1930 – ESCARAMUÇAS POLÍTICAS E ECONÔMICAS CULMINARAM COM A REVOLTA DE PRINCESA

“Caça” aos coronéis e retaliações fiscais atiçaram Zé Pereira contra João Pessoa.

Jornal A União, João Pessoa, Paraíba – Sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020.

Rammom Monte – rammom511@hotmail.com

Há 90 anos, a Paraíba presenciava uma luta que entraria para a história. No dia 28 de fevereiro de 1930, uma cidade paraibana declarava independência provisória e passaria a ter hino, bandeira e leis próprias. O município era Princesa Isabel e embate ficou conhecido como a Revolta de Princesa.

Além de marcar a ruptura de Princesa (que à época tinha este nome) com o Estado da Paraíba, o dia também foi a véspera da eleição presidencial de 1930, que confrontava Getúlio Vargas e João Pessoa de um lado e Júlio Prestes e Vital Soares do outro. Esta segunda chapa é que sairia vencedora (mais isto é um capítulo para outra história).

Porém, apesar da batalha começar oficialmente em 1930, e necessário voltar um pouco no tempo para entender o que culminou na Revolta. Tudo começou com a eleição de João Pessoa para Presidente da Paraíba (cargo hoje equivalente ao de governador), em 1928..

O Coronel José Pereira (de chapéu na mão direita, ao centro da foto) e seus principais aliados.

Além do sobrinho de Epitácio Pessoa (e que hoje dá nome à capital paraibana), a Revolta tem outras figuras importantíssimas, entre eles João Duarte Dantas, João Suassuna, Carlos Pessoa, e o principal deles, o coronel José Pereira Lima, mais conhecido como Coronel Zé Pereira..

Zé Pereira era um grande comerciante de algodão. Além do seu poderio financeiro, ele era uma espécie de primeiro-ministro do Sertão, como bem disse o historiador e escritor José Octávio de Arruda Mello. E como um bom coronel, ele mandava e desmandava pelas bandas da Serra do Teixeira. Contraía-lo não era algo que os governantes estavam acostumados a fazer. Mas o que parece é que João Pessoa não estava muito preocupado com isso. Em 22 de outubro de 1928 ele assumia o cargo. E o que já se falava na época era que ele veio com a intenção de perseguir o coronelismo, que imperava naquele momento.

No documentário ‘A Princesa do Sertão’, de 2010 e direção de Deraldo Goulart, o filho de Zé Pereira, Aloísio Pereira, já afirmara que João Pessoa veio ao poder com a finalidade de eliminar três coronéis: os Santa Cruz, de Monteiro, os Dantas, de Teixeira, e José Pereira, de Princesa. “João Pessoa já chegou com este intuito”, diz o professor José Octávio.

João Pessoa

E não tardou para João Pessoa de fato mostrar o que pretendia. À época, grande parte da produção da Paraíba, principalmente de algodão, era despachada para Recife, Natal e Fortaleza, o que fazia com que o Estado paraibano não arrecadasse com os impostos. Devido a isso, o governador (que na verdade era presidente, mas chamemos assim para facilitar o entendimento), emitiu, em 17 de novembro de 1928, a Lei 673, que implantava um rigoroso sistema de arrecadação tributária que distinguia entre as mercadorias importadas pelo Litoral, através do Porto de Cabedelo, e aquelas que entravam na Paraíba pelas fronteiras terrestres. Essa medida praticamente tornou impossível o comércio do Sertão com os estados vizinhos. Com a decisão, João Pessoa passaria a ser chamado pejorativamente de João Porteira ou João Cancela. 

Com isso, o clima que já não era dos melhores ia ficando cada vez mais tenso. As medidas deram origem à chamada Guerra Tributária. No meio do entrevero estavam os irmãos Pessoa de Queirós, primos de João Pessoa e figuras importantes em Pernambuco, no tocante ao comércio e à imprensa, através do tradicional Jornal do Commercio, de Recife. E foi se utilizando da força midiática que os Pessoa de Queirós travaram uma batalha pública com o primo governador da Paraíba (mais à frente falaremos do papel da imprensa em todo episódio).

O que antes era só troca de farpas e amenidades teve seu estopim na corrida eleitoral de 1930, como conta José Octávio em seu livro “Nova História da Paraíba – Das origens aos tempos atuais“.

“Em fevereiro, João Pessoa alterara a chapa de deputados federais do Partido Republicano, dela excluindo potentados rurais como João Suassuna e Flávio Ribeiro, aproveitados como candidatos pela Coligação Republicana da Paraíba, mas conservando o primo Carlos Pessoa”, escreveu.

Antigo casarão do coronel José Pereira em Princesa, onde Zé Pereira e João Pessoa se encontraram em 19 de fevereiro de 1930.

Se faltava uma fagulha para o incêndio começar, já não faltara mais. No dia 19 de fevereiro de 1930, João Pessoa, na tentativa de contornar a crise política, viajou a Princesa. Daí surge muitas versões sobre o que teria acontecido na cidade, mas o que se diz é que os dois estavam prontos para a luta, mas estavam disfarçando. José Américo de Almeida, em seu livro ‘O ano do Nego’, conta que, apesar de festas, ele percebeu que aquilo era simulado, e que havia alguma coisa por trás. João Pessoa deixou para dar a informação da decisão de última hora, na hora da saída.

Em 22 de fevereiro de 1930, o “coronel” José Pereira rompe oficialmente com o Governo do Estado, através do telegrama 52.

