AS ENTREVISTAS DE JOCA BERNARDO – A CONTAGEM REGRESSIVA PARA A MORTE DE LAMPIÃO – 2ª PARTE

AS ENTREVISTAS DE JOCA BERNARDO – A CONTAGEM REGRESSIVA PARA A MORTE DE LAMPIÃO – 2ª PARTE

UM HOMEM CARREGA HÁ 40 ANOS O DESPREZO DE SUA CIDADE

Autor – Roberto Vilanova

Fonte – Jornal do Brasil – Caderno B – 11 de maio de 1977, página 5.

Maceió – Hoje é dia de feira na cidade de Piranhas, a quase 400 quilômetros da Capital de Alagoas. É o dia do encontro semanal, muitas vezes cara a cara, das duas mais sacrificadas testemunhas da morte de Lampião: o coiteiro que traiu o cangaceiro e o único sobrevivente da família dizimada por Corisco, numa vingança resultante de uma segunda perfídia do traidor.

Os dois não se falam. Por trás, acusam-se mutuamente de covardia e mentira. Se até hoje não explodiram em violência física um contra o outro, isso se deve a um trabalho de catequese das famílias tradicionais daquela cidade do alto sertão alagoano, principal cenário do planejamento da morte de Lampião, há 39 anos. O coiteiro é Joca Bernardo; o sobrevivente é José Silvino Ventura.

Jornalista Roberto Vilanova.

Só um milagre terá feito Silvino escapar das mãos de Corisco – o segundo homem do bando de Lampião – quando o cangaceiro veio se vingar da morte do chefe e “sangrou” seu pai, sua mãe e quatro irmãos. Ele era o mais novo: tinha seis anos, idade que provavelmente o salvou.

Corisco chegou lá em casa quase às sete da noite. Meu pai, Domingos Silvino, não sabia de nada e o recebeu alegremente. Corisco foi logo dizendo: – Domingos, vim te matar. Você vai morrer com toda a sua raça, para nunca mais trair homem. Já sei que foi você quem traiu Lampião. O Joca Bernardo me contou tudo.

Silvino não conta detalhes da chacina. Só diz que foi muito cruel ter de levar, em um saco, as cabeças de seus pais e irmãos para entregá-las, em Piranhas, ao tenente José Bezerra, comandante da tropa que exterminou Lampião e seu bando. Revela também, agora por ouvir dizer, como se deu o encontro de Joca Bernardo com o cangaceiro e como a polícia, orientada pelo coiteiro, chegou à Grota do Angico, onde Lampião e alguns de seus comparsas estavam escondidos e foram mortos.

Continua Silvino – Corisco encontrou-se com Joca Bernardo uma semana depois da morte de Lampião – Queria vingar o chefe. Bernardo disse que meu pai, que era vaqueiro do sogro do tenente Bezerra, tinha sido o delator.

Mapa de Alagoas, com destaque para a região dos acontecimentos.

Corisco reuniu seu estado-maior e resolveu decidir a sorte de Domingos Silvino. Conta-se que Dadá, mulher de Corisco, advogou a honestidade de Bernardo, tal a segurança com que ele sustentava a culpabilidade de Silvino.

Continua Silvino – Corisco acreditou porque o Bernardo armou tudo direitinho. Eu não sei se ele tinha queixas de meu pai. Eu era criança e não sabia de nada.

Nas consultas que fez a seu estado maior. Corisco alinhou três argumentos para condenar Domingos Silvino:

Lampião, Maria Bonita e parte do seu bando na escadaria da Prefeitura de Piranhas, Alagoas, 1938.

1) parecia difícil que o coiteiro Bernardo fosse inventar, sem mais nem menos, o nome de outra pessoa:

2) Domingos era vaqueiro na fazenda do Senhor Antônio Brito, sogro do tenente Bezerra;

3) o Tenente Bezerra comanda tropa policial na invasão do esconderijo de Angico.

O coiteiro traidor vive hoje de uma aposentadoria pelo Funrural. Tem uma casa de taipa, esburacada, e um burrico no qual vai a Piranhas nas quartas-feiras. Depois de ajeitar o cigarro de palha, molhando-o com saliva para fechá-lo adequadamente, ele concorda em falar.

O cangaceiro Corisco.

– É verdade que o senhor denunciou Domingos Silvino como o homem que traiu Lampião?

– Isso é história. Eu não faria uma coisa dessas.

– Mas senhor se encontrou com Corisco, não foi?

– Isso é verdade.

– Como se deu esse encontro?

José Bezerra.

– Eu tinha acabado de juntar o gado, aqui perto, em Entremontes, quando ele pulou na estrada, a fumaçar pelo nariz que nem um touro. Aí eu disse: “O que é que há, camarada?” Ele respondeu: “É verdade que mataram Lampião?”. Aí eu afirmei que tinha ouvido falar.

– Foi esse o diálogo?

– Só isso. Aí ele foi embora, me parece chorando.

Bernardo está cercado, os olhares são de desprezo. Ele está acostumado a ser olhado assim até por pessoas que combatiam veementemente o cangaço. Julgava ter contribuído para o sossego público em Piranhas, a cidade alagoana mais sobressaltada no tempo dos cangaceiros, que vinham repousar no até então inexpugnável esconderijo do Angico. Seu degredo começou quando não cumpriram a professa de pagamento pelo serviço prestado. Prometeram-lhe cinco contos de réis, mas só lhe deram pouco mais de um. Se tivesse aceito a patente de sargento da polícia alagoana, que lhe foi oferecida, estaria hoje na reserva remunerada da corporação, no posto de coronel.

– Quem lhe prometeu cinco contos de réis para trair Lampião?

– A polícia.

Belo Rio São Francisco – Foto Rostand Medeiros.

– Por que não aceitou a patente de sargento?

– Prá morrer de fome, prefiro ficar no sertão cuidando do gado. Eu tinha onze filhos. Um sargento de polícia ganha quanto? E ainda tem de viver aqui e acolá, por onde ordena o Governador. E eu só sei tratar de gado e plantar. Por isso, não aceitei.

Por não ter aceito a patente de sargento, Joca Bernardo perdeu a mulher e os 11 filhos, que lhe abandonaram. Segundo conta, a mulher fez muita força para que ele aceitasse as divisas. Quando viu que não conseguiria convencê-lo, forçou-o a uma decisão: aceitar a patente ou ficar sem mulher e sem filhos.

