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O AVIÃO DA FOTO – MEMÓRIAS FOTOGRÁFICAS DA SEGUNDA GUERRA NO NORDESTE DO BRASIL

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O Curtiss P-40E-1 da Força Aérea Brasileira (FAB) acidentado no Campo do Pici, Fortaleza, durante a Segunda Guerra Mundial.

Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte IHGRN

Já faz algum tempo que eu consegui e mantenho algumas ótimas amizades com cidadãos estadunidenses que tiveram antepassados baseados no Nordeste do Brasil durante seus períodos de serviço ativo na Segunda Guerra Mundial.

Entre eles está Bill Bray, cujo sogro serviu na Marinha dos Estados Unidos (US Navy), ficando baseado entre Salvador, Recife, Natal e Fortaleza. Ele tinha uma função na área de fotografia aérea da aviação naval e nas suas horas vagas gostava de fotografar as facetas da guerra, as paisagens e as pessoas do grande e exótico país tropical da América do Sul onde viveu por alguns anos.

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O mesmo avião em foto da coleção do Sr. Paulo J. Pinto. Através de Bill Bray.

Recentemente Bill me enviou a foto da aeronave que abre este artigo e me perguntou se conhecia algo sobre o que a imagem mostrava[1].

As indicações da foto apontavam para um acidente ocorrido em Fortaleza, no Campo do Pici, ou o Pici Field para os americanos. Mas sem maiores dados.

Além da foto realizada pelo seu sogro, ele fez a gentileza de me enviar duas fotos da coleção do Sr. Paulo J. Pinto, a quem não conheço. Bill me informou ser um oficial da Força Aérea Brasileira (FAB), atualmente aposentado, e estas últimas fotos teriam sido obtidas em um arquivo de fotos da Força Aérea dos Estados Unidos. 

Então fui procurar informações para ajudar este amigo!

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Coleção do Sr. Paulo J. Pinto. Através de Bill Bray.

Um Grande Avião

Sem maiores problemas sabemos que a aeronave clicada é um caça Curtiss P-40, considerada uma das aeronaves mais facilmente reconhecíveis entre tantas que participaram da Segunda Guerra Mundial. E tudo graças aos dentes brancos perolados pintados dentro de uma imensa boca de tubarão vermelha no nariz da aeronave.

Podemos ver que a aeronave em questão realizou um pouso de “barriga” em uma área sem asfalto, provavelmente devido a algum defeito em seu trem de pouso. E pela foto podemos deduzir que o piloto era bom!

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O mesmo avião envolvido neste acidente, em um interessante desenho artístico – Fonte – http://www.britmodeller

 

Das três pás da hélice do P-40 apenas duas estão retorcidas, apontando que o avião tocou o solo e se arrastou a baixa velocidade, empenou duas das pás da hélice e a terceira travou intacta. Pelo rastro no solo, na dianteira do P-40, dá para ver que o avião rodopiou e se deslocou para trás por alguns metros.

Em relação ao avião da foto ele é um dos seis P-40E-1 entregues pelos Estados Unidos no primeiro semestre de 1942, através dos acordos Lead Lease. Um detalhe – O Brasil foi o país latino americano que mais aproveitou destes acordos. Entre março de 1942 e o fim do ano fiscal de 1947 chegaram US$ 357.006.600,90 em equipamentos bélicos e dinheiro para construção de bases de apoio logístico.

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O avião “01” em outro interessante desenho – Fonte – tropasearmas3.xpg.uol.com.br

Os especialistas em aviação histórica brasileira afirmam que estes seis aviões recebidos pela FAB eram da versão P-40E-1-CU. As informações apontam que estas aeronaves eram novas, “0 km”, e seriam destinadas a uma encomenda da Royal Air Force (RAF) para proteger os céus do ainda imponente Império Britânico. Tanto assim que estes P-40E-1 chegaram a Natal ostentando suas matriculas originais (iniciadas pelas letras “ET”) e a típica pintura que esta força aérea utilizava em seus caças durante a Segunda Guerra. Eles também vieram da fábrica dos Estados Unidos com as famosas bocas de tubarão.

Consta que estes seis P-40 foram desviadas para o Brasil para cumprir compromissos dos Estados Unidos em relação ao reequipamento das Forças Armadas brasileiros e o processo em questão tinha urgência.

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Desenho do “01” enviado por Bill Bray.

