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O PASSEIO DO VEADO DA RUA SÃO BENTO

Rua São Bento em 1862, vista da esquina da Rua do Ouvidor, atual José Bonifácio, em direção ao mosteiro
Rua São Bento em 1862, vista da esquina da Rua do Ouvidor, atual José Bonifácio, em direção ao mosteiro

Texto – Edson Loureiro

Fonte – https://saopaulopassado.wordpress.com/author/eddyloureiro/

Se alguém estranhou o título, pode ficar despreocupado porque eu não perdi a compostura nem vou comentar sobre nenhum rapaz alegre saracoteando no centro de São Paulo. O veado em questão era uma escultura de madeira pintada de dourado que servia de frontispício em uma farmácia, a Botica Ao Veado D’Ouro, talvez esta escultura exista até hoje.. vai se saber…

Chegou a ser a farmácia mais antiga de São Paulo, pois foi fundada em 1858 por Gustavo Schaumann.  A origem da botica vem de mais longe. A história foi assim: Philip Gustav Schaumann nasceu em Hamburgo no dia 21 de janeiro de 1825. Pertencia a uma família burguesa culta e politizada. Estudou química na cidade de Heidelberg, graduou-se farmacêutico e fez parte do exército prussiano chegando a participar da campanha contra a Dinamarca em 1852.

Em 1853 veio para o Brasil. Gustavo Schaumann não seguia o padrão dos imigrantes alemães que eram subvencionados pela Província para obras públicas ou trabalho agrícola, era culto e tinha recursos. O que levou aquele jovem de 23 anos, tão bem preparado a dar baixa no exército e partir para tão longe? Seriam motivos políticos? Seria um desertor? Queria evitar alguma punição? O motivo de sua emigração é até hoje ignorado.

A fachada do prédio onde funcionou a botica de 1858 a 1921
A fachada do prédio onde funcionou a botica de 1858 a 1921

Ficou por um tempo em Santos e depois seguiu para Campinas onde ficou amigo de Gustavo Gravenhorst. Lá abriram uma casa de secos e molhados e também alguns medicamentos manipulados.

Gravenhorst muda-se para São Paulo e abre uma casa de papéis, livros e outras miudezas. Schaumann o segue e em 12 de maio de 1858 torna-se sócio da loja, pensando em formar uma farmácia de alto padrão, havia somente quatro farmacêuticos em toda a cidade, que na época tinha menos que 30.000 habitantes. Neste mesmo ano Gravenhorst segue em viagem para a Alemanha para adquirir os equipamentos necessários à montagem da botica, ficando Schaumann cuidando do negócio.

Porém, Gravenhorst adoeceu morrendo em território alemão e Schaumann, conforme o contrato social acabou comprando a parte do extinto sócio.

Frente da loja em 1920, no n. 40, antes da mudança para o n. 33.
Frente da loja em 1920, no n. 40, antes da mudança para o n. 33.

Foi a partir de então que batizou seu estabelecimento de Botica Ao Veado D’Ouro, como uma homenagem ao brasão de seus antepassados e colocou a escultura no frontispício da loja.

E o veado dourado ficou lá até que num belo dia de maio de 1871, Gustavo Schaumann, que morava no sobrado, desceu para abrir a loja e viu que tinha sumido. Quem iria roubar uma escultura sem nenhum valor e tão conhecida? Schaumann não precisou de muito tempo para desconfiar que sem dúvida aquilo era obra dos estudantes da Academia de Direito do Largo de São Francisco, conhecidos por suas “estudantadas”.

Assim, mandou publicar anúncios nos jornais Diário de São Paulo e Correio Paulistano, com o seguinte teor:

“Veado – O abaixo assignado offerece ao ilm. sr. ladrão a quantia de 50$000 dinheiro à vista pelo veado que lhe roubou; e no caso de se realizar este negócio, promete, debaixo de sua palavra de honra, não denuncial-o às autoridades. Gustavo Schaumann”

Deve ter funcionado porque logo a estátua voltou ao seu lugar.

