Arquivo da tag: PRECONCEITO

O MITO SOBRE A ORIGEM DE SOBRENOMES DE JUDEUS CONVERTIDOS

x2012061221753.jpg.pagespeed.ic.icVtW3_1w4
No desenho ‘Caminhada dos prisioneiros para o auto de fé’, de A. Shoonebeck, um retrato da perseguição aos judeus – Reprodução

Nomes de plantas e árvores, como Pinheiro e Carvalho, não pertenceram só a cristãos-novos

POR DANIELA KRESCH, ESPECIAL PARA O GLOBO

Na Bahia do século XVII, o professor de um colégio jesuíta perguntou o sobrenome de um de seus alunos. A resposta foi inusitada: “Qual deles, o de dentro ou o de fora”? A história, contada pela historiadora da USP Anita Novinsky em sua dissertação “O mito dos sobrenomes marranos”, exemplifica o dilema dos cristãos-novos brasileiros, nos primeiros séculos do país. Expor ou não o sobrenome da família fora de casa, sob risco de ser identificado pela Inquisição e acusado do crime inafiançável de “judaísmo”? O temor e a delicadeza do tema fizeram com que a genealogia dos descendentes de judeus portugueses no Brasil fosse envolta, por séculos, numa bruma de mitos e ignorância. Nos últimos anos, no entanto, pesquisadores têm revelado surpresas sobre os sobrenomes marranos no Brasil.

img_1
Fonte – http://blogs.yahoo.co.jp/

No final do século XV, os judeus compunham entre 10% e 15% da população de Portugal — somando os cerca de 50 mil locais e os quase 120 mil que cruzaram a fronteira em 1492, quando os Reis Católicos Fernando e Isabela expulsaram toda a população judaica da Espanha. Nos primeiros dois séculos depois do Descobrimento, o Brasil recebeu boa parte dessa população, os chamados cristãos-novos (ou “marranos”, pelo apelido pejorativo da época), convertidos ao cristianismo à força, por decreto de Dom Manuel I, em 1497. Historiadores concordam que um em cada três portugueses que imigraram para a colônia era cristão-novo.

Até recentemente, acreditava-se que esses judeus conversos abandonaram seus sobrenomes “infiéis” para adotar novos “inventados” baseados exclusivamente em nomes de plantas, árvores, frutas, animais e acidentes geográficos. Assim, seria fácil. Todos os portugueses com os sobrenomes Pinheiro, Carvalho, Pereira, Raposo, Serra, Monte ou Rios, entre outros, que imigraram para o Brasil após 1500 devem ter sido marranos, certo? Errado.

arch-titus-relief-1a
Soldados romanos carregando os despojos das guerras judaicas. A destruição de Jerusalém aconteceu em 70 D.C., quando as legiões romanas saquearam Jerusalém e retornaram a Roma com os despojos, daquela que era considerada a cidade mais rica no Império Romano – Fonte – http://www.bible-history.com/archaeology/rome/arch-titus-menorah-1.html.

— Em minhas investigações, não encontrei prova documental de que nomes de árvores, animais, plantas ou acidentes geográficos tenham pertencido apenas ou quase sempre a marranos — afirma Anita Novisnky, uma das maiores autoridades no assunto.

O que causa confusão, segundo Novinsky, é o fato de que os sobrenomes adotados pelos cristãos-novos eram os mesmos usados por cristãos-velhos, alguns por nostalgia, outros por medo de perseguições. Afinal, no Brasil, os marranos foram perseguidos por 285 anos pela Inquisição portuguesa. Quem demonstrasse apego à antiga religião poderia ser condenado à morte na fogueira dos “autos de fé”, as cerimônias de penitência aos infiéis.

Como identificar, então, quem era marrano? A mais importante pista está justamente nos arquivos da Inquisição. Aproximadamente 40 mil julgamentos resistiram ao tempo, 95% deles referentes a crimes de judaísmo. Anita Novinsky encontrou exatos 1.819 sobrenomes de cristãos-novos detidos, só no século XVIII, no chamado “Livro dos Culpados”. Os sobrenomes mais comuns dos detidos eram Rodrigues (citado 137 vezes), Nunes (120), Henriques (68), Mendes (66), Correia (51), Lopes (51), Costa, (49), Cardoso (48), Silva (47) e Fonseca (33).

dsc01024
Primeira sinagoga das Américas, em Recife – Fonte – http://culturahebraica.blogspot.com.br/2013/01/amazonia-terra-prometida-historia-dos.html

— A Inquisição anotava todos os nomes dos detidos cuidadosamente, como se fosse a Gestapo nazista e mantinha uma relação de bens de cristãos-novos para confiscar — diz Anita.

Isso não quer dizer, no entanto, que todas as famílias com esses sobrenomes eram marranas. Nas investigações, sob tortura, os detidos diziam tudo o que os inquisidores queriam ouvir, acusando vizinhos, empregados e parentes “inocentes”. Fora isso, os sobrenomes eram realmente comuns.

— Não havia nenhum sobrenome exclusivo de cristãos-novos. Até porque eles mudavam sempre que podiam, além de adotarem nomes compostos. Muitos irmãos e esposos adotavam até mesmo sobrenomes diferentes, só para confundir — explica o historiador israelense Avi Gross.

237_59
Judaísmo no Âmbito Familiar. Nem assim havia total segurança – Fonte – http://www.coisasjudaicas.com/2011/11/cripto-judaismo.html

O historiador paulistano Paulo Valadares, autor do “Dicionário Sefaradi de Sobrenomes”, no qual destaca 14 mil sobrenomes oriundos de judeus da Península Ibérica, aponta para mais uma complicação: o da mestiçagem brasileira. A grande maioria dos cristãos-novos se misturou depois de uma ou duas gerações com outras culturas e raças.

— Poucos conseguiram manter as tradições judaicas por muito tempo. Algumas famílias tentaram, se isolando em algumas áreas do país, principalmente no Sertão nordestino, e praticando a endogamia (casamentos dentro da família).

Para os aficionados em genealogia, um novo site na internet, o “Name your roots” (que tem versão em português), pode ajudar a descobrir as raízes. No portal, criado há três meses por dois religiosos israelenses, é possível obter explicações e bibliografia gratuitamente sobre sobrenomes marranos comuns no Brasil.

Rua dos Judeus - Mercado de Escravos - 1641
Rua dos Judeus e seu mercado de escravos. Quadro Rua dos Judeus – Slavenmarkt, de Zacharias Wagener – 1641 – Fonte – http://bairrodorecife.blogspot.com.br/2014/02/a-rua-do-bode-dos-judeus-da-cruz-e-do.html

Mas Paulo Valadares alerta que é preciso ir além: identificar se há antepassados portugueses que chegaram ao Brasil nos séculos XVI ou XVII ou se foram citados nos anais da Inquisição até o século XVIII, se a família se estabeleceu em alguma região específica e se guarda tradições “estranhas”. O documentário “A estrela oculta do Sertão”, de Elaine Eiger e Luize Valente, traz exemplos de algumas dessas tradições, que ainda sobrevivem no Nordeste: olhar a primeira estrela no céu, não comer certos alimentos como carne de porco, não misturar carne com leite, vestir a melhor roupa na sexta-feira, enterrar corpos em “terra limpa” (envolto apenas numa mortalha), rezar numa língua estranha e colocar pedras em túmulos.

