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A DESCOBERTA QUE PÕE FIM AO MISTÉRIO DE U-3523, O SUBMARINO LIGADO À FUGA DE LÍDERES NAZISTAS PARA A AMÉRICA DO SUL NO FINAL DA II GUERRA

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Provavelmente a última aparição pública de Adolf Hitler, no dia 20 de março, onde ele entregou medalhas aos membros da Juventude Hitlerista – Fonte – http://ww2today.com/20-april-1945-hitlers-birthday-as-red-army-guns-hit-berlin

Fonte – http://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-43825374?ocid=socialflow_facebook

A verdade sempre foi que Adolf Hitler cometeu suicídio, atirando em si mesmo no seu bunker nazista em Berlim, no dia 30 de abril de 1945.

Mas ao longo de décadas várias teorias apontam que ele morreu como um ancião e em diferentes partes do planeta.

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Portão de Brandemburgo, abril de 1945, na Batalha de Berlim – Fonte – https://owlcation.com/humanities/Berlin-April-1945-The-Cauldron

Muitas dessas declarações informais indicavam que Hitler e vários de seus colaboradores do Terceiro Reich vieram para a América Latina, especialmente na parte sul do continente, onde conseguiram passar incógnitos e viver o resto de seus dias em total tranquilidade.

E eles fizeram isso depois de cruzar o Oceano Atlântico e fugir dos extensos e rígidos controles das forças aliados graças a um poderoso submarino: o U-3523.

No entanto, um dos pilares dessa teoria desmoronou recentemente: em abril de 2018 o Museu da Guerra da Dinamarca, localizado em Copenhague, encontrou o famoso submarino nazista nas águas territoriais daquele país, a 123 metros de profundidade.

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O submarino foi encontrado a 123 metros de profundidade no Estreito de Skagerrak, no norte da Dinamarca.

“O museu localizou os restos do submarino alemão U-3523, que foi afundado no Estreito de Skagerrak por uma aeronave B-24 Liberator britânico (Esquadrão 226) em 6 de maio de 1945, as 18:39 horas”, diz um documento enviado pelo Museu da Guerra da Dinamarca à BBC World.

“Devido à sua capacidade de permanecer submerso por muito tempo, o U-3523 alimentou rumores de que ele havia sido o meio de transporte utilizado pela elite nazista fugir para a América do Sul”, acrescenta.

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Este é um modelo semelhante ao que foi encontrado na Dinamarca e que foi pensado para ter sido o meio de transporte com o qual os líderes nazistas fugiram para a América Latina.

O que é certo é que alguns personagens destacados entre os nazistas realmente fugiram para a América do Sul, como Adolf Eichmann, que terminou na Argentina, ou Josef Mengele, que atingiu a costa do Brasil.

Mas o submarino encontrado permite derrubar muitas versões e reescrever a história de uma parte do século XX.

O Achado

U-3523 era um submarino do Tipo XXI, considerado por muitos especialistas como o mais moderno da Kriegsmarine, a marinha nazista, e um dos últimos modelos a ser construído. “Este submarino foi projetado, diferentemente de seus antecessores, para permanecer realmente submerso por um longo tempo, o que significa que ele poderia viajar tranquilamente para a América do Sul”, diz o documento.

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O U-3008, capturado pelos ingleses após o fim do conflito – Fonte – https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/6d/German_submarine_U_3008.jpg

No entanto, apesar do fato de 118 submarinos Tipo XXI haver sido construídos, apenas dois entraram em serviço – um deles U-3523, que era comandado pelo Oberleutnant zur See Willi Müller.

Embora houvesse indícios claros de que a Real Força Aérea Britânica havia afundado, a falta de evidências físicas alimentou o mistério e as teorias sobre a fuga nazista para a América do Sul.

Os pesquisadores do museu indicaram que estão trabalhando na busca pelos naufrágios deixados pela Segunda Guerra Mundial e que estão nas águas perto da Dinamarca.

“A descoberta foi feita enquanto estávamos escaneando uma área perto da cidade de Skagen, no norte da Dinamarca”, explicou o representante do Museu.

Como identificaram esse submarino?

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Este é o U-2540, o único modelo Tipo XXI sobrevivente.

Além dos dados históricos que indicavam que o U-3523 havia sido afundado naquela área, havia um modelo idêntico ainda preservado para ser comparado com os restos encontrados. O submarino sobrevivente do Tipo XXI da frota nazista se encontra na cidade alemã de Bremerhaven, no museu marítimo local.

“O engraçado é que, ao contrário de outros achados, os restos do U-3523 estão bem destacados no fundo do mar, o que tornou mais fácil identificá-lo.”

Por enquanto os restos do U-3523 permanecerão no fundo do mar até que uma expedição seja organizada para remover seus restos. Além disso todos os 58 tripulantes da nave pereceram neste local.

“É improvável que seja em breve devido ao fato de que está em uma grande profundidade e em uma área de difícil acesso”, concluiu o representante do museu.

NOTA DO TOK DE HISTÓRIA –

Um submarino do Tipo XXI, denominado U-2361, foi comandado por Heinz von Hennig, que em 1957 veio para o Brasil, conforme foi relatado por este blog no texto “O COMANDANTE DE UM SUBMARINO ALEMÃO DA SEGUNDA GUERRA QUE VIVEU NO BRASIL”.

Para conhecer essa história é só clicar no link abaixo.

https://tokdehistoria.com.br/2017/04/20/o-comandante-de-um-submarino-alemao-da-segunda-guerra-que-viveu-no-brasil/

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HÁ 73 ANOS, O SUBMARINO ALEMÃO U-199 ERA AFUNDADO POR AERONAVE DA FAB

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– Deixo aqui os meus sinceros agradecimentos ao meu amigo CMG (FN-RM1) Edison Nonato da Silva, nobre oficial Fuzileiro Naval da Marinha do Brasil, pelo envio deste material.

Em 31 de julho de 1943, o submarino alemão U-199 foi surpreendido na superfície, ao largo do Rio de Janeiro, atacado e afundado na posição 23º54’S – 42º54’W, por cargas de profundidade, por um avião americano PBM Mariner (Esquadrão VP-74 – Marinha dos EUA) e duas aeronaves brasileiras (Catalina “Arará” e Hudson), resultando em 49 mortos e 12 sobreviventes.