Diário de São Paulo de 04-08-1871
Diário de São Paulo de 04-08-1871

Mas este não foi o único passeio do veado. Durante a Primeira Grande Guerra (1914-1918) , quando o Brasil entrou no conflito ao lado dos aliados contra a Alemanha, apareceram agentes policiais e recolheram a escultura por um bom tempo. Era um símbolo de família alemã…Quando a Botica mudou-se do número 40 (antigo) para o 33 (antigo) da Rua São Bento, o veado passou a ocupar um lugar de destaque dentro da loja. Do lado de fora, apenas uma placa com o perfil da marca.Gustavo Schaumann retirou-se para a Alemanha em 1887 e morreu em Hamburgo em 1892.A Botica Ao Veado D’Ouro continuou sob a direção de seu filho Henrique Schaumann. Em 1905, assumiu a empresa Alfredo Thiele e daí em diante passou por vários outros proprietários.Em 1998 esteve envolvida em um escândalo de falsificação de medicamentos e em 2008 encerrou as atividades depois de 150 anos de existência.

Fontes

SIRIANI, Silvia Cristina Lamberg, Uma São Paulo Alemã, Arquivo do Estado de São Paulo, 2003

Revista A Cigarra, 2. Quinzena de julho de 1920

Revista A Cigarra, 1. Quinzena de julho de 1921

Jornal Folha da Manhã, 16-03-1958

Jornal A Província de S. Paulo, 01-12-1887

Jornal Correio Paulistano, 30-04-1858

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UM ALGOZ BRASILEIRO EM AUSCHWITZ

O carioca Perry (ou Peri) Broad e sua farda da SS
O carioca Pery (ou Perí) Broad e sua farda da SS

Nascido em 1921, era natural do Rio de Janeiro, filho de pai brasileiro e mãe alemã. Seguiu cedo para o país natal de sua genitora, onde foi voluntário da terrível SS nazista e participou da administração do infame campo de concentração de Auschwitz.

Autor – Rostand Medeiros

Estamos falando de Pery (ou Perí) Broad, nascido 25 de abril de 1921 no Rio de Janeiro, sua mãe era a alemã Joanna Mary Broad, naturalizada brasileira em março de 1922 e filha de um industrial alemão de Dusseldorf e seu pai era o comerciante brasileiro Napoleão Goulart Broad, representante no Brasil da empresa alemã A. Lohmann, de Hamburgo, e proprietário da firma importação e exportação Broad & Cia.

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Localizada na antiga Rua São Pedro, nº 39, Centro do Rio, esta firma era conduzida por Napoleão em sociedade com o jornalista Ivo Arruda. [1]

Logo, após completar cinco anos de idade, a criança Broad ficou residindo com a sua mãe na Alemanha. Ele passou sua juventude na pequena comunidade de Freiburg im Breisgau e mais tarde em Berlim. Entre os anos de 1931 e 36, foi membro da Juventude Hitlerista, aonde chegou a ser agraciado com uma insígnia de ouro desta organização. Continuou seus estudos na Escola Técnica de Berlim até dezembro 1941.

Detalhe da página 2, do suplemento do Diário Oficial da União, do dia 1 de junho de 1939, onde na coluna da esquerda, no 18º nome cotando do alto da coluna para baixo, vemos o nome de “Perí, filho de Napoleão Goulart Aroud (está com a grafia original errada) e Mary Broad”. Esta era a lista de convocados da classe de 1921, para o Serviço Militar nas Forças Armadas do Brasil. Mas nesta época Perí, ou Perry Broad, já estava a anos na Alemanha e participando da Juventude Hitlerista - Fonte - Coleção do autor.
Detalhe da página 2, do suplemento do Diário Oficial da União, do dia 1 de junho de 1939, onde na coluna da esquerda, no 18º nome cotando do alto da coluna para baixo, vemos o nome de “Perí, filho de Napoleão Goulart Aroud (está com a grafia original errada) e Mary Broad”. Esta era a lista de convocados da classe de 1921, para o Serviço Militar nas Forças Armadas do Brasil. Mas nesta época Perí, ou Pery Broad, já estava a anos na Alemanha e participando da Juventude Hitlerista – Coleção do autor.

