AUTA DE SOUZA – SEUS VERSOS E TRAÇOS DE SUA VIDA BREVE

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Auta Henriqueta de Souza

Autor – Elfi Kürten Fenske

Fonte – http://www.elfikurten.com.br/2013/05/auta-de-souza.html

“Não vês? Minh’alma é como a pena branca

Que o vento amigo da poeira arranca

E vai com ela assim, de ramo em ramo,

Para um ninho gentil de gaturamo…

Leva-me, ó coração, como esta pena,

De dor em dor, até a paz serena.”

– Auta de Souza 

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Exemplar da 2ª ed. de “O Horto”, que pertenceu a Antônio Isidoro de Medeiros, tio-avô de Rostand Medeiros, que guarda o exemplar. 

Auta Henriqueta de Souza nasceu em Macaíba, em 12 de setembro de 1876, filha de Elói Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina Rodrigues e irmã dos políticos norte-rio-grandenses Elói de Sousa e Henrique Castriciano.

Ficou órfã aos três anos, com a morte de sua mãe por tuberculose, e no ano seguinte perdeu também o pai, pela mesma doença. Sua mãe morreu aos 27 anos e seu pai aos 38 anos.

Durante a infância, foi criada por sua avó materna, Silvina Maria da Conceição de Paula Rodrigues, conhecida como Dindinha, em uma chácara no Recife, onde foi alfabetizada por professores particulares. Sua avó, embora analfabeta, conseguiu proporcionar boa educação aos netos.

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Aos onze anos, foi matriculada no Colégio São Vicente de Paula, dirigido por freiras vincentinas francesas, e onde aprendeu Francês, Inglês, Literatura (inclusive muita literatura religiosa), Música e Desenho. Lia no original as obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand e Fénelon.

Quando tinha doze anos, vivenciou nova tragédia: a morte acidental de seu irmão mais novo, Irineu Leão Rodrigues de Sousa, causada pela explosão de um candeeiro.

Mais tarde, aos catorze anos, recebeu o diagnóstico de tuberculose, e teve que interromper seus estudos no colégio religioso, mas deu prosseguimento à sua formação intelectual como autodidata.

Continuou participando da União Pia das Filhas de Maria, à qual se uniu na escola. Foi professora de catecismo em Macaíba e escreveu versos religiosos. Jackson Figueiredo (1914) a considera uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas brasileiras.

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Informativo sobre a venda do livro “O Horto”

Começou a escrever aos dezesseis anos, apesar da doença. Frequentava o Club do Biscoito, associação de amigos que promovia reuniões dançantes onde os convidados recitavam poemas de vários autores, como Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Castro Alves, Junqueira Freire e os potiguares Lourival Açucena, Areias Bajão e Segundo Wanderley.

Por volta de 1895, Auta conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público de sua cidade natal, com quem namorou durante um ano e de quem foi obrigada a se separar pelos irmãos, que preocupavam-se com seu estado de saúde. Pouco depois da separação, ele também morreria vítima da tuberculose. Esta frustração amorosa se tornaria o quinto fator marcante de sua obra, junto à religiosidade, à orfandade, à morte trágica de seu irmão e à tuberculose. A poetisa, então, encerrou seu primeiro livro de manuscritos, intitulado Dhálias, que mais tarde seria publicado sob o título de Horto.

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Auta de Souza

Aos dezoito anos, passou a colaborar com a revista Oásis, e aos vinte escrevia para A República, jornal de maior circulação e que lhe deu visibilidade para a imprensa de outras regiões. Seus poemas foram publicados no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro.

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Parte final do verso “Flor do Campo”, publicado inicialmente no ano de 1899 no jornal A Republica, de Natal.

No ano seguinte, passaria a escrever assiduamente para o prestigiado jornal A Tribuna, de Natal, e seus versos eram publicados junto aos de vários escritores famosos do Nordeste. Entre 1899 e 1900, assinou seus poemas com os pseudônimos de Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum à época.

Também foi publicada nos jornais A Gazetinha, de Recife, e no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na Revista do Rio Grande do Norte, onde era a única mulher entre os colaboradores. 

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Henrique Castriciano, irmão de Auta

Venceu a resistência dos círculos literários masculinos e escrevia profissionalmente em uma sociedade em que este ofício era quase que exclusividade dos homens, já que a crítica ignorava as mulheres escritoras. Sua poesia passou a circular nas rodas literárias de todo o país, despertando grande interesse. Tornou-se a poetisa norte-rio-grandense mais conhecida fora do estado.

