WHISKY EM NATAL

Quando Essa Bebida Chegou ao Brasil – Chegou Com os Britânicos – As Primeiras Informações do Whisky em Natal – Vendas em Recife – Marcas Vendidas – Famosos e o Whisky

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Basicamente o whisky é um licor alcoólico destilado de um mosto fermentado de grãos, como cevada, centeio ou milho, geralmente contendo de 43 a 50 % de álcool. Mas independente do que ele é, ou de suas regras de produção, se você bebe whisky, seja muito ou pouco, então você está na companhia de algumas das melhores mentes e personagens do mundo. Gente importante e influente que admirava a bebida, ou desfrutou de um trago ao longo de suas vidas e não tiveram reservas em falar publicamente sobre o assunto.

Mas antes de comentar sobre quando o whisky e Natal interagem, é interessante saber desde quando essa bebida chega ao Brasil…

Chegou No Brasil Com os Britânicos

Basta pesquisar na internet para logo encontrar a informação que foi em 1850 que pela primeira vez alguém bebeu whisky em terras tupiniquins e o felizardo foi ninguém menos que o Imperador Pedro II.

Isso é pura lorota!

Vai ver que quem criou essa afirmação já tinha passado da oitava dose, ou não sabe pesquisar, ou apenas quis dar um ar de “superioridade” a essa bebida, colocando o primeiro copo de whisky nos nobres lábios de Sua Alteza Real.

Provavelmente essa história começa 42 anos antes, mais precisamente na cidade de Salvador, Bahia, no dia 28 de janeiro de 1808.

Em quadro de 1802, de Domingos Sequeira, vemos Dom João de Bragança, futuro Dom João VI – Fonte – https://readtiger.com/wkp/en/John_VI_of_Portugal

Nessa data o príncipe regente de Portugal, Dom João de Bragança, futuro rei Dom João VI, assinou o Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, que literalmente abriu a grande colônia portuguesa do Brasil para o comércio exterior. Mas a verdade é que esse comércio ficou basicamente restrito aos britânicos e houve uma forte razão para isso. Apenas oito dias antes de assinar esse documento, praticamente toda a corte portuguesa havia desembarcado na capital baiana, fugindo das tropas francesas de Napoleão Bonaparte, que em 19 de novembro do ano anterior haviam invadido Portugal. E foram os britânicos que apoiaram a fuga dos nobres portugueses para sua enorme colônia. Após a entrada dos franceses em território luso, Dom João de Bragança assinou uma convenção secreta com os britãnicos, onde ficou estabelecido que esse país recorreria a ação da Royal Navy, a Marinha Real Britânica, para a Família Real e membros do governo português chegarem sãos e salvos no Brasil. O Reino de Portugal por sua vez “compensaria” largamente os britânicos com a abertura do comércio no Brasil.

E o que tem isso com o whisky?

Como os britânicos estavam com passe livre em terras brasileiras, é difícil de acreditar que já no primeiro dia que eles aqui desembarcaram, não trouxeram seus barris e garrafas de gim, brandy, whisky ou outra bebida qualquer.

Se apenas temos uma ideia de quando se iniciou o consumo de whisky no Brasil, na Hemeroteca da Biblioteca Nacional encontramos um interessante registro do comércio e do consumo dessa bebida.

Na segunda página do exemplar do Jornal do Commércio publicado no Rio de Janeiro, edição de sexta-feira, 21 de agosto de 1835 (15 anos antes de 1850), podemos ler na coluna intitulada “Parte Comercial”, que no dia 17 daquele mês um cidadão estrangeiro chamado “Diego Birckhead”, manifestou oficialmente junto a Alfândega do Rio que a galera norte-americana “Nova Orleans”, registrada no porto de Nova York, trazia várias mercadorias em seus porões, entre estas “145 barris de whisky”.

Mesmo sem termos a ideia do tamanho e de quantos litros caberia nesses barris, evidentemente que ninguém desembarcaria tal quantidade de bebidas em algum lugar que não tivesse quem as consumisse. 

“Minha Esperança”  

Eu não consegui descobrir quando o whisky chegou em Natal. Mas ao menos descobri uma notícia de quem aparentemente foi o primeiro vendedor dessa bebida por aqui, ou pelo menos quem primeiro anunciou sua venda para os papudinhos da capital potiguar.

Antiga Rua 13 de maio, atual Frei Miguelinho – Fonte – Coleção Eduardo Alexandre Garcia

No tradicional bairro da Ribeira existe a Rua Frei Miguelinho, paralela à Rua Chile, sendo uma das mais antigas ruas do mais tradicional bairro de Natal. No ano de 1891 essa rua se chamava 13 de maio, em homenagem a data que a princesa Isabel assinou a lei Áurea que aboliu a escravidão no Brasil, e no número 26 existiu uma loja chamada “Minha Esperança”.

Para os olhos de hoje podemos dizer que esse estabelecimento comercial tem algo que mistura aquelas bodegas do interior que vendem todo tipo de bugigangas, misturado com muitos produtos importados de qualidade e materiais importantes para a realização de uma boa festa – instrumentos musicais e bebidas. 

Para facilitar para você leitor, coloco aqui alguns anúncios da loja “Minha Esperança” e assim vocês poderão conhecer a variedade de produtos que ali eram comercializados em 1891. 

Temos um outro anúncio que é bem específico sobre as bebidas vendidas nesta loja, onde podemos ver que a rapaziada de Natal apreciava produtos de primeira qualidade.

De saída vemos que a “Minha Esperança” tinha garrafas de Fernet Branca. Esse é um aperitivo amargo e aromático, feito com mais de 40 ervas e especiarias, incluindo mirra, ruibarbo, camomila, cardamomo e açafrão, com uma base de álcool de uva. A receita é um segredo e foi criada como um remédio no ano de 1845, na cidade italiana de Milão. A Fernet Branca ainda é produzida em Milão pela empresa Fratelli Branca, que atribuiu a invenção ao farmacêutico Bernardino Branca e ao seu colaborador, um médico sueco chamado Fernet e cujos sobrenomes batizaram a bebida. Ela é geralmente servida como digestivo após uma refeição, mas também pode ser degustada com café, ou puro à temperatura ambiente e ainda com gelo. É muito popular na Argentina, onde eles bebem com Coca-Cola e é uma das bebidas mais apreciadas pelos nossos vizinhos.

Outras bebidas que se encontravam na “Minha Esperança” eram vermutes, vinhos da região francesa de Bordeaux, o fortíssimo absinto, conhaques, os “vinhos de cheiro de uva pura” e whisky. Talvez em razão do nosso clima eu não vi entre as bebidas a cerveja. Em todo caso a rapaziada de Natal naquele final de Século XIX estava até que bem equipada para cair na farra.

