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AS NOSSAS VELHAS IGREJAS DE NATAL

A majestosa Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, o primeiro templo religioso erguido no Rio Grande do Norte.

Luís da Câmara Cascudo

A República, Natal, Rio Grande do Norte, 2 de março de 1939, página 3

O sitio da Cidade estendia-se do edifício do Tribunal de Apelação[1] até as imediações da Santa Cruz da Bica[2]. A Praça André de Albuquerque foi inicialmente chamada. “Rua Grande” e “Largo da Matriz”. A Igreja vigiava o quadrilátero de onde se irradiou a cidade. Aí começa, oficialmente, nossa vida social. A missa de 25 de Dezembro de 1599 deve ter sido rezada numa capelinha de barro e palha onde hoje a Matriz ergue sua torre quadrada. A praça é, evidentemente, o chão elevado e firme, indicado pelas instruções do Governador Geral do Brasil para a construção duma Cidade, sentinela avançada da cristandade no setentrião selvagem do Brasil quinhentista.

Uma comemoração na década de 1920 diante da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação , na Praça André de Albuquerque, no Centro de Natal.

Em dezembro de 1633 os holandeses tomaram Natal. Vitoriosos em toda a parte, graças em parte as diligências do mulato Calabar, que está sendo apontado como herói e figura excepcional de grandeza moral, logo no primeiro domingo, 18 de dezembro de 1633, o pastor luterano Johanna, fez sua pregação no pequenino recinto da humilde Matriz, erguida pelas mãos católicas dos colonos portugueses. Até 1654 não ha noticia. Na retirada, os holandeses queimaram arquivos, destruíram casas, devastaram plantações. Também estão sendo glorificados como colonizadores de incrível acuidade progressista e liberal.

Ninguém queria ser Vigário em Natal, um lugarejo com 25 moradores brancos, cercados pela indiaria tumultuosa. O padre Leonardo Tavares de Melo ofereceu-se e veio pastorear o abandonado rebanho. Construiu uma outra capelinha, no local da primitiva, e celebrava Missas, casando, batizando e orando. Em 1672 pensou-se em erguer uma igreja compatível com as necessidades da colônia. Fez-se uma coleta. Pediu-se esmola até ao Rei de Portugal. Em 1694 a igrejinha estava pronta. Gravaram esta data numa pedra. Está na soleira da porta principal.

Em 1786, numa época de remodelações, fizeram-se as duas capelas laterais, do Bom Jesus dos Passos e do Santíssimo Sacramento, completando a figura ritual da Cruz.

Sucesso notável foi o primeiro roubo, historicamente comprovado. Na manhã de 21 de dezembro de 1841 apareceu uma porta aberta e uma lâmpada tinha desaparecido. O chefe de Policia, Dr. Basílio Quaresma Torreão Junior, virou investigador, farejando casas e matos, assombrado com o atrevimento do malandro. Prendeu dois homens. E achou o furto, enterrado debaixo dum cajueiro, em 23 do mesmo dezembro de 1841. A 24, num oficio jubiloso, levou a feliz pesquisa ao conhecimento de dom Manuel de Assis Mascarenhas, Presidente da Província, informando que a lâmpada fora encontrada.

Até 1856, ano do cólera-morbo os sepultamentos eram feitos dentro das Igrejas. Gente rica, graúda, importante, dormia na Matriz, na Igreja de Santo Antônio, e Capela do Senhor Bom Jesus das Dores da Ribeira. Escravos e condenados a pena de morte iam esperar o Juízo final na igrejinha de Nessa Senhora do Rosário dos Pretos.

Em 1856 o presidente da província, Antônio Bernardo de Passos, chamado popularmente “Presidente Passos”, mandou abrir o “cemitério publico” no bairro longínquo do Alecrim. Ficava, naquele tempo, no fim do Mundo.

Em 1857 o Presidente Passos iniciou uma subscrição pública para comprar um relógio destinado a Matriz. Em 1862 começou o serviço para a construção da torre cuja falta afeiava o conjunto. Doze meses depois, com peripécias e paradas, a torre ficou como está. E puseram o relógio que ainda vive prestando serviços ao seu modo[3]. Em 1863 adquiriram um sino grande para a torre. , Custou 801$649 (oitocentos e um mil e seiscentos e quarenta e nove réis), pagos ao Sr. Domingos Henrique de Oliveira. Em 1874 foi a vez de chegar o sino pequeno. Deram por ele 301$453 (trezentos e um mil e quatrocentos e cinquenta e três réis), ao Sr. Joaquim Inácio Pereira. Em 1907 levaram o Cruzeiro da Matriz para o patamar da Igreja do Rosário.