“Dr. João Pessoa – Acabo de reunir amigos e correligionários aos quais informei do lançamento da chapa federal. Todos acordaram mesmo que V. Excia., escolhendo candidatos à revelia Comissão Executiva, caracteriza palpável desrespeito aos respectivos membros. A indisciplina partidária que ressumbra do ato de V. Excia, inspirador de desconfianças no seio do epitacismo, ameaça de esquecimentos mais relevantes serviços dos devotados à causa do partido. Semelhante conduta aberra dos princípios do partido, cuja orientação muito diferia da atual, adotada singularmente por V. Excia. Esse divórcio afasta os compromissos velhos baluartes da vitória de 1915 para com os princípios deste partido que V. Excia. Acaba de falsear. Por isso tudo delibero adotar a chapa nacional, concedendo liberdade a meus amigos para usarem direito voto consoante lhes ditar opinião, comprometendo-me ainda defendê-los se qualquer ato de violência do governo atentar contra direito assegurado Constituição. Saudações (a) José Pereira”, escreveu.

Sentado vemos Marcolino Florentino Diniz, conhecido como Marcolino Pereira Diniz, um dos líderes de Princesa, que era sobrinho e cunhado do coronel José Pereira, junto com seus comandados. Em pé, da esquerda para direita, temos Pedro Inácio (proprietário de terras em Pernambuco), João Pereira e Pacífico Lopes (proprietários rurais), Joaquim Inácio (grande proprietário de terras no município pernambucano de Triunfo) e Chôcho (proprietário rural na localidade de Irerê, município de Princesa). Agradeço a atenção e participação de Natércia Suassuna Dutra, sobrinha-neta de João Suassuna, que enviou as informações aqui colocadas.

João Pessoa ao receber o telegrama, respondeu-o em um mesmo tom. Depois disso, era questão de tempo que as guerras nas palavras desbancassem para a luta armada. E assim o foi nos dias que cercavam a eleição presidencial de 1º de março. Há registros que citam que, como dito acima, em 28 de fevereiro o Decreto 01 foi aclamado pela população, que declarou oficialmente a independência da cidade (República de Princesa).

Outros citam a movimentação bélica com vistas a garantir o pleito do dia 1º de março. Na véspera, os homens de Zé Pereira e a polícia do Estado, sob o comando de José de Américo de Almeida, marcharam em direção a Teixeira, onde aconteceria o primeiro dos embates. Sobre o dia, há versões divergentes. Afinal de contas, houve ou não embate neste dia? Teve derramamento de sangue ou tudo não passou de uma mera encenação? Vejamos a seguir o que dizem os envolvidos.

Batalha de Teixeira: o que realmente houve na região?

Há uma controvérsia: um lado defende que ocorreram truculência e confronto; o outro aponta apenas encenação.

O dia era 1º de março de 1930. O palco era a cidade de Teixeira. O que aconteceu? Aí é uma controvérsia. Um lado defende que o que se viu foi truculência e confronto. O outro diz que não teve nada disso. Quem estava falando a verdade? Até hoje não ficou claro.. Então vamos às versões e o leitor decide qual lhe parece mais verossímil. Quem narrou as versões foi o professor José Octávio.

“A polícia invade Teixeira. Aí vem uma divergência muito grande, no dia da eleição, os dois lados pretextando garantir a eleição. Zé Pereira veio de lá com o seu pessoal e a polícia pelo lado de cá invadiu para dominar a cidade, que era um foco dominado pelos Dantas. Aí há duas versões. A de Ariano Suassuna ressalta uma versão um tanto romântica. Ele fala da Tia Cota, que Ascendino Feitosa (chefe da polícia) teria a prendido. Ele conta que esta tia dele foi ameaçada por Ascendino, que teria dito que iria beber o sangue dela. E ela teria dito: “Pois então pela primeira vez vai correr sangue bom nestas tuas veias sujas”. Esta é a versão de Ariano”, disse.

Marcas do conflito em Princesa em 1930.

E completou: “A versão de Osvaldo Trigueiro é que não aconteceu nada disso, que é uma coisa inteiramente simulada. Esses conflitos da época tinham muito de simulação, encenação. Ele diz que essa briga não existiu, que não houve tiroteio nenhum lá, nada. O que se diz é isso, que a guerra começou em Teixeira, o que é compreensível porque Teixeira fica no meio do mapa. Disse que a polícia chegou lá e, nem uma coisa que era muito comum na época, que era tiro para cima, houve. Essa é a versão de Osvaldo Trigueiro”, conta.

O que se sabe é que houve esse episódio que abriria oficialmente as outras batalhas que ali viriam. Os homens de Zé Pereira eram em um número muito maior do que a polícia, dois mil contra 850. E eles se utilizaram de armas fornecidas pelo próprio Estado anos antes, na tentativa de conter a passagem da Coluna Prestes pela Paraíba. E foi essa vantagem numérica que deixava os homens de Zé Pereira sempre à frente na corrida, como no episódio de Tavares.

“O ponto máximo de penetração da polícia foi o distrito de Tavares, onde coluna comandada pelo capitão João Costa passou de sitiante a sitiada. Tavares é o município vizinho a Princesa, a polícia que estava invadindo ficou aquartelada e João Costa resistindo. Em matéria de organização, os Pereiristas sacavam vantagem”, declarou José Octávio.

Apesar do rompimento ter acontecido em fevereiro, apenas em junho, na primeira e única edição do ‘Jornal de Princeza’, em 21 de junho de 1930, era publicado o decreto, datado de 9 de junho, que proclamava a independência de Princesa.

Decreta e proclama provisoriamente a independência do município de Princesa, separada do Estado da Paraíba, e estabelece a forma pela qual deve ele se reger. A administração provisória do Território de Princesa, instituída por aclamação popular, decreta e proclama a Resolução seguinte:

ART. I – Fica decretada e proclamada provisoriamente a independência do município de Princesa, deixando o mesmo de fazer parte do Estado da Paraíba, do qual está separado desde 28 de fevereiro do corrente ano.

ART. II – Passa o município de Princesa, constituir com seus limites atuais, um território livre que terá a denominação de Território de Princesa.

ART. III – O Território de Princesa assim constituído permanece subordinado politicamente ao poder público federal, conforme se acha estabelecido na Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil.

