JOHN DILLINGER – CRIMINOSO SANGUINÁRIO OU O ROBIN HOOD DO SÉCULO XX?

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Em 1929 a Bolsa de Valores de Nova York quebrou, no que ficou conhecido como “Crash”, e essa complicada situação econômica empurrou os Estados Unidos para a chamada a Grande Depressão da década de 1930[1]. Muitos norte-americanos ficaram praticamente impotentes diante do desemprego, das execuções hipotecárias dos bancos, das filas dos pães e da fome. Foi quando o povo estadunidense transformou em heróis os foras da lei que tomavam o que queriam à força e proliferaram sensivelmente diante daquela crise. De todos os bandidos sinistros dessa época, certamente John Herbert Dillinger marcou essa terrível “Era dos Gangster”[2], que despertou emoções na massa a um nível raramente visto naquele país. 

John Herbert Dillinger – Fonte – https://www.wikitree.com/wiki/Dillinger-109

Dillinger, cujo nome outrora dominou as manchetes, era um ladrão notório e cruel. De setembro de 1933 a julho de 1934, ele e seu violento bando aterrorizaram várias regiões dos Estados Unidos, matando e ferindo homens, assaltando bancos, roubando arsenais da polícia e realizando mirabolantes fugas de várias prisões.

Ele e seus homens fizeram parte de uma nova geração de bandidos que dirigiam possantes veículos com motores V8, carregavam metralhadoras Thompson[3], pistolas Colt 45[4], usavam roupas finas, perfumes caros e deixaram uma marca profunda no imaginário dos Estados Unidos.

De Delinquente Juvenil a Marinheiro

John Herbert Dillinger nasceu em 22 de junho de 1903, em Indianápolis. Seu pai, John Wilson Dillinger, era dono de um pequeno armazém e proprietário de quatro casas. Sua mãe, Mollie Lancaster, faleceu quando o pequeno Johnnie tinha três anos e ele foi criado durante um tempo pela sua irmã Audrey, quatorze anos mais velha. Essa situação durou até seu pai casar novamente quando ele tinha nove anos.

Metralhadora Thompson, calibre 45, em um estojo de violino, a arma dos gangsters – Fonte https://www.firearmsnews.com/editorial/auto-ordnance-1927-a1-thompson-review/380166

O pai de Dillinger alternava entre disciplinar e mimar o filho. Batia no garoto, mas logo lhe dava dinheiro suficiente para comprar doces. Em alguns dias o pai trancava Johnnie na casa o dia todo e em outros o deixava vagar livremente pelo seu bairro até escurecer.

 Johnnie vivia se metendo em confusão. Ele liderava uma gangue de bairro chamada “Os Doze Sujos” e roubava carvão de vagões de trem. A maioria dos vizinhos não sabia das façanhas de Johnnie e o descreveram como um garoto alegre e simpático, que se vestia bem e não era mais travesso do que qualquer outro menino.

O jovem Dillinger.

Dillinger frequentemente se metia em brigas e pequenos furtos, também era conhecido por sua personalidade desconcertante e por intimidar crianças menores. Aos 16 anos, o futuro bandoleiro abandonou a escola e começou a trabalhar em uma oficina mecânica, onde se destacou. À noite ele sempre chegava tarde a sua casa, o que gerava tensão com o pai. Ele não contava ao velho Dillinger sobre suas aventuras noturnas, que incluíam bebidas, cigarros, brigas e visitas a prostitutas.

Temendo que a cidade estivesse corrompendo seu filho, em 1921 o pai de Dillinger mudou a família para a pequena e pacata cidade de Mooresville, no estado de Indiana. Ele esperava que o campo proporcionasse ao filho um ambiente saudável. Mas apesar de sua nova vida rural, o comportamento selvagem e rebelde do jovem Dillinger permaneceu inalterado. Em 1922 ele foi preso por roubo de carro e seu relacionamento com o pai se deteriorou.

O encouraçado Uss Utha – Foto – US Navy.

Em 1923, os problemas de Dillinger resultaram em seu alistamento na Marinha dos Estados Unidos, onde ele foi designado para o poderoso encouraçado USS Utah[5], onde atuava como um Bombeiro de 3ª classe, trabalhando no departamento de engenharia e era também um reparador de máquinas. Mas após seis meses do início de seu serviço militar, ele desertou quando seu navio atracou no Porto de Boston e acabou sendo dispensado desonrosamente.

O marinheiro Dillinger – Fonte – US Navy.

Após sua deserção, Dillinger retornou a Mooresville, onde conheceu Beryl Ethel Hovious e os dois se casaram em 12 de abril de 1924. Ele tinha 20 anos e ela 16.

Nove Anos Atrás das Grades

No ano seguinte, em 6 de setembro, Dillinger e seu amigo Edgar Singleton assaltaram um homem chamado Frank Morgan, no lugar Mooresville. A vítima voltava para casa com o salário semanal, quando os dois homens o atacaram. Embora Dillinger tenha espancado Morgan com um parafuso de ferro envolto em um pano, ele não se feriu gravemente.

Dillinger foi novamente preso. Seu pai o aconselhou severamente a se declarar culpado e aceitar sua punição, que acabou sendo bastante dura. O jovem foi condenado há de dez anos de prisão, mesmo sem antecedentes criminais. Singleton, que era muito mais velho e tinha antecedentes criminais, cumpriu menos de dois anos de uma sentença de catorze, tudo graças ao seu advogado.

O antigo Reformatório Estadual de Indiana, na cidade de Pendleton, Indiana, nos dias atuais – Fonte – Google.com

Dillinger então foi enviado para o Reformatório Estadual de Indiana, na cidade de Pendleton. Embora ocasionalmente fosse disciplinado com violência por sua conduta desordeira, não era considerado perigoso. Jogava no time de beisebol da prisão e trabalhava como costureiro em uma fábrica de camisas. A esposa Beryl Hovious e a família de Dillinger o visitavam com frequência. Ele escrevia bastante e suas cartas eram repletas de carinho e afeto. Pouco depois de receber uma de suas cartas, Beryl entrou com um pedido de divórcio, que obteve em 20 de junho de 1929. Anos depois Dillinger comentaria que a separação lhe destroçou por dentro e o impulsionou ainda mais para o crime.

Seu exame físico na prisão mostrou que ele tinha gonorreia, cujo tratamento na época era bastante doloroso. Ele fez amizade com outros criminosos, que ensinaram a Dillinger a ser um bandido bem-sucedido e não demorou para que ele se sobressaia na liderança e planejasse com seus amigos assaltos que cometeriam logo após serem libertados.

Somente depois de nove longos anos, em 22 de maio de 1933, foi que Dillinger recebeu liberdade condicional. Ele sentia que tinha pago a sua dívida com a sociedade ao passar a juventude na prisão. Sua família e ele próprio sempre alegaram que foi a prisão e a lei que o transformaram em um bandido. Mas, na verdade, seus antecedentes criminais antes de ir para a prisão já eram bastante graves e é evidente que o cárcere nada fez para reabilitá-lo. Nesse ponto de sua vida, Dillinger estava determinado a se tornar um assaltante de bancos profissional.

Primeiro Roubo de Um Banco e a Primeira Fuga

Faltando um dia para completar um mês de sua liberdade, Dillinger cometeu seu primeiro assalto a banco. Foi em 21 de junho de 1933, na localidade de New Carlisle, no estado de Ohio, onde roubou com dois comparsas 10.000 dólares (equivalente em janeiro de 2026 a 250.000 dólares, ou cerca de 1.350.000 reais). Tempos depois, em 14 de agosto, ele e seus asseclas assaltaram o banco de Bluffton, também em Ohio. Mas dessa vez ele foi rastreado pela polícia e capturado. Ficou preso na cadeia do Condado de Allen, na cidade de Lima, Ohio, e parecia que suas perspectivas futuras se tornaram bem complicadas!

Fotos de nove dos dez fugitivos da da Prisão Estadual de Indiana, em 22 de setembro de 1933 – Fonte – https://www.fbi.gov/services

Foi quando no dia 22 de setembro, dez de seus colegas de cárcere fugiram da Prisão Estadual de Indiana. Desses homens quem continuou mais tempo com Dillinger foram principalmente Harry Pierpont[6], Charles Makley[7], John Hamilton[8] e Russell Clark[9]. A evasão desses homens, que atiraram em dois guardas na ocasião, havia sido anteriormente arquitetada e apoiada por Dillinger. Quando eles souberam da sua prisão, decidiram resgatá-lo.