Aos 24 anos, no dia 7 de fevereiro de 1901, Auta de Souza morria tuberculosa. Foi sepultada no cemitério do Alecrim, em Natal, em 1904 seus restos mortais foram transportados para o jazigo da família, na parede da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Macaíba, sua cidade natal. No ano anterior (1900) havia publicado seu único livro de poemas sob o título de Horto, com prefácio de Olavo Bilac, que obteve significativa repercussão na crítica nacional. Em 1910 saía à segunda edição, em Paris, e, em 1936, a terceira, no Rio de janeiro, com prefácio de Alceu de Amoroso Lima.

POEMAS MUSICADOS

Outro aspecto importantíssimo da obra de Auta de Souza diz respeito a poemas seus que foram musicados por compositores regionais e transmitidos oralmente de uma geração para outra, desde o final do século XIX até hoje.

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Notícia da morte de Auta de Souza no jornal A República, em 8 de fevereiro de 1901

 

Sem considerar aqueles que foram e vêm sendo musicados mais recentemente, e que não tiveram esta vinculação com a tradição oral, tem-se conhecimento da existência de quatorze deles, somando dezesseis ao considerar-se que um deles, Caminho do sertão, conta com três versões melódicas diferentes. Algumas destas canções ficaram conhecidas de norte a sul do país, chegando também a Portugal.

Integrariam esse cancioneiro de Auta de Souza os seguintes poemas musicados: Caminho do sertão, Teus anos, Desalento, Agonia do coração, Ao cair da noite, Ao luar, Meu pai, Nunca mais, Olhos azuis, Palavras tristes, Regina Coeli, À Eugênia, Meu sonho, Rezando (Róseo Menino).

Fonte: GOMES, Ana Laudelina Ferreira. Vida e obra da poeta potiguar Auta de Souza (1876-1901). Disponível no link. (acessado 14.5.2013).

POEMAS PSICOGRAFADOS E ORIENTAÇÕES ESPIRITUAIS

Além de seus poemas e de seu cancioneiro, Auta de Souza é conhecida também como uma grande mentora espiritual. Para os seguidores do espiritismo kardecista, que no Brasil hoje somam aproximadamente um milhão e meio de praticantes, a poeta é tida como um espírito superior que atuaria no “planoceleste” enquanto mentora e protetora espiritual.

Fonte: GOMES, Ana Laudelina Ferreira. Vida e obra da poeta potiguar Auta de Souza (1876-1901). Disponível no link. (acessado 14.5.2013).

Homenagens

Em 1936, a Academia Norte-Riograndense de Letras dedicou-lhe a poltrona XX, como reconhecimento à sua obra.

Em 1951, foi feita uma lápide, tendo como epitáfio versos extraídos de seu poema Ao Pé do Túmulo: “Longe da mágoa, enfim no céu repousa/Quem sofreu muito e quem amou demais.” 

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Caminho do Sertão

 

(A meu irmão João Cancio)

Tão longe a casa! Nem sequer alcanço

Vê-la através da mata. Nos caminhos

A sombra desce; e, sem achar descanso,

Vamos nós dois, meu pobre irmão, sozinhos!

 

É noite já. Como em feliz remanso,

Dormem as aves nos pequenos ninhos…

Vamos mais devagar… de manso e manso,

Para não assustar os passarinhos.

 

Brilham estrelas. Todo o céu parece

Rezar de joelhos a chorosa prece

Que a Noite ensina ao desespero e a dor…

 

Ao longe, a Lua vem dourando a treva…

Turíbulo imenso para Deus eleva

O incenso agreste da jurema em flor.

– Auta de Souza, in “Horto”, 1900.

VEJA TAMBEM NO TOK DE HISTÓRIA – https://tokdehistoria.com.br/2011/04/04/a-historia-do-jasmineiro-de-auta-de-souza-contada-por-palmyra-wanderley/

 

1830 – O REGISTRO DE BATISMO DE ANTÔNIO CONSELHEIRO

O PRIMEIRO DOCUMENTO OFICIAL DE UM GAROTO CEARENSE QUE MUDOU A HISTÓRIA DO BRASIL

O Conselheiro

Rostand Medeiros – IHGRN

O documento que vou apresentar no nosso Tok de História é como está documentado o batismo de Antônio Vicente Mendes Maciel, que ficaria conhecido na história do Brasil como Antônio Conselheiro.