Apesar da simplicidade da urbe natalense, os jornais daquele período trazem várias referências de festas, soirées, quermesses, eventos de sociedades organizadas, grêmios literários e clubes de encontros sociais, entre eles o “Club dos Quatorze”, “Club Carlos Gomes, o “26 de maio”, ou o “Grêmio Literário Le Monde Marche”. Ou seja, não faltavam locais organizados para deleitar a elite local, nem momentos para que esses natalenses adquirissem as bebidas oferecidas pela loja “Minha Esperança” e certamente “encherem o caneco”.

Podemos vislumbrar um exemplo desses momentos na primeira página do semanário O Santelmo, que nas edições de 14 e 30 de junho de 1891 informavam que na sede social do “Club dos Quatorze” ocorreu a sua “4ª soirée” na tarde de 23 de junho, uma terça-feira, véspera de São João.

Em resumo houve muita animação e tudo começou com a queima de fogos dos tipos “chineses, de bengala, electricos & Sorvête”. muita música tocada por uma orquestra, onde as principais serviram para animar as quadrilhas juninas no salão. O curioso é que a maioria dessas músicas possuíam títulos em francês.

Também dançaram valsas como “Ondas do Danúbio”, do romeno Ivan Ivanovici, além de polcas como “Cecy”, de Chiquinha Gonzaga, e “Brilhantina”, de Anacleto de Medeiros. Alguns sócios do “Club” formaram um grupo de piano, flauta, violão e violino e tocaram uma cavatina chamada “Sonâmbula”, que creio ser da ópera italiana “La Sonnambula”, de Vincenzo Bellini. Executarem também uma parte da ópera “O Trovador”, que certamente é “Il Trovatore”, de Giuseppe Verdi, cujo momento principal foi tocado por um músico chamado de “A. Barbosa”, que foi muito aplaudido e recebeu um buquê de flores de uma jovem sócia da agremiação, algo que chamou bastante atenção.

Não foi informado a que horas iniciou o arrasta-pé, mas ele terminou às cinco da manhã do dia seguinte, com a última quadrilha sendo animada pela música “Riso d’alvorada”. 

Mesmo sem a nota de O Santelmo comentar sobre o consumo de bebidas na festa, fica difícil de acreditar que em um evento com tanta dança e que durou tanto tempo, não tenha sido consumido bebidas e, talvez, um uisquinho. Até porque o lugar para comprar existia!

Deixados na Alfândega 

O tempo vai passando na pequena e provinciana Natal, onde reinava a tranquilidade para os seus pouco mais de 20.000 habitantes. Então, em uma quinta-feira, 11 de março de 1909, um navio cargueiro inglês adentra o tranquilo Rio Potengi.

SS Orator em 1912.

Esse era o “Orator”, da Harrison Line and Steamers, que em Natal era representada pela firma de importação e exportação de Julius Von Söhsten. Aquela era uma nave de 3.563 toneladas, construída apenas quatro anos antes, que procedia da cidade inglesa de Liverpool. Após atracar foram descarregados no cais do porto 3.825 volumes com produtos diversos, que serviriam para abastecer o comércio natalense, sempre carente de produtos manufaturados. Vale recordar que a industrialização em massa no Brasil ainda era um sonho distante e muito do que nossos antepassados consumiam vinha do exterior. Além desses volumes, o “Orator” também trouxe para Natal 700 toneladas de carvão inglês, destinado a movimentar as locomotivas da Estrada de Ferro Central. No outro dia o navio de cargas partiu com peles de gado e peles de animais da fauna selvagem potiguar, além de fardos de borracha de maniçoba.

Antiga Alfândega de Natal – Fonte – Coleção de Eduardo Alexandre Garcia

Mesmo não havendo maiores restrições à importação de produtos manufaturados, evidentemente que o Governo Federal cobrava impostos pela sua entrada em território nacional. Então, todas as mercadorias foram levadas para o prédio antigo da Alfândega, para que seus proprietários pagassem os impostos e retirassem os produtos.

Os jornais da época mostram que quando chegava um desses navios de carga, sempre havia uma certa movimentação no cais do porto, principalmente dos comerciantes, carroceiros e carregadores que eram contratados para levar os produtos. Logo as dependências da Alfândega foram se esvaziando, mas em um canto permaneceram sem serem retiradas quinze caixas de whisky escocês da marca J & B, a mesma que se pode comprar hoje em dia em supermercados de Natal, com a diferença do estilo das garrafas e rótulos. Então só voltamos a ter notícias sobre essas quinze caixas de whisky J & B quase seis meses depois.

No jornal natalense A República, edição de 10 de dezembro de 1909, na sua segunda página, encontramos a publicação de uma nota assinada por José A. de Viveiros, segundo escriturário da Alfândega de Natal, que informava ao cidadão que havia importado as quinze caixas que ele viesse pagar os impostos devidos para retirar as bebidas, ou em trinta dias elas seriam vendidas pela repartição em hasta pública. Procurei bastante nos jornais natalenses de 1909 para saber se os impostos foram pagos e quem desfrutou dessa bebida em Natal, mas nada encontrei. Em um exemplar de A República de 28 de janeiro de 1902, na segunda página, encontrei um edital oriundo da mesma Alfândega de Natal, onde um importador tinha de pagar $480 (quatrocentos e oitenta réis) por cada litro de whisky vindo da Escócia. Mas eu fiquei sem saber se o valor desse imposto ainda era o mesmo em 1909.

Antigas garrafas de whisky J & B.

O whisky J & B foi criado em Londres, destilado na Escócia, sendo o resultado original da mistura de 42 dos melhores whiskies produzidos pelos escoceses desde 1749. E essa marca tem a orgulhosa distinção de receber uma autorização real desde o rei George III, em 1761.

Trazido e Comercializado por Diplomatas

Se nada sei do estoque que ficou na Alfândega de Natal naquele distante ano de 1909, descobri quem provavelmente poderia fornecer boas garrafas de whisky para o comércio natalense.

Naquele tempo o principal entreposto comercial do Nordeste do Brasil era a cidade de Recife e ao observar nos velhos jornais o seu movimento comercial, vi que as vendas dessa bebida na capital pernambucana eram feitas por comerciantes estrangeiros, que também atuavam como representantes diplomáticos de suas nações e eram pessoas muito respeitadas na sociedade local.

Rua do Apolo, em Recife – Fonte – http://www.pernambuco.com

Um deles foi a empresa Griffith Williams & Johnson, comandadas pelos britânicos Arthur Llewellyn Griffith Williams e M. Johnson, cuja sede ficava na antiga Rua Visconde de Itaparica, número 1, atual Rua do Apolo, provavelmente na esquina com a Avenida Rio Branco, no Bairro do Recife.

A empresa foi organizada em 1904, onde atuavam como agentes das firmas de navegação da Royal Mail & Pacific Steam Navigation Co. e da Houston Line. Esses investidores também possuíam serviços de estiva, uma frota de 22 saveiros e um rebocador. Entre as empresas com as quais eles tinham contrato para a prestação de serviços estavam a Great Western of Brazil Railway Co. Ltd., a Companhia das Obras do Porto e a Repartição de Esgotos. Para completar o quadro Mister A. L. Griffith Williams era o Vice-cônsul britânico em Pernambuco.  