Pierpont, Clark e Makley chegaram a Lima em 12 de outubro, onde se fizeram passar por policiais do estado de Indiana, alegando que tinham vindo para extraditar Dillinger por violação da sua liberdade condicional. Quando o xerife Jess Sarber pediu suas credenciais, Pierpont rapidamente atirou duas vezes nele e o espancou até deixar o homem da lei inconsciente. Em seguida os meliantes libertaram Dillinger, trancaram a esposa do xerife e um policial em uma cela e deixaram o xerife Sarber agonizando no chão por noventa minutos até morrer.

Os quatro homens escaparam de volta para Indiana, onde se juntaram ao resto da gangue. Esse grupo de bandidos formou o que ficou conhecido como “Primeira Gangue de Dillinger”.

John Dillinger – Fonte – https://en.wikipedia.org/

Foi por essa época que o chefe do bando de assaltantes de bancos conheceu a jovem Evelyn “Billie” Frechette[10] e eles começaram um relacionamento.

Roubos, Tiros, Prisões e um Novo Robin Hood?

A quadrilha de Dillinger era muito bem armada, equipada com possantes veículos e realizaram diversos assaltos a bancos. O primeiro foi na cidade de Greencastle, Indiana, em 23 de outubro de 1933.

Dillinger aramado e perigoso, apesar do sorriso debochado.

As duas e quarenta e cinco da tarde, um grande Studebaker estacionou em uma colina ao lado do banco e quatro homens entraram: Dillinger, Pierpont, Makley e Clark. Pierpont dirigiu-se até um dos caixas para trocar uma nota de 20 dólares e quando o funcionário lhe disse para ir a outro guichê, Pierpont sacou sua metralhadora Thompson e colocou na cara do sujeito. Os outros membros da quadrilha sacaram suas armas e começaram a retirar dinheiro dos cofres. Testemunhas identificaram claramente Pierpont como o líder dos assaltantes. Cinco minutos depois, o assalto havia terminado e a quadrilha saiu sem disparar um tiro e levando 74.000 dólares em dinheiro e títulos. Eles foram tão silenciosos que ninguém na delegacia do outro lado da rua sabia o que havia acontecido.

Harry Pierpont (de camisa clara) junto a um policial de Tucson, Arizona.

No mês seguinte foi à vez de um banco em Racine, no estado de Wisconsin, quando a quadrilha feriu um caixa da agência e um segurança. Só que a polícia cercou o local e o grupo foi forçado a usar reféns como escudos humanos. Eles marcharam até seu carro e partiram com uma mulher, o presidente do banco e um policial pendurado no estribo do veículo. Alguns quarteirões depois, quando o carro entrou no trânsito, o policial foi arremessado ao solo.

Esse era John “Red” Hamilton, canadense e o companheiro de Dillinger que matou o o detetive William Shanley – Fonte – https://www.facebook.com/TheMobMad/posts/on-december-14-1933-canadian-criminal-bank-robber-active-in-the-1920s1930s-john-/1164309458665633/

Em 13 de dezembro de 1933, a gangue de Dillinger invadiu um banco de Chicago de armas na mão e esvaziaram seus cofres. Um dia depois, após John Hamilton ter deixado seu carro em uma oficina mecânica, um funcionário do lugar suspeitou que aquele veículo pertencesse a um bandido e chamou a polícia. Quando Hamilton voltou para buscar o automóvel, se deparou com o detetive William Shanley e outros dois policiais esperando para interrogá-lo. Sem pestanejar abriu fogo com sua pistola Colt 45, matando Shanley e conseguindo escapar. Esse incidente levou o Departamento de Polícia de Chicago a formar o chamado “Esquadrão Dillinger”, composto por mais de quarenta homens.

Nesse período o bando saqueou os arsenais da polícia de duas cidades, roubando várias metralhadoras, rifles, pistolas, revólveres, farta munição e coletes à prova de balas.

O “Modus Operandi” do grupo era simples e prático: Um ou dois homens visitavam um banco durante o horário comercial, memorizavam a planta interna e anotavam a distância até a delegacia de polícia mais próxima. Também percorriam a rota de fuga três ou quatro vezes, desenhavam mapas mostrando as ruas e saídas das cidades, os pontos de referência e as distâncias entre vários locais. Essas informações eram marcadas em uma carta que o “navegador” lia para o motorista. Os homens chegaram a esconder latas de gasolina em montes de feno ao longo da rota de fuga.

Em dezembro de 1933, devido à atenção indesejada gerada por seus crimes, a gangue e suas amantes tiraram longas férias em uma casa de praia em Daytona Beach, Flórida, com destaque para um churrasco de Ano Novo que culminou com Dillinger descarregando sua submetralhadora Thompson na lua à meia-noite.

Em 15 de janeiro de 1934, durante um assalto ao First National Bank, na cidade de East Chicago, Indiana, um patrulheiro chamado William Patrick O’Malley foi morto. O caso aconteceu enquanto os criminosos deixavam o local e houve uma cerrada troca de tiros contra policias. Apesar de ter sido mortalmente ferido por disparos de metralhadora efetuados por John Dillinger, o policial O’Malley conseguiu revidar os tiros antes de falecer. Já Dillinger saiu ileso, pois usava um colete à prova de balas. Tempos depois, ao comentar sobre esse episódio, Dillinger disse ao seu advogado: “Sempre me senti mal pela morte de O’Malley, mas apenas por causa de sua esposa e filhos… Ele ficou bem na minha frente e continuou atirando em mim. O que mais eu poderia fazer?” 

O First National Bank de East Chicago, Indiana. Este edifício histórico ficou tristemente conhecido por ter sido palco de um assalto do bando de John Dillinger em janeiro de 1934, quando o policial William Patrick O’Malley, foi morto a tiros do lado de fora do banco enquanto os assaltantes fugiam – Fonte – https://www.joeyblsphotography.com/photography/first-national-bank-east-chicago-1934-john-dillinger-robbery/

Em 23 (alguns dizem 25) de janeiro de 1934, em Tucson, capital do estado de Arizona, um incêndio começou no hotel onde Dillinger, Pierpont, Makley e Clark estavam escondidos com nomes falsos. Os bombeiros reconheceram os homens pelas fotografias e a polícia local os prendeu. Também foram apreendidas três metralhadoras Thompson, dois rifles Winchester, cinco coletes à prova de balas, muita munição e mais de 25.000 dólares.

Pierpont, Makley e Clark foram extraditados para Lima, Ohio, e condenados pelo assassinato do xerife Jess Sarber. Sendo Pierpont e Makley sentenciados à morte e Clark à prisão perpétua. Mas, em uma tentativa de fuga, Makley foi morto e Pierpont ficou ferido. Um mês depois Pierpont se recuperou o suficiente para ser executado na cadeira elétrica. Já Clark permaneceu preso na cidade de Columbus, Ohio, por longos trinta e quatro anos. Foi libertado condicionalmente por motivos de saúde em 14 de agosto de 1968 e morreu na véspera de Natal daquele ano, apenas quatro meses após sua libertação. Ele foi o último membro sobrevivente da gangue original de Dillinger.

Voltando a 1934, Dillinger seguiu para Indiana para responder pelo assassinato do policial William O’Malley, sendo transportado de avião, uma situação bastante incomum para a época. Como ele resistiu, a polícia teve que algemá-lo e praticamente arrastá-lo até a aeronave. Quando o acorrentaram dentro da fuselagem, ele disse: “Ora, eu não pulo dessas coisas.”

Em meio a muita bravata dita pelo chefe do bando, a mídia publicou relatos exagerados de suas ações que eletrizaram o país e acabaram descrevendo-o como homem de personalidade extravagante e uma figura do tipo Robin Hood.

Fuga Cinematográfica

Dillinger havia se tornado um herói popular entre os americanos desiludidos com a falência dos bancos, o desemprego, a fome e a ineficácia do governo federal diante da crise econômica. E a sua popularidade chegou a tal ponto que naquele ano de 1934 a empresa cinematográfica Warner Brothers lançou um cinejornal mostrando a caçada a John Dillinger. A película apresentava o idoso pai do bandoleiro, os moradores de sua cidade natal e os locais atacados pelo seu bando. O público das salas de cinema em todos os Estados Unidos aplaudia fortemente quando a imagem de Dillinger aparecia na tela e vaiavam as cenas com os agentes da lei.

