QUANDO UM ÁS DA AVIAÇÃO ALEMÃO FEZ AMIZADE COM UM PRISIONEIRO DE GUERRA PRETO SUL-AFRICANO E DESAFIOU OS NAZISTAS!

Peter Dickenshttps://samilhistory.com/2016/12/29/german-ww2-fighter-ace-befriends-a-black-south-african-pow-and-defies-the-nazi-status-quo/

Esta fotografia é extraordinária por diversos motivos.

Nela, vemos o Hauptmann (Capitão) Hans-Joachim Marseille, o ás da aviação alemã da Segunda Guerra Mundial conhecido pelas Forças do Eixo como “A Estrela da África”, à extrema esquerda, e o Cabo Mathew ‘Mathias’ Letulu, um prisioneiro de guerra sul-africano que foi forçado a se tornar seu “batman” (assistente pessoal de um oficial) em 1942, mas que acabou se tornando seu amigo íntimo, à extrema direita da fotografia.

É bastante intrigante que Hans-Joachim Marseille tivesse um assistente sul-africano, por um lado, quando, por outro, ele era o piloto alemão mais temido na campanha do Norte da África, indiscutivelmente um dos melhores pilotos de combate que o mundo já viu. Ele acumulou um número considerável de aeronaves da Força Aérea Sul-Africana destruídas, totalizando mais de 100 aeronaves aliadas – principalmente da Força Aérea Real (RAF), da Força Aérea Real Australiana (RAAF) e da Força Aérea Sul-Africana (SAAF).

Hauptmann (Capitão) Hans-Joachim Marseille

É igualmente uma demonstração do caráter de Hans-Joachim Marseille como pessoa, visto que ele se opôs diretamente às políticas nazistas de segregação racial e fez amizade abertamente com um homem preto, o que é especialmente surpreendente considerando seu papel como oficial superior da Força Aérea Alemã (Luftwaffe) e herói do Reich.

Com o tempo, Marseille e “Mathias” Letulu tornaram-se inseparáveis. Marseille estava preocupado com a forma como Letulu seria tratado por outras unidades da Wehrmacht e certa vez comentou:

“Para onde eu for, Mathias vai.”

Cabo Mathew ‘Mathias’ Letulu

Marseille obteve a promessa de seu comandant.e superior, Neumann, de que, caso algo lhe acontecesse, o cabo “Mathias” Letulu permaneceria na unidade. Um comportamento incomum para um oficial alemão no Terceiro Reich, mas Marseille não era filiado ao partido nazista; na verdade, ele os desprezava.

Não Era Um Nazista

Em termos de personalidade, Hans-Joachim Marseille era o oposto de um oficial alemão altamente disciplinado; ele era “o engraçadinho” e quase foi expulso da Luftwaffe diversas vezes por suas travessuras. A única razão pela qual não foi expulso foi porque seu pai era um veterano de alta patente da Primeira Guerra Mundial e oficial do exército, e Hans-Joachim Marseille testou os limites dessa proteção.

Se você procurar “canalha desordeiro” no dicionário, deve encontrar uma foto do rosto sorridente de Hans ao lado. Em uma ocasião, ele chegou a metralhar o chão em frente à tenda de seu superior. Só por isso, ele poderia ter sido levado à corte marcial, mas a essa altura já estava demonstrando suas habilidades superiores de piloto, consolidando-se como um futuro ás da aviação de caça.

Comandante de esquadrão popular. Fonte da imagem: facebook.com/pages/category/Public-Figure/Hans-Joachim-Marseille

Ele odiava os nazistas e desprezava a autoridade em geral, tendo sempre tido uma relação tensa com seu pai autoritário, que era o modelo de um oficial prussiano rigoroso. Hans era verdadeiramente o oposto de seu pai.

Seus biógrafos americanos, Colin Heaton e Anne-Marie Lewis, relembram em “A Estrela da África” ​​que ele certa vez parou na Autobahn simplesmente para urinar. Cansado de seu comportamento indisciplinado, um oficial superior o transferiu para o Norte da África em 1941. Lá, ele prosperou, seu currículo brilhante lhe rendeu a Cruz de Cavaleiro com Folhas de Carvalho, Espadas e Diamantes, e aclamação em seu país. Mas os registros sugerem que ele não era um nazista fervoroso.

Durante o treino. Crédito da imagem: facebook.com/pages/category/Public-Figure/Hans-Joachim-Marseille

Ele ouvia abertamente música jazz proibida, bebia muito e às vezes aparecia para o serviço com cheiro de álcool e de ressaca; era um notório mulherengo, indo contra a ideologia nazista de todas as maneiras possíveis – e saindo impune.

Aconteceu um incidente que realmente demonstra a fibra e a atitude do homem. Ocorreu quando Hans-Joachim Marseille foi convocado a Berlim, pois Hitler queria lhe entregar condecorações. Como pianista talentoso, Marseille foi convidado a tocar uma peça na casa de Willy Messerschmitt, industrial e projetista do caça Messerschmitt Bf 109, com o qual Marseille havia obtido tanto sucesso.

Entre os convidados da festa estavam Adolf Hitler, o presidente do partido, Martin Borman, o vice de Hitler e comandante-em-chefe da Luftwaffe, Hermann Göring, o chefe da SS, Heinrich Himmler, e o ministro da Propaganda do Reich, Joseph Goebbels. Depois de impressioná-los com uma apresentação de piano de mais de uma hora, incluindo a obra “Für Elise”, de Ludwig van Beethoven, Marseille passou a tocar jazz americano, considerado degenerado pela ideologia nazista. Hitler se levantou, ergueu a mão e disse: “Acho que já ouvimos o suficiente” e saiu da sala.

Magda Goebbels achou a brincadeira divertida e Artur Axmann lembrou como seu “sangue gelou” ao ouvir aquela música “Ragtime” sendo tocada na frente do Führer.

Mas um episódio ainda mais revelador sobre sua atitude em relação ao nazismo estava por vir. Em uma ocasião, quando foi convocado à Alemanha, ele notou que judeus haviam sido removidos de sua vizinhança (incluindo o médico de sua família, que o havia trazido ao mundo) e questionou seus colegas oficiais sobre o que havia acontecido com eles – o que ele então ouviu foram os planos para a Solução Final – o extermínio dos judeus da Europa. Isso o chocou profundamente e ele desertou, tornando-se um desertor de fato e indo para a Itália, onde se escondeu na clandestinidade.

O Messerschmitt Bf-109F-4, do esquadrão JG27, pilotado por Hans-Joachim Marseille – Quadro de Arkadiusz Wróbel

A Gestapo (Polícia Secreta) nazista alemã, no entanto, conseguiu localizá-lo e o obrigou a retornar à sua unidade, onde outros pilotos notaram que ele parecia profundamente deprimido e preocupado, completamente diferente da pessoa alegre a que estavam acostumados.

Amizade Com o Cabo Mathew Letulu

A amizade de Marseille com seu “batman” (ajudante pessoal) também é usada para mostrar seu caráter antinazista. Em 1942, Marseille fez amizade com um prisioneiro de guerra do Exército Sul-Africano, o cabo Mathew Letulu. Marseille o acolheu como ajudante pessoal em vez de permitir que ele fosse enviado para um campo de prisioneiros de guerra na Europa.

“Mathias” era o apelido dado ao cabo Mathew Letulu por seus captores. O cabo Letulu fazia parte do Corpo Militar Nativo Sul-Africano e foi feito prisioneiro de guerra pelos alemães na manhã de 21 de junho de 1942, quando Tobruk e as tropas sul-africanas que a defendiam, sob o comando do General Klopper, foram invadidas pelo Marechal de Campo Erwin Rommel.

