PALMYRA WANDERLEY – A MULHER QUE TRANSFORMOU O RIO POTENGI EM POESIA E SOFREU UMA GRANDE DOR

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Na manhã de segunda-feira, 13 de março de 1916, os leitores do jornal A República, em Natal, encontraram na primeira página uma delicada composição poética dedicada ao Rio Potengi, ao amor, à infância e aos sentimentos humanos. É um conjunto de poemas intitulado “Trovas Soltas”, que, em minha opinião, é uma das demonstrações mais belas de sua capacidade de transformar paisagens e sentimentos em poesia.

Nota: Os versos abaixo foram atualizados para a ortografia vigente, preservando integralmente o conteúdo, a métrica e a estrutura poética da autora.

Trovas Soltas

No Potengi marulhoso
Todo mistério se encerra,
Nele circula ardoroso
O sangue azul desta terra.

Alva areia se desata
Pelas águas como um fio,
Lembrando um punhal de prata
Ferindo a alma do rio.

Duas velas bem ligeiras
O rio cortando vão,
Duas crenças feiticeiras
Dentro de um só coração.

Uma asa voa fremente
Da noite temendo o arcano.
Assim a ilusão da gente
Também foge ao desengano.

O formoso beija-flor
Que oscula as rosas risonho,
É como a ave do amor
Vagando de sonho em sonho.

Cantam ao luar as venturas
Um casal de namorados;
Deus fez as noites escuras
Para os que são desprezados.

Toda ave tem seu ninho,
Toda flor o seu perfume;
Não há rosa sem espinho,
Nem há paixão sem ciúme.

O amor desfaz-se ligeiro
Quando é mentira, falaz;
Quando é leal, verdadeiro,
O amor não se acaba mais.

Aos velhos não faço versos
Porque não têm esperanças;
Meus poemas deixo impressos
No coração das crianças.

Todo o astro que o azul doura
Lembra um novelo de luz;
E a criança loura
Lembra o Menino Jesus.

Estes anjos pequeninos
São tão queridos de Deus,
Que dos seus lábios divinos
Fez o néctar dos beijos seus.

Os versos eram assinados por uma jovem natalense de apenas 21 anos: Palmyra dos Guimarães Wanderley. Poetisa, cronista, jornalista, teatróloga, musicista e educadora, ela tornou-se uma das grandes vozes femininas da literatura potiguar nas primeiras décadas do século XX. Em uma época em que a imprensa e os espaços intelectuais eram dominados majoritariamente por homens, conquistou reconhecimento por meio de uma produção literária marcada pela sensibilidade, pelo amor à terra natal e pela defesa da participação feminina na vida cultural.

Anos depois, o crítico literário Tristão de Athayde a consagraria como “a grande poetisa do Nordeste”, enquanto o historiador e folclorista Luís da Câmara Cascudo destacaria sua inteligência e sua relevância para o cenário literário potiguar.

O Rio Potengi Transformado em Poesia

Logo nos primeiros versos de”Trovas Soltas”, Palmyra Wanderley revela que o Rio Potengi não aparece apenas como cenário: ele ganha personalidade, quase como um ser vivo. Ao afirmar que por suas águas circula “o sangue azul desta terra”, a poetisa estabelece uma ligação profunda entre o rio e a própria identidade do povo natalense. Em minha opinião, ela consegue construir uma relação visceral, quase sagrada, entre as águas do Potengi e o solo de Natal.

A imagem da areia branca cortando as águas como um “punhal de prata” demonstra sua extraordinária capacidade de criar cenas de grande impacto visual. Nessa passagem, percebe-se uma combinação entre beleza e uma discreta melancolia, característica presente em boa parte da poesia produzida naquele período.

O amor também ocupa posição central nas trovas. Surge representado pelo beija-flor, pela rosa, pelo luar e pelos sonhos, símbolos tradicionais da poesia romântica. Entretanto, Palmyra não apresenta apenas a face idealizada do sentimento amoroso. Ela também reconhece suas dores, suas incertezas e suas contradições.

Quando escreve:

“Não há rosa sem espinho,
Nem há paixão sem ciúme”

a autora demonstra compreender que os grandes sentimentos humanos carregam consigo tanto a alegria quanto o sofrimento.

