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AS FACES E OS RELATOS DAS VÍTIMAS DE LAMPIÃO NA BAHIA

A centro vemos Dona Maria Martins, a sua direita a filha que escapou da sanha dos cangaceiro e a sua esquerda está Romana, que segundo reportagem do jornal A Noite, foi estuprada por Lampião.
A centro vemos Dona Maria Martins, a sua direita a filha que escapou da sanha dos cangaceiros e a sua esquerda está Romana, que segundo reportagem do jornal A Noite, foi estuprada por Lampião. CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR.

Autor – Rostand Medeiros

Nos velhos tempos do sertão nordestino, na época do cangaço, onde quase sempre a justiça estava junto aos mais fortes e destemidos, uma família seviciada poderia ter os seus membros (principalmente mulheres) marcados pelo resto da sua existência.

Dependendo das ações hediondas praticadas e diante dos rígidos códigos morais do sertão na época, se não houvesse algum membro do grupo familiar com disposição de buscar a reparação, buscar a vingança, a chaga desta família poderia ser muito pior. Consequentemente a cortina de silêncio era ainda mais forte.

Lampião
Lampião

Para as vítimas e seus parentes continuarem tocando a vida em meio a muita dor e sangue derramado, um remédio muito comum era total negativa em comentar fatos e tentar buscar o esquecimento.

Existiram exceções. Foram os crimes mais sanguinários e bárbaros, praticados principalmente contra famílias inteiras, ou casos onde as sevícias foram tão brutais, tão hediondas, que chamaram a atenção de toda uma comunidade e agora estão registrados em muitos materiais produzidos sobre o tema.

Outras exceções foram os raros relatos produzidos por jornalistas durante o período dos conflitos, mostrando a dor daquela gente que vivia nos rincões esquecidos e distantes do Brasil.

Aqui trago um destes.

Correspondente misterioso

Nos primeiros seis meses de 1931 o Brasil ainda sofria as consequências do golpe que havia implantado um novo regime político em outubro do ano anterior. Administrativamente muitas mudanças ocorreram na estrutura e composição dos aparatos de segurança pública pelo país, tornando-os limitados por certo período de tempo em suas ações repressoras aos cangaceiros. Isso facilitou muito a vida dos bandoleiros errantes pelo sertão nordestino, principalmente o do chefe Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

A LAMP BA (2)

Neste período este grupo atuava principalmente nos sertões baianos, onde praticavam suas rotineiras rapinagens e as atrocidades não eram incomuns. Aparentemente tantos foram os acontecimentos negativos naqueles primeiros meses de 1931, que o jornal A Noite, do Rio de Janeiro, enviou um correspondente e um fotógrafo para o cenário dos acontecimentos[1].

O interessante é que, mesmo lendo várias páginas deste periódico, estranhamente não foi divulgado o nome do jornalista que realizou este trabalho. É dito apenas o apelido do fotógrafo – João Batatinha. Provavelmente por questões de segurança o nome do correspondente não foi divulgado.

“Iriam assistir uma coisa bonita…”

Os dois enviados do periódico carioca seguiram no dia 20 de abril de 1931 pela estrada carroçável que ligava as cidades baianas de Uauá e Senhor do Bonfim, passando em vários locais que anteriormente haviam sido atacados pelo bando de cangaceiros de Lampião[2].

Um dos primeiros relatos foi conseguido no lugar São Paulo, a cerca de 40 quilômetros de Uauá. Ali Lampião buscou acertar contas com Manoel José Cardoso, conhecido como “José Pequeno”[3].

A esquerda vemos o fotógrafo João Batatinha, ao centro um guia sertanejo e a direita o correspondente de A Noite, o qual não descobrimos sua identidade.
A esquerda vemos o fotógrafo João Batatinha, ao centro um guia sertanejo e a direita o correspondente de A Noite, o qual não descobrimos sua identidade.

Testemunhas comentaram que primeiramente escutaram o tropel de cavalos, seguido do som de chocalhos batendo e vozes gritando palavrões. Lampião, que estava na ocasião com óculos redondos e escuros, chegou com seus homens em galope largo, cercaram sem demora o sertanejo José Pequeno e lhe indagaram se fora ele quem de outra ocasião avisou aos policiais, ou “macacos”, a localização do bando naquele setor. Independente dos rogos de inocência do homem e de sua mulher Ana Cardoso, em meia hora eles foram despidos, amarrados e colocados no lombo de um animal sem sela.

