O ESTADO POLICIAL – O QUE SIGNIFICA VIVER EM UM?

O que significa viver em um estado policial?

Mais especificamente, o que significava viver num estado administrado pelos agentes e colaboradores do regime nazista?

Para os que ainda possivelmente estejam vivendo em condições de alguma forma semelhante, os sintomas são muito familiares. O ocupante da chefia do governo determina a política a seguir, com pouca ou nenhuma consideração pelos desejos da maioria dos governados. Os seus auxiliares diretos, incumbidos de administrar a política nacional – e providenciar para que seja fielmente observada a arbitrária sucessão de lei e decretos emitidos pela “cúpula”, dos quais a comunidade nem sempre toma conhecimento – são nomeados pelos seus méritos, mas por serem considerados dignos de confiança do governante.

Hitler no juramento da SS no Congresso do Partido do Reich – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Atrás das fileiras da polícia civil oficialmente reconhecida talvez exista um contingente muito maior de polícia política secreta, que atua como o braço forte da nova lei, funcionando como cães de guarda e espiões da equipe dominante. As prisões e certos estabelecimentos penais (como os campos de concentração destinado a reabilitação dos “relapsos”) começam a encher-se daqueles cuja lealdade cuja lealdade ao regime deixe a desejar. Ali, talvez tenham de esperar, sob tensão e sem julgamento, sujeitos a interrogatório constante, levado a efeito com o objetivo de lhe arrancar o que quer que possam saber sobre os que, aos olhos das autoridades, representam a resistência.

A história não termina aí. Num estado policial, nada na comunidade pode ser considerado estável, exceto a manutenção daqueles que, pela força bruta ou através da habilidade maquiavélica, dominam a “nova ordem”.

Num estado policial, independente de status, são potencialmente suspeitas; todas têm, num arquivo secreto, dados que indicam se podem ser consideradas leais ou desleais ao regime. O interrogador de hoje pode ser o prisioneiro de manhã, após uma “revolução palaciana” repentina e inesperada ou alguma mudança na direção de qualquer departamento. Mesmo entre os próprios líderes, alguém pode desaparecer de repente, assumindo-lhe o lugar um desconhecido qualquer do público, mas não dos que “farejam”.

Hitler durante discurso na sessão do Reichstag, em Kroll Opera House, Berlim, 1939 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Para o cidadão comum, a vida num estado policial significa a eliminação das garantias individuais e dos direitos civis. Não há proteção contra as batidas peremptórias à porta, ou contra o terror da prisão súbita e do desaparecimento de qualquer indivíduo, muitas vezes sem deixar a mais leve pista, passando a se considerar inteiramente perdido para parentes e amigos.

O cidadão comum, pressionado pela ansiedade gerada pela insegurança, sua e de sua família, logo aprende a adular o regime e a manter-se distante de complicações; cumpre seus deveres cotidianos, presta o serviço militar, usa orgulhosamente os distintivos prescritos, paga regiamente as taxas exigidas, faz corretamente as saudações certas, e cala sobre o que quer que tenha visto, sobre o que que desconfie tenha acontecido.

À medida que a economia do país se agrava, por causa da guerra ou dos preparativos para realizá-la, ele aprende a passar sem os bens de consumo que os privilegiados – este tipo de governo sempre os possuí – ainda possam desfrutar. Ele liga seu rádio, sintonizado apenas no serviço nacional, sabendo embora que todo veículo de comunicação é estritamente controlado, censurado e ideologicamente doutrinado. Por momentos, é possível que ele medite sobre a proibição de se ouvir transmissões estrangeiras. E se, em sua frustração, resmunga um pouco, ele se refere aos líderes usando apenas iniciais dos seus nomes, mas bem baixinho.    

Hitler e Joseph Goebbels no Teatro Charlottenberg, Berlim, 1939 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

O cidadão comum aprendeu a desconfiar dos estranhos, dos amigos, até mesmo dos membros da família, especialmente os da geração mais jovem, posto que, estes, já foram advertidos de que devem observar os pais. Acima de tudo ele toma o cuidado de não deixar escapar nada que possa ser considerado politicamente suspeito, e evita adquirir qualquer conhecimento que possa ser considerado perigoso.

O cidadão comum não sabe de nada. Não sabe quem foi preso ou o que possam estar sofrendo nos campos de concentração. Esse tipo de coisa desagradável só interessa às autoridades. Não obstante, ele se torna o recipiente constante, ainda que relutante, de boatos; quando se sabe que todas as formas de notícias e informações são controladas e adulteradas, é inevitável que os ventos da curiosidade sejam movimentados pelo sussurrar de mexericos, insinuações e advertências apenas murmuradas.  

O regime nazista criou uma forma excepcionalmente feros de estado policial, diretamente originária de um governante excepcional e feroz que, como todos sabem, subiu ao poder na Alemanha em janeiro de 1933, depois de nomeado Chanceler. Pouco mais de doze anos antes, Hitler não era mais que um barato agitador de rua, e apenas nove anos antes passara um período na prisão, por ter realizado um fracassado levante armado em Munique. Uma vez feito Chanceler, ele se entrincheirou com tal rapidez, que alguns meses depois estava governando a Alemanha virtualmente por decreto pessoal.

A Liga das Meninas Alemãs dança no Congresso do Partido do Reich em Nuremberg, 1938 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Durante seu reinado de terror, que durou apenas doze anos, Hitler ampliou grandemente as fronteiras do Reich alemão, “unindo” aqueles a quem considerava pertencentes à raça alemã comum, rearmando a nação e levando-a à guerra no espaço de seis anos.

