MANOEL GONÇALVES DE ABRANTES – BIOGRAFIA DE UM LÍDER DO SERTÃO PARAIBANO

Autora – Maria Nestorina Dantas Gonçalves de Abrantes.

Nasceu Manoel Gonçalves de Abrantes em 11.11.1889 no distrito do Lastro, pertencente ao município de Sousa-Pb, filho primogênito de uma prole de onze filhos, do pequeno agricultor e pecuarista João Gonçalves dos Santos e de dona Maria de Abrantes Ferreira, ambos de origem portuguesa, cujos antepassados foram pioneiros na colonização do Vale do Rio do Peixe.

Manoel Gonçalves de Abrantes

Faleceu o ilustre sousense em 09.11.1973, na cidade de Sousa-Pb, em virtude de complicações decorrentes da doença de Alzheimer.

Era proprietário rural, dedicando-se à criação de gado, plantação de algodão, cana de açúcar e de outros gêneros alimentícios. Possuía em suas fazendas muitos engenhos, onde produzia raspaduras e outros derivados da cana de açúcar. Na adolescência estudou no “Ateneu Santanense”, em Santana dos Matos, no vizinho Estado do Rio Grande do Norte, sob a orientação do Padre Lúcio Gambarra, porém, por contingências políticas e familiares, não completou os seus estudos, interrompendo-os na quinta série do ensino fundamental.

Sua liderança natural aflorou em diversas ocasiões, notadamente na defesa de seus patrícios, na conciliação de conflitos de terra. Possuía o respeito, ímpeto e arrojo que se destacaram nos sertões da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, chamado que era para dirimir conflitos e defender sua terra. Sua fidalguia, liderança e trato político o distinguiu entre outras lideranças e apesar de não possuir a patente, foi alcunhado de “Coronel” Manoel Gonçalves. Nunca foi subserviente, tratava os chefes políticos como igual. Homem que, apesar de valente, era conciliador. Sua palavra era honrada e ai daqueles que ousavam desafiá-lo. Possuía sua própria “tropa de proteção”, o que era normal e aceitável nos sertões nordestinos, onde os bandos denominados “cangaceiros” aterrorizavam a população e o poder público era incipiente naquelas plagas. Extremamente vaidoso, vestia-se com ternos de linho e casimira inglesa, chapéu de abas curtas, bengala, botas ou sapatos sempre impecáveis, como podemos notar em fotos de acervo familiar. Sua vida, ainda hoje, é motivo de curiosidade de várias pessoas, sendo que alguns destes sempre procuram a família para se inteirarem dos feitos do famoso Coronel, tendo neto, Dr. José de Abrantes Gadelha, escrito o livro  “Sangue, Terra e Pó” sobre fatos da vida de Manoel Gonçalves de Abrantes e outros pesquisadores se deslocam até o sertão para colherem dados sobre o mesmo com o intuito de produzirem documentários.

Manoel Gonçalves e sua esposa

Ingressou na política numa contingência natural, ao lado de outros amigos das famílias de prestígio local, tais como os Mariz, os Oliveira, os Sarmento, os Gomes de Sá, os Pires de Sá, os Gadelha. Desfrutou de prestígio político ante os Governos de João Pessoa, de Antenor Navarro, Oswaldo Trigueiro e Argemiro de Figueiredo. Sofreu perseguições políticas no governo de Rui Carneiro, de1940 a1945. Em 1954 foi eleito Deputado Estadual, pela legenda da UDN, colocando seus filhos Augusto, Romeu e João Gonçalves de Abrantes, na política, para continuação de suas tradições. Augusto Gonçalves de Abrantes, médico, eleito Prefeito de Sousa, mais tarde suplente de Senador da República de Argemiro Figueiredo e Secretário de Saúde do Estado da Paraíba; Romeu Gonçalves de Abrantes, eleito Deputado Estadual, mais tarde fora cassado pela Revolução de 1964; João Gonçalves de Abrantes, várias vezes eleito Vereador, para a Câmara Municipal de Sousa.  Foi ainda Manoel Gonçalves de Abrantes eleito Prefeito do lugar onde nasceu: o Lastro, transformada em cidade, em 1963. Seu palco não era a tribuna da Assembléia Legislativa do Estado da Paraíba. Manoel Gonçalves não era um tribuno, um orador, no sentido mais peculiar da palavra. A política que o conduzia era aquela dos interesses mais importantes para a sua gente: a defesa do solo, da agricultura, da saúde, das terras produtivas e esta se faziam nos bastidores, nas alianças partidárias. O seu sonho maior foi batalhar para levar para Sousa o Hospital Regional, que hoje leva o seu nome.

Herdeiros de suas tradições políticas, alguns de seus netos e até bisnetos, deram e dá continuidade ao nome e tradições do velho líder político dos sertões nordestinos, tais como John Johnson Dantas Gonçalves de Abrantes, advogado, grande orador, que exerceu cargos públicos relevantes e hoje atua como um dos maiores especialistasem Direito Eleitoraldo país, que divide com seu filho Edward Johnson uma das mais prestigiadas bancas advocatícia do Estado da Paraíba; José de Abrantes Gadelha, advogado, escritor, Defensor Público, duas vezes prefeito da cidade do Lastro – PB; Atualmente a bisneta de Manoel Gonçalves de Abrantes, Isabelle Dantas de Abrantes Diniz, filha de Johnson Abrantes, advogada e vice-prefeita do Lastro, abraçou os ideais do seu ilustre antepassado, iniciando uma nova etapa na vida pública do nosso Estado.

Fazenda Concórdia em 1924, lar de Manoel Gonçalves. Zona rural do atual município do Lastro, Paraíba,

Além dos filhos, Manoel Gonçalves de Abrantes lançou na política o seu genro Nozinho Gonçalves, que foi vice-prefeito e prefeito de Sousa, tendo exercido com muita competência e reconhecimento da população sousense, aqueles cargos públicos. Outros membros da família Gonçalves de Abrantes se destacaram e se destacam até hoje no cenário local e nacional, como pessoas íntegras, profissionais de sucesso e liderança em seus setores, sendo reconhecidos como integrantes de uma das famílias mais conceituadas e tradicionais da Paraíba.

Este foi o legado de Manoel Gonçalves de Abrantes. Citando José de Abrantes Gadelha no final do seu livro “Sangue, Terra e Pó”:

“… depois de haver-nos honrado dignamente, e a própria terra ou o sertão vicejante, com sua existência, vez que, o preço do SANGUE derramado, jorrou e floresceu novas vidas ao regar a TERRA, para mais tarde, através da morte, metamorfoseando-a, transformar o PÓ, que serve, talvez, de leito aos ínvios caminhos e estradas, muitas vezes percorridas e esquecidas”.

 

Um adendo do autor deste Blog – Sempre me chamou atenção durante minhas viagens de pesquisa sobre o cangaço pelos sertões do Rio Grande do Norte e da Paraíba, quando estou na área que abrange desde a cidade de Alexandria (RN), até Uiraúna (PB), em meio às inúmeras entrevistas que por lá realizei,  a presença quase constante do nome do fazendeiro Manoel Gonçalves.

Quando em 2010 conclui a minha pesquisa para o SEBRAE-RN, sobre o caminho percorrido por Lampião no Rio Grande do Norte, quando me encontrava nas cercanias da Serra de Martins, muito distante da cidade do Lastro, o nome de Manoel Gonçalves foi repetido. Até mesmo na Fazenda Trigueiro, em Pereiro, no estado do Ceará, soube que Manoel Gonçalves mantinha com a família Diógenes, dona desta antiguíssima gleba, negócios e laços de amizade.

Percebi que Manoel Gonçalves deixou na memória dos sertanejos uma enorme áurea de respeito, de ser um homem justo, decidido e lutador. Mas o interessante é que mesmo sendo ele um membro da poderosa elite agraria sertaneja da região, possuidor de muito poder em terras, armas e homens, essa memória não vem acompanhada de temor, do medo de simplesmente pronunciar o seu nome, de fatos desabonadores na sua história de vida e nem de exemplos de crueldade gratuita. Bem diferente do que ouvi sobre a história de vida de outros homens poderosos deste nosso sertão.  

Agradeço a amiga Maria Nestorina Dantas Gonçalves de Abrantes pela lembrança de enviar a biografia de Manoel Gonçalves e aos seus parentes, Alberto Júnior e Augusto Abrantes, pelo privilégio em compartilhar as memórias do seu antepassado.

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REVOLTAS QUE LEVARAM A OUTUBRO DE 1930

Durante a campanha eleitoral de 1921, o jornal Correio da Manhã, na edição de 9 de Outubro, publicou uma carta manuscrita, atribuída ao candidato do governo, Arthur Bernardes, governador de Minas Gerais. Nela o ex-presidente da República Marechal Hermes da Fonseca era chamado de “sargentão sem compostura”, acusando o Exército de ser formado por elementos “venais”.

Arthur Bernardes

Arthur Bernardes negou veementemente a autoria da carta, vindo o mesmo periódico a publicar uma segunda carta, no mesmo tom da primeira, e como ela atribuída ao mesmo candidato. A comoção causada foi enorme, principalmente entre os militares, representados no Clube Militar, sob a presidência do próprio Marechal. Mais tarde seria descoberto que as assinaturas nas cartas eram forjadas.

Nas eleições de 1 de Março de 1922, Arthur Bernardes saiu-se vencedor, embora os resultados oficiais houvessem sido contestados pela oposição. Com o clima político tenso, em Pernambuco, o Exército foi chamado para conter rebeliões populares, descontentes com o novo Governo estadual.

Notícia da Prisão de Hermes da Fonseca

No dia 29 de Junho, Hermes da Fonseca telegrafou ao Recife, exortando os militares a não reprimirem o povo, sendo, por essa razão, preso no dia 2 de Julho e o Clube Militar, fechado.

A prisão de Hermes da Fonseca, a mais alta patente militar do país, e o fechamento do Clube Militar por decreto presidencial, foram percebidos como uma afronta aos militares do Exército. E ficaram ainda mais descontentes com a nomeação feita pelo presidente da República Epitácio Pessoa de um civil – o historiador Pandiá Calógeras – como Ministro da Guerra. Em todos os quartéis do Rio de Janeiro, se comentava que “a procissão ia sair”.

Detalhes da prisão de Hermes da Fonseca e manifestações de apoio reproduzidas no jornal "Diário de Natal" de 4 de julho de 1922

O movimento deveria se iniciar a partir do Forte de Copacabana, à uma hora da madrugada do dia 5 de Julho e se propagar pelas inúmeras unidades militares existentes.

Os “18 do Forte”

Comandava o Forte de Copacabana, na ocasião, o capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho do marechal Hermes da Fonseca. No dia 4 de julho, Euclides exortou os seus comandados, tendo feito escavar trincheiras desde o portão do forte até ao farol, minando-se o terreno.

Entrda do Forte de Copacabana

Tendo sido estabelecido que o movimento se iniciasse à uma hora da madrugada do dia 5, à uma e vinte o tenente António de Siqueira Campos disparou um dos canhões, sinal combinado. A guarnição aguardou em silêncio a resposta de outras unidades, o que não aconteceu.

O Governo, informado do movimento, antecipara-se e fizera trocar os principais comandos militares da capital. Siqueira Campos, então, disparou contra o Quartel-General do Exército (no Campo de Santana, atual Palácio Duque de Caxias), o da Marinha (na Praça Barão de Ladário), o Depósito Naval e o Forte do Leme, matando quatro pessoas neste último. Outros autores afirmam que foram disparados tiros, ainda, contra a Fortaleza de Santa Cruz da Barra, em Niterói, e contra o Forte de São João, no bairro da Urca.

O caminho para o confronto na beira mar do Rio de Janeiro

Durante todo o dia 5, o Forte de Copacabana sofreu intenso bombardeio pela artilharia da Fortaleza de Santa Cruz. Na madrugada do dia 6, o Ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, telefonou ao Forte, exigindo a rendição dos rebeldes. O capitão Euclides Hermes e o tenente Siqueira Campos permitiram, então, a saída de todos aqueles que não quisessem combater. Dos 301 homens da guarnição, saíram 272. Enquanto isso, os couraçados São Paulo e Minas Gerais, e um destróier posicionaram-se ao largo da ilha de Cotunduba, passando a bombardear o Forte. O Ministro Calógeras telefonou uma vez mais, passando Governo e rebeldes a parlamentar. Como consequência, o Capitão Euclides Hermes saiu ao encontro do Ministro no Palácio do Catete, onde recebeu voz de prisão. Encerrava-se o diálogo com um ultimato do Governo: ou os rebeldes se renderiam ou seriam massacrados.

Como o "Chicago Tribune" noticiou a revolta do Forte de Copacabana em 7 de julho de 1922. Atenção internacional para os problemas do Brasil

Sob o bombardeio naval, o tenente Siqueira Campos, pressionado pelos remanescentes da tropa, tomou a decisão suicida: não resistirão no Forte e nem bombardearão a cidade, como haviam chegado a ameaçar. Sairão em marcha até ao Palácio do Catete, combatendo.

Este seria um dos momentos mais dramáticos da história do Brasil.

Com um canivete, uma bandeira brasileira foi cortada em vinte e nove pedaços e distribuída entre os rebeldes. Um pedaço foi guardado para ser entregue ao capitão Euclides Hermes. Às 13 horas do dia 6 de Julho, iniciaram a marcha pela Avenida Atlântica. No meio do trajeto um número até hoje não determinado se rendeu ou debandou.

A caminho do confronto

Na altura do antigo Hotel Londres restava dezoito militares revoltosos, aos quais se juntou o Engenheiro Civil Octávio Correia, amigo do tenente Siqueira Campos.

Após alguns tiroteios, ao alcançarem a altura da antiga Rua Barroso, atual Siqueira Campos, os dez homens restantes, nove militares e o civil Correia, foram confrontados pela tropa legalista, que era integrada por cerca de três mil homens.

No confronto final, mesmo com tamanha desproporcionalidade, ocasionou um tiroteio que durou aproximadamente trinta minutos.

O jovem e idealista tenente Eduardo Gomes, ferido e aprisionado após o desproporcional combate

Dos insurgentes foram capturados, feridos, os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes, e dois soldados. Estes vieram a falecer posteriormente, no hospital, em consequência dos ferimentos recebidos. Todos os outros faleceram em combate.

Notícia do confronto no "Diário de Pernambuco"

Baixas confronto final – tenentes: Siqueira Campos – ferido a bala no abdômen, Eduardo Gomes – ferido a bala na virilha, Mário Carpenter, Nílton Prado, soldados Hildebrando Nunes, José Pinto de Oliveira, Manoel António dos Reis e
dois soldados não identificados, civil Octávio Correia.

Revolta de 1924

Os ecos da revolta do Forte de Copacabana seriam sentidos no meio da sociedade brasileira e logo novos problemas surgiriam.

A crise do governo agravou-se com a queda das exportações e a inflação, bem como com o movimento das classes operárias e dos jovens oficiais em contestação ao governo. O Brasil vivia em permanente decreto de estado de sítio, onde os direitos individuais eram extremamente restritos e uma nova revolta militar explode em 1924, em São Paulo.

Nota de 13 de julho de 1924, do jornal natalense "A Republica" sobre o movimento em São Paulo

Comandada pelo general reformado Isidoro Dias Lopes, foi deflagrada na cidade de São Paulo no dia 5 de julho de 1924, no 2º aniversário da Revolta do Forte de Copacabana. Os rebeldes exigem a renúncia de Arthur Bernardes, a convocação de uma Assembleia Constituinte e o voto secreto.

Esta crise teve como consequências a ocupação da capital paulista por vinte e três dias, forçando o então governador Carlos Campos a fugir para o interior do estado, depois de ter sido bombardeado a sede do governo paulista na época, o Palácio dos Campos Elísios.

Resultado dos bombardeios em São Paulo

A capital paulista foi bombardeada por aeroplanos governamentais e artilharia do Exército. Diante da situação os líderes da revolta abandonam a São Paulo nos primeiros dias de agosto de 1924, retornando o Presidente Carlos de Campos à capital paulista.

Os membros da revolta cruzam o interior do estado, juntando-se ao movimento militar organizado no Sul pelo capitão Luís Carlos Prestes, no início de 1925.   A duas colunas revoltosas se unem em Foz do Iguaçu e decidem seguir pelo interior do Brasil em uma marcha revolucionária, que entraria para a história como a Coluna Prestes.

Coluna revoltosa de São Paulo em Foz do Iguaçu

Este movimento político e militar desloca-se pelo Brasil até 1927, pregando reformas políticas e sociais e combatendo o governo do presidente Arthur Bernardes.

Sempre com as forças federais em sua perseguição, a coluna de mil e quinhentos homens entra pelo atual Mato Grosso do Sul, atravessa o Brasil até ao Maranhão, percorre o Nordeste e retorna a partir de Minas Gerais. Os homens de Prestes e Costa não conseguem derrubar o governo, mas adquire a reputação de invencibilidade adquirida durante a marcha vitoriosa de 25 mil quilômetros, aumentado assim o prestígio político dos integrantes da Coluna e reforçando as críticas contra as oligarquias e o sistema político vigente.

Antes da Hora

No período da história brasileira conhecida como “República Velha” (1889-1930), vigorava no Brasil a chamada “política do café com leite”, em que políticos de São Paulo e de Minas Gerais, se alternavam na presidência da república.

Washington Luís

O paulista Washington Luís, então sucessor de Arthur Bernardes na presidência, enfrenta o endividamento interno e externo e a retração das exportações. Alegando defender interesses do café, lança como candidatos à sua sucessão o governador de São Paulo, Júlio Prestes, e rompe a “política do café com leite”.

Em represália, o Partido Republicano Mineiro passa para a oposição e forma a Aliança Liberal, lançando a candidatura do gaúcho Getúlio Vargas à Presidência. Os políticos de Minas Gerais ficaram insatisfeitos com indicação de Júlio Prestes, pois esperavam que António Carlos Ribeiro de Andrada, que governava aquele Estado, fosse o indicado, de acordo com a “política do café com leite”, citada anteriormente.

Cartaz da campanha eleitora dos candidatos de oposição

Washington Luís conta com o apoio dos dirigentes de 17 estados que compunham o país na época. Entretanto três estados negaram o apoio a Júlio Prestes: Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba.

Em 20 de Setembro do mesmo ano, foram lançados os candidatos da Aliança Liberal às eleições presidenciais: Getúlio Vargas como candidato a Presidente e João Pessoa (Governador da Paraíba) como candidato a vice-presidente.