– Então o senhor preferiu perder a mulher e os meninos?

– Na minha casa quem manda sou eu. Não quer viver comigo? Então que se dane.

AS ENTREVISTAS DE JOCA BERNARDO – A CONTAGEM REGRESSIVA PARA A MORTE DE LAMPIÃO – 2ª PARTE
O desprezado Joca Bernardo na feira de Piranhas.

– Por que o senhor aceitou trair Lampião?

– Eu não trai Lampião. O que eu queria, na verdade, era que um coiteiro dele, Pedro de Cândido, levasse uma surra da polícia.

– O que teve a ver uma coisa com outra?

-O Pedro de Cândido sabia que eu fabricava queijos. Uma vez chegou em casa e me disse que compraria todos os queijos que eu fabricasse. Pudesse guardar que ele comprava tudo. No outro dia, lá vem ele atrás de queijo. Eu disse que não tinha. Ele olhou para uns queijos que eu ia entregar, de encomenda, e disse: “E esses aí, cabra safado, de quem são?” Respondi que eram do juiz de Pão de Açúcar e que não poderia vendê-los. Al ele disse: “Juiz coisa nenhuma”. E levou tudo.

-E dai?

1938 – Curiosos diante dos corpos dos cangaceiros.

– Fiquei com raiva. Logo arranjei um jeito de me vingar de Pedro. Descobri que os queijos eram para Lampião e seu bando. Aí procurei o Sargento Aniceto, em Piranhas, e disse a ele que não sabia onde estava Lampião, mas que ele apertasse o Pedro de Cândido que o Pedro diria tudo. Assim foi feito.

Pedro recebeu o aperte e disse onde Lampião estava. Acabou agraciado com as divisas de cabo da polícia alagoana, e, mais tarde, ganhou uma delegacia no sertão. No posto de delegado, foi assassinado.

Joca Bernardo estava, afinal, vingado. Silvino não quis vingança. Parece considerar que está se consuma toda quarta-feira, quando Joca Bernardo é hoje olhado com desprezo por todos os que estão na feira de Piranhas.

AS ENTREVISTAS DE JOCA BERNARDO – A CONTAGEM REGRESSIVA PARA A MORTE DE LAMPIÃO – 1ª PARTE

Autor – Roberto Vilanova – Jornalista.

SEMANÁRIO DESAFIO, ALAGOAS – Antigo e extinto periódico de circulação semanal. Infelizmente não consegui a data em que foi publicada essa entrevista.

O prêmio máximo seria a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas. No mínimo cinco contos de réis ou o seu equivalente hoje a Cr$50 mil. Em troca pedia-se a cabeça de um homem: Virgulino Ferreira — O Lampião — exaustivamente caçado pelas caatingas do sertão de vários Estados. Mas a pessoa que aceitou a oferta, o antigo coiteiro Joca Bernardo, recusou ser sargento. E declara, nessa reportagem de Roberto Vilanova, que nunca pensou trair Lampião, mas fazer outro coiteiro, Pedro de Cândido, levar uma surra da Polícia. Joca vive, hoje, no Piau, distrito de Piranhas, a mais de 320 Km de Maceió, com a aposentadoria do Funrural. Não gosta de falar sobre o assunto, mas teve de quebrar o silêncio porque carrega, nas costas, a responsabilidade pelo massacre de uma família, dizimada por Corisco por culpa sua.

Jornalista Roberto Vilanova.

A história não reservou para Joca Bernardo, quase 80 anos de idade, uma linha sequer. Mas é bem melhor assim, porque ele entrou para a história íntima do sertão como traidor de Virgulino Ferreira – o Lampião, e, talvez por arrependimento, recusou receber o prêmio maior pela delação: a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas. Por causa disso sua esposa, desde essa época, lhe abandonou depois de argumentar e tentar convencê-lo de que não deveria jogar fora a sorte. Como jogou, ela preferiu ir embora para São Paulo no primeiro pau-de-arara que cortou as estradas secas do sertão, não lhe dando mais notícias.

A bela cidade de Piranhas, Alagoas, a margem do Rio São Francisco – Foto – Rostand Medeiros.

Mas não é fácil encontrar Joca, apesar dele viver discretamente no distrito do Piau, pertencente a Piranhas, a mais de 350 quilômetros de Maceió, porque o sertanejo é, também, antes e tudo, muito desconfiado. Aliás, a sua própria existência só é sabida por quem conhece a fundo a história de Lampião, como o presidente da ARENA (Aliança Renovadora Nacional) de Piranhas, Antônio Rodrigues, que lhe descobriu para essa reportagem.

Medo de Morrer

A troca de identidade, complementada pelos cumprimentos à mão estendida, durou pouco, mas Joca Bernardo mantinha-se olhando por baixo dos olhos, como se estivesse diante de um Tribunal. À pergunta se escondia com medo de morrer, respondeu que não. E explicou que era para evitar comentários que, na certa, iria lhe trazer recordações. E ele não desejava recordar as inconveniências naturais de um traidor.

Joca Bernardo em 1977 – Foto – Hélder Monteiro.

Nesse pé a conversa se expandiu e tomou gosto, porque se Joca se manteve, durante todo esse tempo calado, chega mesmo um momento, principalmente na sua idade, em que o peso da consciência rompe a barreira do silêncio que se impõe por conveniências. Silêncio que é quebrado também pelo conflito interno que Joca passou a viver logo depois da morte de Lampião. Não porque traiu o bandido, mas porque, para escapar da morte que Corisco espalhou como vingança, acabou delatando um inocente.

Ou seja, disse a Corisco, com quem se encontrou mais tarde, que o vaqueiro Domingos Silvino, empregado do sogro do tenente Bezerra, é quem havia delatado Lampião à polícia. Corisco foi à casa de Josias e matou ele, a mulher, uma visita, três filhos e deixou vivo apenas o de menor idade, Antônio Silvino, que mora hoje em Piranhas e não quer ver Joca na sua frente. Foi o próprio Antônio Silvino quem relatou o massacre aos seus familiares e, conforme Corisco disse a seu pai, Joca é o único responsável.

A casa extremada era a residência do tenente José Bezerra, para onde a criança Silvino Ventura trouxe as cabeças ensanguentadas de seus familiares dentro de um caçuá, transportado por um animal – Foto -Rostand Medeiros.