Marseille com um Hawker Hurricane MkIIB do Esquadrão 274 da RAF, Norte da África – 30 de março de 1942. Fonte da imagem: samilhistory.com

Os prisioneiros de guerra pretos recebiam tratamento diferenciado dos prisioneiros de guerra brancos pela Alemanha nazista. Em vez de serem simplesmente confinados conforme as convenções, os prisioneiros africanos eram submetidos a “trabalho” não remunerado, auxiliando a causa nazista, cuja resistência resultava em um desfecho terrível. Letulu foi colocado para trabalhar pelos alemães – inicialmente como motorista. O veículo pertencia ao 3º Esquadrão da Jagdgeschwader – ou Ala de Caça – 27 (JG 27), baseado em Gazala, 80 km a oeste de Tobruk. Lá, Letulu chamou a atenção do audacioso e romântico Hans-Joachim Marseille.

Nessa altura, Letulu já tinha progredido um pouco na sua carreira, tornando-se ajudante no casino do clube do 3º Esquadrão, onde desenvolveu uma afeição especial por Marseille. Como os oficiais alemães precisavam de assistentes pessoais (conhecidos no meio militar como “batman”), alguns prisioneiros de guerra foram recrutados, e com Hans-Joachim Marseille não foi diferente. O cabo Letulu foi inicialmente contratado como seu batman, mas rapidamente se tornou um amigo próximo.

Marseille sabia que, à medida que seu número de mortes aumentava, a chance de ser retirado da linha de frente crescia a cada dia, e se isso acontecesse, o cabo “Mathias” Letulu, que por ser preto, poderia estar em perigo devido à filosofia racial nazista. Com a maior seriedade, ele fez com que seu colega piloto, Ludwig Franzisket, prometesse se tornar o protetor de Mathias caso Marseille perdesse a capacidade de desempenhar essa função.

O cabo Letulu também sabia que, permanecendo com Marseille, teria uma chance maior de sobreviver à guerra e, eventualmente, escapar. Além disso, como ambos tinham uma relação extremamente positiva, Letulu fez o possível para que a vida de Marseille na zona de combate fosse a mais confortável possível.

O seguinte trecho sobre o vínculo único entre eles foi extraído de “German Fighter Ace – Hans-Joachim Marseille, The life story of the Star of Africa” de Franz Kurowksi.

Por algumas estranhas reviravoltas do destino, Hans designou Mathew como seu assistente pessoal, mas o tratou em todos os sentidos como um amigo, tendo longas conversas com ele e possivelmente até compartilhando bebidas alcoólicas e ouvindo música juntos, simplesmente passando tempo como dois amigos que por acaso estavam em uma guerra e em lados opostos.

Além de Mathew, Hans frequentemente encontrava outros pilotos aliados capturados e conversava com eles em inglês, socializando. Hans também desobedecia a ordens diretas de não informar o inimigo sobre o destino de seus pilotos – ele decolava sozinho com um bilhete de paraquedas explicando os nomes dos pilotos capturados e que estavam vivos e bem. Ao sobrevoar aeródromos inimigos para lançar esses bilhetes, ele era atacado por fogo antiaéreo, arriscando assim a própria vida para informar às famílias dos pilotos inimigos que eles estavam vivos e bem – ou mortos, removendo assim o status de MIA (Desaparecidos em Ação). Segundo diversas fontes, ele era assim: uma pessoa que acreditava na cavalaria e cujo país foi ocupado pelos nazistas.

Com o tempo, Hans se tornaria ainda mais protetor com Mathew, especialmente contra os nazistas.

Fonte da Imagem – giftedsofia.com

A “Estrela da África”

O recorde de Hans-Joachim Marseille de 151 vitórias no Norte da África foi nada menos que impressionante – ele destruiu esquadrões Aliados (RAF, SAAF e RAAF) abatendo cento e um (101) caças Curtiss P-40 Tomahawk/Kittyhawk, 30 caças Hawker Hurricane, 16 caças Supermarine Spitfire, dois bombardeiros Martin A-30 Baltimore, um bombardeiro Bristol Blenheim e um bombardeiro Martin Maryland.

Como piloto de caça, Marseille sempre se esforçou para aprimorar suas habilidades. Ele trabalhou para fortalecer as pernas e os músculos abdominais, para ajudá-lo a tolerar as forças G extremas do combate aéreo. Marseille também bebia uma quantidade anormal de leite e evitava usar óculos de sol, para melhorar sua visão.

Apresentado com um Volkswagen Kübelwagen pintado com a inscrição “Otto” (Otto = oito) . 
Fonte da imagem: facebook.com/pages/category/Public-Figure/Hans-Joachim-Marseille

Para neutralizar os ataques dos caças alemães, os pilotos aliados voavam em “círculos de Lufbery” (nos quais a cauda de cada aeronave era coberta pela aeronave amiga atrás). A tática era eficaz e perigosa, pois um piloto que atacasse essa formação podia se encontrar constantemente na mira dos pilotos inimigos. Marseille frequentemente mergulhava em alta velocidade no meio dessas formações defensivas, tanto por cima quanto por baixo, executando uma curva fechada e disparando um tiro de deflexão de dois segundos para destruir uma aeronave inimiga.

Marseille atacou em condições consideradas desfavoráveis ​​por muitos, mas sua pontaria permitiu que ele se aproximasse com rapidez suficiente para escapar do fogo de resposta das duas aeronaves que voavam em cada flanco do alvo. A excelente visão de Marseille possibilitou que ele avistasse o oponente antes de ser avistado, permitindo-lhe tomar as medidas apropriadas e manobrar para a posição de ataque.

Em combate, os métodos pouco ortodoxos de Marseille o levaram a operar em uma pequena unidade líder/ala, que ele acreditava ser a maneira mais segura e eficaz de lutar nas condições de alta visibilidade dos céus do Norte da África. Marseille “trabalhava” sozinho em combate, mantendo seu ala a uma distância segura para que não colidisse com ele ou atirasse nele por engano.

Hans-Joachim Marseille com Erwin Rommel e outros, Líbia, 16 de setembro de 1942. Fonte da imagem: Pinterest

Em combates aéreos, especialmente ao atacar aeronaves aliadas em círculo de Lufbery, Marseille frequentemente preferia reduzir drasticamente a potência e até mesmo baixar os flaps para diminuir a velocidade e encurtar o raio de curva, em vez do procedimento padrão de usar potência máxima o tempo todo. Emil Clade afirmou que nenhum dos outros pilotos conseguia fazer isso com eficácia, preferindo mergulhar sobre oponentes isolados em alta velocidade para escapar caso algo desse errado.

As ligações de Marseille com a África do Sul iam além de seu vínculo com o Cabo “Mathias” Letulu e eram muito mais letais em relação aos pilotos sul-africanos. Nas semanas anteriores ao encontro dos dois, Marseille é creditado por ter abatido três pilotos da Força Aérea Sul-Africana a oeste de Bir-el Harmat, em 31 de maio, incluindo o Major Andrew Duncan, ex-aluno da Bishops (que morreu em combate), e três dias depois, outros seis pilotos da Força Aérea Sul-Africana em apenas 11 minutos, três dos quais eram ases da aviação. Um deles, Robin Pare, morreu em combate.

Morte do Capitão Hans-Joachim Marseille

Em 30 de setembro de 1942, o brilhante recorde de Marseille, com um total de 158 vitórias na carreira, chegou ao fim (151 delas com o JG 27 no Norte da África).