O Catalina (modelo PBY-5) que atacou e afundou o submarino alemão U-199 foi batizado como ‘Arará’, em 28 de agosto de 1943, numa cerimônia realizada no aeroporto Santos Dumont, e ganhou mais tarde na fuselagem uma silhueta de submarino para marcar o feito.

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O nome Arará foi dado em homenagem a um dos navios afundados pelo submarino alemão U-507. O avião também recebeu na cauda a inscrição: “Doado à FAB pelo povo carioca”.

Refletindo bem o espírito da época, a cerimônia de batismo do Arará teve canções patrióticas e discursos inflamados. Entre os presentes estava o comandante do navio mercante Arará, José Coelho Gomes, e a tripulação do Catalina. O hidroavião foi batizado com água do mar por uma menina – Miriam Santos – órfã de seu pai, o Segundo-Comissário Durval Batista dos Santos, morto na ocasião em que o Arará (o mercante teve 20 mortos) foi afundado, no momento em que prestava socorro às vítimas do Itagiba, no dia 17 de agosto de 1942.

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Detalhe do PBY Catalina “Arará”, já com a marcação de afundamento do U-199 na fuselagem.

Outra cerimônia seria repetida um mês depois no Rio Grande do Sul, com o batismo de outro Catalina, com o nome de Itagiba, navio mercante afundado em 17 de agosto de 1942, com 38 mortos, entre tripulantes e passageiros. Entre os sobreviventes, estavam os soldados dos Sétimo Grupo de Artilharia de Dorso, alguns dos quais foram lutar na Campanha da Itália em 1944.

A guarnição do Catalina na ocasião do afundamento do submarino U-199 era a seguinte: Comandante José Maria Mendes Coutinho Marques, Piloto Luiz Gomes Ribeiro, Co-piloto José Carlos de Miranda Corrêa. Tripulantes: o Aspirante Aviador Alberto Martins Torres e os Sargentos Sebastião Domingues, Gelson Albernaz Muniz, Manuel Catarino dos Santos, Raimundo Henrique Freitas e Enísio Silva.

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Um submarino alemão modelo IX D2 (longo alcance), idêntico ao U-199 afundado na costa do Rio de Janeiro em 31 de julho de 1943.

O submarino U-199

Ao longo da Segunda Guerra a Alemanha nazista produziu mais de 1.500 submarinos, essas embarcações ficaram conhecidas como U-Boats, termo originado da palavra alemã Unterseeboot (barco debaixo-d’água). Com essa arma a Alemanha praticamente estrangulou o comércio marítimo da Inglaterra.

Quando o conflito torna-se mundial, o esforço de guerra alemão necessitou enviar seus submarinos a pontos mais distantes. É neste cenário que surgem submarinos melhores e maiores.

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“Raio X” do submarino alemão modelo IX-D – Fonte – http://www.naufragiosdobrasil.com.br.

Em 1942 a Alemanha lançou o U-boat tipo IX D com o objetivo de bloquear ainda mais o fluxo de matérias primas necessárias ao esforço de guerra de seus inimigos. Os submarinos do tipo IX D 2 (de longo alcance) da 12º flotilha – Bordeaux, começaram a operar em novembro de 1942. Eram capazes de executar patrulhas de ataque em regiões afastadas da América do Sul,  atingindo assim importantes portos como Santos e Rio de Janeiro.

Em suas patrulhas, eram abastecidos em alto mar por unidades submarinas de apoio, chamadas “vacas leiteiras”, estendendo assim, ainda mais, seu raio e tempo de ação.
Mas com a entrada dos Estados Unidos na Guerra e devido ao forte desenvolvimento da aviação de patrulha, que se instalou no Brasil em bases como Aratu, Salvador e Rio de Janeiro, tudo mudaria.

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Foto da um submarino modelo IX D, mostrando parte do armamento.

O U-199 foi construído nos estaleiros AG Wesser em Bremen e comissionado em 28 de novembro de 1942. Ele era um submarino modelo IX D2 (longo alcance), com dimensões de 87,58 metros de comprimento por 7,5 metros de boca, deslocava submerso cerca de 1.800 toneladas.

Possuía velocidade de cruzeiro de 20,8 nós na superfície, propulsado por dois motores diesel e 6,9 nós quando submerso, com dois motores elétricos. Podia transportar 24 torpedos de 533 mm, para 4 tubos de proa e dois de popa ou 44 minas. Sua tripulação podia variar de 55 a 63 homens.

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O Kapitänleutnant Hans Werner Kraus, comandante do U-199.

Foi lançado em julho de 1942 e começou a operar em novembro do mesmo ano. Considerado na época como um submarino de última geração, seu comandante Hans Werner Kraus pretendia fazer no sudeste brasileiro uma devastação semelhante a que o Capitão Schacht do U-507 fizera 11 meses antes na costa sergipana.

O U-199 em missão

O U-199 partiu do porto de Berger em Kiel, Alemanha, para sua primeira missão na América do Sul no dia 13 de maio de 1943. Sua tripulação consistia de 61 homens e estava sob o comando de Kraus, tendo como guarnição sete oficiais, dois guardas-marinha, seis suboficiais e 41 marinheiros.

Cruzou o equador no início de junho, mas a forte disciplina de Kraus não permitiu que seus homens celebrassem a travessia do equador, por considerar que a festa distraia os tripulantes na travessia do Atlântico de Freetown a Natal.

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Avião modelo Lockheed Hudson, no caso da foto pertencente a U.S. Army Air Force. Uma aeronave similar a esta avistou o U-199 no Oceano Atlântico.

Durante a travessia o U-199 foi avistado por um avião Hudson A-28 americano, porém ele estava desarmado e não houve combate.

A 200 milhas do litoral do Brasil, Kraus recebeu ordens de interceptar e destruir navios inimigos, somente então houve a comemoração pela travessia do Equador. Após a celebração, o U-199 mudou o curso para contornar a costa do Brasil.

No dia 18 de junho de 1943, o U-199 chegou à sua área operacional entre o sul do Rio de Janeiro e São Paulo e foi adotada a tática de permanecer submerso durante o dia, em profundidade de periscópio (20 metros), elevando o periscópio a intervalos regulares para reconhecimento.