Esse é um rápido e necessário relatório dos principais fatos na história da Matriz, hoje com luz elétrica, tribunas e ampliador radiofônico.

E qual teria sido a segunda Igreja de Natal?

Santo Antonio ou do Rosário? A vida natalense esteve, quase totalmente, condensada na Cidade Alta. Os dois pontos sempre foram relativamente povoados, derredor desses templos.

A Igreja de Santo Antonio dos Militares é um barroco delicioso e, edifício amplo e solido, devia ter exigido muito tempo para sua construção, mesmo com as reformas posteriores. Na fachada, acima da porta principal da Igreja de S. Antônio ha a data: — Agosto de 1766. E ao pé da torre: — Janeiro de 1798. Serão as datas em que foram terminados o corpo da casa e a torre? Três anos antes, em 15 de julho de 1763, já se erguia a Igreja de Santo Antônio, dando nome á rua. Num registo de “carta de data” concedida ao alferes José Barbosa de Gouveya, na rua nova do Senhor Santo Antônio, fala-se nas “cinco braças e meia de comprido e dez de fundo nesta Cidade no caminho que vai dela para o Rio de beber agua encostando nas outras que já tem na mesma parage na rua da Igreja de Santo Antônio”.

Fachada da Igreja do Galo e o seu símbolo no alto da torre, mandado colocar pelo capitão-mor Caetano da Silva Sanches – Foto – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/uma-hista-ria-contada-por-igrejas/326825

Uma história tradicional lembra o capitão-mor Caetano da Silva Sanches, devoto de S. Antônio, que ajudara eficazmente a terminar a Igreja. Parece não se ter dado o auxilio para a nave e sim para a torre. Sanches reformou a torre e cobriu-a de azulejos, ao gosto português do século XVIII, e colocou, lá em cima, um Galo de Bronze. Um versinho de Lourival Açucena recorda o episodio: Caetano da Silva Sanches,

Governador português,

foi quem aqui colocou-me

ha mais de um século talvez…

Não se assustem-com a colocação pronominal. Para aquele tempo estava gramaticalmente certa. Sanches morreu em Natal, a 14 de março de 1800, de um estupor. Tinha cinquenta e cinco anos de idade. Descobri lhe o testamento no arquivo do Instituto Histórico.

Outra nota sensacional foi a faísca elétrica que, numa noite calma, pendurou, num choque brusco, o Galo, das alturas do seu poleiro secular. O caso se deu ás 8 e 35 minutos da noite de 6 de março de 1897.

A Igreja do Rosário é a enteada da História. Ninguém a cultua, procurando-lhe o passado. Destinada aos negros escravos, maior emoção merece do todos nós. Aquela nave pequenina abrigava as esperanças do amor negro, as alvoradas do futuro, com todos os milagres da alforria. Ali casaram e entraram para a vida cristã centenas e centenas de entes sem crônica, sem elogios e sem necrológicos, os ajudadores de tanta riqueza, nascida de seu trabalho sem pausa.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no Centro.

O Governo de Portugal, por prestigio católico do clero, aconselhava que as autoridades administrativas em todos os domínios, facilitassem a fundação das “Irmandades” de N. S. do Rosário, dedicada Padroeira dos pobres escravos”. No dia da Santa havia folga e nenhum “senhor” tomava a ousadia de proibir que um negro participasse das festas que duravam o dia e parte larga da noite. Para festejar N. S. do Rosário os negros organizavam as danças. com cânticos e declamações. Daí vieram os “Congos”, “Cachambís”, com outros autos populares. Ia tudo á porta do templo, cantando. Podia Nossa Senhora, naquelas 24 horas, dar-lhes a ilusão da liberdade.

A igrejinha de N. S. do Rosário dos Pretos (como era citada) não existia em 1706, mas estava construída em 1714. Até prova em contrario, é a segunda de Natal. Nesse 1714 regista-se uns “chãos para a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário junto a Igreja”. Em 3 de novembro de 1706, Antônio Henrique de Sá registava uns “chãos” onde se quer fundar a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Em 1714, o mesmo peticionário requeria a doação perpétua do que já possuía desde 1706 e menciona a Igreja como ponto de referência. A 2 de julho de 1714, o padre Dr. Simão Roiz de Sá pedia “terras devolutas de fronte do Cruzeiro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, indo pela estrada que vai desta Cidade para Ribeira”. Não conheço referência anterior a 1714.