Certamente que para aliviar a pressão na luta para ganhar dinheiro e resolver pendências diplomáticas, só tomando umas boas doses do bom e velho néctar dos deuses das Highlands escocesas. E talvez esses dois súditos de Sua Majestade, cuja a colônia de estrangeiros era na época uma das maiores e mais influentes em Recife, podem ter sabiamente pensado “porque não vender whisky para os brasileiros?”

Não sei se para essa empresa a venda desse produto funcionou, mas justamente no ano de 1909 eu encontrei nos jornais que Griffith Williams & Johnson realizaram uma forte campanha entre os jornalistas recifenses para chamar atenção sobre a bebida. Esses profissionais, que sempre adoraram mimos, receberam nas suas redações algumas garrafas de um whisky chamado The Gaelic Old Smuggler, cuja mistura original data de 1835, sendo fabricado até nossos dias com a denominação simplificada para Old Smuggler.

O whisky The Gaelic Old Sumggler, em uma garrafa do início do Século XX.

Pesquisando mais a fundo nos jornais, acho que os jornalistas que provaram o The Gaelic Old Smuggler detestaram o gosto, pois não publicaram mais uma linha sequer sobre essa bebida…

Outro que trabalhava com a importação de whisky em Recife em 1909 era o Senhor Constantino Barza, um comerciante oriundo do finado Império Austro-húngaro, que representava diplomaticamente seu país na capital pernambucana e se dedicava com afinco ao ramo da fotografia.

Sua empresa, a Barza & Companhia, ficava na Avenida Marquês de Olinda, número 2, a poucas quadras da sede da Griffith Williams & Johnson, o que facilitava para os papudinhos de plantão a aquisição de diferentes tipos de whisky. Só que no caso de Barza ele trabalhava com o conhecido Black & White, aquele que traz no rótulo dois cachorrinhos.

Barza, sua esposa Helena Cristiane e filhos – Fonte – digitalizacao.fundaj.gov.br

O Black & White é uma bebida muito popular em vários países do mundo, devido à sua qualidade robusta e preços competitivos, dois fatores que combinam e ajudam a marca a conquistar a lealdade dos bebedores de uísque. Tal é a longevidade e popularidade da mistura, que o Black & White foi referenciado muitas vezes na cultura popular. Conta a lenda que James Buchanan, proprietário da James Buchanan & Co Ltd, visitou uma exposição de cães e teve a ideia de utilizar a imagem de um West Highland Terrier branco e de um Scottish Terrier preto como mascotes em suas garrafas. Obviamente que esses dois animaizinhos são originários da Escócia.

O whisky Black & White, em uma garrafa do início do Século XX.

Sobre o Constantino Barza, sua loja e a venda de whisky Black & White, eu não consegui muitas informações. Só posso comentar que ele chegou ao Brasil com dez anos de idade e aqui viveu até seu falecimento em 4 de março de 1934, aos 74 anos. Em nosso país ele se casou com a Senhora Helena Cristiane Barza, que teve vários filhos e, conforme comentei anteriormente, sua memória é muito mais importante no contexto do desenvolvimento da fotografia no Brasil, sendo ele considerado um dos pioneiros estrangeiros que ajudaram a desenvolver essa atividade em nosso país.

Na Companhia de Algumas das Melhores Mentes e Personagens do Mundo  

Ainda sobre essa complexa, sofisticada e aromática bebida, lembram que no começo desse texto eu escrevi que gente importante e influente admirava esse típico produto escocês? Agora vamos conhecer o que muitos deles comentaram sobre o whisky.

Até hoje não se sabe se Abraham Lincoln, o 16º presidente dos Estados Unidos, gostava de whisky, mas quando ele descobriu que o seu bem sucedido general Ulysses S. Grant, grande vencedor da União na Guerra Civil Americana, era um entusiasmado bebedor de whisky, Lincoln teria dito: “Você pode me dizer onde ele consegue seu whisky? Porque, se eu descobrir, enviarei um barril dessa bebida maravilhosa para todos os generais do nosso exército”.

Winston Churchill – Fonte – https://pt.wikipedia.org

O Primeiro Ministro britânico Winston Churchill, o homem que fez sua nação suportar os momentos mais complicados durante a Segunda Guerra Mundial, comentou que: “A água não era própria para beber. Para torná-lo palatável, tivemos que adicionar uísque. Com esforço diligente, aprendi a gostar.”

O dramaturgo irlandês George Bernard Shaw afirmou: “Whisky é sol líquido”.

William Faulkner, renomado escritor nascido no sul dos Estados Unidos, assim comentou sobre essa bebida: “Minha própria experiência diz que as ferramentas de que preciso para o meu ofício são papel, tabaco, comida e um pouco de whisky”.

Alexander Fleming, o descobridor da penicilina, que era escocês e sabia apreciar a bebida que tornou ainda mais famosa a sua região de nascimento, disse certa vez: “Um bom gole de uísque quente na hora de dormir – não é muito científico, mas ajuda.” 

Humphrey Bogart – Fonte -https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Humphrey_Bogart_1940.jpg

Os atores de Hollywood adoravam whisky. Um que comentou sobre essa bebida foi Errol Flynn, que afirmou: “Gosto do meu whisky velho e das minhas mulheres jovens”. 

Dizem que as últimas palavras de Humphrey Bogart, outro astro hollywoodiano, foram de um profundo arrependimento: “Eu nunca deveria ter trocado de whisky por Martini”.

Já Ava Gardner, colega de profissão de Flynn e Bogart, teria dito:” Quero viver até os 150 anos, mas no dia em que morrer, desejo que seja com um cigarro em uma mão e um copo de whisky na outra”.

O whisky para o estrategista de comunicações americano-israelense Joel C. Rosenberg é o seguinte: “Sou um homem simples. Tudo o que quero é dormir o suficiente para dois homens normais, whisky suficiente para três e mulheres suficientes para quatro.

Já o apresentador de TV americano Johnny Carson comentou assim sobre a bebida: “Felicidade é ter um bife mal passado, uma garrafa de whisky e um cachorro para comer o bife”.

Salute!!!

O MECANISMO RUSSO DE GENOCÍDIO SE REPETE DESDE O MASSACRE DE KATYN

Na primeira semana de abril de 2022 o Mundo tomou conhecimento que tropas russas perpetraram assassinatos de civis na região da cidade de Bucha, na periferia de Kiev, capital da Ucrânia, como parte do ataque “Especial” executado por forças russas do Ditador Vladimir Putin contra aquele país. Infelizmente essa história não é inédita. Em 1940 os russos, que na época eram conhecidos como soviéticos, fizeram algo muito pior!

