaúcha de Dom Pedrito, região da Campanha, não muito distante da fronteira com o Uruguai. Mas como é normal no verão naquela região, conforme o sol desaparecia no horizonte aquela pequena cidade recebia temperaturas bem mais amenas e as pessoas se encontravam para conversar e apreciar o movimento.
Dom Pedrito no início do século XX – Fonte – Arquivo Nacional.
Por volta das oito e meia da noite um grupo de homens da sociedade local conversavam diante da loja de secos e molhados do Senhor Bernardino Machado da Silveira, na atual Avenida Júlio de Castilho, próximo da esquina da Rua Bernardino Ângelo. Quem se destacava no grupo era o fazendeiro Francisco Moreira da Fontoura, subintendente do Primeiro Distrito de Dom Pedrito, conhecido na comunidade pelo apelido de Cachoeira e possuidor da patente de Capitão da Guarda Nacional.
A conversa seguia franca e tranquila quando surgiram na rua dois cavaleiros desconhecidos. Um deles era branco, possuía estatura regular, cabelos pretos encrespados e devia ter uns 25 anos de idade. Vestia camisa branca, cobria o corpo com um poncho de pala fina e trajava uma bombacha feita de cassineta (um tipo de tecido de lã). Trazia casaco preto, chapéu da mesma cor e no pescoço um vistoso lenço escuro. Calçava botas com esporas e estava montado em um cavalo zaino colorado devidamente encilhado. Já sobre o seu companheiro ficou apenas registrado que ele era “um mulato”.
A função de Francisco Moreira Fontoura na época desse episódio.
Os dois cavaleiros pararam defronte a loja do Senhor Machado e o branco apeou-se do cavalo, deu boa noite a todos e entrou na loja. No interior do estabelecimento ele escolheu alguns produtos que totalizaram 10.000 réis, puxou uma cédula de 50.000 para pagar a despesa e ficou esperando o troco. Só que o proprietário desconfiou da legitimidade daquela nota graúda e não aceitou recebê-la.
Cenas de Velho Oeste em Dom Pedrito
Apesar de desconfiado, o Senhor Machado disse ao estranho que fosse trocar a nota em outro estabelecimento que ele entregaria as compras.
A antiga Dom Pedrito, vista do Rio Santa Marta.
No Brasil daqueles primeiros anos do século XX, havia um sério problema em vários estados com notas e moedas falsas. Lendo os jornais antigos do Rio Grande do Sul eu encontrei algumas referências sobre esse problema e até mesmo notícias da existência de verdadeiras fábricas clandestinas de dinheiro falsificado.
O Capitão Fontoura acompanhava a negociação e se adiantou ao estranho. Perguntou-lhe então quem ele era, de onde vinha e para onde se dirigia. Mas suas respostas foram repletas de contradições e negativas, o que despertou as suspeitas da autoridade. Nesse momento Fontoura se dirigiu ao cavaleiro que estava fora da loja e ainda montado, pedindo-lhe para descer do seu animal e responder as mesmas perguntas feitas ao seu companheiro. Houve novas contradições e esse rapaz não soube dizer nem onde morava e nem em que trabalhava.
Armas em Dom Pedrito eram comuns no passado. Aqui cavaleiros nesta cidade, durante a Revolução de 1923.
Foi quando os dois estranhos perguntaram quem estava querendo saber aquelas informações. Fontoura declinou quem ele era e os dois homens “assumiram atitude ameaçadora”. O Capitão então pediu aos cidadãos Alcindo Orlandes e Tertuliano Joaquim da Silva que ajudassem a prender aqueles homens e foi aí que eles correram para seus cavalos.
Os dois conseguiram até montar em suas alimárias, mas Fontoura e Tertuliano seguraram fortemente nas rédeas dos dois animais e impediram que eles saíssem em acelerado galope. Nesse momento os estranhos sacaram seus revólveres e abriram fogo contra os moradores de Dom Pedrito. Só que o movimento dos cavalos em meio à algazarra e a agilidade de Fonseca e Tertuliano evitaram que fossem atingidos. Nesse momento eles sacaram suas armas e mandaram bala nos estranhos em meio ao forte tiroteio!