Esta é a íntegra do texto;

“Aos vinte e dois de maio de mil oitocentos e trinta batizei e pus os Santos Óleos nesta Matriz de Quixeramobim ao párvulo Antônio, pardo, nascido aos treze de março do mesmo ano supra, filho natural de Maria Joaquina. Foram padrinhos, Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula. Do que, para constar, fiz este termo, em que me assinei.

O Vigário, Domingos Álvaro Vieira”

– Livro de Assentamentos de Batizados da Paróquia de Quixeramobim, Livro 11, fl. 221 v.

O registro de batismo de Antônio Conselheiro

Este documento já a muito havia sido pesquisado pelo cearense Ismael Pordeus, que inclusive já havia publicado na íntegra, no periódico cearense “O Nordeste”, na edição de quinta feira, 6 de julho de 1949.

Mas lendo com calma o que está escrito no Livro de Assentamentos algumas equenas e interessantes informações surgem.

Visão que a imprensa conservadora do final do séc. XIX tinha de Antônio Conselheiro

Primeiramente temos que registrar que Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim, Ceará, em 13 de março de 1830, uma quinta feira, em um ano considerado seco.

Casa onde nasceu Atônio Conselheiro, ainda preservada na rua Cônego Aureliano Mota, nº 210, próximo à Praça Dias Ferreira, Quixeramobim, Ceará – Fonte – Magno Lima

Era filho do comerciante Vicente Mendes Maciel e de Maria Joaquina de Jesus. Para outros o nome da sua mãe era Maria Joaquina do Nascimento, tinha o apelido de Maria Chana e ainda Maria Maciel (In Benício, Manuel. O Rei dos Jagunços, Rio de Janeiro, Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997, Págs. 8 e 9, 2ª Ed. / Levine, Robert. O sertão prometido-O massacre de canudos, São Paulo, EDUSP, 1995, Págs.181 a 183, 1ª Ed.).

Dois meses depois do nascimento do jovem Antônio Maciel, no dia 22 de maio de 1830, um sábado, ele foi batizado na Matriz de Quixeramobim, uma majestosa igreja construída em 1755, cujo padroeiro é Santo Antônio, sendo considerado o primeiro templo religioso da região do Sertão Central do Ceará.

Matriz de Quixeramobim – Fonte – Walter Leite

Coincidentemente, o dia em que o jovem Antônio Maciel foi batizado é dedicado pela Igreja católica a devoção da monja agostiniana batizada como Rita, que morreu na cidade de Cássia, no ano de 1457, na província de Umbria, Itália. Mas não existe nenhuma indicação que a mãe de Antônio Maciel, Dona Maria Joaquina, fosse devota desta santa e decidiu batizar seu filho neste dia.

Certo é que ao lemos o Livro de Assentamentos de Batizados da Paróquia de Quixeramobim, Livro 11, fl. 221 v., atualmente pertencente à Diocese da cidade cearense de Quixadá, vemos que somente o jovem Antônio foi batizado naquele sábado.

Capa do livro de Assentamentos, onde está o registro de Antônio Conselheiro

Primeiramente chama atenção na foto do registro, logo abaixo do nome “Antônio”, a designação de sua cor como sendo “Pardo”, o que aponta o alcance das designações raciais no Nordeste do Brasil daquela época.

Percebemos a ausência do pai no registro e, provavelmente, na própria cerimônia.

Para aqueles que estudam a vida do Conselheiro, a ausência documentada de Vicente Maciel naquele livro de registro e a possível ausência na cerimônia de batismo de seu único filho varão não é nenhuma novidade.

Vicente era tido como um homem direito, trabalhador, mas muito complicado, como se diz atualmente. Estava no segundo casamento, era parcialmente surdo, considerado taciturno, que ocasionalmente realizava péssimos negócios que geravam dívidas e era alcoólatra. Em uma ocasião, quando bêbado, havia espancado a primeira mulher quase até a morte.

Analisando as folhas de batismo dos meses anteriores e posteriores ao batizado de Antônio Maciel, o seu registro é o único que não consta o nome do pai.

Teria havido problemas com o vigário local?