Igreja do Bom Jesus das Dores – Fonte – http://turismo.natal.rn.gov.br/igrejas.php

A Igreja do Bom Jesus, ampliada, reconstruída, modernizada, foi uma capelinha que atendia ás necessidades religiosas dos moradores da Ribeira. Ha cento e sessenta e três anos (em 1939) já existia. Em 5 de fevereiro de 1776 o vigário Pantaleão da Costa de Araújo autorizava ao coadjutor Bonifácio da Rocha Vieira a casar Sebastião José de Melo com D. Ana Maria Gomes na “Capela do Senhor Bom Jesus das Dores”.

Igreja de Bom Jesus das Dores e a atual Praça José da Penha, na Ribeira.

A região ainda era despovoada e os sítios se estiravam no flabelo dos coqueirais. Ainda a 30 de dezembro de 1811 concede-se, sob o foro de 160 réis anuais, que Luís José de Medeiros se aposse das terras junto e detrás do “Senhor Bom Jesus”, “para plantar suas arvores de frutos e não prejudicando a terceiro e deixando livre a estrada que vai desta Cidade para o Senhor Bom Jesus”. ” Creio que a ordem cronologia das Igrejas de Natal será: — Matriz, Rosário, Santo Antônio e Bom Jesus.

Tais foram os princípios dos nossos templos, as sedes da força espiritual e da resistência animosa com que os velhos moradores da Cidade do Natal do Rio Grande defenderam e até nos trouxeram essa tradição de vida comum, cimentada na união do sangue e das preces.

NOTAS


[1] O Tribunal de Apelação é o atual Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte, que nessa época ficava na antiga Avenida Junqueira Aires, 478, atual Avenida Câmara Cascudo, onde até o início de 2017 foi a sede da OAB-RN.

[2] Atual Praça da Santa Cruz da Bica, na Cidade Alta, na confluência das Ruas Mermoz, Santo Antônio e Voluntários da Pátria.

[3] Mesmo com atrasos, quebras constantes, durante décadas esse antigo relógio da velha Matriz da Praça André de Albuquerque foi o que regulou o tempo dos moradores de Natal do passado.

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COMO ERA NATAL EM 1872

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Por esses dias encontrei um interessante texto bem interessante, que mostra vários aspectos da minha velha cidade Natal em 1872.

Foi um trabalho publicado no jornal “A República”, edição de 14 de maio de 1972, intitulado “Natal há 100 anos atrás” e de autoria do escrito pelo advogado, juiz, professor e jornalista Veríssimo de Melo. O autor resgatou um texto escrito originalmente por João Lindolpho Câmara e publicado em 1938, como um dos capítulos do seu livro Memórias e devaneios.

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Mas quem foi João Lindolpho Câmara?

Não encontrei nenhuma foto que mostre seu semblante, mas sabemos que nasceu em Natal no dia 14 de maio de 1863. Estudou no Ateneu e ingressou no Tesouro Provincial em 1881. Em Natal atuou politicamente em prol da campanha abolicionista e foi um dos que assinaram a Ata da Proclamação da República no Rio Grande do Norte. Formado em Direito no Recife passou a viver no Paraná, Bahia e depois no Rio de Janeiro. Neste último local atuou como inspetor e conferente da Alfandega e foi deputado federal pelo Rio Grande do Norte entre 1908 e 1911, onde se destacou por apresentar o primeiro projeto de repatriação dos restos mortais de Dom Pedro II para o Brasil e o de anistia da família Imperial.

Era extremamente destacado na função e duro com os que erravam. Lindolpho da Câmara chamou a atenção da imprensa nacional quando descobriu um desfalque na Caixa Econômica 400 contos de réis no Paraná e um outro desfalque de 178 contos no quartel do 39° Batalhão de Infantaria.

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Anos depois, com a vitória da Revolução de 1930, teve o nome cogitado para ser o primeiro interventor do novo regime no Rio Grande do Norte, mas abriu mão por problemas de saúde e o cargo foi ocupado por Irineu Joffily. Aposentou-se do serviço público em 1931.