Da mesma forma, ao afirmar:

“O amor desfaz-se ligeiro
Quando é mentira, falaz;
Quando é leal, verdadeiro,
O amor não se acaba mais”

Nos versos finais, a poetisa volta seu olhar para a infância. As crianças surgem como símbolos da pureza, da esperança e da renovação. Ao desejar deixar seus poemas “no coração das crianças”, demonstra acreditar que a sensibilidade, a capacidade de sonhar e a beleza da imaginação permanecem mais vivas naqueles que ainda não perderam a inocência.

Uma Pioneira da Literatura e do Jornalismo Feminino

Palmyra dos Guimarães Wanderley nasceu em Natal, em 6 de agosto de 1894. Existem discordâncias sobre a sua data de nascimento, mas não acerca do ano. O certo é que, desde jovem, demonstrou interesse pela literatura e pela vida cultural.

Jornal A República, 5 de agosto de 1900, informando sobre o seu aniversário de seis anos. Talvez a primeira nota de jornal com seu nome.

Palmyra diferencia o amor efêmero daquele construído sobre a sinceridade, a lealdade e a fidelidade, revelando uma visão madura e realista das relações humanas.

Sua atuação ocorreu em um período de grandes transformações sociais. Natal começava a experimentar mudanças urbanas, enquanto novas ideias circulavam através de jornais, revistas e movimentos culturais.

Em 1914, ao lado de sua prima Carolina Wanderley e de outras jovens intelectuais, fundou a revista Via-Láctea, um marco histórico para a imprensa potiguar. A publicação foi pioneira por ser produzida, escrita e dirigida por mulheres, em uma época em que a participação feminina nos espaços públicos ainda enfrentava fortes limitações. Mais do que uma revista literária, a Via-Láctea representou uma oportunidade para que mulheres intelectuais expressassem suas ideias sobre cultura, educação e o papel feminino na sociedade. Em 1918, publicou Esmeralda, seu primeiro livro e contou com o apoio do governo potiguar, como podemos ver abaixo.

A partir da década de 1920, Palmyra Wanderley ampliou sua atuação nos jornais do Rio Grande do Norte, especialmente no tradicional A República, principal periódico potiguar da época. Em suas páginas, publicou poemas, crônicas e artigos, abordando temas relacionados à literatura, aos costumes, à educação e à modernização da sociedade. Também colaborou com outras publicações importantes, como A Cigarra, Diário de Natal, Revista Feminina e Revista Moderna, ampliando sua presença para além do estado.

Como muitas escritoras daquele período, utilizou pseudônimos em algumas publicações, entre eles Mirthô, Li-Lá, Masako e Ângela Marialva. Era uma prática comum entre mulheres que escreviam em uma sociedade ainda marcada por fortes restrições à atuação feminina. Sua produção conquistou prestígio nacional e aproximou seu nome dos grandes círculos literários brasileiros.

A Morte do Seu Amado

Um dos episódios menos conhecidos da vida de Palmyra Wanderley foi a morte de seu noivo, Moisés Soares de Araújo, natural de Assú. Considerado, em seu tempo, um dos maiores oradores do Rio Grande do Norte, era reconhecido por sua eloquência e pela firmeza com que defendia suas causas, sendo descrito na sociedade natalense como um homem “justo, fiel e luminoso”.

Formado em Direito no Rio de Janeiro, em 1910, Moisés exerceu intensa atividade intelectual e política no estado. Foi professor e diretor do Atheneu Norte-rio-grandense, um dos fundadores da Escola do Comércio, revisor e, posteriormente, diretor do jornal A República. Destacou-se também como desportista, ocupou o cargo de Secretário-Geral do Estado, elegeu-se diversas vezes deputado estadual e participou de praticamente todas as principais associações culturais e civis da capital.

Foto trabalhada pelo autor com Inteligência Artificial, da casa construida por Moíses Soares de Araújo, na esquina da Avenida Deodoro com a Rua João Pessoa e hoje demolido. Esse trabalho foi feito à partir de uma foto existente do livro de Lauro Pinto.

Seu relacionamento com Palmyra evoluiu para o noivado, e a data do casamento chegou a ser marcada. Nesse período, Moisés mandou construir um elegante sobrado na esquina da Avenida Deodoro com a Rua João Pessoa. O imponente palacete foi concluído em 1922 e, segundo relata Lauro Pinto em seu livro Natal que Eu Vi (1971), seria a residência do casal após a cerimônia de casamento.