A candidatura e o programa da Aliança Liberal contavam com o apoio, além dos três governos estaduais citados, de partidos de oposição em vários estados, inclusive o Partido Democrático de São Paulo e o Partido Libertador do Rio Grande do Sul.

Getúlio Vargas. Acervo da Life Magazine

Apoiaram a Aliança Liberal intelectuais como José Américo de Almeida e Lindolfo Collor, Cordeiro de Farias, Eduardo Gomes, Siqueira Campos, João Alberto Lins de Barros, Juarez Távora e Miguel Costa, Juracy Magalhães e membros das camadas médias urbanas.

As eleições foram realizadas no dia 1º de Março de 1930 e deram a vitória a Júlio Prestes que obteve 1.091.709 votos contra apenas 742.794 dados a Getúlio. Ressaltando que Getúlio teve 100% dos votos no Rio Grande do Sul.

Estopim

A Aliança Liberal recusou-se a aceitar a validade das eleições, alegando que a vitória de Júlio Prestes era decorrente de fraude. Além disso, deputados eleitos em estados onde a Aliança Liberal conseguiu a vitória, não obtiveram o reconhecimento dos seus mandatos. A partir daí, iniciou-se uma conspiração, com base no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais.

A conspiração sofreu um revés em Junho com o brado comunista de Luís Carlos Prestes que seria o comandante militar da revolução, mas dela desistiu para apoiar o comunismo. Logo em seguida outro contratempo: morre em acidente aéreo outro dos líderes, Siqueira Campos.

João Pessoa, então governador da Paraíba

Mas no dia 26 de Julho de 1930 vem ocorrer uma situação que mudaria todo o cenário político brasileiro.

João Pessoa, o então dirigente do executivo paraibano, foi assassinado pelo advogado João Dantas em Recife, por questões políticas e de ordem pessoal, servindo como estopim para a mobilização armada. João Dantas seria, logo a seguir, barbaramente assassinado, na Penitenciária de Recife.

Os aliados de João Pessoa não perdem tempo e atribuem motivos políticos ao crime.

Corpo do governador paraibano

As acusações de fraude, o descontentamento popular devido à crise económica causada pela grande depressão de 1929, a morte de João Pessoa e a rompimento da política do café com leite, foram os principais fatores, que criaram um clima favorável a uma revolução.

Nota sobre o assassinato de João Pessoa, publicado no jornal "A Republica", 28 de julho de 1930

Getúlio Vargas tentou várias vezes a conciliação com o governo de Washington Luís e só se decidiu pela revolução quando já se aproximava a posse de Júlio Prestes, que se daria em 15 de Novembro.

Aconteceu em Outubro

A revolução de 1930 iniciou-se, finalmente, no Rio Grande do Sul no dia 3 de Outubro, e se alastrou por todo o país. Oito governos estaduais no Nordeste foram depostos pelos tenentes, entre eles o de Juvenal Lamartine no Rio Grande do Norte.

No dia 10, Getúlio Vargas partiu, por ferrovia, rumo ao Rio de Janeiro.

Um fardado Getúlio assumindo o poder no Rio de Janeiro

Esperava-se que na divisa com o Paraná ocorresse uma grande batalha na cidade de Itararé, onde as tropas do governo federal estavam acampadas para deter o avanço das forças revolucionárias, lideradas militarmente pelo Coronel Góis Monteiro.

Porém em 12 e 13 de Outubro ocorreu o Combate de Quatiguá, próximo a divisa entre São Paulo e Paraná. Mesmo tendo sido muito pouco estudado, foi o maior combate desta Revolução.

Logo os generais Tasso Fragoso, Menna Barreto e o Almirante Isaías de Noronha, depuseram Washington Luís em 24 de outubro e formaram uma junta de governo.

Jornais que apoiavam o governo deposto foram empastelados, Júlio Prestes, Washington Luís e vários outros procedes da república velha foram exilados.

Ato final da Revolução de 1930; gaúchos amarram seus cavalos no obelisco do Rio de Janeiro.

Às três horas da tarde de 3 de Novembro de 1930, a junta militar passou o poder, no Palácio do Catete, a Getúlio Vargas, encerrando a chamada república velha. Consta que Getúlio vestiu farda militar pela primeira vez na vida, por sugestão de seus assessores, para incutir no povo a “aura revolucionária”.

Na mesma hora, no centro do Rio de Janeiro, os soldados gaúchos cumpriam a promessa de amarrar os cavalos no obelisco da Avenida Rio Branco, marcando simbolicamente o triunfo da Revolução de 1930.

Getúlio tornou-se Chefe do Governo Provisório com amplos poderes. A constituição de 1891 foi revogada e Getúlio governava por decretos.

Como o "The New York Times" estampou a posse de Getúlio Vargas em novembro de 1930

O novo presidente nomeou interventores para os Governos Estaduais, na maioria tenentes que participaram da Revolução de 1930.

– Texto originalmente proveniente dos sites http://www.sokarinhos.com.br e http://pt.wikipedia.org. Fotod Coleção Nosso Século, Editora Abril, 1980.

O DESCANSO DE UM GUERREIRO NORDESTINO NO RIACHO DA PRATA

A HISTÓRIA DE UM HOMEM QUE LUTOU MAIS DE VINTE VEZES

CONTRA LAMPIÃO E A SUA BUSCA PELA PAZ

Autor – Rostand Medeiros

Nas ocasiões em que viajei pelo sertão do Nordeste em busca de conhecer mais sobre o cangaço, sempre esbarrava em muitas histórias de violentas lutas, valentia, covardia, honra, ódio, dor, sangue e algumas figuras que pareciam saídas de contos medievais, de verdadeiras gestas épicas.

Clementino José Furtado, o Clementino Quelé

Um destes personagens é o pernambucano Clementino José Furtado, mais conhecido como Clementino Quelé.

Este sertanejo foi cangaceiro, andou ao lado de Lampião, se desentendeu com ele, foi perseguido, perdeu quase toda a família na luta contra este grande chefe cangaceiro e se tornou policial, onde ficou conhecido como um dos mais esforçados perseguidores do “Rei do Cangaço”.

Lampião

Afirmava ter travado mais de vinte confrontos contra Lampião e seu bando. Depois participou de uma guerra no meio do sertão e finalmente procurou a paz no Cariri Paraibano, em uma cidade chamada Prata, próximo a cidade de Monteiro e da fronteira com Pernambuco.

Um Lugar Tranquilo

A origem do nome se deve a uma fonte de água descoberta por uma moradora, cujas águas eram extremamente límpidas e saborosas. Logo o local ficou conhecido na região como “Poço da Água de Prata” e ficava próximo a um riacho com a mesma denominação.

Prata, Paraíba

Neste local fui extremamente bem recebido e tive uma daquelas maravilhosas oportunidades de encontrar pessoas com tantos anos de vida e muita lucidez, que puderam narrar muitos episódios interessantes sobre Clementino Quelé.

Zoroastro Bezerra da Silva nasceu na Prata, no dia 14 de junho de 1916 e Pedro Elias da Silva, este último mais conhecido como “Seu Pedrosa” veio ao mundo no dia 16 de julho de 1917, em uma localidade pernambucana conhecida como “Beira” e nos conta que sua família se mudou para a Prata ainda na década de 1920.

Pedro Elias da Silva

Seu Pedrosa, que gosta muito de história, narra que o arruado do Riacho da Prata, ou simplesmente Prata, era um lugarejo que crescia como ponto de passagem e parada de tropeiros que seguiam da Paraíba em direção a Recife, e de comerciantes pernambucanos, principalmente das cidades de Flores, Afogados da Ingazeira e São José do Egito, que seguiam em direção ao comércio da cidade paraibana de Campina Grande.

Entre os anos de 1905 e 1906, teve início uma feira semanal e o número de habitantes começou a crescer.

Entrada a partir da BR-412

Lendo o pesquisador Pedro Nunes Filho, autor do livro “Guerreiro Togado – Fatos Históricos de Monteiro” (Ed. Universitária, UFPE, 1997, pág. 62), a Prata fazia parte do território de Alagoa do Monteiro, atualmente apenas Monteiro, que no início do século XX era o município com maior extensão territorial da Paraíba. A Prata era então, junto com as localidades de São Sebastião do Umbuzeiro, São Thomé, Camalaú, São João do Tigre e Boi Velho, um dos distritos daquela importante cidade fronteiriça com Pernambuco.

O local era tranquilo, mas a região onde se localiza esta comunidade sentiu o peso das espingardas na primeira década do século XX.

“A Guerra do Dotô Santa Cruz”

Nas proximidades da Prata existe uma propriedade denominada Areal. Em 1911 estas terras pertenciam ao advogado Augusto de Santa Cruz Oliveira, cuja família tinha forte influência política na região.

Augusto de Santa Cruz Oliveira Fonte-Livro “Guerreiro Togado”

Pessoa importante, rica e conhecida por todos, ocasionalmente o “Dotô” Santa Cruz se fazia presente na pequena feira da Prata, que ocorria sempre as quarta feira.

Pedro Nunes Filho em seu trabalho (op. cit.) informa que durante o mandato do governador João Lopes Machado (1908 – 1912) este buscou diminuir a força política da família Santa Cruz em Alagoa do Monteiro através de vários ardis.

Casa grande da Fazenda Areal Fonte-http://asleyravel.blogspot.com

Valente e voluntarioso, um verdadeiro líder, Augusto Santa Cruz reagiu a esta perda de espaço político através do uso da força. Ele protagonizou uma série de episódios violentos entre os anos de 1910 a 1912, onde não faltaram perseguições, espancamentos, invasões de vilas, tiroteios e mortes. Pronunciado, decidiu cercar Alagoa do Monteiro em maio de 1911, tendo sob o seu comando 130 homens armados, que destruiram a cadeia pública, libertaram os presos e ele deixou seus “cabras” saquearem lojas e bens dos desafetos.

Ao final da invasão, que teve forte repercussão em todo o Nordeste, o advogado Santa Cruz, para muitos apenas um “Cangaceiro Togado”, tomou várias pessoas em Monteiro como reféns e preparou-se para a reação do governo. Poucos depois, tropas da polícia paraibana e pernambucana atacaram a propriedade Areal e obrigaram Santa Cruz e seus homens a fugirem.

Alagoa do Monteiro, início do século XX. Fonte- Livro “Guerreiro Togado”

O resumo da ópera foi que Santa Cruz uniu forças a outro líder do interior paraibano, Franklin Dantas, da cidade de Teixeira, que igualmente se sentia perseguido pelo governador Machado.

Com esta união os dois chefes juntam mais de 300 homens em armas e partem para a invasão de várias localidades, entre elas a cidade de Patos, causando enormes transtornos e estragos. Depois seguiram em direção ao Ceará. Mas conforme avançam para o estado vizinho, os líderes desta coluna perceberam que não possuíam muito apoio de outras lideranças e viram que a sua “guerra” não teria nenhuma possibilidade de alterar a situação política. Tempos depois Santa Cruz fugiu para Pernambuco. Processado em Alagoa do Monteiro, foi julgado a revelia e absolvido.

Homens de Augusto Santa Cruz Fonte-Livro “Guerreiro Togado”

Ocorre que entre os homens de Augusto Santa Cruz estavam muitos dos seus empregados, fugitivos da justiça, antigos cangaceiros, amigos, parentes e várias destas pessoas viviam na pequena localidade da Prata.

Passado este momento difícil, que Seu Pedrosa chama “-Da época de 12”, a Prata vai crescendo devagar, mas tranquila.

Ele comentou que naquela época, na história do lugar não existiam maiores registros de envolvimento e confrontos entre seus habitantes e cangaceiros. Mas logo uma pessoa que havia sido muito ligada a Lampião chegaria ao lugar.

O “Tamanduá Vermelho”

Clementino Quelé é descrito como um homem forte, tido como baixo, com certa obesidade, de tez branca, que quando ficava agitado, a sua pele assumia um tom avermelhado. Daí o apelido “Tamanduá Vermelho”, dado pelo próprio Lampião.

Para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do Sol”, 2004, págs. 220 a 225), Quelé era natural da Ribeira do Navio, onde seguiu jovem para Alagoas, afastando-se de Pernambuco por questões de disputa familiar. No retorno a sua família segue para a região da bela cidade de Triunfo, no sítio Conceição.

Esta seria a possível casa onde Quelé e seus familiares travaram dois grandes tiroteios contra Lampião e seu bando. Santa Cruz da Baixa Verde, Pernambuco

Clementino Quelé era o chefe de sua família, tinha como irmãos Pedro, Quintino, Antônio, José e Manuel (Nezinho), todos considerados homens dispostos e valentes.

Envolvido em problemas políticos, que ocasionam perseguições a si e a membros do seu clã, Quelé e parte de seus familiares se juntam ao bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e passam a praticar a rapinagem pelos sertões.

Logo desavenças vão surgir e estas vão gerar uma forte inimizade com o famoso chefe cangaceiro. Como consequência, no início de 1924, Quelé e seus familiares sofrem dois grandes ataques do bando de Lampião no sítio Conceição, onde muitos são mortos.

Edição do jornal recifense “A Notícia”, de 14 de janeiro de 1924, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, informando erroneamente sobre a ação da polícia, durante o segundo ataque de Lampião contra Quelé

Em busca de vingança, Clementino Quelé entra na polícia paraibana, onde recebe as divisas de sargento, apesar do analfabetismo. Contra Lampião valia mais a pena uma pessoa “alfabetizada” no cano da espingarda.

O sargento Quelé era a valentia em pessoa e extremamente calejado nas lutas do sertão. Logo monta uma volante que se tornou conhecida como “Coluna Pente Fino” e que também ficou famosa na história do cangaço pela selvageria como combatia os inimigos e infligia o terror aos que apoiavam os bandos de cangaceiros. Muitos dos seus parentes fizeram parte do grupo.

Se não faltam relatos de valentia do seu pessoal, infelizmente não faltam informações que inúmeros inocentes sofreram nas mãos dos homens de Quelé, além de vários atos de pura rapinagem.

Caminhos do sertão

De toda maneira o “investimento” do governo da Paraíba em Quelé não foi em vão. Três anos e meio depois dos combates no sítio Conceição, no dia 14 de junho de 1927, ele e seus homens eram a primeira força policial a adentrar em Mossoró, após a fracassada tentativa de Lampião para conquistar a maior cidade do interior potiguar.

Durante a chamada Revolta ou Sedição de Princesa, na Paraíba, Clementino Quelé esteve lutando ao lado das tropas do governador João Pessoa, contra os homens do chefe político de Princesa, o coronel José Pereira. Foram sérios combates, com muitas mortes e atos de verdadeira selvageria.

Para conhecer maiores detalhes destes episódios ver –http://www.triunfob.com/2010/09/um-fato-da-historia-do-cangaco-na.html e https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/06/07/a-batalha-do-casarao-dos-patos/

A Chegada na Prata

Para seu Zoroastro, cujo pai era o barbeiro da cidade, consta que em Alagoa do Monteiro, onde o famoso guerreiro nordestino estava destacado, ele conheceu uma mulher com quem passou a ter um relacionamento e Quelé passou a permanecer mais tempo no Cariri Paraibano.

Seu Pedrosa informa que o ano da chegada do sargento Clementino Quelé a Prata foi em 1933 e ela teria acontecido devido um crime que ocorreu na região no ano anterior. Este problema foi uma invasão de propriedade, seguido do roubo de ração para o gado. O proprietário deu parte e foi aberto um inquérito. Tempos depois o sargento Quelé chegou ao pequeno distrito com outros militares e trazendo ordens do juiz de Monteiro para conduzir os invasores para a prisão.

Matriz de Nossa Senhora do Rosário, Prata, Paraíba

Apesar de chegar ao lugarejo para cumprir a lei, Seu Pedrosa informa que o sargento Quelé foi muito bem recebido pelo fazendeiro Ananiano Ramos Galvão, líder político do lugar. O sargento soube que a Prata estava crescendo e que havia uma pequena delegacia, mas não havia alguém com a sua patente para comandar o diminuto destacamento de dois soldados, um deles conhecido como “Mané Soldado”.

Logo a cidade soube que um novo sargento fora para lá designado e quando eles receberam a notícia de quem era o indicado, a comunidade se alvoroçou, pois o nome do sargento Clementino Quelé imprimia medo e terror em todo o sertão.

O sargento era sempre lembrado entre os habitantes locais pela forma violenta como sua volante agia, as inúmeras mortes cometidas por ele e seus homens, os vários combates contra Lampião e outras histórias que acompanhavam o “Tamanduá Vermelho” para onde ele seguia.

Evidentemente que a comunidade tinha medo do que aquele homem, que a nada temia, poderia passar a fazer contra eles devido a sua posição.

E afinal, porque este militar iria deixar um posto em Alagoa do Monteiro, uma cidade maior, para trabalhar em um lugarejo diminuto e pobre?

Além do mais na Prata os problemas que o valente Quelé iria enfrentar estavam bem longe da guerrilha que era o cangaço e das batalhas que ocorreram na Guerra de Princesa. No lugarejo o que mais perturbava a ordem eram as brigas de família, bebedeiras, pequenos roubos e coisas consideradas leves.

Seu Pedrosa informa que em pouco tempo o sargento Clementino Quelé chegou com seus “teréns” na carroceria de um caminhão, acompanhado de sua mulher chamada Alice e seus filhos. Em meio ao espanto geral ele alugou uma casinha e assumiu a função de delegado.

Um Bravo Que Desejava Ficar em Paz

Logo todo o sertão do Cariri Paraibano comentava que na Prata estava morando o sargento Quelé. O mesmo que era cantado em verso e prosa como “O valente que mais vezes brigou com Lampião”.

Não obstante a desconfiança inicial, além do fato de Quelé ser caladão e taciturno, a vida continuou. Mas o povo da Prata mantinha “Um olho no peixe e outro no gato” em relação ao novo delegado.

Até porque, na visão de Seu Pedrosa, sua figura como policial era um tanto aparatosa e ostensiva, para uma cidade onde os cachaceiros eram o maior problema. Nas horas em que estava de serviço, segundo as palavras do nosso entrevistado;

“-Quelé estava sempre com sua farda Kaki, quepe policial, um punhal atravessado no cós da calça, um vistoso e grande “Parabellum” pendurado na cartucheira e um rifle na mão.

Logo todos perceberam que apesar de sua sisudez, seu jeito fechado e caladão, seu comportamento junto aos moradores da Prata era extremamente tranquilo e suas atitudes controladas.