Silvino falou que um dos cangaceiros chegou a puxar o punhal para matá-lo, mas Corisco o conteve. Nessa época Antônio tinha seis anos de idade e recebeu a missão de conduzir um burro com as cabeças de toda a sua família, que deveria ser entregue ao tenente Bezerra em Piranhas, com um bilhete atrevido. “Quando eu passei pelas ruas de Piranhas era dia de feira. O Corisco juntou as cabeças dentro de um caçuá e mandou eu tanger o burro. Nas ruas o povo pensava que o sangue que escorria era carne de boi. E quando eu parei na porta do tenente Bezerra foi que juntou gente”, conta Silvino.

Nega Tudo

Joca Bernardo nega a delação ao vaqueiro Domingos Silvino, mas confirma que se encontrou com Corisco. Até o seu relato do encontro – surpresa e, até mesmo, as circunstâncias dele, Joca parece não mentir. Mas na reprodução do diálogo ele acaba revelando uma certa frieza:

Silvino Ventura tinha seis anos de idade quando viu sua família ser covardemente trucidada pelo famigerado Corisco na Fazenda Patos e foi obrigado a transportar em um animal as cabeças cortadas de seus familiares para a casa do tenente José Bezerra, em Piranhas. Faleceu de um acidente em Piranhas, no dia 30 de julho de 1985, aos 54 anos de idade – Foto – Hélder Monteiro..

“Eu estava juntando o gado quando o Corisco pulou de cima de um lajedo. O Corisco e mais uns cinco cabras, inclusive a Dadá, que foi a minha salvação. Aí o Corisco falou se era verdade que tinham matado Lampião? Eu respondi que ouvi dizer. Aí ele disse: vou matar muita gente para vingar a morte. E vou começar logo por você. Aí a Dadá disse – “óxente, home. Que história é essa? A gente mata quem tem culpa, inocente não”.

A História é bem diferente, segundo conta o Senhor Antônio Rodrigues, de tradicional família de Piranhas e político influente na região.

Ruínas da propriedade Patos, onde a família Ventura foi trucidada – Foto – Rostand Medeiros.

Corisco soube que Joca havia traído Lampião e foi procurá-lo. No encontro, disse que ia matá-lo e Joca, com medo, falou que se morresse seria inocente. E lamentou que tivesse servido de coiteiro para Lampião e, agora, qual o pagamento que recebia?”.

Corisco titubeou, principalmente diante da interferência de Dadá, e resolveu tirar a história a limpo. Foi então que Joca Bernardo lembrou, maliciosamente, “onde Lampião teria passado antes de ir para Angico”, seu até então inexpugnável esconderijo.

Corisco

Lampião, antes de atravessar o rio São Francisco, passou na fazenda do sogro do tenente Bezerra (o fazendeiro Antônio Brito). Com isso, Joca quis insinuar que o vaqueiro Domingos Silvino Ventura, sempre à disposição para cumprir ordens e fazer recado do bando, teria denunciado os planos de Lampião de se alojar em Angico por alguns dias.

A verdade é que Corisco aceitou a justificativa, se não teria evitado o massacre da família Silvino Ventura, de quem sobrou, a propósito, apenas Antônio Silvino, o filho mais novo na época.

Foto – Rostand Medeiros.

Traição a Lampião

Na verdade, Joca Bernardo não tinha nada contra Lampião – a quem ajudava, na medida do possível, para poder ir levando a vida sem ser molestado pelo seu bando. Se bem que tivesse de enfrentar as inconveniências da polícia que sempre se confundia, pelas arbitrariedades cometidas, com os cangaceiros, muitas vezes praticando horrores em nome da Lei, que a bem da verdade era material, porque estava simbolizada na mira de um fuzil “bem azeitado e municiado”.

Assim, dentro do possível ou de acordo com os conformes, Joca e tantos outros coiteiros se prestavam ao serviço de acoitar Lampião e seu bando porque não tinha mesmo escolha. E entre ser morto pelos cangaceiros ou pela polícia, o que no fundo dá no mesmo, era preferível morrer tentando ser fiel a Deus e ao diabo, mesmo sem saber quem era quem. Ou seja, quem era Deus e quem era o diabo.

Pedro de Cândido

Mas como a miséria só quer começo, um dos maiores coiteiros de Lampião, Pedro de Cândido – que ninguém duvidava da sua ligação com Lampião e vivia imune em Piranhas – foi comprar queijo que Joca fabricava no dia em que os cangaceiros se arrancharam em Angico. E apesar de Pedro sempre levar dinheiro suficiente dado por Lampião, acabava usurpando o chefe e não pagava as mercadorias, o que criava, naturalmente, um clima de animosidade não só para ele, como para o bando.

Tiro Fatal

Naquele dia, porém, Pedro de Cândido, inadvertidamente, engatilhou a arma que desfechou em Lampião o tiro fatal.

Utilizando-se da fama de valente, talvez imposta pela condição de coiteiro chefe de Lampião, Pedro bateu à casa de Joca Bernardo para comprar “todos os que queijos que tivesse na hora ou a fazer durante os próximos 15 dias”, que era o tempo de descanso dos cangaceiros.

Manchete do jornal natalense A República sobre a morte de Lampião.

Joca respondeu que tinha uma encomenda de queijo do juiz da cidade de Pão de Açúcar e não podia ceder o volume que já se encontrava pronto. O argumento não foi levado em consideração, porque Pedro de Cândido retrucou abusado:

Cabra safado, eu estou pedindo o queijo e não quero saber de história. Vou levar tudo agorinha mesmo”, recordou Joca.

Apesar de se saber que Pedro era coiteiro de Lampião, Joca ainda duvidou para quem seria tamanho carregamento de queijo. Até que descobriu:

Eu pensei assim” – conta ele – “o Pedro não negocia e se quer tanto queijo só pode ser pra muita gente. Se é para muita gente, Lampião tá por aqui.”

Manchete do jornal natalense A República sobre a morte de Lampião.

Joca não reagiu e Pedro de Cândido levou todo o carregamento de queijo que havia sido encomendado pelo juiz de Pão de Açúcar. Mas naquele mesmo dia o sargento Aniceto foi informado da situação. Ele tinha ficado em Piranhas, enquanto o coronel Lucena, o tenente Bezerra e o aspirante Chico Ferreira saíram em diligência atrás de Lampião na localidade de Pedra, atual município alagoano de Delmiro Gouveia. O relato ainda é de Joca:

Eu fui procurar o tenente Bezerra, mas ele não estava. Encontrei o sargento Aniceto, que me perguntou se sabia sobre algo, e lhe contei: sargento, eu não sei o que o senhor quer, mas se o senhor quiser saber onde Lampião tá escondido, aperta o Pedro de Cândido que ele diz. Agora só digo uma coisa ao senhor: Lampião está aqui por perto e não veio com pouca gente não. Têm uns 100 homens com ele. E contei também o caso dos queijos que o Pedro me tomou.