Andei pesquisando sobre a origem destes P-40E-1, consultando sites que possuem extensas listagens da fabricação destes aviões pela empresa Curtiss-Wright Corporation Airplane Division em Buffalo, Nova York. Descobri que as aeronaves P-40E-1 e suas variantes que não foram utilizados pelos Estados Unidos, foram oficialmente enviados aos ingleses, russos, australianos e até aos neozelandeses. Produziram-se 1.512 P-40E-1 e, ao menos oficialmente nas listagens da fábrica Curtiss, nenhum deles veio para o Brasil.

Então como estes seis chegaram a Natal?

Apenas mais uma “magica” da burocracia militar. Alguém com mais estrelas e galões achou que o Brasil deveria receber seis P-40E-1 naquele momento e assim foi feito.

Em Ação No Litoral

Em 7 de agosto de 1942 aconteceu o primeiro voo de um P-40E-1 na Base Aérea de Natal. Estes aviões então passaram a fazer parte do inventário do “Agrupamento de Aviões P-40”, uma das primeiras esquadrilhas de caças operacionais da FAB. A partir de 24 de dezembro de 1942 esta esquadrilha seria denominada “Grupo Monoposto-Monomotor”.

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P-40, uma grande aeronave.

Primeiramente estas aeronaves receberam uma numeração na FAB que ia de 01 á 06 e posteriormente receberam as numerações de quatro dígitos da jovem Força Aérea Brasileira. No caso destes aviões foi de 4020 á 4025.

Empregados entre 1942 e 1954, os P-40 da Força Aérea Brasileira foram as primeiras aeronaves capazes de realizar missões de caça e defesa aérea no Brasil durante a Segunda Grande Guerra. Nesse primeiro semestres de 1942 estes P-40E-1 iniciaram as chamadas “Coberturas aéreas”, ou seja, o acompanhamento de navios que viajavam fora de comboios e próximos a costa dos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, além do patrulhamento marítimo e ações armadas no caso de aparição de alguma nave inimiga.

Sabemos através da leitura do livro História da Base Aérea de Natal (Ed. Unigversitária, Natal, 1980), de autoria do coronel aviador Fernando Hippólyto da Costa, que no dia 1 de outubro de 1942 o navio Almirante Jaceguay, da Marinha do Brasil, saiu do porto de Natal para uma missão de apoio a guarnição da Marinha na cidade de Macau, na costa do Rio Grande do Norte. Quem acompanhou este velho navio realizando a sua proteção aérea durante duas horas e trinta minutos de voo foi o major aviador Ernani Pedrosa Hardman. Ele utilizou o avião monomotor de caça P-40E-1, com o número 01 pintado na cauda. O mesmo da foto que abre este texto.

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O Ministro da Aeronáutica Salgado Filho (de terno branco) e oficiais da recém criada FAB no Campo dos Afonsos-RJ em 1942. Foi nesta época que a aeronave da foto chegou a Natal.

O mesmo major Hardman já havia realizado outros voos de patrulha, inclusive o primeiro utilizando os P-40E-1 de Natal, fato que ocorreu no dia 18 de agosto de 1942 e a aeronave foi o mesmo de numeração 01[2].

Se analisarmos com atenção não se pode deixar de comentar que essas missões mostram claramente como era precária a situação das forçar armadas brasileiras em termos de meios operacionais naquela época.

Almirante Jaceguay era um navio hidrográfico construído em 1917, com 815 toneladas, cujo funcionamento de seu motor era a carvão e tinha 87 metros de comprimento. Mas com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial o velho Jaceguay foi armado com dois canhões de 47 mm, 16 cargas de profundidade e foi reclassificado como uma “corveta”.

O Almirante Jaceguay 
O Almirante Jaceguay

Se o navio não tinha tanta capacidade de combate, a ideia de se colocar um P-40E-1 armado apenas com metralhadoras e bombas leves para atuar contra um submarino nazifascista era muito mais simbólica do que prática. Para uma missão como aquela conseguir algo mais efetivo o major Hardman deveria está em um avião como o Grumman TBF Avenger, equipado com cargas de profundidade modelo Mark-17, com 300 kg de explosivos TNT.

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Carga de profundidade modelo Mark-17 – Fonte – NARA.

Mas se a realização da missão era limitada em termos bélicos, isso nada desmerece a coragem e a vontade de lutar daqueles brasileiros. Principalmente quando observamos que, segundo relatos de pesquisadores alemães e suecos, no dia 1 de outubro de 1942, a cerca de 300 milhas náuticas da costa do Maranhão, o submarino alemão U-514 espreitava as aguas do Atlântico Sul atrás de novas vitimas. Esta nave era comandada pelo Kapitänleutnant Hans-Jügen Auffermann, estava no seu 48º dia de patrulha de combate, após haver saído da cidade alemã de Kristiansand no dia 15 de Agosto de 1942.