Durante o patrulhamento desta área, o comandante Kraus ficou frustrado com o baixo número de alvos. Poucos cargueiros, espanhóis e argentinos, países neutros no conflito, cruzavam o litoral.

Após alguns dias de patrulha o comandante Kraus recebeu autorização do alto comando alemão para trocar a área de patrulha.

Na noite do dia 26 de junho, o U-199 avistou o navio mercante americano Charles Willian Peale, que navegava escoteiro (sozinho) a 50 milhas do Rio de Janeiro. O U-199 lançou um torpedo de proa, mas este errou o alvo. Não se sabe porque o comandante Kraus desistiu do ataque.

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Um hidroavião Martin PBM Mariner, similar ao da foto, avistou o U-199 durante uma patrulha na noite de 3 de julho de 1943. Esse tipo de aeronave era muito comum na base de hidroaviões existente no Rio Potengi, em Natal, durante a Segunda Guerra Mundial.

No dia 3 de julho, o U-Boat estava na superfície, quando por volta das 21 horas foi localizado por um avião BPM Mariner da Marinha Americana, pilotado pelo tenente Carey. O avião começou a circular, procurando com seus faróis o submarino na superfície.

O comandante Kraus imediatamente ordenou toda velocidade à frente e mandou guarnecer as armas do convés. O Mariner mergulhou para o ataque, porém, para surpresa dos alemães, chocou-se violentamente com a superfície explodindo.

Após sua captura e interrogatório, os tripulantes do U-199 declararam não terem atirado no avião e que embora tenha sido feita uma busca na superfície, não foram encontrados sobreviventes.

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Torre de um submarino IX-D, similar ao U-199.

Ainda com a presença de poucos alvos, o comandante Kraus decidiu, sem ordens da Alemanha devido ao silêncio de rádio, alterar novamente a área de caça, agora para o sul do Rio de Janeiro, ampliando a linha de patrulha para 300 milhas.

No dia 4 de julho, o U-199 navegava na superfície, em sua nova área. Durante a noite, localizou a esteira do navio brasileiro Bury. O comandante Kraus posicionou o U-199 e disparou três torpedos dos tubos dianteiros. Dois torpedos erraram e o Bury, imediatamente respondeu com uma salva de tiros de canhão de seu deck. Os navios cargueiros na segunda metade da guerra também eram guarnecidos com dois canhões – proa e popa. O Bury sofreu avarias e embora o U-199 tenha comunicado ao comando alemão seu afundamento, o vapor chegou ao porto do Rio de Janeiro.

Após a ação frustrada, o comandante Kraus decidiu mudar novamente a área de patrulha, pois deduziu que o Bury informaria a posição do ataque e aviões de patrulha seriam enviados à sua caça.

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O cargueiro inglês S.S. Henzada foi afundado pelo U-199 na costa brasileira – Fonte – wrecksite.eu

No dia 25 de julho, por volta das 9:00 horas, o comandante Kraus localizou pelo periscópio o cargueiro inglês Henzada. Esse cargueiro de 4.100 toneladas navegava escoteiro (sozinho) de Santos para o norte e a apenas 10 nós, um alvo perfeito.

O U-199 disparou 3 torpedos da proa, porém todos falharam. O comandante reposicionou seu submarino à frente do Henzada e aguardou o momento de um novo ataque. Às 12 horas o comandante ordenou o disparo de dois torpedos de proa, um deles atingiu o vapor no meio, partindo o navio em dois e provocando seu afundamento em menos de dez minutos.

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Outra foto do S.S. Henzada.

Finalmente na madrugada do dia 31 de julho, o U-199 aproximou-se da zona fortemente patrulhada da entrada da Baía de Guanabara no Rio de Janeiro. Seu objetivo era atingir a linha de 100 fathons (192 metros), submergir e espreitar a passagem dos navios na saída do comboio JT 3 (Rio de Janeiro- Trinidad) prevista para aquele dia. A ação da espionagem alemã nos principais portos do Brasil já era conhecida na época e embora alguns de seus agentes tenham sido presos, muitas informações de trânsito de embarcações foram passadas aos submarinos do eixo.

O ataque ao U-199

Por Alberto Martins Torres veterano do 1º Grupo de Caça da FAB (10.12.1919-30.12.2001)
Do livro: Overnight Tapachula

“…Após a decolagem, no sábado, fui efetivamente para o beliche onde me estendi. Passada menos de meia hora, o Miranda pediu que eu fosse pilotar porque desejava completar com o major Coutinho Marques a plotagem de nossa rota após Cabo Frio. Fui para o posto de pilotagem. Nem bem se passaram uns 10 minutos após eu haver assumido os comandos, chegou um cifrado da base:

Atividade submarina inimiga, coordenadas tal e tal…Miranda plotou o ponto na carta e traçou o rumo(…). Coloquei o Arará no piloto automático e no rumo indicado, em regimen de cruzeiro forçado, com 2.350 rotações e 35 polegadas de compressão. Eram aproximadamente 08:35 da manhã.

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Martin Mariner da US Navy sobrevoando o U-199 no dia de sua destruição. A ação para o afundamento deste submarino foi uma operação conjunta envolvendo aeronaves americanas e da FAB – Fonte – http://www.uboatarchive.net/U-199.htm

Havia alguma névoa e o sol de inverno ficava a três quartos da cauda, por bombordo, portanto em posição favorável a nós na hora do ataque. Foram testadas todas as metralhadores e, das quatro cargas de profundidade que levávamos, armamos três, no intervalômetro, para uma distância de 20 metros entre cada bomba, após ser acionada a primeira.

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U-199 sendo atingido por disparos – Fonte – http://www.uboatarchive.net/U-199.htm

O intervalômetro é graduado em função da velocidade no mergulho, para ser verdadeiro o escapamento escolhido. As cargas de profundidade já eram reguladas para detonarem a 21 pés de profundidade, ou seja, aproximadamente 7 metros da superfície. Essa regulagem era considerada ideal porque mantinha as bombas para detonarem dentro da faixa em que a experiência já demonstrara ser eficiente o ataque a submarino por aeronave, isto é, desde o momento em que está navegando na superfície até no máximo 40 segundos após o início do mergulho. Com o submarino na superfície, as bombas detonariam logo abaixo de seu casco perfeitamente dentro de seu raio letal.