ART. IV – Enquanto pelos meios populares não se fizer a sua organização legal, será o Território regido pela administração provisória do mesmo território. Cidade de Princesa, em 09 de junho de 1930.

O impasse duraria até após a morte de João Pessoa, no dia 26 de julho, em Recife. O presidente da República, Washington Luiz, decidiu terminar com a Revolta de Princesa e o coronel José Pereira não ofereceu resistência, conforme acordo prévio, quando seiscentos soldados comandados pelo capitão João Facó ocuparam a cidade em 11 de agosto de 1930. José Pereira deixou a cidade no dia 5 de outubro de 1930. Depois de anistiado, em 1934, foi residir na Fazenda Abóbora em Serra Talhada.

O papel da imprensa na Revolta

Além das figuras já citadas, dois veículos tiveram bastante protagonismo nessa batalha: o jornal A União e o Jornal do Commercio. Por trás de um estava o governador da Paraíba João Pessoa e do outro os Pessoa de Queirós, mais precisamente na figura de Francisco. Ainda em 1929, João Pessoa já atacava os coronéis, na edição do dia 11 de outubro do jornal A União. “Logo que assumi o governo, verifiquei que tudo estava enfeudado às chefias políticas. O chefe político arrecadava e dispunha, como bem entendia, das receitas públicas. Tributava e não era tributado. Fazia justiça, mas não se deixava justiçar. Tornava-se, como se vê, um elemento pernicioso”, declarou.

Combatente do conflito de Princesa de 1930, armado com um fuzil alemão Mauser.

O episodio da passagem de João Pessoa por Princesa (quando ele anunciaria a decisão sobre a retirada de João Suassuna da chapa) foi retratado na edição de 20 de fevereiro de 1930, do jornal A União. Já a edição do dia 28 trazia a notícia da decisão de João Suassuna disputar a eleição para deputado federal. Um trecho do texto dizia o seguinte: “Ninguém poderia crer que o homem a quem concedeu nosso partido os postos de maior significação e realce, na esfera da administração pública e da política, fosse pedir ou aceitar um abrigo protetor à sombra vacilante das bandeiras inimigas, precisamente no instante que estão em jogos os interesses vitais da Paraíba e do partido que generosamente o criou”. Algumas manchetes dos jornais de março de 1930 da União davam a tônica do que estava acontecendo. Em 4 de março, publicava-se a seguinte manchete: “A traição e os traidores”, com um texto que atacava fortemente José Pereira e João Suassuna. A edição de 6 de março voltava a bater ainda mais forte nos revoltosos de Princesa, com uma matéria intitulada “Os cangaceiros de José Pereira tentando convulsionar o Sertão”. Os ataques perdurariam até o fim da Revolta. Naquele mesmo ano, João Pessoa seria assassinado em 26 de julho, em Recife, como já dito acima, e em outubro, Getúlio Vargas e o exército tomariam o Palácio do Catete, no que ficaria conhecido como a Revolução de 1930.

Uso de avião e “tanque blindado”

Hilton Gouvêa – hiltongouvearaujo@gmail.com

Na Revolta de Princesa Isabel, segundo demonstra o arquivo da Força Aérea Brasileira (FAB),com registro no Índice Assuntos Diversos – Aviação, foi empregado um avião da categoria turismo, da marca Flit, para bombardear o município. Este, de acordo com orientações do então governador João Pessoa, teria a missão preliminar de, inicialmente, lançar panfletos sobre a área de maior ajuntamento de jagunços, convidando-os a se render, sem o emprego de armas e, consequentemente, derramamento de sangue. Convém citar que desde o início da luta os soldados da Força Pública da Paraíba nunca tinham conseguido entrar no reduto do coronel José Pereira.

Seriam necessárias 800 bombas para a operação, que foram fabricadas por Alberto Borges e José Pimentel. Cada uma pesava cerca de 60 quilos e eram altamente explosivas. Seriam lançadas sobre Princesa Isabel, (a 413 quilômetros de João Pessoa). O documento da FAB revela que, João Pessoa, de última hora, teria impedido o bombardeio, embora, nesse ínterim, ainda faltasse o principal instrumento da operação: um avião.

A Paraíba, neste momento de grande decisão, já dispunha de dois aviadores hábeis: Luigi Fossati e Florindo Perroni. O avião, principal instrumento operacional do plano, amerrisou na Praia de Jacumã, a 22 quilômetros da capital, às 14h do dia 14 de abril de 1930. O piloto era Perroni. A aeronave era um hidroavião, que teve seus trens de pouso – duas canoas – substituídos por rodas, para operar em terra. Ao deslizar numa ribanceira, o aparelho quebrou a hélice e uma das asas. Acabou desmontado e conduzido para Campina Grande, onde seria feito o conserto.

João Duarte Dantas

Não houve jeito. O aviador paulista Reinaldo Gonzaga, amigo do governo paraibano, encarregou um certo Charles Astor para adquirir outro aparelho, este batizado de Garoto. Desta vez, o piloto Luigi Fossati conseguiu pousar, com esta avioneta, em Piancó, a 25 de junho de 1930 – um mês e 3 dias depois, João Dantas mataria João Pessoa, em Recife, dentro da Confeitaria Glória, com dois tiros pelas costas. Na localidade de São Boaventura, a nave chegou a dar um voo rasante de 20m de altura, sobre as posições inimigas. Três jagunços morreram de medo, embora o aviãozinho tenha sido atingido por tiros de fuzil, sem se avariar.

João Pessoa morto

Conta-se uma piada sobre este episódio: o avião foi atingido por tiros de fuzil em São Boaventura, no momento em que liberava uma “nuvem” de panfletos. Tratava-se de uma operação de efeito psicológico, sem ocorrência (ainda) de bombas. Um jagunço perguntou ao outro: “Tu acertasse o passarin?” Resposta: “Acho que sim: voismicê num viu o monte de pena qui ele soltou?” Houve também azar: dias depois, o piloto Perroni morreu, daí porque o avião não conseguiu chegar até o centro de Princesa, o coração do quartel-general de José Pereira. Este piloto seria o que, em última hipótese, faria o bombardeio, por conhecer bem a área.