Baseado no texto de Katarzyna Utracka, disponível em – https://warsawinstitute.review/issue-2020/the-katyn-massacre-mechanisms-of-genocide/

Poucos dias antes do início da Segunda Guerra Mundial, em 23 de agosto de 1939, Joachim von Ribbentrop, Ministro das Relações Exteriores da Alemanha Nazista, veio a Moscou. Juntamente com Vyacheslav Molotov, Comissário do Povo para as Relações Exteriores da União Soviética, eles assinaram um pacto bilateral de não agressão. 

Vyacheslav Molotov, Comissário do Povo para as Relações Exteriores da União Soviética, assina o pacto bilateral de não agressão entre a Alemanha Nazista e a União Sovietica. Logo atrás dele vemos, de paletó escuro, Joachim von Ribbentrop, ministro de Relações Exteriores da Alemanha Nazista entre 1938 e 1945, que tem ao seu lado esquerdo Josef Stalin, o todo poderoso Secretário Geral do Partido Comunista de 1922 a 1952 – Fonte – Wikipédia.

Até aí tudo bem. Uma situação normal entre países que mantem boas relações diplomáticas. O problema foi que um protocolo secreto foi anexado a este documento, onde se incluía um plano para a divisão da Polônia pela Alemanha Nazista e pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS, atual Federação Russa. 

Com isso, para os poloneses os piores temores se tornaram realidade – os vizinhos orientais e ocidentais da Polônia decidiram tirar a liberdade daquela nação. Pelo preço de benefícios territoriais aparentemente menores, Hitler recebeu a garantia da neutralidade de Moscou no próximo conflito militar com o Ocidente.

Tropas nazistas na invasão da Polônia, em setembro de 1939 – Fonte – Wikipédia.

Em 17 de setembro de 1939, apenas cerca de duas semanas após o Terceiro Reich atacar a Polônia, o Exército Vermelho, a força armada dos soviéticos, o famoso Exército Vermelho, atacou a Polônia pelo leste, implementando o pacto Ribbentrop-Molotov.

Em setembro de 1939 os soviéticos encontraram pouca resistência das unidades do Corpo de Proteção de Fronteiras e poucas unidades militares, ocupou cada vez mais cidades em ritmo acelerado. 

Por causa da “punhalada pelas costas” com falta de apoio dos aliados, foi tomada a decisão de evacuar as mais altas autoridades da República da Polônia para o exterior. Ao mesmo tempo, o exército polaco participou de batalhas desiguais contra o agressor – mas dada a enorme desproporção, o desastre foi inevitável. O estado polonês independente havia sido eliminado.

O valente, mas limitado, exército polones não foi adversário para os nazistas – Fonte – Wikipédia.

No Cativeiro Soviético

Após a agressão à Polônia, os soviéticos capturaram ou prenderam de 240 a 250 mil poloneses, incluindo cerca de 10 mil oficiais do exército polonês. Ao contrário de todas as convenções internacionais, eles entregaram prisioneiros aos serviços de segurança da temida NKVD, sigla que em português significa Comissariado do Povo para Assuntos Internos.

Três campos especiais foram montados: em Starobielsk (na atual Ucrânia) e Kozielsk (no território da Federação Russa) e destinados a oficiais, altos funcionários do estado e militares. O último campo foi em Ostashkow (Federação Russa), para soldados do Corpo de Proteção de Fronteiras e oficiais da Polícia Estadual, inteligência e contrainteligência, Guarda Prisional e Guarda de fronteira. 

No final de novembro de 1939, um total de mais de 14,5 mil prisioneiros de guerra poloneses estavam nesses campos. 

Poloneses prisioneiros dos soviéticos em 1939 – Fonte – Wikipédia.

As condições eram difíceis – superlotação, falta de água e comida. Cada um dos prisioneiros foi questionado sobre suas opiniões políticas, posição profissional, ativos, até mesmo associações com países estrangeiros e habilidades em línguas estrangeiras. A rede de informantes forneceu informações sobre a vida no campo. Muitos meses de interrogatório e doutrinação dos prisioneiros trouxeram pouco efeito. Apenas alguns quebraram. A grande maioria não,

Nas últimas semanas de 1939, os oficiais do NKVD aceleraram a investigação. Seus arquivos foram encaminhados ao Conselho Especial, cuja tarefa era decidir sobre o destino daqueles prisioneiros de guerra.

Sentença de Morte

Lavrentiy Beria – Fonte – Wikipédia.

Josef Stalin decidiu pessoalmente assassinar prisioneiros de guerra poloneses, a pedido do Comissário Popular de Assuntos Internos da União Soviética e chefe da NKVD, Lavrentiy Beria. 

Em extensa nota de 5 de março de 1940, Beria pediu que o caso fosse considerado “em um procedimento especial e dando-lhes a pena máxima – execução” (Interessante notar que em 2022 a Federação Russa utiliza o termo “Operação Especial” para a sangrenta invasão da Ucrânia).

Documento que autorizou o massacre de mais de 20.000 poloneses em Katyn – Fonte – Wikipédia.

Segundo o livro de Andrzej Krzysztof Kunert, Katyn, Ocalona Pamięć (em português “Katyn, Memória Salva, Varsóvia 2010, p. 130), Beria também solicitou que “os casos sejam tratados sem chamar os presos e sem apresentar acusações, decisão de encerrar a investigação e acusação”. O veredicto foi assinado por membros do Politburo do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, Kliment Voroshilov, Vyacheslav Molotov e Anastas Mikoyan. A aceitação de Mikhail Kalinin e Lazar Kaganovich também foi confirmada ao adicionar seus nomes à margem do documento. No mesmo dia, o Politburo aceitou formalmente a proposta de Beria.

Reuniões discutindo o assunto foram realizadas em Moscou nos dias seguintes e, em 14 de março de 1940, os chefes das direções regionais das regiões de Smolensk (Rússia), Kalinin (atual Tver, na Rússia) e Kharkiv (Ucrânia) e os comandantes militares das direções regionais do NKVD foram ordenados a assassinar prisioneiros de guerra poloneses. 

 Assistindo a um desfile comum da Wehrmacht e do Exército Vermelho no final da invasão da Polônia. Vemos ao centro o major-general Heinz Guderian e a sua esquerda o brigadeiro Semyon Krivoshein – Fonte – Arquivo:Bundesarchiv

Uma semana depois, Beria emitiu uma ordem “Sobre o descarregamento das prisões do NKVD ”, que realmente se traduziu em assassinar poloneses detidos em prisões do NKVD na área das províncias orientais da Polônia antes da guerra. Entre eles estavam oficiais aposentados, pessoas envolvidas no serviço estatal, funcionários do governo, funcionários do governo local, promotores, juízes, ativistas políticos, proprietários de terras e outros de posição semelhante.