Mesmo sendo tecnicamente um estrangeiro, Broad entrou em 1942 nas famigeradas tropas especiais Waffen SS, onde passou por um rápido período de treinamento. Naquele mesmo ano seu batalhão foi enviado para frente de combate, Mas devido a sua forte miopia, ele foi transferido para outras atividades.

Logo chega uma ordem para seguir a um local chamado Auschwitz.

Vivendo e Fazendo Parte do Inferno

Em junho de 1942 Broad está neste campo de extermínio, lembrado pela humanidade como um verdadeiro moedor de carne humana.

O Untersturmführer Maximilian Grabner foi preso pelos Aliados em 1945 e entregue aos poloneses em 1947. Foi considerado culpado das acusações de assassinato e crimes contra a humanidade. Foi condenado à morte e enforcado no dia 28 de janeiro de 1948 - Fonte - www.actionsoldier.it
O Untersturmführer Maximilian Grabner foi preso pelos Aliados em 1945 e entregue aos poloneses em 1947. Foi considerado culpado das acusações de assassinato e crimes contra a humanidade. Foi condenado à morte e enforcado no dia 28 de janeiro de 1948 – Fonte – http://www.actionsoldier.it

Inicialmente assumiu a função de guarda, mas logo passou a trabalhar no “Politische Abteilung”, ou Departamento Político do campo, cujo comandante da seção era o Untersturmführer Maximilian Grabner[2]. Este era um austríaco que logo ganhou a reputação de ser uma das pessoas mais temidas em Auschwitz.

Como chefe da Gestapo no local, Grabner foi responsável pela luta contra o valente movimento de resistência que existia no interior do campo, atuou evitando fugas e trabalhou para evitar todo e qualquer contato dos prisioneiros com o mundo exterior. Estas tarefas foram realizadas mediante crueldades terríveis. Muitos dos prisioneiros, após sumários interrogatórios, foram enviados diretamente para o pátio interno entre os blocos 10 e 11 e fuzilados. Sua equipe, entre eles Wilhelm Boger, realizou os chamados “interrogatórios afiados”, durante os quais as vítimas foram sistematicamente torturadas. O Bloco 11 era o próprio império de Grabner naquele inferno. Já em relação ao teuto-brasileiro Pery Broad, sabe-se que, permaneceu em serviço ativo em Auschwitz.[3]

Nesta cena de uma aquarela de Wladyslaw Siwek, um homem está sendo interrogado no Bloco 11, usado para julgar os processos contra prisioneiros. O homem retratado sentado, com o braço na cadeira, é o Untersturmführer Maximilian Grabner, Diretor do Departamento Político. A quem o teuto-brasileiro Perry Broad estava subordinado. Quase todos os que passavam por este interrogatório foram logo levados para uma sala de espera e, em seguida, para o pátio do Bloco 11. Ali eles eram fuzilados contra a parede da morte, normalmente com um tiro na parte de trás da cabeça ou no pescoço. As pessoas às vezes eram executadas por infrações menores, como roubar pão, ou roupa - Fonte - tejiendoelmundo.wordpress.com
Nesta cena de uma aquarela de Wladyslaw Siwek, um homem está sendo interrogado no Bloco 11, usado para julgar os processos contra prisioneiros. O homem retratado sentado, com o braço na cadeira, é o Untersturmführer Maximilian Grabner, Diretor do Departamento Político. A quem o teuto-brasileiro Pery Broad estava subordinado. Quase todos os que passavam por este interrogatório foram logo levados para uma sala de espera e, em seguida, para o pátio do Bloco 11. Ali eles eram fuzilados contra a parede da morte, normalmente com um tiro na parte de trás da cabeça ou no pescoço. As pessoas às vezes eram executadas por infrações menores, como roubar pão, ou roupa – Fonte – tejiendoelmundo.wordpress.com

Foi descrito que o Broad participou regularmente de interrogatórios, de execuções da área do Bloco 11, no local que ficou conhecido como “parede negra”. Como um membro do serviço político ele participou de seleção de judeus que chegaram ao campo em vários comboios.