 “Viatura de guerra” de CG

A participação de Campina Grande na guerra contra os rebeldes de Princesa Isabel teve um plano iniciado em 1929. Foi lá que fabricaram um “carro-tanque blindado”, para atuar no front das tropas do governo estadual, no grande ataque ao reduto dos jagunços de José Pereira e seu parente, o caboclo Marcolino. Esta curiosa matéria, foi publicada no Anuário de Campina Grande em 1982.

Sabe-se pouco que fim levou o estranho “veículo militar”. Em Princesa ele não chegou. Prova-se que o “tanque” usava pneus da marca Fisk, fabricados pela Fisk Rubber Company, empresa norte-americana fundada em 1924, que exportava pneus e outros produtos para o Brasil. O engenheiro do “blindado” foi o criativo lanterneiro e mecânico Duca Paulino, que montou-o sobre a carroceria de um caminhão GMC. O “tanque” era tão pesado que não conseguiu subir a ladeira do Serrotão, sendo rebocado de volta para Campina Grande, de onde sumiu.

A LUTA ENTRE OS MAIA E OS SUASSUNA NO SERTÃO PARAIBANO

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Imagem meramente ilustrativa – Foto – Rostand Medeiros

Autor – Rostand Medeiros

Na história do Nordeste do Brasil as lutas envolvendo as tradicionais famílias do sertão, que culminaram em sangrentas confrontações, sempre foram situações que marcaram a memória de muitas localidades.

Este fenômeno jamais foi exclusivo desta parte do Brasil, mas nesta região ocorreu com uma frequência preocupante e com exemplos de extrema brutalidade que, em alguns casos, perduram até hoje.

As razões para os conflitos foram inúmeras, mas duas situações se mostram presente na maioria destes casos: questões de terras e hegemonia do poder político.

Utilizando muitas vezes os terríveis combustíveis da vingança e do sacrossanto dever do homem sertanejo de “lavar a honra”, estas contendas deixaram marcas intensas, ceifando vidas até de quem não tinha nada haver com estes problemas.

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Imagem meramente ilustrativa – Foto – Rostand Medeiros

Estes conflitos eclodiram, cresceram, extinguiram várias vidas e, na maioria das vezes, se retraíram diante das repercussões das mortes ocorridas, ou das ações dos agentes do Estado na tentativa de manter a ordem, por não ter mais quem desejasse combater, ou cansaço mesmo..

Com a ampliação dos meios de comunicação no Nordeste algumas destas lutas ganharam pelo país afora ares de verdadeiras batalhas épicas, marcando de forma indelével muitas comunidades.

Não faltaram aqueles que rezaram fervorosamente e ascenderam maços de velas pelo fim do problema e o retorno da paz.

Normalmente estes confrontos familiares acabavam sem ser apontado algum vencedor hegemônico, ou algum clã derrotado na sua totalidade. No final todos os que participavam eram perdedores.

A cidade paraibana de Catolé do Rocha presenciou um destes casos a partir da segunda década do Século XX.

Aqui está um pouco desta história.

Todos Enredados na Mesma História de Terror

Composta de homens valentes e denodados, o caso de Catolé do Rocha envolveu as famílias Maia e Suassuna, onde a querela entre estes grupos perdurou por décadas e chegou a ter sido destacadamente noticiado em periódicos de todo Brasil.

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Edição de domingo do Jornal do Brasil, dia 24 de novembro de 1985, com a reportagem do jornalista paraibano José Nêumanne Pinto sobre a luta dos Maia e Suassuna.

Em 1985, mais precisamente na edição de domingo, dia 24 de novembro, o jornalista paraibano José Nêumanne Pinto apresentou nas páginas do Jornal do Brasil uma magistral reportagem sobre este conflito, onde apontava que a luta entre as duas famílias já durava mais de 50 anos.

Nêumanne mostrou na época, com extrema propriedade, que aquela era “Uma história antiga, especial para corações fortes. Seus personagens são homens rudes do sertão. Não importa se um – João Agripino de Vasconcelos Maia Filho – já foi até ministro (De Minas e Energia, na época do governo Jânio Quadros), ou o outro é um bem-sucedido empresário do Rio (Ney Suassuna, na época da reportagem proprietário do Colégio Anglo-americano e diretor da Associação Comercial da Barra da Tijuca), ou se um terceiro, José Agripino Maia, é governador de estado (Rio Grande do Norte) e se um quarto é conhecido internacionalmente como escritor (Ariano Suassuna). Na verdade, mesmo que alguns tentem fugir, todos estão enredados nesta mesma história de terror, cujo mais recente capítulo ainda não está para acontecer”.

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Foto de Catolé do Rocha, realizada pelo escritor paulista Mário de Andrade, quando esteve neste município paraibano em janeiro de 1929 – Fonte – revistacarbono.com

Segundo o jornalista Nêumanne, o clã dos Suassuna no sertão paraibano originou-se a partir de um padre que se chamava Felipe, deixou a batina e se estabeleceu em Catolé do Rocha. Era descende das famílias Cavalcanti de Albuquerque de Pernambuco. Pertenceram a família o Visconde de Albuquerque e o Marquês de Muribeca, que foi lente da Faculdade de Direito de São Paulo.

Já os Maia vem de Francisco Alves Maia, descendente de portugueses desembarcados em praias cearenses e primeiro membro destacado da família na política. Conhecido como coronel Maia foi o responsável por enviar seus descendentes para estudarem em faculdades, como as de Direito de Recife e São Paulo e a de Medicina em Salvador. Este pensamento avançado para a época criou entre os seus descendentes a importância dos estudos para ascensão social, política e profissional.