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Perto do fim o U-199 realiza círculos – Fonte – http://www.uboatarchive.net/U-199.htm

Minutos antes das nove horas avistamos o nosso objetivo, bem a nossa proa. Navegava a toda velocidade em rumo que cruzava o nosso. Assim o víamos em seu perfil completo, levantando grande vaga de espuma com sua proa afilada. Seguia num rumo aproximado de leste para oeste, enquanto nós vínhamos de norte para sul, em ângulo reto. Estávamos a uns 600 metros de altitude.

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O U-199 sendo impiedosamente atacado – Fonte – http://www.uboatarchive.net/U-199.htm

Iniciamos o mergulho raso, eu nos comandos e Miranda no comando das bombas. Foram reiteradas as instruções para que, quando fosse dada a ordem, todas as metralhadoras deveriam atirar, mesmo as sem ângulo, segundo a doutrina, para efeito moral. Já a uns 300 metros de altitude e a menos de um quilômetro do submarino podíamos ver nitidamente as suas peças de artilharia e o traçado poligônico de sua camuflagem que variava do cinza claro ao azul cobalto. Para acompanhar sua marcha havíamos guinado um pouco para boreste, ficando situados, por coincidência, exatamente entre o submarino e o sol às nossas costas. Até então nenhuma reação das peças do submarino.

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Quarenta e nove tripulantes do U-199 morreram e doze alemães conseguiram escapar do submarino condenado, incluindo o comandante. Eles foram fotografados em barcos salva-vidas, na sequência resgatados pelo navio de guerra americano USS Barnegat e levados para o Brasil e, em seguida, para o cativeiro no Estados Unidos.

Quando acentuamos um pouco o mergulho para o início efetivo do ataque, o U-199 guinou fortemente para boreste completando uma curva de 90 graus e se alinhou exatamente com o eixo da nossa trajetória, com a proa voltada para nós. Percebi uma única chama alaranjada da peça do convés de vante, e, por isso, efetuei alguma ação evasiva até atingir uns cem metros de altitude, quando o avião foi estabilizado para permitir o perfeito lançamento das bombas. Com todas as metralhadoras atirando nos últimos duzentos metros, frente a frente com o objetivo, soltamos a fieira de cargas de profundidade pouco à proa do submarino.

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Elas detonaram no momento exato em que o U-199 passava sobre as três, uma na proa, uma a meia-nau e outra na popa. A proa do submersível foi lançada fora d’água e, ali mesmo ele parou, dentro dos três círculos de espuma branca deixadas pelas explosões. A descrição completa sobre a forma por que as cargas de profundidade atingiram o submarinos me foi fornecida em conversa que tive com o piloto do PBM Mariner, tenente Smith, que a tudo assistiu, de camarote, e que inclusive me presenteou com uma fotografia do U-199 que, lastimavelmente não consigo encontrar.

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Nós abaixáramos para pouco menos de 50 metros e, colados n’água para menor risco da eventual reação da antiaérea, iniciamos a curva de retorno para a última carga que foi lançada perto da popa do submarino que já então afundava lentamente, parado.

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Nesta passagem já começavam a saltar de bordo alguns tripulantes. Ao completarmos esta segunda passagem é que vimos um PBM americano mergulhado em direção ao objetivo. Depois saberíamos de onde viera. Transmitimos com emoção o tradicional SSSS – SIGHTED SUB SANK SAME – em inglês, usado pelos Aliados para dizer: submarino avistado e afundado – e ficamos aguardando ordens, sobre o local. Em poucos segundos o submarino afundou, permanecendo alguns dos seus tripulantes nadando no mar agitado. Atiramos um barco inflável e o PBM lançou dois. Assistimos aos sobreviventes embarcarem nos três botes de borracha, presos entre si, em comboio. Eram doze. Saberíamos depois que eram o comandante, mais três oficiais e oito marinheiros”.

FONTE – http://www.naval.com.br/blog/2016/07/31/ha-73-anos-o-submarino-u-199-era-afundado-ao-largo-do-rio-de-janeiro/

BRAZILIAN PARTICIPATION IN WORLD WAR TWO – NATAL – MOST IMPORTANT AIR FORCE BASE IN THE BRAZIL

1944 - A Brazilian soldier artillery in Italy
1944 – A Brazilian soldier artillery in Italy

Brazil’s participation in World War II was the culmination of a foreign policy emphasis that began in 1902. That year, Foreign Minister Rio Branco set Brazil on a course of close relations with the United States. He believed that ties with the United States, a growing world power, would promote Brazil’s aims at leadership in the Latin American region and provide international prestige.

Geopolitical Situation

After the 1930 revolution and 1937 coup that brought Getúlio Dornelles Vargas to power, Brazil’s political priorities were industrialization and the build up of military power. The country balanced its relationship with the United States through closer ties with the Axis powers of Nazi Germany, Italy and Japan.

Getúlio Vargas - www.euamoipatinga.com.br
Getúlio Vargas – http://www.euamoipatinga.com.br

Germany became the biggest buyer of Brazil’s cotton and its main supplier of weapons. Brazil’s leading politicians were divided between “Pro-USA” and “Pro-Axis” factions. Concern that the Latin American region could shift away from the United States politically prompted the administration of President Franklin D. Roosevelt to launch its “Good Neighbor” policy of cultural and economic assistance in place of an earlier policy of direct intervention in Latin American affairs.

Military Bases

Brazil and the United States adopted neutral positions in September 1939 on the outbreak of war in Europe. However, the United States became concerned about a potential German attack on the Western Hemisphere should Britain fall, figuring the most likely route for this to be from North Africa to northeastern Brazil. In 1941, Brazil agreed to the construction and enlargement of American air bases in northern and northeastern Brazil.

Parnamirim Field in Natal, Northeastern Brazil, the most important air base in the southern hemisphere
Parnamirim Field in Natal, Northeastern Brazil, the most important air base in the southern hemisphere

When the United States entered the war in 1941, the U.S. Navy was allowed to use Brazilian ports in its anti-submarine campaign. The air bases became an essential part of the Allied air transport system, a stopover for planes heading to Africa, the Mediterranean and points beyond.

Natal, the largest and most important air base in Brazil

The World War II gave an impulse to the growth of Natal and surroundings.