Defronte a capelinha do pequeno arruado, Lampião mandou seus homens trazerem todos que ali moravam, debaixo de cacete se fosse necessário, para verem o que ele fazia com os traidores. Logo homens, mulheres e crianças estavam reunidos diante do casal despido e montado em um pangaré. Lampião foi logo anunciando que eles “iriam assistir uma coisa bonita…”.

A LAMP BA (1)

Ali, diante de todos, sem nenhuma cerimônia ele sangrou Manoel José Cardoso, enfiando com força seu grande punhal, até o cabo, na parte do corpo que fica entre o ombro e pescoço. Os gritos provocaram risos dos cangaceiros e choro entre os membros da pequena comuna. Segundo o correspondente, a mulher Ana Cardoso ficou louca.

Além deste espetáculo atroz, os cangaceiros mataram a tiros de pistola José Felix, que, a pedido do sangrado José Pequeno, foi a Uauá informar a polícia sobre o paradeiro de Lampião. O assassinato de Felix deixou ao desamparo mulher e larga prole de filhos. Outro que foi atacado, sendo submetido a uma série de torturas, foi o coronel João Antônio Cardoso, o mais abastardo do lugarejo[4].

A LAMP BA (3)

Na fazenda Tapuia, por volta da meia noite do dia 8 de abril, Lampião e seus homens atacam a casa de Tibério Lucas Correa. Além de trabalhar na roça para manter mulher e uma extensa família, Tibério tinha um pequeno estabelecimento comercial para atender os viajantes, onde não faltava uma cachaça “januariazinha” (aguardente produzida em Januária-MG) e cigarros. Foi tido pelo correspondente como “Um preto muito querido de todos que trafegavam pela estrada Uauá – Senhor do Bonfim”[5].

Lampião e seus cangaceiros foram logo mandando aquele sertanejo pobre abrir seu negócio e colocar uma garrafa de cachaça, que logo foi esvaziada pelos sicários. Pediram ouro e dinheiro, mas Tibério disse que nada tinha. Nesse momento a cabroeira começou a descer dos animais e o assustado negociante empreendeu uma desabalada carreira para o meio dos matos, enquanto os cangaceiros gritavam “O desgraçado está fugindo! Mata! Mata!”. Por sorte ninguém atirou!

A LAMP BA (16)

Quem teve de aguentar a fúria de Lampião e seus homens foi Dona Lúcia, a mulher de Tibério, que foi surrada a bofetadas, chicoteada e ameaçada. Lampião prometeu que na próxima vez que ali retornasse matava seu marido. Depois mandou seus comandados colocarem fogo na casa e só deixou a mulher e os outros familiares saírem a pedido de um dos seus homens, que possuía um espírito mais humanitário naquele momento de fúria gratuita.

Na ocasião da visita do correspondente e do fotógrafo João Batatinha, o desolado Tibério e seus familiares passavam o dia na casa calcinada e a noite dormiam no meio da caatinga, onde o pobre homem havia sido picado no rosto por uma lacraia e trazia a marca de mais este infortúnio[6].

“Montada, dinheiro e ouro”

Para o correspondente de A Noite, informações transmitidas por Martinho Malta, da fazenda Mucambo, assaltada no dia 9 de abril de 1931, informava que o grupo de Lampião tinha 15 componentes, sendo seu braço direito o cangaceiro Corisco e a maioria destes utilizavam principalmente roupas de mescla. Estavam todos armados de fuzis Mauser, vários portavam pistolas Parabellum, trazendo sempre duas ou três cartucheiras largas e cheias de munições. Além destes aparatos bélicos estavam presentes os característicos chapéus de couro ornamentados e os punhais, com alguns cangaceiros levando duas destas peças de cutelaria, algumas com até 65 centímetros no tamanho da lâmina.

Foi comentado ao correspondente de A Noite que os cangaceiros “Vivem sempre satisfeitos”. Em alguns momentos trafegam nas estradas fazendo algazarras, em outros seguem no mais completo silêncio. Fazem brincadeiras uns com os outros, descompõem-se, normalmente se excedem, mas mantém muito respeito pela figura do chefe Lampião[7].

Mas, apesar das brincadeiras entre os membros do grupo, o que o correspondente não deixou de ouvir naqueles ermos sertões foram informações de atrocidades praticadas pelos cangaceiros.