— Depois de conviver com comunidades do interior do país, percebi como os descendentes de marranos praticam tradições judaicas no dia a dia — conta Luize , que lança, em agosto, o romance “O segredo do oratório” (Record), contando a saga de uma família de cristãos-novos no Brasil.

O médico paraibano Luciano Canuto de Oliveira, que voltou ao judaísmo depois de descobrir suas origens marranas, define sua identidade de modo parecido com a resposta do aluno do colégio jesuíta, há quatro séculos: “Ser marrano é ser judeu por dentro e católico por fora”.

Leia mais: https://oglobo.globo.com/brasil/o-mito-sobre-origem-de-sobrenomes-de-judeus-convertidos-5227424#ixzz4tQKxtvVB


MAIS NO BLOG TOK DE HISTÓRIA SOBRE TEMAS LIGADOS AO JUDAÍSMO 

https://tokdehistoria.com.br/2015/11/11/lei-pode-dar-cidadania-a-brasileiros-descendentes-de-judeus/ 

https://tokdehistoria.com.br/2015/05/08/diaspora-descubra-como-os-judeus-se-espalharam-pelo-mundo/ 

https://tokdehistoria.com.br/2016/07/12/15533/ 

https://tokdehistoria.com.br/2014/03/23/sobrenomes-de-judeus-expulsos-da-espanha-em-1492-veja-se-o-seu-esta-na-lista/ 

https://tokdehistoria.com.br/2012/04/18/a-expulsao-dos-judeus-de-portugal/

https://tokdehistoria.com.br/2015/06/08/the-first-synagogue-in-the-americas-itamaraca-1634/ 

Anúncios

DE NÓS, PRA VOCÊ – SALVE O DIA DO NORDESTINO

1_ofjpnno-j3y32l4gw4saza

FONTE – https://medium.com/@basepropaganda/se-oriente-fc01dc8dfa2d#.ru8msgkp4

08/10/2016 — Dia do Nordestino

Durante a construção deste projeto, conversamos com alguns amigos que são do Nordeste e vivem em outras regiões do país para que juntos analisássemos e ilustrássemos algumas situações nas quais o preconceito, mesmo polido ou acompanhado de algum tipo de elogio, machuca e ajuda a perpetuar estereótipos.

1_kvu0tcvbihct-vwfvy6gsw

Estamos sempre em busca do nosso lugar no mundo. E, por onde quer que a gente vá, carrega em si um universo próprio, cheio de coisas que só a gente sabe realmente como são. Aquela tal de experiência de vida, não é?

O simples fato de termos nascido em uma região específica não nos torna especiais ou ~diferentões~, mas é claro que temos prazer em externar a nossa origem. Afinal, são palavras e expressões que nos lembram os amigos de infância, sabores e canções que nos levam imediatamente aos encontros de família, dificuldades que costumamos associar a quem sofre como nós.

1_c65xkbp8msgfubslhg_opa

Porque sim, sofremos. Algumas vezes como qualquer um sofre, claro. Mas, outras, simplesmente por sermos de “lá”, do Nordeste. Um sofrimento que pode surgir a partir do que você pensa da gente, de como você imagina a nossa história ou do que você nem se interessa em saber se é verdade, ou não.

Você pode estar por perto, esbarrar com a gente na rua, pode ser um amigo do peito ou um ilustre desconhecido. Mas, em qualquer uma dessas possibilidades, vai sempre nos enxergar como uma xilogravura, um sotaque ou uma reprodução satírica de características engraçadas, exóticas, bizarras…

1_jjdspha3u1vxyucpwzu4kq

Sim. É possível que você consiga identificar qualidades em nós, mas quase sempre elas serão suprimidas pela ideia que você tem da nossa origem.

Talvez você até encontre uma forma que acredita ser mais polida para mostrar que nunca seremos como você. Mas não adianta; viemos de um mundinho como qualquer outro, porém completamente nosso e presente em cada parte do que somos.

1_jhaqbrvudkxryif-gf79tg

A sua tentativa de provar que consegue ver algo bom em nós não suprime o fato de que esse “mundinho” continua sendo diminutivo pra você.

Por isso, no dia em que comemoramos mais uma vez o fato de sermos NÓS, deixamos o recado: Se oriente! Elogio não anula preconceito.

 ORGULHO DE SER NORDESTINO!

dia-do-nordestino2
FONTE – http://nordeste304.blogspot.com.br/

7 QUESTIONAMENTOS SOBRE CORRIGIR O PORTUGUÊS ALHEIO EM PÚBLICO

logoportugues
Fonte – http://www.s1noticias.com/

Sim, eu já corrigi Português dos outros, mas também já fiquei extremamente constrangido quando descobri tardiamente que “a gente” não era “agente” e eu morro de vontade de dizer isso para alguns amigos meus que estão por  escrevendo tal expressão de forma errada. Mas, no meio desse dilema, penso que embora eu queira que todos falem um Português correto, tenho algumas ressalvas quanto a sair por aí bancando um professor chato, e quero dividi-las com vocês:

1 – Perto do Google todo mundo é Pasquale

É muito raro alguém ter um Português irretocável. Na era digital temos o auxílio do companheiro Google, e jogar na caixa de pesquisa para que o sistema deduza a forma correta de escrever é algo tão comum, que às vezes as pessoas até se esquecem de que todo mundo em algum momento levanta dúvidas tidas como vergonhosas pelo senso comum, só que claro, sem ninguém saber – apenas o Google. Posso afirmar que já vi mais da metade das pessoas que eu vejo oprimindo de forma hipócrita quem erra Português cometendo também erros banais de Gramática.

590014.TIF
Fonte – http://lounge.obviousmag.org/

2 – É a língua portuguesa que nos serve, não ao contrário

As pessoas quando questionadas sobre o motivo de não aceitarem erros de Português atribuem tal fato a justificativa do bonito ou feio. Ora, sabemos bem que esse tipo de adjetivação é completamente subjetiva e relativa. Ao pensarmos que a Gramática sofre diversas transformações, e novas normas adentram ao padrão culto e outras são descartadas, concluímos que a mesma é apenas uma convenção, que a língua é dinâmica, justamente para atender a uma demanda de quem se comunica. Se o emissor consegue comunicar o que ele quer dizer mesmo errando algo e o receptor compreende a mensagem, não existe um motivo razoável para que se crie um reboliço em cima disso, uma vez que a ideia transmitida foi entendida corretamente.