Messerschmitt Bf 109F-4, Hans Joachim Marseille, imagem colorizada. Fonte da imagem: samilhistory.com

Após o motor de seu caça Bf 109G apresentar sérios problemas, ele saltou de paraquedas próximo a território amigo, sob o olhar atento de seus companheiros de esquadrão. Para horror deles, o caça de Marseille caiu inesperadamente em um ângulo acentuado no momento do salto, com o estabilizador vertical atingindo-o no peito e no quadril. Ele morreu instantaneamente ou ficou inconsciente; em ambos os casos, seu paraquedas não abriu e ele caiu a cerca de 7 quilômetros ao sul de Sidi Abdel Rahman, no Egito.

Seu amigo e companheiro piloto da JG 27, o capitão Ludwig Franzisket, condecorado com a Cruz de Cavaleiro, juntamente com o cirurgião do esquadrão, Dr. Winkelmann, foram os dois primeiros a chegar ao local, trazendo os restos mortais de Marseille de volta à base.

Mathias foi o primeiro a cumprimentá-los, e o relato a seguir foi extraído das memórias de Wilhelm Ratuszynski.

Local da queda da aeronave de Marseille, chamado Memorial Pirâmide Hans Joachim Marseille (Bf 109 G-2/trop WK-Nr. 14256). Fonte da imagem: tracesofwar.com

Embora o calor não incentivasse nenhuma atividade, algo dizia a Mathias para lavar as roupas de Hans. Hans gostava de vestir um uniforme limpo depois do voo. Ele sempre gostava de estar apresentável. Mathias optou por usar gasolina desta vez. As roupas secariam em poucos minutos.

Normalmente, isso era feito esfregando os uniformes com areia para remover o sal, o óleo e a sujeira. Tudo era escasso. Ser ordenança pessoal de Hans-Joachim Marseille, o piloto mais famoso da Luftwaffe, tinha suas vantagens. Por exemplo, ele recebia um pouco de combustível de avião para lavar os uniformes. Mathias gostava de ser servo de Jochen e gostava do próprio Jochen.

Fonte da imagem: findagrave.com/memorial/81058613/hans_joachim-marseille

Eles eram amigos. Mathias mal havia começado sua tarefa quando o som de aeronaves se aproximando sinalizou para a equipe de solo que era hora de trocar a letargia pela atividade. Mathias colocou a tampa nos uniformes encharcados e começou a caminhar em direção à aeronave que estava pousando. Ele procurava um avião familiar que deveria ter o número 14 pintado em amarelo visível na fuselagem. Era para ser o último a pousar. Ele notou que três aviões estavam faltando e que o último a tocar o solo tinha um número diferente.

Sem se alarmar, ele se virou para Rudi, que já havia saltado da asa de seu 109. Viu Mathias se aproximando e interrompeu a conversa com seu mecânico. Seu rosto estava sombrio quando olhou para Mathias e balançou a cabeça lentamente. E Mathias entendeu imediatamente. Continuou olhando fixamente para o rosto de Rudi por mais alguns segundos, virou-se devagar e foi embora. Percebeu uma sensação estranha. Nenhuma raiva, tristeza, pesar ou resignação. Estava calmo, mas algo lhe apertava a garganta. Os músculos do pescoço se contraíram e ele teve dificuldade para engolir. Caminhou por alguns minutos sem notar os outros que o observavam. Chegou ao colorido Volkswagen de Jochen, chamado “Otto”, e sentou-se ao volante. Por um instante, pareceu querer ir a algum lugar, mas saiu do carro e se aproximou dos uniformes encharcados.

Marseille tocou jazz americano no piano de Messerschmitt na frente de Adolf Hitler. Crédito da imagem: samilhistory.com

Ele olhou para a sacola de lona com as iniciais HJ.M. ao lado. Levou a mão ao bolso do peito em busca de fósforos. Lentamente, mas sem hesitar, acendeu um fósforo e o jogou sobre a roupa. As chamas que irromperam aumentaram o calor já escaldante. Nesse instante, os últimos fogos de artifício começaram a cair. Mathias instintivamente ergueu a cabeça, acompanhando-os. O nó em sua garganta aumentou.

Embora todo o esquadrão estivesse devastado com a perda de um ás da aviação tão importante, Mathias, apesar de conhecer Marseille há pouco tempo, ficou profundamente deprimido com a perda de um querido amigo.

Marseille foi inicialmente sepultado em um cemitério militar alemão em Derna, na Líbia, durante uma cerimônia que contou com a presença de líderes como Albert Kesselring e Eduard Neumann. Posteriormente, seus restos mortais foram transferidos para Tobruk, também na Líbia.

Pirâmide de Marselha vista do oeste, Sidi Abd el-Rahman, Egito. Fonte da imagem: wikimedia.org

A Proteção de Ludwig Franzisket

Após a morte de Marseille, conforme prometido ao amigo, o Hauptmann Ludwig Franzisket acolheu o Cabo Letulu, que por sua vez se tornou seu assistente pessoal. O Cabo Letulu permaneceu no Esquadrão mesmo depois de Franzisket ter sido forçado a saltar de paraquedas, ocasião em que também atingiu o estabilizador vertical, fraturando uma perna. Após se recuperar, Franzisket retornou ao seu Esquadrão e o Cabo Letulu continuou a servi-lo na Tunísia, Sicília e, finalmente, na Grécia.

No verão de 1944, a situação na Grécia tornou-se crítica, com a iminente invasão britânica do continente grego. Surgiu então a oportunidade de “contrabandear” o cabo “Mathias” Letulu para um dos campos de prisioneiros de guerra improvisados, onde ele poderia ser “libertado” pelos britânicos. Franzisket planejou esse golpe em conjunto com o capitão Buchholz. “Mathias” voltou a ser “Mathew” e tornou-se cabo na Divisão Sul-Africana. Tudo correu sem problemas. Ele foi libertado pelas tropas britânicas em setembro de 1944 e autorizado a retornar para casa após o fim das hostilidades.

Fonte da imagem: Pinterest

Reunião em 1984

Por coincidência, após a guerra, antigos membros da JG 27 descobriram que o Cabo “Mathias” Letulu ainda estava vivo. Imediatamente enviaram-lhe um convite, pagaram a viagem e outras despesas e, finalmente, no décimo reencontro do Deutsches Afrikakorps, no outono de 1984, reencontraram-se com o seu antigo amigo sul-africano.

Os antigos pilotos ficaram radiantes ao vê-lo e os convites choveram de todos os lados. As palavras a seguir, proferidas em alemão como uma homenagem a Hans-Joachim Marseille por “Mathias” Letulu, no feliz desfecho de sua jornada, oferecem uma ideia do vínculo que uniu Letulu a seu amigo alemão:

“O Hauptmann Marseille era um grande homem e uma pessoa sempre disposta a ajudar. Ele era sempre bem-humorado e amigável. E foi muito bom para mim. ”

Em 1989, uma nova lápide e uma nova placa foram colocadas em seu túmulo; os camaradas sobreviventes da Luftwaffe de Marseille compareceram ao evento, incluindo seu amigo aliado – Mathew “Mathias” Letulu, que voou da África do Sul especialmente para participar da cerimônia.

O MOSQUITO ANOPHELES GAMBIAE – COMO O BRASIL ABATEU UM INVASOR

A inigualável realização cientifica do Brasil — o extermínio do mortífero mosquito gambiae — salvou o continente americano de uma praga letal.

Por Lois Mattox Miller[1] – Publicado na Revista Seleções do Reader’s Digest, edição de fevereiro de 1942, págs. 62 a 66[2]. Condensado do jornal “Correio da Manhã”, Rio de Janeiro.