O homem branco foi atingido na perna direita e no peito e caiu do seu animal. Morreu na hora e ficou estirado no meio da rua com seu revólver Smith & Wesson ao seu lado. Já o seu companheiro conseguiu fazer Tertuliano soltar as rédeas e disparou a galope pela Rua Bernardino Ângelo. Vários tiros foram feitos contra ele e seu cavalo, mas nunca se soube se foram atingidos.
Infelizmente o cavalo zaino colorado do bandido abatido recebeu dois disparos, um no quarto e outro no pescoço, mas as informações existentes não dizem se ele morreu ou conseguiu se recuperar dos ferimentos.
Bem, evidentemente que Dom Pedrito acordou com tamanha balaceira e vários populares foram ao local do tiroteio. Logo o delegado Adauto Costa chegou e procedeu ao auto de corpo de delito, junto com Juvenal Marques de Araújo, que trabalhou como escrivão ad hoc.
Naquele momento não foi possível identificar o cadáver do falsário, mas com ele foi encontrado uma adaga de cabo de metal, um relógio de algibeira de prata com uma corrente e as iniciais “S.L.”, um cinto com as iniciais “O.M.”, quatro munições do seu revólver, outras três notas falsas de 50.000 réis e 31.700 réis em dinheiro legítimo, dois lenços de algibeira e dois breves, sendo um em português e outro em espanhol. Um breve nessa época era basicamente um objeto devocional muito popular, geralmente consistindo em um pequeno pedaço de tecido, papel ou pergaminho contendo orações, trechos dos Evangelhos ou imagens de santos, usados sobre o corpo com a intenção de “fechá-lo” contra maus olhados, balas e outras coisas.
Aparentemente o objeto do morto que mais chamou a atenção das pessoas em Dom Pedrito foi o revólver Smith & Wesson, um produto importado dos Estados Unidos e tido por aqueles que lá estavam como uma arma “legítima”. Em 1905 era normal a venda aberta de revólveres importados, sem maiores complicações legais, como podemos ver no anúncio acima de uma loja de armas de Porto Alegre e publicado nessa mesma época. Provavelmente a arma utilizada pelo desconhecido bandido era igual a do anúncio – um Smith & Wesson Modelo 3, de ação simples, com abertura superior, capacidade para seis munições e possivelmente em calibre 44.
Tal como aconteceu na região oeste dos Estados Unidos entre as décadas de 1850 e os primeiros anos do século XX, naquilo que hoje convencionamos chamar de Velho Oeste, Oeste Selvagem ou Faroeste, na manhã do dia 8 de dezembro de 1905 em Dom Pedrito muita gente foi ver o cadáver do bandido morto na delegacia, aonde ele chegou a ser fotografado pelo Alferes Jatahy.
Sabemos que o cadáver do bandido envolvido no tiroteio de Dom Pedrito foi fotografado, só não sei se ele foi clicado da mesma maneira que Reuben Houston Burrow, aqui visto nessa foto colorizada com suas armas. Burrow foi um assaltante de trens e fora da lei do sul e sudoeste dos Estados Unidos Durante os últimos anos da fronteira americana. Ele se tornou um dos homens mais procurados do Velho Oeste até 9 de outubro de 1890, quando foi morto na cidade de Linden, Alabama, após tentar fugir da prisão.
Foram formados vários grupos de homens armados para capturar o bandido que fugiu. Apesar do empenho do pessoal local ele nunca foi encontrado. Talvez tenha conseguido se evadir para o Estado Oriental, como também é conhecido o vizinho Uruguai, cuja fronteira está a cerca de 50 quilômetros de Dom Pedrito em linha reta.