Seaplane at Potengi River. For the US government to Natal region is particularly important for its strategic position in the South Atlantic
Seaplane at Potengi River. For the US government to Natal region is particularly important for its strategic position in the South Atlantic

It is estimated that, before the War, Natal had 40,000 inhabitants; after the war, not only the population doubled to nearly 80,000 inhabitants, but the city also had improvements in the infrastructure and one airport (the airport of Parnamirim).

The Americans only entered the War on December 7th 1941, when the Japanese attacked Pearl Harbour; however, since the eclosion of the conflict, in 1939, the Americans were watching with preoccupation the expansion of the Axis powers.

American strategists were concerned with an eventual movement from the Axis towards the American continent; since 1940, Italians and Germans were occupying positions in North Africa; the next step could be the invasion of South America.

Ceremony in Parnamirim Field - https://catracalivre.com.br
Ceremony in Parnamirim Field – https://catracalivre.com.br

In 1939, the Major Delos C. Emmons, commander of the US Air Force, overflew the coast of Brazilian Northeast, and concluded that Natal was the most strategic point, both for a German invasion and for the Allies to use as a supporting site to the operations in Africa.

The US were not at war yet, and, to not create diplomatic tensions, decided to create a Program for Development of Airfields; to avoid the direct envolvement of the US government, the airline company PanAm was the co-signer of the agreement.

The first airplane to land in Parnamirim was the “Numgesser-et-Coli”, a monomotor Breguet-19, piloted by Dieu Coster et Le Brix, on October 14th 1927; before then, only aquaplanes arrived in Natal, on the waters of the Potengi River. According to Clyde Smith Junior, this was itself a Historic flight, because it was the first inter-Atlantic flight in the East-West direction. There was not an airport, however; instead, there was little more than the runway.

Hangar nose in Parnamirim Field
Hangar nose in Parnamirim Field

With fundings of the US government, the “Parnamirim Field” was constructed. It became the largest US basis outside American territory. Not only the airport, but also the infrastructure (roads, housing, etc) was built from ground.

Thousands of Brazilians migrated to Natal, looking for work. Also, Brazilian soldiers were sent to the Army and Navy bases. These movements explain the growth in population during the period.

After US entered the war, there was no more need for diplomatic actings. On December 11th 1941, a US Navy fleet composed by 9 aircrafts PB4 Catalina and one Clemson arrived in Natal; two weeks later, 50 marines arrived, to patrol the basis.

A maritime patrol aircraft PV-1 take off from Parnamirim Base
A maritime patrol aircraft PV-1 take off from Parnamirim Base

It is estimated that, during the War, between 3,000 and 5,000 Americans were located in Parnamirim. Also, tens of thousands of Americans and British passed by Natal, in transit. Parnamirim was the busiest airport in the world; flights were taking off and landing every three minutes.

Raw Materials and War Declaration

Brazil supplied iron ore, manganese, bauxite, tungsten, industrial diamonds and especially rubber to the United States during World War II. The Japanese occupation of Southeast Asia had halted 90 percent of world rubber supplies. Brazil received $100 million in arms and military equipment under the Lend-Lease Program, through which the United States supplied its allies.

Natal newspaper announcing the sinking of a Brazilian boat in March 1942
Natal newspaper announcing the sinking of a Brazilian boat in March 1942

Brazil’s close cooperation attracted attacks on its merchant shipping by Axis submarines. Italian and German submarines sank a total of 36 Brazilian merchant ships by August 1942 when Brazil declared war on the Axis powers.

Expeditionary Force

After an initial reluctance to commit troops to the war effort, Brazilian politicians decided that their country’s direct participation would achieve it a special status after the war. The Brazilian Expeditionary Force started as a political project to make Brazil a “special ally” of the United States.

Brazilian Expeditionary Force shipping in Rio de Janeiro. Destiny - The Italian front.
Brazilian Expeditionary Force shipping in Rio de Janeiro. Destiny – The Italian front.

Britain opposed the involvement of Brazilian troops partly because of perceived pro-Axis sympathies of some Brazilian politicians, and partly because of troops of too many nationalities in the Mediterranean Theater. Doubts that the BEF would be deployed in combat at all led to its nickname “the Smoking Cobras.” This referred to a Brazilian saying, equivalent to “pigs might fly,” stating that it would be more likely for a snake to smoke than for the BEF to be deployed. As a result, the BEF insignia was a coiled cobra with head upright and smoking a pipe.

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Deployment in Europe

The U.S. government considered deploying the BEF in southern Brazil on the Argentine frontier following coups in Argentina in 1943 and 1944, and a 1943 Argentina-inspired coup in Bolivia. However, the Americans conceded to BEF deployment in Italy because of Brazilian wartime cooperation. A total of 25,335 Brazilian troops came under the command of the U.S. Fifth Army. They fought in battles at Castelnuovo, Monte Castello and Montese in the Apennines south of Bologna. Brazilian military and political leaders rejected Allied offers to remain as an occupying force in postwar Europe. In late 1945, the FEB returned home and was disbanded. 

By Maria Kielmas, Demand Media and http://www.natal-brazil.com/

http://classroom.synonym.com/brazilian-involvement-wwii-12185.html

http://www.natal-brazil.com/basics/natal-world-war.html

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NO CAIS DOS ESQUECIDOS: O SACRIFÍCIO ANÔNIMO NA II GUERRA

AUTOR – JORGE LEÃO TEIXEIRA-Revista Problemas Brasileiros, n. 312, 1995 

Na cripta do monumento aos mortos da Segunda Guerra Mundial, erguido no Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, estão inscritos os nomes de 559 tripulantes de embarcações da marinha mercante brasileira, mortos no cumprimento do dever. Ali faltam, porém, os nomes dos 502 passageiros desaparecidos no mar, que viajavam em navios afundados por torpedeamento, colisão ou outros acidentes, em decorrência dos ataques e ameaças de submarinos alemães. No total, foram 1.061 vítimas, mais do dobro das perdas sofridas pela Força Expedicionária Brasileira na Itália.

Monumento aos mortos da Segunda Guerra Mundial, Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro

É preciso, também, não esquecer a tragédia daqueles que sobreviveram e foram testemunhas de quadros que jamais se apagaram de suas mentes, mas que apesar dessa experiência terrível voltavam a embarcar em outro navio, amparados por um misto de força moral, orgulho ferido e autodisciplina. Houve gente que sobreviveu a mais de um torpedeamento e continuou navegando até o fim do conflito, vencendo os momentos de medo e dúvida, expectativa e angústia, inevitáveis na rotina dos comboios ou nas incertezas daqueles que eram obrigados a navegar desgarrados daquela proteção.