Lindolpho da Câmara escreveu alguns livros, a maioria com foco técnico na área da atividade alfandegaria. Foram eles Contas assinadas (1923); Projeto de reforma das tarifas (1928); Projeto de Código Aduaneiro (1929); Tarifa dos impostos de consumo (1930). Escreveu um livro de cunho histórico intitulado Na República Velha: aspectos administrativos, econômicos, financeiros, políticos e sociais (1931) e seu último trabalho de prosa e versos denominado Memórias e devaneios (1938). É nesta derradeira obra onde se encontra um capítulo denominado “Natal do meu tempo”, onde o autor trás as suas memórias sobre a sua cidade de nascimento nos primeiros anos da década de 1870.

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Foi casado com Constança Valença Câmara, gerando uma família com dez filhos, mas ela faleceu em 1938. Lindolfo Câmara por sua vez morreu no Rio de Janeiro, em 2 de julho de 1944, aos 81 anos, tendo o corpo sido enterrado no Cemitério São João Batista. O seu detalhado necrológico foi publicado no diário carioca Jornal do Commercio, edição de segunda e terça-feira, 3 e 4 de julho de 1944, na página cinco.

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Veríssimo de Melo – Fonte – http://www.tribunadonorte.com.br/

Aparentemente como resultado da publicação feita por Veríssimo de Melo no jornal “A República” de maio de 1972, esse material foi também publicado na Revista do Instituto de Ciências Humanas da UFRN em 2006 foi reeditado pela Editora Sebo Vermelho.

O leitor deve ficar atento que algumas passagens escritas por Veríssimo de Melo estão bem ligados a situações típicas do início da década de 1970, quando o texto foi escrito.

Gostaria de informar que devido a exiguidade de fotos da década de 1870 sobre Natal, utilizei o material do início do Século XX, quando muita coisa na cidade ainda tal e qual como visto e relatado por Lindolfo Câmara.

O TEXTO DE VERÍSSIMO DE MELO SOBRE AS MEMÓRIAS DE LINDOLPHO DA CÂMARA

“Natal há 100 anos passados”

Como seria Natal há cem anos passados? Quais as dimensões da cidade, topônimos, festas, superstições, costumes, condições gerais de vida da Província do Rio Grande do Norte aí pelos idos de 1872?

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Mapa de Natal nas últimas décadas do Século XIX. basicamente só existiam a região do centro da cidade e a Ribeira, cujo manguezal desta última área ainda não tinha sido aterrado.

Temos agora em mãos um depoimento de valor histórico, que nos permite visão e comentário em torno dos aspectos mais interessantes da nossa cidade, naqueles velhos tempos. Documento que não vimos citado pelos nossos historiadores, mas que tem valor não somente histórico, mas igualmente sociológico e antropológico. Trata-se do capítulo “Natal do Meu Tempo”, do livro “MEMÓRIAS E DEVANEIOS”, de autoria de Lindolpho Câmara, editado em 1938 no Rio de Janeiro. (Devemos ao Dr. Marciano Freire a lembrança de nos permitir compulsar o documento).

Esse Lindolpho Câmara, estamos sabendo agora, era homem probo, ligado à tradicional família Câmara, do Estado, tendo exercido postos os mais elevados no funcionalismo provincial e federal.

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Comparando-se os dados históricos de Lindolpho Câmara com os do historiador Manoel Ferreira Nobre, (“BREVE NOTÍCIA SOBRE A PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO NORTE”-1877), vemos que eles se completam e ampliam as informações sobre a época. Ferreira Nobre foi o nosso primeiro historiador. Seu livro já obedece a uma sistemática, atendo-se, preferentemente, aos aspectos político, educacional, administrativo e socioeconômico da Província. Lindolpho Câmara, embora consigne alguns dados estatísticos da cidade, estende-se mais a respeito de costumes e tradições. Seu depoimento, menos extenso, é mais pitoresco, mais vivo do que o de Ferreira Nobre. Em muitas passagens, escreve com objetividade e graça.

A primeira impressão de Lindolpho Câmara sobre Natal é a respeito da extrema pobreza da população. Em 1870, a cidade contava 12 mil almas. A população total da Província, segundo o censo de 1872, por ele citado, elevava-se a 233.960 habitantes, número quase idêntico ao que nos dá Ferreira Nobre.