Com o tempo se soube que o nome do bandido morto era Pedro Dias e isso foi divulgado porque o Capitão Francisco Moreira da Fontoura e Tertuliano Joaquim da Silva não escaparam de um processo criminal por aquela morte ocorrida em 7 de dezembro de 1905. Mas ambos foram absolvidos, conforme podemos ver na nota abaixo.
Todas as informações sobre esse episódio eu consegui no carioca Jornal do Commercio, edição de terça-feira, 2 de janeiro de 1906, na página 2, que reproduziu a notícia do hoje praticamente desconhecido jornal gaúcho Correio da Fronteira.Já a nota da absolvição de Fontoura e Tertuliano veio da primeira página do jornal porto-alegrense A Federação, edição de sábado, 14 de abril de 1906.
Há 90 anos, a Paraíba presenciava uma luta que entraria para a história. No dia 28 de fevereiro de 1930, uma cidade paraibana declarava independência provisória e passaria a ter hino, bandeira e leis próprias. O município era Princesa Isabel e embate ficou conhecido como a Revolta de Princesa.
Além de marcar a ruptura de Princesa (que à época tinha este nome) com o Estado da Paraíba, o dia também foi a véspera da eleição presidencial de 1930, que confrontava Getúlio Vargas e João Pessoa de um lado e Júlio Prestes e Vital Soares do outro. Esta segunda chapa é que sairia vencedora (mais isto é um capítulo para outra história).
Porém, apesar da batalha começar oficialmente em 1930, e necessário voltar um pouco no tempo para entender o que culminou na Revolta. Tudo começou com a eleição de João Pessoa para Presidente da Paraíba (cargo hoje equivalente ao de governador), em 1928..
O Coronel José Pereira (de chapéu na mão direita, ao centro da foto) e seus principais aliados.
Além do sobrinho de Epitácio Pessoa (e que hoje dá nome à capital paraibana), a Revolta tem outras figuras importantíssimas, entre eles João Duarte Dantas, João Suassuna, Carlos Pessoa, e o principal deles, o coronel José Pereira Lima, mais conhecido como Coronel Zé Pereira..
Zé Pereira era um grande comerciante de algodão. Além do seu poderio financeiro, ele era uma espécie de primeiro-ministro do Sertão, como bem disse o historiador e escritor José Octávio de Arruda Mello. E como um bom coronel, ele mandava e desmandava pelas bandas da Serra do Teixeira. Contraía-lo não era algo que os governantes estavam acostumados a fazer. Mas o que parece é que João Pessoa não estava muito preocupado com isso. Em 22 de outubro de 1928 ele assumia o cargo. E o que já se falava na época era que ele veio com a intenção de perseguir o coronelismo, que imperava naquele momento.
No documentário ‘A Princesa do Sertão’, de 2010 e direção de Deraldo Goulart, o filho de Zé Pereira, Aloísio Pereira, já afirmara que João Pessoa veio ao poder com a finalidade de eliminar três coronéis: os Santa Cruz, de Monteiro, os Dantas, de Teixeira, e José Pereira, de Princesa. “João Pessoa já chegou com este intuito”, diz o professor José Octávio.
João Pessoa
E não tardou para João Pessoa de fato mostrar o que pretendia. À época, grande parte da produção da Paraíba, principalmente de algodão, era despachada para Recife, Natal e Fortaleza, o que fazia com que o Estado paraibano não arrecadasse com os impostos. Devido a isso, o governador (que na verdade era presidente, mas chamemos assim para facilitar o entendimento), emitiu, em 17 de novembro de 1928, a Lei 673, que implantava um rigoroso sistema de arrecadação tributária que distinguia entre as mercadorias importadas pelo Litoral, através do Porto de Cabedelo, e aquelas que entravam na Paraíba pelas fronteiras terrestres. Essa medida praticamente tornou impossível o comércio do Sertão com os estados vizinhos. Com a decisão, João Pessoa passaria a ser chamado pejorativamente de João Porteira ou João Cancela.