Fazenda Pereiro, onde estão os irmãos Francisco, João e Antônio Ferreira Barbosa e seus familiares. Surras e casas saqueadas.
Fazenda Pereiro, onde estão os irmãos Francisco, João e Antônio Ferreira Barbosa e seus familiares. Surras e casas saqueadas.

Na fazenda Pereiro (ou Pereiros) o jornalista e o fotógrafo encontram Francisco Ferreira Barbosa, conhecido como Chiquinho, também proprietário de uma bodega a beira da estrada. Este se mostrava desembaraçado e comentou abertamente os problemas e assombros causados perla presença de Lampião na região.

Narrou que eram duas da manhã do mesmo 9 de abril quando Lampião chegou. Este lhe deu boa noite secamente e foi exigindo “montada, dinheiro e ouro”. Chiquinho disse nada ter, mas Lampião falou a seus homens “Traga uma luz. Vamos ver o ouro e o dinheiro que ele está escondendo”. A mulher Alzira entregou aos celerados algumas pequenas peças de ouro, mesmo assim Lampião retirou seu punhal e passou a rasgar tudo que era de pano para encontrara algo mais.

Com o resultado negativo nas buscas os cangaceiros foram para a bodega de Chiquinho, que ficava defronte a sua casa, onde beberam muita cachaça, cerveja, quebraram louças e obrigaram o dono a tomar três xícaras de bebida.

Ainda na fazenda Pereiro atacaram as casas de João e Antônio Ferreira Barbosa, irmãos de Chiquinho, onde não deixaram de se exceder nas barbaridades. Antônio foi chicoteado no rosto impiedosamente e João foi surrado, teve a casa impiedosamente revistada e muita coisa foi quebrada.

Depois Chiquinho foi obrigado a servir de guia para os celerados. No caminho Lampião perguntou quem tinha dinheiro na região e onde ele podia encontrar uma “viúva apatacada”, uma viúva endinheirada. Logo chegam a fazenda Chumbado, onde pernoitaram e o guia improvisado volta para junto de seus familiares transidos de terror[8].

A pequena Judite de nove anos, fotografada em Senhor do Bonfim.
A pequena Judite de nove anos, fotografada em Senhor do Bonfim.

Segundo a narrativa do correspondente, outra das propriedades atacadas na região naqueles primeiros dias de abril de 1931 foi a Olho D’água, do viúvo Francisco da Costa, que estava fora e na casa estavam apenas duas crianças, a pequena Judite de nove anos e seu irmão de cinco. Esta contou que os cangaceiros mal encarados chegaram comandados por Lampião e exigiram o que ali existisse de valor. O irmão menor tentou fugir e foi detido por um cangaceiro com seu fuzil. Os cangaceiros levaram um relógio, algum ouro e uma pequena quantia em dinheiro. O correspondente encontrou as crianças aos cuidados de uma tia na cidade de Senhor do Bonfim e esta informou que Judite e o irmão estavam em “um estado nervoso de fazer dó”. O que hoje modernamente denominamos de “traumatizados”[9].

“Eu diria que ele era pai do céu, quanto mais meu!”

No dia 21 de abril vamos encontrar os dois homens do jornal A Noite seguindo pela estrada que ligava Senhor do Bonfim a fazenda Riacho Seco[10]. Quando alcançaram o lugar Caldeirão, seguiram em demanda do sítio Vargem Seca, onde deixaram o veículo. Percorreram a pé, por quatro quilômetros, até o sítio Junco, onde o proprietário Manoel do Quinto acompanhou os visitantes por mais outros quatro quilômetros, até finalmente chegarem à fazenda Passagem.

Joaquim Gomes Cardoso, sua esposa e filho diante de sua casa no lugar Passagem.
Joaquim Gomes Cardoso, sua esposa e filho diante de sua casa no lugar Passagem.

Ali souberam que os cangaceiros se apresentaram ruidosamente por volta das nove da manhã e foram direto para a casa de Joaquim Gomes Cardoso, que possuía problemas físicos desde o nascimento, que o deixou com uma diferença no tamanho de suas pernas.

Pediram ouro e dinheiro, mas Joaquim respondeu que nada tinha “por ser um pobre aleijado”. Isso nada impediu que Lampião lhe roubasse uma sela, no que Joaquim tentou demover o chefe cangaceiro do seu intento, pois não podia andar corretamente e precisava daquele material para seus deslocamentos na região em um magro jumento. O resultado foi uma terrível saraivada de chicotadas dada por um dos cangaceiros presentes.