Até o dia do voo do major aviador Hardman para proteger o Almirante Jaceguay o submarino U-514 já tinha afundado quatro navios de carga (dois brasileiros e dois ingleses) e danificado um (canadense) entre a região de Trinidad e a foz do rio Amazonas. No dia 12 de outubro o U-514 afundaria um navio de carga americano, depois estenderia sua patrulha até a costa do Ceará e então retornaria para Alemanha[3].

Flying Tigers

Observando o livro do coronel Fernando Hippólyto da Costa encontrei uma listagem de missões dos aviões da FAB em Natal no ano de 1942 e descobri que o P-40E-1 da foto era quase sempre utilizado pelo major aviador Hardman, comandante da esquadrilha, e pelo capitão aviador Roberto Faria Lima. Talvez um deles tenha realizado com sucesso a aterrissagem forçada em Fortaleza e cuja aeronave foi fotografada pelo sogro de Bill Bray.

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Infelizmente não pude atender ao pedido do meu amigo norte-americano. Especificamente sobre o acidente da foto nada tenho. Mas aparentemente as avarias foram leves, pois no livro História da Base Aérea de Natal encontrei a indicação que o 01 continuou na ativa.

Em 24 de setembro de 1945, com o fim da guerra e da importância de Natal como ponto estratégico, cinco dos P-40E-1 foram enviados para a Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, e depois para Base Aérea de Canoas, no Rio Grande do Sul. Entre eles estava o P-40E-1, número da FAB 4020, o velho 01 da foto.

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Segundo autores aeronáuticos um dos aviões que chegaram a Natal em 1942 foi destruído em Recife, em uma instrução de voo.

Foi entre dezembro de 1941 e julho de 1942 que a esquadrilha Flying Tigers, comandados pelo general Claire Lee Chennault, tornou famoso o caça P-40 e sua icônica pintura de boca de tubarão. Esta era uma unidade de pilotos voluntários americanos oficialmente denominados American Volunteer Group (AVG), que foram contratados pela Força Aérea Nacionalista da China de Chiang Kai-Shek para lutaram contra os japoneses que ocupavam seu país e os Flying Tigers abateram 299 aeronaves inimigas confirmadas.

Sem duvida o P-40 foi o caça monomotor americano mais importante nos dois primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. Era a única aeronave disponível em grandes quantidades (e, portanto, a um custo relativamente baixo de US $ 45.000 cada) e com prazos de entrega aceitáveis.

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Grandes quantidades dessas aeronaves foram posteriormente construídas no decorrer de uma longa carreira pela empresa Curtiss. Um total de 13.740 aviões deste modelo saiu das linhas de montagem entre 1939 e 1944 e, tal como aconteceu com muitos aviões de combate envolvidos neste conflito, foram fabricados uma dúzia de versões à medida que a aeronave ia sendo modificada durante a guerra. Apenas dois outros caças americanos foram produzidos em maior número, o North American Aviation P-51 Mustang e o Republic P-47 Thunderbolt. 

Os P-40 tinham fabricação semi modular, o que facilitava a sua manutenção e fez a aeronave tolerar as piores condições ambientais, lutando em qualquer lugar. Dos desertos do Norte da África às matas da Nova Guiné, das tórridas Índias Orientais Holandesas, ao clima polar da União Soviética e do Alasca, o ronco do seu motor foi ouvido.

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Apesar disso esta aeronave nunca foi considerada um caça de primeira linha, como os famosos P-51, ou o Supermarine Spitfire inglês. Era medíocre em alta altitude, sendo mais lento e menos manobrável do que seus inimigos. E o motivo estava no seu motor Allison de 12 cilindros. 

Embora o desempenho geral não tenha sido excelente, o P-40 podia suportar quantidades incríveis de danos de batalha e na mão de pilotos habilidosos possuía alguma capacidade de combate.

Atualmente cerca de quinze a vinte P-40 ainda são aeronavegáveis  em todo o mundo. 

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Alguns dos poucos P-40 remanescentes e em condições de voo em uma apresentação aérea.

O P-40E-1 era alimentado por um motor Allison V-1710-39, de 1150 hp, com 12 cilindros em V e refrigeração a líquido. A velocidade máxima era de 560 kph, com uma taxa de escalada inicial de 2.100 pés por minuto. Uma altitude de 20.000 pés poderia ser alcançada em 11,5 minutos. O teto do serviço era de 29 mil pés. O alcance máximo foi de 1.040 quilômetros de distância (limpo) e 2.250 quilômetros com um tanque de combustível extra de 141.5 Imp gal. Tinham um peso vazio de 3.039 kg, uma envergadura de 11,36 m, um comprimento de 10,14 m e uma altura de 3,75 m.