O Início

Para o jornalista José Nêumanne Pinto, igualmente sertanejo da cidade paraibana de Uiraúna, a raiz do conflito entre os Maia e Suassuna era eminentemente uma rixa política. Para ele muito raramente as duas famílias cerraram fileiras em uma mesma causa, em um mesmo partido e o tempo só fez com que se distanciassem cada vez mais. A última ocasião que Maia e Suassuna foram do mesmo partido aconteceu na época que no Brasil o Presidente da República era o paraibano Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa.

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Mas o fato que acende a chama, o que detonou tudo, começou mesmo em 1922, quando Francisco Sérgio Maia, o Chico Sérgio, filho do coronel Sérgio Maia, queria namorar Noemi Suassuna, a mais bela cunhada de Christiano Suassuna.

Este tentou impedir o namoro por considerar Chico Sérgio uma pessoa de pouca saúde. Não podemos esquecer que naquelas primeiras décadas do século passado, com medicina bem limitada, mesmo que o pretendente fosse de boa família, o seu estado de saúde era algo a ser considerado pelas famílias de uma jovem na aprovação de uma futura relação. Mas o caso em questão envolvia outras pequenas desavenças e provocações na área política entre as duas principais famílias de Catolé do Rocha e aquela recusa adicionou mais lenha a fogueira.

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Catolé do Rocha na atualidade.

Com a intenção de dar um susto em Chico Sérgio, João Mantense, um capanga de Cristiano Suassuna, foi à fazenda do coronel Sérgio Maia e lá encontrou o jovem Chico conversando em numa roda de amigos. Passou a jogar pedras e pedaços de tijolos no rapaz. Uma banda de tijolo atingiu uma de suas pernas, causando sérias lesões.

Independente do alcance do ferimento ocorrido em Chico Sérgio, evidentemente que o pior foi o atrevimento de João Mantense e do seu Senhor. E a resposta logo veio na forma de uma grande surra no capanga de Christiano Suassuna, em plena feira de Catolé do Rocha. O cabra tomou um verdadeiro “chá de pau”.

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João Suassuna discursando em um evento no Rio de Janeiro – Fonte – Revista “O Malho”, do Rio de Janeiro, edição de 18 de outubro de 1924.

Apesar da surra mais que merecida, os membros do clã Suassuna sentiram-se ofendidos pela execração pública de João Mantense. Américo, filho de Pio, irmão de Christiano e de João Suassuna, futuro governador paraibano (Pai do escritor Ariano Suassuna), tomou as dores do episódio e o caldo engrossou.

O magistrado, ex-ministro e ex-governador paraibano João Agripino Filho registrou em suas memórias como se desenrolou o primeiro movimento verdadeiramente grave deste conflito. Tempos depois estas memórias se tornariam o livro “Agripino – O Mago de Catolé”, de autoria do jornalista Severino Ramos.

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João Agripino Filho – Fonte – http://www.catolenews.com.br

O que João Agripino Filho testemunhou não deixa dúvidas da valentia dos envolvidos e sempre me impressionei com este episódio.

Para melhor informar o leitor do blog TOK DE HISTÓRIA, junto ao relato de João Agripino Filho, trago a entrevista que este concedeu a José Nêumanne Pinto em 1985.

 “-Nessa Casa não tem Homem para Responder a esse Fogo?”

João Agripino Filho era criança, tinha quase oito anos de idade (nasceu em 1 de março de 1914) e estava na calçada com seu pai (João Agripino de Vasconcelos Maia) e sua mãe (Dona Angelina Mariz Maia), que tinha seu irmão mais novo no  colo (Antônio Mariz Maia, que no futuro seria desembargador). Em meio a este momento de tranquilidade na pacata cidade paraibana chegou Américo Suassuna com um rifle na mão e ficou passando na frente da casa dos Maia.

Logo perguntou ao bacharel João Agripino “-Você têm coragem?”.

João Agripino Filho narrou que seu pai estava desarmado naquele momento. Mesmo assim, de forma muito calma, sorriu e respondeu com outra pergunta “-Porque você quer saber?”

Américo então falou de maneira fria e ameaçadora:

“-Quero saber se você quer trocar tiros?”

Sem perder a calma, João Agripino disse simplesmente:

“-Atire”.

Na hora que o membro do clã Suassuna levantou a arma, João Agripino saiu levando Dona Angelina, o bebê e o jovem João Agripino para dentro de casa. Américo não se fez de rogado e abriu fogo.

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Na foto vemos João Agripino de Vasconcelos Maia Filho e sua mãe, Dona Angelina Mariz Maia – Fonte – http://www.catolenews.com.br

Enquanto as balas batiam em vários locais da casa, em meio ao som dos disparos, poeira do reboco caindo, desespero do momento, Dona Angelina Mariz Maia gritou a plenos pulmões:

“-Nessa casa não tem homem para responder a esse fogo?”.  

Raimundo Suassuna, irmão de Américo, entrevistado por José Nêumanne Pinto em 1985, apontou que foram os capangas de João Agripino, conhecidos como João Boquinha e Cícero Novato, que responderam aos tiros de Américo e um deles estava armado com um fuzil. João Agripino Filho informou em suas memórias que seu pai conseguiu se armar e igualmente respondeu ao fogo de Américo.

Diante da resposta aos seus disparos, Américo se abaixou atrás de grossos pilares de madeira, que continham argolas para amarrar os animais que vinha para a feira da cidade e continuou descarregando sua arma. Testemunhas comentaram que o atirador dos Suassuna teve muita sorte, pois o pilar de madeira em que ele buscou proteção ficou bastante atingido pelos disparos efetuados. Provavelmente uma coisa que ajudou Américo era o fato dele ser um homem de baixa estatura e um tanto atarracado.

Aparentemente o tiroteio durou cerca de quinze a vinte minutos. Segundo Raimundo Suassuna a troca de balas encerrou quando seu pai Pio Suassuna interveio ao gritar para os Maia que “-Eles não teriam coragem de matar um filho dele!”. Raimundo narrou ao jornalista de Uiraúna que os buracos de bala feitos pelo seu irmão na casa dos Maia ficaram expostos por vários anos e estes diziam que eles só tapariam quando Américo fosse morto.