Vaqueiro Manoel Cândido, que teve a casa invadida e a mulher igualmente estuprada pelos cangaceiros no lugar Passagem.
Vaqueiro Manoel Cândido, que teve a casa invadida e a mulher igualmente estuprada pelos cangaceiros no lugar Passagem.

Para parar a tortura naquele indefeso deficiente físico, o cangaceiro que batia disse “Se quiser que eu pare tem de chamar Lampião de papai!”. O corresponde de A Noite perguntou se Joaquim disse aquilo e sua resposta foi até engraçada – “Ora, seu moço, e quem é que não chamava? Eu diria que ele era pai do céu, quanto mais meu!”[11].

Na reportagem outras quatro casas foram visitadas na propriedade Passagem, com a mesma repetição de saques e surras.

Os dois enviados do jornal refizeram todos os oito quilômetros na volta até o veículo e seguiram para Senhor do Bonfim e de lá para a propriedade Cachoeirinha, onde uma família estava ali refugiada.

Romana, estuprada por Lampião na fazenda Passagem.
Romana, estuprada por Lampião na fazenda Passagem.

Era a família de Bertoldo Cândido dos Santos, que apresentou relatos ainda mais chocantes sobre os momentos em que os cangaceiros estiveram na fazenda Passagem.

A mulher de Bertoldo, Dona Maria Martins, contou que no dia do ataque só estava em casa a sua filha Romana, conhecida como “Bizunga”. Ela reparava uma roupa e ao ver a chegada dos cangaceiros tentou correr, mas foi impedida por Lampião que lhe apontou o fuzil e intimou-a a parar.

Na mesma hora o chefe disse a dois dos seus homens “Venham ver que coisa bonitinha tem aqui”. Mandou seus comandados tomarem conta de Romana enquanto foi averiguar o que acontecia nas outras casas da fazenda Passagem. Um dos homens ainda pensou em avançar na moça, que possuía feições bastante generosas na opinião do correspondente, mas foi impedido pelo companheiro por medo da reação do chefe.

Casa da fazenda Pontilhão do Campo do Maio, também atacada pelos cangaceiros.
Casa da fazenda Pontilhão do Campo do Maio, também atacada pelos cangaceiros.

O enviado de A Noite afirma que no retorno de Lampião a casa da jovem sertaneja, aparentemente sem maiores delongas, este partiu para cima de Romana e a estuprou. Ela ainda foi ferida a punhal por tentar se defender. Não foi informado se outros cangaceiros se aproveitaram sexualmente da jovem indefesa.

O correspondente informou que a irmã de Romana havia escapado por se encontrar fora de casa, mas em sua opinião o ataque sexual a garota havia desestruturado de tal maneira a sua família, que seu pai Bertoldo estava com características de “quem estava variando”. Ou seja, ficando louco[12].

Mas este flagelo não ficou restrito apenas a Romana. O vaqueiro Manoel Cândido, ainda aparentado de Bertoldo, teve a casa invadida e a mulher igualmente estuprada pelos cangaceiros.

O material iconográfico existente nas reportagens aponta que a atuação do bando de Lampião nos sertões baianos naqueles primeiros dias de 1931, foi principalmente o ataque a pequenas e simples propriedades e lugarejos. Talvez o número reduzido de cangaceiros não trouxesse a Lampião a devida segurança para atacar locais maiores naquele período[13].

Fogueira de ódios e de vinganças

Nesta época o jornal A Noite sempre trazia notícias relacionadas aos cangaceiros e, segundo foi publicado posteriormente, a reportagem sobre aqueles três ou quatro dias da passagem do bando de Lampião nas caatingas entre as cidades baianas de Uauá e Senhor do Bonfim obteve extrema repercussão no Rio de Janeiro. Tanto que a reportagem foi bastante ampliada na revista Noite Ilustrada, com a publicação de uma grande quantidade de fotografias[14].

O idoso que aparece na foto era conhecido na região de Senhor do Bonfim como
O idoso que aparece na foto era conhecido na região de Senhor do Bonfim como “Velho Motta”. Acreditavam que tinha entre 90 e 100 anos de idade em 1931 e que havia servido junto a Antônio Conselheiro na Guerra de Canudos. Morava na fazenda Pontilhão do Campo do Meio e nem ele escapou dos cangaceiros.