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Os que aqui nasciam, diz o autor, em face da precariedade do meio, só tinham condições de ser pescadores, roceiros ou soldados de Polícia. O comércio era pobre. Não havia água encanada, nem esgoto, nem luz. Os poucos lampiões existentes, que queimavam azeite de mamona, antes do querosene, não se acendiam nas noites de lua… O 33º Presidente da Província, Henrique Pereira de Lucena, em 1872, pronunciava-se tristemente sobre Natal: “Vila insignificante e atrasadíssima do interior”. Daí o trocadilho da época, sobre Natal: Cidade? Não-há-tal.

A respeito da mendicância, Lindolpho Câmara afirma, simplesmente, que não havia em Natal, porque ninguém tinha o que dar… Nesse sentido, evoluímos muito.

Natal constituía-se da Cidade Alta e da Cidade Baixa ou Ribeira. As tradicionais lutas entre Xarias e Canguleiros são mencionadas pelo autor como fato de um século atrás, embora nada tenha visto a respeito. Além dos prédios públicos principais, a casa dos governadores, a Câmara e Cadeia e o Erário, só existiam quase as mesmas igrejas de hoje: a da Matriz, de Santo Antônio, do Rosário e do Bom Jesus.

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Os nomes de logradouros e ruas foram quase todos mudados, o que é lamentável, pois eram muito mais bonitos do que os atuais. O Canto do Mangue, por exemplo, era chamado o Canto das Jangadas. E as ruas principais eram a da Tatajubeira, das Virgens, das Laranjeiras, do Fogo, Rua Grande, Praça da Alegria, Rua da Palha, Rua Nova, Rua dos Tocos, Uruguaiana, Beco Novo. Os logradouros mais famosos eram o Baldo, a grande piscina pública, e o cais do Passo da Pátria, onde ancoravam as embarcações vindas do interior. A única devoção popular conhecida era a da Santa Cruz da Bica, hoje decadente. Há referência a uma lagoa de José ou João Felipe, e que deve ser a atual lagoa de Manoel Felipe.

Os dois mercados existentes eram precários: o da Ribeira funcionava debaixo de uma velha Tatajubeira. O da Cidade Alta, à Rua Nova, sob “frondosas gameleiras”. As medidas e pesos usados na época eram a cuia, a vara e a libra. As moedas eram o xenxém de 10 réis; dobrões de cobre de 20 e 40 réis; notas de 1$000 e 2$000; sendo que unidade era pataca, equivalente a dezesseis vinténs. Lindolpho Câmara faz uma afirmação importante do ponto de vista financeiro: “Naquele tempo, tudo era barato, menos o dinheiro”. É que a desgraçada da inflação ainda não tinha sido inventada pelos economistas…

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COMER E BEBER

Parece oportuno verificar o que comia e bebia o natalense há cem há anos passados: as frutas, os peixes, os doces, as bebidas, os pratos típicos.

Nos dois mercados, além da feira no Passo da Pátria, encontravam-se várias frutas apanhadas nos sítios e matas em redor da cidade. Umas abundantes ainda hoje. Outras, já raras. Por exemplo: eram e continuam abundantes, a mangaba, os cajus, cajaranas. Mas já não é fácil, nos mercados, frutas como a maçaranduba, guabiraba, camboins, oitis, ingás de corda, como ele chamava. E outras que até desconhecemos, como as ubais e os guajerus. Todavia, para colher essas frutas, havia que enfrentar os inimigos traiçoeiros dos matos: as formigas de fogo, cobras nas moitas e vespas na galhada. As caças mais abundantes na época eram os jacus, inhambus, cotias e tatus.

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Diz Lindolpho Câmara que não havia terra com maior abundância de peixes e crustáceos do que Natal daquela época. Trazidos pelas jangadas dos pescadores, enumeravam-se a cavala, o dentão, a cioba, o pargo, a pescada, a bicuda, o dourado, a corvina, o beijupirá e o cação. Nas praias, através dos currais ou da pesca de arrastão, com tresmalhos ou tarrafas, estavam as tainhas, sardinhas, espadas, palombetas, galos, carapebas, carapicus, bagre, baiacu, agulhas e agulhões. Pescados nos mangues e recifes da Fortaleza, lembra os camarões, lagostas, lagostins,  caranguejos, siris e aratus. Outras variedades eram os ouriços, ostras, mariscos, unhas de velho e polvos. De Ponta Negra, apesar da “longitude da travessia”, vinham os xaréus. Quanto à carne verde, o autor informa que eram abatidas duas rezes nos dias comuns e três, do sábado para o domingo e dias festivos, para toda população.