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José Nêumanne Pinto – Fonte – http://www.paraiba.com.br

João Agripino Filho afirmou a José Nêumanne Pinto que “-Jamais esqueceu aquela cena”.

Pessoalmente não conheci o local do tiroteio, nem onde se posicionaram os atiradores, nem a distância entre os inimigos e se eles eram, ou não, bons de tiro. Mas fato é que aquele episódio, onde não faltou o conceito de coragem, valentia, bravura e o temperamento de muitos sertanejos para lutar de peito aberto no campo da honra, deu início a uma das mais sérias e difíceis rivalidades entre famílias que o Nordeste testemunhou.

Outros Atores

O conflito entre os Maia e Suassuna prosseguiu de maneira variada e alternância de intensidade. Às vezes envolvendo na questão outros atores, de outras regiões da Paraíba.

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Ariano Suassuna era um dos membros mais conhecidos da família Suassuna. Ele nunca participou da luta contra a família Maia, mas uma parte de sua obra recebeu influência destes episódios.

Um fato que teve enorme repercussão em todo país foi o ataque de cangaceiros a cidade paraibana de Sousa. Ocorrido em 27 de julho de 1924, foi protagonizado pelo cangaceiro Francisco Pereira Dantas, conhecido como Chico Pereira. Este era paraibano da vila de Nazareth (hoje Nazarezinho), que em parceria com os irmãos de Lampião (que nessa época se recuperava de um ferimento) e numeroso bando de cangaceiros assaltaram Sousa. Este caso teve como um dos principais motivos à concretização de uma vingança pessoal deste cangaceiro contra seus inimigos que residiam naquela próspera cidade paraibana. Entre estes estava Octávio Mariz, ligado em parentesco aos Maia de Catolé do Rocha.

Como se diz que “inimigo do meu inimigo, consequentemente é meu amigo”, independente da negativa repercussão do episódio de Sousa, João Suassuna, já então governador da Paraíba, e seus irmãos, mantiveram ligações próximas com Chico Pereira.

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Seda da fazenda Conceição, na zona rural de Catolé do Rocha, antiga propriedade de Manoel Maia de Vasconcelos, que foi visitada por Chico Pereira e parentes de João Suassuna em 1926.

Existe uma notícia publicada em um jornal carioca (A Manhã, edição de 2 de junho de 1926), dando conta que no mês de março daquele ano o cangaceiro Chico Pereira esteve nas propriedades Marcelina e Maniçoba, pertencentes aos irmãos Suassuna. Além disso ele foi visto circulando tranquilamente em automóvel particular em Catolé do Rocha, junto com pessoas da família Suassuna. Vale ressaltar que nesta época Anacleto Suassuna, um dos irmãos do governador João Suassuna, conhecido na região como “major Quietinho”, era o delegado da cidade de Catolé.

A mesma nota aponta que Chico Pereira e os parentes do então governador paraibano estiveram em uma ocasião na fazenda Conceição, de propriedade de Manoel Maia de Vasconcelos, na época juiz em Açu e respondendo pela comarca de Mossoró, Rio Grande do Norte.

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Jornal carioca A Manhã, edição de 2 de junho de 1926.

Nesta ocasião Chico Pereira não atacou esta fazenda, apenas parou com seus amigos para pedir “água”. Mas a “visita” deixou totalmente abalada a esposa do juiz e suas duas filhas, além de certamente deixar os homens da família Maia em total estado de alerta.

João Agripino Filho comentou no livro “Agripino – O Mago de Catolé”, que os acirramentos levaram as duas famílias a criarem situações únicas e peculiares. Nos dias de eleição foi criada uma linha imaginária em Catolé do Rocha, que tinha como base a igreja matriz de Nossa Senhora dos Remédios e dividia os setores políticos dos dois clãs na urbe. E ai de quem ousasse transpô-la para fazer intriga política e cabular votos!

E a divisão das duas famílias continuou em assuntos políticos até mesmo externos a Catolé do Rocha.

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Imagem meramente ilustrativa – Fonte – chickenorpasta.com.br

Em meio às repercussões do conflito na cidade de Princesa, na Paraíba, e da deflagração da Revolução de outubro de 1930, os Maia apoiaram politicamente o governador João Pessoa no plano estadual e Getúlio Vargas na esfera federal. Já os Suassuna cerraram fileira junto ao coronel José Pereira, de Princesa, e no quadro político nacional deram apoio ao paulista Júlio Prestes.

Quem conhece história do Nordeste e do Brasil sabe qual dos dois lados levou a melhor nestas alianças!

A Luta Chega a Natal

E o tempo passou e a questão continuou!

Lauro Maia era o prefeito eleito da cidade potiguar de Patu, fronteiriça a Catolé do Rocha. Era uma liderança política ligada a João Café Filho, que naquele mesmo ano ser tornaria o único potiguar a alcançar o mais alto cargo do poder executivo brasileiro.

Então, no dia 3 de junho de 1954, por volta das onze e meia da noite, defronte ao Hotel América, na Avenida Rio Branco, no centro da capital potiguar, Lauro Maia foi brutalmente assassinado. Ele não foi a primeira vítima do conflito, mas foi um dos casos mais conhecidos sobre estes episódios.

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Nota sobre a morte de Lauro Maia no jornal “O Globo”, do Rio, na edição de 5 de junho de 1954.

O pistoleiro desferiu quatro tiros com um revólver calibre 38 contra o prefeito de Patu, que efetivamente foi atingido por dois balaços e faleceu três dias depois no antigo Hospital Miguel Couto, atual Onofre Lopes. O caso inclusive foi publicado no jornal “O Globo”, do Rio, na edição de 5 de junho daquele ano.