Não podemos deixar de comentar que por mais interessante que sejam estas reportagens produzidas em 1931, por mais fotografias apresentadas, não sabemos o quanto de veracidade realmente elas trazem. Não sabemos a história do profissional que foi aos locais e se as histórias transmitidas pelas pessoas entrevistadas relatavam a realidade dos fatos. Nem sabemos também o que ficou da tradição oral sobre estes episódios. Para dirimir dúvidas seria necessário mais pesquisas e um trabalho de campo.

Mas não foi apenas o periódico carioca que tratou do tema. O autor e pesquisador baiano Oleone Coelho Fontes, no seu ótimo livro Lampião na Bahia, trás um capítulo inteiro dedicado a estes ataques em abril de 1931, inclusive fazendo referência a atuação da reportagem de A Noite entre Uauá e Senhor do Bonfim e ampliando os detalhes dos ataques[15].

Oleone Coelho Fontes comenta na página 248 do seu livro Lampião na Bahia que Maria Bonita e outras cangaceiras provavelmente entraram no bando de Lampião em fins de 1930 e início de 1931. Mas nesta série de reportagens deste correspondente, nada existe sobre mulheres no grupo de bandoleiros.

Outro ponto a ressaltar, é se existiu um possível direcionamento político com esta reportagem?

Pessoalmente eu não tenho uma resposta para este questionamento. Entretanto, faziam apenas seis meses que uma nova ordem política emanava do Palácio do Catete e o revolucionário cearense Juarez Távora tinha tanto poder nos estados nordestinos, que era conhecido como “Vice-Rei do Norte”. Consta que ele desejava muitas mudanças nas relações de poder na região e tinha o apoio do então Presidente Getúlio Vargas. O certo é que em menos de dez anos os cangaceiros seriam retirados de circulação. Mas isso não acabou com a violência do campo!

A cidade baiana de Monte Santo, outro local visitado pelo correspondente de A Noite.
A cidade baiana de Monte Santo, outro local visitado pelo correspondente de A Noite.

Vale ressaltar que as reportagens produzidas pelo periódico carioca praticamente nada comentavam sobre a violência praticada pelas autoridades policiais, que existia e era tão feroz quanto à praticada pelos cangaceiros. No que ajudava a sempre manter acesa a fogueira de ódios e de vinganças que notabilizou o sangrento período do cangaço no Nordeste do Brasil.

Mesmo que os artigos publicados nas edições do jornal A Noite do mês de abril de 1931 não sejam plenamente corretos, sejam imparciais e mesmo sem saber o seu direcionamento político, ao ler este trabalho produzido há 84 anos, à única certeza que fica sobre as violências deste período é que os perdedores eram sempre os mais fracos.


REFERÊNCIAS

[1] A Noite foi um jornal vespertino criado pelo jornalista niteroiense Irineu Marinho e lançado em 18 de julho de 1911 no Rio de Janeiro. Empreendedor, Irineu Marinho vislumbrou já naquela época a ideia do conglomerado de mídia, com uma ação dinâmica no jornalismo. Em 1922, sendo seu jornal acusado de cooperar com o levante dos tenentes do Forte de Copacabana (18 do Forte), passou quatro meses preso na Ilha das Cobras (baía de Guanabara), de onde saiu com a saúde abalada. Partiu para a Europa com a família em 1924, de onde voltou para fundar, em 29 de julho de 1925, O Globo – herdado por seu primogênito, Roberto Marinho, com sua morte, em 21 de agosto, aos 49 anos. Sobre o envio do correspondente e do fotógrafo, as razões do envio destes profissionais não são comentadas.Ver – http://observatoriodaimprensa.com.br/armazem-literario/_ed723_irineu_e_o_jornalismo_no_seculo_20/

[2] Mesmo aparentemente o trajeto realizado pelos enviados do jornal em 1931 ser diferente das modernas estradas asfaltadas que ligam os dois municípios baianos, segundo o jornalista, sem maiores paradas, o trajeto por eles realizado levaria cerca de doze horas. Hoje é realizado, com tranquilidade, em duas horas e meia.

[3] Ver Jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de segunda-feira, 20 de abril de 1931, 2ª página (http://memoria.bn.br/). 

[4] Ver Jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de segunda-feira, 11 de maio de 1931, 3ª página.