A marinha mercante brasileira no início do último conflito era integrada, em sua maioria, por velhas embarcações, muitas das quais lançadas ao mar antes da Primeira Guerra Mundial. O Lloyd Brasileiro tinha alguns navios mistos mais modernos, para cargas e passageiros. A Companhia de Navegação Costeira, do empresário Henrique Lage, possuía a frota dos “Itas” e “Aras”, navios franceses para passageiros, com propulsão a diesel, de padrão de luxo. Além dessas empresas, a Companhia Comércio e Navegação e outros pequenos armadores exploravam o transporte de cargas entre os portos nacionais, passando a navegar para os Estados Unidos e a África com o advento da guerra.

Anúncio de chegada e partida de navios do Lloyd Brasileiro em Natal, início do século XX

Nesses navios obsoletos, as tripulações não desfrutavam do conforto oferecido pelos modernos barcos mercantes, sofrendo principalmente com o frio ou com o calor tórrido na casa de máquinas, onde penavam carvoeiros e foguistas. O pessoal das máquinas, além disso, em caso de emergência, precisava subir três escadas até o convés, devendo o oficial encarregado, antes de subir, parar a máquina sob a sua responsabilidade, para que a hélice não colhesse náufragos ou baleeiras em caso de torpedeamento.

Outros heróis eram os telegrafistas, que, ao enviar pedidos de socorro, arriscavam-se a não ter acesso às baleeiras e expunham-se ao canhoneio e metralha dos submarinos contra suas cabinas, a fim de impedir a transmissão de qualquer informação sobre a posição do submersível. 

Tensão permanente

A organização de comboios, embora aliviasse os riscos das viagens sem escolta, contando com a própria sorte, como acontecia com os navios brasileiros que se dirigiam aos Estados Unidos até meados de 1942, não implicava segurança absoluta ou eliminação das tensões com as quais conviviam as tripulações.

O inimigo

Uma das ameaças era a navegação em noites escuras, que se por um lado diminuía a possibilidade de os submarinos avistarem o comboio, por outro favorecia os abalroamentos, pois os barcos navegavam com todas as luzes externas apagadas. (A frota mercante brasileira perdeu por abalroamento em comboios seis embarcações, além de uma outra que bateu numa pedra submersa ao fugir de um submarino.)

Um episódio curioso que ocorreu com o navio “França M”, em fevereiro de 1944, ilustra esses perigos: viajando em sentido contrário a um comboio, a embarcação nele penetrou, provocando confusão e chegando a ser atacada pela corveta “Filipe Camarão”, que a confundiu com um submarino.

Comboio de navios durante a Segunda Guerra Mundial

Nas primeiras viagens dos comboios, quando os navios da escolta desconfiavam da presença de algum submarino, lançavam bombas de profundidade, que ao explodir dentro do mar levantavam grandes colunas d’água, fazendo com que as embarcações mais próximas estremecessem violentamente. A princípio assustadas, as tripulações corriam para as baleeiras, prontas para arriá-las caso os barcos fossem atingidos pelas bombas. Com o passar do tempo, porém, acostumaram-se a essas explosões, que se incorporaram à rotina de risco dos comboios.

As horas de maior suspense chegavam com o crepúsculo e o alvorecer, aliados dos submarinos, que conseguiam divisar os navios, enquanto seus afilados periscópios tornavam-se praticamente invisíveis aos olhos dos observadores. 

Tecnologia

O desenrolar da guerra assistiu a uma corrida tecnológica no mar entre Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha; os Aliados desenvolvendo equipamentos cada vez mais eficientes para proteção aos comboios e os alemães aperfeiçoando submersíveis e torpedos para superar os mecanismos de proteção dos inimigos.

Ataque

Os números traduzem o que foi essa epopéia nos mares: os alemães afundaram 2.603 navios mercantes e 175 navios de guerra, usando 1.162 submarinos, dos quais 784 ficaram fora de combate por motivos vários, tendo perdido 28 mil homens que tripulavam os seus submersíveis.

Uma vítima entre milhares durante a guerra

Os comboios também não conseguiam evitar um inimigo insidioso: os informantes da chamada “quinta-coluna”, que, até terem suas atividades desmanteladas, forneciam detalhes sobre o movimento de navios nos portos brasileiros, principalmente no nordeste. (O então secretário de Segurança de Pernambuco, Etelvino Lins, chegou a prender no Recife um espião alemão que transmitia informações sobre a saída de navios.) Navegar era preciso, mas sempre desconfiando, com navios pintados de cinza, camuflados, suspeitando-se inclusive de navios supostamente neutros (espanhóis, por exemplo), que enviavam mensagens pelo rádio para orientar os submarinos alemães. 

Ambiguidade

A posição do governo brasileiro durante a evolução da Segunda Guerra Mundial foi ambígua, retratando o choque de opiniões no círculo mais próximo ao presidente Vargas: enquanto os generais Gaspar Dutra e Góes Monteiro demonstravam velada simpatia para com a Alemanha, o chanceler Osvaldo Aranha comandava a corrente simpática aos Aliados.

Góes Monteiro (esq.) e Gaspar Dutra. Germanófilos no alto escalão do governo Vargas

Em meio ao choque dessas duas correntes, Getúlio Vargas agia como um poder moderador, ora dando linha a um grupo, ora ao outro, a fim de salvaguardar uma difícil neutralidade brasileira, e tentando tirar vantagens políticas e econômicas dos dois lados em conflito. Principalmente, procurando não abrir a guarda do Estado Novo para os grupos de postura ideológica democrática, que através do combate ao nazi-fascismo poderiam tentar minar o governo ditatorial brasileiro.

O rumo dos acontecimentos internacionais, entretanto, com o ataque a Pearl Harbour, começou a fazer a balança pender para o alinhamento com os Estados Unidos, embora continuasse a resistência de Góes e Dutra, mesmo após a recomendação da III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores, realizada no Rio de Janeiro, em janeiro de 1942, para que os países do continente americano rompessem relações com a Alemanha, Itália e Japão.