3 – Achar que a forma de falar da sua cidade é a certa é preconceito linguístico

É muito comum os nativos de cidades grandes acharem que apenas o jeito de falar local, incluindo o sotaque, é o correto. O Brasil é um país cheio de pluralidades, grande em extensão, e se constitui por regiões que vivem de diferentes influências culturais. É completamente plausível que existam regionalismos e maneirismos na forma de comunicação que ultrapassam uma suposta obediência a qualquer que seja o padrão linguístico de determinada cidade mais influente. Nesse caso existe um predomínio de crença ao invés de conhecimento, e o preconceito acaba se revelando por parâmetros irracionais.

Mudanças na Lingua Portuguesa
Fonte – http://ewermalabru.blogspot.com.br/

4 – Existe muito de elitismo em julgar o Português dos outros

Mesmo sabendo que deficiências no Português não são uma exclusividade das camadas mais humildes, é importante considerar que muita gente não teve o mesmo acesso que você à Escola; que infelizmente não frequentou um Colégio porque tinha demandas mais urgentes a serem atendidas, ou simplesmente não teve um ensino de qualidade. Muitas das brincadeiras depreciativas em relação ao erro de Português são relacionadas às classes sociais. Se você notar, no discurso explicativo sobre o porquê da correção, sutilmente percebe-se que os patrulheiros gramaticais pensam o erro de Português como algo vergonhoso por ser “coisa de pobre”.  E mesmo aos que tiveram todas as oportunidades: quem disse que nossas gavetas cognitivas são iguais? As pessoas não possuem memórias equivalentes, elas não aprendem de forma igual, existem palavras tidas como bobas, que por algum motivo não são memorizadas por nós na época de Escola, e não existe nenhuma lei que obrigue ou convencione a idade certa para que você aprenda uma determinada palavra. Existem também as gírias, muitas vezes tidas como tóxicas à linguagem, quando na verdade são códigos de comunicação que servem como instrumentos de formação de identidade em um determinado grupo ou espaço comum, e mesmo que se trate de um coloquialismo, como dizer que essas palavras são erradas?

lingua-portuesa
Fonte – http://blog.ambracollege.com/a-lingua-portuguesa-no-mundo/

5 – Quando você corrige alguém a pessoa geralmente se sente mais constrangida do que ajudada

Eu imagino que alguns vão generalizar e achar que estou fazendo uma apologia ao erro de Português, quando na verdade estou apenas propondo uma reflexão sobre os efeitos causados por quem tripudia ou alardeia em público o erro alheio. Sempre que eu vejo gente corrigindo alguém na frente dos outros, ou postando terrorismos em relação aos erros de linguagem no “Facebook”, só consigo enxergar um opressor se autoafirmando e tentando diminuir o outro, apenas para ostentar uma suposta superioridade linguística. Isso acaba mostrando apenas um cidadão tentando provar que sabe mais, para talvez alimentar as carências do próprio ego, dentro daquela medíocre lógica comparativa que fortalece uma autoinsegurança em cima de uma insuficiência alheia.

6 – Você pode aprender muita coisa, inclusive com quem diz “nóis vai”

Estamos sempre em estado de vigília em relação ao paradoxo nos outros. Costumamos desconfiar de um “Personal trainer” que é gordo ou de um pneumologista que fuma, ou de um dentista com uma arcada desarmônica. Lembro-me de uma professora no meu curso de Pedagogia – em plena Universidade de São Paulo – que flexionava frases erradas na linha “nóis vai”, e eu me perguntava como aquela mulher estava ali me ensinando sobre como lecionar em uma Faculdade cheia de exigências no quesito “competência acadêmica”. A matéria era sobre “Políticas para portadores de necessidades especiais”, e o conteúdo me foi de extrema valia, elevou meu olhar, me fez desconstruir preconceitos, agregou-me novas perspectivas sobre a inclusão e no fim do semestre me dei conta de que independente do Português falho dessa docente eu havia aprendido muito sobre aquele tema. E mesmo se sairmos da esfera dos intelectuais e pensarmos em uma pessoa de situação humilde: você acha mesmo que só porque o seu Português é falho, não tem nada o que aprender com ela?

7 – Haters, quem são?

Existe uma patrulha, que costuma cultivar um tipo de hostilidade gratuita, que vai além da importância do objeto criticado. Um “Hater” é aquele tipo de pessoa que precisar vencer discussões, e que geralmente caça assuntos polêmicos e perde horas elaborando discursos embasados, apenas para provar que estácerto. Precisam chamar a atenção, mesmo que isso os transforme nos vilões da historia. Um Hater geralmente não odeia o Português dos outros, ele apenas ama odiar qualquer coisa.

Autor – Eduardo Benessi

Fonte – http://www.entendaoshomens.com.br/7-questionamentos-sobre-corrigir-o-portugues-alheio-em-publico/


 

P.S. – Fugindo um pouco de temas históricos e publicando um texto que achei interessante…

NEONAZISMO: OS FANTASMAS DE HITLER

Fonte - AFP/Getty
Fonte – AFP/Getty

Como a ideologia que prega o ódio renasceu na Europa, o mesmo cenário dos crimes contra a humanidade cometidos na Segunda Guerra – e como ela se espalha até mesmo no Brasil

TEXTO – Eduardo Szklarz – FONTE – http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/neonazismo-fantasmas-hitler-806550.shtml?utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_avhistoria

O ruído era ensurdecedor. Jovens de camisas negras se aglomeravam na praça fazendo a saudação Heil Hitler! e entoando a Canção de Horst Wessel, o hino nazista. Num bar perto dali, intelectuais vociferavam contra gays, culpavam os estrangeiros pelo desemprego e advertiam sobre a “conspiração judaica” que levou o país à ruína.

A cena bem poderia ter ocorrido na Berlim dos anos 30. Mas aconteceu em 4 de junho passado em Atenas, berço da democracia, durante um ato do partido neonazista grego Aurora Dourada. Em toda a Europa, mas também em outros países, a chaga do nazismo renasceu e vem crescendo. Tal como ocorreu com Hitler e seus asseclas, usam-se as armas da democracia para atacá-la e destruí-la.

Russia - Fonte - www.thestar.com
Russia – Fonte – http://www.thestar.com

Nas eleições de maio para o Parlamento Europeu (PE), o Aurora Dourada elegeu três deputados. “Somos a terceira força política do país”, disse o porta-voz Ilias Kasidiaris, que tem uma suástica tatuada no braço. Grupos de extrema direita festejaram a presença recorde em um parlamento que a maioria delas rejeita. Na Alemanha, o neonazista Partido Nacional Democrático (NPD) conseguiu pela primeira vez um assento no PE. Na Hungria, o fascista Jobbik é a segunda maior legenda. A Frente Nacional, cujo patriarca, Jean-Marie Le Pen, sugeriu o vírus ebola para solucionar o problema da imigração, teve 25% de apoio dos franceses.

O que explica esse fenômeno? Qual foi o momento em que ser nazista/fascista deixou de ser vergonhoso para se tornar aceitável? É o que veremos nesta reportagem.