Com isso, o clima que já não era dos melhores ia ficando cada vez mais tenso. As medidas deram origem à chamada Guerra Tributária. No meio do entrevero estavam os irmãos Pessoa de Queirós, primos de João Pessoa e figuras importantes em Pernambuco, no tocante ao comércio e à imprensa, através do tradicional Jornal do Commercio, de Recife. E foi se utilizando da força midiática que os Pessoa de Queirós travaram uma batalha pública com o primo governador da Paraíba (mais à frente falaremos do papel da imprensa em todo episódio).
O que antes era só troca de farpas e amenidades teve seu estopim na corrida eleitoral de 1930, como conta José Octávio em seu livro “Nova História da Paraíba – Das origens aos tempos atuais“.
“Em fevereiro, João Pessoa alterara a chapa de deputados federais do Partido Republicano, dela excluindo potentados rurais como João Suassuna e Flávio Ribeiro, aproveitados como candidatos pela Coligação Republicana da Paraíba, mas conservando o primo Carlos Pessoa”, escreveu.
Antigo casarão do coronel José Pereira em Princesa, onde Zé Pereira e João Pessoa se encontraram em 19 de fevereiro de 1930.
Se faltava uma fagulha para o incêndio começar, já não faltara mais. No dia 19 de fevereiro de 1930, João Pessoa, na tentativa de contornar a crise política, viajou a Princesa. Daí surge muitas versões sobre o que teria acontecido na cidade, mas o que se diz é que os dois estavam prontos para a luta, mas estavam disfarçando. José Américo de Almeida, em seu livro ‘O ano do Nego’, conta que, apesar de festas, ele percebeu que aquilo era simulado, e que havia alguma coisa por trás. João Pessoa deixou para dar a informação da decisão de última hora, na hora da saída.
Em 22 de fevereiro de 1930, o “coronel” José Pereira rompe oficialmente com o Governo do Estado, através do telegrama 52.
“Dr. João Pessoa – Acabo de reunir amigos e correligionários aos quais informei do lançamento da chapa federal. Todos acordaram mesmo que V. Excia., escolhendo candidatos à revelia Comissão Executiva, caracteriza palpável desrespeito aos respectivos membros. A indisciplina partidária que ressumbra do ato de V. Excia, inspirador de desconfianças no seio do epitacismo, ameaça de esquecimentos mais relevantes serviços dos devotados à causa do partido. Semelhante conduta aberra dos princípios do partido, cuja orientação muito diferia da atual, adotada singularmente por V. Excia. Esse divórcio afasta os compromissos velhos baluartes da vitória de 1915 para com os princípios deste partido que V. Excia. Acaba de falsear. Por isso tudo delibero adotar a chapa nacional, concedendo liberdade a meus amigos para usarem direito voto consoante lhes ditar opinião, comprometendo-me ainda defendê-los se qualquer ato de violência do governo atentar contra direito assegurado Constituição. Saudações (a) José Pereira”, escreveu.
Sentado vemos Marcolino Florentino Diniz, conhecido como Marcolino Pereira Diniz, um dos líderes de Princesa, que era sobrinho e cunhado do coronel José Pereira, junto com seus comandados. Em pé, da esquerda para direita, temos Pedro Inácio (proprietário de terras em Pernambuco), João Pereira e Pacífico Lopes (proprietários rurais), Joaquim Inácio (grande proprietário de terras no município pernambucano de Triunfo) e Chôcho (proprietário rural na localidade de Irerê, município de Princesa). Agradeço a atenção e participação de Natércia Suassuna Dutra, sobrinha-neta de João Suassuna, que enviou as informações aqui colocadas.