NOTAS COMPLEMENTARES DO BLOG TOK DE HISTÓRIA AO FINAL DO TEXTO.

Em 1930, quando poucos se preocupavam ainda com a defesa do Novo Mundo, uma pequena turma de agentes secretos, sedentos de sangue, saídos da África Ocidental, atravessou o Atlântico Sul para desembarcar em Natal. Não tardou que os efeitos dessa missão de morte se fizessem notar.

Publicado na Revista Seleções do Reader’s Digest, edição de fevereiro de 1942, págs. 62 a 66. Condensado do jornal “Correio da Manhã”, Rio de Janeiro.

Dúzias, depois centenas, e enfim milhares de pessoas adoeceram em Natal. A face se punha pálida ou cor de chumbo; o corpo torturado de sofrimento era alternadamente consumido por febres devoradoras e sacudido de arrepios atrozes. “Malária” diagnosticaram os médicos. Mas aquele não era precisamente o tipo de malária endêmica dos trópicos e regiões subtropicais da América.

Alguns sábios médicos, que já tinham visto a malária sob o seu pior aspecto em outras regiões do mundo, pensavam coisas que nem sequer ousavam dizer em voz alta. Não tardou que um caçador de mosquitos aparecesse para confirmar as mais graves de suas suspeitas.

O Dr. Raymond C. Shannon, entomologista da Fundação Rockefeller[3], adido ao Serviço de Combate à Febre Amarela no Brasil, andava perto de Natal procedendo a sua verificação habitual de águas de chuvas retidas em barricas, estradas e caminhos, quando encontrou um mosquito que lhe pareceu estranho naquela região. No laboratório, o Dr. Shannon meteu o prisioneiro sob a objetiva do microscópio, lançou lhe um rápido olhar, e não pôde reter uma exclamação de assombro.

Atuação do mosquito anófeles gambiae no Rio Grande do Norte.

Pela primeira vez na história, o gambiae — o mais mortífero de todos os mosquitos transmissores da malária, e precisamente aquele que fez da África Ocidental um inferno de doença e morte — tinha invadido o Novo Mundo!

Mas de que modo? O raio de voo do inseto gambiae limita-se a quatro quilômetros. Teria o monstro chegado no porão de um navio? Não, o gambiae é incapaz de se manter de portas adentro, ou escondido por mais de 48 horas. Nesse caso devia ter vindo pelo ar! Os aviões comerciais da nova linha aérea francesa tinham reduzido para vinte e uma horas o percurso Dakar-Natal. Era isso mesmo — o agente africano da “morte em vida” viera como passageiro clandestino[4].

O alarme foi irradiado para todas as nações da América. As autoridades sanitárias do Brasil decretaram logo um rígido controle: desde essa data, todos os aviões chegados da África deveriam ser imediatamente submetidos à inspeção e fumigação rigorosas. Mas os peritos da malária diziam: “O mal está feito! O gambiae já está aqui”.

Jornal natalense “A República”, edição de sábado, 19 de setembro de 1931, pág. 1.

A espécie ia se multiplicar com fantástica rapidez, A fêmea adulta (que se nutre de sangue e é o veículo da doença na família) é duma proliferação tremenda. Seus ovos se incubam em pouco mais de um dia e oito a nove dias depois as fêmeas recém-nascidas já começam a procriar, por sua vez, ativamente.

Além disso, o gambiae é o inseto mais sedento de sangue de todos os membros da família dos anófeles, transmissores da malária. As outras espécies podem se nutrir do sangue de animais e ficam satisfeitas com um repasto ocasional de sangue humano. A fêmea gambiae, essa, vive quase exclusivamente do sangue humano. Seu corpo funciona como um laboratório de venenos — alfobre onde se criam confortavelmente e aos milhões os parasitas da maleita. Essa combinação de hábitos faz do gambiae o mais perigoso veículo de malária que o mundo conhece.

Entre abril e junho de 1930, a cidade de Natal sofreu uma epidemia de malária, a mais intensa e violenta ainda verificada neste hemisfério. Durante a longa estação seca, de junho a fevereiro, a epidemia decresceu, para em seguida rebentar de novo e com redobrada virulência.

Lentamente, mas com precisão militar, o gambiae se espalhou para além de Natal. Os ventos dominantes arrastaram uma vanguarda do exército invasor pela costa acima e pela terra adentro, à distância de 186 quilômetros. Chegou a infectar 90 por cento da população de certas regiões e matou entre 10 e 50 por cento de suas vítimas. Minava as forças dos sobreviventes, deixando muitos demasiado débeis para trabalhar e demasiado abúlicos para se interessarem pela própria existência.

As autoridades da Saúde Pública, recordando o papel que a malária desempenhou na decadência da Grécia e da Roma antiga, olhavam com ansiedade crescente o alastramento do flagelo. O famoso malariologista americano Marshall A. Barber regressou do Brasil para lançar este aviso:

“A invasão do gambiae está ameaçando a América de uma catástrofe tal, que em comparação as pestes e mesmo as guerras, não passam de calamidades temporárias, insignificantes. O gambiae, uma vez introduzido nas veias de uma nação, pode ali ficar como um flagelo pelos séculos afora…”

Membros da unidade de controle da malária pulverizando uma área alagada.

Foi então que o Brasil teve uma destas sortes que parecem providenciais. Durante os dois anos seguintes, uma seca mais rigorosa devastou literalmente as terras invadidas pelo gambiae, ressequindo os ninhos de reprodução, e suspendendo a marcha do invasor. Essa trégua providencial deu tempo aos combatentes antimaláricos para pensar e agir[5].

O Brasil tem um verdadeiro exército científico para o fim de combater as moléstias transmitidas pelos mosquitos. Sob a direção do Dr. Barros Barreto[6], diretor geral de Saúde Pública, está fazendo o Serviço de Combate à Febre Amarela algo que o Novo Mundo — e mesmo o mundo inteiro — devia se orgulhar. Trabalhando segundo as tradições heroicas do grande higienista Dr. Oswaldo Cruz[7], que há mais de 30 anos expulsou a febre amarela do Rio de Janeiro, tem dado combate tão persistente e eficaz ao aedes aegypti, que a espécie está se tornando verdadeira raridade no Brasil[8].

“Organize-se um serviço em grande escala contra o gambiae”, clamavam alguns entomologistas daquele Serviço. “Deem-nos os fundos, o pessoal e o equipamento, e nos encarregaremos de abater essa peste estranha ao Brasil!”

O médico Fernando de Goes foi um dos que atuaram nessa luta contra a malária no Rio Grande do Norte – Fonte – Facebook – Fernando de Goes Filho.

Alguns peritos, mais moderados, declararam essa medida impossível. Tinham eliminado a febre amarela pelo combate ao pernilongo — processo de fato adequado à destruição de outras espécies. Mas o gambiae é tão prolífico e tão mortal, que o combate seria fútil. Só a exterminação daria resultado. E quem ouviu jamais dizer que fosse possível exterminar qualquer espécie de inseto? Quanto mais se tratando dos gambiae… Outros mosquitos, mais acessíveis, procriam em sítios conhecidos e fáceis de achar — em cursos d’água, canais, lagoas, pântanos.

Combatê-los é só questão de drenagem e de aplicação de larvicidas. Os combatentes dos mosquitos têm um poderoso aliado num peixinho minúsculo, o Gambusia, que se alimentam na superfície de ovos e larvas dos mosquitos que pululam nas águas. Os Gambusia se proliferam em qualquer depósito de água, grande ou pequeno, e depressa os mosquitos desaparecerão.