Durante algum tempo, pela ocupação, ele se fez senhor de um território que se estendia do Círculo Ártico às praias do Mediterrâneo e dos arredores de Moscou à costa ocidental da França e dos Países Baixos. Por volta de 1942, Noruega, Dinamarca, Holanda, Bélgica, França, Luxemburgo, Iugoslávia, Grécia, Tchecoslováquia, Polonia e considerável área da Rússia e da Ucrânia estrebuchavam debaixo do tacão nazista. Três anos mais tarde, ele estaria se escondendo sob as ruínas de Berlim, senhor de apenas alguns metros de terreno.

Pessoas saúdam e encorajam plano de Hitler para unir Alemanha e Áustria, 1938 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Em maio de 1945 o mundo livre sacudiu fora o pesadelo terrível. O tirano fugiu pela porta do suicídio à prestação de contas em Nuremberg. A intervenção de Hitler na história mundial custou a vida a mais de 50 milhões de pessoas: homens, mulheres e crianças que morreram em batalhas, em bombardeios, assassinatos em massa, fome, extermínio e maus tratos nos campos de concentração e nas prisões.  

Não existe paralelo, na história da humanidade, com o que Hitler deixou registrado. E tudo isso foi feito mediante a criação de um estado policial altamente organizado e implacável. Atras do poderio evidente do exército alemão e da polícia civil estavam as forças, muito menos evidentes e em grande parte “secretas”, das SS e dos seus colegas das Gestapo, a polícia política. Embora elementos do exército que serviram ao regime de Hitler fossem culpados de atos criminosos que ultrapassaram em muito os horrores “aceitos” da guerra total e “legal”, os crimes cometidos contra a humanidade, em virtude dos quais o nome de Hitler deve ser sempre execrado, foram perpetrados por inspiração sua, por essas extraordinárias forças secretas.

Ministro da Propaganda do Reich, Goebbels discursa em Lustgarten, Berlim, 1938 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Começando apenas com um punhado de homens, treinados para, através da violência, proteger os oradores nas reuniões nazistas, as SS conquistaram um poder incomensurável sob a liderança tutelar de Heinrich Himmler, um nacionalista obsessivo que ascendeu gradativamente a hierarquia nazista por meio da intriga de bastidores. Enquanto outros, notadamente Herman Göring e Joseph Goebbels, empregavam seus talentos na ribalta. Himmler se afirmou por intermédio das SS, que acabaram por transformá-lo no mais formidável dos sub-líderes, no mais íntimo colaborador do Führer.

Ao contrário dos outros, Himmler não revelava qualquer traço de cinismo em suas atitudes. Ele sabia precisamente no que acreditava – na superioridade racial dos nórdicos, dos povos “arianos” e no estabelecimento de um sistema imperial mundial sob o domínio do governo de raça superior.

Hitler saúda as tropas da Legião Condor – que apoiou os nacionalistas espanhóis durante a Guerra Civil Espanhola – após voltarem para a Alemanha em 1939 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Assim é que foi a Himmler, e a certos membros dignos de confiança  dentro das SS, que Hitler finalmente confiou a operação altamente secreta da “solução final”, o extermínio em massa dos judeus europeus, o crime supremo do genocídio que atingiu seu ponto culminante em meados da guerra e nos últimos anos desta. Foram as SS e, em particular, o assessor de Himmler, Reinhard Tristan Eugen Heydrich, que orientaram o plano de genocídio que levou a destruição, num período de três anos, de mais de cinco milhões de judeus e praticamente de igual número de outros povos “indesejados” da Europa – eslavos, ciganos e aqueles que, por uma razão ou outra, traziam acessas dentro de si as chamas da resistência.   

Portanto, as SS passaram a ocupar um lugar muito especial na conspiração nazista para a conquista do poder. Aos molhos do público, pouco antes da guerra, as tropas das SS ostentavam certo quê de elite em seus imaculados uniformes pretos com acessórios prateados. Segundo se dizia, elas demonstravam a glória da pureza “racial”, tendo a seu crédito dois séculos inteiros de linhagem racial pura. Advogados e intelectuais, inclusive alguns aristocratas e até mesmo bispos, fizeram o que puderam para serem admitidos nas fileiras das SS, orgulhosos do seu status de oficial e do uniforme que o confirmava. Eles aceitavam de bom grado, ou com humor cínico, o falso ritual “ariano” e o cerimonial folclórico que Himmler inventara – como se fossem os Cavaleiros da Távola Redonda que se estivesse reunindo, e não uma organização cuja função básica seria, no fim, assassinar.

Certos detalhes dessa história extraordinariamente sombria lembram uma espécie de comédia de humor negro – por exemplo, Himmler competindo zelosamente por um distintivo de atletismo das SS, com seus ajudantes elevando sub-repticiamente seu desempenho medíocre; a preocupação exagerada com a “pureza” racial quando um dos homens da SS, queria casar-se, ou os cerimoniais pagãos inventados para festejar aniversários nazistas ou para substituir as cerimônias cristãs do matrimônio, nascimento e morte.

Os mais cínicos apenas riam de Himmler às suas costas, até que chegou o dia que tiveram de ouvir um dos seus discursos sombrios pronunciados em reuniões privadas dos oficiais das SS. Neste discurso, Himmler delineou claramente a necessidade de exterminar os judeus e de fazer que seus prisioneiros trabalhassem até morrer para apoiar a vitória alemã. A maioria deles ouvia essas coisas com fria indiferença, porque não era provável que eles próprios se envolvessem pessoalmente no derramamento de sangue das vítimas. Afinal de contas, isso cabia à soldadesca das SS, aos assassinos treinados, aos homens recrutados para deveres na linha de frente, nos chamados “Grupos de Ação” (Einsatzgruppen), ou aos pelotões de trabalho reunidos para levar a cabo tarefas corriqueiras de extermínio criadas pelos técnicos de genocídio.