Dillinger chegou à prisão de Crown Point, no estado de Indiana, em 30 de janeiro de 1934. A polícia local gabou-se nos jornais da região que a prisão era à prova de fugas e havia colocado guardas extras como precaução. No entanto, em 3 de março, um sábado, Dillinger conseguiu escapar durante os exercícios matinais com outros quinze detentos.

Dillinger sacou uma pistola e pegou os guardas de surpresa. Depois os obrigou a abrir a sua cela, se apossou de duas metralhadoras, trancou os guardas e fugiu. Conseguiu sair do local sem disparar um tiro. Durante a fuga Dillinger roubou o carro do xerife e dirigiu em direção a Chicago. Quase imediatamente começaram as especulações se a arma que Dillinger exibiu era real ou não. Os arquivos do FBI indicam que o ladrão de bvancos usou uma pistola falsa, esculpida em madeira (algumas fontes afirmam que ela foi esculpida em uma barra de sabão e escurecida com graxa de sapato). Foi então o Governo Federal entrou na caçada. 

Armas do bando de Dillinger capturada pela polícia.

Em resposta a situação, J. Edgar Hoover, um administrador da área de segurança pública, usou Dillinger como justificativa para criar o Federal Bureau of Investigation, ou FBI, defendendo a adoção de técnicas de investigação mais sofisticadas contra o crime organizado. Logo o novo órgão governamental organizou uma caçada humana em todo o país para capturá-lo. Enquanto tudo isso se desenrolava, poucas horas após sua fuga Dillinger se reencontrou com sua namorada Evelyn “Billie” Frechette e aproveitou muitas noites de amor.

Na sequência Dillinger se juntou a John Hamilton e conseguiram reunir um grupo de marginais para formar a “Segunda Gangue de Dillinger”. Esta era composta por Lester Joseph Gillis, conhecido no mundo do crime como “Baby Face Nelson”[11], Homer Van Meter[12], Tommy Carroll[13] e Eddie Green[14].

O perigoso Lester Joseph Gillis, o “Baby Face Nelson”.

Em 6 de março eles assaltaram o Security National Bank & Trust Company, na cidade de Sioux Falls, estado da Dakota do Sul. Uma semana depois foi a vez do First National Bank, em Mason City, Iowa. No primeiro assalto um policial chamado Hale Keith foi gravemente ferido quando Baby Face Nelson descarregou uma rajada de balas de sua metralhadora Thompson através de uma vitrine. Já no assalto em Mason City, Hamilton foi ferido no ombro por um juiz idoso do outro lado da rua, que também conseguiu ferir Dillinger.

Na sequência foi em busca da sua namorada Evelyn Frechette.

Tiroteio na Porta do Apartamento 303

Em 19 de março de 1934, Dillinger e sua namorada se hospedaram no apartamento 303, de um edifício chamado Lincoln Court, em St. Paul, capital do estado de Minnesota[15]. A ideia era que Dillinger pudesse se recuperar dos ferimentos à bala sofridos durante um assalto a banco em Mason City. Eles se registraram como Sr. e Sra. Carl P. Hellman, mas mesmo assim conseguiram despertar as suspeitas da proprietária do prédio, que buscou o FBI.

Evelyn “Billie” Frechette

Os agentes federais Rufus Coulter e Rosser Nalls, com o apoio do detetive Henry Cummings, da polícia de St. Paul, vigiaram o apartamento durante a noite de 30 de março. Na ,manhã seguinte, por volta das dez e quinze, o agente Coulter e o detetive Cummings bateram à porta do apartamento 303, enquanto o agente Nalls aguardava do lado de fora do prédio. Ao abrir a porta, Frechette distraiu os policiais e de alguma forma alertou Dillinger sobre a presença deles. Enquanto isso, de maneira surpreendente, Homer Van Meter acabava de chegar ao Edifício Lincoln Court em um Ford cupê verde. Ele seguiu para o apartamento 303 e se deparou com os policiais. Ao ser questionado quem era, disse que era um vendedor de sabonetes e conseguiu convencer Coulter a ir até o primeiro andar para lhe mostrar seus produtos, só que em dado momento abriu fogo contra o agente da lei com uma pistola. Coulter não foi atingido e correu para frente do prédio, enquanto revidava os disparos, sendo perseguido por Van Meter. Nalls se juntou ao tiroteio e Van Meter recuou para dentro do prédio.

Situação atual do edifício Lincoln Court, em St. Paul, capital do estado de Minnesota – Fonte – https://www.facebook.com/photo/?fbid=461902942626803&set=a.461902909293473

Quase ao mesmo tempo, em meio a essa balaceira toda, dentro do apartamento Frechette implorou a Dillinger que não atirasse, mas ele não escutou. O chefe do bando abriu uma fresta na porta do apartamento 303 e disparou para o corredor uma saraivada de balas com sua metralhadora. Mas o detetive Cummings se abrigou e conseguiu revidar, atingindo Dillinger na perna. Dillinger e Frechette então fugiram pela porta dos fundos do Edifício Lincoln Court.

Frechette deu ré em um sedã Hudson preto para fora de uma garagem, Dillinger entrou e os dois fugiram. Enquanto isso, Van Meter tomou o cavalo de um coletor de lixo, disfarçou-se com o boné do lixeiro e galopou para longe. Nenhum dos policiais ficou ferido no tiroteio.

Naquela mesma manhã, Dillinger e Frechette apareceram na porta dos fundos da clínica do Dr. Clayton E. May, no número 1835 da Avenida Park, em Minneapolis. A bala que atingiu Dillinger atravessou sua perna e May tratou Dillinger durante os quatro dias seguintes, aplicando injeções de soro antitetânico e enfaixando o ferimento. No dia 4 de maio, Dillinger e Frechette saíram da clínica do Dr. May no mesmo Hudson em que haviam chegado.

Tiroteio no Resort

O resort Little Bohemia na época do tiroteio – Fonte – https://housecrazysarah.life/little-bohemia-lodge-in-wisconsin-john-dillinger-slept-here/

De 5 a 8 de abril de 1934, Dillinger e Frechette visitaram a família dele em Mooresville. O encontro foi alegre e incluiu um jantar de domingo. No dia seguinte, Dillinger e Frechette dirigiram-se a Chicago. Na tarde seguinte, segunda-feira, 9 de abril, Dillinger tinha um encontro em uma taverna na parte norte da cidade, a duas quadras do Rio Chicago. Pressentindo problemas, Frechette entrou primeiro e seu namorado ficou esperando no carro. Ela foi prontamente presa por agentes, mas se recusou a revelar o paradeiro de Dillinger. Ao perceber a movimentação ele partiu sem ser notado e os dois nunca mais se viram.

Carro metralhado pela polícia no no resort Little Bohemia.

Agora Dillinger e seu bando eram alvos de uma enorme caçada humana e de uma forte campanha midiática para capturá-los. A gangue então refugiou-se no resort Little Bohemia, perto de Rhinelander, Wisconsin. Em 22 de abril o local foi alvo de uma operação do FBI sob a direção do agente federal Melvin Purvis[16], que recebeu uma denúncia do dono do resort. Mas a operação não ocorreu como planejado: os homens da lei abriram fogo por engano contra um carro que continha três funcionários do local e um foi morto e os outros dois ficaram gravemente feridos.

Dillinger, Hamilton, Van Meter e Tommy Carroll escaparam pela parte de trás da pousada, saltando de uma janela do segundo andar para um monte de neve congelada e então correram ao longo da margem de um lago. eventualmente Dillinger, Hamilton e Van Meter roubaram um carro de um carpinteiro a meio quilômetro a noroeste do resort.

O resort Little Bohemia ainda existe, recebe hóspedes e em vários locais do estabelecimento existem marcas do pesado tiroteio ali ocorrido em 22 de abril de 1934 – Fonte – https://housecrazysarah.life/little-bohemia-lodge-in-wisconsin-john-dillinger-slept-here/

Um dia depois, em 23 de abril, Hamilton, Dillinger e Homer Van Meter foram novamente confrontados pelas autoridades e outro tiroteio ocorreu. Hamilton foi mortalmente ferido por uma bala, enquanto todos escaparam em um carro. Dillinger então escondeu Hamilton, já moribundo, na casa de amigos e ele morreu em 26 de abril. Dillinger e o dono da casa enterraram Hamilton e o chefe do bando teria coberto o rosto e as mãos de Hamilton com soda cáustica para dificultar qualquer tentativa posterior de identificação do corpo.