A partir daquele momento começou a contagem regressiva da vida de Lampião e seu bando.

Mas como o próprio Joca admite a delação não tinha a intenção de trair Lampião porque, do jeito que até hoje alguém afirma que o cangaceiro não morreu, naquele tempo acreditava-se na sua imortalidade, pelo menos à bala ou à faca. Joca desejava que Pedro levasse uma surra através do “aperto” da polícia, e não admitia que a polícia desse fim a Lampião, porque o bandido sempre escapava aos cercos ilesos. Mas não foi assim que aconteceu: o cangaceiro morreu mesmo.

Recusa

O sargento Aniceto se encarregou de assegurar junto ao tenente Bezerra e ao coronel Lucena o trabalho decisivo de Joca Bernardo, ajudando à Polícia. Aí os dois oficiais chamaram Joca a Piranhas e anunciaram o prêmio: cinco contos de réis e a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas, que lhe seria dada pelo Governo do Estado.

Sargento José Bezerra.

Joca recusou as divisas e aceitou apenas o dinheiro, que acabou não recebendo em toda sua totalidade.

Eu acho que o Governador mandou o dinheiro todo, mas o portador ficou com um pedaço. Eu só recebi um conto de réis”, relembra.

Ele recusou as divisas de sargento, porque teria de vir morar em Maceió e um sargento naquela época não ganhava suficiente para sustentar uma família. Então Joca preferiu continuar tangendo gado e fazendo queijo, sem pagar aluguel de casa e sem ter outros gastos que naturalmente teria de assumir se mudasse de cidade e de vida.

Entrada na propriedade Patos. – Foto – Rostand Medeiros.

Mas sua mulher não aceitou a argumentação e como não pôde fazê-lo receber a patente, preferiu abandonar a casa. Foi morar em São Paulo. Por ironia, quem recebeu as divisas foi o Pedro de Cândido.

Joca, que pensava em se vingar da sua violência, não só proporcionou a Pedro sua reaproximação com as autoridades de Piranhas e de Alagoas, como lhe deu a própria chance de ser autoridade, porque logo em seguida foi incorporado à polícia como sargento e nomeado delegado no sertão. E morreu assassinado por culpa, ao que se sabe, de seus dotes de “Dom Juan”, sem que lhe respeitassem, ao menos, a posição de delegado.

Bela região do Rio São Francisco – Foto – Ricardo Trigueiro Morais.

Joca amargou a fama de traidor – na verdade o traidor é ele mesmo e se não fosse a aposentadoria do Funrural (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural), engordada pelo frete que consegue tangendo um burro carregado de água, estaria na miséria.

Sequer Joca conseguiu o intento de fazer Pedro de Cândido levar uma surra dos policiais, porque este ao ser preso não reagiu e nem criou maiores dificuldades para contar aonde era o esconderijo de Lampião.

A LOUCA HISTÓRIA DE UM HOMEM QUE SAIU DE CASA PARA LEVAR CERVEJAS AOS AMIGOS NO MEIO DA GUERRA DO VIETNÃ

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Caros leitores, apenas imagine que você se encontra em um lugar distante, longe de casa, de todos que você ama e tem amizade. Imagine então que você está em um país tropical, cercado de muita selva, em meio a muito calor e extrema umidade. Imagine também que você é um simples soldado com um fuzil na mão, se protegendo em uma trincheira lamacenta, com seu uniforme verde todo ensopado, suas botas cheias de água, sem tomar banho a vários dias, comendo mal e bebendo água suspeita de conter todo tipo de germes e bactérias. Mas o pior é que a todo momento o lugar onde você está é alvejado por tiros e bombas e que mais além de sua trincheira estão seus inimigos. Eles são aguerridos nativos desse país tropical, onde você é considerado um maldito invasor e eles estão doidos para lhe enviar para o inferno com uma bala na cabeça.

Rick Duggan, que se achava na área de Quang Tri, a província do Vietnã do Sul mais próxima da então fronteira com o Vietnã do Norte e uma das áreas “quentes” da guerra em 1967.

Aí, no meio de todo esse pesadelo, do nada, sem nenhum aviso prévio, surge na sua frente um velho amigo do seu bairro, com uma camisa quadriculada berrante, calças de veludo cotelê, um sorriso no rosto e dizendo;

– Oi, vim lhe trazer umas cervejas!

Por mais que possa parecer loucura, essa história aconteceu de verdade e agora virou filme!

União Irlandesa

Inwood é um bairro da área norte da ilha de Manhattan, na cidade de Nova York, Estados Unidos. Antigamente ali existiam pequenas propriedades rurais, que foram dando lugar a casas e edifícios conforme Nova York crescia. O lugar foi sendo habitado por imigrantes irlandeses, que criaram a principal feição étnico e cultural dessa região.

Ao longo da história os irlandeses foram injustamente escravizados e oprimidos pelos ingleses, que durante séculos mantiveram controle estrito sobre a grande ilha da Irlanda e tratando a população local como a mais baixa escória da sociedade britânica. O domínio inglês levou a situações extremas, como a chamada “Grande Fome”, onde metade da população irlandesa morreu de inanição e muitos trataram de literalmente fugir para o outro lado do Atlântico. Quando chegaram aos Estados Unidos entre 1840 e 1860, quase todos os irlandeses vieram em condições de extrema pobreza e não tiveram vida mansa.

Contudo muitos conseguiram superar a falta de oportunidades, a falta de dinheiro, as doenças e as discriminações. Muito dessa superação estava ligada à ideia de união das pessoas dessa comunidade em áreas específicas, como foi o caso de Inwood. Ali eles se apoiavam, se amavam, brigavam, se protegiam, bebiam cerveja clara ou escura, mantinham suas crenças ligadas a São Patrício, a adoração ao trevo de quatro folhas, a cor verde, aos gnomos, duendes e outras coisas. Isso tudo gerou, além da forte união, um sentimento de orgulho em olhar para o passado e ver como seus ancestrais conseguiram superar os desafios. O resultado foi uma cultura persistente e forte, que se tornou um pilar da atual sociedade norte-americana.