A suspeita maior recaiu sobre José de Deus Dutra, ligado politicamente aos Suassuna em Patu. Por falta de provas José Dutra foi absolvido. Já o filho de Lauro Maia, o médico Lavoisier Maia Sobrinho, não quis vingança e foi clinicar em Catolé do Rocha. Mas ele também seria alcançado pela violência daquele conflito.

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Na foto vemos a esquerda Lavoisier Maia Sobrinho, quando no cargo de governador do Rio Grande do Norte, dando um abraço no ex-governador potiguar Aluízio Alves.

Segundo José Nêumanne Pinto, na edição do Jornal do Brasil de 1985, comentou que Lavoisier Maia, que durante os anos de 1979 e 1983 foi governador do Rio Grande do Norte, estava na noite de 9 de setembro de 1956 na festa de comemoração de bodas de casamento do juiz de direito Sérgio Maia, no Prédio da Intendência, localizado à Rua Epitácio Pessoa, no centro de Catolé do Rocha. Depois houve uma animada comemoração em clube local.

Em meio à festa, Chiquinho Suassuna queria que um parente seu entrasse no recinto e participasse do evento, mas Lavoisier Maia barrou a entrada deste membro do clã opositor. Isso gerou uma altercação, que descambou para um tiroteio onde ficaram feridos Lavoisier e Chiquinho. Nesse mesmo episódio foi morto com um tiro acidental o agente de estatística Cantidiano de Andrade.

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Imagem meramente ilustrativa – Foto – Rostand Medeiros

Lavoisier salvou-se por um verdadeiro milagre, mas continuou ao longo de sua vida política e pessoal com sequelas daquele tiroteio e só recentemente deixou a vida pública. Já Chiquinho Suassuna continua vivo e morando em Catolé do Rocha.

Após estes acontecimentos houve um período de trégua na luta das famílias. Mas os ressentimentos, contudo, permaneceram como chagas abertas. Bastava que acontecesse algum problema mais sério para que as acusações voltassem à tona e a violência retomasse o seu sinistro crescimento.

Sangue continuou sendo derramado e ainda por alguns anos corpos tombaram em meio a esta luta!

Trabalhando Pela Paz!

Ao escrever este texto não pude deixar de recordar de Eleanor Roosevelt, que disse certa vez que “Para conseguir a paz não bastava apenas falar sobre ela, mas acreditar e trabalhar por ela”.

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Imagem meramente ilustrativa – Foto de Cid Barbosa – Fonte – chickenorpasta.com.br

Um dia os membros das famílias Maia e Suassuna trabalham juntos e, através do entendimento e não pela força das armas, encerraram aquela luta.

O famoso ator britânico Charles Chaplin disse certa vez que “O tempo é o melhor autor; sempre encontra um final perfeito”. Não sei se neste caso houve um final perfeito para todos os envolvidos nestes episódios. Certamente que não. Além disso, não existem meios de voltar no tempo, de voltar atrás para serem corrigidos diretamente os erros do passado.

Mas ao menos agora estes clãs podem moldar o futuro de suas novas gerações com maior tranquilidade.

VEJA TAMBÉM – O PAI DE ARIANO SUASSUNA – QUEM FOI JOÃO SUASSUNA, COMO SE DEU A SUA MORTE E COMO ESTE FATO INFLUENCIOU A VIDA E A OBRA DO SEU FILHO ARIANO – https://tokdehistoria.com.br/2014/08/02/o-pai-de-ariano-suassuna-quem-foi-joao-suassuna-como-se-deu-a-sua-morte-e-como-este-fato-influenciou-a-vida-e-a-obra-do-seu-filho-ariano/

 

 

ARIANO SUASSUNA – O DECIFRADOR DE BRASILIDADES

 

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Nascido em 16 de junho de 1927, em João Pessoa, quando a capital paraibana ainda se chamava Nossa Senhora das Neves, Ariano Vilar Suassuna era filho de João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna, então presidente (governador) de seu estado natal, que exerceu seu mandato entre os anos de 1924 e 1928. Ariano inclusive nasceu no palácio do governo paraibano.

O velho contador de histórias do sertão tinha apenas três anos quando um fato trágico marcou sua infância. No desenrolar da Revolução de 1930, um pistoleiro de aluguel assassinou seu pai com um tiro pelas costas, numa rua do Rio de Janeiro. O assassinato foi motivado por boatos que apontavam o patriarca da família Suassuna como mandante da morte de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, seu sucessor no governo, que pertencia ao grupo político oposto e serviu de estopim para a deflagração da revolução.

Um ambiente assim, com dívidas de sangue e rivalidade entre famílias, cobrava dos órfãos a vingança. Mas, um dia antes de ser assassinado, João Suassuna deixou uma carta aos nove filhos pedindo que eles não se tornassem assassinos por sua causa. Ariano Suassuna obedeceu. A mãe também ajudou, ao dizer que o pistoleiro responsável pelo crime já havia morrido (era mentira).

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Com a tragédia, a família mudou-se para a pequena cidade de Taperoá, no interior da Paraíba, onde Ariano morou de 1933 a 1937. Ele herdou a biblioteca do pai e ali encontrou livros importantes para sua formação. Um dos mais significativos foi “Os sertões”, de Euclides da Cunha. A obra lhe apresentou um dos personagens que mais marcaram sua vida: Antônio Conselheiro, profeta e líder de Canudos. Foi também em Taperoá que Ariano Suassuna assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, cujo caráter de “improvisação” seria uma das marcas registradas também da sua produção teatral.

Em 1942 foi para Recife concluir o ensino básico. Em 1946 fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco, junto com o amigo Hermilo Borba Filho. No ano seguinte escreveu e encenou sua primeira peça teatral: “Uma mulher vestida de sol”. Em 1948, sua peça Cantam as harpas de Sião (ou O desertor de Princesa) foi montada pelo Teatro do Estudante de Pernambuco. Seguiram-se Auto de João da Cruz, de 1950, que recebeu o Prêmio Martins Pena. Neste mesmo ano Ariano formou-se em Direito e advogou até 1956, quando se tornou professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco (onde se aposentou em 1994). 