[5] A cidade mineira de Januária foi um importante entreposto comercial em uma época que o Rio São Francisco permitia a navegação de grandes barcos a vapor. A aguardente de Januária passou a abastecer todo o país, sendo apreciada e elogiada pelos maiores conhecedores, tornando a cidade um sinônimo de cachaça de qualidade produzida no Brasil. O primeiro engarrafador de aguardente em Januária, segundo informações locais, foi o Sr. Abílio Magalhães em 1926 com a marca “Januária Crystal”. Em 1928 o Sr. Claudionor Carneiro lançou a marca “Januária”, que posteriormente teria seu nome alterado para “Claudionor”. Outras marcas surgiram na cidade, muitas das quais já não existem mais. Ver http://cachaca.januaria.zip.net/

[6] Ver Jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de segunda-feira, 11 de maio de 1931, 3ª página.

[7] Ver Jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de segunda-feira, 11 de maio de 1931, 3ª página.

[8] Ver Jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de terça-feira, 12 de maio de 1931, 3ª página.

[9] Ver Jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 14 de maio de 1931, 1ª página.

[10] Segundo uma das notas do jornal, a cidade de Senhor do Bomfim tinha no início da década cerca de 12.000 habitantes e apenas 23 policiais para protegê-la, sendo raras as localidades que tinham mais de 12 policiais. Ver Jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de segunda-feira, 1 de fevereiro de 1931, 1ª página.

[11] Ver Jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 14 de maio de 1931, 1ª página.

[12] Ver Jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 15 de maio de 1931, 1ª página.

[13] Vale lembrar que antes destes ataques no início do abril, Lampião evitou pela segunda vez um confronto contra os defensores da cidade baiana de Itiúba. Ver http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2010/05/itiuba-repeliu-lampiao-2-por-rubens.html

[14] Ver Jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de segunda-feira, 18 de maio de 1931, 1ª página.

[15] FONTES, Oleone Coelho. Lampião na Bahia. 4a. ed. Petrópolis : Vozes, 2001. Páginas 214 a 217.

A PRISÃO DE JUAREZ TÁVORA PELOS POTIGUARES NO PIAUÍ

Autor – Rostand Medeiros

Nos últimos dois anos, em razão da pesquisa do meu livro “João Rufino-Um visionário de fé”, estive várias vezes na cidade de São Miguel (RN).

Nesta pitoresca localidade, seguramente um dos seus principais acontecimentos históricos ocorridos durante o século XX, foi a passagem no ano de 1926 do grande grupo revolucionário que ficaria conhecido como “Coluna Prestes”.

Juarez Távora

Durante a pesquisa que realizei nos velhos jornais do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, percebi o quanto a passagem deste grupo foi marcante nos vários estados da região Nordeste onde eles estiveram. Conhecidos em sua época como “Revoltosos”, os membros deste grupo tinham como uma de suas principais lideranças um cearense chamado Juarez Távora. Este fazia parte da revolta desde o seu início, mas foi preso no Piauí. E quem o prendeu foram policiais potiguares que estavam neste estado ao lado da “legalidade”, ou do governo, para combater a “revolta”.

Lendo as páginas dos jornais antigos percebi uma história pouco conhecida.

Os Revoltosos e Juarez Távora

Sem nenhuma dúvida a Coluna Prestes foi um dos movimentos militares mais importantes da história do Brasil no século XX. Era formada por militares que tinham como objetivo derrubar do seu cargo o então presidente da República, Arthur Bernardes.

Para muitos os revoltosos buscavam a queda de Bernardes em nome da solução dos problemas sociais que afetavam a chamada República Velha. Para outros o movimento rebelde, não obstante seu espetacular deslocamento pelo interior do Brasil, no fundo não passava de uma ação conservadora e elitista, por ter sido criado no interior das academias militares do Exército Brasileiro, ambiente onde proliferava o pensamento positivista oriundo das ideias do francês Augusto Comte.

Independente desta questão, desde 1922, principalmente os tenentes do Exército conspiravam contra o governo e chegaram a realizar ações, como a Revolta do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, que foram violentamente reprimidas.