O destino, entretanto, modificou completamente esses planos. No dia 6 de agosto de 1922, Moisés Soares de Araújo faleceu precocemente, aos apenas 37 anos de idade.

As causas de sua morte permanecem envoltas em incertezas. Alguns pesquisadores afirmam que ele teria falecido em decorrência de cirrose; outros mencionam pneumonia. Entretanto, as notícias publicadas pelos jornais da época registram como causa da morte a expressão “tabis dorsal”, grafia então utilizada para designar o que hoje conhecemos como tabes dorsalis.

A tabes dorsalis é uma grave complicação neurológica da sífilis não tratada, caracterizada pela degeneração das colunas posteriores da medula espinhal, responsáveis pela sensibilidade profunda e pelo equilíbrio corporal. Trata-se de uma manifestação tardia da neurossífilis, que normalmente surge muitos anos após a infecção inicial pela bactéria Treponema pallidum. Seus portadores costumam sofrer dores intensas, perda progressiva da coordenação motora e outras alterações neurológicas incapacitantes.

Uma estranha coincidência.

Atualmente, a doença pode ser diagnosticada por exames de sangue e do líquido cefalorraquidiano (LCR), sendo tratada com penicilina por via intravenosa. O tratamento elimina a infecção e impede sua progressão, embora os danos neurológicos já estabelecidos geralmente sejam irreversíveis.

Se a informação registrada nos jornais estiver correta, é possível que Moisés tenha falecido em decorrência das complicações provocadas pela neurossífilis. No entanto, diante da existência de outras versões para a causa de sua morte e da ausência, até onde se sabe, de documentação médica conclusiva, essa hipótese deve ser tratada com cautela.

Após sua morte, a casa construída para abrigar os recém-casados permaneceu fechada durante décadas. Sobre a atmosfera melancólica daquele imóvel, Lauro Pinto eternizou uma das frases mais conhecidas de sua obra ao afirmar que o belo sobrado “nasceu morto e, por isso, sempre triste”.

Roseira Brava e Um Legado que Permanece Vivo

A obra mais conhecida de Palmyra Wanderley é Roseira Brava, publicada originalmente em 1929. O livro reúne poemas que revelam sua profunda ligação com a paisagem potiguar, especialmente com Natal e seus elementos naturais. Nele, a autora consolidou uma poesia marcada pelo lirismo, pela sensibilidade e pela valorização da identidade regional.

A publicação recebeu Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras, reconhecimento que confirmou a relevância de sua produção literária no cenário nacional. Em sua edição original, Roseira Brava traz uma emocionante dedicatória: “À memória de Moisés Soares, a palavra mais viva e o maior coração. A rosa mais triste desta roseira brava.” Essas palavras evidenciam que a perda do noivo permaneceu como uma das marcas mais profundas de sua vida e de sua obra.

Além da literatura, Palmyra participou ativamente de iniciativas culturais e sociais, especialmente nas áreas da educação, da assistência social e da valorização da presença feminina na vida intelectual. Em 1936, tornou-se uma das fundadoras da Academia Norte-rio-grandense de Letras, ocupando a cadeira nº 20, cuja patrona é outra grande poetisa potiguar, Auta de Souza.

Mais de um século após a publicação de “Trovas Soltas”, a poesia de Palmyra Wanderley continua revelando um Rio Grande do Norte sensível, culto e profundamente ligado às suas paisagens, tradições e valores culturais. Ela escreveu sobre o Rio Potengi, sobre o amor, sobre a infância e sobre os sonhos humanos. Mas, acima de tudo, escreveu sobre a capacidade de enxergar beleza nas pequenas coisas da vida.

Sua trajetória representa também a história de uma geração de mulheres que conquistou espaço em uma sociedade na qual os ambientes intelectuais e culturais eram ocupados quase exclusivamente por homens. Com talento, perseverança e sensibilidade, Palmyra conquistou o reconhecimento de seus contemporâneos e deixou uma obra que permanece atual.

Palmyra entre duas amigas, próximo a área da Ponta do Morcego, aproveitando a brisa do mar.