Para os entrevistados Quelé era muito “sabido”, pois buscava sempre “ajeitar” as situações com a conversa. Quando havia algum problema, alguma questão, ele utilizava de sua autoridade como policial e resolvia as querelas entre as pessoas da comunidade de forma equilibrada. Além da autoridade do uniforme, evidentemente havia o respeito pelo seu passado de lutas contra Lampião.

Gradativamente ele foi sendo bem aceito.

Não praticava o extermínio frio de bandidos, mas era conhecido pela moral e honestidade, além de ser considerado muito justo na sua atitude como policial, em uma forma de agir bem diferente dos tempos do cangaço. Os entrevistado afirmaram que durante o tempo em que lá esteve, não existe informações que Quelé recebia propina, tanto que morreu pobre.

Mas também não aceitava o furto e o roubo de animais de forma alguma. Se algum ladrão sem vergonha caísse na sua mão com estes crimes, segundo Seu Pedrosa;

“-Se fosse pro lado do furto de coisas e bichos, ele não dava cobertura e a peia (surra) era grande”.

Casa de Clementino Quelé na Prata

Sem ter muito problemas policiais para resolver, Clementino Quelé foi comprou uma pequena gleba de terra. Trabalhava nas horas vagas como agricultor e vendia sua pequena produção de milho e feijão na feira semanal. Era considerado um homem muito esforçado. Esta propriedade era perto do antigo sítio de Manoel Lindoso, a quem Seu Pedrosa considera o fundador da localidade.

Consta que para dar um “corretivo” nos presos, normalmente pinguços que enchiam a cara de cachaça nos bares, Quelé os levava para a sua terrinha, entregava uma enxada e mandava os detidos brocarem o terreno. Mas ficava ali do lado com o “Parabellum” no cinto.

O sargento não era visto com uma garrafa de pinga na sua frente e não andava bêbado pelas ruas.

Logo todos na Prata perceberam que o velho combatente queria ficar em paz no seu lugar. Paz para estar ao lado de sua Alice e de seus filhos.

Consta que Quelé havia sido casado com uma Senhora conhecida como “Toinha” e desta união nasceu uma filha e um filho chamado Zacarias. Depois, em Alagoa do Monteiro, ele se uniu a Alice e vieram mais três filhas.

Novo Encontro com Cangaceiros e Quem Era Lampião para Quelé

Naquele tempo Quelé, em algumas ocasiões e por ordem do Poder Judiciário, saiu da cidade para atuar em funções policiais. Mas em 1936 o sargento foi convocado para perseguir um grupo de cangaceiros que atacou a região próxima a Monteiro.

Jornal natalense “A Republica”, 23 de maio de 1936

Os nossos entrevistados não esquecem o desassombro e o impacto que causou no lugarejo a passagem deste bando que era comandado pelo chefe alcunhado “Moderno”, cujo nome real era Virgínio Fortunato da Silva. Este havia sido cunhado de Lampião, andava com ele a anos e era pessoa de sua extrema confiança.

Apesar de todo este medo e apreensão, os cangaceiros não passaram pela Prata e não consta que Quelé tenha novamente mantido algum combate contra Virgínio.

Fui informado que o assalto do bando de Virgínio foi extremamente rentável, mas que após a região do atual município de Camalaú, ponto máximo alcançado pelo grupo de cangaceiros em 1936, havia interessantes e ricas propriedades, principalmente nas proximidades da atual cidade paraibana de Barra de São Miguel. As testemunhas acreditam que este cangaceiro não seguiu adiante na sua rapinagem, justamente porque Virgínio sabia que ali perto se encontrava “um velho conhecido”.

Se isso é verdade eu não pude apurar e somente uma pesquisa específica para checar a veracidade desta informação.

Seu Pedrosa comenta que não tinha maior aproximação com Quelé, mas nunca deixou de ficar por perto quando o velho combatente conversava com os amigos da cidade sobre seu passado de lutas.

Fim de Lampião

Uma situação interessante foi no dia 28 de julho de 1938, quando Lampião e seu bando foram massacrados na Grota do Angico, várias pessoas da pequena urbe vieram até o sargento Quelé para narrar o acontecido. O espanto foi a sua quase total ausência de emoção. Apenas balançou a cabeça e nada falou.

Mas Seu Pedrosa comentou que nas palestras que ouviu de Quelé, escutou uma ocasião em que ele descreveu Lampião como sendo “-Um valente”. Para quem conheceu o sargento, este demonstrava um enorme ódio do “Rei do Cangaço”, mas também muito respeito.

Uma coisa que chamou atenção dos entrevistados foi que Clementino Quelé nunca negou que esteve lado a lado com Lampião no seu bando e que, devido às desavenças com este chefe cangaceiro, pagou um preço muito alto com a morte de vários familiares.

Sobre os familiares sobreviventes, soube que para a Prata vieram viver dois irmãos de Quelé, mas em circunstâncias bem diferenciadas do sargento que protegia a localidade.

Havia um deles, de nome José, mas conhecido como Zé Quelé, que era soldado da polícia paraibana e servia para os lados da região de Mãe D’Água, onde praticou um crime de morte. Ele busca então apoio no irmão Clementino, que não nega ajuda. Zé Quelé ficou homiziado nas proximidades, mas não vinha a feira, algumas vezes dormia nos matos e logo toda a cidade da Prata sabia daquela situação. Mas ninguém o denunciou.

Evidentemente que havia medo nesta conta, mas também houve um acordo tácito entre a comunidade e o delegado Clementino. Além disso ele era Clementino Quelé e não valia a pena uma inimizade com este homem.

Já o outro irmão era conhecido como Nezinho, também policial, mas tido como pistoleiro. Entretanto não criou nenhum problema na Prata.

Respeito

Um fato interessante ocorreu quando Quelé já estava aposentado. Então veio para ser o delegado na pequena localidade um sargento jovem e cheio de disposição. Este vendo Clementino Quelé andar ostensivamente armado, começou a comentar entre as pessoas que;

“-Aquele sargento véio não é mais da Força. Vou desarmar ele”.

Quando Quelé soube não fez nada. Apenas disse;

“-Tô esperando”.

Aparentemente o novo sargento foi mais bem informado quem era o idoso e já um tanto gordo ex-policial. Foi aconselhado que o melhor que tinha a fazer era deixar aquele homem em paz. Quelé nunca foi desarmado por ninguém.

Uma das facetas do valente sargento era sempre receber os chefes municipais e os políticos da região, tanto os de prestígio estadual e até mesmo pessoas de forte presença no cenário político nacional da época.

Nestas ocasiões, mesmo com pouca instrução, o velho perseguidor de Lampião sempre se apresentava bem uniformizado, sendo reconhecido por muitos destes homens do poder, que igualmente o tratavam com deferência.

Inácio Mariano e Walfrido Siqueira, homens fortes de São José do Egito e Jacinto Dantas, do lugar Ouro Velho, eram todos seus amigos e o visitavam quando estavam de passagem pela Prata.

João Agripino de Vasconcelos Maia Filho, de Catolé do Rocha, que foi deputado federal, senador e governador paraibano, quando ainda um jovem politico, fez questão de parar na Prata para conversar com o velho combatente.

José Américo de Almeida Fonte-http://www.onordeste.com

Em 1951, depois de haver realizado um comício em Sumé, o então candidato ao governo paraibano, José Américo de Almeida, veio a Prata em campanha eleitoral. Não era nenhuma surpresa a presença de políticos em campanha pela pequena cidade para pedir votos. Mas surpresa mesmo para muita gente foi quando o grande político e formidável homem de letras paraibano, autor de “A Bagaceira”, pediu para se encontrar com o sargento Clementino Quelé.

Os mais jovens não sabiam, mas José Américo havia sido um dos comandantes das forças legalistas do governador João Pessoa contra as tropas do coronel José Pereira, da cidade de Princesa, e o sargento Quelé foi um dos seus comandados. Houve um encontro de velhos conhecidos, cercado de alegria e abraços.

Paz no Fim da Vida

Uma coisa animava Clementino Quelé, visitar o coronel Manuel Benício, antigo caçador de cangaceiros e oficial da Polícia Militar da Paraíba. Segundo Seu Pedrosa, o coronel Benício morava em Pombal e ocasionalmente estes sertanejos afeitos as armas se encontravam nesta cidade para rememorar e conversar.

Outro local onde Quelé ocasionalmente visitava, era a região de Triunfo e Santa Cruz da Baixa Verde, em Pernambuco. Ali ele viveu momentos de muita tensão, mas não deixava de visitar amigos e parentes.

Conforme os anos foram passando o velho combatente ficou mais a vontade na cidade, frequentava bastante a igreja de Nossa Senhora do Rosário, passou a ser mais falante, mais tranquilo, mais alegre. Não tinha nenhum problema de narrar, como assim fez com várias pessoas, sobre suas andanças no cangaço, a entrada na polícia, a perseguição a cangaceiros e tinha um extremo orgulho em dizer que combateu Lampião em mais de 20 ocasiões distintas. Seu Zoroastro comentou que perdeu as contas em que o velho sargento vinha à casa de seu pai e narrava os episódios do passado. Quelé só não gostava de comentar sobre a “Guerra de Princesa”.

O problema é que suas histórias, para os ouvidos incautos, eram tão mirabolantes, tão incríveis, tão fantásticas, que muitos comentavam, principalmente os mais jovens, que o sargento Clementino Quelé era “mentiroso”. Já os mais velhos, que tinham escutado muito cantador de feira declamar em verso e prosa as peripécias daquele homem e diziam a moçada que tomassem cuidado, pois aquelas histórias eram totalmente reais. Tanto assim que ninguém nunca chegou na frente de Quelé para perguntar se o que ele falava era verdade ou não.

Uma situação que ele gostava de comentar e que tinha muito orgulho, foi o fato do seu filho Zacarias ter se tornado um alfaiate renomado na cidade e suas filhas não lhe darem problemas. Falava que sua família  “-Podia ser pobre, mas eram pessoas de bem e não se meteram em questões”.

Possível túmulo de Quelé

Clementino Furtado, segundo Seu Pedrosa, faleceu em 1955, ainda lúcido. Até o fim nunca deixou de andar com uma arma na cintura e tem certeza que ele morreu em paz.

Para as pessoas com quem conversei, ele era um homem normal, não deixava transparecer as perturbadoras experiências que viveu. Na opinião dos velhos moradores da Prata, que na época eram jovens, admiravam o antigo caçador de cangaceiros e ficavam extasiados com a memória das velhas lutas daquele valente, o grande fator de sua mudança foi a mulher Alice, verdadeiro porto de paz e tranquilidade em sua vida.

No dia do seu falecimento a cidade parou. Veio gente de toda a região e várias autoridades foram ao velório. Para nossos entrevistados todos sentiram a sua morte.

Seu filho Zacarias, suas filhas e o irmão Nezinho foram com o tempo para Campina Grande. Já Zé Quelé, apesar do seu problema com a justiça, nunca foi preso e ficou mesmo pela Prata.

Aqui o amigo Ary Prata, professor e escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri Paraibano. Um agradecimento especial pelo apoio na sua simpática cidade

Tentei encontrar seu atestado de óbito, ou alguma informação da data de seu falecimento no cemitério local, mas nada consegui.

As pessoas da região me apontaram um túmulo recentemente pintado, mas sem nenhuma indicação que ali seria o local de seu repouso eterno. Fotografei o local, mas sem uma comprovação eficiente, afora a palavra das pessoas desta simpática cidade.

Mas ocorre uma situação interessante.

Fiquei intrigado, pois sabia não haver mais familiares de Quelé na Prata, então quem conservava seu tumulo?

Comentaram-me que pelo respeito a sua pessoa, a sua história tão marcada pelas inúmeras lutas e pelos bons serviços que o velho combatente realizou na cidade, seu antigo túmulo é conservado pela comunidade.

MAIS UMA VEZ AGRADEÇO AO AMIGO ARY PRATA E AO ADVOGADO ANTÔNIO ELIAS DA SILVA, MAIS CONHECIDO COMO “TÔTA”. MEMBROS DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO CARIRI PARAIBANO . MUITO OBRIGADO PELO APOIO E ATENÇÃO.

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1917 – UMA “QUASE” BATALHA NAVAL NA COSTA POTIGUAR

A PRESENÇA DE NAVIOS DE GUERRA ALEMÃES NAS NOSSAS PRAIAS DURANTE A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Em janeiro de 1917, a Primeira Guerra Mundial iria completar três anos de um banho de sangue que assombrava todo o Mundo.

De um lado temos os Aliados, formados pelo Império Britânico, França, Japão, Rússia, Bélgica, Montenegro e Sérvia. Todos contra os Impérios Alemão, Austro-húngaro e Otomano. Na sequência mais de vinte países vão se envolver no conflito.

As marinhas aliadas organizam um forte bloqueio naval, onde a ideia é simplesmente fazer a Alemanha cair de fome. Mas seus comandantes navais criam um plano ousado para um tipo de guerra no mar diferente, onde a mente e a capacidade da tripulação de um navio corsário trabalhava melhor que a força bruta de um encouraçado com várias baterias de canhões.

Pintura mostrando um combate naval na Primeira Guerra Mundial

Navios civis alemães foram armados e batizados pomposamente como “Cruzadores Auxiliares” e despachados pelos mares com a intenção de destruir quantas naves de carga dos aliados fosse possível. Era a chamada “Guerra de Corso”.

Como estes “Cruzadores Auxiliares” possuíam a aparência de pacíficos navios de carga, onde seus canhões eram camuflados atrás de chapas e paredes falsas e ostentavam bandeiras de outros países, a sua letalidade só era descoberta no último momento.

Este atacante, que geralmente navegava mais rápido, se aproximava de sua indefesa vítima, onde mandava uma mensagem, ou abria fogo a frente da proa (parte dianteira dos navios), dando um aviso de parada. Na sequência o navio corsário mandava um sinal e enviava um grupo armado para a abordagem, onde retiravam da presa o que desejavam.

Frota naval alemã em 1914. O navio corsário sempre seguia sozinho

Buscavam normalmente documentos navais, armas, água potável, comida, combustível e outras necessidades. Depois a tripulação capturada saía geralmente só com a roupa do corpo, indo direto para os porões do navio atacante. O navio capturado ou era afundado com dinamite. Igualmente podiam colocar uma pequena guarnição a bordo, que seguia com a nave aprisionada como butim de guerra para a Alemanha.

Não podemos esquecer que esta era uma época onde nem todos os navios possuíam radiocomunicação. Já coisas como radar, imagens de fotografia feitas por satélites girando ao redor da Terra, computadores, e sinais de localização através de GPS, certamente só existiam na cabeça de H. G. Wells.

Com esta situação, um capitão com forte espirito de liderança e uma tripulação bem preparada, poderiam fazer misérias e causar um forte prejuízo a navegação comercial inimiga pelos mares do Mundo.

Uma Babel Flutuante

Em janeiro de 1917 o Brasil ainda se encontrava neutro, mas os tambores de guerra já se faziam sentir próximo as nossas praias.

Quadro – The last man Falklands 1914 – Fonte – http://www.ourlifeboat.org

Primeiramente os jornais brasileiros haviam dado muito destaque a grande batalha das Falklands, as mesmas ilhas reivindicadas pelos argentinos e por eles chamadas de Malvinas. Em dezembro de 1914 ali aconteceu uma fragorosa derrota de unidades navais alemãs, contra navios da esquadra inglesa comandados pelo almirante Sturdee e que ocasionou a morte do almirante alemão, o Conde Maximilian Von Spee.

Tempos depois foi noticiado que o navio “Karslruhe” estava vagando pelo mar, onde teria inclusive se aproximado da costa potiguar e afundado navios aliados. Mas a marinha inglesa havia dado cabo deste intruso.

Nesta época, onde o transporte de carga e passageiros por navios era o principal meio de ligação entre as capitais brasileiras, onde os horários de partida e chegada dos navios era notícia de destaque nos jornais e assunto corrente nas avenidas e ruas, tudo que dizia respeito a navegação chamava atenção. Mais ainda em meio a um conflito em escala mundial, onde o afundamento de navios civis era um meio de se alcançar a vitória.

Por isso foi uma enorme surpresa em Recife, quando às quatro horas da tarde da segunda feira, 15 de janeiro de 1917, um estranho e inesperado navio chegou ao ancoradouro externo do porto da capital pernambucana.

Logo o já obsoleto Cruzador Torpedeiro “Tymbira”, da Marinha do Brasil, saiu ao encontro do navio desconhecido. Em pouco tempo chegava a notícia que o estranho barco queria aportar, pois a bordo trazia muitos sobreviventes de navios atacados por um corsário alemão.

“Hudson Maru” – Fonte – http://smsmoewe.com

O prático do porto, Francisco Costa, o representante da Alfândega, Hilário de Souza, e outras autoridades portuárias foram ao encontro da estranha nave, que ostentava a bandeira do Sol Nascente. Era o navio “Hudson Maru”, da empresa Tatsuma Kisen Goshi Kaisha, da cidade de Kobe, sendo este o primeiro navio japonês a ancorar em Recife.

E não era mentira. Dentro do navio com pouco mais de 100 metros de comprimento, havia mais de 300 homens. O capitão T. Takeshima informou que seu navio havia sido capturado no dia 4, a cerca de 350 milhas náuticas da costa brasileira. Durante oito dias o “Hudson Maru” foi controlado pelos alemães e obrigado a acompanhar o corsário na captura de outros cargueiros.

No dia 7 de janeiro foi a vez do mercante inglês “Radnorshire” (afundado a 110 milhas de Pernambuco) e no dia 9 foram capturados os também ingleses “Minieh” e “Netherby Hall”. No dia 12 o capitão Takeshima recebeu a bordo mais de 300 homens e lhe foi ordenado que seguisse diretamente para Recife, onde chegou três dias depois.

Inteligentemente os alemães deixaram a dispensa do “Hudson Maru” praticamente vazia, onde a melhor alternativa era seguir para a capital pernambucana.

Segundo a edição do dia 16 de janeiro do jornal “Diário de Pernambuco”, aquela babel flutuante era formada por tripulantes de dezoito navios atacados. Havia principalmente ingleses e franceses, mas se encontravam alguns noruegueses, americanos, indianos, mexicanos e pessoas de outras nacionalidades.

Os ”Turistas” em Recife

Os cônsules dos países que estavam a bordo se fizeram presente no navio japonês, junto com as autoridades navais brasileiras e providenciaram primeiramente água e comida, que já havia acabado.

Destaque que a imprensa pernambucana deu ao caso do corsário alemão

O jornal informa que a fedentina era a terrível, a moral estava baixa entre os homens, as condições de higiene um caos e as roupas dos antigos prisioneiros estavam já bem sujas.