A fagulha nacionalista

A extrema direita não é um bloco monolítico. Alguns partidos são racistas, xenófobos, outros são contra muçulmanos ou gays. Muitos são tudo isso. Mas há um elemento comum a todos: o nacionalismo. “Nem todo nacionalismo é de direita e muito menos fascista, mas todo movimento nazifascista é nacionalista”, afirma o historiador Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus, superintendente da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, em São Paulo.

Ucrânia - Fonte - http://www.globalresearch.ca/the-bbc-supports-ukraines-neo-nazis/5383112
Ucrânia – Fonte – http://www.globalresearch.ca/the-bbc-supports-ukraines-neo-nazis/5383112

Nacionalismos florescem em tempos de crise. Tem sido assim desde o final do século 19, quando russos massacraram milhares de judeus acusando-os pela morte do czar Alexandre II (1818-1881). A onda de perseguições se alastrou pelo Leste Europeu, onde judeus e outras minorias foram culpados pelas mazelas de cada país. Isso porque o nacionalismo não é um mero amor à pátria: é uma defesa ferina da identidade nacional que pressupõe a glorificação de “Nós” e a exclusão dos “Outros”. Por isso desemboca em violência.

Em 28 de junho de 1914, por exemplo, o nacionalista sérvio Gavrilo Princip disparou contra o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro da coroa austro-húngara. E deflagrou a Primeira Guerra. Durante o conflito, o nacionalismo serviu de base para a principal – e mais aterradora – invenção política do século 20: o fascismo. Era um movimento de massas autoritário e populista baseado no anticomunismo, na expansão imperialista e em um Estado policial que controlava a vida pública e privada das pessoas.

O fascista (e socialista na juventude) Benito Mussolini assumiu o poder na Itália em 1922 para logo implantar uma ditadura. “O fascismo reconfigurou as relações entre o indivíduo e o coletivo, de modo que o indivíduo não tinha direito algum fora do interesse da comunidade”, diz o historiador americano Robert Paxton no livro The Anatomy of the Fascism (“A Anatomia do Fascismo”).

Alemanha - Fonte - Reuters
Alemanha – Fonte – Reuters

Em 1933, o nazismo triunfou na Alemanha agregando um novo ingrediente ao pacote fascista: a raça. Hitler quis purificar a comunidade alemã dos seres considerados “inferiores”, entre eles judeus, homossexuais, eslavos, deficientes físicos e mentais. Segundo o führer, era preciso eliminar esses “bacilos” do corpo da sociedade para assegurar a supremacia ariana. Após a Segunda Guerra, contudo, o nacionalismo deu lugar ao mundo bipolar: EUA x URSS. As superpotências fatiaram o planeta em áreas de influência do capitalismo e do comunismo. Na lógica da Guerra Fria, ser extremista era vergonhoso. Mas não por muito tempo.

Cara nova

“O neonazismo surgiu na Europa entre as correntes de direita mais radicais. De certa forma, foi constituído pelos velhos nazistas que sobreviveram aos expurgos do pós-guerra, principalmente na Alemanha Ocidental”, diz Luiz Dario Ribeiro, professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

De fato, muitos nazistas convictos ingressaram no serviço público alemão após a guerra e aproveitaram os novos cargos para manter vivas as suas ideias. Foi o caso de Hans Globke, um dos autores das discriminatórias Leis de Nuremberg (1935) e colaborador de Adolf Eichmann, o arquiteto da “Solução Final”. Globke virou assessor do chanceler alemão Konrad Adenauer nos anos 50. Assim, o anticomunismo da Guerra Fria criou condições para que o caráter nazista desses agentes fosse esquecido.

Estados Unidos - Fonte - www.jewishpress.com
Estados Unidos – Fonte – http://www.jewishpress.com

O próximo passo deles foi criar organizações de fachada para incorporar novos membros. O alemão Partido Nacional Democrático (NPD) e o Movimento Social Italiano (MSI), por exemplo, eram agrupamentos nazifascistas que se escondiam atrás de nomes simpáticos. “Os novos membros eram jovens convencidos de que deveria haver uma luta de vida e morte contra os comunistas”, diz Ribeiro.

Nos anos 60, o neonazismo ganhou adeptos com a crise do colonialismo europeu. Grupos como o Occident e o Exército Secreto Francês (OAS) atraíram nacionalistas frustrados pela derrota da França nas guerras de independência da Indochina (1946-54) e da Argélia (1954-62). O OAS perpetrou atentados contra argelinos e tentou até mesmo assassinar o presidente francês Charles de Gaulle por permitir a descolonização.

Pierre Sidos, fundador do Occident, era filho de um membro da Milice – a brigada paramilitar francesa que caçou judeus e membros da Resistência durante a ocupação nazista. Sidos prosseguiu com as ideias do pai, recrutando universitários para combater os manifestantes que pediam reformas no Maio de 68. De Gaulle proibiu o Occident, mas vários de seus membros integraram a Frente Nacional, fundada por Le Pen em 1972.

Espanha, material de grupos neonazistas apreendido - Fonte - http://antoniosalasjournalist.blogspot.com.br/2013/08/hammerskin-condemns-neo-nazi-group.html
Espanha, material de grupos neonazistas apreendido – Fonte – http://antoniosalasjournalist.blogspot.com.br/2013/08/hammerskin-condemns-neo-nazi-group.html

Os neonazistas também buscaram reabilitar a ideologia de Hitler. E para isso recorreram a uma teoria pseudocientífica, o revisionismo, que acusava os vencedores da guerra de contar a História à sua maneira. O pai do revisionismo foi o historiador francês Paul Rassinier. Ele havia sido prisioneiro político dos nazistas mas começou a defender o Tercero Reich depois da guerra. Ele negava o Holocausto. “Eu estive lá e não havia câmaras de gás”, dizia. De fato. Rassinier esteve em Buchenwald, um campo de concentração situado na Alemanha que realmente não tinha câmaras de gás. Os campos de extermínio ficavam na Polônia ocupada, como em Auschwitz e Treblinka, dotados de câmaras de gás e crematórios. Mas os livros delirantes de Rassinier conquistaram leitores na Europa e foram traduzidos nos EUA pelo historiador Harry Elmer Barnes – outro adepto de teorias da conspiração.

Barnes dizia que os julgamentos de nazistas como Eichmann eram uma tramoia sionista e descrevia os Einsatzgruppen (esquadrões da morte da SS) como “guerrilhas”. Outro revisionista norte-americano, Francis Parker Yockey, tinha ideias ainda mais estranhas. Ele defendia uma união totalitária entre a extrema direita, a URSS e governos árabes para derrotar o “poder judaicoamericano”. Yockey foi preso pelo FBI por fraude, com três passaportes falsos, e se matou na prisão em 1960. Mas seu livroImperium se tornou objeto de culto dos neonazistas.