Redescobrir Palmyra Wanderley é compreender uma parte essencial da identidade cultural do Rio Grande do Norte. Sua voz permanece viva porque sua poesia não pertence apenas ao tempo em que foi escrita. Ela continua dialogando com diferentes gerações ao celebrar sentimentos universais, como o amor pela terra natal, a esperança, a memória e o desejo profundamente humano de transformar a vida em arte.

Talvez seja justamente essa a maior força de sua obra: mostrar que os lugares, as pessoas e os sentimentos podem sobreviver ao tempo quando encontram na poesia um abrigo permanente.

A FAZENDA RIBEIRO DE SÃO JOSÉ DE MIPIBU E SUAS HISTÓRIAS

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Muitas das antigas e tradicionais fazendas do interior do Nordeste vem sofrendo de intenso abandono e destruição, fazendo com que suas histórias caiam no puro e simples esquecimento.

Alguns acham que isso é até uma coisa boa, pois muitos desses locais foram antros de intensas opressões, iniquidades, perseguições, mortes e outras mazelas. O problema dessa ideia é que várias dessas antigas estruturas possuem enorme importância histórica, com informações que ampliam o conhecimento sobre o passado da nossa região e a perda destes locais é algo bastante complicado e irreversível. 

Casa Grande da Fazeneda Ribeiro, em São José de Mipibu – Foto – Rostand Medeiros

Por isso é sempre positivo encontrar uma antiga propriedade rural bem preservada e com muitas histórias. Esse é o caso da Fazenda Ribeiro, a cerca de seis quilômetros da cidade potiguar de São José de Mipibu.

A casa sede está, pelo menos para que a vê de fora, muito bem conservada, pintada de branco e detalhes azuis.

Foto – Rostand Medeiros

Segundo o pesquisador e blogueiro Daltro Emerenciano, em um artigo sobre a história da Fazenda Ribeiro (https://www.blogdedaltroemerenciano.com.br/2012/10/pedacos-do-nosso-rio-grande-do-norte/), informou que o agricultor Francisco Sales e Silva foi o patriarca da família Ribeiro Dantas e Duarte e teria construído uma primeira casa grande na área da propriedade Ribeiro entre o final do século XVIII e o início do seguinte. Nesse mesmo período foi “erguida uma capela em estilo colonial barroco, em homenagem a São João e também montada em separado uma primitiva engenhoca movida à tração animal e destinada a fabricação de açúcar bruto e seus derivados e, por conseguinte, aquele local passou a ser a primeira sede da Fazenda Ribeiro”.

Foto – Rostand Medeiros

Emerenciano comentou que essa propriedade esteve envolvida nos acontecimentos ligados a chamada Revolução Pernambucana de 1817. Ele publicou que “Pelo relato que se tem daqueles que pesquisaram sobre o movimento em prol da independência do Brasil e que culminou com a eclosão da revolução de 1817, as reuniões para a divulgação das ideias liberais e adesão do maior número de simpatizantes, eram realizadas em pontos afastados da capital, inclusive na cômoda e espaçosa Casa Grande do SÍTIO RIBEIRO. Ali o Coronel de Milícias, André de Albuquerque, mentor do movimento em nossa província, conferenciava com os homens de influência de Natal e vilas do interior, ocasião em que era oferecido aos convivas um farto banquete servido em baixelas de prata”.

Necrológico de Horácio Cândido Sales e Silva, publicado em 28 de setembro de 1903.

Foi um neto de Francisco Sales e Silva, chamado Horácio Cândido Sales e Silva (26/09/1838 – 27/09/1903), bacharel em direito, que transferiu a sede da propriedade para um local mais apropriado, onde construiu a nova sede, a casa destinada ao engenho e uma capela, cujos padroeiros são Santa Ana e São Joaquim. Infelizmente não conseguimos apurar as datas dessas construções, mas soubemos que Horácio Sales importou da Europa o maquinário e acessórios necessários a montagem da moenda do engenho movida a vapor, em substituição a antiga engenhoca movida à tração animal.

Capela da Fazenda Ribeiro – Foto – Rostand Medeiros.

Sobre a capela existente ela tem uma característica muito interessante que é o seu alpendre, algo que não vejo com frequência nas antigas capelas do Rio Grande do Norte.