Congresso do Partido do Reich, Nuremberg, 1938. – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

O absurdo, o trivial, o macabro, o terrível – tudo isso reunido forma a história das SS, que impuseram o máximo de sofrimento a milhões de pessoas inocentes. A sorridente personalidade importante que, numa recepção do partido, se refina em seu vistoso uniforme preto, enquanto saboreia bebidas compradas no mercado negro, é o mesmo sinistro agente das SS que arranca tranquilamente, com uma bofetada ou um chute, um grito de dor de uma indefesa mulher. Ouvem-se aplausos polidos a Himmler enquanto este ajeita seu “pince-nez” antes de iniciar uma conferência; no mesmo instante, dentro de uma sala escondida, Adolf Eichmann planeja a logística do transporte dos próximos 50 mil judeus a serem exterminados. O notório Joseph Mengele trajava o mesmo uniforme negro na rampa de chegada de Auschwitz, ditando, com um estalar do seu chicote de montaria, quem devia ser morto imediatamente e quem deveria sofrer mais algumas semanas de existência como escravo das SS.

Tudo isso, e ainda mais, fazia parte das atribuições da SS tão logo os nazistas assumiram o poder. E atrás deles, trabalhando em colaboração estreita com as SS estavam os homens e as mulheres da Gestapo, policiais em uniforme ou em trajes civis, encarregados da função especial de manter a segurança política na Alemanha e, mais tarde, nos países por ela ocupados. Estes eram os homens que vinham procurar a vítima na calada da noite, com os pneus de seus carros cantando no calçamento e fazendo-os parar bruscamente à porta da vítima, arrancando-a, meio desperta e aterrorizada, do seio da família. Eram os mestres do interrogatório brutal, com ou sem máquinas medievais de tortura; eram eles que conheciam, pela longa experiência que tinham do problema, os limites mais sutis da resistência humana e os meios pelos quais se podia obter com mais eficiência qualquer informação desejada, verdadeira ou falsa.

Berlim é acendida à meia-noite para celebrar o 50° aniversário de Adolf Hitler em 1939 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Melhor ainda que as SS, a Gestapo dominava a técnica da intimidação que, inevitavelmente, faz parte da direção de um estado policial. A tese da intimidação pesa psicologicamente no condicionamento dos que tem de ser perseguidos, atormentados e punidos. Outro fator é a simples incerteza: quando uma pessoa não sabe o que lhe pode acontecer da noite para o dia, isto durante meses ou mesmo anos, desgasta-se gradativamente, e até mesmo os mais resistentes acabam por quebrar-se interiormente.

A rede administrativa de apoio a essa forma arbitrária de poder cresceu em grande parte às ocultas do povo alemão. Este só via as manifestações externas – a imensa quantidade de decretos, leis e regulamentos publicados, que finalmente o cercearam por completo. Nos bastidores, às mesas dos ministérios e dos escritórios do partido, também ocorrera a conspiração dos burocratas, criada por homens com vocação para o trabalho de fechar as brechas da liberdade civil e dos direitos de protesto do cidadão. De um modo geral, o povo alemão aceitou tudo isso humildemente, como um dar de ombros fatalista; ele viu tudo isso como um fato consumado, que se desenvolveu gradativamente e ao qual era perigoso demais resistir.

Multidão aguarda início da cerimônia da pedra angular em Fallersleben, 1938 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Eram essas as condições existentes na Alemanha e, eventualmente, nos territórios ocupados da Europa, condições impostas em 1933 e que duraram até que a derrota final de Hitler trouxe a libertação para os que conseguiram sobreviver. Cerca de dois terços da Europa ficaram sujeitos a essa forma organizada de tirania.

E isso ocorreu em pleno Século XX e, o pior, tudo indica que pode voltar a acontecer em alguns países do mundo, onde suas classes dirigentes e seu povo pouco dão valor a História.   

Texto – Manvell, A. S. – SS e Gestapo – A Caveira Sinistra, 1ª Edição, Rio de Janeiro-RJ, Editora Rennes, 1974, páginas 8 a 11.

O VERDADEIRO AMON GOETH – O CRUEL E SÁDICO COMANDANTE NAZISTA DO TERCEIRO REICH

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Amon Leopold Goeth em uniforme com insígnias de SS-Untersturmführer, equivalente a de segundo tenente – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Fontes – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

https://www.scrapbookpages.com/Poland/Plaszow/Plaszow03A.html

Nascido em Viena, Amon Leopold Goeth (ou Göth) foi um oficial austríaco nazista e comandante do campo de concentração de Płaszów, na região da Cracóvia, na Polônia ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial e retratado pelo ator Ralph Fiennes no filme “A Lista de Schindler”.

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Goeth juntou-se a um grupo de jovens nazistas aos dezessete anos, mudou-se para um grupo paramilitar nacionalista aos dezenove anos e, em 1930, quando ele tinha vinte e dois anos, se juntou ao então partido nazista austríaco que fora proscrito. Ele foi designado n° 510 964, e no mesmo ano ingressou na SS

Amon Goeth fugiu para a Alemanha quando foi perseguido por autoridades austríacas por crimes envolvendo explosivos. Seus oficiais superiores admiram sua devoção, deram-lhe avaliações pessoais brilhantes e transferiram-no para a SS. Um filho nasceu em 1939 e morreu de causas inexplicadas menos de um ano depois. Amon Goeth era um oficial modelo e sua recompensa foi uma publicação, em agosto de 1942, com Aktion Reinhard, a operação da SS para liquidar mais de dois milhões de judeus poloneses.