Ou alguma alteração séria teria ocorrido na época, a ponto de indispôr Vicente com o meio social do seu lugar e comprometer sua participação no evento?

Ou estaria vergado de cachaça, sem condições físicas para participar da cerimônia?

A razão não se sabe. Mas seu nome não consta do documento.

Igualmente nada sabemos dos padrinhos Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula.

Outra situação interessante diz respeito ao nome do vigário. Para muitos o nome do representante da igreja em Quixeramobim que batizou Antônio Maciel seria Domingos Álvaro Vieira. Mas analisando a sua assinatura, o nome que surge é Domingos Alvares Vieira. Na foto da assinatura do vigário é possível distinguir nitidamente o “S” de Alvares.

Assinatura do vigário Domingos Alvares Vieira

Sendo este o nome correto do vigário, encontramos a figura de Domingos Alvares Vieira, um religioso católico nascido na cidade pernambucana de Goiana e batizado em 22 de outubro de 1795. Era filho de José Alvares Vieira e de Francisca Lourenço. Ordenou-se em Olinda e depois foi vigário no Ceará (Em Quixeramobim?).

Depois tornou-se lente do Liceu da Paraíba. Teve participação política, onde foi Deputado Provincial da Paraíba, na 1.ª Legislatura, cuja sessão de instalação ocorreu no dia 7 de abril de 1835. Foi Deputado à Assembleia Geral, pela Paraíba, na 3.ª Legislatura, de 3 de maio de 1834 a 15 de outubro de 1837.

Após esta experiência política, o sacerdote Vieira voltou a Goiana de onde foi vigário durante muitos anos. Foi Conselheiro do Governo de Manuel de Carvalho e ainda vivia em 1849. (In Pio, Fernando. Apontamentos Biográficos do Clero Pernambucano (1535 – 1935). Recife, Arquivo Público, 1994, 2 volumes).

Seria o religioso Vieira, que foi Deputado Provincial, o mesmo que anos antes batizou uma criança que se tornaria Antônio Conselheiro?

O registro do jovem Antônio Maciel é o primeiro da folha esquerda

Infelizmente é outro questionamento sem uma resposta.

Sobre o local de nascimento de Antônio, segundo material contido no site http://meltingpot.fortunecity.com/hornsey/372/evolucao.htm, informa que Quixeramobim primeiramente surgiu a partir de uma propriedade denominada Santo Antônio. Depois o lugarejo foi paulatinamente evoluindo pra a pequena povoação denominada Santo Antônio do Boqueirão, ou Santo Antônio de Quixeramobim.

Consta que oficialmente o lugarejo  pertenceu primeiramente à Vila de São José de Ribamar do Aquiraz até a sua elevação a vila, o que se confirma mais uma vez com asa transcrições que se seguem: Ao ouvidor Manuel de Magalhães Pinto de Avelar de Barbedo “coube-lhe instalar a Vila de Campo Maior de Quixeramobim, até então pertencente a Aquiraz, a 13 de junho de 1789”.

O site ainda aponta que os sertões de Quixeramobim eram constituídos de vastos campos que se estendiam pelas planícies adjacentes. Porém, sobre o nome Campo Maior a verdade histórica aponta que por orientação do marquês de Pombal, primeiro ministro de D. José I, foi expedida uma Carta Régia, datada de 6 de maio de 1758, determinando que toda vila a serem criada no Brasil-Colônia, teriam que receber nomes de localidades existentes em Portugal. Essa medida perdurou até metade do ano de 1803, quando deixou de ser cumprida.

Quixeramobim atualmente – Fonte – Magno Lima

Ao ser elevada a categoria de vila, o lugarejo teve seu nome mudado para Vila de Campo Maior, devido à determinação contida na lei acima. O nome de Vila de Campo Maior não foi bem aceito pela população, que continuou a fazer uso do termo Quixeramobim, isto é, Vila de Quixeramobim e, raramente, Vila de Campo Maior de Quixeramobim.

Outra visão do texto original

Na época do nascimento de Antônio Vicente Mendes Maciel, a comunidade já era conhecida apenas como Quixeramobim e assim está descrito nos autos do batismo.

O resto da história de Antônio Conselheiro é bem conhecido e todos sabem o seu desfecho.