NOTAS


[1] Na mesma foto é possível ver ao fundo um dirigível Blimp, dos esquadrões “ZP” da US Navy, utilizados no patrulhamento antissubmarino e amarrado em um mastro feito a partir de árvores locais.

[2] Vale ressaltar que desde meados de 1941 que a aeronáutica militar brasileira havia começado os patrulhamentos aéreos em todo litoral brasileiro, em muitos casos utilizando até inofensivos aviões de instrução. Apesar de obviamente os aviões de instrução não poderem atacar submarinos, os líderes militares acreditavam que a simples presença destas aeronaves vigiando as rotas marítimas restringia a liberdade de ação dos submarinos. Caso um submarino fosse avistado era possível alertar a navegação mercante e enviar aviões de guerra para a área de ataque. Existem relatos de aviadores naquelas aeronaves primitivas, muitas sem comunicação alguma, a 25 milhas marítimas (pouco menos de 50 quilômetros), ou mais, a partir da costa.

[3] O U-514 era um submarino germânico do tipo IX-C, tendo sido comissionado em 24 de janeiro de 1942 e aquela era sua primeira patrulha de combate. Afundou em sua carreira quatro navios e danificou dois e foi destruído em 8 de julho de 1943, a nordeste do Cabo Finisterre, Espanha, Na posição 43º37’ N 08º59’ W, por foguetes disparados de uma aeronave Liberator inglesa. Todos os 54 membros de sua tripulação morreram nesta ação.

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A BUSCA PELOS CAÇAS SPITFIRES ENTERRADOS NA ÁSIA

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A PESQUISA PARA ENCONTRAR 140 CAÇAS INGLESES SPITFIRES ENTERRADOS EM MYANMAR E O QUE ISSO TEM HAVER COM A ARQUEOLOGIA DE ARTEFATOS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL EM NATAL

Em dezembro de 1941, a invasão japonesa da Birmânia iniciou aquela que seria a mais longa campanha terrestre da Grã-Bretanha em toda a Segunda Guerra Mundial.

Após o ataque japonês as ilhas Havaí, em 7 de dezembro de 1941, os japoneses avançavam inexoravelmente em praticamente toda a Ásia. Em pouco tempo derrotaram os britânicos em Cingapura e os norte-americanos nas Filipinas. Não demorou muito para os nipônicos se voltassem para a Birmânia, então uma província da Índia Britânica. A capital birmanesa era Rangoon, que caiu nas mãos dos japoneses em março de 1942. Britânicos, indianos e seus aliados chineses retrocederam para a Índia.

Ingleses se rendem aos japoneses na Ásia
Ingleses se rendem aos japoneses na Ásia

O verdadeiro problema para os Aliados nesta frente de combate foi o meio ambiente. A Birmânia, um país situado no sudeste da Ásia, é uma região onde existem selvas, montanhas, planícies, rios, lagos e mangues, tudo isso sempre em meio a muita umidade e constantes doenças, onde a malária predominava.

O único vislumbre de esperança veio das chamadas forças “Chindits”, grupos de penetração de longo alcance, que travaram uma exitosa guerra de guerrilhas contra os japoneses na selva birmanesa.

Forças britânicas na Birmânia observam a ação do inimigo.
Forças britânicas na Birmânia observam a ação do inimigo.

Ao longo de 1943 o horizonte parecia sombrio para os britânicos, que não tinha os recursos e a organização para recapturar a Birmânia. Mas em breve eles vão constituir o XIV Exército Britânico, a mais cosmopolita força de combate do Comando do Sudeste Asiático, composto de ingleses, indianos e africanos ocidentais.

Em meio a muitas batalhas, derrotas e vitórias, as forças da Comunidade Britânica conseguiram colocar os japoneses em retirada; dos seus 85.000 soldados, 30.000 foram mortos.

Finalmente, em 6 de maio de 1945, uma operação anfíbia ambiciosa permitiu ao XIV Exército entrar em Rangoon. Embora este tenha sido efetivamente o fim da campanha, as forças japoneses restantes na Birmânia só vão se render em 28 de agosto de 1945.

C-47 Dakota, o "burro de carga aliado", em uma base na Birmânia. A maioria destes aviões que serviram no oriente passaram por Natal, vindos dos Estados Unidos.
C-47 Dakota, o “burro de carga aliado”, em uma base na Birmânia. A maioria destes aviões que serviram no oriente passaram por Natal, vindos dos Estados Unidos.