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Comandante Amon Goeth segurando um rifle militar – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Em fevereiro de 1943, Goeth recebeu uma promoção e tornou-se o terceiro oficial da SS a ocupar o cargo de comandante do campo de trabalho de Plaszow. Enquanto ele era o comandante de Plaszow, Goeth foi designado para supervisionar a liquidação do gueto Podgorze em 13 de março de 1943, e mais tarde o campo de trabalho em Szebnie. A liquidação do gueto de Podgorze em Cracóvia é exibida no filme, a “A Lista de Schindler”. As cenas do gueto no filme foram filmadas em Kazimierz, outro gueto em Cracóvia.

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Amon cavalgando no Campo de Plaszow – Fonte –  https://www.scrapbookpages.com/Poland/Plaszow/Plaszow03A.html

Em 3 de setembro de 1943, Goeth supervisionou a liquidação do gueto Tarnow, uma cidade polonesa próximo a Cracóvia. Durante a liquidação desses guetos, Goeth aproveitou a situação roubando algumas das propriedades que foram confiscadas dos judeus, incluindo peles e móveis. Ele guardou alguma dessas propriedades em um apartamento em Viena, onde sua esposa morava com seus dois filhos.

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Amon Leopold Goeth foi o comandante de campo do campo de concentração de Plaszow desde fevereiro de 1943 até setembro de 1944. Na fotografia, ele pode ser visto de pé em sua varanda, preparando-se para atirar prisioneiros – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Em Plaszow, Amon Goeth passava suas manhãs usando seu rifle de alta potência e escopo para atirar em crianças que jogavam no campo. Rena Finder, um dos judeus de Schindler com 14 anos de idade, mais tarde se lembrou de Goeth como “… o homem mais vicioso e sádico …”. Outro Schindler-judeu, Poldek Pfefferberg, lembrou: “Quando você viu Goeth, você viu a morte”.

Um sobrevivente, Arthur Kuhnreich, disse mais tarde sobre Amon Goeth em suas Memórias do Holocausto: “Eu vi Goeth colocar seu cão em um prisioneiro judeu. O cão rasgou a vítima. Quando ele não se moveu mais, Goeth disparou contra ele”.

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Amon foi designado para o SS-Totenkopfverbände (unidade “Deaths-head”, serviço de campo de concentração) – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Seus dois cães, Rolf e Ralf, foram treinados para destruir os presos até a morte. Ele disparou contra as pessoas da janela do escritório se eles pareciam estar se movendo muito devagar ou descansando no quintal. Ele matou com um tiro na cabeça um cozinheiro judeu porque a sopa estava muito quente.

Para a menor infração das regras, ele dava um golpe sobre o rosto do infeliz impotente, e observaria com satisfação como a bochecha de sua vítima se inchava e ficava roxa, como os dentes caíam e os olhos se enchiam de lágrimas.

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A casa original de Goeth no campo de Plaszow nos dias atuais. Da sacada ele abria fogo contra seus prisioneiros. Puro sadismo – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Qualquer um que estava sendo chicoteado por ele era forçado a contar em voz alta, cada golpe do chicote e, se cometesse um erro, era forçado a começar a contar novamente. Durante os interrogatórios, que foram conduzidos em seu escritório, ele soltava seu cachorro no acusado, que estava amarrado pelas pernas em um gancho colocado no teto.

No caso de uma fuga do campo e posterior recaptura, ele ordenava que todo o grupo de companheiros do barracão que servia de alojamento para o fugitivo formarem uma fila e ordenava que o fujão contasse até dez, então atirava na cabeça dessa décima pessoa e depois urinava sobre ela. Uma vez ele pegou um menino doente de diarreia e não conseguiu se conter. Forçou-o a comer todos os excrementos e depois atirou nele “.

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Fotos do prontuário de Amon, tomadas em 8 de agosto de 1945. Ele tinha perdido peso porque sofria de diabetes – Fonte – https://www.scrapbookpages.com/Poland/Plaszow/Plaszow03A.html

Algumas fontes apontam que um total de 35 mil prisioneiros passaram pelo campo de Plaszow durante os dois anos e meio de sua operação. Mas a Comissão Principal para a Investigação de Crimes Nazistas na Polônia estimou que 150 mil prisioneiros estiveram em Plaszow e 80 mil deles morreram como resultado de execuções em massa ou epidemias. 

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Amon Goeth (o mais alto) seguindo para o tribunal onde seria condenado à morte – Fonte – https://www.scrapbookpages.com/Poland/Plaszow/Plaszow03A.html

Após a Segunda Guerra Mundial, o exército norte-americano entregou Amon Goeth para o governo polonês para ser processado como criminoso de guerra. Ele foi levado perante o Supremo Tribunal Nacional da Polônia em Cracóvia. Seu julgamento ocorreu entre 27 de agosto de 1946 e 5 de setembro de 1946. Goeth foi encarregado de ser membro do partido nazista e membro do Waffen-SS, o exército de elite de Hitler, ambos designados como organizações criminosas pelo Aliados após a guerra. Seus crimes incluíram as acusações de que ele havia participado das atividades dessas duas organizações criminosas. 

Durante seu julgamento, Goeth mostrou indiferença provocativa. Ele aceitou a responsabilidade pelo que aconteceu em Plaszow. Ele havia recebido autoridade e permissão para fazer tudo o que tinha feito, disse ele, e estava apenas realizando ordens e instruções recebidas de seus superiores. Ele também afirmou que as penalidades que ele estava infligindo aos presos, incluindo matá-los, estavam dentro de sua jurisdição disciplinar como comandante do campo e estavam de acordo com a regulamentação alemã vigente.