Horácio casou duas vezes. A sua primeira esposa, Anna Vivina de Sales e Silva, nasceu em 17 de dezembro de 1845, teve oito filhos e faleceu em 6 de junho de 1877. Já a segunda, Joaquina Marcolina Ribeiro Dantas (27/01/1854 – 27/02/1941), teve cinco filhos, sendo o terceiro um menino que se chamou Celso Dantas Sales e nasceu na Fazenda Ribeiro em 4 de julho de 1884.

Lápides de Horácio Sales e suas esposas – Foto – https://www.familysearch.org/

Esse jovem ingressou na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 10 de dezembro de 1904. Um ano depois foi nomeado promotor público de Acari, onde conheceu Josefa Leonila de Araújo (16/04/1903 – 22/11/1959), conhecida como Teca, com quem casaria no ano de 1918. Essa jovem era filha dos acarienses Manoel Ubaldo da Silva Neto e Leonila Sérvulo de Araújo.

Celso Dantas Sales, pai de Dom Eugênio, em 1904 – Foto – Fundação Joaqiuim Nabuco.

Depois o Doutor Celso foi transferido para o estado Amazonas, onde exerceu o cargo de juiz de direito nas cidades de Lábrea, Benjamin Constant e outros municípios. Voltando ao Rio Grande do Norte em 1914, atuou como juiz em Acari. Em 8 de novembro de 1920, ainda em Acari, nasceu o segundo filho do juiz Celso e Dona Teca, que foi batizado como Eugênio de Araújo Sales.

No mesmo ano do nascimento do segundo filho, o juiz Celso foi designado para a cidade potiguar de Nova Cruz, sendo depois transferido, a pedido, para a Comarca de São José do Mipibu. Nessa cidade nasceram outros filhos do casal, inclusive Dom Heitor de Araújo Sales.

O pequeno Eugênio, ao centro, com os pais e o irmão Sílvio – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%AAnio_Sales

Na sequência veio trabalhar em Natal, onde foi membro das Juntas de Sanções, depois foi nomeado desembargador por decreto em 30 de novembro de 1926 e atuou como Procurador Geral do Estado, conforme está descrito em seu necrológico no jornal natalense “A República”, publicado em 16 de outubro de 1934, quatro dias após o seu falecimento em Fortaleza, Ceará, devido a tuberculose.

Infelizmente sobre a vivência e convivência da família do Doutor Celso, Dona Teca e seus filhos na Fazenda Ribeiro eu não consegui maiores informações, mas seguramente o jovem Eugênio se tornou o potiguar com a mais expressiva história de atuação na Igreja Católica.

Depois de fazer estudos humanísticos no Colégio Santo Antônio em Natal, ingressou no seminário em 1937. Foi ordenado por Dom Marcolino Dantas sacerdote em 21 de novembro de 1943. Em seguida passou a exercer o ministério pastoral em Nova Cruz e na sequência foi chamado ao Seminário de Natal, onde atuou como encarregado de suprimentos, professor e diretor espiritual. Entre muitas outras atividades, o Padre Eugênio foi capelão da Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte, no posto de Capitão.

Sino da capela da Fazenda Ribeiro – Foto – Rostand Medeiros.

Em 1 de junho de 1954, aos 33 anos, foi nomeado bispo auxiliar de Natal pelo Papa Pio XII e ordenado bispo no dia 15 de agosto de 1954, pelas mãos de Dom José de Medeiros Delgado, Dom Eliseu Simões Mendes e de Dom José Adelino Dantas. Posteriormente, em outubro de 1962, foi designado administrador apostólico da Arquidiocese de Natal. Aqui promoveu uma série de iniciativas que rapidamente se espalharam por todo o Nordeste do Brasil: fundou o serviço de assistência social aos trabalhadores rurais, centros educacionais e transmissões de rádio para ensino fundamental e médio.

Região rural da Fazenda Ribeiro – Foto – Rostand Medeiros.

Em 6 de julho de 1964 foi nomeado Administrador Apostólico em Salvador, Bahia, e em 29 de outubro de 1968 tornou-se Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, pelo Papa Paulo VI. Nesta Arquidiocese iniciou novas iniciativas pastorais e promoções sociais para os menos favorecidos. Também dirigiu o departamento de ação social do Conselho Episcopal Latino-Americano e participou do Concílio Vaticano II.