Um dos fatores fundamentais da derrota dos japoneses na Birmânia foi contínua utilização do reabastecimento aéreo junto às tropas Aliadas. Este apoio foi fornecido principalmente por aviões bimotores de carga norte-americanos C-47 Dakota, versão militar do mítico Douglas DC-3. A maioria das aeronaves que participaram do esforço para derrotar os japoneses na Birmânia, bem como as cargas por eles transportadas e suas tripulações, passaram por Natal e Parnamirim Field.

Em um campo de pouso vemos no primeiro plano o nariz de um Spitfire e ao fundo um caça japonês abatido e queimando.
Em um campo de pouso vemos no primeiro plano o nariz de um Supermarine Spitfire e ao fundo um caça japonês abatido e queimando.

Na área de atuação do XIV Exército foram utilizados caças, como o monomotor Supermarine Spitfire, o mais famoso avião de combate britânico. Esta é a mesma aeronave que os ingleses utilizaram para derrotar ondas de bombardeiros alemães durante a fase inicial da Segunda Guerra Mundial, na famosa Batalha da Inglaterra. Cerca de 20.000 Spitfires foram construídos.

A Pesquisa em Busca dos Aviões Perdidos

David J. Cundall, um fazendeiro e entusiasta da aviação de Lincolnshire, Inglaterra, foi informado que em 1996 raros caças Spitfires Mk XIV tinha sido declarados excedentes no final da guerra e foram enterrados em caixas na Birmânia.

David J. Cundall (esq.), o homem que sonhou desenterrar 140 aviões da Segunda Guerra Mundial
David J. Cundall (esq.), o homem que sonhou desenterrar 140 aviões da Segunda Guerra Mundial

Cundall pesquisou e reuniu o testemunho de oito militares sobreviventes. Pouco antes da retirada da maioria das tropas britânicas ali estacionadas, estas aeronaves foram desmontadas, lubrificadas, acondicionadas em grandes caixas de madeira recobertas com teca e secretamente enterrados em solo birmanes. O trabalho teria sido realizado por ordens de Lorde Louis Mountbatten, comandante em chefe britânico na região, com a ajuda de engenheiros norte-americanos.

Um grande aliado de Cundall foi Stanley Coombe, um veterano de guerra de 91 anos de idade e um dos oito ex-militares britânicos que diz ter testemunhado o “sepultamento” das aeronaves. Coombe estava estacionado em Rangoon enquanto servia no Regimento Real de Berkshire. Conta que ao ver os enormes caixotes de madeira, ele perguntou a um capitão da RAF (Royal Air Force) o que havia ali e ele disse: “Você não vai acreditar, mas eles são Spitfires” e informou que logo seriam enterrados. Ao espantado Coombe o oficial afirmou que “Era mais barato enterrá-los do que levá-los para casa e assim evitariam que eles caiassem em mãos erradas”. Os relatos apontavam que os aviões foram depositados a uma profundidade de até 10 metros e que o número de Spitfires poderia chegar a 140 unidades enterradas.

Seria desta maneira que se encaixotavam aviões Spitfire.
Seria desta maneira que se encaixotavam aviões Spitfire.

Cundall informou que conseguiu pretensas evidências no Arquivo Nacional Britânico, que apoiavam a alegação que os caças haviam sido enterrados ao invés de repatriados.

Em entrevista a jornalistas, o fazendeiro admirador de antigos aviões disse que a prática de enterrar aviões, tanques e jipes era comum após a guerra “Basicamente, ninguém tinha conseguido ordens para levar esses aviões de volta a Grã-Bretanha. Eles eram apenas excesso e uma forma de dar um destino a estas máquinas era enterrá-los”. Comentou ainda de maneira bem simplista que “Temos que entender que a guerra havia acabado, todo mundo queria ir para casa, ninguém queria nada, então era só enterrar e voltar para casa. Foi isso.”

Encontrar Um Caça Magistral Enterrado em um País complicado

Independente disso, com o passar dos anos o legado histórico do Spitfire só fez crescer.

Associado à divulgação no cinema, na literatura e outras formas de artes, este antigo avião de combate da Segunda Guerra Mundial se tronou um objeto de adoração popular.

Vocês sabiam que existe um Spitfire em um museu no Brasil? Ele está muiton bem preservado e se encontra no Museu da TAM, em São Carlos, no interior do estado de São Paulo.
Vocês sabiam que existe um  autêntico Supermarine Spitfire em um museu no Brasil? Ele está muito bem preservado e se encontra no Museu da TAM, em São Carlos, no interior do estado de São Paulo.