João Pessoa ao receber o telegrama, respondeu-o em um mesmo tom. Depois disso, era questão de tempo que as guerras nas palavras desbancassem para a luta armada. E assim o foi nos dias que cercavam a eleição presidencial de 1º de março. Há registros que citam que, como dito acima, em 28 de fevereiro o Decreto 01 foi aclamado pela população, que declarou oficialmente a independência da cidade (República de Princesa).
Outros citam a movimentação bélica com vistas a garantir o pleito do dia 1º de março. Na véspera, os homens de Zé Pereira e a polícia do Estado, sob o comando de José de Américo de Almeida, marcharam em direção a Teixeira, onde aconteceria o primeiro dos embates. Sobre o dia, há versões divergentes. Afinal de contas, houve ou não embate neste dia? Teve derramamento de sangue ou tudo não passou de uma mera encenação? Vejamos a seguir o que dizem os envolvidos.
Batalha de Teixeira: o que realmente houve na região?
Há uma controvérsia: um lado defende que ocorreram truculência e confronto; o outro aponta apenas encenação.
O dia era 1º de março de 1930. O palco era a cidade de Teixeira. O que aconteceu? Aí é uma controvérsia. Um lado defende que o que se viu foi truculência e confronto. O outro diz que não teve nada disso. Quem estava falando a verdade? Até hoje não ficou claro.. Então vamos às versões e o leitor decide qual lhe parece mais verossímil. Quem narrou as versões foi o professor José Octávio.
“A polícia invade Teixeira. Aí vem uma divergência muito grande, no dia da eleição, os dois lados pretextando garantir a eleição. Zé Pereira veio de lá com o seu pessoal e a polícia pelo lado de cá invadiu para dominar a cidade, que era um foco dominado pelos Dantas. Aí há duas versões. A de Ariano Suassuna ressalta uma versão um tanto romântica. Ele fala da Tia Cota, que Ascendino Feitosa (chefe da polícia) teria a prendido. Ele conta que esta tia dele foi ameaçada por Ascendino, que teria dito que iria beber o sangue dela. E ela teria dito: “Pois então pela primeira vez vai correr sangue bom nestas tuas veias sujas”. Esta é a versão de Ariano”, disse.
Marcas do conflito em Princesa em 1930.
E completou: “A versão de Osvaldo Trigueiro é que não aconteceu nada disso, que é uma coisa inteiramente simulada. Esses conflitos da época tinham muito de simulação, encenação. Ele diz que essa briga não existiu, que não houve tiroteio nenhum lá, nada. O que se diz é isso, que a guerra começou em Teixeira, o que é compreensível porque Teixeira fica no meio do mapa. Disse que a polícia chegou lá e, nem uma coisa que era muito comum na época, que era tiro para cima, houve. Essa é a versão de Osvaldo Trigueiro”, conta.
O que se sabe é que houve esse episódio que abriria oficialmente as outras batalhas que ali viriam. Os homens de Zé Pereira eram em um número muito maior do que a polícia, dois mil contra 850. E eles se utilizaram de armas fornecidas pelo próprio Estado anos antes, na tentativa de conter a passagem da Coluna Prestes pela Paraíba. E foi essa vantagem numérica que deixava os homens de Zé Pereira sempre à frente na corrida, como no episódio de Tavares.
“O ponto máximo de penetração da polícia foi o distrito de Tavares, onde coluna comandada pelo capitão João Costa passou de sitiante a sitiada. Tavares é o município vizinho a Princesa, a polícia que estava invadindo ficou aquartelada e João Costa resistindo. Em matéria de organização, os Pereiristas sacavam vantagem”, declarou José Octávio.
Apesar do rompimento ter acontecido em fevereiro, apenas em junho, na primeira e única edição do ‘Jornal de Princeza’, em 21 de junho de 1930, era publicado o decreto, datado de 9 de junho, que proclamava a independência de Princesa.