No outro dia o “Hudson Maru” aportou e Recife recebeu um contingente com mais de 300 “turistas”.

As representações diplomáticas na cidade, principalmente as da Inglaterra e da França, se transformaram em um tumulto. Tripulantes relatavam o que aconteceu no mar, relatórios eram despachados para os países informando o ocorrido, hotéis e hospedarias eram procurados para acomodar a todos.

Cais do Porto de Recife Fonte – Life Magazine, através de http://www.meus365dias.com

Os recifenses ajudavam como podiam, onde roupas eram distribuídas e os marítimos recebiam o carinho da população da capital pernambucana.

O “Jornal Pequeno” informou que os tripulantes andavam pelas ruas entre atordoados e felizes pelo desfecho daquele episódio. Outra informação deste periódico dava conta que os lupanares próximos ao cais estavam abarrotados. Prostitutas locais davam carinho e aconchego aos sobreviventes, onde certamente muitos deles já eram velhos conhecidos. Já o pagamento da “função”, mais do que necessária naquele momento tortuoso, era deixado no “prego”, pois a maioria estava sem dinheiro.

O mais importante era que de Recife saíram notícias para todo o Mundo. Havia informações que o navio corsário se chamava “Vineta”, mas outros sobreviventes diziam ser o “Möwe”. Mas o certo era que este navio estava fazendo um grande estrago.

O Corsário

Pelo Brasil afora a notícia causou sensação, pois muitos dos navios afundados eram habitualmente vistos em nossos portos. No Rio de Janeiro a informação foi profusamente comentada, onde não faltavam preciosos detalhes das abordagens e afundamentos.

“S.M.S. Möwe” Fonte – http://smsmoewe.com

Se a nacionalidade do corsário era ponto passivo, faltava saber qual seria o nome do navio atacante? De onde veio e, principalmente, para onde havia seguido?

O navio era chamado Möwe (Gaivota), sendo comandado pelo aristocrático e inteligente Koverttenkapitän Nicholas Burggraf, Conde de Dohna-Schlodien. Este comandante, tido como nobre e democrático, estava na marinha desde 1896, sendo nomeado tenente em 1902.

Koverttenkapitän Nicholas Burggraf, Conde de Dohna-Schlodien

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a Marinha Imperial Alemã requisitou da empresa “Fruchtkompanie Afrikanische”, de Munique, o seu cargueiro de transporte de frutas “Pungo”, devido à sua velocidade e do grande tamanho de seus porões e o transformou no Cruzador Auxiliar “S.M.S. Möwe”.

O Conde de Dohna-Schlodien começa o seu serviço nesta nave no dia 1 de novembro de 1915.

De dezembro a março de 1916, o “Möwe” vai realizar uma missão pelo Atlântico. De saída foram colocadas 262 minas explosivas, em condições climáticas desfavoráveis, no Estrito de Pentlant, perto da grande base naval inglesa de Scapa Flow, onde um encouraçado foi a pique devido esta ação.

O “Möwe” em nada se parecia com um navio de guerra

O corsário segue pelo Atlântico onde consegue o extraordinário resultado de vinte e um navios afundados ou capturados.

A forma de ataque desfechado pelo corsário, disfarçado como um navio de carga neutra para poder chegar perto de suas presas, causou forte repreensão por parte dos inimigos. Talvez para compensar, uma marca do Conde de Dohna-Schlodien era que ele sempre fazia questão de resgatar todos os sobreviventes de qualquer navio atacado.

No retorno a pátria os tripulantes do “Möwe” receberam um tratamento digno dos grandes heróis. Toda a tripulação foi condecorada pelo Kaiser.

Entre junho e agosto de 1916 realizam uma patrulha no Mar Báltico, mas só afundam um cargueiro inglês.

Em 23 de novembro de 1916 partem do porto alemão de Wilhelmshaven e seguem para o Atlântico Sul, onde suas vitórias vão tornar a história deste navio uma verdadeira lenda.

A caçada se inicia com a destruição do cargueiro inglês “Voltaire”, no dia 2 de dezembro.

A Marinha Inglesa Caça os Alemães na Costa Nordestina

Cinco dias depois da chegada do “Hudson Maru”, entrava às cinco e meia da manhã no porto um velho conhecido dos recifenses. Era o cruzador inglês “H.M.S. Glasgow”, sob o comando do capitão Aubrey Smith. O comandante recebeu as visitas brasileiras de praxe, entre estas o governador pernambucano, Manoel Antônio Pereira Borba. Mas a principal visita foi o pessoal do consulado ingles, que certamente trouxe os relatos dos homens que desembarcaram do cargueiro japonês.

O “H.M.S. Glasgow” em 1915 Fonte – http://www.ourlifeboat.org

Abastecido e bem informado, logo e de forma discreta, o “Glasgow” deixou Recife a caça do corsário alemão.

Esta nave seguiu ao encontro do Cruzador Auxiliar “Amethist”, dos Cruzadores Ligeiros “Macedonia”, “Edimburg Castle” e “Orama”, todos com poder de fogo suficiente para enviar o “Möwe” para uma viagem sem volta do fundo do mar.

O “Glasgow” em Recife

Para corroborar esta ideia, notícias procedentes do Rio de Janeiro e publicadas no “Diário de Pernambuco” e o periódico natalense “A Republica”, davam conta que o “Amethist” havia zarpado de Salvador no dia 18 de janeiro. Já o “Edimburg Castle” teria partido do Rio de Janeiro no dia 21, de forma rápida, e seguiu em direção norte.

Mais navios no mar para caçar o corsário alemão

Se algo haveria de ocorrer no alto mar, seria através da ação dos vasos de guerra da Marinha Real da Inglaterra, a conhecida “Royal Navy”.

Na Costa Potiguar?

Após a partida do cruzador inglês “Glasgow”, estoura nas páginas da imprensa brasileira uma estranha notícia.

Ela dava conta que um telegrama vindo da cidade potiguar de Macau para o Rio de Janeiro, informava que um grupo de cinco navios estava ancorado diante do canal da povoação de Jacaré, perto da cidade de Touros. O informe publicado nas notas de “Última Hora” comentava que não se sabia a nacionalidade das naves e que esta era a terceira vez que tais navios eram vistos nesta região pouco habitada da costa potiguar. A nota não trazia o nome do, ou dos informantes.

Estranha notícia

Logo o então Ministro da Marinha, almirante Alexandrino Faria de Alencar, era cobrado pelos jornais cariocas sobre a presença da nossa força naval no meio de toda esta confusão.

A autoridade informou pelos jornais que estava enviando o Cruzador “Rio Grande do Sul” e o já caquético Encouraçado Guarda Costa “Deodoro”, para patrulharem uma área que abrangia desde o Arquipélago de Fernando de Noronha e a costa entre o Rio Grande do Norte e Pernambuco. Não que o “Deodoro” fosse tão velho assim, pois ainda não tinha nem vinte anos de mar e era a nau capitânia da “Força Naval do Norte”. Mas era completamente obsoleto e despreparado para o conflito que ocorria.

O nosso obsoleto “Deodoro” Fonte – http://www.naviosbrasileiros.com.br Reprodução do livro A Marinha por Marc Ferrez – 1880-1910 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil – 1986, Editora Index – VEROLME.

É bem verdade que a Marinha do Brasil nesta época contava com algumas respeitáveis naves de guerra, mas a maioria dos seus melhores navios estavam concentrados no Rio de Janeiro. Além do mais, diante de uma costa verdadeiramente continental como no caso do Brasil, a nossa desaparelhada marinha de guerra, por mais que se esforçasse em “mostrar a nossa bandeira”, pouco poderia fazer.

Navio suspeito

Outra notícia, novamente emanada do Rio de Janeiro, e publicada no “Diário de Pernambuco”, edição de 23 de janeiro, informava que cinco corsários alemães haviam sido vistos entre “os lugares Cajueiro e Rio do Fogo, se mantendo a sota-vento e aproveitando os recifes existentes na costa como abrigo”.

Logo outra nota, publicada em “A Republica”, informava que um navio de quatro chaminés fora visto na costa do Rio Grande do Norte.

Poderia ser o Mowe?

Era possível, pois os tripulantes deste corsário poderiam alterar seu formato, acrescentando falsas chaminés e mastros, além da mudança de cores e inclusão de outros materiais visuais. Mas não havia maiores informações.

Novas informações

Outra informação veio do vapor brasileiro “Maranhão”, em viagem para Recife informou ter avistado um navio suspeito em nossas praias, mas sem maiores detalhes.

Logo estas notícias foram destaque na imprensa mundial, sendo estampada em diversos jornais europeus e norte-americanos. Como podemos ver aqui na reprodução da edição de 22 de janeiro de 1917, do “Washington Post”.

Notícia que chamou atenção da imprensa internacional

Mas era o jornal “Diário de Pernambuco” que alertava para um possível encontro destes navios beligerantes e um provável confronto na costa potiguar, apostando que isso ocorreria mais facilmente na altura de Macau. O articulista do “Diário de Pernambuco” apontava para as possíveis consequências desta pretensa batalha naval, diante da neutralidade brasileira em meio ao sangrento conflito.

Mas Onde Estava o “Möwe”?

As notícias sobre a presença do “Möwe” na costa potiguar eram totalmente falsas.

O esquivo “Möwe” Fonte – http://smsmoewe.com

Após o desembarque dos prisioneiros do “Hudson Maru” no porto de Recife, o “Möwe” procurou sair de perto da costa do Nordeste do Brasil. O navio passou praticamente um mês navegando de forma lenta, atravessando o Atlântico Sul em direção a costa sul africana, onde cruzou ao sul da Ilha de Santa Helena, procurando não chamar atenção e sem atacar nenhum cargueiro aliado.

No dia 15 de fevereiro o corsário alemão voltava a se aproximar novamente do Brasil, onde afundou o cargueiro inglês “Brecknockshire”, a 490 milhas a leste de Cabo Frio, no Rio de Janeiro. No dia seguinte, na mesma região, mais duas vítimas inglesas entravam nas estatísticas.

A partir deste ataque, o “Möwe” começa a retornar a Alemanha.Mas continuava caçando, capturando e destruindo navios mercantes aliados.

Outros seis navios serão destruídos até a chegada ao porto de Kiel, na Alemanha, em 22 de março de 1917, onde outra grande leva de tripulantes aliados capturados foi colocada em um campo de prisioneiros até o fim da guerra.

Prisioneiros do “Möwe” desembarcando em Kiel Fonte – http://smsmoewe.com

A missão de combate do “Möwe” foi um retumbante sucesso. Vinte e oito navios foram destruídos, totalizando 123.265 toneladas de meios flutuantes aliados que foram para o fundo do mar.

Mas o melhor resultado foi o medo imposto entre os meios de navegação dos inimigos e a necessidade do deslocamento de navios de guerra para buscarem este solitário corsário alemão, tirando-os de outras missões de combate.

Conclusão

No meu entendimento, as falsas notícias supostamente transmitidas de Macau e recebidas pelas agências de notícias do Rio de Janeiro, informando que o “Möwe” se encontrava próximo a costa potiguar, é uma possível mostra de como a espionagem alemã estava atuante no Brasil durante a Primeira Guerra Mundial.

Além de espiões, havia no próprio governo brasileiro pessoas que defendiam o Império Alemão, como o ministro das Relações Exteriores Lauro Müller, de origem germânica e que poderiam influenciar a publicação deste tipo de notícia.

O autor deste blog na região do litoral potiguar onde pretensamente o corsário “Möwe” teria sido visto. Até hoje uma área pouco habitada

Diante da repercussão na imprensa internacional, chama atenção a falta de informações mais apuradas por parte dos jornais potiguares, que diante das notícias emanadas das agências do Rio de Janeiro, não buscaram maiores esclarecimentos através de contatos com as autoridades municipais em Macau ou Touros. Não se pode esquecer que nesta época estas cidades já possuíam agências telegráficas.

Já os membros do governo potiguar, tendo a frente o governador Joaquim Ferreira Chaves, não se pronunciaram de forma alguma sobre o episódio, pelo menos através da imprensa potiguar.

Não sabemos se o ardil serviu para desviar as belonaves inglesas para esta parte despovoada da costa potiguar, enquanto o “Möwe” seguia para a costa africana. Mas o certo é que o corsário alemão escapou.

O “Möwe” não voltou mais a combater no mar. Para os alemães seria uma péssima propaganda de guerra a sua destruição ou captura por forças aliadas e a nave foi desarmada.

O “Möwe” na mãos dos ingleses após o fim da guerra Fonte – http://smsmoewe.com

Depois da guerra o navio foi enviado para a Inglaterra como reparações de guerra e ali convertido em um cargueiro chamado “Greenbrier”. Em 1933 o antigo “Möwe” retornou a Alemanha e foi batizado com “Oldenburg” e serviu como navio de carga durante praticamente toda a Segunda guerra Mundial.

Foi torpedeado perto da localidade norueguesa de Vadheim em 7 de abril de 1945.

Já o Conde de Dohna-Schlodien deixou a marinha depois do fim da Primeira Guerra Mundial, trabalhando em uma empresa de Hamburgo.

Devido ao seu comportamento correto em relação aos seus prisioneiros, e o seu distanciamento em relação aos nazistas, quando as tropas aliadas invadiram a área da Baviera em 1945, a família do Conde Dohna-Schlodien, através de instruções especiais emitidas pelo comando aliado, foi respeitosamente tratada e puderam permanecer em sua casa sem restrições.

O Conde morreu de um ataque cardíaco aos 77 anos.

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PIERRE CLOSTERMANN – UM CURITIBANO NA RAF

Autor – Leonel T. Rodrigues

Nascido no Brasil, mas de nacionalidade francesa,  por ser filho do banqueiro francês Jacques Clostermann, que morava no Brasil, Pierre Henri Clostermann foi  o maior ás da aviação de caça francesa na II Guerra Mundial.

As marcas das vitórias no avião de Closterman. Ao final da guerra, Pierre Clostermann se despede do seu Hawker Tempest V, batizado "Le Grand Charles" em homenagem a Charles De Gaulle, líder dos "Franceses Livres". As cruzes sem o fundo preto representam aviões alemães provavelmente abatidos, mas ainda não homologados como tal. (Foto do livro O GRANDE CIRCO.)

Pierre nasceu em Curitiba, em 28 de fevereiro de 1921.  Estudou no Brasil e pouco antes do início da II Guerra Mundial, foi para os EUA, cursar Engenharia Aeronáutica. Em 1940, após a queda da França, ele abandonou os estudos de engenharia e embarcou para a Inglaterra, onde cursou uma escola de pilotos militares, como voluntário pelos “Franceses Livres” do General  Charles De Gaulle.

Graduado como sargento-piloto, na Real Força Aérea Inglesa (Royal Air Force – RAF), a princípio fez parte da formação do esquadrão 341,chamado Grupo Alsácia, uma unidade formada exclusivamente por aviadores franceses.

Reprodução artística do avião de Closterman

Em julho de 1943, obteve suas primeiras vitórias, abatendo dois caças alemães Focke-Wulf FW-190 numa mesma missão.

Porém, envolveu-se em um nebuloso episódio, durante uma missão onde era o  avião-ala, encarregado de proteger a retaguarda do comandante da unidade, o lendário René Mouchotte, o primeiro não-britânico a comandar uma unidade da RAF. Segundo sua própria narrativa, ele perdeu contato visual com o seu líder após este ter feito uma manobra muito radical, e envolveu-se em combate individual com caças alemães, abatendo um deles. Mais tarde, ouviu-se pelo rádio a voz de Mouchotte, comunicando estar sem cobertura, sob ataque inimigo. Mouchotte acabou sendo abatido e morto neste combate, enquanto Clostermann obtinha mais uma vitória.

Depois disso, parece que o clima ficou desfavorável para ele, no Grupo Alsácia, e Clostermann foi transferido para outro esquadrão da RAF, passando a voar junto com pilotos ingleses.

Ele participou da fase final da guerra e, pilotando caças Supermarine Spitfire e Hawker Tempest, abateu confirmados 23 aviões alemães, além de nove prováveis, sem contar aviões, tanques, viaturas militares e outros alvos destruídos no solo. No seu livro, os registros são expostos de forma mais completa, porém, isto ainda geraria muita discussão, em épocas mais recentes. Por estes feitos, recebeu a Distinguished Flying Cross (DFC), a mais alta condecoração aeronáutica inglesa, além de diversas outras, inclusive comendas americanas e francesas, como a Legião de Honra (mais tarde, recebeu do Brasil a Ordem do Mérito Santos-Dumont).

Medalha DFC

Ao final do conflito, ele comandava uma ala(wing) inteira da RAF, e tinha a função e posto de wing-commander (tenente-coronel), mas foi integrado na Armée de l’Air (Força Aérea Francesa) como primeiro-tenente, como “deferência especial”, pois sua formação fora apenas como sargento ao ingressar na atividade aérea, e ele não havia concluído o curso superior.

Isto o deixou aborrecido e ele solicitou sua desmobilização imediata da Armée de L’Air!

Em 1948, colocou partes de seu diário de guerra num livro considerado pela crítica especializada como a melhor narrativa dos combates aéreos da II Guerra, Le Grand Cirque, publicado no Brasil pela Ed. Flamboyant nos anos 60, com o título O Grande Circo. Possuo ambas as edições, a francesa e a brasileira.

O Grande Circo foi meu livro de cabeceira na adolescência. Passei bons momentos “voando” nas páginas deste livro, espiando sobre o ombro de Pierre Clostermann, enquanto ele disparava os canhões de seu potente Hawker Tempest contra os  caças Me-109 e FW-190 alemães.
Depois, Clostermann escreveu também o livro Fogo No Céu (original: Feux du Ciel) – Ed. Flamboyant -1966, onde conta episódios baseados em atividades aéreas de outros pilotos, em diversos teatros de operações aéreas da II Guerra.

Clostermann concluiu seu curso de Engenharia Aeronáutica, e ainda voltou a voar anos depois pela Armée de L’Air, na guerra contra a Argélia, o que rendeu mais um livro: Episódios da Guerra Aérea Na Argélia (Ed. Flamboyant) e além disto, teve sua patente de guerra reconhecida, sendo reformado como coronel.

Mais tarde, exerceu cargos na indústria aeronáutica, nas empresas Max Holste e na divisão francesa da Cessna Aircraft  Company. Entrou também na política e uma de suas ações, como parlamentar ligado à indústria aeronáutica francesa, foi tentar obstruir a aquisição de aeronaves brasileiras pela Armée de L’Air, na década de 80!  Assim, meu herói virou vilão! Contudo, estava defendendo os legítimos interesses do seu país!