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Amon Goeth durante seu julgamento, 1946 – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Goeth foi considerado culpado e condenado pelos assassinatos de dezenas de milhares de pessoas. Ele pediu piedade ao presidente do Conselho Nacional do Estado. Depois que o presidente decidiu não se aproveitar de sua prerrogativa de perdão, a sentença foi realizada.

Amon Goeth foi enforcado por seus crimes em 13 de setembro de 1946, não muito longe de seu campo. E mesmo que ele esteja sendo enforcado, Amon Goeth ainda saúda seu Fuhrer em um último ato.

Seu nome ficará sempre associado ao desprezo total pela vida humana.

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Ruth Irene Kalder, a “Majola”, a namorada de Goeth, segurando seu cachorro, Rolf – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Um detalhe final!

Ruth Irene Kalder, a amante de Goeth, permaneceu leal a ele e manteve uma fotografia de Amon na sua mesa de cabeceira até o dia de sua morte. Em uma entrevista a um jornalista britânico em 1983, ela descreveu Goeth como um homem encantador com modos impecáveis ​​de mesa. Ela disse que nunca se arrependeu, por um segundo, de seu relacionamento com Amon, que começou quando tinha 25 anos. 

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Amor entre nazistas – Goeth e sua amante, Majola. Ela conheceu Goeth em 1942, ou no início de 1943, quando trabalhou como secretária na fábrica de esmaltes de Oskar Schindler, em Cracóvia. Ela logo mudou-se para viver com Goeth e os dois tiveram um caso e uma filha chamada Monika. Ela incorporou o sobrenome Goeth logo após de seu companheiro e sempre defendeu a sua terrível memória – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Kalder cometeu suicídio no dia seguinte à sua entrevista em 1983. Alegadamente, ela ficou perturbada quando soube que o documentário de 82 minutos, que a jornalista estava fazendo, não era apenas sobre Oskar Schindler, mas incluiria um retrato negativo de seu ex-amante Amon Goeth, que também era o pai de sua criança amorosa, Monika, nascida em novembro de 1945.

Ruth Irene Kalder era uma mulher jovem e linda com uma figura esbelta, uma ex-atriz e uma secretária experiente; Por que ela escolheu viver com um monstro como Amon Goeth continua a ser um mistério até hoje.

O MITO SOBRE A ORIGEM DE SOBRENOMES DE JUDEUS CONVERTIDOS

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No desenho ‘Caminhada dos prisioneiros para o auto de fé’, de A. Shoonebeck, um retrato da perseguição aos judeus – Reprodução

Nomes de plantas e árvores, como Pinheiro e Carvalho, não pertenceram só a cristãos-novos

POR DANIELA KRESCH, ESPECIAL PARA O GLOBO

Na Bahia do século XVII, o professor de um colégio jesuíta perguntou o sobrenome de um de seus alunos. A resposta foi inusitada: “Qual deles, o de dentro ou o de fora”? A história, contada pela historiadora da USP Anita Novinsky em sua dissertação “O mito dos sobrenomes marranos”, exemplifica o dilema dos cristãos-novos brasileiros, nos primeiros séculos do país. Expor ou não o sobrenome da família fora de casa, sob risco de ser identificado pela Inquisição e acusado do crime inafiançável de “judaísmo”? O temor e a delicadeza do tema fizeram com que a genealogia dos descendentes de judeus portugueses no Brasil fosse envolta, por séculos, numa bruma de mitos e ignorância. Nos últimos anos, no entanto, pesquisadores têm revelado surpresas sobre os sobrenomes marranos no Brasil.

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Fonte – http://blogs.yahoo.co.jp/

No final do século XV, os judeus compunham entre 10% e 15% da população de Portugal — somando os cerca de 50 mil locais e os quase 120 mil que cruzaram a fronteira em 1492, quando os Reis Católicos Fernando e Isabela expulsaram toda a população judaica da Espanha. Nos primeiros dois séculos depois do Descobrimento, o Brasil recebeu boa parte dessa população, os chamados cristãos-novos (ou “marranos”, pelo apelido pejorativo da época), convertidos ao cristianismo à força, por decreto de Dom Manuel I, em 1497. Historiadores concordam que um em cada três portugueses que imigraram para a colônia era cristão-novo.

Até recentemente, acreditava-se que esses judeus conversos abandonaram seus sobrenomes “infiéis” para adotar novos “inventados” baseados exclusivamente em nomes de plantas, árvores, frutas, animais e acidentes geográficos. Assim, seria fácil. Todos os portugueses com os sobrenomes Pinheiro, Carvalho, Pereira, Raposo, Serra, Monte ou Rios, entre outros, que imigraram para o Brasil após 1500 devem ter sido marranos, certo? Errado.

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Soldados romanos carregando os despojos das guerras judaicas. A destruição de Jerusalém aconteceu em 70 D.C., quando as legiões romanas saquearam Jerusalém e retornaram a Roma com os despojos, daquela que era considerada a cidade mais rica no Império Romano – Fonte – http://www.bible-history.com/archaeology/rome/arch-titus-menorah-1.html.

— Em minhas investigações, não encontrei prova documental de que nomes de árvores, animais, plantas ou acidentes geográficos tenham pertencido apenas ou quase sempre a marranos — afirma Anita Novisnky, uma das maiores autoridades no assunto.