Consta que ele só deixou Auschwitz quando veio a ordem de evacuação em janeiro de 1945. Saiu da área junto com outros membros da SS e em um caminhão com muitas pastas do Departamento Político. Tinha então a patente de Rottenführer[4].

Entrada ferroviária de Auschwitz - Fonte - en.auschwitz.org
Entrada ferroviária de Auschwitz – Fonte – en.auschwitz.org

Em 6 de maio de 1945 ele foi capturado pelos ingleses perto de Ravensbruck.

Contando Tudo

Em 14 de dezembro de 1945, na cidade alemã de Minden, ele começou a escrever um relatório sobre suas experiências em Auschwitz, onde deu um amplo testemunho em relação à matança dos prisioneiros. O seu relato foi tão interessante que passou a ser conhecido como “Relatório Broad”.

Como um informante do exército britânico, Broad foi tido como um traidor pelos nazistas e teve de ser alojado separadamente dos outros prisioneiros alemães. Gostava do tratamento diferenciado.

Chegada de prisioneiros ao campo - Fonte - en.auschwitz.org
Chegada de prisioneiros ao campo – Fonte – en.auschwitz.org

Na verdade este nazista teuto-brasileiro relatou tudo em troca de sua vida. Além de ser um membro do destacamento da SS em Auschwitz, ele ainda era tecnicamente um cidadão brasileiro, que passou a guerra servindo como um voluntário da SS e poderia ter sido executado por traição ao nosso país, uma das nações que ombrearam junto aos exércitos Aliados. Além disso, ele era um excelente candidato a seguir para um campo de trabalho forçado soviético, por um número indeterminado de anos, já que a área de Auschwitz estava na região de dominação do Exército Vermelho.

Os ingleses devem ter utilizados de métodos extremante eficazes, pondo estes argumentos diante de Broad e assim fazê-lo abrir o jogo de maneira clara sobre o inferno que foi Auschwitz.

Perry Broad após a guerra - Fonte - collections.yadvashem.org
Pery Broad após a guerra – collections.yadvashem.org

Pelo material produzido foram concedidas a Broad reduções substanciais do seu tempo de cativeiro. Ele chegou a atuar como intérprete em interrogatórios e nos julgamentos ocorridos contra os líderes nazistas em Nuremberg. Foi libertado em 1947.

Negando o Passado

Casou-se no ano seguinte, mas divorciou-se em 1955 e voltou a se casar em 1958.

Já sua vida profissional na Alemanha Ocidental foi medíocre. Até 1953 foi balconista em uma serraria em Munster, contínuo em um fabricante de equipamentos elétricos localizados em Brunswick e um pequeno funcionário em um escritório na cidade de Dusseldorf.

Perry Broad fichado pela polícia da Alemanha Ocidental - Fonte - collections.yadvashem.org
Pery Broad fichado pela polícia da Alemanha Ocidental – Fonte – collections.yadvashem.org

Logo o seu passado em Auschwitz voltou a lhe perturbar.

Treze anos depois, em 30 de Abril de 1959, Broad foi interrogado por autoridades alemãs ocidentais por conta do seu passado nazista. Só foi libertado em dezembro de 1960, após o pagamento de 50.000 Deutsche Marks como garantia.

Foi novamente preso em novembro de 1964 e logo estava no banco dos réus. Desta vez o nazista empedernido e radical que vivia dentro de Pery Broad voltou a emergir com força. Ele não colaborou com a justiça alemã ocidental e deu uma guinada radical quando comparado ao relatório produzido para os ingleses. Ele se comportou como os demais antigos nazistas acusados de inúmeros crimes praticados em Auschwitz; negou todos os seus crimes. Dizia não ser capaz de se lembrar de nada e não emitiu uma palavra de arrependimento.