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A venda dos peixes, nos mercados, era feita tradicionalmente anunciada pelo eco de um grande búzio, “soprado por sujeito de fôlego e que estrondava pela cidade silenciosa até os seus confins”.

Os pratos típicos mais famosos parecem que eram as “dobradinhas”, “cobiça dos gastrônomos”, diz o autor, feitas com “livros” ou “folhoso”. A propósito desses “livros”, conta uma anedota de certo tipo popular, o negro Moisés, servente ou oficial de justiça, que andava sempre de sobrecasaca e cartola. Ao cruzar com o juiz de direito, sobraçando um “livro” (estômago de boi), indagou a autoridade:

– O que levas aí, é a Bíblia?

Resposta rápida do negro:

– Não senhor, é o Código Penal.

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O autor faz referências a outros pratos cuja fama chegou até nós: os mocotós, para as mãos-de-vaca ou panelada; os miolos, para as fritadas; as tripas e linguiças.

Das bebidas, só há registro da cachaça de Papari, que ele chama “a deusa dos ébrios”, e a “laranjinha”. Para as pessoas de categoria, havia a “genebra de Holanda”, importada em botijas de barro vidrado.

Já há cem anos certas bebidas se confundiam com remédios poderosos: a genebra era receitada também para cólicas intestinais, defluxeiras, espinhela caída, maus-olhados, sarampo e bexiga recolhida… Hoje, a cachaça corta resfriado e o uísque é bom para o coração…

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Em matéria de fumo, o melhor cigarro era o de fumo picado em papel de milho.

Só o nome depreciativo chegou até nós: Era o mata-rato…

SERENATAS E TERTÚLIAS

Há cem anos passados, Natal apresentava alguns costumes e tradições que chegaram até nós. Outros, porém, já se diluíram no tempo. Praticamente desapareceram da cidade em crescimento. Claro que ainda hoje, por exemplo, temos serenatas e tertúlias (estas com outros nomes). Mas os “Cantões”, – de que nos fala Lindolpho Câmara, – já desapareceram.

As festas de São João e Natal ainda persistem, embora perdendo sempre o brilho e entusiasmo de antigamente. Sobraram alguns vestígios, mas, estes mesmos, parece que estão fadados a se transformar rapidamente. Examinemos.

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As serenatas, há cem anos atrás, nas noites de lua, eram feitas ao som de violões, flautas, clarinetes e pistões. (Ora, quem sair, nos dias de hoje, com pistom e clarinete, pela madrugada, estará muito arriscado a ser levado pela Radiopatrulha. A lei do silêncio será logo lembrada, pelo telefone).

Lindolpho Câmara nos fala com tal entusiasmo das serenatas, do seu tempo, que chega a afirmar: “… até as pedras das calçadas se levantavam para ouvir” os seresteiros. Cantavam coisas assim: “Linda deidade chega à janela, vem ver a lua como está bela”. (A lua, coitada, depois que os astronautas estão lá dentro, já está meio desacreditada pelas moças). Mas frisa o autor que não era só a janela, que se abria, para os seresteiros. Era a porta, para deixar entrar “o bando canoro”. E o trago de vinho do Porto era servido a todos, “em um copo único”. A tradição do copo único, que já não existe, lembra a do mate gaúcho, servido de igual maneira. Com a divulgação dos princípios de higiene, ninguém mais se arrisca a beber no copo usado até mesmo por uma donzela… As festinhas familiares de hoje, aniversários, comemorações de qualquer espécie, entre amigos, eram chamadas antigamente de “tertúlias”.

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Lindolpho Câmara refere que a falta de clubes recreativos na cidade determinava as comemorações caseiras. Parece que esse não era o motivo principal. Hoje, a cidade está cheia de clubes e as festinhas familiares continuam. São as mais gostosas.

Naquele tempo, já se recitava ao som de Dalila, um dedilhado ao violão, que chegou até nós. Alguns conservadores ainda fazem questão de Dalila, para recitar besteira. Numa dessas tertúlias, há cem anos passados, o autor lembrou distinta dama da sociedade, que a todos encantou interpretando uma melodia e acompanhando-se ao violão. Atualmente, de tanto “encher” a cidade as Maysas Matarazzos e outras vedetes do gênero, é mais aplaudida a dama que não canta e nem toca violão.