A maioria destas verdadeiras relíquias aéreas se encontram estáticos em museus, mas alguns, em meio a um grande esforço de abnegados, continuam voando. Principalmente na Europa e nos Estados Unidos estas velhas máquinas são as grandes atrações em festivais aéreos e alguns exemplares destes chamados “Warbirds” chegam a valer milhares de dólares. Atualmente ainda existem mais de 50 Spitfires voando.

Um Supermarine Spitfire nos dias atuais.
Um Supermarine Spitfire nos dias atuais.

Os britânicos permaneceram na Birmânia até 1948, quando foi concedida a independência no dia 4 de janeiro daquele ano. Com o passar dos anos a Birmânia se transformou no atual Myanmar. Mas não foram apenas estas mudanças que David Cundall encontrou naquele país. Desde 1962 a situação política era no mínimo caótica.

Em Myanmar foi criado um dos regimes mais sangrentos, fechados, militarizados e opressores, cuja política ditatorial assombrou o mundo. Isso tudo em meio a uma violenta guerrilha oposicionista, uma tentativa de democratização em fins da década de 80 e o reinício do governo militar autoritário na década seguinte. Para completar o caldo de problemas a população de Mianmar é divida entre muitas etnias, várias religiões (apesar da predominância do budismo), muitos idiomas e continua a ser um dos países mais pobres da Ásia.

Aung San Suu Kyi é a principal ativista pela redemocratização de Myanmar. Já foi agraciada com o Prêmio Nobel e até Bono, da banda U2 compôs a música “Walk On” em sua homenagem.
Aung San Suu Kyi é a principal ativista pela redemocratização de Myanmar. Já foi agraciada com o Prêmio Nobel e até Bono, da banda U2, compôs a música “Walk On” em sua homenagem.

Somente nos últimos anos começou um novo processo de abertura e distensão política no país e isso possibilitou que David Cundall seguisse adiante na sua empreitada.

Euforia

Durante a primeira fase do projeto, os pesquisadores esperavam recuperar 60 aviões enterrados em vários locais de Myanmar: 36 aviões na antiga base da RAF de Mingaladon, atual aeroporto internacional de Yangon (nome como Rangoon é conhecida atualmente), seis em Meikthila no centro de Mianmar, e 18 em Myitkyina, no estado de Kachin. Outros seriam recuperados em uma segunda fase.

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O acordo com o complicado regime de Myanmar contou inclusive com a participação e cooperação do atual primeiro-ministro britânico David Cameron, que em abril de 2012 conseguiu a autorização para que a equipe de pesquisadores britânicos visitasse o país asiático para aprofundar os trabalhos e o definitivo sinal verde para o início das escavações veio em outubro de 2012.

Sobre o acordo ficou definido que o governo de Myanmar teria um avião para exibição em um museu, bem como metade do total restante. A empresa privada dirigida por Cundall (DJC) receberia 30 por cento do total recuperado e a empresa Shwe Taung Por Group (STP), parceiro local de Cundall, receberia 20 por cento.

Logo surgiu o apoio financeiro de Victor Kislyi, de 36 anos, um rico empreendedor da Bielorrússia, dono da empresa de jogos virtuais Wargaming.net.

Ceticismo

Apesar da grande euforia entre os entusiastas de história militar em todo o mundo, alguns observadores na Grã-Bretanha e em Myanmar estavam prá lá de céticos com toda esta situação.

Escavações ao lado da pista do aeroporto.
Escavações ao lado da pista do aeroporto.

O jornalista U Sein Win, de Yangon, questionou: “É difícil acreditar que estes Spitfires foram enterrados aqui. Nós queremos saber como os britânicos e americanos enterraram sem ninguém saber, em uma época em que não havia tantas máquinas de escavação pesada nestas localidades e para que enterrar caças novos?”.

Em janeiro último uma carta foi publicada no conceituado jornal londrino The Times, onde Lionel Timmins, um veterano mecânico de voo na época da guerra, baseado na Base da RAF de Mingalardon, lançou mais dúvidas sobre a história: “Eu não vi nada de enterros de Spitfires, nem ouvi qualquer rumor e saberia se algo assim houvesse acontecido”.