Devido à sua fama, a vida estava se tornando cada vez mais difícil para Dillinger. Ele e Van Meter se submeteram a cirurgias plásticas em 27 de maio, realizada por um médico ligado a bandidagem. O procedimento aconteceu na casa de Jimmy Probasco, dono de um bar com ligações com o Sindicato do Crime de Chicago. Os dois passaram o mês seguinte se recuperando na casa de Probasco.

Morte na Saída do Cinema

No dia do seu 31º aniversário, 22 de junho de 1934, Dillinger foi declarado o primeiro Inimigo Público Número Um dos Estados Unidos, o primeiro a ter essa distinção. No dia seguinte, o governo federal prometeu uma recompensa de 10.000 dólares pela sua captura e uma recompensa de 5.000 dólares por informações que levassem à sua prisão.

Ainda em Chicago no início de julho, o chefe da gang de ladrões de bancos buscou refúgio junto a uma cafetina conhecida como Anna Sage. Nesse período uma antiga prostituta que havia trabalhado no bordel de Sage e chamada Rita “Polly” Hamilton, se tornou amante de Dillinger.

Anna Sege.

O que Dillinger não sabia era que Anna Sage enfrentava um processo de deportação por administrar um bordel. Nascida na Romênia como Ana Ivanova Akalieva, se tornou Ana Cumpăna (ou Cumpăaș) após se casar no seu país de origem. Logo se separou e imigrou para os Estados Unidos, onde adotou o nome de Anna Sage. A cafetina então decidiu entregar Dillinger ao FBI em troca de dinheiro da recompensa e de sua permanência nos Estados Unidos.

Em 22 de julho de 1934, Dillinger convidou Sage e Polly Hamilton para assistir o filme “Manhattan Melodrama”, cujos atores eram Clark Gable, Myrna Loy e William Powell. A exibição seria há noite no Biograph Theater, na zona norte da cidade. Antes de partirem, Sage deu a desculpa que precisava ir a um açougue comprar uma carne e lá conseguiu ligar para os policiais. Passou todas as informações sobre os planos de Dillinger para aquela noite.

Fotografia do Biograph Theater tirada em 28 de julho de 1934, seis dias após o tiroteio – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/John_Dillinger#/media/File:BiographFBI1934.jpg

Uma equipe de agentes federais e policiais de forças policiais de fora de Chicago foi formada, juntamente com um número muito pequeno de policiais locais. Nessa época as autoridades federais acreditavam que o Departamento de Polícia de Chicago era completamente corrupto e não confiável.

Quando o filme terminou, Dillinger saiu do cinema entre Sage e Hamilton. A visualização do pequeno grupo ficou fácil porque Anna Sage vestia uma saia de cor laranja, que os jornais depois afirmaram ser vermelha e por isso Sage entrou para a história como a fatal “Mulher de Vermelho”.

O agente federal Melvin Purvis ficou junto à porta da frente e sinalizou a saída de Dillinger acendendo um charuto. Tanto ele como os outros agentes relataram que Dillinger virou a cabeça e olhou diretamente para Purvis enquanto passava, olhou para o outro lado da rua e depois ultrapassou as suas acompanhantes.

A multidão no Biograph Theater de Chicago em 22 de julho de 1934, pouco depois de Dillinger ter sido morto ali por agentes – Fonte – https://en.wikipedia.org/

Em seguida colocou a mão no bolso, mas não conseguiu sacar o seu Colt M1903, calibre .380, e correu para um beco próximo. Outros relatos afirmaram que ele ignorou uma ordem para se render, sacou a arma e dirigiu-se para o beco. O certo é que os policiais Clarence Hurt, Charles Winstead e Herman Hollis perseguiram Dillinger até o beco e abriram fogo com suas pistolas. Hurt atirou duas vezes, Winstead três vezes e Hollis uma vez. Dillinger foi atingido por trás e caiu de bruços no chão.

Logo o circo de horrores começou: Houve relatos de pessoas mergulhando na poça de sangue que se formou seus jornais, lenços e até saias, como forma de guardar uma lembrança rubra daquela noite. E houve mais horrores: No necrotério o corpo de Dillinger ficou disponível para exibição pública e estima-se que umas 15.000 pessoas viram o cadáver durante um dia e meio. Até quatro máscaras mortuárias do seu rosto também foram feitas.

Cadáver de John Dillinger.

Segundo o FBI, esse gangster, que viveu 31 anos, foi acusado de roubar vinte e quatro bancos, quatro delegacias de polícia, de matar dez pessoas durante seus assaltos, inclusive o policial William O’Malley. A família de Dillinger lhe deu um enterro cristão em 25 de julho de 1934, sendo sepultado no jazigo da família no Cemitério Crown Hill, em Indianápolis.

Embora Dillinger nunca tenha se arrependido de seus crimes, ele não tinha ilusões sobre sua situação. Comentou uma vez: “Estou numa estrada sem volta e não me iludo quanto ao meu fim. Se eu me render, sei que significa a cadeira elétrica. Se eu continuar, é apenas uma questão de quanto tempo me resta.


NOTAS ——————————————————————————————————————————————————


[1] A quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, frequentemente conhecida como “Quinta-feira Negra” (24 de outubro) e “Terça-feira Negra” (29 de outubro), marcou o colapso dramático da Bolsa de Valores de Nova York, desencadeando a Grande Depressão, levando ao desemprego em massa, falências bancárias e pobreza, e sinalizando o fim dos Loucos Anos da década de 1920. A venda em pânico em massa fez com que os preços das ações despencassem, arruinando inúmeros investidores e dando início a uma recessão global que levou anos para ser superada. Como consequência milhões de pessoas perderam suas economias, empresas faliram e a produção industrial entrou em colapso, levando a uma grave crise econômica global.

[2] Os Gangsters eram (e são) membros de organizações criminosas que frequentemente atuavam nos Estados Unidos nas décadas de 1920 e 30, mas que existem hoje em formas como o crime organizado em várias partes do mundo e estão envolvidos com tráfico de drogas, extorsão, prostituição e lavagem de dinheiro. Eles operavam (e operam) por meio de violência, intimidação e corrupção, muitas vezes utilizando estruturas familiares (caso da Máfia) ou redes étnicas para conduzir seus negócios ilegais e consolidar seu poder.

[3] A submetralhadora Thompson (frequentemente chamada de “Tommy Gun”) era uma arma norte-americana icônica, desenvolvida por John Taliaferro Thompson, principalmente no calibre 45 ACP (Automatic Colt Pistol). Ela ganhou destaque durante as década de 1920 e 30 como “armas de gângsteres” e foi amplamente utilizada pelos Aliados na Segunda Guerra Mundial, sendo os modelos de 1928 e M1A1 os mais conhecidos. Fabricada nos Estados Unidos principalmente pela Auto-Ordnance Corporation, era renomada por sua confiabilidade, mas também por seu peso e tamanho.

[4] A lendária pistola Colt M1911 norte-americana, em calibre 45 foi projetada por John Moses Browning e adotada como arma padrão das Forças Armadas dos Estados Unidos em 1911, permanecendo em serviço até 1985. É considerada uma arma icônica e conhecida por sua robustez e poder de parada.

[5] O USS Utah (BB-31) era um navio de guerra da classe Flórida, comissionado em 1911, que escoltou comboios na Primeira Guerra Mundial e foi posteriormente convertido em navio de treinamento antiaéreo. Foi destruído no dia 7 de dezembro de 1941, durante o ataque aéreo japonês a base naval americana de Pearl Harbor, quando foi atingido por dois torpedos, emborcando e afundando com a perda de 58 homens. Seus destroços agora servem como memorial.

[6] Harry “Pete” Pierpont (13 de outubro de 1902 – 17 de outubro de 1934) foi um assassino condenado, assaltante de bancos e tido como amigo e mentor de John Dillinger. Foi descrito como bonito e de voz suave, com mais de 1,80 m de altura, cabelo castanho claro e olhos azuis. Era considerado um líder brilhante, extremamente leal e nato. Tinha a reputação de cuidar daqueles ao seu redor e de não dedurar seus amigos. Pierpont era o colega de prisão que Dillinger mais admirava. Detestava publicidade e se contentava em deixar que outros, especialmente Dillinger, levassem o crédito pelos ousados assaltos a bancos cometidos.

[7] Charles Omer Makley (24 de novembro de 1889 – 22 de setembro de 1934), também conhecido como Charles McGray e Fat (Gordo) Charles. Makley foi identificado pelo FBI como um dos membros principais da gangue de Dillinger, participou de inúmeros assaltos a bancos e as autoridades policiais o consideravam uma figura-chave nas operações da gangue.