Mas no final da década de 1960, em um país a 14.300 km de distância de Nova York e chamado Vietnã, os militares norte-americanos participavam de uma intensa luta para manter de pé o malfadado e corrupto regime do Vietnã do Sul, contra os motivados guerrilheiros comunistas do Vietcong e os membros do Exército do Vietnã do Norte.   

Em 1967 o número de americanos mortos nessa guerra crescia semanalmente e em Inwood os velórios ocorriam regularmente. Até o momento do desenrolar dessa história, nada menos que 28 jovens daquele bairro haviam morrido no Vietnã.

Cadáver de um militar americano deixando o sudeste asiático =- Fonte – https://www.wbur.org/news/2015/04/29/kennedy-vietnam-war-final-marines

Um dia, em um bar tradicional chamado Doc Fiddler’s, o barman George Lynch, um veterano da Segunda Guerra Mundial conhecido como “Coronel”, ficou indignado ao ver na TV as crescentes manifestações contra a Guerra do Vietnã. O Coronel começou então a fazer um animado discurso a favor dos soldados e proclamou que “alguém deveria levar algumas cervejas” para os heróis locais. O bar explodiu em aplausos.

O que parecia uma mera lorota de mesa de bar, foi ouvida com atenção por um dos frequentadores. Este era o marinheiro mercante John Charles Donohue, conhecido como “Chickie”, então com 26 anos de idade. Ele era um antigo fuzileiro naval que nunca havia participado de combates, mas que havia estado no Vietnã do Sul algumas vezes, quando os navios mercantes que trabalhava aportavam por lá.

Outra imagem de Rick Duggan no Vietnã

Anos depois Donohue afirmou que não sabia o que estava pensando seriamente quando decidiu partir para a zona de guerra, mas achava que tinha de fazer alguma coisa pela galera do bairro que estava na linha de frente. O espirito de união que ligava os irlandeses falou mais alto!

“Se eu lhes dissesse a verdade, vocês não acreditariam em mim”

Nos últimos meses de 1967 o marinheiro mercante Donohue conseguiu uma vaga em um navio que seguia para o Vietnã transportando toneladas de munições. Ele embarcou com algumas roupas e uma bolsa cheia de latas de cervejas. Inicialmente a ideia era se encontrar com seis jovens de Inwood, mas, como ele logo descobriria, o número baixou para quatro, pois um havia sido morto em combate e o outro havia retornado aos Estados Unidos com um caso grave de malária.

O marinheiro mercante John Donohue a caminho do Vietnã

Uma vez que ele pôs os pés em terra, no porto sul-vietnamita de Quy Nhom, milagrosamente conseguiu rastrear alguns dos quatro amigos, a maioria dos quais tinha apenas vinte e poucos anos. Os militares com quem conversava atrás de informações e caronas presumiram que Donohue, vestido com calças de veludo cotelê e uma camisa quadriculada, era algum tipo de agente do governo americano. Ao falar com oficiais de alto escalão, ele simplesmente lhes dizia: “Se eu lhes dissesse a verdade, vocês não acreditariam em mim”. Assim ele conseguiu pegar carona em jipes, caminhões, aviões e helicópteros para áreas onde seus amigos estavam.

Tommy Collins, da Polícia Militar do Exército dos Estados Unidos.

O primeiro encontrado foi Tommy Collins, que servia em uma unidade de Polícia Militar do Exército dos Estados Unidos, com base no mesmo porto em que Donohue desembarcou. Após a surpresa do encontro a farra foi grande. Recentemente Collins comentou – “Donohue estava em uma zona de combate, mas andava como se estivesse indo para uma partida de golfe”.

Depois veio Kevin McLoone, cujas as circunstâncias desse encontro beiram o absurdo. Mas, segundo eu pesquisei, realmente aconteceram dessa maneira. Donohue tentava chegar até um certo local e ao entrar em um jipe que parou para lhe dar carona, ele reconheceu que o motorista era McLoone. Foi um encontro totalmente inesperado.

Kevin McLoone

Junto com sua mochila cheia de cervejas, Donohue trouxe novidades de casa para seus amigos. Os rapazes estavam famintos pelas últimas manchetes do país, de Nova York e principalmente de Inwood. Eles recebiam regularmente cartas de entes queridos, mas com Donohue presente, em meio às cervejas, os rapazes receberam as últimas e quentes notícias sobre as garotas do bairro. Vale ressaltar que antes da viagem o marinheiro mercante se encontrou com alguns membros das famílias que queriam transmitir mensagens pessoais a seus filhos no Vietnã.

Rick Duggan com colegas da 1ª Divisão de Cavalaria dos Estados Unidos.

O próximo encontro foi com Rick Duggan, que se achava na área de Quang Tri, a província do Vietnã do Sul mais próxima da então fronteira com o Vietnã do Norte e uma das áreas “quentes” da guerra naquela época. Em abril de 1967, membros do exército sul vietnamita e militares da 1ª Divisão de Cavalaria dos Estados Unidos haviam retomado a capital dessa província do Exército Norte Vietnamita. Apesar disso os combates ainda continuavam intensos na região nos últimos meses daquele ano.

John Donohue degustando comida enlatada na área da LZ Jane.

Duggan estava na chamada Landing Zone Jane (LZ Jane), ou Zona de Desembarque Jane, ao sul de uma base aérea chamada La Vang. Consta que o encontro foi mesmo no meio de uma batalha e, segundo Duggan, a roupa de Donohue o tornava um verdadeiro alvo ambulante, onde poderia ser colocado uma tabuleta dizendo “Atire em mim, eu sou de Nova York”. O combatente lembrou no documentário The gratest beer rum ever, de 2019, que ele teve de colocar roupas militares verdes em Donohue, para assim evitar que o amigo de bairro fosse atingido por disparos dos norte vietnamitas.

John Donohue no seu encontro com Rick Duggan e seus colegas de pelotão.

Esse encontro foi, como os demais, uma mistura de surpresa, emoção, risos, cervejas e muito papo.

No Meio da Ofensiva do Tet

O próximo da lista era Bobby Pappas, que se encontrava perto de Saigon, em um lugar chamado Long Binh. Na época da guerra Saigon era a capital do Vietnã do Sul, sendo hoje conhecida como Cidade de Ho Chi Minh e o maior centro urbano da atualmente unificada República Socialista do Vietnã. 