Outro veterano, Stanley Ross, de 87 anos, subtenente do Royal Army Ordnance Corps (RAOC), responsável pelo parque de veículos ao lado do campo de pouso durante a rendição japonesa, que também estava estacionado em Mingaladon, comentou que ali havia principalmente aviões C-47 Dakota e quando a guerra terminou também chegaram Spitfires. Para ele “A base era muito básica, nós vivíamos em tendas ao lado do aeródromo e do outro lado tinha o parque de veículos”. E afirmou que: “Eu nunca tinha visto ou ouvido nada sobre Spitfires enterrados, até ler sobre o trabalho deste cara (Cundall)”.

Cundall (de óculos) observa a evolução dos trabalhos.
Cundall (de óculos) observa a evolução dos trabalhos.

Para entornar mais o caldo um porta-voz do Ministério da Defesa britânico em Londres, simplesmente informou a jornalistas do The Times que não havia registros no ministério do envio de Spitfires para a Birmânia, nem ordens de enterramentos destes aviões em 1945.

Mas Cundall não parou e de Myanmar chegaram às primeiras notícias.

Decepção

Em janeiro de 2013 diferentes locais começaram a ser escavados por equipes distintas de 21 entusiastas da aviação e três arqueólogos independentes: Martin Brown, de 47 anos, Rod Scott, de 49 anos e Andy Brockman, de 51 e líder dos arqueólogos. Além destes faziam parte do grupo geofísicos da Universidade de Leeds e o Dr. Adam Booth, um geofísico do Imperial College, de Londres.

Preparação do terreno.
Preparação do terreno.

Logo foi noticiado que uma grande caixa de madeira foi encontrada em Myitkyina. Foi informado aos jornalistas que a equipe de pesquisa inseriu uma câmera na caixa e encontrou muita água barrenta. O que mais havia dentro não foi possível ser visto e se afirmou que para bombear a água para fora seria um trabalho de semanas.

Cundall comentou que o público esperava que as aeronaves estivessem em perfeitas condições, mas diante da realidade climática e geológica da região, era possível ser encontrada uma massa de metal corroído e peças de aviões enferrujados.

O próprio arqueólogo Andy Brockman afirmou que provavelmente o local era apenas um antigo bunker japonês abandonado.

Um monge budista para abençoar as escavações,,,
Um monge budista para abençoar as escavações,,,

Na antiga base da RAF em Mingaladon, agora Yangon International Airport, após as primeiras escavações, os arqueólogos esbarraram em feixes de cabos elétricos e tubulações de água e o trabalho parou. Ventilou-se a possibilidade deste material está acima das caixas enterradas.

Stanley Coombe, o veterano de guerra de 91 anos de idade e aliado de David Cundall, foi ao local de escavações e afirmou que viu as grandes caixas sendo enterrado a poucos metros de onde hoje é a pista principal do aeroporto. Foi passado o sonar de análise do terreno e detectado altas concentrações de metal, o que animou a todos. Até mesmo um monge budista veio abençoar a escavação para trazer bons fluidos.

Se esta situação fosse no Brasil, certamente o gringo teria chamado um Pai de Santo!

,,Mas o resultado foram apenas placas perfuradas, utilizadas para pistas de pouso temporárias na época da guerra.
,,Mas o resultado foram apenas placas perfuradas, utilizadas para pistas de pouso temporárias na época da guerra.

A equipe cavou um enorme buraco, mas apesar de toda expectativa e do apoio religioso, tudo o que foi encontrado foram apenas partes de placas de aço perfuradas, material utilizado para construir uma pista temporária de pouso durante a guerra.

No meio desta situação a imprensa sensacionalista britânica fez a festa. Logo começou uma intensa troca de informações nada positivas entre o sonhador David Cundall, arqueólogos e o representante da empresa Bielorrussa envolvida no projeto.

Então no final de janeiro de 2013, em meio a um intenso calor tropical e tensão crescente, a coisa toda começou a degringolar.

Outro ângulo das escavações.
Outro ângulo das escavações.

Foi publicada uma declaração de Cundall que afirmou; “Há provas contundentes, muitas testemunhas oculares, mas os arqueólogos não confiam em testemunhas oculares”.

Cundall acrescentou que a falta de registros documentais poderia ser explicado pelo possível extravio de papeis em algum lugar entre a antiga Birmânia e Londres, e pelo fato da RAF estar querendo enterrar os Spitfires em silêncio, em vez de deixar provas escritas do que tinham feito.

No meio de toda esta situação confusa logo veio a pá de cal. As autoridades locais revogaram a autorização de escavação, pois temiam que cavar tão perto de pista poderia enfraquecê-la e causar algum colapso.

Dentro de um avião decolando, é possível ver a extensão das escavações ao lado da pista do aeroporto, que se encerraram em fevereiro de 2013.
Dentro de um avião decolando, é possível ver a extensão das escavações ao lado da pista do aeroporto, que se encerraram em fevereiro de 2013.