Mas o ás francês falhou em abater os Xingus e Tucanos da EMBRAER,  usados até hoje pela Armée de L’Air!

Embraer 121 Xingu: assim como o Embraer 312F Tucano, até hoje operado pela Armée de L'Air, apesar do lobby contrário de Clostermann. (Foto: Stéphane Pichard - AIRLINERS.NET)

Touché, Pierre !

Em 2004, a editora brasileira Adler, especializada em livros e gravuras  sobre aviação, promoveu, com apoio da Força Aérea Brasileira, um encontro na França,  de Pierre Clostermann com pilotos veteranos do 1º Grupo de Caça da FAB, que também atuaram na II Guerra. Nesta ocasião, o piloto francês autografou uma série de gravuras dos aviões voados por ele, emitidas pela editora.

Pierre Clostermann

Durante a guerra das Malvinas,  ele elogiou a coragem e os feitos dos pilotos argentinos, alguns ex-alunos de seu filho, também piloto militar, com quem aprenderam a pilotar os aviões Mirage. Isto lhe custou diversos ataques por parte de alguns jornais ingleses, que questionaram suas vitórias e condecorações inglesas, obtidas na II Guerra.
Mas tudo não passou de uma série de equívocos,  usando como pretexto os critérios diferentes para classificação de “vitórias”, segundo padrões da RAF e da Armée de L’Air.
Pierre Clostermann faleceu em 22 de março de 2006 em Montesquieu-des-Albéres, na França.

Notas adicionais:

1 – Existem versões diferentes sobre o período da vida de Pierre Clostermann nos anos  compreendidos entre seu nascimento e o início da II Guerra Mundial. A versão que eu apresento é a que consta na contracapa da edição brasileira de O GRANDE CIRCO. 

2 – Sobre seu pai, a Wikipédia o menciona como diplomata, mas ele só exerceu as funções de Consul Geral da França no Brasil no pós-guerra, no período entre 16 de outubro de 1949 a 31 de maio de 1954.

3 – Na edição original  francesa do livro Le Grand Cirque, havia uma foto de um jovem oficial alemão, equivocadamente legendada como sendo do aviador e ás austríaco Walter Nowotny. Na edição brasileira de 1966, esta foto já havia sido suprimida.

4 – Sobre Walter Nowotny, nas edições que possuo, há outro equívoco, no capítulo dedicado a ele, onde são citadas as circunstâncias sobre a sua morte. Este assunto é abordado na postagem: QUEM ABATEU O ÁS NOWOTNY? (http://asteroide-leonel.blogspot.com/2010/08/quem-abateu-o-as-nowotny.html).

Até o final da guerra, esse foi o seu quadro pessoal de vitórias:

Abatidos no Ar

19 Fw-190

7 ME-109

2 Dornier 24

1 Fieseler 156

1 JU-252

1 JU-88

1 JU-290

1 Heinkel 111

Destruidos no Solo

7 JU 88

6 DO-18

4 HE-177

2 Arado 323

1 JU-252

1 Blom-Voss

72 locomotivas

5 Tanques

1 Submarino

2 Destroyers

Fontes – http://asteroide-leonel.blogspot.com/2011/07/pierre-clostermann-um-curitibano-na-raf.html

 http://www.cockpitnews.com.br/serie-ases-da-wwii—pierre-closterman-4-0150.html

AFUNDAMENTO DO “AFONSO PENA” NO ATLÂNTICO SUL

A ACADÊMICA E MÉDICA PARAIBANA EUDÉSIA VIEIRA E A SUA EXPERIÊNCIA NO AFUNDAMENTO DO “AFONSO PENA” EM 1943

Autor – Rostand Medeiros

Aos 49 anos de idade, a médica paraibana Eudésia de Carvalho Vieira, mãe de cinco filhos, realizava, em pleno período de vigência da Segunda Guerra Mundial, uma viagem de navio entre Recife e o Rio de Janeiro. Era o dia 2 de março de 1943 e este tipo de viagem estava se tornando muito perigosa devido à ação de submarinos alemães e italianos que até aquela data já haviam afundado vinte e sete navios brasileiros e levado a morte várias pessoas.

Mas a Doutora Eudésia precisava seguir para o sul do país, até porque este era o único meio de ligação eficaz entre a então Capital Federal e a Região Nordeste.

Navio de Cabotagem “Aspirante Nascimento”. O transporte marítimo era o principal meio de contato entre as capitais brasileiras. Fonte-http://www.portogente.com.br 

Segundo artigo publicado na Revista do Sindicato Nacional dos Oficiais da Marinha Mercante – SINDMAR – ANO VI – Nº 21 – Agosto/2005, na primeira metade do século passado, a principal via para movimentação de cargas e passageiros no Brasil era a marítima. Como hoje, onde 95% das mercadorias importadas e exportadas são transportadas pelo mar, apesar da Marinha Mercante brasileira ser responsável apenas por 4% desse total, o tráfego marítimo na década de 30 do século passado era muito utilizado.

A razão era simples: as rodovias, quase inexistentes na época, e as ferrovias, completamente obsoletas, dependiam de investimentos do governo. O transporte aéreo também não era muito utilizado pelo alto custo financeiro. Por isso, as comunicações se faziam ao longo da costa por meio da navegação de cabotagem e de longo curso e a nossa Marinha Mercante exercia um papel fundamental para a economia nacional.

Uma Mulher Corajosa

Já que a paraibana Eudésia de Carvalho Vieira, uma mulher disposta, corajosa e batalhadora, tinha de seguir em um navio, em meio a submarinos espreitando como lobos ferozes, ela via aquele momento como mais um outro desafio, em meio a tantos que enfrentou no seu passado.

Nascida no dia 8 de abril de 1894, na povoação de Livramento, no município de Santa Rita, fez seus estudos primários em uma escola particular na então cidade da Parahyba, atual João Pessoa. Recebeu o diploma de professora pública e iniciou a carreira do magistério dando aulas particulares. Só em 1915, através de concurso público, ingressou no magistério oficial. Casou-se em 1917, nascendo desse casamento 14 filhos, dos quais apenas cinco sobreviveram. Foi professora pública em várias escolas primárias da Paraíba e já casada, decidiu ser médica, contrariando a vontade do marido e enfrentando todos os obstáculos e preconceitos da época.

Eudésia foi à única mulher numa turma de homens a receber o grau de doutora e a primeira paraibana a conquistar o título pela Faculdade de Medicina de Recife. Na provinciana capital paraibana instalou um consultório em sua residência, a Rua Duque de Caxias, onde passou a atender e dedicar-se à sua clientela, fazendo da medicina o seu apostolado. Foi Assistente Social da Penitenciária Modelo, sendo muito querida pelos presidiários. Além de Professora e médica, atuou como jornalista e poetisa. Ingressou no Instituto Histórico e Geográfico Paraibano em 3 de junho de 1922.

Um Navio venerável

Apesar de ser um momento negativo para se encontrar no alto mar, o navio em que a paraibana Eudésia seguia era o confiável Afonso Pena.

O “Afonso Pena”

A tradicional nave fora construído em 1910 no estaleiro Workman, Clark & Co., de Belfast, na Irlanda do Norte. Foi entregue no mesmo ano a companhia de navegação Lloyd Brasileiro, sendo registrado no Rio de Janeiro e batizado como “Afonso Pena”, em homenagem ao ex-presidente brasileiro Afonso Augusto Moreira Penna.

Apesar de ter 33 anos singrando os mares, o navio era uma nave ainda respeitável. Tinha mais de 110 metros de comprimento, 15 metros de largura e quase 5 metros de calado. Fora todo construído em casco de aço, para o transporte de carga e de passageiros. Possuía um motor a vapor e podia transportar mais de 250 passageiros em três classes distintas, em várias cabines.

Havia partido dias antes de Manaus, tendo feito escalas em Belém, São Luís, Fortaleza, Recife e transportava 242 tripulantes e passageiros.

O “Afonso Pena” havia saído de Recife em um comboio escoltado por vasos de guerra. Mas desde o dia anterior a embarcação estava navegando de forma solitária e o clima de medo e apreensão no navio onde estava a Dra. Eudésia havia crescido.

Comboio

Aconteceu que o comboio se separou em duas rotas distintas, onde uma parte seguiria para Maceió e outra em direção a África do Sul. Mas o Capitão de Longo Curso da Marinha Mercante, Euclides de Almeida Basílio, alegou que iria por outra rota em direção ao Rio de Janeiro, por não conhecer aquela que o comboio seguiria. Ele era um homem experiente, veterano da Primeira Guerra Mundial e detentor da “Medalha da Vitória”, segundo consta no Diário Oficial da União, de 5 de maio de 1934, na página 6.

Falou-se que o fato de não estar mais no comboio não teria tanto problema por ser uma semana de lua nova, onde a escuridão poderia proporcionar, junto com a ordem de não acender luzes a bordo, uma maneira da nave de passageiros e carga não ser vista através do periscópio de um submersível.

Mas a atitude de seguir sozinho fez o “Afonso Pena” se tornar um alvo fácil.

O Atacante

Enquanto isso, na costa do estado da Bahia, o Regio Sommergibile “Barbarigo”, um submarino italiano da classe “Marcello”, estava espreitando o fundo do mar feito um tubarão de aço.

Torre do “Barbarigo”, mostrando desenhos com as silhuetas de navios atacados e afundados pelos italianos

Estes submersíveis eram construídos na cidade de Monfalcone, sendo considerados os melhores modelos que a marinha italiana possuía no seu inventário durante a Segunda Guerra Mundial. Foram completadas onze unidades, que podiam alcançar até 100 metros de profundidade operacional máxima, com velocidade que variava de 19 a 8.5 nós. Eram tidos como confiáveis, robustos, manobráveis e transportavam 59 toneladas de combustível, sendo por esta razão designados como submersíveis oceânicos.

Revista italiana com os feitos do “Barbarigo”

Inicialmente eram utilizadas no Mediterrâneo, depois algumas unidades foram transferidas para a base de Betasom, uma unidade de submarinos italianos em Bordeaux, França, dentro da área de ocupação alemã naquele país.

Estando atuando na Marinha da Itália (ou Regia Marina) desde 1938, a carreira do “Barbarigo” foi considerada pelos italianos positiva no desenrolar do conflito. Esta era a sua décima missão de guerra e a segunda patrulha de caça e destruição de navios aliados no Atlântico Sul, próximo a costa brasileira.

O submarino embandeirado em dia de festa

O “Barbarigo” havia saído do porto de La Pallice, na cidade francesa de La Rochelle, no dia 24 de janeiro de 1943, sob o comando do tenente Roberto Rigoli.

No dia 24 de fevereiro o submarino italiano atacou próximo ao Arquipélago de Fernando de Noronha o cargueiro espanhol “Monte Igueldo”, afundando-o. Ocorre que hidroaviões norte-americanos testemunharam o ataque do “Barbarigo” e o atacaram impiedosamente com três bombas. Estas aeronaves eram modelos Martim PBM-3 Mariner, pertencentes ao esquadrão VP-74 da Marinha dos Estados Unidos, com base em Natal, Rio Grande do Norte, mais precisamente na área da “Rampa”, no Rio Potengi.

Um Martim PBM-3 Mariner do esquadrão VP-74, da Marinha dos Estados Unidos

Por sorte o tenente Rigoli conseguiu fugir e seguiu em direção sul, onde pretendia atacar navios que estivessem na região próxima ao Arquipélago dos Abrolhos, onde seu caminho cruzaria com o do “Afonso Pena”.

Tem Início a Matança e o Heroísmo

No começo da noite do dia 2 de março de 1943, uma terça feira, a cerca de 250 quilômetros de Porto Seguro, o tenente Rigoli e sua tripulação haviam diminuído a marcha do “Barbarigo” e acompanhavam um lento navio que se deslocava a no máximo 10 nós de velocidade. O destino do “Afonso Pena” estava selado.

Dezessete dias depois do afundamento do navio brasileiro, o jornal “Poughkeepsie New Yorker”, do estado de Nova York, edição do dia 19 de março, trás na sua primeira página uma reportagem exclusiva sobre o afundamento do “Afonso Pena”. Foi a paraibana Eudésia de Carvalho Vieira quem fez um sucinto relato para este jornal sobre o terror que aconteceu no Atlântico Sul.

Tripulação do “Barbarigo” em patrulha no Atlântico Sul

Na cama de um hospital de Salvador, Eudésia afirmou que estava no seu camarote quando sentiu a vibração da nave com o impacto do torpedo. Depois escutou um forte grito de uma mulher e logo outros passageiros estavam em pânico, pois o “Afonso Pena” começou a afundar. Para ela o caminho mais rápido para fora foi através de uma vigia, através da qual foi puxada. Mas em meio ao pandemônio formado, Eudésia bateu a cabeça e sofreu um severo corte. Daí ela e seus salvadores correram ao redor do convés tentando encontrar salva-vidas, ou entrar em alguma baleeira. Ela afirmou ao jornalista que pulou no mar ao lado de uma balsa (raft, em inglês). Alguns homens já estavam no pequeno barco salva-vidas e um deles lhe colocou um pano em volta da sua cabeça, que sangrava muito.

Em busca de alvos no horizonte

Mas o triste nesta história é que, mesmo de forma lenta, o “Afonso Penna” não parou. Continuou navegando, adernando e afundando.

Segundo o artigo publicado na Revista do Sindicato Nacional dos Oficiais da Marinha Mercante – SINDMAR – ANO VI – Nº 21 – Agosto/2005, o Capitão de Longo Curso João Batista Rodrigues, anotou no Livro de Registro de Histórias da Marinha Mercante, arquivado na biblioteca do SINDMAR, que o “Afonso Pena” afundou de proa (parte dianteira do navio), a cerca de três milhas da balsa onde ele se encontrava, ou seja, a mais de cinco quilômetros e meio de distância.

Um artigo exclusivo do uniforme da tripulação do “Barbarigo”

Provavelmente as máquinas do navio não pararam após o impacto do torpedo. Havia uma ordem para no caso de uma emergência, o oficial encarregado, antes de subir, deveria parar o motor sob a sua responsabilidade, para que a hélice não colhesse náufragos ou baleeiras em caso de torpedeamento. Mas isso não foi feito e várias pessoas e balsas foram sugadas para próximo a grande hélice em movimento e estraçalhadas.

Durante o trajeto final do “Afonso Pena”, já ferido de morte, o tenente Rigoli trouxe o “Barbarigo” para a superfície e isto foi presenciado pela paraibana Eudésia.

Tenente Roberto Rigoli. Sob suas ordens o “Barbarigo” atacou o “Afonso Pena”

O radiotelegrafista do navio, Pedro Mota Cabral, de forma extremamente heroica, em nenhum momento da tragédia deixou de enviar mensagens para chamar reforços e socorro. Os italianos temendo a presença de aviões, abriram fogo com o canhão dianteiro e silenciaram a estação de rádio, matando seu operador.

Segundo o Capitão Batista, provavelmente devido ao cabo de apito ter ficado preso, o “Afonso Pena”  submergiu apitando, tal como um grito de desespero.

Salvamento em Meio a Tubarões

Nesse meio tempo o “Barbarigo” desceu para as profundezas e se foi. No meio da noite escura, ao redor do sinistro, ficaram tentando se salvar mais de uma centena de pessoas.

Documento da Marinha dos Estados Unidos, informando sobre os ataques do “Barbagiro”na costa brasileira. As datas dos afundamentos apresentadas no documento não estão corretas.

Eudésia e o Capitão Barbosa, mesmo feridos, assustados e molhados, estavam em relativa segurança nas balsas. Ao passo que muitas das 240 pessoas que estavam a bordo do “Afonso Pena” não tiveram a mesma sorte. Estes eram principalmente os passageiros da terceira classe e os foguistas do porão, que tinham alguns lances de escada para subirem e se salvarem. Entre estes se encontrava a família Duarte, de Belém do Pará. José Duarte Junior, sua esposa Maria Duarte Brandão, e seus filhos Ester, Sidônio e Guilherme, afundaram junto com o “Afonso Pena”.

A médica paraibana informou a imprensa norte-americana que viu aterrorizada a presença de tubarões próximos a concentração de balsas, que buscavam ficar juntas enquanto o mar as levava em direção a costa baiana. Eudésia também viu um casal com colete salva-vidas passar pela sua balsa, ambos mortos e abraçados.

Resgate no mar durante a Segunda Guerra Mundial

Durante dois dias eles vagaram, até que um navio-tanque da marinha norte-americana avistou alguns dos sobreviventes e passou a resgatá-los.

No momento de embarcar, ela caiu e um desconhecido oficial americano pulou na água para ajudá-la, enquanto membros da tripulação abriam fogo com rifles e metralhadoras contra tubarões que circulavam nas proximidades.

Morreram 33 tripulantes e 92 passageiros, num total de 125 pessoas. Muitas balsas que não foram resgatadas pelo navio americano conseguiram chegar as praias de Porto Seguro. Houve 117 sobreviventes.

Esquecimento

No outro dia o submarino “Barbarigo”, cujo lema era “Chi teme la morte, non è degno di vivere!” (Quem teme a morte, não é digno de viver!), conseguiu mais um tento com o afundamento do navio norte-americano S.S. Staghound, um cargueiro tipo “Liberty Ship”. Depois de três vitórias no Atlântico Sul, a nave italiana voltou para sua base.

“Barbarigo” retornando da costa brasileira

Mas sua carreira teria um fim até hoje desconhecido. Ainda em 1943, no dia 16 de julho, o submarino partiu em direção ao Japão e jamais foi visto novamente. Acreditasse que tenha sido afundado na área da Baía de Biscaia, próximo a Espanha, por ação de forças aliadas na caça de submarinos. Mas até hoje o fato não foi devidamente comprovado.

O lema do “Barbarigo”

Não consegui maiores informações sobre o Capitão João Batista Rodrigues, mas a paraibana Eudésia continuou o seu sacerdócio na medicina e desenvolvendo novos trabalhos literários, um deles narrando suas experiências no torpedeamento do “Afonso Pena” e em 1974 recebeu o título de cidadã Benemérita da Paraíba. Faleceu no dia 16 de julho de 1981, em João Pessoa .

No artigo publicado na Revista do Sindicato Nacional dos Oficiais da Marinha Mercante temos a informação que 927 pessoas morreram em navios brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial, entre tripulantes e passageiros e 21% da frota brasileira foi a pique nesse período.

O estrago só não foi pior devido ao esforço da Força Naval do Nordeste, que participou junto com a Marinha dos Estados Unidos, na proteção de 575 comboios, escoltando mais de três mil navios.