[8] John “Red” Hamilton (27 de agosto de 1898 – 26 de abril de 1934) era canadense e é mais conhecido por sua morte lenta e agonizante e pelo sepultamento secreto após ser mortalmente ferido durante um assalto.

[9] Russell Lee “Boobie” Clark (9 de agosto de 1898 – 24 de dezembro de 1968) Ele é mais conhecido como o membro “bem-humorado” da gangue de Dillinger.

[10] Evelyn “Billie” Frechette nasceu em 1907, filha de pai francês e mãe indígena. Viveu na Reserva Menominee, em Wisconsin, até os 13 anos e aos 18 mudou-se para Chicago, onde trabalhou como babá e garçonete. Frechette casou-se com Welton Sparks, que foi condenado à prisão em 1933 por roubo de correspondência. Ela contou à imprensa que, como resultado da prisão do marido, ela tinha uma “visão de mundo confusa”. Em novembro de 1933, ela conheceu John Dillinger em um salão de baile. Na prática, Frechette ofereceu a Dillinger uma ajuda mínima nas suas ações. Ela fazia compras, como roupas e carros, mas, na maior parte do tempo, desempenhava o papel de dona de casa, onde cozinhava e limpava para ele, além de ser amante e companheira. Frechette cumpriu dois anos de prisão federal por acobertar um criminoso e após a morte de Dillinger vendeu sua história para a revistas, jornais e fez uma turnê com um espetáculo teatral chamado “O Crime Não Compensa”,  acompanhado por membros da família de Dillinger. Frechette acabou se casando duas vezes depois disso e morreu de câncer em 13 de janeiro de 1969, em Shawano, Wisconsin.

[11] Lester Joseph Gillis (6 de dezembro de 1908 – 27 de novembro de 1934), também conhecido como George Nelson, ou Baby Face Nelson, cujo apelido derivava do fato de Gillis ser um homem baixo e ter aparência jovial. Filho de imigrantes belgas, Nelson foi um violento assaltante de bancos, que matou mais agentes do FBI do que qualquer outro criminoso. Após a morte de Dillinger se tornou o novo Inimigo Público Número Um. Em 27 de novembro de 1934, agentes do FBI feriram fatalmente Nelson na chamada “Batalha de Barrington”, travada em um subúrbio de Chicago.

[12] Homer Virgil Van Meter (3 de dezembro de 1905 – 23 de agosto de 1934) foi um criminoso condenado por roubo de veículos e assalto a passageiros de um trem. Enquanto estava no Reformatório de Indiana, Van Meter conheceu John Dillinger e Harry Pierpont. Enquanto fez amizade com Dillinger, foi desprezado por Pierpont por causa das suas palhaçadas e do seu comportamento. Um mês após a morte de Dillinger, Van Meter foi morto por policiais em St. Paul, Minnesota, todos fortemente armados com espingardas e submetralhadoras Thompson. Os policiais alegaram que Van Meter ignorou a ordem de parar e fugiu disparando duas vezes contra seus perseguidores com uma pistola. A família de Van Meter disse depois que seu parente havia sido usado para “prática de tiro ao alvo”. Os policiais relataram ter encontrado 1.323 dólares com Van Meter, embora seus amigos comentassem que naquele dia ele tinha cerca de 10.000 em dinheiro. Em 1939 o FBI anunciou que um gangster rival havia armado para os policiais executarem Van Meter, para ficar com seu dinheiro e dividir com seus matadores.

[13] Thomas Leonard Carroll (28 de novembro de 1900 – 7 de junho de 1934) foi um veterano do exército durante a Primeira Guerra Mundial e boxeador que se tornou criminoso. Participou de vários assaltos no bando de Dillinger e foi morto em Waterloo, Iowa, durante um confronto com a polícia enquanto tentava fugir após ser descoberto por policiais.

[14] Harold Eugene “Eddie” Green (2 de novembro de 1898 – 10 de abril de 1934). Green era considerado um criminoso altamente inteligente e especialista em “marcação de alvos”, amplamente conhecido por empregar táticas como observar bancos e planejar rotas de fuga que ele percorria antes de um roubo para garantir uma fuga perfeita. Suas conexões com políticos corruptos e policiais em St. Paul, Minnesota, o tornavam extremamente útil na criação de casas seguras e no fornecimento de avisos sobre batidas policiais. Em 3 de abril de 1934, em St. Paul, Green foi emboscado por agentes federais armados com metralhadoras Thompson e foi baleado na cabeça e no ombro. Em meio a relatos conflitantes de que Green teria tentado fugir ou sido morto a sangue frio, o FBI receberia duras críticas da imprensa em relação à morte de um suspeito desarmado.

[15] O edifício Lincoln Court em St. Paul, Minnesota, ainda existe e é utilizado como moradia. Na década de 1930, a cidade de St. Paul era conhecida como um lugar onde gangsters podiam se esconder, com as autoridades frequentemente fazendo vista grossa, desde que crimes não fossem cometidos na cidade.

[16] Melvin Horace Purvis II (24 de outubro de 1903 – 29 de fevereiro de 1960) foi um agente do FBI que desempenhou um papel fundamental na captura de John Dillinger e Pretty Boy Floyd em 1934. Durante a Segunda Guerra Purvis ingressou no serviço como capitão na Polícia Militar, setor de investigação criminal. Em 1945, no posto de coronel, foi incumbido de localizar nazistas de alto escalão acusados ​​de crimes de guerra. Depois foi nomeado Investigador Chefe Americano de Crimes de Guerra e auxiliou no estabelecimento dos protocolos para os Julgamentos de Nuremberg. Em 1958, ele aceitou o convite de do governo para atuar como consultor da Subcomissão do Comitê Judiciário do Senado sobre Melhorias na Máquina Judicial, em sua tarefa de reformar as práticas judiciais e acabar com o acúmulo de casos. Suicidou-se em 29 de fevereiro de 1960.

O SINDICATO DO CRIME EM CAICÓ – A NOTÍCIA DA PRISÃO DO PISTOLEIRO TONHO DO LETREIRO EM JORNAIS DE RECIFE

Houve um tempo que na bela cidade de Caicó, na região do Seridó potiguar, membros de sua sociedade resolveram seus problemas na bala. Mas alguns deles não seguravam as armas. Preferiam contratar pistoleiros utilizando os serviços de agenciadores com atuação em várias áreas do Nordeste, que formaram um grupo que ficou conhecido como Sindicato do Crime. Entre as mortes ocorridas em Caicó na época, a que alcançou maior repercussão e chegou a ser notícia na mídia nacional, foi a do médico e deputado estadual Carlindo de Souza Dantas. Um dos seus algozes foi o pistoleiro Edmar Nunes Leitão, conhecido por Tonho do Letreiro, pois tinha uma mira tão acurada que com tiros “escrevia” qualquer letra do alfabeto em uma parede. Aqui trago a transcrição e as notícias divulgadas nos periódicos recifenses Jornal do Comércio e Diário de Pernambuco dos dias 28 e 29 de abril de 1970.

AGRADECIMENTO – Ao amigo Marcelino Barbosa, verdadeira lenda da Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Norte, com grande atuação contra o crime no sertão e grande conhecedor da História dessa instituição de segurança pública.

DIÁRIO DE PERNAMBUCO, TERÇA-FEIRA, 28 DE ABRIL DE 1970.

POLÍCIA FEDERAL SE CONCENTRA NO RIO GRANDE DO NORTE PARA DESBARATAR “SINDICATO DO CRIME”

O pistoleiro Edmar Nunes Leitão, autor de oito crimes na região nordestina, inclusive dos assassinatos dos deputados Carlindo de Souza Dantas e Francisco Miguel, ocorridos em Caicó e Sergipe, chegará às 7 horas de hoje ao Aeroporto Augusto Severo, em Natal, fortemente escoltado por quatro agentes do Departamento de Policia Federal. O delegado regional da Polícia Federal, Sr. Júlio Freire de Revoredo, viajará na manhã de hoje para a capital potiguar, a fim de presidir as investigações que serão procedidas e, inclusive, pessoalmente, fazer acareações e ouvir depoimentos no curso dos trabalhos que serão realizados. Objetiva, segundo as próprias declarações do Sr. Júlio Revoredo pôr a limpo a série interminável de crimes em Caicó e, consequentemente, a detenção de todos que, direta ou indiretamente, concorreram para o estabelecimento do “Sindicato do Crime”.