Em 1955 escreveu “Auto da Compadecida”, que conta as aventuras de dois amigos, Chicó e João Grilo, no Nordeste brasileiro. A peça o projetou em todo o país. Em 1962, o crítico teatral Sábato Magaldi diria que a peça é “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”. Sua obra mais conhecida já foi montada exaustivamente por grupos teatrais de todo o país e duas vezes para o cinema, em 1969 e 2000.

Ariano Suassuna continuou criando, escrevendo peças de teatro, romances e poesias, entre estes podemos listar “O Santo e a Porca – Casamento Suspeitoso”, de 1957, “A Pena e a Lei”, de 1959, “A Farsa da Boa Preguiça”, de 1960, e “A Caseira e a Catarina”, de 1961. Outra obra fundamental foi “Romance d’a pedra do reino e o príncipe do sangue vai-e-volta”,  é quando o escritor avança em relação à literatura regionalista dos anos 1930, representada por João Guimarães Rosa e José Lins do Rego. Mais tarde, Ariano Suassuna diria que “A pedra do reino” era de certa forma, uma tentativa de trazer seu pai de volta à vida.

Para transformar o local em simbólico e universal, Ariano aliava os valores mais arraigados de sua região a seu imenso arcabouço erudito e teórico. Com uma escrita que une elementos do Simbolismo, do Barroco e da literatura de cordel. Esse ficcionista, poeta, dramaturgo e pensador da cultura, transformou o sertão no palco das questões humanas de qualquer lugar do mundo.

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Ele foi o criador do Movimento Armorial, que possuía como projeto central a ideia de gerar uma confluência simultânea de todas as artes populares do Nordeste brasileiro. Lançado oficialmente, no Recife, no dia 18 de outubro de 1970, com a realização de um concerto e uma exposição de artes plásticas realizados no Pátio de São Pedro, no centro da cidade. Surgiu sob a inspiração e direção de Ariano Suassuna, com a colaboração de um grupo de artistas e escritores da região Nordeste do Brasil e o apoio do Departamento de Extensão Cultural da Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários da Universidade Federal de Pernambuco. Teve início no âmbito universitário, mas ganhou apoio oficial da Prefeitura do Recife e da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco. Seu objetivo foi o de valorizar a cultura popular do Nordeste brasileiro, pretendendo realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares da cultura do país.

Segundo Suassuna, sendo “armorial” o conjunto de insígnias, brasões, estandartes e bandeiras de um povo, a heráldica é uma arte popular. Desse modo o nome adotado significou o desejo de ligação com essas heráldicas raízes culturais brasileiras.

A maioria de suas obras foi traduzida para outros idiomas, como francês, alemão, espanhol, inglês e holandês. Em 1989, passou a ocupar a Cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

Ariano Suassuna foi secretário estadual de Cultura no período 1994-1998, durante o governo de Miguel Arraes (1916-2005) e assumiu o mesmo cargo, como secretário especial no primeiro mandato do governo Eduardo Campos (PSB), neto de Arraes, em 2007. Seu foco sempre foi o da valorização da cultura popular, posicionando-se também contra qualquer estrangeirismo da língua portuguesa. Mostrou ao povo brasileiro como ele é inventivo, engraçado, esperto e interessante e provou que não existe nada do lado de lá das fronteiras que possamos invejar.

Foto - Bianca Lima
Foto – Bianca Lima

Carismático e popular, Ariano Suassuna esbanjou simpatia por onde passou. Nos últimos anos apresentava por todo o Brasil suas famosas e concorridas “aulas-espetáculo”, onde ensinou formas de arte para o público e mostrou a riqueza da cultura do país, contando histórias, “causos” e piadas.

Em 2011 foi veemente no apoio ao veto ao patrocínio nas festas juninas das bandas de forró estilizadas, as chamadas “bandas de plástico”, defendido pelo secretário de Cultura do Governo da Paraíba, o cantor Chico César, que defendeu a teses que estes grupos musicais não refletiam a música nordestina. A posição do secretário gerou descontentamento nas prefeituras que promoviam os festejos juninos com o patrocínio do Estado, nos empresários e músicos das bandas de forró estilizado e gerou muita polêmica, mas Ariano esteve ao seu lado.\

Foto - Sergio Enilton
Foto – Sergio Enilton

Há uma realista descrição de Ariano feita por seu amigo, o também dramaturgo Hermilo Borba Filho:

“Magro e alto, de uma coerência extremada, radical em suas opiniões, é preciso vê-lo numa discussão com seus amigos (porque, com seus inimigos, basta ler seus artigos); zombeteiro, argumentador, desnorteante, irreverente. Vive, com a maior convicção, o preceito de Unamuno* de que o artista espalha contradições. É capaz de destruir o argumento mais sério com uma piada ou sair-se de um problema metafísico dos mais angustiantes numa conversa ligeira. Tem horror aos aparelhos modernos enceradeira, vitrola, televisão, rádio, telefones, considerando-os coisas do demônio. Gostaria de crer em Deus como as crianças crêem, mas crê com angústia, fervor e perguntas. Não vai a reuniões oficiais, coquetéis, espetáculos, mas amanhece o dia num bate-papo ou ouvindo repentistas. Tem pavor de avião e se martiriza com uma alergia que lhe dá comichões no nariz. Seu caráter é ouro de lei, e, embora o negue, esforça-se para amar os inimigos, como manda o evangelho. A arte e religião são por ele encaradas de maneira fundamental.”

*Escritor espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936).

 Fontes – http://oglobo.globo.com/cultura/livros/morre-aos-87-anos-escritor-ariano-suassuna-cavaleiro-do-sertao-13341934

http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Resultados/noticia/2014/07/ariano-suassuna-morre-aos-87-anos.html

http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=696&Itemid=181