Aspecto da III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores, Rio de Janeiro, janeiro de 1942

Góes, em carta reservada a Vargas, alegaria que o país não estava aparelhado em suas forças armadas para a defesa do território nacional, advertência ratificada por Dutra, que lembrou a Vargas existir “largo espaço entre o querer e o poder”, recomendando que, sem repudiar compromissos, o país “não se aventurasse quixotescamente a uma luta provocada”.

Os adeptos do Eixo espalhavam notícias alarmantes, anunciando o bombardeamento de cidades da costa brasileira por submarinos e navios de guerra alemães, caso o Brasil rompesse relações diplomáticas com a Alemanha e a Itália. Mas a 28 de janeiro de 1942, Vargas decreta o rompimento. 

A Resposta

Até então, a navegação mercante brasileira sofrera apenas um ataque aéreo alemão – quando o “Taubaté” foi metralhado entre Chipre e Alexandria, em março de 1941, tendo um tripulante morto – além dos misteriosos desaparecimentos dos navios “Santa Clara”, no mesmo mês, em viagem inaugural de Norfolk para o Rio, e do “Cabedelo”, ambos atribuídos a torpedeamentos.

Notícia do "Jornal do Brasil" informando o ataque ao navio Taubaté

A partir de fevereiro de 1942, porém, começaram as ações intimidativas no mar, com o torpedeamento do “Buarque” na costa americana, seguido do canhoneamento também na costa americana do “Olinda”, afundado pelo U-432. Em março, foi a vez do “Arabutan”, torpedeado pelo U-155, e do “Cairu”, afundado pelo U-94. Em maio, próximo a Trinidad, soçobrava o “Parnaíba”, torpedeado e canhoneado, seguido pelo “Comandante Lira”, na costa do Ceará, afundado pelo submarino italiano “Barbarico”.

Os ataques se sucedem: o U-502 afunda o “Gonçalves Dias”, o U-156 torpedeia o “Alegrete” no Caribe, o U-203 bota a pique o “Pedrinhas” nas Antilhas, o “Tamandaré” é afundado pelo submarino comandado pelo capitão Markworth (frequentador do Café Belas-Artes, no Rio, que falava português fluentemente e interrogou o comando da embarcação brasileira). Em julho é a vez do “Barbacena”, atingido por dois torpedos do U-155, que no mesmo dia afunda o “Piave”, tendo o submarino alemão canhoneado uma baleeira com sobreviventes do “Barbacena”, num requinte de crueldade.

Kapitänleutnant Friedrich Markworth. Em 26 de julho de 1942 como comandante do U-66 afundo o navio Tamandaré

O dia 15 de agosto é negro. Entre Salvador e Maceió, o “Baependi” é afundado pelo U-507, ocasionando a morte de 55 tripulantes e 235 passageiros. O mesmo U-507 afunda também o “Araraquara” e, no dia seguinte, torpedeia o navio de passageiros “Anibal Benevolo”, entre Salvador e Aracaju. A faina sinistra prossegue no dia 17, quando outro navio de passageiros, o “Itagiba”, é torpedeado ao sul da capital baiana. E 48 horas depois, antes de regressar à Alemanha, o U-507 despediu-se do litoral brasileiro afundando a barcaça “Jacira”, de 80 toneladas, tripulada por apenas seis homens.

Korvettenkapitän Harro Schacht. Verdadeiro carrasco dos brasileiros, com um saldo mortífero de seis navios afundados. Foto fonte-http://www.uboat.net

Em nenhum dos cinco ataques do U-507 foi dada oportunidade e tempo para os passageiros e tripulantes se salvarem nas baleeiras, o que provocou um grande número de mortes. Registre-se que os navios viajavam iluminados, como em tempos de paz, ao longo da costa brasileira. 

Revolta

A sequência de torpedeamentos de embarcações de passageiros incendiou uma revolta que já atiçava a opinião pública, que no mês de julho, por ocasião de uma passeata da União Nacional de Estudantes, proibida por Filinto Müller, conseguira criar uma grave crise ministerial, pois o ministro interino da Justiça, Vasco Leitão da Cunha, entrara em choque com o poderoso chefe de polícia, Filinto Müller, autorizando a passeata e chegando a prendê-lo por desacato a autoridade. Vasco demitiu-se, mas a crise custou alguns cargos da ala governamental simpática à Alemanha: Filinto, Lourival Fontes (chefe da Casa Civil) e Francisco Campos deixaram o governo, o que fortaleceu Osvaldo Aranha e seus aliados.

Vergonhosa bajulação do jornal natalense "A Republica" a Felinto Muller em 1942. Outro germanófilo no governo Vargas, que só as mortes dos brasileiros no mar fez sair do poder

A situação política tornou-se tensa, com manifestações antinazi-fascistas em todo o país. Um grande comício no centro do Rio leva Aranha, tribuno popular excepcional, a levantar o povo, que marcha em massa até o Palácio Guanabara, munido de archotes, exigindo a declaração de guerra aos países do Eixo.

Um jornal de Nova York e o Brasil na guerra

Vargas, sentindo que não podia postergar a decisão sob pena de minar as bases do Estado Novo, decidiu assumir a liderança da reação nacional e declarou guerra a Alemanha, Itália e Japão no dia 31 de agosto de 1942. 

Última etapa

Com a entrada do Brasil na guerra e o incremento da ajuda americana, melhoraram as condições de apoio e segurança para a navegação mercante, tornando-se nossos navios mais bem artilhados, os comboios mais eficientes e a marinha de guerra brasileira mais bem equipada. Por outro lado, acirrava-se a guerra submarina do inimigo, que prosseguiria, implacável, até o último dia do conflito, sem o desânimo que tomou conta do seu exército no final da guerra.

Submarino alemão U-126 no mar. Fonte-Ariane Krause, http://www.uboat.net

Muitos náufragos de navios mercantes nacionais eram interrogados por comandantes e tripulantes dos submarinos alemães, interessados nas viagens de outras embarcações e nas cargas levadas para os Estados Unidos.