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Os “Cantões” eram reuniões permanentes de pessoas amigas, nas calçadas de certas residências, para bater papo e falar da vida alheia. O mau hábito de falar da vida alheia é universal e eterno. Mas em Natal, já agora, não se fala apenas em locais determinados. Fala-se por toda parte. Lembra Lindolpho Câmara o “Cantão” famoso do capitão José Antônio de Souza Caldas, na calçada da sacristia da Matriz. O capitão, que morava defronte, fornecia as cadeiras e a turma se reunia, toda tarde. Era uma roda de Conservadores, diz o autor, o que excluía os Liberais da época. Sabemos hoje, de raros casos de pessoas distintas de Natal, que ainda se reúnem em cadeiras nas calçadas, para papear. Mas, Deus nos livre de citá-los nominalmente e nem lembrar de quem ali se fala e toda a cidade sabe no dia seguinte… O perigo maior de sentar na calçada, nos dias atuais, para falar da vida alheia, não é tanto devido à possível repercussão dos assuntos tratados. O perigo mesmo está na passagem dos chamados “playboys”, com suas máquinas voadoras, podendo levar todos nós de roldão, para o beleléu…

SÃO JOÃO E NATAL

Duas grandes festas do povo, na cidade, há cem anos passados, eram também o São João e o Natal, afirma o memorialista Lindolpho Câmara.

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No São João, acendiam-se as fogueiras diante dos lares pobres ou remediados, para assar o milho verde e as batatas doces. Dentro das casas, armavam-se altares de banqueta, com a efígie de São João no alto. Entoavam-se cantos alusivos à data e na mesa de jantar estavam os pratos de canjica e bolos os mais variados. Moças e rapazes tiravam sortes, – como ainda hoje, – para saber com quem casavam. À meia-noite, diante do altar, cumpria-se velha superstição: todos deveriam olhar um espelho, para verificar se viam a própria cabeça. (É claro que todos a viam). Mas afirmava-se que, aquele que não a visse, deveria logo mandar encomendar o caixão mortuário…

Variante da mesma abusão, que já registramos no passado, mandava que se olhasse para o fundo de uma jarra com o mesmo fim. Sobre a festa do Natal, o autor refere que saíam às ruas o Bumba-meu-boi, o samba, o maracatu e o batuque. A referência ao maracatu é curiosa. Sabíamos da existência do tradicional maracatu do Recife, e, mais recentemente, em Fortaleza. Mas nunca tivemos notícia de maracatu em Natal. Pena que o autor não tivesse descrito o folguedo popular.

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Nas casas de famílias armavam-se os “vistosos presépios”, a nossa verdadeira tradição latina, hoje praticamente substituída pelas chamadas “árvores de natal”, pagãs e sem qualquer vinculação com a tradição brasileira e portuguesa. À meia-noite, informa Lindolpho Câmara, serviam-se comidas típicas, algumas “hoje” quase desconhecidas: os pastéis de carne de porco, o chouriço, os doces secos, os sequilhos, as castanhas de caju confeitadas.

Os cordões de pastorinhas invadiam as casas, entoando os cânticos tradicionais: “Entrai, entrai Pastorinhas, entrai, entrai em Belém vinde ver nascido Jesus, nosso Bem”. É preciso considerar o comportamento das moças nessa época, segundo refere o autor. O recato era rigoroso: “Não podiam pôr o pé fora do sapato,não podiam cruzar as pernas, nem falar alto, nem comer qualquer iguaria à porta ou à janela, nem olhar para rapazes”.

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O namoro era considerado indecoroso. As moças só casavam com quem os pais determinavam. Conta, a propósito, o que se verificou na casa do Dr. Loló, senhor de engenho no Ceará-Mirim. Certo dia apareceu um sujeitinho para pedir a mão de uma das suas filhas em casamento. Dr. Loló reuniu as meninas, avisou-as antecipadamente de que não deveriam aceitar a proposta e mandou-as para a sala. Falou na presença de todos: – O Sr. Manuel veio pedir uma de vocês em casamento. Qual a que quer? – Eu não quero, disse uma. – Eu também não, disse outra. Então o Dr. Loló exclamou diante do fracassado pretendente: – Está vendo Manuelzinho, elas não querem. Não posso satisfazer o seu pedido, embora fosse muito do meu agrado…

Mas, apesar disso, é fora de dúvida que as moças namoravam e casavam, vencendo ou driblando os obstáculos paternos. E havia muitas que fugiam, exatamente como hoje.