ORDEM É PRENDER

Frisou o agente federal que fará executar no Rio Grande do Norte, as determinações dadas anteriormente. Baseia-se nas prisões de todos aqueles que estejam envolvidos nos crimes ocorridos em Caicó, quer sejam os autores materiais ou intelectuais das chacinas. Razão porque, acrescentou o Sr. Júlio Revoredo, as pessoas apontadas pelo bandoleiro Edmar Leitão, no curso de seus depoimentos, serão imediatamente detidas, principalmente aqueles que têm ou tiveram ligação com o “Sindicato do Crime”.

Um detalhe que vem intrigando a Polícia Federal diz respeito à “cobertura” que um influente cidadão residente em Natal vem dando ao médico Osvaldo Lobo, acusado de mandante no crime que foi vítima o deputado Carlindo Dantas. Informou o agente Otávio Ruas que o Sr. Osvaldo Lobo é natural da Paraíba, onde foi preso numa fazenda, juntamente com o capataz conhecido por Eronildes. Na fazenda, que é de propriedade do médico, foi encontrado um verdadeiro arsenal composto de seis revólveres, três rifles e uma arma calibre 45.

PONTO OBSCURO

Posto em liberdade, após prestar depoimento na Paraíba, o médico Osvaldo Lobo dirigiu-se a Natal, a fim de homiziar-se na residência de um cidadão influente naquela capital, fugindo à responsabilidade e, inclusive, furtando-se a prestar novos depoimentos á Polícia.

Repórteres, fotógrafos e correspondentes de jornais do Sul radicados em Natal, estão sendo impedidos de entrevistar-se com o médico. Os federais, por sua vez, estão tentando descobrir o local onde se encontra o acusado. Edmar Nunes Leitão, ou “Antônio Letreiro”, como vulgarmente é conhecido, denunciou, como mandantes da morte de Carlindo Dantas, os médicos Osvaldo Lobo e Pedro Militão (assassinado no ano passado), além de um coronel da Polícia Militar do Rio Grande do Norte.

VIÚVA PRESENTE

Edmar vai para Natal, segundo deixou claro, com “a finalidade de resolver esta questão”. Além de vários interrogatórios a que será submetido, “Antônio Letreiro” será acareado com o médico Osvaldo Lobo, com o sargento Antônio Libório e com a viúva do médico Pedro Militão, que também já se encontra era Natal para prestar informações aos federais, acerca da chacina de que foi vítima o seu marido, que por sua vez foi acusado de mandar matar Carlindo Dantas. Edmar Leitão, por outro lado, voltará a avistar-se com pistoleiros e empreiteiros do “Sindicato do Crime” da Paraíba. Todos os pistoleiros e “coiteiros” dos bandidos, presos recentemente em fazendas paraibanas, serão acareados com Edmar, a fim de que seja estabelecido o elo entre os crimes praticados naquele Estado e também no Rio Grande do Norte. As acareações terão início hoje, em Natal, com a presença do delegado regional da Polícia Federal, Sr. Júlio Freire de Revoredo, além dos agentes Otávio Ruas, Mair de Oliveira, Júlio Teixeira e outros.

Antiga cadeia de Pombal, ainda dos tempos do Império. Quem desse local fugiu foi o cangaceiro Jesuíno Brilhante.

POMBAL ERA “QUARTEL GENERAL ” DO CRIME

JOÃO PESSOA (De Raimundo Carrero e Maurício Coutinho, enviados especiais) — No depoimento que prestou à Polícia Federal da Paraíba o pistoleiro Levi Olímpio, apontado como um dos principais membros do “Sindicato do Crime” tende agido, inclusive, como empresário para os crimes de Edmar Leitão, preso no Ceará, negou que tivesse até o momento praticado qualquer crime. Mas confirmou a existência do “Sindicato”.

Disse ainda que a reunião para o assassinato do médico rio-grandense, Carlindo de Sousa Dantas, realizou-se na casa de um dos coiteiros do grupo, na cidade de Pombal, não tendo precisado o nome. Negou que alguém recebesse dinheiro para os crimes. Acrescentando: “As mortes eram feitas por amizade aos mandantes ou por prazer, nunca por dinheiro”.

MORTE DO DEPUTADO

“Posso acrescentar ainda — disse — que Antônio Letreiro” foi “peitado” pelo deputado e coronel José Alves Lira, para matar o também deputado coronel Luiz de Barros”.

Na Paraíba, Edmar Leitão, por questões de segurança, fazia se passar por “Antônio”, assim como seu irmão José Maria, por “Ednaldo”; Acusou este último de ter assassinado em São Bento do Bofete, na Bahia, o cidadão conhecido por “Neném Leiteiro”.

POMBAL

Pombal, a cidade do terror, foi apontada por Levi Olímpio, como o quartel general do “Sindicato da Crime”. Na extensão dessa cidade, todo fazendeiro, pobre ou rico, colaborava com os membros do “Sindicato”, uns por cumplicidade (coiteiros), outros por medo.

 Embora Levi tenha negado que recebesse dinheiro com os crimes, a polícia acredita que ele detém em seu poder uma verdadeira máquina montada para morte contra pagamento.

CIGANO BITÓ

Entre os coiteiros apontados por Levi Olímpio, dois nomes são completamente desconhecidos da polícia, e parecem criação do pistoleiro, na esperança de esconder o nome de algum amigo seu. São eles: “Cigano Bitó” e “Dedé Boiadeiro”. “Cigano Bitó”, segundo afirmou Levi, é fazendeiro em Campina Grande, embora até bem pouco tempo fosse um “pobre diabo, não ostentasse nenhuma riqueza”.

Quanto a “Dedé Boiadeiro”, não soube acrescentar nada, afirmando apenas “uma pessoa boa, mas muito perigosa”.

FEDERAIS ADMITEM QUE BANDIDOS FORMAVAM ORGANIZAÇÃO PODEROSA

JOÃO PESSOA (De Raimundo Carrero, Maurício Coutinho e Teobaldo Landim, enviados especiais) — A descoberta de como funcionava o “Sindicato do Crime”, começa a estarrecer o povo desta cidade. A própria polícia mostra-se impressionada, pois não imaginava ser o “Sindicato” uma organização de tamanha amplitude. Os membros do “Sindicato do Crime”, não somente matavam, como ainda fabricavam dinheiro e por cima, realizavam casamentos. Dentro da organização existia até posições hierárquicas, pelo menos, por questão de segurança. O chefe maior era o mandante; depois vinha o empresário; a seguir o contato; e finalmente o assassino. O primeiro mandava eliminar o inimigo e pagava pela execução; o segundo ficava com a missão de conseguir um bom pistoleiro(o assassino), que tivesse boa pontaria: o contato, encarregava-se de saber como andavam as coisas; o último executava o crime conforme o preço que pedisse, Exigia-se muita segurança, honestidade e pouco conhecimento com a Polícia.

CASAMENTO

Até casamento o “Sindicato” fazia. O mais importante deles, foi o de Edmar Leitão (preso cm Fortaleza), também conhecido por “Zé Letreiro” e “Antônio”. Edmar vivia aperreando Levi para casar. Já tinha uma noiva; Rosa Pereira. Como gostava muito dela queria casar e abandonar sua vida de crimes. Todos os dias fazia o mesmo pedido e insistia muito. Levi Olímpio não sabia o que fazer; Edmar era muito procurado pela polícia do Estado e seria perigoso levar um padre para a fazenda. Um juiz, pior ainda. Não era nem para se pensar. O que fazer então? Mas Edmar vivia insistindo. E agora até ameaçava matá-lo se não conseguisse, imediatamente, um padre.

Um dia indo na cidade de Pombal, mandou o motorista do carro em que viajava vestir uma batina, arranjou uns papéis para servir de documento, e mais dois padrinhos e fez o casamento. Levi assegura que nem o próprio Edmar sabe disso.

EDMAR E LEVI VÃO SE AVISTAR CARA O CARA

JOÃO PESSOA (De Raimundo Carrero e Maurício Coutinho, enviados especiais) — O pistoleiro Levi Olímpio Ferreira, pessoa importante dentro do “Sindicato do Crime”, estará seguindo, hoje, para Natal, para um encontro com Edmar Leitão o “Antônio Letreiro”, que virá de Fortaleza, Ceará.

Levi Olímpio seguirá fortemente escoltado por policiais da Polícia Federal, em horário não divulgado, pois teme-se um atentado. A vida de Levi é importante para que se possa desvendar muita coisa que ainda está escondida, na existência do “Sindicato”.