Gangues se aliam aos partidos

O nacionalismo sofreu uma metamorfose com a crise do petróleo de 1973. Em meio à recessão europeia, os extremistas adotaram um novo inimigo: o imigrante, sobretudo aquele oriundo das ex-colônias árabes. “A xenofobia atraiu jovens desempregados e sem perspectivas para a extrema direita”, diz Ribeiro.

Grécia - Fonte - www.theguardian.com
Grécia – Fonte – http://www.theguardian.com

Foi o caso dos skinheads, uma tribo formada nos anos 60 na Inglaterra por jovens de classe baixa que curtiam ritmos como ska e reggae. Os skinheads originais não eram racistas (muitos eram negros jamaicanos), mas alguns deles atacavam gays e asiáticos. E, na recessão dos anos 70, uma ala do movimento se vinculou ao partido neonazista inglês National Front (NF), que promovia a “superioridade branca”.

“Os partidos de extrema direita precisavam de militância e a encontraram nas gangues”, diz Nóbrega. Gritos de guerra xenófobos entraram para o repertório dos hooligans – torcedores de futebol conhecidos por deixar um rastro de vandalismo e pancadaria. O jornalista americano Bill Buford conviveu durante quatro anos com hooligans do Manchester United, na década de 80, e viu como eles eram facilmente recrutados pelo NF.

Mas nem todos os brutamontes que surravam estrangeiros estavam desempregados. Muitos aderiram à violência xenófoba por pura sede de adrenalina. Foi o caso de Mick, o primeiro hooligan que Buford conheceu. “Ele parecia um eletricista perfeitamente feliz, com um enorme maço de dinheiro no bolso para comprar passagens e ver os jogos”, diz Buford no livro Entre os Vândalos. E, enquanto cooptavam as gangues, os partidos de extrema direita seduziam os eleitores. Em 1984, por exemplo, a Frente Nacional obteve quase 11% dos votos dos franceses e elegeu 10 membros ao Parlamento Europeu. Um deles foi Dominique Chaboche, antigo membro do grupo Occident.

Itália - Fonte - http://www.thelocal.it/20130814/neo-nazis-prepare-to-party-in-Milan
Itália – Fonte – http://www.thelocal.it/20130814/neo-nazis-prepare-to-party-in-Milan

Para recuperar terreno, partidos de esquerda também assumiram o discurso xenófobo e racista. Entre eles o Partido Socialista (PS) francês e o Partido Comunista Italiano (PCI), que acusaram os imigrantes de macular a cultura nacional. O objetivo era frear a debandada de eleitores para a direita. O resultado foi desastroso. Judeus franceses estão arrumando malas para mudar para Israel por medo de perseguição. De janeiro a maio, 2,5 mil franceses emigraram, quatro vez mais que em 2013.

No fim dos anos 80, as células extremistas já haviam erguido uma rede internacional. Ela era articulada pelo alemão Michael Kühnen, o norueguês Erik Blücher e o belga Léon Degrelle, um ex-general de Hitler que vivia na Espanha e liderava o Círculo Espanhol de Amigos da Europa (Cedade). Kühnen revelou que era gay em 1986, quando estava preso por incitar à violência. Após sua morte em decorrência da aids, em 1991, o neonazismo na Alemanha foi levado adiante por Christian Worch.

Nos EUA, a rede cresceu graças a Willis Carto, fundador do Instituto para a Revisão Histórica (IHR) e do extinto Liberty Lobby – que publicava o jornal antissemita Spotlight. Timothy McVeigh, o terrorista que em 1995 detonou um caminhão-bomba em frente a um edifício em Oklahoma City, deixando 168 mortos e 700 feridos, era leitor assíduo do Spotlight. McVeigh colocou anúncios no jornal para vender munição.

Inglaterra - Fonte - www.birminghammail.co.uk
Inglaterra – Fonte – http://www.birminghammail.co.uk

Fascismo maquiado

O grande salto da extrema direita veio após o fim da URSS, em 1991. Grupos nacionalistas até então sufocados pelo regime soviético despontaram no Leste Europeu. Com o fim do comunismo e a social-democracia desmoralizada, os extremistas europeus capitalizaram nas urnas. Na Dinamarca, por exemplo, o Partido Popular obteve 13 cadeiras no Parlamento em 1998. “O ressurgimento do fascismo na Europa pós-Guerra Fria não é orquestrado por um ditador seguido por homens com camisas pardas e braçadeiras com suásticas”, diz o jornalista norteamericano Martin A. Lee no livro The Beast Reawakens (“A Besta Desperta”). “Uma nova geração de extremistas de direita, sintetizada pelo führer do Partido da Liberdade austríaco, Jörg Haider, adapta sua mensagem e seus modos aos novos tempos.”

Haider foi duas vezes governador do estado da Caríntia, na Áustria, e só não foi mais longe porque morreu num acidente de carro em 2008. Mas outros líderes como ele têm chegado lá. O búlgaro Volen Siderov ficou em segundo lugar nas eleições presidenciais em 2006. Seu partido, Ataka (“Ataque”), é hoje o quarto maior da Bulgária, com 23 cadeiras no Congresso.

Chile - Fonte - laprensa.peru.com
Chile – Fonte – laprensa.peru.com

Graças à internet, os extremistas propagam sua animosidade de forma simples e barata. Um dos primeiros sites de ódio foi o Stormfront, criado em 1995 por Don Black, ex-líder da Ku Klux Klan. Hoje o site conta com 250 mil membros e um fórum online com mais de 9 milhões de posts. A nebulosa virtual inclui o site Radio Islam, que dissemina propaganda antissemita em 23 idiomas. Esses portais seguem a tática de Hitler: usar a democracia para propagar mensagens antidemocráticas.

“Como a liberdade de expressão é um dos bens mais apreciados em qualquer democracia, ela não pode ser regulada de antemão. Cada caso tem que ser analisado”, diz Sergio Widder, representante do Centro Simon Wiesenthal para a América Latina. E nenhum país preza a liberdade de expressão mais do que os EUA. Isso explica por que muitos neonazistas hospedam seus sites em território norte-americano.

França - Fonte - www.vice.com
França – Fonte – http://www.vice.com

Por suas leis permissivas, os países escandinavos se transformaram em refúgio de extremistas. Não é à toa que o marroquino Ahmed Rami, fundador da Radio Islam, reside na Suécia. Redes de skinheads, como Combat 18 e Blood & Honour, também difundem sua mensagem através de DVDs, CDs e shows ao redor da Europa sob o olhar complacente da polícia.

“Precisamos encontrar respostas que se adaptem aos novos desafios. Não podemos confrontar o nazismo do século 21 da mesma forma que nos anos 80”, diz Widder. Em 2010, por exemplo, a Rússia proibiu a publicação de Minha Luta, a autobiografia de Hitler, para tentar conter o extremismo. Mas o livro está disponível na web, virou best-seller entre os ebooks e tem mais de 100 versões à venda na Amazon. “A obra de Hitler é uma fonte para quem estuda o nazismo. Não sei se proibir o livro é a melhor resposta. Vamos censurar o acesso à internet?”, diz Widder.