Mas o gambiae é perverso e astuto, despreza os cursos d’água de boas dimensões, para consagrar sua preferência às poças minúsculas — até mesmo um sulco de roda de carro ou a marca do casco dum animal na estrada servem, contanto que tenham água da chuva. Disse um dos especialistas: “Seria necessário toda vez que chove, logo em seguida secar cada poça d’água no nordeste brasileiro”.

Foi assim que o Brasil pôs suas esperanças na seca. Talvez a terra dura e ardente, batida pelo sol, se mostrasse de todo inabitável para o invasor africano.

Quando, porém, voltaram às chuvas em fevereiro de 1934, a incrível marcha do gambiae recomeçou. Durante os quatro anos seguintes prosseguiram sem descanso para o norte e o oeste. Em 1938 cidades inteiras eram prostradas pela moléstia. O trabalho era suspenso e a falta de mão de obra deixava as terras incultas. A Fundação Rockefeller informava: “Calcula-se que em resultado das devastações causadas pelo mosquito, praticamente todas as pessoas nas áreas infestadas ficarão dependentes do auxílio governamental em 1939”.

A ameaça tornava-se agora muito séria para todo o continente. Disse uma autoridade: “Se o gambiae atravessar a barreira que o separa dos vales bem irrigados do Parnaíba e do São Francisco, seria impossível evitar que se propague a uma grande parte da América, não só do Sul e Central, como talvez da própria América do Norte”.

Foi então, em janeiro de 1939, que o Brasil declarou formalmente guerra ao anofeles gambiae. Por decreto presidencial foi organizado o Serviço de Malária do Nordeste. O Dr. Barros Barreto entregou a direção dos trabalhos a um distinto higienista, o Dr. Manoel Ferreira[9]; outros eminentes médicos brasileiros, incluindo o Dr. Evandro Chagas, famoso malariologista recentemente vitimado num desastre de aviação[10], foram mobilizados para a guerra. O Governo Brasileiro aprovou um orçamento provisório de cinco mil contos de réis, e a Fundação Rockefeller contribuiu com mais 100.000 dólares. Foi abandonada a discussão sobre se o gambiae podia ou não podia ser exterminado. As ordens eram: “Descubra-se como, e depois mãos à obra!”

Dispunha-se de pouco tempo para o treino e não havia precedentes. Mas quando a estação das chuvas principiou, em fevereiro de 1939, o primeiro exército já estava em campo, sendo formado por mais de 2.000 médicos brasileiros, técnicos, inspetores e jornalistas. Durante quatro meses os gambiaes e revelou formidável inimigo. As chuvas diárias multiplicavam ao infinito os esconderijos onde ele se reproduzia. Mas o “exército anti gambiae” tomou posições por todo o território infestado, distribuindo patrulhas, mandando partidas de batedores a estabelecer postos avançados ao longo das fronteiras. Em junho, o alto comando dos exércitos contra os gambiaes anunciava que o inimigo estava cercado. Foi então quando começou a verdadeira batalha.

NATAL, BRASIL – JUNHO DE 1943: – Pulverização de um avião de transporte C-87 Liberator para controle da malária no aeroporto de Parnamirim – Foto de Ivan Dmitri/Michael Ochs Archives/Getty Images.

Cada um dos lugares de procriação era tratado com verde-paris[11]. De porta em porta iam brigadas de empregados, armados de vaporizadores, matando os mosquitos adultos nas casas, telheiros, lojas e edifícios abandonados. Essa estratégia de “terra devastada” era rigorosamente aplicada sobre cada centímetro quadrado das áreas reconhecidas como infestadas, e depois sobre uma zona de segurança de dezesseis quilômetros, para além das fronteiras do flagelo. Patrulhas sanitárias faziam parar todos os veículos que se dirigiam para a região não atacada e procedia a fumigação deles.

Mas os desapontamentos não faltaram. Os fundos para o combate ao gambiae cedo se esgotaram e o Governo Brasileiro teve que colocar mais cinco mil contos. A campanha tinha prosseguido na base da “tentativa e erro”; por vezes o gambiae dava a impressão de enfraquecer diante da guerra química dirigida contra ele. Quando tudo parecia correr o melhor possível, os anófeles reapareciam subitamente, dando lugar a novas explosões de malária a muitos quilômetros além da zona de combate, em territórios nunca antes infestados!

Perplexas, as autoridades remetiam brigadas de exploração para investigar. Depressa a resposta se fazia conhecer: num dos casos, um automóvel rodando por uma estrada abandonada no sertão, tinha passado sem a necessária fumigação; noutro caso, um bote de pesca tinha iludido a vigilância dos postos sanitários do serviço marítimo, indo assim levar o invasor a muitos quilômetros pela costa acima.

NATAL, BRASIL – JUNHO DE 1943: – Foto de Ivan Dmitri/Michael Ochs Archives/Getty Images.

Os combatentes do mosquito, porém, não desanimavam. Em 1940, obtiveram um orçamento de 22.500 contos, incluindo uma dotação de 230.000 dólares da Fundação Rockefeller. As forças de campo foram aumentadas para 4.000 homens e novas táticas foram desenvolvidas. Os combatentes declaravam, cheios de confiança: “neste ano os invasores não escaparão à morte”.

Os pertinazes gambiae, com grande espanto dos observadores cépticos, começaram a perder terreno. Em meados da estação chuvosa (e ela foi excepcionalmente chuvosa) os relatórios foram chegando das regiões, uma por uma: “Área limpa… Nenhum traço de adultos, ovos ou larvas…” Essa estação teria sido realmente grandiosa para os anófeles. Em duas áreas não controladas, demarcadas precisamente para fins de pesquisa e comparação, os mosquitos proliferavam à vontade. Mas onde quer que chegavam as brigadas químicas, fazendo o seu trabalho, o inimigo ia sendo completamente derrotado.

Os combatentes resolveram estão fazer um teste decisivo. Quando uma área era declarada limpa pelos peritos em campo, suspendiam-se todas as medidas de guerra química. Mas a “força de batedores” duplicava e a vigilância era assim constante sobre o possível reaparecimento do flagelo. Lentos, longos, ansiosos, os meses foram correndo. Mas os gambiae não reapareceram!

Lois Mattox Miller foi uma renomada jornalista investigativa e escritora norte-americana especializada na área de saúde pública – Fonte – Wiki.

Os combatentes mantinham-se cautelosos e apreensivos, pois conheciam agora intimamente o anofeles gambiae, o traiçoeiro e difícil inimigo. A verdade é que ainda levaram um grande susto, A cerca de 80 quilômetros além da última fronteira conhecida da zona infestada, descobriu-se um buraco isolado contendo gambiae. O caso nunca ficou esclarecido, mas o certo é que limparam o buraco prontamente, antes de ter-se registrado qualquer vítima.

Há mais de um ano (desde 1941), um vasto corpo de homens treinados vem patrulhando o nordeste brasileiro, sem que tenha encontrado um só anofeles gambiae. Tem-se oferecido prêmios em dinheiro aos caçadores de mosquitos, amadores ou profissionais, que apresentem um ovo, uma larva, um adulto que seja! E até agora nenhum apareceu.

Os homens de ciência do Brasil relutam em aceitar que a espécie tenha sido “exterminada” neste hemisfério. Não obstante, o êxito da sua campanha deixou a mais funda impressão entre os cientistas de todo o mundo, porque o fato se mantém, de que a espécie gambiae não tornou a ser vista no Brasil, desde novembro de 1940.