Em 15 de fevereiro de 2013 a Wargaming.net anunciou que estava retirando o seu apoio ao projeto, afirmando categoricamente que “Não havia aviões enterrados”.

“Loucura de Homem Branco”

Evidências levantadas por outros pesquisadores, baseados em documentos, apontam que em 1945 as terríveis condições climáticas e a escassez de equipamentos de trabalho de escavação pesada em Mingaladon, mostram que teria sido impossível para a RAF enterrar aeronaves em caixas de madeira a 10 metros de profundidade.

Equipe de trabalho.
Equipe de trabalho.

Além disso, a ideia que 140 Spitfires Mk XIV pudessem ser considerados “supérfluos” pela RAF e enterrados como peças inúteis, é no mínimo contraditória. Em 1950 vários destes aviões, incluindo modelos Mk XIV, estavam sendo vendidos a Força Aérea da Índia, a Força Aérea Francesa para a sua luta na Indochina, para a Força Aérea Holandesa combater nas Índias Orientais e para outras forças aéreas na região. Não podemos esquecer que a própria RAF ainda utilizou estes aviões por um bom tempo em Cingapura, na Malásia e Hong Kong. A Força Aérea Birmanesa chegou a ter vários Spitfires, alguns deles comprados de segunda mão de Israel.

Cundaal (ao centro) em uma coletiva de imprensa  para explicar o que aconteceu.
Cundaal (ao centro) em uma coletiva de imprensa para explicar o que aconteceu.

No final isso nunca foi uma busca por Spitfires, foi sempre a busca de um sonho.

Um sonho que provavelmente (e infelizmente) nunca vai se tornar realidade. Seria uma “Loucura de homem branco” conforme palavras de um dos escavadores nativos.

Quem Sabe um Dia Ocorra em Natal

Apesar deste caso ter ocorrido lá em Myanmar, não duvido que um dia venha acontecer algo parecido aqui em Natal.

É certo que durante a Segunda Guerra Mundial, próximo a capital potiguar e a Base de Parnamirim, vários aviões americanos caíram, principalmente no mar. Muitos restos destas aeronaves foram resgatados por mergulhadores, que encontravam as carcaças principalmente através da informação de pescadores.

B-25 danificada na Pista de Parnamirim Field
B-25 danificada na Pista de Parnamirim Field

Estes homens do mar encontravam estas velhas máquinas no dia a dia de suas pescarias. Era uma rede que se enroscava, uma fateixa que prendia no fundo, uma linha de espera que enganchava. Aí o pescador descia para soltar seu material de trabalho e esbarrava em algo metálico.

Muitos destes materiais estão com empresários da cidade que colecionam artefatos da época da guerra.

Aqui em Natal também não é difícil serem descobertas velho artefatos sem cargas explosivas, lançadas por aeronaves em seus treinamentos. Muitas desapareceram nas areias macias das dunas que cercam Natal e a Base de Parnamirim e são desenterradas com a expansão urbana.

Dizem que antes dos americanos entregarem Parnamirim para os brasileiros, jogaram nas águas da lagoa da base uma boa quantidade de materiais. Fala-se também que muito material aéreo e terrestre foi enterrado pelos americanos na área da base e que no fundo das águas da lagoa do Bonfim tem um hidroavião PB5Y Catalina intacto, que afundou parado, pelo erro de um tripulante que abriu uma escotilha que não devia.

Bom, que esta história na antiga Birmânia sirva de lição.

Em foto recente, o trabalho de resgate de uma B-17 E  em Papua-Nova Guiné
Em foto recente, o trabalho de resgate de uma B-17 E em Papua-Nova Guiné

Um trabalho arqueológico, que sempre chama atenção da mídia, começa com uma extensa, às vezes complicada, chata e difícil pesquisa histórica. Continua com várias horas de análise de muita documentação com cheiro de mofo, conhecimento da tradição oral e tudo isso cobra muito esforço de qualquer pesquisador sério.

E mesmo assim esta trabalheira toda arrisca a dar em nada.

Fontes – http://www.huffingtonpost.com/2013/01/09/myanmar-spitfire-recovery-water-filled-crate_n_2439276.html#slide=1881565

– http://sg.news.yahoo.com/crate-lifts-hopes-myanmar-spitfire-hunters-071317494.html

– http://www.mmtimes.com/index.php/national-news/3771-doubts-over-spitfire-find.html

– http://www.warhistoryonline.com/tag/spitfires

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