Estratégia Assassina

A implementação do plano para assassinar prisioneiros de guerra poloneses foi realizada de acordo com instruções detalhadas do NKVD. Os soviéticos queriam que toda a ação fosse realizada de forma rápida e eficiente – para que o menor número possível de pessoas soubesse disso. A máquina de matar começou com ímpeto. 

Em 16 de março de 1940, as unidades de investigação do NKVD começaram a preencher os documentos das futuras vítimas. Enquanto isso, com medo da rebelião dos prisioneiros, o aparato de segurança do campo se concentrava em enganá-los. Uma campanha de desinformação em massa e bem pensada teve o efeito esperado. Os prisioneiros não estavam cientes de seu destino até o último momento. Eles aprenderam a terrível verdade apenas na Floresta Katyn ou nas celas da prisão do NKVD. 

Desfile soviético em uma cidade polonesa em setembro de 1939, após a rendição – Fonte – Wikipédia.

Um dos sobreviventes do campo de Starobielsk, Józef Czapski, lembrou: “Não havia como descobrir quais eram os critérios de seleção para os grupos dos prisioneiros enviados para fora do campo. Sua idade, anos de nascimento, posições, profissões, origens sociais, crenças políticas eram todos misturados. Cada lote subsequente era outra contradição às nossas suposições. Todos nós combinamos apenas em uma coisa: cada um de nós esperou febrilmente pela hora em que eles anunciaram uma nova lista dos que partiriam. Talvez desta vez fosse finalmente a nossa vez de estar na lista […]. De pé na grande escadaria da igreja, o comandante despediu-se dos grupos dos que partiam com um sorriso cheio de promessas. Você vai lá fora, ele disse a um de nós, onde eu adoraria ir. Cada lote subsequente era outra contradição às nossas suposições. Todos nós combinamos apenas em uma coisa: cada um de nós esperou febrilmente pela hora em que eles anunciaram uma nova lista dos que partiriam. Talvez desta vez fosse finalmente a nossa vez de estar na lista […]. De pé na grande escadaria da igreja, o comandante despediu-se dos grupos dos que partiam com um sorriso cheio de promessas. Você vai lá fora, ele disse a um de nós, onde eu adoraria ir. Cada lote subsequente era outra contradição às nossas suposições. Todos nós combinamos apenas em uma coisa: cada um de nós esperou febrilmente pela hora em que eles anunciaram uma nova lista dos que partiriam. Talvez desta vez fosse finalmente a nossa vez de estar na lista […]. De pé na grande escadaria da igreja, o comandante despediu-se dos grupos dos que partiam com um sorriso cheio de promessas. Você vai lá fora, ele disse a um de nós, onde eu adoraria ir (Józef Czapski,Wspomnienia starobielskie “Memórias de Starobielsk”, Roma 1945, p. 45).

Os prisioneiros foram transportados dos campos para os locais de execução – os prisioneiros de Kozielsk foram transportados por comboios para Smolensk, de Starobielsk para Kharkiv, de Ostashkow para Kalinin (agora Tver). 

Soldado sovietico de guarda junto a um avião de treinamento polonês PWS-26, abatido na parte ocupada pelos soviética na Polônia, em 18 de setembro de 1939 – Fonte – Wikipédia.

Foi assim que Zdzisław Peszkowski, um sobrevivente de Starobielsk, que mais tarde se tornou capelão. Ele relembrou sua saída do campo: “Eles nos revistaram minuciosamente e tiraram de nós quaisquer ferramentas afiadas como facas, tesouras, lâminas de barbear que tínhamos. Nossas fotografias foram verificadas e fomos conduzidos para fora do portão do acampamento em grupos de dois. Fomos colocados nos vagões da prisão que já estavam esperando por nós. Eles empacotaram todos, oito homens em cada compartimento. Eles trancaram as portas trancadas do corredor com fechaduras especiais. Soldados do NKVD estavam guardando do corredor. Éramos como animais selvagens em jaulas…” (Sprawa Katynia “O Caso Katyn”, ed. Krzysztof Komorowski, Varsóvia 2010, p. 44).

Ao mesmo tempo, foi preparada a ação de “descarregar” as prisões da chamada Bielorrússia Ocidental e Ucrânia Ocidental. Os detidos foram transportados para prisões em Kiev, Kharkiv, Minsk e Kherson. O Conselho Especial do NKVD elaborou “listas de morte” – ordens de tiro, que foram então aprovadas pela chamada “tróica do NKVD”: Vsevolod Merkulov, Bogdan Kobulov e Leonid Bashtakov. Carrascos foram treinados para matar pessoas com um tiro na parte de trás da cabeça. Moscou também nomeou pessoas para supervisionar seu trabalho.

Tropas do Exército Vermelho, durante a invasão soviética da Polônia, 1939 – Fonte – Wikipédia.

O Massacre

As primeiras “cartas de morte” chegaram aos campos de Kozelsk, Starobielsk e Ostashkow no início de abril e às prisões de Minsk, Kiev, Kharkiv e Kherson por volta de 20 de abril de 1940. O mesmo procedimento ocorreu em casas de tortura em Kharkiv e Kalinin. 

Oficiais do NKVD que participaram das execuções mencionaram seus detalhes nos depoimentos. As execuções eram realizadas apenas à noite, em estrito sigilo. Os prisioneiros foram levados para os porões, onde, em uma sala solitária e silenciosa, foram assassinados com um tiro na nuca. Os que resistiram foram amarrados. O revólver Nagant foi inicialmente usado para realizar as execuções. Mais tarde, os executores passaram a utilizar a pistola alemã Walther P38, devido à sua confiabilidade e alto desempenho. Os disparos mortais terminava ao amanhecer. 

Pistola Walther P38, a preferida dos soviéticos para matar – Fonte – Wikipédia.

O chefe do Conselho Distrital do NKVD em Kalinin, O major Dmitry Stepanovich Tokarev, lembrou anos depois: “Já foi no primeiro dia. Então nós fomos. E então eu vi todo esse horror. Nós fomos lá. Depois de alguns minutos, Blokhin [um dos oficiais do NKVD que veio de Moscou] vestiu sua roupa especial: um gorro de couro marrom, um avental longo de couro marrom, luvas de couro marrom com punhos acima dos cotovelos. Isso me causou uma grande impressão – eu vi o carrasco! Depois de ser arrastada para a cela, a vítima foi imediatamente morta por um tiro na nuca” (Sprawa Katynia … , p. 50). 

Pela manhã, os cadáveres dos assassinados foram transportados em caminhões para lugares solitários com covas já cavadas. Os coveiros foram substituídos por escavadeiras que nivelaram o terreno. Os locais de sepultamento das vítimas foram durante anos inacessíveis até mesmo para os moradores locais.

Vítimas de Katyn.

Sabemos muito menos sobre a execução em Katyn – neste caso, nosso conhecimento vem principalmente das exumações. Os estojos dos projetis utilizados nas sangre-as tarefas e encontradas acima das covas, indicam que as execuções ocorreram diretamente ali. 