A grande obra de Perry Broad - Fonte - collections.yadvashem.org
A grande obra de Pery Broad – Fonte – collections.yadvashem.org

Mas quando foi confrontado com seus próprios registros feito aos seus captores, ocasionou um choque a sua defesa e foi condenado. Por tudo que Pery Broad fez e participou em Auschwitz passou meros quatro anos de trabalhos forçados. Em fevereiro de 1966 ele foi libertado e no mesmo ano foi publicado, na íntegra, o “Relatório Broad”.

O carioca Pery Broad nunca teve filhos e jamais retornou ao Brasil. Viveu os últimos anos de vida com uma pensão concedida pela nova, unida e democrática Alemanha, que certamente desprezava. Faleceu em Dusseldorf, no dia 28 de novembro de 1993.


[1] Sobre a vida de Pery Broad no Brasil, ver os jornais cariocas “A Rua”, 18 de abril de 1920, pág. 4, “O Imparcial”, de 10 de abril de 1921, pág. 5, “A Noite”, de 25 de março de 1922, pág. 1. Temos sobre os negócio do pai de Perry Broad no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro de 1924, vol. 1, pág. 1849.

[2] Patente equivalente a segundo-tenente.

[3]Exceto entre os meses de junho e julho de 1944, quando Broad seguiu para um treinamento.

[4] Patente equivalente no exército alemão de Hitler, a Wehrmarch, a Obergefreiter, ou Primeiro Cabo.


Fontes – http://de.wikipedia.org/wiki/Pery_Broad

http://www.holocaustresearchproject.org/othercamps/perybroad.html

http://holocaustcontroversies.blogspot.com.br/2011/10/how-reliable-and-authentic-is-broad.html

http://www.ihr.org/jhr/v02/v02p103_Faurisson.html

http://en.auschwitz.org/m/index.php?option=com_content&task=view&id=23&Itemid=8

http://memoria.bn.br/

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O ALEMÃO QUE NÃO FEZ A SAUDAÇÃO NAZISTA – QUANTOS DE NÓS TERÍAMOS A MESMA CORAGEM?

No destaque vemos  August Landmesser sem realizar a saudação nazista, em uma solenidade onde o próprio Hitler estava presente
No destaque vemos August Landmesser sem realizar a saudação nazista, em uma solenidade onde o próprio Hitler estava presente

Autor – Rostand Medeiros

Hamburgo, Alemanha Nazista, 1936, uma multidão de pessoas se reuniu em um estaleiro para assistir ao lançamento do navio-escola da marinha SSS Horst Wessel, em que o próprio Adolf Hitler estava presente. Enquanto centenas levantavam obedientemente seus braços em uníssono na saudação nazista, um homem na parte de trás da multidão ficou com os braços cruzados sobre o peito e apertando os olhos para quem estava fazendo a saudação.

Esta figura era desconhecida até 1991, quando a sua famosa foto foi publicada em 22 de março, no jornal alemão “Die Zeit”. Logo uma de suas filhas o identificou como sendo August Landmesser, um trabalhador do estaleiro Blohm + Voss, da cidade de Hamburgo.

August Landmesser
August Landmesser

Landmesser, nascido em 24 de maio de 1910,  foi inclusive membro de carteirinha do Partido Nazista, onde entrou em 1931 na esperança de conseguir um emprego, mas tinha uma razão muito pessoal para não fazer mais a infame saudação. No verão de 1935, de acordo com o “Nürnberger Gesetze” (“Leis de Neuremberg”), o Estado nazista proibia Landmesser, como um não judeu, a se casar com Irma Eckler, a sua amada companheira.

Consta que a condição de judia de Irma não era totalmente correta. Seu pai, Arthur Eckler, nasceu da união de uma mãe judia e um pai não judeu. Com a morte de seu pai, seu padrasto conseguiu convencer Irma, sua mãe e suas irmãs a se converterem ao protestantismo e serem batizadas. Mas para o regime de Hitler a jovem Irma era uma judia.