Só que nessas idas e vindas de John Donohue pelo Vietnã em guerra, ele perdeu seu navio. O marinheiro então tentou se encaixar em algum transporte para fora do Vietnã, através do apoio da Embaixada dos Estados Unidos naquele país. Enquanto isso o ano de 1967 acabou e logo o mês de janeiro de 1968 vai chegando ao fim, quando aconteceu a intensa Ofensiva do Tet.

Helicóptero americano Bell Uh-1H na Guerra do Vietnã.

Essa foi uma das maiores campanhas militares de toda a Guerra do Vietnã, sendo executada por forças do Vietcong e do Exército Norte Vietnamita na madrugada de 30 de janeiro. Foi uma campanha de ataques surpresa contra os militares do Exército do Vietnã do Sul, das Forças Armadas dos Estados Unidos e seus aliados. Os ataques atingiram principalmente os centros de comando e controle militares e civis, visando desencadear instabilidade política em larga escala, na crença que ocorreriam deserções e rebeliões nos centros urbanos.

O nome dessa ofensiva é a versão truncada da denominação em vietnamita do festival do Ano Novo Lunar – Tết Nguyên Đán. já a data foi escolhida por coincidir com o período de férias e de licença da maioria dos funcionários públicos e militares do Vietnã do Sul e um dos principais alvos foi justamente Long Binh.

Em 1968 o complexo militar de Bien Hoa/Long Binh era a maior base militar dos Estados Unidos no Vietnã do Sul. A Base Aérea de Bien Hoa era a maior do país, abrigando mais de 500 aeronaves da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) e da Força Aérea da República do Vietnã (RVNAF), enquanto a chamada Long Binh Post era a maior base logística do exército americano.

Rick Duggan e John Donohue em Long Binh.

Donohue e Pappas se encontraram em Long Binh antes da Ofensiva do Tet, mas após o ataque, quando os comunistas explodiram o enorme depósito de munições que havia por lá, o marinheiro mercante saiu às pressas de Saigon para a zona de combate em busca de notícias do seu amigo, que estava vivo. Pappas comentou em uma entrevista para a rede de TV americana CBS que no ataque a Long Binh os inimigos “explodiram oito toneladas de munições em oito segundos”.

Resultado do ataque a Long Binh durante a Ofensiva do Tet.

Não demorou e Donohue partiu do Vietnã para Inwood. Em casa recebeu a admiração e o agradecimento dos amigos e parentes dos soldados do bairro que estavam na guerra.

Ele continuou trabalhando como marinheiro mercante, fez parte do sindicato de sua classe e hoje está aposentado. Tommy Collins, Kevin McLoone, Rick Duggan e Bobby Pappas sobreviveram à Guerra do Vietnã.

A Louca História Que Virou Filme

Antes de sua jornada, Donohue se colocou contrário às manifestações contra a Guerra do Vietnã. Mas ao final de sua visita de oito semanas àquele país, ele começou a mudar de ideia. Embora até hoje ele não concorde inteiramente com a forma como as manifestações ocorreram, ele diz que entendeu que os manifestantes estavam tentando parar uma guerra que “não valia a pena”.

Ao centro, à frente está John Donohue. A sua esquerda Kevin McLoone e a sua direita Tommy Collins. Atrás, da esquerda para direita estão Bobby Pappas e Rick Duggan.

Recentemente Tommy Collins comentou ao programa CBS Sunday Morning, que reuniu todos os cinco participantes dessa louca aventura, que “500.000 soldados e fuzileiros navais estavam naquela época no Vietnã, e Donohue encontrou quatro de nós. Incrível”, Rick Duggan acrescentou: “Ele me encontrou, o que é um milagre em si. Nunca estive no mesmo lugar por mais de dois ou três dias de cada vez”.

Agora essa história se tornou um filme. Intitulado The Greatest Beer Run Ever (no Brasil Operação Cerveja) é uma mistura de filme biográfico, comédia e drama de guerra. Foi dirigido e co-escrito por Peter Farrelly, baseado no livro de mesmo nome de John Donohue e Joanna Molloy.

O filme é estrelado por Zac Efron e Russell Crowe e segue a história real de Donohue, mas com alguma licença poética.

The Greatest Beer Run Ever teve sua estreia mundial em 13 de setembro de 2022, no Festival Internacional de Cinema de Toronto, Canadá, e foi lançado na plataforma de streamer Apple TV+ em 30 de setembro de 2022.

SEGUNDA GUERRA – BRASIL TEVE CAPITÃO DO EXÉRCITO, FILHO DE CORONEL, CONDENADO POR ESPIONAGEM A SERVIÇO DOS NAZISTAS

Fonte – https://jornalismodeguerra.wordpress.com/2018/02/16/brasil-teve-capitao-filho-de-coronel-condenado-por-espionagem-a-servico-dos-nazistas/

Filho de Coronel, Capitão do Exército Brasileiro nos meses que antecediam a declaração de guerra contra Alemanha e Itália, piloto de avião, de família financeiramente estável, bem falado nos ciclos cariocas, porém dono de um gênio forte e agressivo. Assim poderia ser descrito Túlio Régis do Nascimento, um dos poucos espiões à serviço dos nazistas condenados no Brasil.

O Capitão Túlio militou no Movimento Integralista. Na foto uma propaganda integralista.

Primeiro ele foi integralista e pró-Eixo, falando abertamente para quem quisesse ouvir que a Alemanha ganharia a guerra. Hoje essa afirmação soa estranha, mas na época era uma aposta e tanto, principalmente antes de 1942.

Os contatos dele para montar o esquema de espionagem eram o embaixador alemão no Rio de Janeiro (então Capital Federal), Kurt Prüefer e o adido naval Almirante Hermann Bohny. Kurt, antes do rompimento de relações com o Brasil tentou convencer os brasileiros, especificamente Vargas a seguir na causa alemã.

Albrecht Gustav Engels

O começo dos serviços

Ele foi voluntário, começou com informações internas e foi crescendo no conceito alemão. Em uma dessas feitas, por conta do cargo, Túlio teve permissão para uma viagem aos Estados Unidos, em que conheceria a base Sperry para curso de aperfeiçoamento. O capitão correu para contar a novidade a um dos agentes alemães em solo nacional, Albrecht Gustav Engels, que transmitiria a novidade para Berlim. Autoridades brasileiras interceptaram a conversa e o chamaram para esclarecer o ocorrido. Porém, o chefe da de Polícia de Vargas, Filinto Müller apenas ouviu e soltou o acusado.