Sabe-se também que os prisioneiros que morreram em Katyn foram levados de suas prisões para o local da execução em veículos sem janelas. Os que resistiram estavam com as mãos amarradas. Alguns deles tinham casacos amarrados na cabeça com uma corda, cuja extremidade estava presa com um nó nas mãos. 

Uma vítima – Aqui vemos o capitão Józef Baran-Bilewski, oficial de artilharia do Exército Polonês. Antes da guerra ele participou dos Jogos Olímpicos de Amsterdã e Los Angeles, competindo no lançamento de disco.

Vários documentos soviéticos dão números diferentes de pessoas mortas, embora as diferenças sejam pequenas. De acordo com a nota de 3 de março de 1959, emitida pelo chefe da KGB Alexander Shelepin para Nikita Khrushchev, um total de 21.857 prisioneiros de guerra e prisioneiros poloneses foram fuzilados, incluindo 7.305 pessoas detidas em prisões. Alguns pesquisadores acreditam que os números são subestimados. Apenas 395 prisioneiros escaparam do assassinato em massa – de três campos especiais eles foram levados para o campo de Yukhnov (Rússia).

O resultado do terror em Katyn.

Motivos do crime

A razão para assassinar bestialmente oficiais poloneses pode ter sido o desejo de se vingar da derrota que os soviéticos sofreram na guerra polaco-soviética de 1920.

Entretanto na atual Polônia acredita-se que o motivo mais provável foi a ideia de privar a nação atacada de seus líderes e elite intelectual. Na opinião das autoridades soviéticas, os prisioneiros de guerra poloneses, que manifestavam seu patriotismo, eram “inimigos irredimíveis das autoridades soviéticas e não devem melhorar”. Por esta razão, eles deveriam ser assassinados. As autoridades soviéticas decidiram que este movimento facilitaria o futuro governo da República Polaco-Soviética. 

O carrasco – Duas fotos do major-general Piotr Soprunenko, Chefe do Departamento de Prisioneiros e Internos do NKVD. De acordo com as ordens de Beria e Merkulov, ele preparou um plano e controlou operacionalmente a execução de 15.000 prisioneiros poloneses.

Alguns pesquisadores acreditam que a decisão de “resolver finalmente” o caso dos prisioneiros de guerra poloneses foi tomado em nome da cooperação declarada dos serviços de segurança alemães e soviéticos na luta contra as aspirações de independência da Polônia. A coincidência temporal com a AB-Aktion (Operação Extraordinária de Pacificação) conduzida pelos nazistas e dirigida à intelectualidade polonesa não parece ser involuntária.

Não é à toa que no atual conflito da Ucrânia, uma das primeiras notícias vinculadas, vista com certo exagero por determinados meios, é que haveria uma “lista” de pessoas a serem executadas pelas forças russas de Putin na Ucrânia, para melhor dominação do país. Bem, se é verdade se haveria a tal lista, ou não, eu não sei. Mas a História de Katyn mostra bem o que os soviéticos fizeram em 1940.   

As vítimas de Katyn em 1943.

Vítimas e Executores

Em 1940, entre os prisioneiros de guerra poloneses mantidos em campos especiais estavam oficiais profissionais do Exército e da Polícia do Estado poloneses, bem como reservistas. Em “transportes da morte” para Smolensk e Kharkiv estavam: 12 generais, 1 contra-almirante, 77 coronéis, 197 tenentes-coronéis, 541 majores, 1.441 capitães, 6.061 tenentes, segundos-tenentes, comandantes de cavalaria e subtenentes e 18 capelães e outros clérigos. 

Segundo historiadores poloneses, metade do então corpo de oficiais do exército polonês foi morto. Nas prisões do NKVD da chamada Bielorrússia Ocidental e Ucrânia Ocidental, os soviéticos detiveram oficiais que não foram mobilizados em setembro de 1939, funcionários públicos e funcionários do governo local. Muitos dos assassinados eram especialistas de alto nível em vários campos, entre eles professores universitários, engenheiros, padres, médicos, advogados e outros.

Muitos funcionários do aparato central e diretorias regionais do NKVD, participaram do genocídio de Katyn. Os perpetradores eram os torturadores mais experientes da temida prisão moscovita de Lubyanka e das prisões locais do NKVD, treinados em matar com apenas um tiro. 

Restos humanos em Katyn.

Alguns deles são conhecidos pelo nome. Um dos documentos que não foram destruídos foi a ordem de Lavrentiy Beria, divulgada em 26 de outubro de 1940, premiando 125 pessoas “pelo bom desempenho de tarefas especiais”. Essas pessoas incluíam todas as patentes, desde generais até os oficiais mais baixos do NKVD. Os torturadores permaneceram em silêncio por muitos anos, escondendo cuidadosamente o segredo. Alguns conseguiram fazer carreira, mas muitos começaram a beber e morreram, um a um, poucos anos depois do crime. Alguns deles cometeram suicídio.

Consciência pesa!

Uma coisa é matar um outro ser humano que está armado, no meio de um combate, com tiros sendo disparados. Mas tirar a vida de centenas de pessoas com um tiro na nuca, sendo que essas pessoas se encontravam totalmente subjugadas, seguramente amarradas, transidas de medo, tremendo, além de alguns certamente se encontrarem urinados, ou tendo defecado pelo medo, aí só com muita vodca para aliviar as memórias.  

Restos humanos do Massacre de Katyn.

Descoberta de Sepulturas e Brincando com Katyn

No verão de 1941, Smolensk e seus arredores foram ocupados pelo exército alemão. A primeira informação sobre as valas comuns de oficiais poloneses na floresta de Katyn foi dada aos alemães logo depois, mas eles não fizeram nenhuma tentativa de verificá-la. 

Em 1943 os nazistas fizeram um verdadeiro “Circo de mídia” em Katyn para mostrar o que os soviéticos fizeram aos militares poloneses em 1940. Cinicamente, nessa mesma época os campos de extermínio dos nazistas funcionavam a todo vapor.

Na primavera de 1942, trabalhadores forçados poloneses descobriram a execução de poloneses da população local. Em abril eles começaram a procurar na floresta por conta própria. Em um dos lugares sugeridos, eles descobriram um cadáver em uniformes do Exército polonês. Eles construíram uma cruz de bétula e notificaram as autoridades alemãs da descoberta, mas estas não mostraram nenhum interesse no caso. 

Foi somente em fevereiro de 1943 que a polícia secreta alemã iniciou uma investigação eficiente. Em 18 de fevereiro, a área indicada pelos poloneses foi parcialmente desenterrada e várias valas comuns foram identificadas.

Cartaz nazista de propaganda contra os soviéticos, mostrando o Massacre de Katyn.

Os alemães revelaram o massacre de Katyn após a derrota em Stalingrado. Eles acreditavam que a descoberta desses túmulos seria uma excelente oportunidade para dividir os Aliados. 