Foi proclamado Cardeal pelo Papa Paulo VI no consistório de 28 de abril de 1969. Em 29 de outubro de 1971, Paulo VI nomeou-o Arcebispo do Rio de Janeiro. Dom Eugênio de Araújo Sales faleceu em 9 de julho de 2012.

AUTA DE SOUZA – SEUS VERSOS E TRAÇOS DE SUA VIDA BREVE

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Auta Henriqueta de Souza

Autor – Elfi Kürten Fenske

Fonte – http://www.elfikurten.com.br/2013/05/auta-de-souza.html

“Não vês? Minh’alma é como a pena branca

Que o vento amigo da poeira arranca

E vai com ela assim, de ramo em ramo,

Para um ninho gentil de gaturamo…

Leva-me, ó coração, como esta pena,

De dor em dor, até a paz serena.”

– Auta de Souza 

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Exemplar da 2ª ed. de “O Horto”, que pertenceu a Antônio Isidoro de Medeiros, tio-avô de Rostand Medeiros, que guarda o exemplar. 

Auta Henriqueta de Souza nasceu em Macaíba, em 12 de setembro de 1876, filha de Elói Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina Rodrigues e irmã dos políticos norte-rio-grandenses Elói de Sousa e Henrique Castriciano.

Ficou órfã aos três anos, com a morte de sua mãe por tuberculose, e no ano seguinte perdeu também o pai, pela mesma doença. Sua mãe morreu aos 27 anos e seu pai aos 38 anos.

Durante a infância, foi criada por sua avó materna, Silvina Maria da Conceição de Paula Rodrigues, conhecida como Dindinha, em uma chácara no Recife, onde foi alfabetizada por professores particulares. Sua avó, embora analfabeta, conseguiu proporcionar boa educação aos netos.

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Aos onze anos, foi matriculada no Colégio São Vicente de Paula, dirigido por freiras vincentinas francesas, e onde aprendeu Francês, Inglês, Literatura (inclusive muita literatura religiosa), Música e Desenho. Lia no original as obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand e Fénelon.

Quando tinha doze anos, vivenciou nova tragédia: a morte acidental de seu irmão mais novo, Irineu Leão Rodrigues de Sousa, causada pela explosão de um candeeiro.

Mais tarde, aos catorze anos, recebeu o diagnóstico de tuberculose, e teve que interromper seus estudos no colégio religioso, mas deu prosseguimento à sua formação intelectual como autodidata.

Continuou participando da União Pia das Filhas de Maria, à qual se uniu na escola. Foi professora de catecismo em Macaíba e escreveu versos religiosos. Jackson Figueiredo (1914) a considera uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas brasileiras.

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Informativo sobre a venda do livro “O Horto”

Começou a escrever aos dezesseis anos, apesar da doença. Frequentava o Club do Biscoito, associação de amigos que promovia reuniões dançantes onde os convidados recitavam poemas de vários autores, como Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Castro Alves, Junqueira Freire e os potiguares Lourival Açucena, Areias Bajão e Segundo Wanderley.

Por volta de 1895, Auta conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público de sua cidade natal, com quem namorou durante um ano e de quem foi obrigada a se separar pelos irmãos, que preocupavam-se com seu estado de saúde. Pouco depois da separação, ele também morreria vítima da tuberculose. Esta frustração amorosa se tornaria o quinto fator marcante de sua obra, junto à religiosidade, à orfandade, à morte trágica de seu irmão e à tuberculose. A poetisa, então, encerrou seu primeiro livro de manuscritos, intitulado Dhálias, que mais tarde seria publicado sob o título de Horto.

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Auta de Souza

Aos dezoito anos, passou a colaborar com a revista Oásis, e aos vinte escrevia para A República, jornal de maior circulação e que lhe deu visibilidade para a imprensa de outras regiões. Seus poemas foram publicados no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro.

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Parte final do verso “Flor do Campo”, publicado inicialmente no ano de 1899 no jornal A Republica, de Natal.

No ano seguinte, passaria a escrever assiduamente para o prestigiado jornal A Tribuna, de Natal, e seus versos eram publicados junto aos de vários escritores famosos do Nordeste. Entre 1899 e 1900, assinou seus poemas com os pseudônimos de Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum à época.