Encontrar respostas é difícil numa era em que a xenofobia existe até em governos democráticos – a França expulsou mais de 20 mil ciganos nos últimos anos. E o nazismo volta a assombrar quase sete décadas após a derrota alemã na guerra. Segundo estudo da Universidade de Leipzig, um em cada seis alemães orientais tendem à extrema direita. Em 2002, era só um em cada doze. Na Espanha, 18 mil tweets “#putosjudios” (putos judeus) foram postados após a vitória do Maccabi Tel Aviv sobre o Real Madrid, em maio passado, na Euroliga de Basquete – e houve comentários racistas durante a Copa do Mundo contra torcedores brasileiros.

Peru - Fonte - www.taringa.net
Peru – Fonte – http://www.taringa.net

“A História é cíclica: tende a se repetir. E ela nos mostra que esse tipo de ideologia é nocivo. Começa pequeno e vai crescendo por meio da demagogia, muitas vezes com um discurso maquiado”, diz Carlos Reiss, coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, único do gênero no Brasil. Aqui, aliás, páginas do Facebook cultuam a supremacia branca com ofensas a negros e índios. “Não somos racistas, somos orgulhosos”, proclama uma delas, que tem mais de 8 mil likes.

ELES ESTÃO ENTRE NÓS
Cresce o número de brasileiros envolvidos com o neonazismo

O neonazismo também se prolifera no Brasil, porém de forma mais clandestina do que na Europa. Os adeptos dificilmente mostram a cara em manifestações públicas, mas estão bem organizados e encontraram na internet o meio ideal para disseminar ideias antissemitas e racistas. Aproximadamente 150 mil brasileiros baixam mensalmente mais de 100 páginas com esse tipo de conteúdo, de acordo com a antropóloga Adriana Dias, que estuda o tema há 12 anos.

Brasil - Fonte - pt.wikipedia.org
Brasil – Fonte – pt.wikipedia.org

A pesquisadora mapeou o neonazismo no país e monitora o movimento na internet. Entre 2002 e 2009, o número de sites específicos saltou de 7,6 mil para 20,5 mil, um aumento de 170%. Nos últimos nove anos, o número de blogs cresceu mais de 550%.

A internet é hoje o meio de comunicação usado para expressar os mais variados tipos de intolerância. Em novembro de 2010, na eleição de Dilma Rousseff – a candidata mais votada no Nordeste –, 3 mil denúncias de manifestações preconceituosas nas redes sociais foram feitas na SaferNet Brasil, entidade de combate a crimes e violação aos direitos humanos na internet.

Com uma grande população de origem alemã, o Sul é a região de maior concentração de neonazistas. Em São Paulo e Distrito Federal, o movimento também vem crescendo, de acordo com o estudo. Não existe um pensamento único entre os neonazistas brasileiros. Em 2009, o estudante de arquitetura Bernardo Dayrell Pedroso, de 24 anos, uma liderança nacional de extrema direita que estava criando uma dissidência entre mineiros e paulistas, foi assassinado. Ele e a namorada, Renata Waeschter Ferreira, de 21 anos, foram mortos a tiros na volta de uma festa de comemoração dos 120 anos de Adolf Hitler.

Grupo de neonazistas de Niteroi-RJ, presos com seu material de propaganda, depois de terem agredido o natalense Cirley Santos - Fonte - http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/neonazistas-ovacionaram-hitler-antes-de-agredirem-nordestino
Grupo de neonazistas de Niteroi-RJ, presos com seu material de propaganda, depois de terem agredido o natalense Cirley Santos em 2013 – Fonte – http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/neonazistas-ovacionaram-hitler-antes-de-agredirem-nordestino

“Precisamos estar alertas para combater esse tipo de crime”, diz Anita Novinsky, professora da Faculdade de História da Universidade de São Paulo, ao se referir às manifestações racistas que proliferam na internet e ao crescimento de grupos radicais no país. “Não podemos esquecer que o nazismo ganhou corpo e criouuma política de extermínio em apenas seis anos na Alemanha.”

Anita veio da Cracóvia, Polônia, pouco antes da Segunda Guerra, com os pais, para escapar do massacre que estava por vir. Mas a maioria dos parentes dela foi parar em campos de concentração. “A mídia é capaz de transformar qualquer país em qualquer coisa. É muito perigoso, principalmente se houver apoio do governo. Por sorte, o Brasil é um país democrata, com leis rígidas para coibir a intolerância racial, de classes ou de gêneros”, afirma a professora.

O PERFIL DO INTOLERANTE
  • Há 300 grupos neonazistas, 90% deles se concentram em São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.
  • Os integrantes são brancos, homens e jovens. A maioria com ensino superior.
  • Para se inserir nas células, é necessário enfrentar um ritual de iniciação. Geralmente, espancar um negro ou judeu na rua.
  • Se aceito no movimento, o novato recebe senha para acessar um manual, que lhe dirá, entre outras coisas, como reconhecer um útero branco – a mulher perfeita para procriação de um neonazista.
  • Mulheres não são muito ativas no movimento.
  • A maioria tem dificuldade de socialização.
  • Acham que os brancos perderam o poder desde a eleição de Lula. Isso tem a ver com o preconceito contra nordestinos e à ascensão da nova classe média.
  • São fundamentalistas religiosos – o que ajuda a confundir liberdade religiosa com crimes de ódio.*
 

The Anatomy of the Fascism, Robert Paxton, Vintage, 2005

Entre os Vândalos, Bill Buford, Companhia de Bolso, 2010

The Beast Reawakens, Martin A. Lee, Routledge, 1999

Antissemitismo e Nacionalismo, Negacionismo e Memória, Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus, Unesp, 2006

PRECONCEITO E RACISMO CONTRA NORDESTINOS – FATO ANTIGO

ATÉ MÁRIO DE ANDRADE JÁ SE POSICIONOU CONTRA ISSO

Autor – Rostand Medeiros

Existe muita coisa de boa e de ruim do ser humano, mas certamente uma das piores é o preconceito e o racismo em relação as suas origens. E você só sabe como funciona este tipo de situação, e o quanto isso é perverso, apenas no dia que sente.

Em relação a este assunto, existe um movimento ocorrendo em São Paulo, terra maravilhosa e de muita gente boa, que revela uma situação triste e complicada.

Há um ano teve início um abaixo assinado divulgado na internet, do chamado “Movimento São Paulo para paulistas” http://tudoporsaopaulo2010.blogspot.com/

Sou uma pessoa que se impressiona muito com o preconceito e com o racismo, pois durante mais de dez anos trabalhei como Guia de Turismo em Natal, onde conheci e fui alvo de preconceito e racismo pelo fato de ser nordestino.