A Marinha Mercante, seus tripulantes e passageiros, foram os brasileiros que mais sofreram e tiveram o maior número de vítimas durante a Segunda Guerra, mas pouco são lembrados nos dias atuais.

Fontes:

http://en.wikipedia.org

http://bloggerdocma.blogspot.com

http://www.sindmar.org.br/

http://www.sbhe.org.br/

Livro – O Brasil na Mira de Hitler, Roberto Sander, 2007, pág 138.

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NO CAIS DOS ESQUECIDOS: O SACRIFÍCIO ANÔNIMO NA II GUERRA

AUTOR – JORGE LEÃO TEIXEIRA-Revista Problemas Brasileiros, n. 312, 1995 

Na cripta do monumento aos mortos da Segunda Guerra Mundial, erguido no Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, estão inscritos os nomes de 559 tripulantes de embarcações da marinha mercante brasileira, mortos no cumprimento do dever. Ali faltam, porém, os nomes dos 502 passageiros desaparecidos no mar, que viajavam em navios afundados por torpedeamento, colisão ou outros acidentes, em decorrência dos ataques e ameaças de submarinos alemães. No total, foram 1.061 vítimas, mais do dobro das perdas sofridas pela Força Expedicionária Brasileira na Itália.

Monumento aos mortos da Segunda Guerra Mundial, Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro

É preciso, também, não esquecer a tragédia daqueles que sobreviveram e foram testemunhas de quadros que jamais se apagaram de suas mentes, mas que apesar dessa experiência terrível voltavam a embarcar em outro navio, amparados por um misto de força moral, orgulho ferido e autodisciplina. Houve gente que sobreviveu a mais de um torpedeamento e continuou navegando até o fim do conflito, vencendo os momentos de medo e dúvida, expectativa e angústia, inevitáveis na rotina dos comboios ou nas incertezas daqueles que eram obrigados a navegar desgarrados daquela proteção.

A marinha mercante brasileira no início do último conflito era integrada, em sua maioria, por velhas embarcações, muitas das quais lançadas ao mar antes da Primeira Guerra Mundial. O Lloyd Brasileiro tinha alguns navios mistos mais modernos, para cargas e passageiros. A Companhia de Navegação Costeira, do empresário Henrique Lage, possuía a frota dos “Itas” e “Aras”, navios franceses para passageiros, com propulsão a diesel, de padrão de luxo. Além dessas empresas, a Companhia Comércio e Navegação e outros pequenos armadores exploravam o transporte de cargas entre os portos nacionais, passando a navegar para os Estados Unidos e a África com o advento da guerra.

Anúncio de chegada e partida de navios do Lloyd Brasileiro em Natal, início do século XX

Nesses navios obsoletos, as tripulações não desfrutavam do conforto oferecido pelos modernos barcos mercantes, sofrendo principalmente com o frio ou com o calor tórrido na casa de máquinas, onde penavam carvoeiros e foguistas. O pessoal das máquinas, além disso, em caso de emergência, precisava subir três escadas até o convés, devendo o oficial encarregado, antes de subir, parar a máquina sob a sua responsabilidade, para que a hélice não colhesse náufragos ou baleeiras em caso de torpedeamento.

Outros heróis eram os telegrafistas, que, ao enviar pedidos de socorro, arriscavam-se a não ter acesso às baleeiras e expunham-se ao canhoneio e metralha dos submarinos contra suas cabinas, a fim de impedir a transmissão de qualquer informação sobre a posição do submersível. 

Tensão permanente

A organização de comboios, embora aliviasse os riscos das viagens sem escolta, contando com a própria sorte, como acontecia com os navios brasileiros que se dirigiam aos Estados Unidos até meados de 1942, não implicava segurança absoluta ou eliminação das tensões com as quais conviviam as tripulações.

O inimigo

Uma das ameaças era a navegação em noites escuras, que se por um lado diminuía a possibilidade de os submarinos avistarem o comboio, por outro favorecia os abalroamentos, pois os barcos navegavam com todas as luzes externas apagadas. (A frota mercante brasileira perdeu por abalroamento em comboios seis embarcações, além de uma outra que bateu numa pedra submersa ao fugir de um submarino.)

Um episódio curioso que ocorreu com o navio “França M”, em fevereiro de 1944, ilustra esses perigos: viajando em sentido contrário a um comboio, a embarcação nele penetrou, provocando confusão e chegando a ser atacada pela corveta “Filipe Camarão”, que a confundiu com um submarino.

Comboio de navios durante a Segunda Guerra Mundial

Nas primeiras viagens dos comboios, quando os navios da escolta desconfiavam da presença de algum submarino, lançavam bombas de profundidade, que ao explodir dentro do mar levantavam grandes colunas d’água, fazendo com que as embarcações mais próximas estremecessem violentamente. A princípio assustadas, as tripulações corriam para as baleeiras, prontas para arriá-las caso os barcos fossem atingidos pelas bombas. Com o passar do tempo, porém, acostumaram-se a essas explosões, que se incorporaram à rotina de risco dos comboios.

As horas de maior suspense chegavam com o crepúsculo e o alvorecer, aliados dos submarinos, que conseguiam divisar os navios, enquanto seus afilados periscópios tornavam-se praticamente invisíveis aos olhos dos observadores. 

Tecnologia

O desenrolar da guerra assistiu a uma corrida tecnológica no mar entre Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha; os Aliados desenvolvendo equipamentos cada vez mais eficientes para proteção aos comboios e os alemães aperfeiçoando submersíveis e torpedos para superar os mecanismos de proteção dos inimigos.

Ataque

Os números traduzem o que foi essa epopéia nos mares: os alemães afundaram 2.603 navios mercantes e 175 navios de guerra, usando 1.162 submarinos, dos quais 784 ficaram fora de combate por motivos vários, tendo perdido 28 mil homens que tripulavam os seus submersíveis.

Uma vítima entre milhares durante a guerra

Os comboios também não conseguiam evitar um inimigo insidioso: os informantes da chamada “quinta-coluna”, que, até terem suas atividades desmanteladas, forneciam detalhes sobre o movimento de navios nos portos brasileiros, principalmente no nordeste. (O então secretário de Segurança de Pernambuco, Etelvino Lins, chegou a prender no Recife um espião alemão que transmitia informações sobre a saída de navios.) Navegar era preciso, mas sempre desconfiando, com navios pintados de cinza, camuflados, suspeitando-se inclusive de navios supostamente neutros (espanhóis, por exemplo), que enviavam mensagens pelo rádio para orientar os submarinos alemães. 

Ambiguidade

A posição do governo brasileiro durante a evolução da Segunda Guerra Mundial foi ambígua, retratando o choque de opiniões no círculo mais próximo ao presidente Vargas: enquanto os generais Gaspar Dutra e Góes Monteiro demonstravam velada simpatia para com a Alemanha, o chanceler Osvaldo Aranha comandava a corrente simpática aos Aliados.

Góes Monteiro (esq.) e Gaspar Dutra. Germanófilos no alto escalão do governo Vargas

Em meio ao choque dessas duas correntes, Getúlio Vargas agia como um poder moderador, ora dando linha a um grupo, ora ao outro, a fim de salvaguardar uma difícil neutralidade brasileira, e tentando tirar vantagens políticas e econômicas dos dois lados em conflito. Principalmente, procurando não abrir a guarda do Estado Novo para os grupos de postura ideológica democrática, que através do combate ao nazi-fascismo poderiam tentar minar o governo ditatorial brasileiro.

O rumo dos acontecimentos internacionais, entretanto, com o ataque a Pearl Harbour, começou a fazer a balança pender para o alinhamento com os Estados Unidos, embora continuasse a resistência de Góes e Dutra, mesmo após a recomendação da III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores, realizada no Rio de Janeiro, em janeiro de 1942, para que os países do continente americano rompessem relações com a Alemanha, Itália e Japão.

Aspecto da III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores, Rio de Janeiro, janeiro de 1942

Góes, em carta reservada a Vargas, alegaria que o país não estava aparelhado em suas forças armadas para a defesa do território nacional, advertência ratificada por Dutra, que lembrou a Vargas existir “largo espaço entre o querer e o poder”, recomendando que, sem repudiar compromissos, o país “não se aventurasse quixotescamente a uma luta provocada”.

Os adeptos do Eixo espalhavam notícias alarmantes, anunciando o bombardeamento de cidades da costa brasileira por submarinos e navios de guerra alemães, caso o Brasil rompesse relações diplomáticas com a Alemanha e a Itália. Mas a 28 de janeiro de 1942, Vargas decreta o rompimento. 

A Resposta

Até então, a navegação mercante brasileira sofrera apenas um ataque aéreo alemão – quando o “Taubaté” foi metralhado entre Chipre e Alexandria, em março de 1941, tendo um tripulante morto – além dos misteriosos desaparecimentos dos navios “Santa Clara”, no mesmo mês, em viagem inaugural de Norfolk para o Rio, e do “Cabedelo”, ambos atribuídos a torpedeamentos.

Notícia do "Jornal do Brasil" informando o ataque ao navio Taubaté

A partir de fevereiro de 1942, porém, começaram as ações intimidativas no mar, com o torpedeamento do “Buarque” na costa americana, seguido do canhoneamento também na costa americana do “Olinda”, afundado pelo U-432. Em março, foi a vez do “Arabutan”, torpedeado pelo U-155, e do “Cairu”, afundado pelo U-94. Em maio, próximo a Trinidad, soçobrava o “Parnaíba”, torpedeado e canhoneado, seguido pelo “Comandante Lira”, na costa do Ceará, afundado pelo submarino italiano “Barbarico”.

Os ataques se sucedem: o U-502 afunda o “Gonçalves Dias”, o U-156 torpedeia o “Alegrete” no Caribe, o U-203 bota a pique o “Pedrinhas” nas Antilhas, o “Tamandaré” é afundado pelo submarino comandado pelo capitão Markworth (frequentador do Café Belas-Artes, no Rio, que falava português fluentemente e interrogou o comando da embarcação brasileira). Em julho é a vez do “Barbacena”, atingido por dois torpedos do U-155, que no mesmo dia afunda o “Piave”, tendo o submarino alemão canhoneado uma baleeira com sobreviventes do “Barbacena”, num requinte de crueldade.

Kapitänleutnant Friedrich Markworth. Em 26 de julho de 1942 como comandante do U-66 afundo o navio Tamandaré

O dia 15 de agosto é negro. Entre Salvador e Maceió, o “Baependi” é afundado pelo U-507, ocasionando a morte de 55 tripulantes e 235 passageiros. O mesmo U-507 afunda também o “Araraquara” e, no dia seguinte, torpedeia o navio de passageiros “Anibal Benevolo”, entre Salvador e Aracaju. A faina sinistra prossegue no dia 17, quando outro navio de passageiros, o “Itagiba”, é torpedeado ao sul da capital baiana. E 48 horas depois, antes de regressar à Alemanha, o U-507 despediu-se do litoral brasileiro afundando a barcaça “Jacira”, de 80 toneladas, tripulada por apenas seis homens.

Korvettenkapitän Harro Schacht. Verdadeiro carrasco dos brasileiros, com um saldo mortífero de seis navios afundados. Foto fonte-http://www.uboat.net

Em nenhum dos cinco ataques do U-507 foi dada oportunidade e tempo para os passageiros e tripulantes se salvarem nas baleeiras, o que provocou um grande número de mortes. Registre-se que os navios viajavam iluminados, como em tempos de paz, ao longo da costa brasileira. 

Revolta

A sequência de torpedeamentos de embarcações de passageiros incendiou uma revolta que já atiçava a opinião pública, que no mês de julho, por ocasião de uma passeata da União Nacional de Estudantes, proibida por Filinto Müller, conseguira criar uma grave crise ministerial, pois o ministro interino da Justiça, Vasco Leitão da Cunha, entrara em choque com o poderoso chefe de polícia, Filinto Müller, autorizando a passeata e chegando a prendê-lo por desacato a autoridade. Vasco demitiu-se, mas a crise custou alguns cargos da ala governamental simpática à Alemanha: Filinto, Lourival Fontes (chefe da Casa Civil) e Francisco Campos deixaram o governo, o que fortaleceu Osvaldo Aranha e seus aliados.

Vergonhosa bajulação do jornal natalense "A Republica" a Felinto Muller em 1942. Outro germanófilo no governo Vargas, que só as mortes dos brasileiros no mar fez sair do poder

A situação política tornou-se tensa, com manifestações antinazi-fascistas em todo o país. Um grande comício no centro do Rio leva Aranha, tribuno popular excepcional, a levantar o povo, que marcha em massa até o Palácio Guanabara, munido de archotes, exigindo a declaração de guerra aos países do Eixo.

Um jornal de Nova York e o Brasil na guerra

Vargas, sentindo que não podia postergar a decisão sob pena de minar as bases do Estado Novo, decidiu assumir a liderança da reação nacional e declarou guerra a Alemanha, Itália e Japão no dia 31 de agosto de 1942. 

Última etapa

Com a entrada do Brasil na guerra e o incremento da ajuda americana, melhoraram as condições de apoio e segurança para a navegação mercante, tornando-se nossos navios mais bem artilhados, os comboios mais eficientes e a marinha de guerra brasileira mais bem equipada. Por outro lado, acirrava-se a guerra submarina do inimigo, que prosseguiria, implacável, até o último dia do conflito, sem o desânimo que tomou conta do seu exército no final da guerra.

Submarino alemão U-126 no mar. Fonte-Ariane Krause, http://www.uboat.net

Muitos náufragos de navios mercantes nacionais eram interrogados por comandantes e tripulantes dos submarinos alemães, interessados nas viagens de outras embarcações e nas cargas levadas para os Estados Unidos.

Os torpedeamentos prosseguiram: em setembro de 1942, um comboio foi atacado próximo ao rio Pará, sendo afundados o “Osório” e o “Lages”, enquanto o “Antonico” era torpedeado, dias depois, na costa da Guiana Francesa. O pequeno navio, desarmado e sem estação telegráfica, teve os náufragos metralhados covardemente pelo U-516. Em novembro, a caminho da África do Sul, o “Porto Alegre” foi afundado, o mesmo acontecendo com o “Apalóide”, que seguia para Nova York.

Fregattenkapitän Gerhard Wiebe, comandante do U-516, que afundou o navio Antonico em 28 de setembro de 1942 e ordenou o metralhamento de parte da indefesa tripulação do cargueiro brasileiro. Foto fonte-http://www.uboat.net

Em fevereiro de 1943, o “Brasilóide” foi torpedeado na costa baiana. No mês seguinte, a Quarta Esquadra Americana informava que a costa brasileira já era toda navegável, em segurança, o que não impediu o torpedeamento do “Afonso Pena”, ao largo de Maceió, em março, pelo submarino italiano “Barbarico”, que canhoneou a cabine radiotelegráfica e matou o seu indefeso ocupante. Em junho seria a vez do “Tutóia”, no litoral paulista. E no mês seguinte a do “Pelotaslóide”, a caminho de Belém, e do “Bagé”, na costa nordestina.

As últimas baixas foram registradas nos meses de setembro e outubro de 1943, quando o “Itapagé”, entre Recife e Salvador, e o “Campos”, entre Santos e Rio de Janeiro, foram afundados. O esforço para manter o abastecimento no país, que dependia então vitalmente da navegação de cabotagem, continuou enorme, embora a perda de 31 navios criasse grandes dificuldades, repercutindo com a escassez de muitos produtos. Além disso, a programação dos comboios, visando o máximo de segurança na partida dos navios, contribuía para prolongar viagens e escalas.

Heroísmo

Foram muitos os atos de bravura e estoicismo das tripulações dos nossos navios mercantes. Infelizmente é pequena a literatura a esse respeito, pois um detalhado livro do almirante Saldanha da Gama, fruto inclusive de pesquisas feitas na Europa no pós-guerra, A Marinha do Brasil na Segunda Guerra Mundial (Capemi Editora, 1982), tornou-se uma obra rara. Em 1993, porém, a editora publicou um importante livro, escrito por Herbert Campbell, ex-piloto da marinha mercante que jovem ainda passou a guerra no mar, intitulado “A Marinha Mercante na Segunda Guerra”, relato que conjuga a informação precisa com o dom da narrativa, e que nos orientou ao escrever esta reportagem.

Cargueiro Buarque. Fonte foto - http://www.uboat.net

Entre os fatos relevantes contidos nesse livro, selecionamos um que retrata o desprendimento heróico dessa brava gente: o “Cairu” era comandado pelo capitão-de-longo-curso José Moreira Pequeno, o qual, doente, pedira em Belém para ser substituído, mas ao saber do torpedeamento do “Buarque” achou injusto passar o comando a um colega em circunstâncias tão perigosas, seguindo viagem, bastante enfermo. Após o torpedeamento do “Cairu”, na baleeira apinhada, sob frio intenso, seu estado de saúde piorou. Ao amanhecer, descobriu-se que ele desaparecera silenciosamente, preferindo escolher o oceano como túmulo para não causar embaraços aos demais sobreviventes. Muitos deles morreriam congelados nas baleeiras, que foram dar à costa americana, exceto uma delas, recolhida pelo navio “Titânia”, que salvou todos os seus ocupantes. 

Patrulhas

Não foi fácil a tarefa da marinha de guerra, repentinamente obrigada a patrulhar a grande costa brasileira, em regime de guerra, procurando garantir as rotas dos navios mercantes para que o país não parasse. Os encouraçados “São Paulo” e “Minas Gerais” foram deslocados respectivamente para Recife e Salvador, servindo como fortalezas para revidar qualquer ataque inimigo. E comboios foram sendo organizados, primeiro em nosso litoral, depois até Trinidad.

Dois caça-submarinos da classe G (conhecidos como Caça Ferro) Gurupi e Grajaú, ainda com indicações da US Navy

Enquanto treinava recursos humanos e modernizava-se, ocupando inclusive a ilha de Trindade, a marinha improvisava para dar cabo de suas missões, com os “caça-paus” (navios de madeira, com 33 metros de comprimento, cuja guarnição só comia enlatados e tinha água racionada), substituídos mais tarde pelos “caça-ferros”, tipo G (“Guaporé”, “Gurupi”, etc.), que possuíam melhores condições para a caça aos submersíveis. E suas antigas corvetas, a partir de 1943, receberam o reforço de oito destróieres americanos, o que permitiu maior eficiência no patrulhamento.