Decreta e proclama provisoriamente a independência do município de Princesa, separada do Estado da Paraíba, e estabelece a forma pela qual deve ele se reger. A administração provisória do Território de Princesa, instituída por aclamação popular, decreta e proclama a Resolução seguinte:
ART. I – Fica decretada e proclamada provisoriamente a independência do município de Princesa, deixando o mesmo de fazer parte do Estado da Paraíba, do qual está separado desde 28 de fevereiro do corrente ano.
ART. II – Passa o município de Princesa, constituir com seus limites atuais, um território livre que terá a denominação de Território de Princesa.
ART. III – O Território de Princesa assim constituído permanece subordinado politicamente ao poder público federal, conforme se acha estabelecido na Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil.
ART. IV – Enquanto pelos meios populares não se fizer a sua organização legal, será o Território regido pela administração provisória do mesmo território. Cidade de Princesa, em 09 de junho de 1930.
O impasse duraria até após a morte de João Pessoa, no dia 26 de julho, em Recife. O presidente da República, Washington Luiz, decidiu terminar com a Revolta de Princesa e o coronel José Pereira não ofereceu resistência, conforme acordo prévio, quando seiscentos soldados comandados pelo capitão João Facó ocuparam a cidade em 11 de agosto de 1930. José Pereira deixou a cidade no dia 5 de outubro de 1930. Depois de anistiado, em 1934, foi residir na Fazenda Abóbora em Serra Talhada.
O papel da imprensa na Revolta
Além das figuras já citadas, dois veículos tiveram bastante protagonismo nessa batalha: o jornal A União e o Jornal do Commercio. Por trás de um estava o governador da Paraíba João Pessoa e do outro os Pessoa de Queirós, mais precisamente na figura de Francisco. Ainda em 1929, João Pessoa já atacava os coronéis, na edição do dia 11 de outubro do jornal A União. “Logo que assumi o governo, verifiquei que tudo estava enfeudado às chefias políticas. O chefe político arrecadava e dispunha, como bem entendia, das receitas públicas. Tributava e não era tributado. Fazia justiça, mas não se deixava justiçar. Tornava-se, como se vê, um elemento pernicioso”, declarou.
Combatente do conflito de Princesa de 1930, armado com um fuzil alemão Mauser.
O episodio da passagem de João Pessoa por Princesa (quando ele anunciaria a decisão sobre a retirada de João Suassuna da chapa) foi retratado na edição de 20 de fevereiro de 1930, do jornal A União. Já a edição do dia 28 trazia a notícia da decisão de João Suassuna disputar a eleição para deputado federal. Um trecho do texto dizia o seguinte: “Ninguém poderia crer que o homem a quem concedeu nosso partido os postos de maior significação e realce, na esfera da administração pública e da política, fosse pedir ou aceitar um abrigo protetor à sombra vacilante das bandeiras inimigas, precisamente no instante que estão em jogos os interesses vitais da Paraíba e do partido que generosamente o criou”. Algumas manchetes dos jornais de março de 1930 da União davam a tônica do que estava acontecendo. Em 4 de março, publicava-se a seguinte manchete: “A traição e os traidores”, com um texto que atacava fortemente José Pereira e João Suassuna. A edição de 6 de março voltava a bater ainda mais forte nos revoltosos de Princesa, com uma matéria intitulada “Os cangaceiros de José Pereira tentando convulsionar o Sertão”. Os ataques perdurariam até o fim da Revolta. Naquele mesmo ano, João Pessoa seria assassinado em 26 de julho, em Recife, como já dito acima, e em outubro, Getúlio Vargas e o exército tomariam o Palácio do Catete, no que ficaria conhecido como a Revolução de 1930.
Uso de avião e “tanque blindado”
Hilton Gouvêa – hiltongouvearaujo@gmail.com
Na Revolta de Princesa Isabel, segundo demonstra o arquivo da Força Aérea Brasileira (FAB),com registro no Índice Assuntos Diversos – Aviação, foi empregado um avião da categoria turismo, da marca Flit, para bombardear o município. Este, de acordo com orientações do então governador João Pessoa, teria a missão preliminar de, inicialmente, lançar panfletos sobre a área de maior ajuntamento de jagunços, convidando-os a se render, sem o emprego de armas e, consequentemente, derramamento de sangue. Convém citar que desde o início da luta os soldados da Força Pública da Paraíba nunca tinham conseguido entrar no reduto do coronel José Pereira.