P.S. – Um agradecimento todo especial aos membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, sede de Natal,  pelo apoio na realização deste artigo. (http://www.lds.org.br)

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OS POTIGUARES E A GUERRA DO FIM DO MUNDO

COMO A GUERRA DE CANUDOS MARCOU

O RIO GRANDE DO NORTE

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Algum tempo atrás fiquei curioso em saber o que a Guerra de Canudos representou para o Rio Grande do Norte na época, além de suas variáveis no contexto histórico.

Não consegui descobrir quando a primeira notícia sobre Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, chegou aterras potiguares, mas já a partir de fevereiro de 1897, esta singular figura começa a ser conhecida e divulgada com maior frequência.

Em um artigo, o Conselheiro era comparado a Zumbi, e Canudos ao Quilombo dos Palmares. Chamava a atenção o fato dos seguidores do Conselheiro queimarem as cédulas da República e utilizarem o dinheiro da época do imperador. As notícias informavam que o número de fanáticos seria em torno de 5.000, mas que eles eram uns “pobres diabos, que buscavam confusão diante das armas do exército”. Entretanto, as notícias já propalavam, com certa surpresa, a força, a motivação e a tranquilidade como os fanáticos do Conselheiro iam para a luta.

A partir da derrota da Segunda Expedição do exército brasileiro, comandada pelo major Febrônio de Brito, e o início da marcha da Terceira Expedição, comandada pelo tenente-coronel Moreira César, as notícias sobre Canudos se tornam semanais. Cópias de  relatórios passam a ser divulgados, se tornam mais alarmistas as notícias, mas o assunto, ainda não frequentava com assiduidade as páginas de o “Diário de Natal” e “A Republica”, os principais jornais de Natal naquela época. Parecia apenas um simples entrevero entre a forte força militar do Exército, e um grupo de “despojados”, onde o resultado era mais do que previsível.

Cresce o conflito

Tudo muda a partir de 10 de março de 1897, quando os jornais locais noticiam que sete dias antes, a coluna comandada por Moreira César, fora fragorosamente derrotada pelos conselheiristas.

Notícia no jornal natalense A República, sobre a derrota da expedição comandada pelo coronel Moreira César.

Após a surpreendente derrota, a elite brasileira estava histérica e exigia medidas drásticas do governo para uma rápida solução do conflito. Esta então se torna uma ação, que mobiliza toda a nação.

Em Natal tem início à preparação do quartel federal existente na cidade, o 34º Batalhão de Infantaria. Em 13 de março, assume o comando da guarnição o major Antônio Ignácio de Albuquerque Xavier, cujo primeiro ato, foi mandar publicar nos jornais da cidade, uma convocação que traz em suas letras uma colocação peculiar; “foi autorizado a aceitar voluntários que queiram servir somente durante a expedição de Canudos, dando-lhe baixa após sua terminação, caso não queiram continuar a servir o Exército, pelo que convida a todos os cidadãos que desejarem alistar-se apresentarem-se no quartel do 34º Batalhão de Infantaria, a qualquer hora do dia ou da noite”.

O interessante, é que esta nota deixa transparecer que o efetivo do batalhão, ou era reduzido para a crise que ocorria, ou aparentemente havia resistências na população de Natal para o alistamento voluntário.

Área do centro de Natal, na Praça André de Albuquerque, como se encontrava entre o final do Século XIX e início do XX.

Outra notícia informa que em algumas comunidades do interior do estado, havia apreensão em relação ao recrutamento. Temia-se uma reprise do que ocorrera na Guerra do Paraguai, onde o recrutamento era obrigatório, e os “voluntários”, eram presos e enviados para frente de guerra sob escolta.

O governador potiguar, Joaquim Ferreira Chaves.

Todos buscavam ajudar. Uma nota mostra que o pagamento aos quais os oficiais tinham direito antes de embarcar, seria efetuado pela Alfândega Federal, mas como esta repartição estava desprovida de recursos, foi o próprio governador Ferreira Chaves que adiantou o soldo da oficialidade do 34º Batalhão.

No domingo 21 de março, o 34º Batalhão realizava manobras militares na Praça André de Albuquerque. Já na cidade de Macaíba, foi realizado um comício patriótico onde Eloy de Souza e Tavares de Lyra, enalteciam a participação do batalhão potiguar e protestavam contra os “inimigos da República”.

Eloy de Souza

Apesar de todo o patriotismo, nem todos desejavam ir para a guerra. O soldado André Cavalcante de Albuquerque desertou do batalhão e se refugiou em Cuitezeiras, atual município de Pedro Velho. Apenas em março de 1898 ele foi capturado e entregue aos militares.