O anúncio da agência de notícias alemã sobre a descoberta das sepulturas deu origem a uma propaganda massiva. Com a ordem de Hitler, este caso ganhou publicidade internacional. Por toda a Europa, as estações de rádio controladas pelos alemães noticiaram a descoberta das sepulturas. A exumação contou com a presença de jornalistas, uma delegação da Cruz Vermelha polonesa e um comitê internacional de patologistas. 

Como em 1943 os nazistas já haviam assassinado dezena de milhares de pessoas com tiros na nuca, ficou fácil reproduzir no papel o que os soviéticos fizeram com os militares polacos em Katyn.

Seis dias após o anúncio do Transocean News Service, Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda do Reich da Alemanha nazista observou: “Todo o problema de Katyn se tornou um grande assunto político que ainda pode ter uma ressonância significativa. É por isso que fazemos uso dele de acordo com o estado da arte. Uma vez que esses 10.000 a 12.000 oficiais poloneses já perderam suas vidas – talvez não por culpa própria, já que uma vez instigaram a guerra, seu destino deve agora servir às nações da Europa para abrir os olhos para o perigo do bolchevismo” (Eugeniusz Cezary Król,Polska i Polacy w propagandzie narodowego socjalizmu w Niemczech 1919-1945 “Polônia e os poloneses na propaganda do nacional-socialismo na Alemanha 1919-1945”], Varsóvia 2006, p. 430).

Logo após a descoberta das sepulturas em Katyn, o governo polonês pediu uma investigação. O desaparecimento de oficiais poloneses foi motivo de preocupação para as autoridades polonesas – elas também perguntaram repetidamente ao Kremlin sobre seu destino. A descoberta fez o governo polonês exigir que os soviéticos explicassem o que aconteceu durante o genocídio. 

Em abril de 1943, os nazistas alemães iniciam a propaganda anti-soviética sobre o assassinato em massa na floresta de Katyn. Na foto membro do governo francês pró Alemanha Nazista visitam o local.

Tal como acontece em 2022, onde os russos juram de pés juntos que nada fizeram de errado e que os mortos da cidade de Bucha é uma “encenação dos ucranianos”, durante a Segunda Guerra os líderes em Moscou reagiram com uma falsa acusação de que os poloneses estavam encobrindo o crime alemão e cooperando com os nazistas. 

Sob pressão de Stalin, o ministro das Relações Exteriores britânico exigiu a retirada imediata do apelo e o anúncio público de que o massacre de Katyn foi uma “invenção” alemã. A censura britânica parou os despachos de rádio poloneses e confiscou textos destinados à impressão. Os Aliados temiam que a posição da Polônia complicasse os contatos soviético-britânicos. Embora os poloneses tenham retirado seu apelo, os soviéticos romperam relações diplomáticas com o governo polonês no exílio. 

Stalin triunfou – o caso Katyn prejudicou a posição da Polônia na arena internacional. 

Falsificação da História

Após a divulgação da agência de notícias alemã, o rádio e a imprensa de Moscou estavam divulgando a posição do Kremlin, culpando os alemães pelo massacre de Katyn. Além disso, o jornal “Pravda” de Moscou concluiu o apelo do governo polonês à Cruz Vermelha Internacional para explicar a situação com um artigo acusatório “Os colaboradores poloneses de Hitler”.

Poloneses capturados em 1939.

Os soviéticos, tendo rompido relações diplomáticas com o governo polonês menos de uma semana depois, e após a ocupação de Smolensk pelo Exército Vermelho, os oficiais da NKVD foram imediatamente a Katyn para falsificar provas de um crime. 

Em janeiro de 1944, uma comissão especial chefiada por Nikolay Burdenko que investigou o massacre de Katyn informou que os alemães eram responsáveis ​​pelos crimes. Após a guerra, o caso de Katyn foi levado ao Tribunal de Nuremberg. No entanto, não foi a julgamento, pois a culpa dos alemães não pôde ser provada. 

Nas décadas seguintes, os soviéticos tentaram apagar a memória do massacre de Katyn. Uma ferramenta usada na disseminação de desinformação foi a divulgação do crime alemão cometido contra os moradores da vila bielorrussa de Khatyn, localizada perto do local do massacre.

Exumações

As exumações em Katyn começaram no final de fevereiro de 1943 – então os alemães descobriram oito valas comuns. De sete deles, eles extraíram mais de 4.000 corpos, dos quais quase 2.800 foram identificados. Após a entrada do Exército Vermelho, a comissão soviética concluiu que os crimes foram cometidos pelos alemães no verão de 1941. O reconhecimento oficial da culpa da URSS por Mikhail Gorbachev em 1990 permitiu retomar a exploração. Como resultado, em 1991, foi possível localizar locais de sepultamento para prisioneiros: de Starobielsk em Piatichatki e de Ostashkow em Miednoje. As sepulturas restantes foram encontradas durante os estudos subsequentes em 1994 e 1995. Outras sepulturas polonesas foram descobertas em Bykivnia, nos subúrbios de Kiev. Durante os trabalhos de exumação realizados em 2011,

Monumento na região de Katyn – Fonte – Wikipédia.

As Investigações de Katyn

A investigação polonesa sob a supervisão do promotor Jerzy Sawicki começou na primavera de 1945 e foi interrompida em 1946. No mesmo ano, o procurador-geral soviético Rudenko apresentou uma acusação ao Tribunal de Nuremberg contra os alemães pelo assassinato de oficiais poloneses. 

Em 1950, como resultado dos esforços do Congresso americano polonês, o massacre de Katyn foi tratado por um Comitê do Congresso dos Estados Unidos. Em seu relatório, recomendou que o caso fosse encaminhado à ONU e que a URSS fosse processada perante a Corte Internacional de Justiça em Haia. 

Evidentemente, essa decisão desencadeou numerosos protestos das autoridades da URSS e da República Popular da Polónia. Em 1959, o caso Katyn foi retomado pelo então chefe da KGB. Em uma nota para Khrushchev, ele sugeriu destruir os arquivos pessoais das vítimas e preservar apenas os documentos principais. A partir de então, os arquivos-chave estavam disponíveis apenas para o Secretário-Geral do PCUS.

A revisão do caso Katyn só foi possível a partir de 1989. Em 1990, a Procuradoria-Geral da URSS abriu uma investigação conduzida até 2004, quando foi cancelada devido à morte dos culpados. A ordem de cancelamento e sua justificativa foram mantidas em segredo. Ao mesmo tempo, o Massacre de Katyn foi classificado como crime comum, sujeito a prescrição. No mesmo ano, o Instituto de Memória Nacional decidiu lançar uma investigação polonesa sobre o caso Katyn.

Cruz na floresta de Katyn – Fonte – Wikipédia.

Confissão

Na URSS, revelar a verdade sobre Katyn só foi possível pela Perestroika. 