O que causa confusão, segundo Novinsky, é o fato de que os sobrenomes adotados pelos cristãos-novos eram os mesmos usados por cristãos-velhos, alguns por nostalgia, outros por medo de perseguições. Afinal, no Brasil, os marranos foram perseguidos por 285 anos pela Inquisição portuguesa. Quem demonstrasse apego à antiga religião poderia ser condenado à morte na fogueira dos “autos de fé”, as cerimônias de penitência aos infiéis.

Como identificar, então, quem era marrano? A mais importante pista está justamente nos arquivos da Inquisição. Aproximadamente 40 mil julgamentos resistiram ao tempo, 95% deles referentes a crimes de judaísmo. Anita Novinsky encontrou exatos 1.819 sobrenomes de cristãos-novos detidos, só no século XVIII, no chamado “Livro dos Culpados”. Os sobrenomes mais comuns dos detidos eram Rodrigues (citado 137 vezes), Nunes (120), Henriques (68), Mendes (66), Correia (51), Lopes (51), Costa, (49), Cardoso (48), Silva (47) e Fonseca (33).

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Primeira sinagoga das Américas, em Recife – Fonte – http://culturahebraica.blogspot.com.br/2013/01/amazonia-terra-prometida-historia-dos.html

— A Inquisição anotava todos os nomes dos detidos cuidadosamente, como se fosse a Gestapo nazista e mantinha uma relação de bens de cristãos-novos para confiscar — diz Anita.

Isso não quer dizer, no entanto, que todas as famílias com esses sobrenomes eram marranas. Nas investigações, sob tortura, os detidos diziam tudo o que os inquisidores queriam ouvir, acusando vizinhos, empregados e parentes “inocentes”. Fora isso, os sobrenomes eram realmente comuns.

— Não havia nenhum sobrenome exclusivo de cristãos-novos. Até porque eles mudavam sempre que podiam, além de adotarem nomes compostos. Muitos irmãos e esposos adotavam até mesmo sobrenomes diferentes, só para confundir — explica o historiador israelense Avi Gross.

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Judaísmo no Âmbito Familiar. Nem assim havia total segurança – Fonte – http://www.coisasjudaicas.com/2011/11/cripto-judaismo.html

O historiador paulistano Paulo Valadares, autor do “Dicionário Sefaradi de Sobrenomes”, no qual destaca 14 mil sobrenomes oriundos de judeus da Península Ibérica, aponta para mais uma complicação: o da mestiçagem brasileira. A grande maioria dos cristãos-novos se misturou depois de uma ou duas gerações com outras culturas e raças.

— Poucos conseguiram manter as tradições judaicas por muito tempo. Algumas famílias tentaram, se isolando em algumas áreas do país, principalmente no Sertão nordestino, e praticando a endogamia (casamentos dentro da família).

Para os aficionados em genealogia, um novo site na internet, o “Name your roots” (que tem versão em português), pode ajudar a descobrir as raízes. No portal, criado há três meses por dois religiosos israelenses, é possível obter explicações e bibliografia gratuitamente sobre sobrenomes marranos comuns no Brasil.

Rua dos Judeus - Mercado de Escravos - 1641
Rua dos Judeus e seu mercado de escravos. Quadro Rua dos Judeus – Slavenmarkt, de Zacharias Wagener – 1641 – Fonte – http://bairrodorecife.blogspot.com.br/2014/02/a-rua-do-bode-dos-judeus-da-cruz-e-do.html

Mas Paulo Valadares alerta que é preciso ir além: identificar se há antepassados portugueses que chegaram ao Brasil nos séculos XVI ou XVII ou se foram citados nos anais da Inquisição até o século XVIII, se a família se estabeleceu em alguma região específica e se guarda tradições “estranhas”. O documentário “A estrela oculta do Sertão”, de Elaine Eiger e Luize Valente, traz exemplos de algumas dessas tradições, que ainda sobrevivem no Nordeste: olhar a primeira estrela no céu, não comer certos alimentos como carne de porco, não misturar carne com leite, vestir a melhor roupa na sexta-feira, enterrar corpos em “terra limpa” (envolto apenas numa mortalha), rezar numa língua estranha e colocar pedras em túmulos.

— Depois de conviver com comunidades do interior do país, percebi como os descendentes de marranos praticam tradições judaicas no dia a dia — conta Luize , que lança, em agosto, o romance “O segredo do oratório” (Record), contando a saga de uma família de cristãos-novos no Brasil.

O médico paraibano Luciano Canuto de Oliveira, que voltou ao judaísmo depois de descobrir suas origens marranas, define sua identidade de modo parecido com a resposta do aluno do colégio jesuíta, há quatro séculos: “Ser marrano é ser judeu por dentro e católico por fora”.

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UM ALGOZ BRASILEIRO EM AUSCHWITZ

O carioca Perry (ou Peri) Broad e sua farda da SS
O carioca Pery (ou Perí) Broad e sua farda da SS

Nascido em 1921, era natural do Rio de Janeiro, filho de pai brasileiro e mãe alemã. Seguiu cedo para o país natal de sua genitora, onde foi voluntário da terrível SS nazista e participou da administração do infame campo de concentração de Auschwitz.

Autor – Rostand Medeiros

Estamos falando de Pery (ou Perí) Broad, nascido 25 de abril de 1921 no Rio de Janeiro, sua mãe era a alemã Joanna Mary Broad, naturalizada brasileira em março de 1922 e filha de um industrial alemão de Dusseldorf e seu pai era o comerciante brasileiro Napoleão Goulart Broad, representante no Brasil da empresa alemã A. Lohmann, de Hamburgo, e proprietário da firma importação e exportação Broad & Cia.