Os torpedeamentos prosseguiram: em setembro de 1942, um comboio foi atacado próximo ao rio Pará, sendo afundados o “Osório” e o “Lages”, enquanto o “Antonico” era torpedeado, dias depois, na costa da Guiana Francesa. O pequeno navio, desarmado e sem estação telegráfica, teve os náufragos metralhados covardemente pelo U-516. Em novembro, a caminho da África do Sul, o “Porto Alegre” foi afundado, o mesmo acontecendo com o “Apalóide”, que seguia para Nova York.

Fregattenkapitän Gerhard Wiebe, comandante do U-516, que afundou o navio Antonico em 28 de setembro de 1942 e ordenou o metralhamento de parte da indefesa tripulação do cargueiro brasileiro. Foto fonte-http://www.uboat.net

Em fevereiro de 1943, o “Brasilóide” foi torpedeado na costa baiana. No mês seguinte, a Quarta Esquadra Americana informava que a costa brasileira já era toda navegável, em segurança, o que não impediu o torpedeamento do “Afonso Pena”, ao largo de Maceió, em março, pelo submarino italiano “Barbarico”, que canhoneou a cabine radiotelegráfica e matou o seu indefeso ocupante. Em junho seria a vez do “Tutóia”, no litoral paulista. E no mês seguinte a do “Pelotaslóide”, a caminho de Belém, e do “Bagé”, na costa nordestina.

As últimas baixas foram registradas nos meses de setembro e outubro de 1943, quando o “Itapagé”, entre Recife e Salvador, e o “Campos”, entre Santos e Rio de Janeiro, foram afundados. O esforço para manter o abastecimento no país, que dependia então vitalmente da navegação de cabotagem, continuou enorme, embora a perda de 31 navios criasse grandes dificuldades, repercutindo com a escassez de muitos produtos. Além disso, a programação dos comboios, visando o máximo de segurança na partida dos navios, contribuía para prolongar viagens e escalas.

Heroísmo

Foram muitos os atos de bravura e estoicismo das tripulações dos nossos navios mercantes. Infelizmente é pequena a literatura a esse respeito, pois um detalhado livro do almirante Saldanha da Gama, fruto inclusive de pesquisas feitas na Europa no pós-guerra, A Marinha do Brasil na Segunda Guerra Mundial (Capemi Editora, 1982), tornou-se uma obra rara. Em 1993, porém, a editora publicou um importante livro, escrito por Herbert Campbell, ex-piloto da marinha mercante que jovem ainda passou a guerra no mar, intitulado “A Marinha Mercante na Segunda Guerra”, relato que conjuga a informação precisa com o dom da narrativa, e que nos orientou ao escrever esta reportagem.

Cargueiro Buarque. Fonte foto - http://www.uboat.net

Entre os fatos relevantes contidos nesse livro, selecionamos um que retrata o desprendimento heróico dessa brava gente: o “Cairu” era comandado pelo capitão-de-longo-curso José Moreira Pequeno, o qual, doente, pedira em Belém para ser substituído, mas ao saber do torpedeamento do “Buarque” achou injusto passar o comando a um colega em circunstâncias tão perigosas, seguindo viagem, bastante enfermo. Após o torpedeamento do “Cairu”, na baleeira apinhada, sob frio intenso, seu estado de saúde piorou. Ao amanhecer, descobriu-se que ele desaparecera silenciosamente, preferindo escolher o oceano como túmulo para não causar embaraços aos demais sobreviventes. Muitos deles morreriam congelados nas baleeiras, que foram dar à costa americana, exceto uma delas, recolhida pelo navio “Titânia”, que salvou todos os seus ocupantes. 

Patrulhas

Não foi fácil a tarefa da marinha de guerra, repentinamente obrigada a patrulhar a grande costa brasileira, em regime de guerra, procurando garantir as rotas dos navios mercantes para que o país não parasse. Os encouraçados “São Paulo” e “Minas Gerais” foram deslocados respectivamente para Recife e Salvador, servindo como fortalezas para revidar qualquer ataque inimigo. E comboios foram sendo organizados, primeiro em nosso litoral, depois até Trinidad.

Dois caça-submarinos da classe G (conhecidos como Caça Ferro) Gurupi e Grajaú, ainda com indicações da US Navy

Enquanto treinava recursos humanos e modernizava-se, ocupando inclusive a ilha de Trindade, a marinha improvisava para dar cabo de suas missões, com os “caça-paus” (navios de madeira, com 33 metros de comprimento, cuja guarnição só comia enlatados e tinha água racionada), substituídos mais tarde pelos “caça-ferros”, tipo G (“Guaporé”, “Gurupi”, etc.), que possuíam melhores condições para a caça aos submersíveis. E suas antigas corvetas, a partir de 1943, receberam o reforço de oito destróieres americanos, o que permitiu maior eficiência no patrulhamento.

      
Avião da US Navy em Parnamirim Field. Utilizado na patrulha e caça de submarinos, foram quem efetiva e operacionalmente defenderam nossas costas

A marinha de guerra também sofreu grandes baixas. Em julho de 1944 uma violenta volta do mar emborcou a corveta “Camaquã”, no litoral pernambucano, provocando a morte de 33 homens, inclusive o seu comandante, o capitão-de-corveta Gastão Monteiro Moutinho. Dois anos depois, o “Vital de Oliveira” foi torpedeado entre Vitória e o Rio de Janeiro, tendo morrido 99 homens de sua guarnição.

O Vital de Oliveira

A tragédia maior, sobretudo, ocorreria com a guerra já encerrada, a 4 de julho de 1945, com o cruzador “Bahia”, o qual recebera equipamentos eletrônicos para missão de apoio aos aviões americanos que cruzavam o Atlântico, vindos da África. A 500 quilômetros de Fernando de Noronha, um disparo casual de metralhadora atingiu uma bomba de profundidade, colocada na ré, para uso contra submarinos, provocando uma terrível explosão e destruindo toda a popa do vaso de guerra, com perda total das baleeiras e causando o rápido afundamento da belonave. Quase 300 homens que escaparam da explosão comprimiram-se em dezessete balsas, com água até a cintura, enquanto outros agarravam-se a destroços. (Cada balsa tinha apenas um reservatório de água, e esta acabara contaminada pela água do mar.) Salvaram-se apenas 36 homens da guarnição, encontrados inconscientes. Pereceram 337, inclusive o capitão-de-fragata Garcia D’Ávila Pires e Albuquerque, que comandava o “Bahia”.

Cruzador Bahia