DINHEIRO FALSO

A polícia paraibana continua investigando a denúncia de que os participantes do “Sindicato do Crime” teriam diversas máquinas de fabricar dinheiro. Dessas máquinas eram extraída as cédulas para pagamento aos pistoleiros. Já foram realizadas diversas batidas nas fazendas dos coiteiros apontados por Levi Olímpio Ferreira, nada sendo encontrado.

Enquanto será feito o encontro dos assassinos Levi e Edmar, em Caicó. A Polícia Federal continuará suas investigações, acreditando-se que qualquer novidade possa surgir de um instante para outro.

NECO DA IMACULADA

Noticia-se, ainda nesta cidade, que o pistoleiro Neco da Imaculada, um dos mais perigosos do Nordeste, foi preso numa cidade do interior paraibano, ninguém, no entanto, sabe precisar o local.

Neco da Imaculada é acusado de mais de 20 crimes bárbaros a serviço de poderosos donos de terras e políticos influentes. Os agentes federais admitem, por outro lado, que Neco da Imaculada esteja envolvido em cinco crimes ocorridos era Caicó. Sabe-se, até agora, que das chacinas ali ocorridas, somente as que foram vítimas Carlindo Dantas e o industrial Aníbal Macedo estão praticamente esclarecidas. Edmar Leitão seria o autor das mortes dos dois cidadãos, muito embora os crimes de que foram vítimas os médicos Onaldo Queiroz e Pedro Militão, além do jovem Aníbal, filho do industrial Aníbal Macedo, estão sem solução, admitindo-se que Neco da Imaculada seja autor de um deles.

Isto será minuciosamente investigado pelos federais, a partir do momento em que as diligencias forem prosseguindo em Caicó, principalmente agora com a presença, ali, do bandoleiro Edmar Leitão.

JORNAL DO COMÉRCIO, RECIFE, 28 DE ABRIL DE 1970

FEDERAIS CAPTURAM BANDOLEIRO QUE PRATICOU 20 ASSASSÍNIOS

JOÃO PESSOA (Sucursal) — Durante diligências realizadas ontem, na cidade de Teixeira (PB), 12 agentes do Departamento de Policia Federal efetuaram a prisão do bandoleiro Manoel Batista de Araújo, o “Neco de Imaculada”, autor de 20 assassínios no Nordeste e Juntamente com o pistoleiro Edmar Leitão, é responsável pelos últimos crimes ocorridos em Caicó.

O profissional do gatilho que é considerado um dos mais lendários e sanguinários, há alguns anos vive exclusivamente a custa de coiteiros e ricos fazendeiros a quem prestou serviços na execução de perversos crimes a exemplo do seu comparsa “Tonho do Letreiro” que se acha recolhido em Fortaleza, depois de sua captura na cidade de Icó (CE).

SADISMO

“Neco de Imaculada”, conforme afirmam os marginais que o cercam nunca esconde o enorme sadismo e para provar que é um homem mau, conta que Já eliminou 20 pessoas e cortou muito busto de mulheres, alguns somente para ver a fisionomia de quem sente dores horríveis.

De acordo com as Informações em poder das autoridades policiais a área de ação do bandoleiro sempre foi no interior do Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Ceará, onde cumpriu contratos mediante elevadas importâncias para eliminar inimigos dos mandantes, dependendo da posição social das vitimas e poder econômico dos contratantes dos crimes.

ESQUARTEJA, TAMBÉM

Os dois últimos homicídios por ele praticados, verificaram-se há cerca de 45 dias, no Interior cearense, onde matou e esquartejou um casal de Jovens namorados, repetindo o que anteriormente havia feito com uma amante que prometeu abandoná-lo para viver com outro homem. De conformidade ainda com as informações transmitidas pelas autoridades policiais o bandoleiro ora detido na cidade de Teixeira, formava com Edmar Nunes Leitão a dupla de bandidos mais procurada para execução de assassínios, não só pela excelente pontaria que possui, mas, sobretudo em decorrência de não deixar pista.

A ÚLTIMA PRISÃO

 A última vez que “Neco de Imaculada” esteve sendo interrogado pelas autoridades, foi no dia 30 de março do corrente ano quando sequestrou a Jovem Maria José dos Santos, no sitio Saquinho, no interior paraibano, a quem infelicitou nos arredores de Pombal.

Durante a resistência oferecida, como castigo, o bandoleiro a deixou despida diversos dias sob o sol ardente da caatinga e, além de sucessivas surras, foi arrastada sobre cardeiros e proibida de beber água, até ceder aos Intentos do sequestrador.

QUASE LOUCA

No final de suas declarações fornecidas a polícia, a jovem acrescentou que, de certa feita, ele amarrou as suas mãos com o cinturão, lhe cortou a barriga a faca e, não satisfeito, a arrastou pelo chão sobre pedras, paus e espinhos até cansar.

Foi nessa oportunidade que, pensando que a Jovem se achava morta e não desacordada, ele a abandonou e fugiu. No dia seguinte, após recobrar os sentidos, a moça, quase louca, saiu rastejando até que encontrou um casal de agricultores, o qual penalizado de sua situação a levou a um hospital, onde ela pastou diversos dias internada.

FAZENDEIRO QUERIA MATAR PISTOLEIRO

Em depoimento prestado a Polícia Federal, o fazendeiro Levi Olímpio, preso na semana passada juntamente com outros mandantes de crimes, confessou que pertencia ao Sindicato da Morte, contratou pistoleiros para eliminar Inimigos e diversas vezes tentou matar o bandoleiro Tonho do leiteiro envenenado, porque ele sabia demais. O rico agricultor, a quem é atribuída a responsabilidade por uma série de crimes, esclareceu também que há multo tempo pertence à organização que espalha o terror em diversas regiões do país, especialmente no Nordeste, onde nos últimos anos profissionais do gatilho derrubaram indefesos cidadãos.

APONTADO POR LETREIRO

O fazendeiro Levi Olímpio, em virtude de denúncias transmitidas as autoridades pelo pistoleiro profissional Edmar Nunes Leitão, o Tonho do Letreiro, como é conhecido entre os integrantes do Sindicato da Morte, foi detido na semana passada no município de Pombal, juntamente com os criadores Antônio Pereira, Zeca Mãezinha e Francisco de Assis. No transcorrer da gigantesca operação que visava desmantelar a força da organização criminosa atuante nos Estados do Ceará, Alagoas, Rio Grande do Norte e Paraíba, os agente do Departamento de Polícia Federal conseguiram também apreender numerosas arma s e farta munição principalmente na propriedade pertencente a Levi Olímpio.

SABIA DEMAIS

Por mais de uma vez, segundo revelou o fazendeiro, verificando que Tonho do Leiteiro sabia demais a respeito de sua vida e futuramente poderia complicá-lo, fato que constantemente se observa entre mandantes de crimes e profissionais do gatilho, tentou matá-lo envenenado.

Entretanto, muito hábil e desconfiado o bandoleiro sempre recusou fazer refeições e tomar bebidas em sua fazenda, fato que fez ruir todos os seus planos. Agora, em decorrência da delação do bandido, teve o seu nome ligado aos recentes acontecimentos, inclusive com provas difíceis de serem pelo menos atenuadas.

DIÁRIO DE PERNAMBUCO, TERÇA-FEIRA, 29 DE ABRIL DE 1970.

PISTOLEIRO CHEGA A NATAL ESCOLTADO POR FEDERAIS

NATAL (Gledson Oliveira e Maurício Coutinho enviados especiais) — O bandoleiro Edmar Nunes Leitão, que chegou ontem fortemente escoltado a esta capital, deverá ser acareado hoje com o coiteiro Levi Olímpio e o tenente Antônio Libório. O oficial está preso no Quartel da Polícia, em Natal, como autor intelectual da morte do medico Pedro Militão, uma das vítimas dos crimes ocorridos em Caicó.

Edmar chegou a Natal exatamente às 7 horas, escoltado por agentes federais que não permitiram o acesso de repórteres no aeroporto Augusto Severo. Nosso fotógrafo, inclusive, foi solicitado a deixar o “hall” do aeroporto, momentos antes do pouso do Boeing da VASP.

Embora discreto, o aparato policial foi dos mais rigorosos temendo se pela vida do famigerado pistoleiro.