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Localizada na antiga Rua São Pedro, nº 39, Centro do Rio, esta firma era conduzida por Napoleão em sociedade com o jornalista Ivo Arruda. [1]

Logo, após completar cinco anos de idade, a criança Broad ficou residindo com a sua mãe na Alemanha. Ele passou sua juventude na pequena comunidade de Freiburg im Breisgau e mais tarde em Berlim. Entre os anos de 1931 e 36, foi membro da Juventude Hitlerista, aonde chegou a ser agraciado com uma insígnia de ouro desta organização. Continuou seus estudos na Escola Técnica de Berlim até dezembro 1941.

Detalhe da página 2, do suplemento do Diário Oficial da União, do dia 1 de junho de 1939, onde na coluna da esquerda, no 18º nome cotando do alto da coluna para baixo, vemos o nome de “Perí, filho de Napoleão Goulart Aroud (está com a grafia original errada) e Mary Broad”. Esta era a lista de convocados da classe de 1921, para o Serviço Militar nas Forças Armadas do Brasil. Mas nesta época Perí, ou Perry Broad, já estava a anos na Alemanha e participando da Juventude Hitlerista - Fonte - Coleção do autor.
Detalhe da página 2, do suplemento do Diário Oficial da União, do dia 1 de junho de 1939, onde na coluna da esquerda, no 18º nome cotando do alto da coluna para baixo, vemos o nome de “Perí, filho de Napoleão Goulart Aroud (está com a grafia original errada) e Mary Broad”. Esta era a lista de convocados da classe de 1921, para o Serviço Militar nas Forças Armadas do Brasil. Mas nesta época Perí, ou Pery Broad, já estava a anos na Alemanha e participando da Juventude Hitlerista – Coleção do autor.

Mesmo sendo tecnicamente um estrangeiro, Broad entrou em 1942 nas famigeradas tropas especiais Waffen SS, onde passou por um rápido período de treinamento. Naquele mesmo ano seu batalhão foi enviado para frente de combate, Mas devido a sua forte miopia, ele foi transferido para outras atividades.

Logo chega uma ordem para seguir a um local chamado Auschwitz.

Vivendo e Fazendo Parte do Inferno

Em junho de 1942 Broad está neste campo de extermínio, lembrado pela humanidade como um verdadeiro moedor de carne humana.

O Untersturmführer Maximilian Grabner foi preso pelos Aliados em 1945 e entregue aos poloneses em 1947. Foi considerado culpado das acusações de assassinato e crimes contra a humanidade. Foi condenado à morte e enforcado no dia 28 de janeiro de 1948 - Fonte - www.actionsoldier.it
O Untersturmführer Maximilian Grabner foi preso pelos Aliados em 1945 e entregue aos poloneses em 1947. Foi considerado culpado das acusações de assassinato e crimes contra a humanidade. Foi condenado à morte e enforcado no dia 28 de janeiro de 1948 – Fonte – http://www.actionsoldier.it

Inicialmente assumiu a função de guarda, mas logo passou a trabalhar no “Politische Abteilung”, ou Departamento Político do campo, cujo comandante da seção era o Untersturmführer Maximilian Grabner[2]. Este era um austríaco que logo ganhou a reputação de ser uma das pessoas mais temidas em Auschwitz.

Como chefe da Gestapo no local, Grabner foi responsável pela luta contra o valente movimento de resistência que existia no interior do campo, atuou evitando fugas e trabalhou para evitar todo e qualquer contato dos prisioneiros com o mundo exterior. Estas tarefas foram realizadas mediante crueldades terríveis. Muitos dos prisioneiros, após sumários interrogatórios, foram enviados diretamente para o pátio interno entre os blocos 10 e 11 e fuzilados. Sua equipe, entre eles Wilhelm Boger, realizou os chamados “interrogatórios afiados”, durante os quais as vítimas foram sistematicamente torturadas. O Bloco 11 era o próprio império de Grabner naquele inferno. Já em relação ao teuto-brasileiro Pery Broad, sabe-se que, permaneceu em serviço ativo em Auschwitz.[3]

Nesta cena de uma aquarela de Wladyslaw Siwek, um homem está sendo interrogado no Bloco 11, usado para julgar os processos contra prisioneiros. O homem retratado sentado, com o braço na cadeira, é o Untersturmführer Maximilian Grabner, Diretor do Departamento Político. A quem o teuto-brasileiro Perry Broad estava subordinado. Quase todos os que passavam por este interrogatório foram logo levados para uma sala de espera e, em seguida, para o pátio do Bloco 11. Ali eles eram fuzilados contra a parede da morte, normalmente com um tiro na parte de trás da cabeça ou no pescoço. As pessoas às vezes eram executadas por infrações menores, como roubar pão, ou roupa - Fonte - tejiendoelmundo.wordpress.com
Nesta cena de uma aquarela de Wladyslaw Siwek, um homem está sendo interrogado no Bloco 11, usado para julgar os processos contra prisioneiros. O homem retratado sentado, com o braço na cadeira, é o Untersturmführer Maximilian Grabner, Diretor do Departamento Político. A quem o teuto-brasileiro Pery Broad estava subordinado. Quase todos os que passavam por este interrogatório foram logo levados para uma sala de espera e, em seguida, para o pátio do Bloco 11. Ali eles eram fuzilados contra a parede da morte, normalmente com um tiro na parte de trás da cabeça ou no pescoço. As pessoas às vezes eram executadas por infrações menores, como roubar pão, ou roupa – Fonte – tejiendoelmundo.wordpress.com

Foi descrito que o Broad participou regularmente de interrogatórios, de execuções da área do Bloco 11, no local que ficou conhecido como “parede negra”. Como um membro do serviço político ele participou de seleção de judeus que chegaram ao campo em vários comboios.