Filinto Strubing Müller foi um militar e político brasileiro. Participou dos levantes tenentistas entre 1922 e 1924. Durante o Governo Vargas, destacou-se por sua atuação como chefe da polícia política, e por diversas vezes foi acusado de promover prisões arbitrárias e a tortura de prisioneiros – Fonte – Arquivo Nacional.

Desconfiados, pero no mucho

O grupo estava mais cuidadoso, mas começou a ser mais vigiado pelas autoridades nacionais em conjunto com os Estados Unidos. Mesmo assim, partiram para outras missões, uma delas, conseguir informações das bases do Norte e Nordeste do país, com convite feito ao membro Raimundo Padilha, que recusou agir e  passou a missão para o jornalista Gerardo Mello Mourão, que atendeu o pedido.

Navio TS Windhukfazer um blog – Fonte – http://www.sixtant.net/2011/artigos.php?cat=the-saga-of-liner-windhuk&sub=voyage-to-captivity&tag=1)liner-windhuk

O terceiro ato era explodir o navio Winduck, apreendido da Alemanha e cedido pelo Brasil aos EUA. Nessa última missão quem foi acionado foi Álvaro da Costa e Souza, porém, ele se recusou e entregou os comparsas para a polícia, traindo o grupo. O navio não foi sabotado.

Dali em diante não tinha mais volta. Policiais fecharam o cerco e o grupo foi caindo um a um. Padilha contou das bases e Álvaro entregou do navio. Túlio foi preso e os delatores soltos por falta de provas.

O esquema era grande

Jornais da época falam em um esquema muito maior dentro do quartel em que servia Túlio, inclusive com o objetivo de sublevação de sargentos e que os dois principais auxiliares, Gerardo e Álvaro, envolviam outros civis, inclusive prostitutas para conseguir informações. A promessa era de 12 mil cruzeiros para quem entrasse para a organização. O dinheiro vinha da Alemanha. Heinz Ehlert facilitava o trâmite da grana e do fluxo de informações. Para despistar a polícia, Túlio usava o codinome “García”.

Floriano Peixoto Keller, em 1952, no posto de General de Brigada – Fonte – Arquivo Nacional.

No entanto, confrontado com as provas, Túlio confessou os crimes na presença de Tenente-coronel Floriano Peixoto Keller e do Capitão José Bretas Cupertino.

Na denúncia apareceram fatos chocantes, como o de que o grupo passava as movimentações de navios dos Estados Unidos e da Inglaterra no porto do Rio, além de fazer reuniões freqüentes com o almirante Bohny e com o conselheiro da Embaixada Alemã, Walter Becker, que por sua vez era auxiliado pelo médico Oswaldo Riffel França, encarregado do contato com a célula nazista de Bueno Aires.

Túlio morava em um apartamento em Copacabana em nome de Riffel, que aliás, foi quem pediu para Buenos Aires para enviar novos códigos cifrados, já que os brasileiros tinham descoberto os que vinham usando.

Mais denunciados

Quando as provas já eram consistentes, foram denunciados: Alexsander Konder, Heinz Ehlert, Valencio Wurch Duarte, Álvaro da Costa e Souza, Ernest Ramuz, Albert Gustav Engels, Heinz Otto Herman Lourenz, Gerardo Mello Mourão, Kurt Martins Weingartner, Otmar Gamilischig, Herbert Friederich Julius Von Heyer. Por lavarem o dinheiro para o grupo, foram denunciados Camilo Mendes Pimentel, Jefferson Dias e Vasco Paroline Pezzi, que eram sócios ocultos de Albert Angels.

Herbert Friedrich Julius von Heyer, ou Herbert von Heyer. Fonte – Livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, pág. 37.

O advogado de Túlio

Assim que foi preso, em 1943, Túlio chamou como advogado Evandro Lins e Silva. O defensor conta que o cliente estava bastante nervoso com a situação e que pensou em entregar seus superiores, dando a entender que havia gente maior do governo. Lins sugeriu duas saídas: denunciar os maiorais e tentar desviar dele as denúncias ou preservar os cabeças do esquema e se beneficiar do poder deles depois. Túlio escolheu a segunda opção e não entregou os cargos acima do dele.

Túlio era primo da esposa de Lins e o Konder era cunhado dele. Ou seja, dois da família estavam no rolo. Lins conta que ficou com medo que o matassem como queima de arquivo, porque Túlio lhe revelara o nome dos superiores. Por isso, deixou gente da confiança dele avisada caso lhe passasse algo, porém ficou vivo para contar a história.

Comandava o quartel em que Túlio ficou detido, o Coronel Nelson de Melo, o mesmo da rendição em Fornovo com a FEB na Itália, dois anos depois.

Na cadeia

Alberto Daflon Gomes era um soldado na Fortaleza de Santa Cruz, em que Túlio estava preso. Ali houve um desentendimento com o prisioneiro, que queria que lhe prestassem continência porque ele era Oficial do Exército. O recruta e o colega dele, Rubens, negaram, afinal ele tinha sido destituído do posto militar quando foi preso. Túlio partiu para cima dos guarda com um cinto na mão e a dupla ameaçou atirar nele. Assim ele foi contido. Com a barulheira, o Oficial responsável pela guarda apareceu e para evitar novos confrontos, disse para os soldados prestarem continência e não ficarem arrumando confusão.

Quando os últimos recursos de defesa se esgotaram, lá estavam os dois soldados assistindo a cerimônia de retirada das divisas de Túlio, realizada na frente de toda a tropa que aguardava em forma. Foi convertido em civil e transferido para outro presídio. Alberto foi servir na FEB e voltou com vida do conflito.

O pai tenta salvar o filho

O Coronel Flávio Queiroz do Nascimento era oficial da Reserva e para tentar impedir o processo do filho encaminhou pedido para o Governo Federal para que Túlio fosse internado em um sanatório para tratamento psiquiátrico, em julho de 1943. O pedido foi negado.

Cena obtida antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial – Loja com propaganda integralista – Fonte – Arquivo Nacional.

Penas gigantes, mas não cumpridas

Após a denúncia, vieram as prisões. Alguns foram liberados por falta de provas, no entanto, outros ficaram presos. Túlio e Gerardo pegaram 30 anos de cadeia e os informantes, todos integralistas, Valêncio Duarte, Álvaro da Costa e Souza e Oswaldo França foram condenados a 25 anos de reclusão. A maioria, entre eles o Gerardo Mello Mourão, saiu entre 1947 e 1950. No começo dos anos 50, apenas Túlio estava preso, tendo sido liberado de cumprir a pena somente em 1955, após recorrer ao Supremo Tribunal Federal.