No sábado, 29 de março, o padre João Maria de Britto, celebrou missa solene na Matriz, para o bom êxito da expedição. Praticamente todos os militares e suas famílias, estiveram presentes ao principal templo católico da cidade.

A Partida

Às 13h de uma segunda-feira, 29 de março de 1897, os militares estavam formados diante do quartel. Compareceu à solenidade o então governador Ferreira Chaves e houve muitos discursos dos políticos e de intelectuais como Ferreira Itajubá. O poeta Segundo Wanderley declamou um verso produzido para enaltecer o feito dos potiguares. As bandas da Polícia Militar e da Escola de Aprendizes de Marinheiros tocaram para os companheiros do exército.

Ferreira Itajubá.

Segundo Manoel Rodrigues de Melo, em artigo escrito em 1978, para a revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, uma multidão estimada em 5.000 pessoas, compareceu ao embarque do 34º Batalhão. Este fato é significativo quando se sabe que nesta época, Natal era uma cidade com pouco mais de 15.000 habitantes. Neste dia, o comércio fechou as portas.

Após as solenidades oficiais, o batalhão embarcou no Vapor “Una”, da Companhia Pernambucana de Navegação. Após zarpar, ao passar ao lado da antiga Fortaleza dos Reis Magos, os passageiros do “Una” foram homenageados pelo farol que lá existia, através de uma mensagem visual em código Morse.

O 34º Batalhão de Infantaria seguiu para Canudos, com um contingente composto de quatro companhias, possuindo um efetivo de 36 oficiais e graduados, além de 225 “inferiores”, como eram chamados os cabos e soldados. Sua arma de combate eram as carabinas alemães da marca “Mannlichers”.

A guerra passa então a ser assunto corrente e notícia diária de primeira página nos jornais de Natal.

Organização

Em 5 de abril de 1897 é publicada a Ordem do Dia criando a Quarta Expedição Militar contra Canudos. Organizou-se então, a maior de todas as expedições, formada por tropas de 17 estados, equipadas com os mais modernos armamentos da época.

O efetivo militar era composto de seis Brigadas, cada uma com três batalhões, divididas em duas colunas que investiam sobre Canudos por direções opostas, sendo o comandante central, o general Artur Oscar.

A Primeira Coluna ficava sob o comando do general Silva Barbosa e a Segunda Coluna era comandada pelo general Cláudio Savaget, por isso ficou conhecida como Coluna Savaget.

A Segunda Coluna se concentrará em Aracaju, partindo para o interior em tropas isoladas, se agrupando em Jeremoabo, já na Bahia, e depois seguem para Canudos. Entre os batalhões que compunham a Segunda Coluna estava o 34º Batalhão de Infantaria.

Após sair de Natal, o 34º Batalhão seguiu primeiramente para Recife, onde ficou alojado no Quartel do Largo do Hospício. Desfilou pela capital pernambucana, juntamente com os batalhões 35º (do Piauí) e 40º (do Pará). Estas unidades militares formavam então a 5ª Brigada da Segunda Coluna. O comando desta Brigada estava a cargo do coronel Julião Augusto de Serra Martins.

A 23 de abril a 5ª Brigada embarca nos vapores “Una” e “Itanema”, em direção a Aracaju e a Guerra de Canudos efetivamente tinha início para os potiguares.

Brigada Faz Seu Batismo de Fogo em Cocorobó

Após o desembarque, a ida para a área de combate deu-se de forma lenta, tanto que o contingente do 34º Batalhão apenas chegou a Jeremoabo no dia 8 de junho, segundo informações do alferes potiguar João Augusto, secretário do coronel Silva Teles.

Euclides da Cunha informa que a 25 de junho, a 5ª Brigada da Coluna Savaget fez o seu batismo de fogo oficial, atacando o desfiladeiro de Cocorobó. Neste dia a vanguarda da força de Savaget fez alto uns quinhentos metros antes daquela barreira.

Um esquadrão de lanceiros do 40º Batalhão descobrira o inimigo, tendo seguido em seu encalço, ficando o 34° e o 35°, além de elementos da 4ª Brigada como unidades de reforço, mas logo todos atacavam.