Consta que ele só deixou Auschwitz quando veio a ordem de evacuação em janeiro de 1945. Saiu da área junto com outros membros da SS e em um caminhão com muitas pastas do Departamento Político. Tinha então a patente de Rottenführer[4].

Entrada ferroviária de Auschwitz - Fonte - en.auschwitz.org
Entrada ferroviária de Auschwitz – Fonte – en.auschwitz.org

Em 6 de maio de 1945 ele foi capturado pelos ingleses perto de Ravensbruck.

Contando Tudo

Em 14 de dezembro de 1945, na cidade alemã de Minden, ele começou a escrever um relatório sobre suas experiências em Auschwitz, onde deu um amplo testemunho em relação à matança dos prisioneiros. O seu relato foi tão interessante que passou a ser conhecido como “Relatório Broad”.

Como um informante do exército britânico, Broad foi tido como um traidor pelos nazistas e teve de ser alojado separadamente dos outros prisioneiros alemães. Gostava do tratamento diferenciado.

Chegada de prisioneiros ao campo - Fonte - en.auschwitz.org
Chegada de prisioneiros ao campo – Fonte – en.auschwitz.org

Na verdade este nazista teuto-brasileiro relatou tudo em troca de sua vida. Além de ser um membro do destacamento da SS em Auschwitz, ele ainda era tecnicamente um cidadão brasileiro, que passou a guerra servindo como um voluntário da SS e poderia ter sido executado por traição ao nosso país, uma das nações que ombrearam junto aos exércitos Aliados. Além disso, ele era um excelente candidato a seguir para um campo de trabalho forçado soviético, por um número indeterminado de anos, já que a área de Auschwitz estava na região de dominação do Exército Vermelho.

Os ingleses devem ter utilizados de métodos extremante eficazes, pondo estes argumentos diante de Broad e assim fazê-lo abrir o jogo de maneira clara sobre o inferno que foi Auschwitz.

Perry Broad após a guerra - Fonte - collections.yadvashem.org
Pery Broad após a guerra – collections.yadvashem.org

Pelo material produzido foram concedidas a Broad reduções substanciais do seu tempo de cativeiro. Ele chegou a atuar como intérprete em interrogatórios e nos julgamentos ocorridos contra os líderes nazistas em Nuremberg. Foi libertado em 1947.

Negando o Passado

Casou-se no ano seguinte, mas divorciou-se em 1955 e voltou a se casar em 1958.

Já sua vida profissional na Alemanha Ocidental foi medíocre. Até 1953 foi balconista em uma serraria em Munster, contínuo em um fabricante de equipamentos elétricos localizados em Brunswick e um pequeno funcionário em um escritório na cidade de Dusseldorf.

Perry Broad fichado pela polícia da Alemanha Ocidental - Fonte - collections.yadvashem.org
Pery Broad fichado pela polícia da Alemanha Ocidental – Fonte – collections.yadvashem.org

Logo o seu passado em Auschwitz voltou a lhe perturbar.

Treze anos depois, em 30 de Abril de 1959, Broad foi interrogado por autoridades alemãs ocidentais por conta do seu passado nazista. Só foi libertado em dezembro de 1960, após o pagamento de 50.000 Deutsche Marks como garantia.

Foi novamente preso em novembro de 1964 e logo estava no banco dos réus. Desta vez o nazista empedernido e radical que vivia dentro de Pery Broad voltou a emergir com força. Ele não colaborou com a justiça alemã ocidental e deu uma guinada radical quando comparado ao relatório produzido para os ingleses. Ele se comportou como os demais antigos nazistas acusados de inúmeros crimes praticados em Auschwitz; negou todos os seus crimes. Dizia não ser capaz de se lembrar de nada e não emitiu uma palavra de arrependimento.

A grande obra de Perry Broad - Fonte - collections.yadvashem.org
A grande obra de Pery Broad – Fonte – collections.yadvashem.org

Mas quando foi confrontado com seus próprios registros feito aos seus captores, ocasionou um choque a sua defesa e foi condenado. Por tudo que Pery Broad fez e participou em Auschwitz passou meros quatro anos de trabalhos forçados. Em fevereiro de 1966 ele foi libertado e no mesmo ano foi publicado, na íntegra, o “Relatório Broad”.

O carioca Pery Broad nunca teve filhos e jamais retornou ao Brasil. Viveu os últimos anos de vida com uma pensão concedida pela nova, unida e democrática Alemanha, que certamente desprezava. Faleceu em Dusseldorf, no dia 28 de novembro de 1993.


[1] Sobre a vida de Pery Broad no Brasil, ver os jornais cariocas “A Rua”, 18 de abril de 1920, pág. 4, “O Imparcial”, de 10 de abril de 1921, pág. 5, “A Noite”, de 25 de março de 1922, pág. 1. Temos sobre os negócio do pai de Perry Broad no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro de 1924, vol. 1, pág. 1849.

[2] Patente equivalente a segundo-tenente.

[3]Exceto entre os meses de junho e julho de 1944, quando Broad seguiu para um treinamento.

[4] Patente equivalente no exército alemão de Hitler, a Wehrmarch, a Obergefreiter, ou Primeiro Cabo.


Fontes – http://de.wikipedia.org/wiki/Pery_Broad

http://www.holocaustresearchproject.org/othercamps/perybroad.html

http://holocaustcontroversies.blogspot.com.br/2011/10/how-reliable-and-authentic-is-broad.html

http://www.ihr.org/jhr/v02/v02p103_Faurisson.html

http://en.auschwitz.org/m/index.php?option=com_content&task=view&id=23&Itemid=8

http://memoria.bn.br/

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