Ser nordestino, viver no Nordeste, me causa muito orgulho. Neste sentido os fatos que infelizmente tive o desprazer de presenciar foram mais amargos ainda, pois ocorreram na minha própria terra.

Lembro-me que, talvez devido ao fato de ter a pele clara, sempre me diziam que eu “-Não parecia com um nordestino!”. Na mesma hora eu respondia; “-Mas para você, como se parece um nordestino?”.  Daí, primeiramente, vinha a cara de surpresa, o risinho torto e sem graça, os olhos procurando algo perdido no espaço e as respostas mais ouvidas foram “-Ah, sei lá!”.

Quando havia alguma coisa errada na rua, como por exemplo, uma pessoa que jogava um papel na calçada, não faltava a sentença; “-Mas como nordestino faz besteira!”.

Outra coisa triste eram as comparações. Nunca consegui compreender como alguém gasta tanta grana para viajar, vem para outras cidades e, ao invés de curtir, fica ridiculamente fazendo comparações desairosas e negativas sobre o lugar visitado.

Ouvi muitas vezes a máxima que na nossa terra “só havia gente feia”. Afirmavam que sua região de origem do turista era diferente, pois lá o povo não era tão “misturado”. Misturado?

E por aí seguia.

Não vale nem a pena rememorar tais episódios de forma específica. Nem listar de forma ridícula “de qual estado vem os turistas mais racistas”, pois durante todo este tempo de luta no turismo, estes fatos negativos foram poucos.

Essa é a nossa unica imagem quando se fala em Nordeste?

Mas, infelizmente ocorreram e o ruim é que dá uma raiva difícil de esquecer!

Coisa Antiga

Mas voltando ao caso do triste e vergonhoso movimento paulista. O pior é que este tipo de preconceito, de racismo contra os nordestinos, não é novidade.

Anteriormente, principalmente para fugir da seca, o pobre sertanejo da nossa região seguia para o norte do país, para a Amazônia em busca do sonho da borracha e da terra cheia de florestas e rios. Mas houve o momento em que o destino mudou e no final da década de 1920 teve início o movimento de migração de nordestinos em direção a São Paulo. Logo começaram as críticas contra a chegada destas pessoas.

Em 1929 havia a ideia que nordestinos “desocupados e preguiçosos” eram trazidos para São Paulo para “vadiarem” na grande metrópole. Mas ouve vozes em contrário. Uma delas veio de um paulista de renome, ninguém menos que Mário de Andrade.

Em um artigo originalmente publicado em março de 1929, no jornal paulista “Diário Nacional”, tendo sido reproduzido integralmente no jornal natalense “A Republica”, no dia 7 de abril de 1929, o autor de “Turista Aprendiz”, mesmo iniciando o artigo afirmando que não iria “entrar nessa discussão sobre imigração nordestina”, faz uma defesa do trabalhador da nossa região que estava no seu estado.

Mário de Andrade

TRABALHADOR NORDESTINO

Mário de Andrade

Não pretendo entrar nessa discussão sobre imigração nordestina, que anda ascendendo ardores por aí. Discussão que deu lugar a patriotismos regionalistas muito detestáveis. Antipatrióticos.  E me parece que mal colocada. Excetuada alguma nota rara de visão exata (Amadeu Amaral, Antonio Bento de Araújo Lima), o problema foi tratado debaixo de uma mentalidade capitalista e não propriamente econômica.

Ainda outra coisa que ninguém distinguiu foi entre “proletário” nordestino e “desocupado” nordestino. Homem do campo. Homem da cidade. Em todas as cidades deste mundo se ajunta sempre uma população mariposa. A cidade atrai. Uma gente fraca, e o que é pior, dotada de todas as “habilidades” que a fraqueza engendra, vem chamada por esta atração. E fica por aí, na barra da saia da cidade, mariposando, vivendo de expedientes, na folga dos biscates. De fato essa gente vadia. E “vadeia” que no Nordeste significa brincar, cantar, dançar, se divertir.

E essa psicologia romântica do verbo “vadiar” nos da bem um elemento pra aquilatar da capacidade do homem do povo nordestino. Não se pode chamar de “vadiação” ao caso do individuo que vai pra city das cidades, a espera e trabalho. Muito menos ao fato do sertanejo na seca, rodeado pelo gado, estar esperando a hora de queimar o xiquexique pra criação comer. Esse mesmo homem é capaz de agüentar léguas a pé e tem capacidade física formidável. Basta ver o que é um samba ( ), um coco violento, durando a noite, para saber do que são capazes fisicamente os homens e mulheres nordestinos. A própria condição da vida nordestina em certas zonas, a do gado, a da carnaúba, é que obriga a longas estiagens de trabalho econômico. Porem, no vale do Assu, (carnaúba) pór exemplo, se diz que não tem noite sem samba. O proletário exerce nas noites a atividade que não teve por onde exercer durante o dia. E por isso o verbo “vadiar” mudou de sentido lá. Significa o brinquedo: o exercício às vezes duma fadiga inclemente, prodígio de esforço físico e habilidade. Ora o brinquedo é sempre uma transposição de atividades que não podem ser exercidas.

Porem não quero negar a existência do desocupado urbano nordestino. Existe como existe em S. Paulo, em Montevidéu, em Paris. E a psicologia do desocupado, do homem… da fuzarca, é a mesma por toda parte. Os agentes em busca de colonos pras fazendas não se dão ao trabalho de dias inteiros através do sertão, arrebanhando gente. Chegam nos portos e pegam as mariposas do biscate. Está claro que virá muito colono ruim assim. Mariposa não se transforma em proletário do dia pra noite Mas também sei de fazendeiro que coloniza a propriedade só com nordestinos. Porem não fia em agente. Manda, mas é o próprio sertanejo nordestino que já tem na fazenda, trabalhador, colono excelente, buscar os conhecidos dele, lá de Catolé do Rocha, de Martins, do Seridó, gente boa.

Descendente de índio ou africano o proletário nordestino conserva disso a psicologia de quem foi muito dominado e abatido. É manso. É bem mandado. É de uma obediência servil. Vive no Nordeste uma diferenciação de classes que me chocou. Às vezes me feriu mesmo. Não é a toa que nos últimos tempos está se dando uma recrudescência no emprego da expressão “senhor de engenho”. No geral iniciativa do proletário é circunscrita ao mínimo possível pelo “seu doutor”, que significa homem de gravata. Também pra explicar a psicologia do cangaceiro nordestino, o argumento dele se revoltar contra as injustiças da justiça me parece fácil por demais. Há sem duvida no cangaceiro um fundamento mais secular de revolta contra a injustiça social das classes. E contra a escravidão que, se perdeu a base de compra e venda, não perdeu o sentido de obediência e mando.

Quanto ao argumento que o proletário nordestino raro enriquece aqui, é argumento capitalista e não econômico.