Fonte – Biblioteca Nacional.

Acontece que durante o governo Dutra, Nereu Ramos, vice-presidente da República assumiu o cargo de chefe da nação por 21 dias em 1955. Nesses 21 dias libertou não só Túlio, como Margarida Hirschmann, locutora da Rádio Auriverde.

Margarida Hirschmann foi a locutora brasileira que travou guerra psicológica, quando militares alemães montaram uma rádio em solo italiano para tentar desmoralizar o pessoal da Força Expedicionária Brasileira – FEB. Chamava-se “Rádio Auriverde”, funcionava na Rádio Fino-Mônaco e tinha como comandante Anelmann Alta, além do italiano Felício Mastrangelo, que fora radialista no Brasil da década de 30 até 1942. Todos tinham morado no Brasil e sabiam como usar o rádio como arma psicológica. – Fonte – https://jornalismodeguerra.wordpress.com/2018/05/11/locutora-brasileira-que-travou-guerra-psicologica-contra-a-feb-foi-inocentada-no-brasil/

Outros envolvidos

O médico França, que também ficou preso, foi parar em Ilha Grande e mesmo livre morou lá até a morte, aos 81 anos de idade, depois de servir 48 anos como médico da comunidade. Está enterrado lá.

Gerardo Mello Mourão ocupou cargos políticos, foi escritor elogiado e negava que tivesse sido espião, se dizia apenas um integralista e nada mais. Nem nazista e nem fascista, só integralista. Faleceu no Rio de Janeiro em março de 2007.

Gerardo Mello Mourão – Font – Arquivo Nacional.

Vingança Integralista

Após terem sido liberados da cadeia, uma matéria na revista “O Cruzeiro” deixou Túlio, Konder e Gerardo Mourão nervosos. Túlio queria matar o repórter e Konder disse que matar não era o melhor caminho. Armaram um esquema para sequestrar o jornalista e o levaram até um restaurante português. Combinaram com o dono para que preparasse um prato cheio de bosta humana e obrigaram o jornalista a comer. Depois liberaram ele, dizendo que se contasse para alguém, o matariam.

Vai e volta

Em 1960 Túlio apareceu novamente, desta feita tentando no STF ser reincorporado ao Exército, o que lhe foi negado. Depois, novos registros dele na imprensa só aparecem de novo em 1966, quando queria que os ex-combatentes impedissem que Raimundo Padilha assumisse um segundo mandato como deputado federal. Aquele Padilha lá de trás, que entregou o pessoal, vinha ocupando cargos políticos desde 1945 e na época era um dos braços fortes do militares, como membro do partido deles, o Arena.

Confusão política

Havia segmentos dos Pracinhas que reclamavam, pois antigos integralistas, acusados de fascismo e de colaboração com o nazismo estavam livres, ocupando cargos no governo, se destacando na sociedade, enquanto outros colegas que haviam pego em armas com a FEB na Itália, como Gervásio Gomes de Azevedo, Salomão Malina e Aldo Ripassarti eram perseguidos acusados de serem comunistas. Isso sem contar que em 1948 o governo ainda discutia se pagaria e como pagaria as famílias dos náufragos mortos nos ataques alemães.

Em 1960, por exemplo, quando Gerardo Mello Mourão foi nomeado, pelo então presidente Juscelino Kubitschek, chefe de gabinete do Ministro da Agricultura, os veteranos fizeram um grande protesto e ele não assumiu o cargo. O governo mudou de estratégia e Mello Mourão pegou um cargo vitalício no Senado, inclusive com uma remuneração melhor que a primeira proposta.

A indignação foi tão grande que o ex-combatente do 1º Grupo de Caça, Neltair Pithan e Silva, devolveu a Medalha de Campanha na Itália (FAB) ao Presidente da República com uma carta revoltada. Em 1966, Raimundo foi chamado para líder do governo Castelo Branco no Congresso e causou nova revolta.

Como repúdio, Jamil Amiden (que também era deputado) e centenas de ex-combatentes devolveram suas Medalhas de Campanha em protesto. O ato fez barulho na imprensa, mas depois caiu no esquecimento.

Como nessa época as Associações de Ex-combatentes já estavam nas mãos de pessoas solidárias ao governo militar ou tinham pouco poder (20 anos depois da guerra), a libertação dos espiões ficou por isso mesmo e esquecida. Não há informações de Túlio nesse período pós 1966…

Fontes consultadas:

O SALÃO dos passos perdidos: depoimento aoCPDOC / [Entrevistas e notas: Marly Silva daMotta, Verena Alberti ; Edição de texto DoraRocha]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: Ed.Fundação Getulio Vargas, 1997. 525p. il.

VENTO PASSADO – Memórias do Recruta 271. 2ª edição. Niterói, 2013, de Alberto Daflon e Fábio Daflon.

Diário do Congresso Nacional de 17 de março de 1966, Suplemento nº 30

Jornal O Estado, de Santa Catarina, de 31 de março de 1943

A Guerra que não acabou, de Francisco Ferraz

Documentos Digitalizados da FEB, do Arquivo Nacional

Correio da Manhã, 18 de agostode1960

Correio da manhã, 14 de agosto de 1952

A Noite, 14 de abril de 1960

Correio da Manhã, 11 de agosto de 1955

Correio da manhã, 01 de janeiro de 1956

Correio da Manhã, 25 de outubro de 1958

Petição de habeas-corpus nº 31552

A Notícia, 04 de abril de 1943 (Joinville) 

UM HOMEM DA METRÓPOLE NA ILHA DA MALDIÇÃO, de

WESLLEY HANNS CARVALHO MATOS, disponível em http://ilhagrandehumanidades.com.br/?q=sociaisehumanas/um-homem-da-metr%C3%B3pole-na-ilha-da-maldi%C3%A7%C3%A3o

Raimundo Padilha: O Espião de Ontem é o Espionado Hoje, por DIEGO DA SILVA RAMOS, disponível em http://www.snh2017.anpuh.org/resources/anais/54/1502290774_ARQUIVO_TRABALHOCOMPLETO.pdf

http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/kurt-prufer

https://perspectivaonline.com.br/2012/09/07/entrevista-com-gerardo-mello-mourao/