Irma Eckler
Irma Eckler

Independente disso o casal seguiu adiante na sua luta para continuarem unidos. Em 29 de outubro de 1935 nasceu a primeira filha, chamada Ingrid. Em 1937 a família tentou fugir para a Dinamarca, mas Landmesser foi preso e se tornou conhecido que Irma estava grávida.

Landmesser então foi acusado pelas leis nazistas de “desonrar a raça”. Ele argumentou que não sabia se Irma era totalmente judia e foi absolvido por falta de provas em 27 de maio de 1938. Mas com o aviso de que uma reincidência resultaria em uma pena de prisão de vários anos.

Mesmo com o perigo a espreita, Landmesser e Irma continuaram seu relacionamento publicamente e esta atitude foi fatal.

No dia 15 de julho de 1938 ele foi novamente preso por ter se apaixonado e condenado há dois anos e meio em regime fechado. Entre as peças de acusação estava a foto que se tornaria famosa. Landmesser cumpriu a pena no campo de concentração de Börgermoor, onde os presos foram usados ​​para o trabalho forçado em fábricas de armamento e estaleiros.

Já Irma foi detida pela Gestapo e colocada na prisão de Fuhlsbüttel, em Hamburgo, onde ela deu à luz uma segunda filha, Irene. De lá ela foi enviada para o campo de concentração de Oranienburg, depois para o campo de Lichtenburg e em seguida campo de concentração das mulheres de Ravensbrück.

Ficha de Irma
Ficha de Irma

Suas filhas foram inicialmente levadas para o orfanato da cidade de Hamburgo. Ingrid mais tarde foi autorizada a viver com uma avó e Irene foi adotada por outra família. Algumas cartas de Irma Eckler chegaram até suas filhas em janeiro de 1942. Acredita-se que Irma foi levada para o chamado Centro de Eutanásia de Bernburg em fevereiro de 1942, onde ela foi morta na câmara de gás junto com outras 14 mil pessoas.

Landmesser foi libertado em 1941 e viveu como capataz de uma fábrica. Mas em fevereiro de 1944 ele foi convocado para servir no batalhão penal Bewaehrungsbattalion 999 (uma unidade do exército alemão formada por ex-criminosos). Foi declarado desaparecido em ação e supostamente morto durante combates ocorridos na Croácia, em 17 de outubro de 1944.

Landmesser, Irma e suas filhas
Landmesser, Irma e suas filhas

Irene Eckler publicou em 1996 o livro “Die Vormundschaftsakte 1935-1958:einer Familie Verfolgung wegen Rassenschande”, onde conta a história da destruição de sua família pelas leis racistas da Alemanha nazista. Publicado em alemão e em inglês, obteve grande sucesso na Alemanha e em outro países da Europa.

A autora buscou familiares da sua mãe que tivessem sobrevivido a guerra para descobrir o máximo que pudesse acerca do seu passado e esteve nos tribunais locais em busca de documentos. O livro inclui uma grande quantidade de fotos de materiais originais, como cartas de sua mãe e documentos de instituições estatais.

Quando eu olho para a fotografia de August Landmesser, eu vejo um homem que se recusou a realizar um nefasto gesto coletivo e, assim, optou por não ficar em silêncio e viver junto de quem amava.

August Landmesser em momentos mais aprazíveis
August Landmesser em momentos mais aprazíveis

Tenho certeza de que no meio da multidão naquele dia, havia muitos mais que desejariam não realizar aquela saudação infame, mas não tiveram a coragem de repetir o mesmo gesto de Landmesser. Quase oitenta anos depois é fácil ser crítico de todos aqueles que são vistos saudando. Mas isso é uma reação simples.

Mais instrutivo é olhar no espelho e se perguntar: “Qual tipo de sacrifício eu realmente faria por quem eu amo?”.

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