Malfadado por uma terra que acumula omissões, o homem do povo nordestino se rege pelo “primo vivere”. É a psicologia da fome, mais dramática que condenável. Quando vem pro sul ganha fácil. Então se deslumbra. Vê tudo fácil, gasta, não amontoa. Fenômeno perfeitamente explicável em quem atinge terras de aventura capitalista. Se deu na Califórnia e no Alasca. No sul da África. Na Argentina e Brasil. Em S. Paulo, terra de aventura, tem centenas de estrangeiros que fazem o mesmo. Antes e depois de ricos. Porque a riqueza não justifica, os luxos rastaqüeras. Mas nós não censuramos o senhor conde Matarazo que esbanja um trust num monumento tumular ridículo. Porem por causa do proletário nordestino não se adaptar desde logo a mania de ajuntar ouros… a Prefeitura abre portãozinho  para quanto ricaço esbanje chique. Pelo menos que soubesse abrir portões maravilhosos, que nem os que a gente encontra em cemitérios nordestinos, o de Arez, o de Goianinha, o de Augusto Severo, por exemplo. Portões que nordestino fez. Mas os nossos problemas não tratam de civilização, de cultura, de economia. Se resumem a cócegas de capitalização.

O mais engraçado é que todos acabaram reconhecendo que o proletário é excelente. Porquê e praquê tanta birra então? Nós vivemos no geral suspeitos às franjas dos problemas brasileiros. Em vez de atacarmos diretamente os problemas, vivemos desbastando as superfícies dum instrumento malfeito. É o que o caracteriza, desde a Monarquia, a desídia nossa.

(Do “Diário Nacional”, de São Paulo)

O Conhecimento de Mário de Andrade Sobre o Nordeste

Percebemos que os apontamentos do escritor Mário de Andrade neste artigo certamente surgiram a partir das experiências do autor nas suas duas viagens pelo Norte e Nordeste do Brasil. Nestas aventuras etnográficas, Mário desejava conhecer o Brasil e o povo brasileiro. Elege o Norte e o Nordeste como regiões privilegiadas do que deveria visitar e realiza seus objetivos em duas distintas viagens de estudo e pesquisa.

Mário pesquisando o Brasil

Na sua segunda viagem ele demora-se no Nordeste em trabalho de coleta de documentos musicais, conhecendo músicas de “feitiçaria”, cocos, danças dramáticas, romances, cantos de trabalho. Quando esteve no Rio Grande do Norte no final de 1928, conheceu muita coisa na companhia de intelectuais locais, registrou em fotos as paisagens, a arquitetura, o sertão e a população dos locais visitados.

Mário de Andrade passa a escrever no jornal “Diário Nacional” a partir de 1927, onde publica a maior parte de sua produção, entre críticas, contos, crônicas e poemas, até 1932, quando o jornal é fechado. O “Diário Nacional” era o órgão noticioso do Partido Democrático, agremiação política a qual Mário de Andrade era filiado. Respondia pela redação do periódico Sérgio Milliet, Antônio Carlos Couto de Barros e Amadeu Amaral.

É Combatido

Percebo que este preconceito, este racismo regionalista existente no Brasil, só tende a crescer na medida em que crescem as nossas eternas e futuras crises econômicas, políticas, sociais, morais, éticas, etc., etc. É como uma espécie de válvula de escape para superar as frustrações de um momento.

Ainda bem que vivemos em uma democracia, onde todos tem o direito de manifestarem as suas ideias e por sorte existem pessoas que não se conformam com as ações preconceituosas e racistas, como a realizada pelo “Movimento São Paulo para paulistas”. Uma manifestação interessante sobre este movimento veio do jornalista Paulo Henrique Amorim, que mostra de forma clara e inteligente o que pensa quem cria este tipo de coisa.

Veja o link; http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/11/08/o-que-pensa-quem-quer-sp-so-para-paulistas/

Ainda bem que depois de um ano ativo, pelo menos até a manhã de 24 de maio de 2011, o triste movimento “Movimento São Paulo para paulistas”, possuía 1849 assinaturas.

E, infelizmente, Também Existe Aqui

Como já senti o preconceito e o racismo pelo simples fato de ser de onde sou, é inevitável que dentre todas estas ações preconceituosas e racistas existentes por aí,  a que me chama mais a minha atenção é o que ocorre contra estrangeiros.

No passado muitos imigrantes vindos de outros países sofreram inúmeras formas de racismo ao desembarcarem no “grande país tropical”.

Assim ocorreu quando japoneses chegaram a mais de 100 anos e se tornaram alvo de fortes críticas e perseguições. Ou como aconteceu com os sírios e libaneses, que aqui eram chamados pejorativamente de “Turcos”. Ou com os “branquelos” alemães. No topo da lista não podemos esquecer os portugueses, que vinha da “terrinha” para serem alvos de eternas piadas.

Mesmo a distante China, que nem tinha tantos imigrantes no Brasil em épocas passadas, ficou conhecido como o país onde tudo que não prestava era mandado para lá. Era o famoso “Vai prá China!”, que tinha o mesmo significado de “Vai para aonde o diabo te carregue”.

Afora que, tudo que é mal feito em termos de produtos manufaturados vem do Paraguai e também da China.

E por aí vai.

Mas o irônico é que as piadas com os portugueses e a mania de se mandar tudo que não presta para a China diminuíram na medida que estes países ganharam mais prestígio no cenário mundial.

Será que estas manifestações de preconceito e racismo é algo inerente ao DNA de todos os seres humanos que vivem na Terra?

Não sei, mas como existem quase 2.000 pessoas que assinam este tipo de manifesto público, infelizmente, em nossa querida Natal, igualmente existe preconceito e racismo.

No caso potiguar, os preconceitos e os racismos são múltiplos. Focados muitas vezes em quem tem mais que outros, na cor da pele, onde mora, qual seu sobrenome, a sua família, de onde se vem e outros mais.

Por aqui eu percebo que uma das coisas que mais incomoda muita gente é a miscigenação dos estrangeiros na “Capital Espacial do Brasil”.

Devido ao fato dos estrangeiros se casarem com potiguares morenas, de origem humilde, oriundas do interior, ou da Zona Norte de Natal, se diz que eles “só gostam de negas”.

Se você que está lendo este artigo e, por acaso, acha que não existe preconceito e racismo em Natal, é porque você é igual aos que participam do “Movimento São Paulo para paulistas” e devia assinar o manifesto.

Siga estas ideias

P.S.- Segundo site http://preconceitoouracismo.zip.net/, a diferença entre preconceito e racismo é a seguinte;

Preconceito: Atitude discriminatória que baseia conhecimentos surgidos em determinado momento como se revelassem verdades sobre pessoas ou lugares determinados. Costuma indicar desconhecimento pejorativo de alguém ao que lhe é diferente.

Racismo: É a tendência do pensamento, ou do modo de pensar em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas e superiores umas às outras. Onde existe a convicção de que alguns indivíduos e sua relação entre características físicas hereditárias, e determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais, são superiores a outros.

Mas para mim é tudo terrível e sofremos da mesma maneira.

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.