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MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Quanto menor a cidade e mais pobre, mais precários são os seus meios de comunicação. Por aí já se tem uma ideia de como seriam os veículos de comunicação na velha cidade do Natal, há cem anos passados.

Das memórias de Lindolpho Câmara, que estamos comentando, destacam-se, nesse sentido, os sinais semafóricos, através do telégrafo ótico da Catedral e o movimento dos carretos à cabeça, em animais e carros de bois. Esse telégrafo, por meio de bandeiras e cores, montado no alto da torre da Matriz, foi também um dos nossos alumbramentos na meninice. Muitas vezes, foi também um dos nossos alumbramentos na mesmice. Muitas vezes, ficávamos horas esquecidas sentados no telhado de casa, só prá ver os escoteiros mudar as bandeiras coloridas. Mesmo sem entender o significado dos sinais, estamos convencidos, hoje, de que aquele serviço foi, na verdade, a nossa primeira TV a cores.

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Temos agora em mãos o folheto intitulado “CÓDIGO DO TELÉGRAFO ÓPTICO”, trazendo o Decreto Estadual n.º 156, de 18 de novembro de 1921, do Governador Antônio José de Mello e Souza, que restabeleceu o serviço semafórico, sob a direção da Associação dos Escoteiros do Alecrim. Segundo as “explicações”, o telégrafo começaria a funcionar a “um quarto antes do nascimento do sol, terminando um quarto de hora depois do ocaso”.

São centenas as convenções, de acordo com o Código Marítimo Internacional, mas o nosso, da Catedral, só empregava três bandeiras – azuis e vermelhas, quadradas e em forma de quadriláteros, – e três galhardetes. Entre outras informações, os sinais indicavam a saída e entrada dos navios; se eram de guerra ou transporte; nacionalidade; se estavam passando noutra direção ou vinham ancorar em Natal; se havia enfermo a bordo; se pediam o prático; nome da embarcação e da companhia de navegação, etc. Havia até um sinal que indicava se o navio batera na “baixinha”, a pedra famosa onde encalharam várias embarcações. O telégrafo óptico prestou serviço real à população natalense desde o século passado até, talvez, a década de trinta.

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Sobre os outros meios de comunicação, convém registrar a observação de Lindolpho Câmara quanto ao nosso primeiro carro de passeio. Afirma que, há cem anos passados, Natal não dispunha de um só veículo para tráfego na cidade. Tudo era feito a pé ou em animais. E ninguém cogitava de adquirir nem mesmo “uma caleça ou um tilbury”.

Daí, relata coisas incríveis como estas: o Presidente da Província, com o seu séquito, partia a pé, do Palácio (na Rua do Comércio, na Ribeira), subia a ladeira e vinha abrir a sessão da Assembleia Legislativa na Cidade Alta. Diz ele: “… chegavam esbaforidos, suarentos, que quase nem podiam subir as escadas do edifício…” Finda a cerimônia , tornava pela mesma rota ao Palácio.

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Os enterros eram penosos, acrescenta. Todos “chegavam deitando a alma pela boca, menos o defunto“.

Os casamentos “eram ridículos”: todo mundo a pé, inclusive os noivos, na frente, subindo e descendo ladeira, dando topadas nas pedras pontudas…

Só nas proximidades da proclamação da República, o Dr. Celso Caldas, médico, adquiriu um carro usado, no Recife, nele atrelando dois cavalos magros. Fazia as visitas aos doentes nesse carro e também passeava, emprestando-o, muitas vezes, para cerimônias oficiais.

CONCLUSÃO

Foi esta a imagem que pudemos inferir de Natal há cem anos passados, segundo o depoimento do Dr. Lindolpho Câmara.

Era, positivamente, uma cidade pobre, desprovida dos meios mais elementares ao desenvolvimento urbano. De certa forma, refletia a influência do plano nacional. Todavia, nestes cem anos de existência, Natal cresceu e desenvolveu-se muito mais do que poderia imaginar os já nascidos nas primeiras décadas deste século XX. Daqui a cem anos, isto é, no ano de 2072, o que dirão de nós os nossos pósteros? Possivelmente, ainda nos considerarão subdesenvolvidos como nós achamos hoje os nossos antepassados do ano de 1872. E assim é a vida…