Foto – James Gathany – Fonte – http://www.cdc.gov/ncidod/dpd/parasites/malaria/default.htm

O Brasil, tendo reduzido ao nada essa ameaça para a saúde e a segurança do Novo Mundo, deu também às outras nações da América uma “lição de coisas” que daqui em diante todas as autoridades de saúde pública terão dificuldade em ignorar. A malária lavra ainda em muitas áreas do Hemisfério Ocidental; no sul dos Estados Unidos, por exemplo, causa todos os anos alguns milhões de vítimas. É certo que não se trata do tipo virulento de malária, como o que o gambiae levou ao Brasil; tão pouco os anófeles que a transmitem de um para outro indivíduo são lutadores tão resistentes, nem tão evasivos, como os anófeles gambiae. Seus hábitos são mais simples; podem ser exterminados com maior facilidade e a um custo muito menor.

O Brasil derrotou o pioneiro da malária africana, e demonstrou que ela é uma doença extirpável. Desde então, a malária é uma praga que nenhum estado, nenhuma sociedade deve temer. Onde quer que ela se encontre será de hoje em diante um motivo de vergonha nacional.

NOTAS ——————————————————————————————————-


[1] Lois Mattox Miller foi uma renomada jornalista investigativa e escritora norte-americana especializada na área de saúde pública, tendo recebido, entre outros prêmios, o Albert and Mary Lasker, em 1958, por sua história em Reader’s Digest sobre filtros de cigarro.

[2] Na história da revista norte-americana Reader’s Digest, que no Brasil ficou popularmente conhecida como Seleções, seu primeiro número publicado em terras tupiniquins é de fevereiro de 1942, vinte anos após seu lançamento nos Estados Unidos. E esse texto que o blog TOK DE HISTÓRIA reproduz, é o primeiro exclusivamente a tratar de temas ligados ao Brasil, onde Natal aparece com destaque. Neste exemplar temos a menção que a tiragem mundial era de 5.000.000 exemplares, mas não há nada sobre a tiragem no Brasil. A revista era vendida nas bancas por 2.000 réis, o mesmo valor de um quilo de pão francês na época.  

[3] A Fundação Rockefeller é uma fundação privada americana e uma organização filantrópica de pesquisa médica e financiamento de artes sediada na cidade de Nova York. A fundação foi criada em 14 de maio de 1913, pelo magnata John D. Rockefeller (“Sênior”), da Standard Oil Corporation, seu filho “Júnior” e Frederick Taylor Gates, seu principal consultor de negócios. É a segunda maior instituição filantrópica mais antiga da América (depois da Carnegie Corporation) e está classificada como a 30ª maior fundação globalmente por dotação, com ativos de mais de US$ 6,3 bilhões em 2022. Fonte – Wikipédia.

[4] Aqui a escritora norte-americana Lois Mattox Miller aponta uma informação divergente do que se convencionou pensar sobre a propagação desses insetos no Rio Grande do Norte. Para os historiadores potiguares que se debruçaram sobre o período clássico da aviação em nossa região, essa propagação ocorreu durante as operações do primeiro serviço aeropostal entre a França e a América do Sul. Esse trabalho se iniciava quando os aviões partiam de Paris e seguiam até Dacar (no atual Senegal), então os malotes com correspondências eram embarcados em navios pequenos e bastante velozes conhecidos como “Avisos Postais”, ou “Avisos Rápidos”, e então atravessavam o Atlântico Sul até Natal. Depois os malotes eram embarcados em aviões para o sul do país. Em um desses barcos o anofeles gambiae teria chegado sorrateiramente a Natal. Ou não?

[5] A autora comenta provavelmente sobre a seca de 1932 a 33.

[6] João de Barros Barreto (Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 1890 — Rio de Janeiro, 1956) foi um médico sanitarista e professor brasileiro. Seu nome batiza o Hospital Universitário João de Barros Barreto, no Pará, referência estadual em pneumologia e infectologia.

[7] Oswaldo Gonçalves Cruz (São Luiz do Paraitinga – SP, 5 de agosto de 1872 — Petrópolis – RJ, 11 de fevereiro de 1917) foi um médico, bacteriologista, epidemiologista e sanitarista brasileiro. Pioneiro no estudo das moléstias tropicais e da microbiologia no Brasil, ingressou em 1900 como diretor técnico do Instituto Soroterápico Federal, no bairro de Manguinhos, no Rio de Janeiro, transformado em Instituto Oswaldo Cruz, hoje a Fundação Oswaldo Cruz.

[8] Infelizmente e por várias razões, o aedes aegypti ainda está presente em território brasileiro e trazendo sérios problemas para a população. É triste perceber que há oitenta anos o combate a essa praga parecia ser mais efetivo que nos dias atuais.

[9] Manoel José Ferreira (Petrópolis – RJ – 1897 / Rio de Janeiro – RJ – 1978) foi um médico sanitarista, Diretor da Faculdade Fluminense de Medicina entre 1930 e 1932, Diretor do Serviço de Obras Contra a Malária em 1938, Médico do Serviço de Malária do Nordeste de 1939 até uma data incerta, Diretor do Serviço Nacional de Malária em 1954, Fundador e presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) em 1962, Diretor do Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu) de 1966 a 1968 e Membro do Comitê de Especialistas em Malária da OMS.

[10] Evandro Serafim Lobo Chagas (Rio de Janeiro – RJ, 10 de agosto de 1905 – Rio de Janeiro – RJ, 8 de novembro de 1940) foi um médico e cientista brasileiro, filho primogênito do cientista Carlos Chagas com Íris Lobo. Em 1926 diploma-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e feito residência no Hospital São Francisco de Assis e no Hospital Oswaldo Cruz. Cursou paralelamente a faculdade o curso de especialização em microbiologia no Instituto Oswaldo Cruz. Realizou estudos sobre a febre amarela, malária, ancilostomose e, principalmente, sobre a leishmaniose, descobrindo os primeiros casos humanos dessa doença e realizando investigações clínicas e epidemiológicas em diversos estados do Brasil e também na Argentina. Faleceu vítima de acidente aéreo em 8 de novembro de 1940, aos trinta e cinco anos, na cidade do Rio de Janeiro. Em 1941, em sua homenagem, o Instituto Oswaldo Cruz (atual Fundação Oswaldo Cruz), nomeou o antigo Hospital Oswaldo Cruz (de 1918) como Hospital Evandro Chagas. Fonte – Wikipédia.

[11] Verde-paris é o nome trivial para um composto descoberto em 1808, designado por acetoarsenito de cobre, cuja fórmula química corresponde a 3Cu(AsO2)2.Cu(C2H3O2)2[1]. A história curiosa deste composto é que ele começou por ser comercializado em 1814 não como pesticida, mas sim como um mero pigmento para tintas, devido à cor verde intensa que apresentava. Só após se atribuir a culpa ao verde-paris pelos envenenamentos de algumas pessoas que pintavam quadros é que o composto foi completamente banido das tintas. Este veneno potente está inserido em inúmeros quadros pintados durante o século XIX. Apenas em 1867 o verde-paris foi introduzido no combate a pestes, sendo o principal inseticida para combater o escaravelho da batata. Em 1900 era usado em tão larga escala que levou o governo dos Estados Unidos da América a estabelecer a primeira legislação no país sobre o uso de inseticidas. O composto acabou por ser banido alguns anos depois, devido sua extrema toxicidade para animais mamíferos. Fonte – Wikipédia.

O ESTADO POLICIAL – O QUE SIGNIFICA VIVER EM UM?

O que significa viver em um estado policial?

Mais especificamente, o que significava viver num estado administrado pelos agentes e colaboradores do regime nazista?