Seriam necessárias 800 bombas para a operação, que foram fabricadas por Alberto Borges e José Pimentel. Cada uma pesava cerca de 60 quilos e eram altamente explosivas. Seriam lançadas sobre Princesa Isabel, (a 413 quilômetros de João Pessoa). O documento da FAB revela que, João Pessoa, de última hora, teria impedido o bombardeio, embora, nesse ínterim, ainda faltasse o principal instrumento da operação: um avião.
A Paraíba, neste momento de grande decisão, já dispunha de dois aviadores hábeis: Luigi Fossati e Florindo Perroni. O avião, principal instrumento operacional do plano, amerrisou na Praia de Jacumã, a 22 quilômetros da capital, às 14h do dia 14 de abril de 1930. O piloto era Perroni. A aeronave era um hidroavião, que teve seus trens de pouso – duas canoas – substituídos por rodas, para operar em terra. Ao deslizar numa ribanceira, o aparelho quebrou a hélice e uma das asas. Acabou desmontado e conduzido para Campina Grande, onde seria feito o conserto.
João Duarte Dantas
Não houve jeito. O aviador paulista Reinaldo Gonzaga, amigo do governo paraibano, encarregou um certo Charles Astor para adquirir outro aparelho, este batizado de Garoto. Desta vez, o piloto Luigi Fossati conseguiu pousar, com esta avioneta, em Piancó, a 25 de junho de 1930 – um mês e 3 dias depois, João Dantas mataria João Pessoa, em Recife, dentro da Confeitaria Glória, com dois tiros pelas costas. Na localidade de São Boaventura, a nave chegou a dar um voo rasante de 20m de altura, sobre as posições inimigas. Três jagunços morreram de medo, embora o aviãozinho tenha sido atingido por tiros de fuzil, sem se avariar.
João Pessoa morto
Conta-se uma piada sobre este episódio: o avião foi atingido por tiros de fuzil em São Boaventura, no momento em que liberava uma “nuvem” de panfletos. Tratava-se de uma operação de efeito psicológico, sem ocorrência (ainda) de bombas. Um jagunço perguntou ao outro: “Tu acertasse o passarin?” Resposta: “Acho que sim: voismicê num viu o monte de pena qui ele soltou?” Houve também azar: dias depois, o piloto Perroni morreu, daí porque o avião não conseguiu chegar até o centro de Princesa, o coração do quartel-general de José Pereira. Este piloto seria o que, em última hipótese, faria o bombardeio, por conhecer bem a área.
“Viatura de guerra” de CG
A participação de Campina Grande na guerra contra os rebeldes de Princesa Isabel teve um plano iniciado em 1929. Foi lá que fabricaram um “carro-tanque blindado”, para atuar no front das tropas do governo estadual, no grande ataque ao reduto dos jagunços de José Pereira e seu parente, o caboclo Marcolino. Esta curiosa matéria, foi publicada no Anuário de Campina Grande em 1982.
Sabe-se pouco que fim levou o estranho “veículo militar”. Em Princesa ele não chegou. Prova-se que o “tanque” usava pneus da marca Fisk, fabricados pela Fisk Rubber Company, empresa norte-americana fundada em 1924, que exportava pneus e outros produtos para o Brasil. O engenheiro do “blindado” foi o criativo lanterneiro e mecânico Duca Paulino, que montou-o sobre a carroceria de um caminhão GMC. O “tanque” era tão pesado que não conseguiu subir a ladeira do Serrotão, sendo rebocado de volta para Campina Grande, de onde sumiu.