Neste combate, segundo Euclides da Cunha, “mais de oitocentos homens ao mando do coronel Serra Martins, iniciavam o ataque num tiroteio nutrido, em que os fogos irregulares da linha de atiradores se intermeavam das descargas rolantes dos pelotões, que a reforçavam mais de perto, revidando vigorosamente aos tiros dos antagonistas. Estes sustentaram o choque com valor”.

O então jornalista paulista descreve outros detalhes do combate; “A 5ª Brigada foi admirável de disciplina, afrontando-o por duas horas, na posição em que estacara, à margem do Vaza-Barris, abrigando-se entre os ralos arbustos que a revestem”.

Após chegarem à periferia de Canudos, na região da Favela, as forças militares passam a ter outros fortes inimigos; a fome ocasionada pela falta de mantimentos, que ainda se mantinham distantes na retaguarda.

O desânimo diante de uma guerra estranha, a surpresa frente a um inimigo forte, perspicaz e totalmente desconhecido. Mas que no fundo eram irmãos, eram todos brasileiros.

Enquanto isso em Natal, no final de junho, era noticiado em “A Republica” uma nota repudiando alguns boatos comentados na cidade, sobre fortes baixas no contingente do 34º Batalhão. Se estes boatos tinham fundamento os jornais não comentam.

Os militares decidem realizar no dia 18 de julho um grande ataque à cidadela do Conselheiro, onde entrariam em ação 3.349 homens, repartidos em cinco brigadas. Mas o 34º Batalhão não estava listado para o combate. Euclides da Cunha comenta que o 34º era um dos quatro batalhões que protegiam o Quartel General do comandante Artur Oscar.

Neste combate de 18 de julho, os jornais locais listam o primeiro potiguar oficialmente morto no conflito. Era o alferes João Mafaldo de Oliveira Praxedes, natural da cidade de Martins, nascido no sitio Lagoa Nova, filho de Dona Antônia Mafalda de Oliveira Praxedes e Vicente Praxedes. Este oficial fazia parte do 30º Batalhão de Infantaria, do Rio Grande do Sul.

Mesmo os jornais não publicando a lista dos mortos do 34º Batalhão eles existiam, tanto assim que no dia 6 de agosto são publicados pela primeira vez os nomes de pessoas da sociedade que estavam doando dinheiro para ajudar “as viúvas e vitimas de Canudos”. Entre os doadores estavam Hemetério Fernandes, Manoel Dantas, Augusto Leite, Ferreira Chaves e outros.

Na frente de batalha, Euclides da Cunha narra que o 34º Batalhão participa de um contra ataque a um grupo de jagunços, que às seis da manhã de 23 de julho, tentam atacar a retaguarda das forças militares. Quinze conselheiristas são mortos e uma “cabocla” é aprisionada.

Estrada do Calumbi

Mas para o famoso escritor, a ação mais importante realizada pelo 34º Batalhão na Guerra de Canudos, em conjunto com os cariocas do 22º Batalhão e os baianos do 9º Batalhão, foi à tomada da estrada do Calumbi. Para Euclides esta ação, ocorrida em 4 de setembro, foi “um movimento mais sério; talvez a ação realmente estratégica da campanha”.

Através de informações de vaqueiros leais, os militares souberam da existência de um caminho pelo Cambaio, que diminuía em um dia a viagem a Monte Santo, facilitando a chegada de mantimentos, onde as tropas poderiam partir para o ataque final a Canudos. Comandados pelo major Lídio Porto, os combatentes tomaram esta estrada e apertou mais ainda o cerco final a cidadela do Conselheiro.

No ato final da tragédia, novamente o 34º estaria no palco dos acontecimentos, juntamente com os batalhões que tomaram a estrada do Calumbi, os potiguares protegeram um dos flancos do ataque final, que teve inicio em 1 de outubro.

Depois os potiguares combateram de casa em casa, onde cada morada era uma fortaleza que cobrava um preço alto pelo avanço.

Para Euclides “os sertanejos invertiam toda a psicologia da guerra: enrijavam-nos os reveses, robustecia-os a fome, empedernia-os a derrota”.

Tudo acabou em 5 de outubro, quando Canudos não se rendeu. Em “Os Sertões” o fim ficou assim registrado “Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados”.

Jornal dos Estados Unidos comentando a vitória das forças legais em Canudos.