Para os que ainda possivelmente estejam vivendo em condições de alguma forma semelhante, os sintomas são muito familiares. O ocupante da chefia do governo determina a política a seguir, com pouca ou nenhuma consideração pelos desejos da maioria dos governados. Os seus auxiliares diretos, incumbidos de administrar a política nacional – e providenciar para que seja fielmente observada a arbitrária sucessão de lei e decretos emitidos pela “cúpula”, dos quais a comunidade nem sempre toma conhecimento – são nomeados pelos seus méritos, mas por serem considerados dignos de confiança do governante.

Hitler no juramento da SS no Congresso do Partido do Reich – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Atrás das fileiras da polícia civil oficialmente reconhecida talvez exista um contingente muito maior de polícia política secreta, que atua como o braço forte da nova lei, funcionando como cães de guarda e espiões da equipe dominante. As prisões e certos estabelecimentos penais (como os campos de concentração destinado a reabilitação dos “relapsos”) começam a encher-se daqueles cuja lealdade cuja lealdade ao regime deixe a desejar. Ali, talvez tenham de esperar, sob tensão e sem julgamento, sujeitos a interrogatório constante, levado a efeito com o objetivo de lhe arrancar o que quer que possam saber sobre os que, aos olhos das autoridades, representam a resistência.

A história não termina aí. Num estado policial, nada na comunidade pode ser considerado estável, exceto a manutenção daqueles que, pela força bruta ou através da habilidade maquiavélica, dominam a “nova ordem”.

Num estado policial, independente de status, são potencialmente suspeitas; todas têm, num arquivo secreto, dados que indicam se podem ser consideradas leais ou desleais ao regime. O interrogador de hoje pode ser o prisioneiro de manhã, após uma “revolução palaciana” repentina e inesperada ou alguma mudança na direção de qualquer departamento. Mesmo entre os próprios líderes, alguém pode desaparecer de repente, assumindo-lhe o lugar um desconhecido qualquer do público, mas não dos que “farejam”.

Hitler durante discurso na sessão do Reichstag, em Kroll Opera House, Berlim, 1939 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Para o cidadão comum, a vida num estado policial significa a eliminação das garantias individuais e dos direitos civis. Não há proteção contra as batidas peremptórias à porta, ou contra o terror da prisão súbita e do desaparecimento de qualquer indivíduo, muitas vezes sem deixar a mais leve pista, passando a se considerar inteiramente perdido para parentes e amigos.

O cidadão comum, pressionado pela ansiedade gerada pela insegurança, sua e de sua família, logo aprende a adular o regime e a manter-se distante de complicações; cumpre seus deveres cotidianos, presta o serviço militar, usa orgulhosamente os distintivos prescritos, paga regiamente as taxas exigidas, faz corretamente as saudações certas, e cala sobre o que quer que tenha visto, sobre o que que desconfie tenha acontecido.

À medida que a economia do país se agrava, por causa da guerra ou dos preparativos para realizá-la, ele aprende a passar sem os bens de consumo que os privilegiados – este tipo de governo sempre os possuí – ainda possam desfrutar. Ele liga seu rádio, sintonizado apenas no serviço nacional, sabendo embora que todo veículo de comunicação é estritamente controlado, censurado e ideologicamente doutrinado. Por momentos, é possível que ele medite sobre a proibição de se ouvir transmissões estrangeiras. E se, em sua frustração, resmunga um pouco, ele se refere aos líderes usando apenas iniciais dos seus nomes, mas bem baixinho.    

Hitler e Joseph Goebbels no Teatro Charlottenberg, Berlim, 1939 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

O cidadão comum aprendeu a desconfiar dos estranhos, dos amigos, até mesmo dos membros da família, especialmente os da geração mais jovem, posto que, estes, já foram advertidos de que devem observar os pais. Acima de tudo ele toma o cuidado de não deixar escapar nada que possa ser considerado politicamente suspeito, e evita adquirir qualquer conhecimento que possa ser considerado perigoso.

O cidadão comum não sabe de nada. Não sabe quem foi preso ou o que possam estar sofrendo nos campos de concentração. Esse tipo de coisa desagradável só interessa às autoridades. Não obstante, ele se torna o recipiente constante, ainda que relutante, de boatos; quando se sabe que todas as formas de notícias e informações são controladas e adulteradas, é inevitável que os ventos da curiosidade sejam movimentados pelo sussurrar de mexericos, insinuações e advertências apenas murmuradas.  

O regime nazista criou uma forma excepcionalmente feros de estado policial, diretamente originária de um governante excepcional e feroz que, como todos sabem, subiu ao poder na Alemanha em janeiro de 1933, depois de nomeado Chanceler. Pouco mais de doze anos antes, Hitler não era mais que um barato agitador de rua, e apenas nove anos antes passara um período na prisão, por ter realizado um fracassado levante armado em Munique. Uma vez feito Chanceler, ele se entrincheirou com tal rapidez, que alguns meses depois estava governando a Alemanha virtualmente por decreto pessoal.

A Liga das Meninas Alemãs dança no Congresso do Partido do Reich em Nuremberg, 1938 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Durante seu reinado de terror, que durou apenas doze anos, Hitler ampliou grandemente as fronteiras do Reich alemão, “unindo” aqueles a quem considerava pertencentes à raça alemã comum, rearmando a nação e levando-a à guerra no espaço de seis anos.

Durante algum tempo, pela ocupação, ele se fez senhor de um território que se estendia do Círculo Ártico às praias do Mediterrâneo e dos arredores de Moscou à costa ocidental da França e dos Países Baixos. Por volta de 1942, Noruega, Dinamarca, Holanda, Bélgica, França, Luxemburgo, Iugoslávia, Grécia, Tchecoslováquia, Polonia e considerável área da Rússia e da Ucrânia estrebuchavam debaixo do tacão nazista. Três anos mais tarde, ele estaria se escondendo sob as ruínas de Berlim, senhor de apenas alguns metros de terreno.

Pessoas saúdam e encorajam plano de Hitler para unir Alemanha e Áustria, 1938 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Em maio de 1945 o mundo livre sacudiu fora o pesadelo terrível. O tirano fugiu pela porta do suicídio à prestação de contas em Nuremberg. A intervenção de Hitler na história mundial custou a vida a mais de 50 milhões de pessoas: homens, mulheres e crianças que morreram em batalhas, em bombardeios, assassinatos em massa, fome, extermínio e maus tratos nos campos de concentração e nas prisões.  

Não existe paralelo, na história da humanidade, com o que Hitler deixou registrado. E tudo isso foi feito mediante a criação de um estado policial altamente organizado e implacável. Atras do poderio evidente do exército alemão e da polícia civil estavam as forças, muito menos evidentes e em grande parte “secretas”, das SS e dos seus colegas das Gestapo, a polícia política. Embora elementos do exército que serviram ao regime de Hitler fossem culpados de atos criminosos que ultrapassaram em muito os horrores “aceitos” da guerra total e “legal”, os crimes cometidos contra a humanidade, em virtude dos quais o nome de Hitler deve ser sempre execrado, foram perpetrados por inspiração sua, por essas extraordinárias forças secretas.

Ministro da Propaganda do Reich, Goebbels discursa em Lustgarten, Berlim, 1938 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Começando apenas com um punhado de homens, treinados para, através da violência, proteger os oradores nas reuniões nazistas, as SS conquistaram um poder incomensurável sob a liderança tutelar de Heinrich Himmler, um nacionalista obsessivo que ascendeu gradativamente a hierarquia nazista por meio da intriga de bastidores. Enquanto outros, notadamente Herman Göring e Joseph Goebbels, empregavam seus talentos na ribalta. Himmler se afirmou por intermédio das SS, que acabaram por transformá-lo no mais formidável dos sub-líderes, no mais íntimo colaborador do Führer.