O garboso oficial Távora

Já Juarez do Nascimento Fernandes Távora nasceu na fazenda do Embargo, no município de Jaguaribemirim, atual Jaguaribe (CE), no ano de 1898. Estudou na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, graduando-se aspirante a oficial em 1919. Participa das várias revoltas militares do período. Foi preso e julgado, tendo sido condenado a três anos de prisão. Acabou perdendo sua patente no Exército e daí desertou. Participou da rebelião em São Paulo de 1924, onde morreu seu irmão Joaquim Távora. Diante da derrota neste estado Juarez segue com seus comandados em direção ao Paraná e se junta a coluna de revoltosos sob o comando do capitão Luís Carlos Prestes, que vinham do Rio Grande do Sul onde igualmente promoveram revoltas.

Luís Carlos Prestes

Com a unificação dos grupos rebeldes estes saíram a pé e a cavalo pelo país afora. Ocorreram apoios por parte da sociedade e os combatentes utilizavam a tática da “guerra em movimento”, para combater as tropas governamentais que não lhes davam trégua.

Durante o trajeto dos revoltosos o militar cearense foi um dos seus principais líderes, fazendo parte de seu Estado Maior.

Envio dos Potiguares e o Tiroteio em Flores

As forças do governo perseguiam fortemente os revoltosos. O presidente Bernardes solicitou a participação de forças de vários estados para engrossarem o combate aos homens de Prestes. Haviam forças policiais estaduais, onde se tinha a ideia que estes elementos possuíam um melhor conhecimento do terreno a ser percorrido no combate aos revoltosos. Mas no caso do então Regimento de Polícia Militar do Rio Grande do Norte, a solicitação de Bernardes ao mandatário do executivo potiguar na época, José Augusto Bezerra de Medeiros, foi de enviar um contingente da nossa polícia ao Maranhão.

Membros da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, diante do antigo quartel próximo ao centro de Natal

Segundo o jornal “A Republica”, o principal de Natal na época, as cinco da tarde do dia 14 de dezembro de 1925 partia do porto de Natal no vapor “Pará”, uma companhia composta de quase 100 homens, comandados pelo capitão Apolônio Seabra de Melo e mais cinco oficiais. Dias depois a tropa policial potiguar chegou ao Maranhão e se uniu aos homens do 29º Batalhão de Caçadores do Exército, que igualmente haviam saído de Natal. No dia 25, em plena comemoração natalina, a tropa seguiu primeiramente para Caxias e depois o seu destino foi a cidade de Flores, atual Timon, na fronteira do Piauí, próximo a Teresina.

Quando as tropas das duas instituições militares baseadas em Natal chegaram a Flores, a capital do Piauí sofria um cerco por parte dos revoltosos desde o dia 23 de dezembro e a ação das forças potiguares, juntamente com outras unidades do Exército e de policíais estaduais, era romper as linhas de Prestes.

Na noite de ano novo na pequena Flores, os policiais potiguares foram severamente atacados pelos rebeldes. No livro “História do Batalhão de Segurança”, de Rômulo C. Wanderley (1969 – págs. 60 a 69), segundo o relato do então aspeçada (patente atualmente extinta) Pedro Silvio de Moraes, em meio a uma forte chuva e trovoadas ocorreu este combate, que se prolongou até às dez horas da manhã do dia seguinte e os rebeldes chegaram a utilizar armas automáticas.

A refrega foi violenta. Do lado potiguar caiu ferido o cabo Dário Correia e morreu varado por vários balaços o 2º sargento Augusto Azevedo de Souza. Este foi postumamente promovido a 2º tenente. Neste mesmo combate, segundo uma nota publicada em “A Republica”, de 20 de janeiro de 1926, intitulada “Em defesa da legalidade”, o jovem Elias Ferreira de Mello, cabo do 29º Batalhão de Caçadores e natural da então Vila da região seridoense de Parelhas, foi promovido por bravura.

Notícia sobre a luta na cidade de Flores, hoje Timón, no Maranhão

O cerco a Teresina durou nove dias e se prolongou até 1 de janeiro de 1926.

A Prisão de Juarez Távora

Consta no livro de Rômulo C. Wanderley que após o tiroteio, Juarez Távora foi fazer um reconhecimento do terreno e teria se equivocado na direção de onde estavam seus comandados. Como consequência teria se encontrado com uma tropa legalista potiguar, comandada pelo cabo José Paulino de Medeiros. Diante da surpresa e na eminência do confronto, Távora se entregou sem resistência.