Em 1987, um comitê conjunto de historiadores foi formado para explicar os “pontos em branco” na história das relações mútuas. O avanço foi quando pesquisadores russos – Natalia Lebedeva, Vladimir Volkov, Yuri Zoria e Valentina Parsadanova, encontraram os documentos do NKVD e os compararam com listas de exumações alemãs. Jornalistas e ativistas do “Memorial”, uma ONG russa que defende os direitos humanos e documenta os crimes stalinistas, também defenderam a verdade.

Em 13 de abril de 1990, a agência russa TASS publicou um anúncio oficial afirmando que o NKVD, e Beria e Merkulov pessoalmente, são responsáveis ​​pelo assassinato de poloneses. No mesmo dia, a Polônia recebeu várias centenas de cópias de documentos relativos aos prisioneiros de Kozelsk, Starobielsk e Ostashkow. Em 14 de outubro de 1992, um enviado especial do presidente Boris Yeltsin apresentou solenemente ao presidente Lech Wałęsa uma cópia do famoso Pacote nº 1, incluindo uma carta de Beria a Stalin e um extrato das atas do Politburo da URSS. Uma nova etapa na pesquisa sobre o Massacre de Katyn havia começado.

O Museu de Katyn, em Varsóvia.

Necrópoles de Katyn

No início da década de 1990, os poloneses fizeram esforços para construir um grande cemitério, túmulos em massa, ossuários ou necrópoles honorárias para as vítimas do Massacre de Katyn. 

O primeiro cemitério polonês onde estão enterrados os restos mortais das vítimas do genocídio soviético foi inaugurado em junho de 2000 em Kharkiv-Piatichatki. Os restos mortais de soldados e civis poloneses, mas também de moradores de Kharkiv, vítimas do terror stalinista, foram enterrados no cemitério. 

Nos meses seguintes, cerimônias semelhantes foram realizadas em Katyn e Miednoje. Esses cemitérios se tornaram o local de descanso final dos oficiais poloneses do campo de Kozelsk e Ostashkow. Em 2012, um cemitério de guerra polonês foi inaugurado em Kiev-Bykivnia, onde foram enterrados os restos mortais das vítimas da chamada lista Katyn ucraniana.

Em 29 de abril de 1991 Piotr Soprunenko deu um depoimento sobre Katyn. Ele nunca foi formalmente acusado de nenhum crime. De acordo com a posição oficial russa, os militares do Exército Vermelho nunca cometeram nenhum ato de genocídio, eles estavam apenas envolvidos em crimes regulares, que de acordo com as leis russas em 1991 não eram mais puníveis.

Muitas questões relacionadas ao Massacre de Katyn permanecem sem solução. 

O que torna ainda mais difícil é que parte dos volumes dos arquivos da investigação conduzida pelos russos entre 1990 e 2004 não estão disponíveis. A Rússia se recusa a divulgá-los, justificando sua decisão com a cláusula de sigilo. Além disso, a Rússia não tomou uma decisão final sobre a classificação legal do crime. A Procuradoria da Rússia considerou o crime comum sem revelar os fundamentos legais. Os nomes das vítimas na chamada lista Katyn bielorrussa, ainda não encontrada, ainda são desconhecidos. Também não se sabe onde essas pessoas foram enterradas. No caso da chamada lista Katyn ucraniana, foi encontrado o local onde um pequeno número de vítimas está enterrado. 

O objetivo da investigação polonesa conduzida pelo Instituto de Memória Nacional, que considera o assassinato de Katyn um crime de guerra e um crime contra a humanidade em sua forma mais grave – ou seja, genocídio – é explicar todas as circunstâncias desse crime atroz. O objetivo é descobrir os nomes de todas as vítimas do Massacre de Katyn, bem como os locais onde foram executadas e enterradas. Os investigadores do Instituto da Memória Nacional também procuram identificar os nomes de todos os autores do crime e determinar a responsabilidade de cada um deles.

Hipocrisia

Bucha, Ucrânia, abril de 2022.

A guerra é a bestialidade humana no mais alto grau. Ela não tem nada de bonita, de maravilhosa e de glamurosa. Não é ascética como em um jogo de videogame. É suja, cheira a podre e é doentia. O que está acontecendo na Ucrânia é prova disso!

Mas eu seria hipócrita se ficasse descrito nesse texto que só os soviéticos/russos tem “culpa no cartório”. Todos que participam desse tipo de situação, em maior ou menor grau, seja qual for a justificativa para os engajamentos, tem esqueletos guardados nos armários.

Um exemplo – Eximir os brasileiros dos muitos massacres praticados contra a população paraguaia na Guerra da Tríplice Aliança é ridículo. Mas “limpar a barra” para o que os paraguaios fizeram com a população do Mato Grosso em 1864 é no mínimo uma piada.

No resto do mundo não faltam exemplos e em muitos momentos da História!

My Lai, Vietnã, 16 de março de 1968. Esta foto tirada pelo soldado do Exército dos Estados Unidos e integrante da Companhia Charlie, Ronald Haeberle, após o massacre na aldeia de My Lai, mostrando principalmente mulheres e crianças mortas em uma estrada, foi divulgada na imprensa de todo mundo em 1969, causando comoção internacional. Entre 347 e 504 pessoas foram mortas pelo exército dos Estados Unidos – Fonte – Wikipédia.

Na Europa o holocausto perpetrado pela Alemanha Nazista na Segunda Guerra, com seus mais de 6 milhões de mortos, é bem conhecido. Na África do Norte são bem conhecidas as ações dos franceses na Guerra da Argélia (1954-1962), onde para os argelinos mais de um milhão e meio de seus compatriotas morreram, muitas delas torturadas. Os britânicos, durante seu colonialismo doentio, perpetraram toda sorte de crimes e massacres que marcam até hoje muitos dos povos por eles dominados. Já com os norte-americanos a história não perdoa casos como o Massacre de My Lai (16 de março de 1968), ocorrido durante a Guerra do Vietnã, até as mortes de prisioneiros em Dasht-e-Leili, na Guerra do Afeganistão (dezembro de 2001), ou os assassinatos de civis em Haditha, durante a Guerra do Iraque (19 de novembro de 2005).

Bucha, Ucrânia, abril de 2022.

Mas talvez a sutil diferença dessas situações e os casos de Katyn e Bucha, seja a forma como os discursos produzidos pelos soviéticos/russos para explicar os acontecimentos sejam carregados na desinformação, negacionismo e o uso sem limites da mais pura e deslavada mentira. Não que outras nações que perpetraram seus massacres não façam o mesmo, mas os que praticaram as mortes em Katyn e Bucha parecem exímios nesse mister.

Infelizmente a Guerra na Ucrânia continua e cada vez mais cruel. Mesmo desejando que isso não aconteça, acredito que os acontecimentos da cidade de Bucha poderão não ser únicos nesse conflito.

Mas a sombra de Katyn estará sempre pairando sobre os russos!