      
Avião da US Navy em Parnamirim Field. Utilizado na patrulha e caça de submarinos, foram quem efetiva e operacionalmente defenderam nossas costas

A marinha de guerra também sofreu grandes baixas. Em julho de 1944 uma violenta volta do mar emborcou a corveta “Camaquã”, no litoral pernambucano, provocando a morte de 33 homens, inclusive o seu comandante, o capitão-de-corveta Gastão Monteiro Moutinho. Dois anos depois, o “Vital de Oliveira” foi torpedeado entre Vitória e o Rio de Janeiro, tendo morrido 99 homens de sua guarnição.

O Vital de Oliveira

A tragédia maior, sobretudo, ocorreria com a guerra já encerrada, a 4 de julho de 1945, com o cruzador “Bahia”, o qual recebera equipamentos eletrônicos para missão de apoio aos aviões americanos que cruzavam o Atlântico, vindos da África. A 500 quilômetros de Fernando de Noronha, um disparo casual de metralhadora atingiu uma bomba de profundidade, colocada na ré, para uso contra submarinos, provocando uma terrível explosão e destruindo toda a popa do vaso de guerra, com perda total das baleeiras e causando o rápido afundamento da belonave. Quase 300 homens que escaparam da explosão comprimiram-se em dezessete balsas, com água até a cintura, enquanto outros agarravam-se a destroços. (Cada balsa tinha apenas um reservatório de água, e esta acabara contaminada pela água do mar.) Salvaram-se apenas 36 homens da guarnição, encontrados inconscientes. Pereceram 337, inclusive o capitão-de-fragata Garcia D’Ávila Pires e Albuquerque, que comandava o “Bahia”.

Cruzador Bahia

QUANDO A ESTRELA FOI LAMPIÃO

A SAGA DO LIBANÊS BENJAMIM ABRAHÃO PARA FILMAR O REI DO CANGAÇO

E A REPERCUSSÃO NAS PÁGINAS DO “DIÁRIO DE PERNAMBUCO”

Autor – Rostand Medeiros

Nesta clássica foto vemos Benjamin Abrahão, o armado Lampião e a sua Maria Bonita ostentando uma profusão de correntes de ouro. Este instantâneo foi conseguido em uma das visitas de Abrahão ao “Rei do Cangaço”. Foto do acervo da AbaFilm, reproduzida a partir do livro “Cangaceiros”, de Élise Jasmin, página 42, 1ª edição.

No início da vida bandida de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso cangaceiro Lampião, as suas ações, os seus feitos de armas, eram basicamente conhecidos pelos sertanejos através dos cantadores, dos emboladores, das conversas dos mascates nos dias de feira.

Estes meios de divulgação tradicionais, mesmo de forma lenta, ajudaram cada vez mais a criar na população do sertão o temor e, igualmente, contribuíram na propagação do mito ao redor da figura verdadeira.

Durante certo tempo muitos sertanejos não tiveram ideia da aparência e de outros aspectos ligados à figura de Lampião. Logo surgiu na imprensa uma boa quantidade de fotografias do chefe cangaceiro e este fazia questão de se deixar reproduzir diante das câmeras. Ele não tinha a aversão que o grande cangaceiro Antônio Silvino, preso em 1914, nutria pelas lentes fotográficas. Pelo contrário, gostava tanto que até cartões com a sua foto estampada foram um dia produzidos.

Na proporção em que cresciam as suas ações e a fama do seu bando nos sertões nordestinos, a sua figura ultrapassava limites regionais e as pessoas de todas as partes passaram a ouvir falar no conhecido “Rei do Cangaço”. Mas para o público dos grandes centros terem a oportunidade de visualizarem a figura de Lampião e seu bando, em uma película cinematográfica, no interior de uma confortável sala de projeção, era algo mais complicado.

Desde que o cinema chegou ao Brasil, em 8 de julho de 1896, com a inauguração de um “omniographo” na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, o seu desenvolvimento era cada vez mais intenso. Novas salas de exibição eram inauguradas pelo país afora, onde o público consumidor desejava através das imagens, tanto o entretenimento, quanto o conhecimento dos aspectos do imenso país.

Para uma pessoa de iniciativa e coragem, a ideia de filmar Lampião e seu bando poderia gerar muita fama e dinheiro.

Somente através da iniciativa de um emigrante libanês, foi possível imagens do famoso cangaceiro e do seu bando, sendo este o único registro cinematográfico desta controversa figura.

UM HOMEM SEM FRONTEIRAS 

Benjamin Abrahão em fotografia realizada em um estúdio fotográfico pernambucano. A partir do livro “Lampião o mito”, autoria de Roberto Tapioca, 9ª edição, página 50.

Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 313 a 317), seu nome completo era Benjamin Abrahão Calil Botto, sendo originário do Líbano. Sua terra natal era Zahle, uma cidade situada na parte central deste país, no chamado Vale do Bekaa, próxima a cadeia de montanhas do Monte Líbano, em uma área extremamente fértil para agricultura e onde até hoje predomina uma população cristã.

Para alguns estudiosos ele teria vindo para o Brasil em 1910 e para outros ele aqui chegou em 1915. A razão de sua saída seria a ideia de buscar novas paragens para progredir na vida e deixar uma região então dominada pelo Império Turco Otomano desde 1517. Outra teoria aponta que a vinda de Abrahão seria uma fuga da convocação do exército que ocupava sua terra, para combater na Primeira Guerra Mundial.

Nesta época a nação libanesa ainda não havia sido oficialmente criada e os imigrantes que deixavam esta região e se dirigiam para o Brasil, eram normalmente conhecidos como “Turcos” ou “Sírios”. Apenas em 1926 foi oficialmente criada à República do Líbano, por interesses dos franceses.

Foto atual da cidade de Zahle, Líbano. Com uma população em torno de 100.000 habitantes, é a terceira maior cidade deste país, sendo bastante conhecida pela qualidade do vinho aí produzido. Coleção do autor.

Quis o destino que Benjamin Abrahão viesse para Recife, onde conseguiu um emprego de vendedor. Depois, impulsionado pelo espirito aventureiro e senso de oportunidade, foi até a cidade de Juazeiro, no interior do Ceará, onde conheceu o mítico e venerado líder religioso Padre Cícero Romão Batista.

Após os primeiros contatos com o homem considerado santo pelos romeiros que afluíam de todos os lugares do Nordeste, o libanês passou a ser conhecido na cidade como jornalista, secretário particular, fotógrafo e acompanhante do “Padim Ciço”. Existe a versão que o libanês de fala enrolada conquistou o coração do severo clérigo quando mentiu descaradamente ao afirmar ter nascido em Belém, a cidade natal de Jesus Cristo.

Para estas duas interessantes figuras este encontro foi extremamente positivo. Para o eterno cura dos desvalidos do Cariri, a figura de um secretário estrangeiro, nascido na terra de Jesus, certamente trazia respeitabilidade junto a elite local e chamava a atenção dos milhares de romeiros que vinham atrás de suas bênçãos. Já Benjamim sabia que o Padre Cícero era um líder prestigiado, sendo um porto seguro em um país desconhecido, em meio a uma Juazeiro em franco crescimento.

Era bem melhor o calor de Juazeiro, do que vestir um uniforme turco e levar um tiro dos ingleses na península de Gallipoli.

Tudo indica que o imigrante se deu muito bem nas terras do “Padim Ciço” e se entrosou perfeitamente com a sociedade local. Segundo o jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 27 de dezembro de 1936, ao apresentar o “Sírio” Abrahão, o periódico informava que o imigrante teria fundado um jornal chamado “O Cariri”.

Acervo do professor Renato Cassimiro publicado no http://www.cariricangaco.com

O FILME DO PADRE CÍCERO E O

ENCONTRO COM LAMPIÃO

O libanês esperto se encontrava em Juazeiro, quando no dia 4 de março de 1926 chega à urbe sagrada o famoso cangaceiro Lampião e todo o seu séquito.  O bandoleiro das caatingas vem a “cidade santa” para se juntar aos membros de uma força militar denominada “Batalhão Patriótico”, com a intenção de combater uma coluna de revoltosos comandados por Luís Carlos Prestes, Isidoro Dias Lopes, Siqueira Campos e outros oficiais rebelados do Exército Brasileiro contra o governo de Arthur Bernardes, então Presidente da República.

Lampião recebe uniformes, armas novas, se encontra com Padre Cícero, concede entrevistas e se deixa fotografar. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (op. cit.), a figura que coordena o assédio ao “Rei do Cangaço” não é outro se não o próprio Benjamim Abrahão. Afirma o pesquisador que a partir deste encontro surgiu uma amizade entre o libanês e o cangaceiro, bem como o germe da ideia de ser realizada uma película mostrando a vida de Lampião.

Assim o jornal recifense “A Província”, edição de 3 de junho de 1926, analisou a exibição do filme “Joaseiro do Padre Cícero”, ocorrida no dia anterior, no prestigiado Cinema São José. Coleção do autor.

Apesar do autor de “Guerreiros do sol” haver entrevistado Lauro Cabral de Oliveira, uma das pessoas que esteve com Lampião naquela ocasião para realizar entrevistas e fotografá-lo, que teve seu acesso ao cangaceiro garantido por Abrahão, acreditamos que a ideia surgiu na cabeça do libanês algum tempo antes.

Em 1925 foi produzido “Joaseiro do Padre Cícero”, um filme que buscava contar a vida e o trabalho do Padre Cícero Romão Batista. Rodado em película de 35 milímetros, a um custo de 40 contos de réis, esta obra tinha o objetivo de criar uma propaganda positiva em relação à ação política e social do padre, além de mostrar o desenvolvimento da cidade de Juazeiro. Nesta época o Padre Cícero sofria na imprensa dos grandes centros do Brasil uma feroz enxurrada de críticas e comentários negativos sobre a sua figura, a sua trajetória política e a mistificação que se criava em torno de sua pessoa.

A direção do filme coube ao cearense Adhemar Bezerra de Albuquerque e sua primeira exibição ocorreu no mesmo ano de sua produção. O local escolhido foi o Cinema Moderno, em Fortaleza, um empreendimento que foi inaugurado em 1921 e ficava na Praça do Ferreira.

Fachada do Cinema Moderno, em Fortaleza. A partir do livro “Ah, Fortaleza!”, vários autores, 1ª edição, página 143.

Depois de seu lançamento, a película foi apresentada em várias capitais brasileiras, chamando a atenção da crítica e do público. Certamente um dos que se impressionou com o sucesso da obra foi Benjamim Abrahão.

Provavelmente o diretor Adhemar Bezerra de Albuquerque, seguramente um dos principais pioneiros e expoentes do cinema cearense, que produziu muitos documentários em35 milímetros, deve ter criado laços de amizade com o libanês durante a produção deste filme e certamente o imigrante participou de alguma maneira da concretização desta produção.

A BUSCA POR LAMPIÃO

Ao longo dos anos o libanês continuou com o seu trabalho ao lado do Padre Cícero, mas em julho de 1934, aos 90 anos o seu patrão e protetor faleceu. É provável que sem maiores perspectivas ressurja na cabeça do libanês a ideia de mostrar ao mundo o cangaceiro Lampião, entrevistá-lo e conseguir assim se tornar o primeiro homem a filmar o “Grande Rei do Sertão”.

Relato de seus encontros com o bando de Lampião no jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 27 de dezembro de 1936. Coleção do autor.

No ano seguinte Abrahão busca na capital cearense um empreendedor que o ajude nesta empreitada. Este apoio surge na pessoa do velho conhecido Ademar Albuquerque, agora proprietário da empresa Aba-Film, que tinha apenas um ano de funcionamento. Ademar percebe que o libanês é suficientemente arrojado (ou maluco) para procurar Lampião no “Oco do Mundo” e se ele não morresse tentando, a distribuição deste documentário poderia render um bom dinheiro.

Percebemos que não é de hoje que a figura de Lampião alavanca negócios.

O proprietário da Aba-Film lhe cedeu uma câmera, que segundo Frederico Pernambucano de Mello (op. cit.), seria de 35 milímetros, da marca Ica. Rolos de filmagem da empresa Gevaert-Belgium, um tripé e uma câmera fotográfica desenvolvida pela empresa alemã de produtos óticos Carl Zeiss, até hoje uma conceituada marca no meio fotográfico.

Benjamim estava munido com máquinas de conhecida qualidade e portabilidade, que certamente lhe trariam um ótimo resultado visual.

Evidentemente que o imigrante libanês não seria tão louco a ponto de comentar quem o ajudou nesta empreitada. Mas seria praticamente impossível ele chegar próximo a Lampião sem a ajuda dos grandes coronéis do interior de Pernambuco. Ele teria buscado o apoio de Audálio Tenório de Albuquerque, então o todo poderoso comandante da cidade de Águas Belas e de outros coronéis da região próxima ao rio São Francisco. Esta hipótese se baseia na informação transmitida por Frederico Pernambucano de Mello, que nos seus últimos anos da vida de Lampião, teria sido o coronel Audálio Tenório uma pessoa com forte aproximação com este chefe cangaceiro. (Mello, op. cit., pág. 325).

De toda maneira Benjamim Abrahão conseguiu seu intento. No jornal Diário de Pernambuco, nas edições de 27 de dezembro de 1936 e 12 de janeiro de 1937, Abrahão relatou detalhes dos seus encontros com Lampião e seu bando.

Segundo o relato de Abrahão a jornal Diário de Pernambuco, os dois primeiros cangaceiros que ele encontrou foram Mergulhão (dir.) e Juriti (sentado a esq.). Coleção do autor.

Em narrativa franca e aberta, o libanês demonstra ao seu entrevistador, com certo orgulho, que a sua empreitada havia durado mais de um ano, precisamente 18 meses. Informava que havia passado pelos estados da Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia. Ele entrou no sertão com uma roupa de “brim azulão” e suas máquinas a tiracolo. Afirmou que passou “fome e sede”, mas trouxe “um punhado de notas suficiente para seu livro de impressões”. Aparentemente estas impressões estariam contidas em seus diários.

O contato inicial de Abrahão com o bando de Lampião, segundo suas afirmações para o Diário de Pernambuco, foi num dia bastante quente e os primeiros com quem ele esteve foram os cangaceiros Mergulhão e Juriti.

Mas o encontro teve certa tensão, pois os dois guerreiros das caatingas chegaram totalmente equipados. Ao visualizarem o estranho apontaram seus fuzis e gritaram “-Não se mexa cabra. Vai morrer” e colocaram balas nas agulhas de suas armas. Foi um momento “angustioso” para o documentarista, mas logo o ambiente serenou. Abrahão afirmou ao jornalista que lhe entrevistava que “se impressionou”, pois os dois cangaceiros já sabiam quem ele era e qual era seu objetivo.

É provável que nada disso tenha ocorrido. O Mais lógico foi que Abrahão deve ter sido guiado por uma pessoa de confiança dos coronéis da região, onde os cangaceiros já tinham conhecimento de sua chegada e que tudo estava previamente acertado.

Tanto é que sobre estes primeiros momentos junto a estes cangaceiros, Abrahão chega ao ponto de transmitir uma opinião jocosa sobre um dos seus acompanhantes armados. Este era Juriti, que ele considerou “-Um sujeito de boa aparência, tem os cabelos bons, é metido à almofadinha e gosta de luxar”.

Afirmou que teve de caminhar três quilômetros com os dois homens armados. Eles primeiramente entraram em entendimento com uma sentinela posicionado em local estratégico. Daí Mergulhão se embrenhou nos matos e desapareceu.

Voltou algum tempo depois afirmando que Lampião queria vê-lo.

AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE UM ESTRANHO MUNDO 

Quando chegou ao local onde estava o bando, após passarem por uma área de caatinga bastante fechada, todos os cangaceiros estavam de pé, menos Lampião que se encontrava encostado em um tronco, lhe observando com olhos que o libanês classificou como “indagadores”. Era hora do almoço e todos comiam carne de bode com farofa.

O capitão Virgulino veio até ele, lhe ofereceu comida e um copo com conhaque, demonstrando boas maneiras no tratamento ao estranho de fala enrolada. Lampião afirmou “-Não sei como você veio bater aqui com vida, bicho véio. Só mesmo obra de Mergulhão que é muito camarada”. Abrahão não informou ao jornalista o que achou da tirada do chefe cangaceiro.

Logo se dispôs a montar o tripé com uma das suas máquinas para dar início à seção de captação de imagens.

Nisto Lampião gritou “-Para, para”.

Ele queria ver de perto o maquinário. Queria se certificar que daquele mecanismo estranho não poderia sair uma bala. Satisfeito nas suas dúvidas, o chefe liberou o libanês para trabalhar tranquilamente.

Ele continuou captando imagens, mas em pouco tempo Lampião mandou parar a seção afirmando “-Basta. O resto fica para outra vez”.

Abrahão retrucou com Lampião, afirmando que tinha lutado muito por este momento e que queria continuar. Ao que o chefe responde taxativamente “-Quem anda comigo tem de ter paciência”.

Insatisfeito com a resposta, o imigrante voltou à carga “-E onde poderia (Lampião) ser encontrado na próxima vez?”.

“-Sou homem que não tem pouso certo. Hoje estou aqui, amanhã posso estar na Bahia, em Sergipe ou Pernambuco.”

Seja pelo fato de Abrahão ter se sentido a vontade com o “Rei do Cangaço”, ou porque era uma figura completamente maluca, mais uma vez ele continuou retrucando com Lampião. Para sua sorte este nada falou.

Depois, segundo sua narrativa, levaria quatro meses para ocorrer um segundo encontro com o bando. Por sorte este momento foi muito mais duradouro, calmo e positivo. Segundo Abrahão o local do esconderijo ficava “do outro lado do São Francisco”, a “36 léguas”. Ele só não disse de onde.

Afirmou que era um domingo, sendo este “um grande dia, pois ninguém trabalhava e se reza de manhã e no começo da noite”.

Para o imigrante os cangaceiros são muito religiosos e sobre o momento da oração ele fez interessantes observações. Um dos membros do grupo colocou um quadro do Sagrado Coração de Jesus em um tronco de arvore e Lampião, com um livro de orações, comanda a ladainha. Todos estão ajoelhados, contritos, alguns com rosários, ouvindo atentamente o chefe declamar em voz alta a prédica de um velho “adoremos”, que todos repetiam em coro.

Para o observador Abrahão “as mulheres, neste dia, vestem-se melhor, enfeitam-se mesmo”. Para ele é como se elas fossem a uma missa em alguma paróquia. O imigrante apontava que aquelas mulheres, mesmo vivendo escondidas no meio do mato, em meio às correrias e violências, pareciam querer manter de alguma maneira os mesmos hábitos da vida “civil”.