Na edição de 22 de fevereiro de 1926, o jornal recifense “A Provincia” transcreveu um artigo do padre, jornalista, escritor e membro da Academia Carioca de Letras, o cearense Assis Memória, sobre uma visita que fez ao conterrâneo Juarez Távora. Este era prisioneiro da Marinha na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro e comentou com o padre que foi detido nas margens do rio Parnaíba.

Texto do Padre Assis Memória sobre Távora

No livro “A Coluna Prestes no Piauí” (2009), o jornalista piauiense Chico Castro defende outra tese: Juarez Távora não foi capturado, ele se entregou. Para o autor, em uma entrevista a Agência Senado quando do lançamento do seu livro, comentou que “A elucidação da suposta prisão de Juarez Távora é importante porque, a partir desse episódio, a Coluna Prestes perdeu forças e, ao invés de avançar para o norte do Brasil, recuou em direção à Bolívia para o exílio. No livro eu contesto a versão do próprio Juarez, de que ele foi preso. Na verdade ele praticamente se entregou”.

Logo após sua prisão Juarez Távora foi enviado para São Luís, capital do Maranhão, para embarcar em um navio em direção a então Capital Federal, o Rio de Janeiro.

No livro Rômulo C. Wanderley, João Paulino comentou que durante o trajeto o prisioneiro se manteve imperturbável e com exceção de um copo de leite não aceitou alimento algum. Durante o trajeto o Capitão Apolônio Seabra teria conversado com Juarez, buscando demovê-lo de sua luta e voltar ao Exército. Mas este pediu ao capitão para “não estragar suas palavras”, pois ele era “um idealista” e assim morreria.

Foto pouco conhecida de Juarez Távora detido, provavelmente em São Luiz. O militar sorridente ao seu lado não foi indentificado, mas pode ser o cabo João Paulino que o deteve.

Em São Luís, o prisioneiro Távora embarcou no vapor “Rodrigues Alves”, junto com o companheiro de revolta e igualmente membro do Estado Maior revoltoso, o capitão Paulo Krugger da Cunha Cruz, capturado no Maranhão. Segundo nota do jornal recifense “A Notícia”, de 18 de janeiro de 1926, estes prisioneiros de alto valor para o Exército estavam incomunicáveis, sob escolta de militares do 21º Batalhão de Caçadores, comandados pelo capitão Leal Ferreira.

Nota sobre a passagem de Távora e Paulo Krugger por Recife

O Que Ocorreu Depois

Depois da prisão de Juarez Távora a Coluna Prestes seguiu pelo Piauí, sempre perseguidos pelas tropas legalistas. Passaram pelos municípios de Altos, Alto Longá, Campo Maior, Castelo, Piripiri, Pedro II, Valença, Oeiras, Picos, Pio IX, Simões, Jaícós e Uruçui. Depois seguiram para o Ceará e adentraram no Rio Grande do Norte pelo município de São Miguel, na sequência estiveram na cidade de Luís Gomes e seguiram para a Paraíba.

Em 1927 a Coluna Preste se dissolve depois de percorrer mais de 24.000 quilômetros. Muitos dos seus participantes, que ficaram ao lado de Luiz Carlos Prestes até o fim, conseguiram asilo político por parte do governo da Bolívia.

Depois de sua captura, Juarez Távora foi enviado ao Rio de Janeiro, onde ficou prisioneiro na ilha de Trindade e depois na ilha das Cobras. Deste local conseguiu fugir e viajou com uma identidade falsa para o Uruguai. Ele continuou na sua luta pela revolução e se dirigiu para o Nordeste. Na região começou as articulações com as forças políticas e militares, onde ele comandaria a conhecida Revolução de 30 entre os nordestinos.

À exceção de Prestes, os outros integrantes da Coluna mais tarde estariam aliados a Getúlio Dorneles Vargas, no golpe de 1930. Consta que Prestes, após receber dinheiro de Lindolfo Collor e Osvaldo Aranha para organizar forças que participariam do golpe de 1930, tomou outro caminho. Foi para Moscou, onde passou a integrar os quadros da Internacional Comunista.

Mas isso é outra história.

Ele retornou ao Brasil na ilegalidade e com identidade falsa. Aqui organizou uma tentativa fracassada de golpe comunista em 1935.

Já os policiais do Rio Grande do Norte desembarcaram em Natal, mais precisamente no Cais da Tavares de Lira, no dia 25 de fevereiro de 1926, em meio a um grande júbilo por parte das autoridades e do povo da cidade.

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