Também foi publicada nos jornais A Gazetinha, de Recife, e no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na Revista do Rio Grande do Norte, onde era a única mulher entre os colaboradores. 

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Henrique Castriciano, irmão de Auta

Venceu a resistência dos círculos literários masculinos e escrevia profissionalmente em uma sociedade em que este ofício era quase que exclusividade dos homens, já que a crítica ignorava as mulheres escritoras. Sua poesia passou a circular nas rodas literárias de todo o país, despertando grande interesse. Tornou-se a poetisa norte-rio-grandense mais conhecida fora do estado.

Aos 24 anos, no dia 7 de fevereiro de 1901, Auta de Souza morria tuberculosa. Foi sepultada no cemitério do Alecrim, em Natal, em 1904 seus restos mortais foram transportados para o jazigo da família, na parede da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Macaíba, sua cidade natal. No ano anterior (1900) havia publicado seu único livro de poemas sob o título de Horto, com prefácio de Olavo Bilac, que obteve significativa repercussão na crítica nacional. Em 1910 saía à segunda edição, em Paris, e, em 1936, a terceira, no Rio de janeiro, com prefácio de Alceu de Amoroso Lima.

POEMAS MUSICADOS

Outro aspecto importantíssimo da obra de Auta de Souza diz respeito a poemas seus que foram musicados por compositores regionais e transmitidos oralmente de uma geração para outra, desde o final do século XIX até hoje.

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Notícia da morte de Auta de Souza no jornal A República, em 8 de fevereiro de 1901

 

Sem considerar aqueles que foram e vêm sendo musicados mais recentemente, e que não tiveram esta vinculação com a tradição oral, tem-se conhecimento da existência de quatorze deles, somando dezesseis ao considerar-se que um deles, Caminho do sertão, conta com três versões melódicas diferentes. Algumas destas canções ficaram conhecidas de norte a sul do país, chegando também a Portugal.

Integrariam esse cancioneiro de Auta de Souza os seguintes poemas musicados: Caminho do sertão, Teus anos, Desalento, Agonia do coração, Ao cair da noite, Ao luar, Meu pai, Nunca mais, Olhos azuis, Palavras tristes, Regina Coeli, À Eugênia, Meu sonho, Rezando (Róseo Menino).

Fonte: GOMES, Ana Laudelina Ferreira. Vida e obra da poeta potiguar Auta de Souza (1876-1901). Disponível no link. (acessado 14.5.2013).

POEMAS PSICOGRAFADOS E ORIENTAÇÕES ESPIRITUAIS

Além de seus poemas e de seu cancioneiro, Auta de Souza é conhecida também como uma grande mentora espiritual. Para os seguidores do espiritismo kardecista, que no Brasil hoje somam aproximadamente um milhão e meio de praticantes, a poeta é tida como um espírito superior que atuaria no “planoceleste” enquanto mentora e protetora espiritual.

Fonte: GOMES, Ana Laudelina Ferreira. Vida e obra da poeta potiguar Auta de Souza (1876-1901). Disponível no link. (acessado 14.5.2013).

Homenagens

Em 1936, a Academia Norte-Riograndense de Letras dedicou-lhe a poltrona XX, como reconhecimento à sua obra.

Em 1951, foi feita uma lápide, tendo como epitáfio versos extraídos de seu poema Ao Pé do Túmulo: “Longe da mágoa, enfim no céu repousa/Quem sofreu muito e quem amou demais.” 

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Caminho do Sertão

 

(A meu irmão João Cancio)

Tão longe a casa! Nem sequer alcanço

Vê-la através da mata. Nos caminhos

A sombra desce; e, sem achar descanso,

Vamos nós dois, meu pobre irmão, sozinhos!

 

É noite já. Como em feliz remanso,

Dormem as aves nos pequenos ninhos…

Vamos mais devagar… de manso e manso,

Para não assustar os passarinhos.

 

Brilham estrelas. Todo o céu parece

Rezar de joelhos a chorosa prece

Que a Noite ensina ao desespero e a dor…

 

Ao longe, a Lua vem dourando a treva…

Turíbulo imenso para Deus eleva

O incenso agreste da jurema em flor.

– Auta de Souza, in “Horto”, 1900.

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