Durante o almoço todos os cangaceiros comem em grupos, uns em pé e outros sentados. Lampião, talvez por precaução, degusta a alimentação no meio de todos. Abrahão repetiu varias vezes ao repórter o quanto Lampião era desconfiado, sempre planejando mudanças de seus esconderijos.

FILMANDO OUTROS GUPOS DE CANGACEIROS E PRESENCIANDO O COMBATE DE PIRANHAS

Abrahão afirma textualmente que filmou e fotografou os grupos dos chefes Corisco, Luís Pedro, Português, Zé Sereno, Mané Moreno, Pancada, Canário e Gato. Praticamente ele teve a oportunidade de filmar todo o movimento de cangaceiros que gravitavam ao redor de Lampião. Apenas os instantâneos chegaram até os nossos dias.

Em relação ao chefe cangaceiro Gato, Abrahão afirma que estava no combate ocorrido em Piranhas, dois meses antes da entrevista ao Diário de Pernambuco e que viu este cangaceiro ferido.

Segundo a sua narrativa, ele se encontrava a cerca de meia légua (três quilômetros) de Piranhas, atravessando o Rio São Francisco, quando se deu o tiroteio e logo seguiu em direção à refrega. Afirmou que “era uma oportunidade que não poderia deixar passar”.

O primeiro combate entre os cangaceiros e os policiais ocorreu a cerca de 4 ou 5 léguas de distância da cidade, “no meio da caatinga bruta”.

A tropa volante era comandada pelo tenente João Bezerra e neste combate foi ferida e capturada a companheira de Gato, conhecida como Inacinha. Este buscou apoio de Corisco e de outros cangaceiros que circulavam na região, para invadirem a cidade de Piranhas e tentaram resgatar a cangaceira ferida. Era por volta meio dia quando um grupo de 26 cangaceiros tentou realizar o ataque, mas a cidade recebeu seus “visitantes” com forte fuzilaria.

Os cangaceiros Gato e Inacinha, fotografados por Abrahão. Acervo AbaFilm, Fortaleza. Reproduzida a partir do livro “Cangaceiros”, de Élise Jasmin, página 90, 1ª edição.

No momento em que Abrahão encontrou os cangaceiros estes já se retiravam de Piranhas. Afirma que viu o chefe Gato ainda ferido, deitado em um “sofá”. Comenta (certamente com exagero) que quando tentou entrar na cidade os defensores lhe tomaram como um cangaceiro e mandaram bala.

Segundo o pesquisador paraibano Bismarck Martins de Oliveira (in “O cangaceirismo no Nordeste”, 2ª

edição, págs. 228 e 229) o nome verdadeiro do cangaceiro Gato era Josias Vieira e era natural de Santana do Ipanema, Alagoas. Ele teria entrado no cangaço em 1922, tendo participado de inúmeras ações importantes ao lado de Lampião, era tido como um cangaceiro de extrema violência e periculosidade acentuada. Fez parte do bando de Corisco, mas depois decidiu montar seu próprio grupo. Já o pesquisador baiano Oleone Coelho Pontes (in “Lampião na Bahia”, 4 edição, pág. 329) informa que o combate se deu no dia 28 de outubro de 1936, que Gato chamou Corisco para tentaram entrar na cidade, mas a intenção era sequestrar a mulher de João Bezerra, Cira Britto Bezerra, filha do prefeito da cidade, a fim de vingar-se da captura da sua companheira.

Quanto à questão do “sofá”, realmente imaginava que naquele lugar, naquele tempo, naquelas condições de combate, um cangaceiro ferido seria normalmente transportado em uma rede. Mas como eles ainda combateram no perímetro da cidade de Piranhas e eu não tenho muito conhecimento sobre o mobiliário do sertão nordestino da década de 30 do século passado, deixo a questão em aberto.

                                  SENHORA DE BARAÇO E CUTELO DOS SERTÕES NORDESTINOS

Em relação à companheira de Lampião, de quem Abrahão em nenhum momento da reportagem declamou o nome com o qual ela seria imortalizada, ele praticamente se restringe a informar que a mesma, por razão de uma promessa, não trabalhava entre o sábado e a segunda feira. Mas Abrahão não diz qual seria este “trabalho” e a chamava de “Maria Oliveira”, ou “Maria do Capitão”.

Mas aparentemente são os jornalistas da redação do Diário de Pernambuco que se impressionam com a morena baiana.

Maria Bonita e os cachorros do bando de Lampião na primeira página do “Diário de Pernambuco”, edição de 17 de fevereiro de 1936. Para Abrahão ela não trabalhava entre os sábados e as segundas feiras. Coleção do autor.

Na edição do dia 17 de fevereiro de 1937, uma quarta-feira, como sempre na primeira página e com amplo destaque, a jovem sertaneja aparece sentada ao lado de dois cachorros que pertenciam a Lampião, um dos quais se chamava “Ligeiro”, em uma pose que foi classificada como “cinematográfica de uma Greta Garbo”. Dizia que ela era a única pessoa com “ascendência moral sobre Lampião” e que chamava a atenção até mesmo pela simplicidade.

Para os jornalistas Abrahão descreveu que a companheira de Virgulino estava “com os cabelos alisados a banha cheirosa, meias de algodão, sapatos tresé e seu vestido azul claro de linho”. Estando correta a descrição do imigrante libanês sobre a vestimenta de “Maria do Capitão”, no meio daquela caatinga cheias de espinhos, esta fina indumentária servia apenas para rezar e bater fotografias.

Chama atenção a descrição da utilidade das mulheres do bando nos combates. Abrahão informou que elas “Abrem nas caatingas cerradas os caminhos que possam fugir os cangaceiros, ante a eminencia de se verem cercados”.

Se a pose de “Maria do Capitão” na foto era simples, como o leitor deste artigo pode observar, a manchete chamava bastante atenção.

Os jornalistas passaram a comparar a companheira de Lampião com a francesa Jeanne-Antoinette Poisson, a Marquesa de Pompadour, ou como ficou mais conhecida Madame de Pompadour. Esta foi uma burguesa, nascida em Paris em 1721, que usou a sedução para conquistar um lugar entre os mais nobres e se tornar a principal amante do rei da França daquela época, Luís XV. Mas além de ser bela, sedutora e encantadora, era extremamente inteligente e se tornou decisiva na política francesa. Logo através de sua influência, conseguia audiências a embaixadores, tomava decisões sobre todas as questões ligadas à concessão de favores, de forma tão absoluta quanto qualquer monarca.

A comparação entre a cortesã francesa e a cangaceira brasileira surgiu provavelmente após Abrahão comentar e ser publicado que “os asseclas de Lampião lhe rendem as mais servis homenagens, tudo fazendo para não cair no desagrado dessa Madame Pompadour do cangaço, senhora de baraço e cutelo dos sertões nordestinos”.

Não pudemos comprovar com exatidão, mas certamente esta é a uma das primeiras grandes reportagens sobre uma jovem sertaneja chamada Maria Gomes de Oliveira. Baiana nascida em 1901, no sítio Malhada da Caiçara, que um dia encantou o “Rei dos Cangaceiros” e seria conhecida em toda parte como Maria Bonita. 

A VOLTA A “CIVILIZAÇÃO” E O SANGRENTO

FIM DE ABRAHÃO

Abrahão volta ao Recife e novas matérias são publicadas no Diário de Pernambuco, sempre com muito destaque e na primeira página. Elas informavam detalhes do encontro de Abrahão com os cangaceiros e que a sociedade pernambucana em breve teria a oportunidade de assistir nos cinemas da capital o “film” sobre Lampião.

Benjamim Abrahão aproveitava sua notoriedade.

Sobre o tamanho do rolo de filme e sua duração, não conseguimos apurar corretamente, pois o tamanho foi crescendo e diminuindo. Dependia do lugar, provavelmente do gosto dos editores, ou através de informações equivocadas de Benjamim Abrahão. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 339), em dezembro de 1936 o libanês teria entregue a Ademar Albuquerque cerca de “quinhentos metros de filme”, mas em abril do ano seguinte os jornais cearenses noticiavam que havia “mais de mil metros”. Em Recife a película esticou mais ainda. No Diário de Pernambuco, na edição de 12 de fevereiro de 1937, Abrahão afirmava que o filme tinha “2.000 metros”, que seria exibido no Rio de Janeiro e anunciava que além do filme, seria publicado um livro “com a maior e mais completa reportagem sobre Lampião”.

Relato de seus encontros com o bando de Lampião no jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 12 de fevereiro de 1937. Coleção do autor.

Mas foi a mesma atenção dispensada pela imprensa que gradativamente foi lhe criando problemas. Os jornais mostravam com destaque a façanha de um simples imigrante libanês, que havia conseguido encontrar Lampião, filmá-lo tranquilamente com o seu bando, enquanto que as forças de segurança nunca davam cabo dos cangaceiros.

No Rio de Janeiro, então capital do país, a revista “O Cruzeiro”, um dos principais veículos da imprensa brasileira da época, estampou no exemplar de 6 de março de 1937 uma manchete com cinco fotos do bando. De forma crítica afirmava que “onde os policiais falharam, Abrahão havia triunfado”.

No dia 2 de julho de 1938, no mesmo Cinema Moderno que apresentou a película sobre o padre Cícero, ocorreu à única exibição conhecida do filme de Benjamin Abrahão. A fita cinematográfica foi assistida por autoridades que se revoltaram diante do destaque dado a Lampião e seus acompanhantes. Logo os membros do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o órgão de censura do chamado Estado Novo, como ficou conhecida a ditadura comandada por Getúlio Vargas e implantada no ano anterior, apreenderam o filme.

Benjamin Abrahão tentou reverter, sem sucesso, a situação. Ele fica em uma posição difícil e parte para o interior em busca de apoio.

Em 9 de maio de 1938, na então vila de Pau Ferro (atual município pernambucano de Itaíba), a cerca de 45 quilômetros de Águas Belas, Abrahão foi morto com 42 facadas por um homem que seria deficiente físico e que trabalhava como sapateiro. A razão foi uma vingança ocorrida pelo fato do libanês ter mantido relações com a mulher deste sapateiro.

Entretanto, segundo as edições do Diário de Pernambuco de 10 e 19 de maio de 1938, ao comentar sobre a morte de Benjamin Abrahão, trazem algumas informações interessantes.

Foi divulgado que o inquérito realizado pelo delegado do 2º Distrito Policial de Águas Belas, concluiu que o assassino do imigrante libanês se chamava José Rodrigues Lins, conhecido como Zé de Ritinha ou Zé de Rita e que teria sido ajudado por uma mulher chamada Alayde Rodrigues de Siqueira. Mas as reportagens não especificavam maiores detalhes do ocorrido e nem o grau de participação desta mulher.

Para muitos pesquisadores a verdadeira razão da morte de Abrahão teria sido as insistentes cobranças que ele fazia aos coronéis da região, sobre uma pretensa ajuda financeira prometida para a realização do filme. Aparentemente, diante das recursas, ele possivelmente teria feito algum tipo de ameaça e encontrou a morte.

Certamente que em meio a um momento político onde o poder do Estado Novo estava muito forte e centralizado, onde as velhas lideranças do sertão já não possuíam a mesma desenvoltura nos círculos do poder, onde a desconfiança e o temor de perda de prestígio e de força política eram evidentes, a figura de um imigrante que sabia de muita coisa, impertinentemente exigindo dinheiro, deveria ser uma fonte de preocupação.

Seja qual for a verdadeira razão, percebemos que faltou a Benjamin Abrahão, mesmo depois de estar vivendo a cerca de vinte anos no Nordeste, uma maior percepção em relação as suas atitudes e o que elas poderiam gerar.

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A DESCOBERTA DA AUTOBIOGRAFIA DO PRIMEIRO GRANDE CRAQUE DO FUTEBOL BRASILEIRO

QUANDO PAPEL VELHO VALE MUITA COISA

Quem primeiro divulgou foi o jornalista Juca Kfouri, na sua coluna do jornal “Folha de São Paulo”. Depois a TV GLOBO divulgou no Esporte Espetacular do último domingo, da forma mais capenga que se pode imaginar.

Em todo caso é uma extremamente interessante para quem é interessado e apaixonado pela história de maneira geral.

Cesar Oliveira é um editor de livros sobre futebol e comanda um site interessante sobre o nobre esporte bretão (www.livrosdefutebol.com), consta que o mesmo herdou a biblioteca de Milton Pedrosa, o organizador da pioneira coletânea “Gol de Letra- Futebol na literatura brasileira” Lançado em 1968, este raro livro é uma primorosa seleção das melhores crônicas do futebol brasileiro, escritas por gênios como Vinicius de Moraes, Nelson Rodrigues, Sergio Porto, Fernando Sabino, Mario Filho, Carlos Heitor Cony, Armando Nogueira, Carlos Drummond de Andrade, Aparício Torelli (Barão de Itararé), Coelho Netto, Graciliano Ramos, Henrique Pongetti, José Carlos de Oliveira, José Lins do Rego, Mario de Andrade, Max Valentim, Oswald de Andrade, Paulo Rónai, Thomas Mazzoni, e outros.

Pareciam apenas papéis velhos, esquecidos, aparentemente sem valor. No meio do calhamaço, melhor, verdadeiro catatau de papéis velhos, o editor Oliveira encontrou uma pasta rosa, onde haviam 135 páginas datilografadas com o texto original e autobiográfico escrito por Arthur Friedenreich, o primeiro grande craque das massas alucinadas pelo futebol no Brasil.

Arthur Friedenreich

E não era só. No meio do material de Milton Pedrosa estavam cem fotos Arthur Friedenreich, todas inéditas, algumas com mais de cem anos, todas em perfeito estado de conservação. Tudo devidamente autorizado para publicação, com a assinatura da viúva do craque, Dona Joana Friedenreich.

Quem foi Arthur Friedenreich?

Ele foi tão somente a primeira grande lenda do futebol brasileiro.

Simples assim?

Certamente.

Arthur Friedenreich, ou El Tigre, ou Fried, como era conhecido, viveu entre 1852 e 1969, era filho de um imigrante alemão, alto, daqueles branquelos, com olho verde, com uma moreníssima brasileira, que trabalhava como empregada doméstica e era uma mulher conhecida por ser reservada.

Um dado interessante é que o craque manteve uma positiva relação com Charles Willian Miller, o inglês que trouxe o futebol ao Brasil foi um de seus mentores.

Charles Willian Miller

Segundo os textos escritos pelo próprio jogador “Fui aperfeiçoando meus recursos olhando Charles Miller, chutando a redonda sob seu olhar, que foi assim como o meu professor primário no futebol. Mas coube a Hermann Friese, que fora campeão no futebol alemão, me ensinar o secundário e o superior. Com ele, comecei a subir a ladeira e cheguei à efetivação no nível mais alto do futebol.

Herman Friese foi, junto com Miller, um dos pioneiros da criação do futebol brasileiro. Havia nascido em Hamburgo, Alemanha e falecido em São Paulo, teria sido o primeiro estrangeiro a jogar no Brasil foi juiz de futebol e técnico, sendo o primeiro treinador oficial de Friedenreich.

Herman Friese

Friedenreich foi também o primeiro grande nome da Seleção Brasileira. Em 1919, no Campeonato Sul-Americano, a atual Copa América, que foi disputada nas Laranjeiras, no estádio do Fluminense, para um público de 35.000 pessoas, quando o futebol era muito mais violento que hoje, e não havia o temido cartão vermelho.

Estádio das Laranjeiras, 29 de maio de 1919

O craque marcou o gol que valeu o primeiro título importante de nosso futebol, contra o Uruguai. Nascia ali a idolatria em torno do nome dele. Ele foi carregado pelas ruas do Rio de Janeiro e suas chuteiras ficaram expostas numa joalheria na Rua do Ouvidor, a principal do comercio carioca no início do século. Foi a primeira manifestação da massa em torno de um jogador de futebol.

Friedenreich Junto a Seleção Brasileira. Ele está agachado, ao centro

O editor César Oliveira comentou sobre este jogo que “Segundo os cronistas da época, o Uruguai batia muito no time do Brasil. Houve duas prorrogações, e as seleções jogaram 150 minutos. Friedenreich, mesmo sem dois dentes na boca, porque um uruguaio tinha acertado ele, conseguiu marcar o gol do título”.

Tesouro

Segundo César de Oliveira “Herdei da família do jornalista Milton Pedrosa, de cujos filhos sou amigo, o acervo da Editora Gol”, uma editora criada exclusivamente para lançar títulos exclusivamente sobre o futebol, mas que faliu e daí se explique o porque de  Milton Pedrosa não ter lançado este tesouro.

"El Tigre" em ação

Depois de 41 anos perdidas no acervo da família do autor de “Gol de Letra- Futebol na literatura brasileira”, esses documentos são parte da memória do futebol brasileiro. César de Oliveira  considera que estes documentos precisam e devem ser cuidadas por entidades dedicadas à preservação de iconografia histórica. Com profissionais gabaritados que cuidem delas, limpem, restaurem, preservem, arquivem, indexem e abram para consulta pública”, diz, se colocando-se aberto a negociações: “Quero ter certeza de que serão bem tratadas.”

O editor disse não acreditar que a biografia tenha sido escrita por Friedenreich, mas por um dos primeiros repórteres envolvidos com o futebol, que assinava com o pseudônimo de Paulo Várzea. “O livro tem característica de um jornalista com textos bom de ler sobre fatos do cotidiano”, afirma, confidenciando que Friedenreich é apresentado como uma criança que não gostava de ir à aula e preferia jogar bola.

Uma lenda que foi desmitificada pelo texto encontrado, dizia que Friedenreich teria feito mais de 1.300 gols em sua carreira, numa época que não havia uma divisão clara entre profissionais e amadores. Na verdade, ele marcara “apenas” 550 tentos de forma oficial. Mas, considerando os números de jogos, Arthur Friedenreich alcançou uma média de gols por partida melhor que a do próprio Pelé.

Este verdadeiro tesouro arqueológico deve se transformar em um interessante livro em pouco tempo. Mesmo sendo adorado pelo público da sua época, existem poucos registros de sua trajetória esportiva ou pessoal de Arthur Friedenreich. Por esta razão o achado do editor carioca César Oliveira se torna ainda mais raro e especial.  O editor está em busca de patrocinadores para lançar o livro em 2012, quando se comemoram os 120 anos de nascimento do jogador e pretende resguardar os originais.

Fontes

http://blogdojuca.uol.com.br/2011/07/preciosidade/

http://pt.wikipedia.org

http://globoesporte.globo.com/programas/esporte-espetacular/noticia/2011/07/tesouro-do-futebol-editor-encontra-autobiograifa-de-arthur-friedenreich.html

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