A Volta Para Casa

Enquanto os sobreviventes do 34º se preparavam para voltar, os natalenses se mobilizavam. Em 11 de setembro, Alberto Maranhão realizou uma festa de caridade para arrecadação de fundos, tendo sido apurados 333 mil réis e estes entregues diretamente ao governador Ferreira Chaves.

Os municípios do interior participam. De Acari foi arrecadado e enviado 101$800 mil réis, de Jardim do Seridó 88$000, de Currais Novos 968$200, de Martins 182$000 mil réis.

Com o eminente retorno do Batalhão, tinha inicio os preparativos para uma grande recepção festiva. No dia 6 de novembro o 34º seguia de navio da capital baiana para Natal, mas devido a problemas de transporte, apenas em 10 de dezembro eles chegariam a capital potiguar.

A tropa voltou no mesmo vapor “Una” que os levaram oito meses antes. Às onze e meia da manhã, em torno de 4.000 pessoas, aguardavam o desembarque, depois seguiram para a Matriz para uma missa, havendo uma quase interminável seção de discursos no quartel e finalmente para as suas casas.

Os jornais comentam, com uma sutileza típica da impressa na época, que muitos soldados voltaram “doentes e inutilizáveis”. No outro dia a tropa e a população da cidade inauguraram o monumento aos mortos da guerra no cemitério do Alecrim.

Uma atitude honrada, que chamou a atenção da população, foi a publicação nas primeiras páginas dos jornais locais, do pedido do alferes Ezequiel Medeiros, que desejava entregar a quantia de 10$000 mil réis a família do soldado Euclides Celestino Baracho, que na hora da morte lhe pedira para entregar esta quantia a sua família que vivia em Ceará-Mirim.

As manifestações de apreço continuaram por alguns dias, contudo, logo os oficiais do 34º foram surpreendidos por diversas ordens de transferência, para várias unidades militares em todo Brasil e alguns são enviados para o longínquo Mato Grosso.

A principal igreja de Canudos destruída.

Os jornais de Natal publicam sérias criticas a atitude do governo federal. Já o novo comandante, major Martiniano de Oliveira, ferido em Canudos, vinha transferido de Recife. Aparentemente a ideia do governo Prudente de Moraes era  enfraquecer a criação de um “exército de salvadores da pátria”, e debelar possíveis voos políticos dos novos heróis.

Para o presidente, a melhor situação era que Canudos caísse no esquecimento.

Deliberado Esquecimento

Quanto às viúvas e familiares dos mortos potiguares da Guerra de Canudos, estranhamente os jornais declaram que estas só vieram a receber os apoios e as doações apenas em 18 de julho de 1898, um ano após o primeiro grande ataque das forças do governo, no valor de 12$000 mil réis, mas apenas em apólices do governo do estado e não em dinheiro vivo.

Na edição de “A Republica” de 17 de julho, estão listados os nomes dos mortos, seus beneficiários e suas patentes.

Ao ler a lista, salta aos olhos um fato interessante; dos 41 integrantes do 34º Batalhão de Infantaria listados pelo jornal como mortos no conflito, não há um único oficial. No total são 3 sargentos, 9 cabos, 3 anspeçadas (patente atualmente extinta), 3 músicos (corneteiros) e 23 soldados.

Quem se debruça sobre a história de Canudos, sabe que houve unidades militares onde a quase totalidade de seus oficiais foi morta em combate. Não foram poucos os oficiais de patente graduada que pereceram no conflito. O próprio Euclides da Cunha lista vários.

A razão deste fato é motivo para novas pesquisas.

Antes mesmo de Euclides da Cunha lançar o livro “Os Sertões” e mostrar as crueldades do conflito, percebe-se que a Guerra de Canudos é totalmente esquecida dos círculos oficiais. Seja pela ação do governo, ou pelo próprio horror da guerra, o certo é que não são visíveis nos jornais comemorações posteriores. Estas ocorrem timidamente apenas no primeiro ano.

Nos anos seguintes, é mais comum vermos nos jornais potiguares notícias sobre a realização de festas comemorativas a feitos militares ocorridos na Guerra do Paraguai.

Atualmente em Natal, temos poucas lembranças deste conflito. No Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte encontra-se a bandeira que foi doada ao 34º Batalhão, em substituição a original, que voltou esfarrapada da guerra. Já no cemitério do Alecrim, ainda existe o monumento aos mortos potiguares do conflito.

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