Ao contrário dos outros, Himmler não revelava qualquer traço de cinismo em suas atitudes. Ele sabia precisamente no que acreditava – na superioridade racial dos nórdicos, dos povos “arianos” e no estabelecimento de um sistema imperial mundial sob o domínio do governo de raça superior.

Hitler saúda as tropas da Legião Condor – que apoiou os nacionalistas espanhóis durante a Guerra Civil Espanhola – após voltarem para a Alemanha em 1939 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Assim é que foi a Himmler, e a certos membros dignos de confiança  dentro das SS, que Hitler finalmente confiou a operação altamente secreta da “solução final”, o extermínio em massa dos judeus europeus, o crime supremo do genocídio que atingiu seu ponto culminante em meados da guerra e nos últimos anos desta. Foram as SS e, em particular, o assessor de Himmler, Reinhard Tristan Eugen Heydrich, que orientaram o plano de genocídio que levou a destruição, num período de três anos, de mais de cinco milhões de judeus e praticamente de igual número de outros povos “indesejados” da Europa – eslavos, ciganos e aqueles que, por uma razão ou outra, traziam acessas dentro de si as chamas da resistência.   

Portanto, as SS passaram a ocupar um lugar muito especial na conspiração nazista para a conquista do poder. Aos molhos do público, pouco antes da guerra, as tropas das SS ostentavam certo quê de elite em seus imaculados uniformes pretos com acessórios prateados. Segundo se dizia, elas demonstravam a glória da pureza “racial”, tendo a seu crédito dois séculos inteiros de linhagem racial pura. Advogados e intelectuais, inclusive alguns aristocratas e até mesmo bispos, fizeram o que puderam para serem admitidos nas fileiras das SS, orgulhosos do seu status de oficial e do uniforme que o confirmava. Eles aceitavam de bom grado, ou com humor cínico, o falso ritual “ariano” e o cerimonial folclórico que Himmler inventara – como se fossem os Cavaleiros da Távola Redonda que se estivesse reunindo, e não uma organização cuja função básica seria, no fim, assassinar.

Certos detalhes dessa história extraordinariamente sombria lembram uma espécie de comédia de humor negro – por exemplo, Himmler competindo zelosamente por um distintivo de atletismo das SS, com seus ajudantes elevando sub-repticiamente seu desempenho medíocre; a preocupação exagerada com a “pureza” racial quando um dos homens da SS, queria casar-se, ou os cerimoniais pagãos inventados para festejar aniversários nazistas ou para substituir as cerimônias cristãs do matrimônio, nascimento e morte.

Os mais cínicos apenas riam de Himmler às suas costas, até que chegou o dia que tiveram de ouvir um dos seus discursos sombrios pronunciados em reuniões privadas dos oficiais das SS. Neste discurso, Himmler delineou claramente a necessidade de exterminar os judeus e de fazer que seus prisioneiros trabalhassem até morrer para apoiar a vitória alemã. A maioria deles ouvia essas coisas com fria indiferença, porque não era provável que eles próprios se envolvessem pessoalmente no derramamento de sangue das vítimas. Afinal de contas, isso cabia à soldadesca das SS, aos assassinos treinados, aos homens recrutados para deveres na linha de frente, nos chamados “Grupos de Ação” (Einsatzgruppen), ou aos pelotões de trabalho reunidos para levar a cabo tarefas corriqueiras de extermínio criadas pelos técnicos de genocídio.

Congresso do Partido do Reich, Nuremberg, 1938. – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

O absurdo, o trivial, o macabro, o terrível – tudo isso reunido forma a história das SS, que impuseram o máximo de sofrimento a milhões de pessoas inocentes. A sorridente personalidade importante que, numa recepção do partido, se refina em seu vistoso uniforme preto, enquanto saboreia bebidas compradas no mercado negro, é o mesmo sinistro agente das SS que arranca tranquilamente, com uma bofetada ou um chute, um grito de dor de uma indefesa mulher. Ouvem-se aplausos polidos a Himmler enquanto este ajeita seu “pince-nez” antes de iniciar uma conferência; no mesmo instante, dentro de uma sala escondida, Adolf Eichmann planeja a logística do transporte dos próximos 50 mil judeus a serem exterminados. O notório Joseph Mengele trajava o mesmo uniforme negro na rampa de chegada de Auschwitz, ditando, com um estalar do seu chicote de montaria, quem devia ser morto imediatamente e quem deveria sofrer mais algumas semanas de existência como escravo das SS.

Tudo isso, e ainda mais, fazia parte das atribuições da SS tão logo os nazistas assumiram o poder. E atrás deles, trabalhando em colaboração estreita com as SS estavam os homens e as mulheres da Gestapo, policiais em uniforme ou em trajes civis, encarregados da função especial de manter a segurança política na Alemanha e, mais tarde, nos países por ela ocupados. Estes eram os homens que vinham procurar a vítima na calada da noite, com os pneus de seus carros cantando no calçamento e fazendo-os parar bruscamente à porta da vítima, arrancando-a, meio desperta e aterrorizada, do seio da família. Eram os mestres do interrogatório brutal, com ou sem máquinas medievais de tortura; eram eles que conheciam, pela longa experiência que tinham do problema, os limites mais sutis da resistência humana e os meios pelos quais se podia obter com mais eficiência qualquer informação desejada, verdadeira ou falsa.

Berlim é acendida à meia-noite para celebrar o 50° aniversário de Adolf Hitler em 1939 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Melhor ainda que as SS, a Gestapo dominava a técnica da intimidação que, inevitavelmente, faz parte da direção de um estado policial. A tese da intimidação pesa psicologicamente no condicionamento dos que tem de ser perseguidos, atormentados e punidos. Outro fator é a simples incerteza: quando uma pessoa não sabe o que lhe pode acontecer da noite para o dia, isto durante meses ou mesmo anos, desgasta-se gradativamente, e até mesmo os mais resistentes acabam por quebrar-se interiormente.

A rede administrativa de apoio a essa forma arbitrária de poder cresceu em grande parte às ocultas do povo alemão. Este só via as manifestações externas – a imensa quantidade de decretos, leis e regulamentos publicados, que finalmente o cercearam por completo. Nos bastidores, às mesas dos ministérios e dos escritórios do partido, também ocorrera a conspiração dos burocratas, criada por homens com vocação para o trabalho de fechar as brechas da liberdade civil e dos direitos de protesto do cidadão. De um modo geral, o povo alemão aceitou tudo isso humildemente, como um dar de ombros fatalista; ele viu tudo isso como um fato consumado, que se desenvolveu gradativamente e ao qual era perigoso demais resistir.

Multidão aguarda início da cerimônia da pedra angular em Fallersleben, 1938 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Eram essas as condições existentes na Alemanha e, eventualmente, nos territórios ocupados da Europa, condições impostas em 1933 e que duraram até que a derrota final de Hitler trouxe a libertação para os que conseguiram sobreviver. Cerca de dois terços da Europa ficaram sujeitos a essa forma organizada de tirania.

E isso ocorreu em pleno Século XX e, o pior, tudo indica que pode voltar a acontecer em alguns países do mundo, onde suas classes dirigentes e seu povo pouco dão valor a História.   

Texto – Manvell, A. S. – SS e Gestapo – A Caveira Sinistra, 1ª Edição, Rio de Janeiro-RJ, Editora Rennes, 1974, páginas 8 a 11.