COM MEDO

Edmar ao ser conduzido a Rural Willys da Polícia Federal, placa 2-66 85, que desde às 6 horas se encontrava na pista do Augusto Severo, mostrava-se nervoso e assustado, temendo ser assassinado pelos seus inimigos do “Sindicato do Crime” que ainda estão soltos no Rio Grande do Norte, embora já denunciados nos depoimentos do marginal.

O aparelho da VASP pousou distante a fim de possibilitar aos federais o cerco do pistoleiro. Três agentes entraram na aeronave e o algemaram, enquanto mais dois cercavam no quando desciam a escada do avião em direção a Rural Willys, estacionada frente ao aparelho, aguardando a descida de Edmar, que, propositadamente foi o ultimo passageiro a deixar o Boeing.

Em seguida ele foi levado para a sede da Polícia Federal, Rua Vigário Bartolomeu, 581, sendo de Ia transferido para o Quartel da Polícia Militar onde ficou incomunicável. Hoje, Edmar deverá avistar se com o Sr. Júlio Freire Revoredo, que se deslocou do Recife a fim de acompanhar, em Natal, as investigações que estão se processando. O delegado regional da Polícia Federal chegou a esta capital por volta das 15 horas evitando manter contato com a imprensa.

Não quis revelar, inclusive, onde Edmar será interrogado no dia de hoje, mas admite-se que os trabalhos serão realizados na Polícia Militar, Iocal mais seguro para evitar um possível atentado contra a vida do bandoleiro.

VIU SÔ

O medico e deputado Carlindo de Souza Dantas, abatido pelo pistoleiro Edmar Nunes Leitão, na noite de 28 de outubro de 1967, defronte ao Caicó Esporte Clube, vem sendo apontado como o homem que matou, sozinho, o diretor do SESP daquela cidade, médico Onaldo Pereira de Queiroz, crime ocorrido na madrugada de 28 para 29 de junho de 1968.

O doutor Onaldo, na noite do crime, após tomar alguns drinques com amigos num restaurante daquela cidade, dirigiu-se ao seus aposentos no posto de saúde, onde ficou a descansar numa rede. A noite era fria. Checou a tirar uma soneca, mas despeitou ao ouvir um tiro.

 O CRIME

Notou então que a iluminação da rua fora apagada com a quebra da luminária de um poste que ficava a uns 6 metros de onde estava. Olhou em seu redor e nada viu ou ouviu. Voltou a deitar-se. Um minuto depois ouviu outro disparo, desta vez contra a lâmpada que estava no alpendre do terraço.

Não teve tempo de levantar-se. Um terceiro tiro trespassou-lhe o crâneo, matando-o instantaneamente. Ninguém viu o criminoso, o médico estava só. No chão ficou uma poça de sangue que ia escorrendo pela calçada, enquanto a cabeça da vitima pendia da rede.

Onaldo, um jovem médico de 28 anos, gozava de grande prestígio na classe e junto à população. A sua fama corria o Estado, a ponto do ganhar o cargo de diretor do SESP. A nomeação veio estarrecer e causar inveja a muita gente, inclusive ao Dr. Carlindo Dantas, que sempre pleiteava o lugar. No dia da nomeação houve certo tumulto na cidade, provocado pelo deputado que tinha um temperamento explosivo, razão porque gostava de bebericar na cidade, onde, também, era, enormemente conceituado como bom médico e líder político.

PUNIDO

Carlindo tempos atrás, fora diretor do SESP. Algumas irregularidades afastaram-no das funções. Muito pior: trabalhando no posto subordinado ao médico Onaldo Queiroz, Carlindo voltou a cometer outros desatinos, a ponto de ser novamente por este punido. Isto inflamou os ânimos e provocou, mais ainda, a inveja.

As autoridades que investigam o crime estão propensas a admitir esta hipótese: um acerto de contas em função do orgulho profissional de Carlindo. Vão mais além, fixando-se na suposição de o deputado ter se ressentido porque tinha sido substituído por Onaldo Queiroz. E, assim, sem auxílio de pistoleiro, foi sozinho dar vasão aos recalques que lhe tomaram conta: matar o médico Onaldo friamente, utilizando-se de um revólver calibre 38 duplo.

O LÍDER

Desde tão Carlindo passou a ser visto como criminoso. Todos o apontavam como assassino do colega do SESP, por questões de ciúme e Inveja. Mesmo assim Carlindo continuou sua campanha política, enquanto prosseguiam as investigações que culminaram com a decretação sua custódia preventiva. 33 anos, moço, líder em Caicó pela maneira de tratar seus clientes, a quem, inclusive, receitava de graça. Era querido e estimado por todos. No Estado o seu nome passou a ser uma bandeira em defesa dos humildes.

No período da decretação da prisão preventiva, ele, acusado de assassino, já era visto como um virtual candidato a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Foi preso. Conseguiu a liberdade pelo Tribunal de Justiça, saindo vitorioso nas urnas. Então abriu frente de combate contra seus acusadores e inimigos, entre os quais o médico Pedro Militão e Osvaldo Lobo.

A MORTE

Eleito deputado, Carlindo voltou a ofensiva, combatendo os que lhe acusavam e prometendo apontar os verdadeiros assassinos de Onaldo Queiroz. Isto muitas vezes, da tribuna da Assembleia, ele, prometia fazer. E fez.

No dia 28 de outubro de 1967, um ano após a morte do diretor de SESP, Carlindo de Souza Dantas, naquela noite, dirigiu-se a um bar e publicamente disse que “eles não tem para onde fugir, vou apontá-los, muito breve”. Passaram-se cinco dias. Carlindo no volante de um Aero-Willys, ia participar de uma festa no Caicó Esporte Clube. Ao entrar foi interceptado pelo pistoleiro José Maria, irmão de Edmar Leitão:

A história de Edmar Nunes Leitão foi transformada em cordel pelo poeta João Domingos da Silva. O pistoleiro seria morto em uma emboscada, anos depois, após fugir da penitenciária de Natal.

“Doutor, o Senhor deixou a luz do carro acessa. Carlindo voltou e ficou de frente para Edmar que, de um DKW passou a disparar incesantemente com dois 38, enquanto “Zé Maria” fazia a cobertura, disparando a esmo, indo três balas atingir o industrial Aníbal Macedo, que, naquela noite — eram 23 horas — acompanhava o deputado. Ambos caíram na calçada, morrendo tempos depois.

 MAIS DUAS MORTES

O jovem Nilson Macedo, filho do industrial Aníbal Macedo, em dezembro do ano passado foi assassinado. Para vingar a morte do pai e do irmão, o jovem Antônio Macedo, “Toinho”, descarregava toda a carga do seu revólver contra o médico Pedro Militão, quando este entrava na Escola Normal de Caicó, onde era professor.

Estes crimes estão impunes. A Polícia Federal investiga a possível participação de Edmar e alguns de seus comparsas nas chacinas. Até agora os federais obtiveram valiosas informações que estão sendo mantidas em sigilo, evitando-se a divulgação pela imprensa. Sabe-se que três inquéritos estão concluídos nos quais estão relacionados os matadores de Nilson Macedo e Pedro Militão.

MORRE O XERIFE MAURÍLIO PINTO DE MEDEIROS

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O ex-subsecretário de Segurança Pública do Rio Grande do Norte, delegado aposentado da Polícia Civil, Maurílio Pinto de Medeiros – Fonte – http://aluisiodutra.blogspot.com.br/2012/01/fotos-antigas-do-bumba.html

Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Faleceu ontem, sábado, 19 de maio de 2018, por volta das nove e meia da noite, aos 76 anos de idade, o ex-subsecretário de Segurança Pública do Rio Grande do Norte, delegado aposentado da Polícia Civil, Maurílio Pinto de Medeiros.

Maurílio estava internado, desde o dia 22 de março, por complicações do diabetes na UTI da Casa de Saúde São Lucas.

Segundo declarou a imprensa natalense Ana Cláudia Medeiros, filha mais velha de Maurílio, desde que seu pai se aposentou, em 2011, ele vinha mantendo uma rotina tranquila. “Devido à limitação de mobilidade, por conta do AVC, que comprometeu os movimentos do lado esquerdo, meu pai preferia ficar em casa, curtindo os filhos, netos e a bisneta. Sempre estava lendo alguma coisa em seu escritório, recebendo amigos e se atualizando nos fatos cotidianos. Nunca deixou de ajudar a quem lhe pedisse um favor”.

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Arquivo Tok de História

O delegado Maurílio Pinto de Medeiros seguramente ficará como a maior referência da Polícia Civil do Rio Grande do Norte. Quando era criança sonhava em ser aviador e chegou a servir Força Aérea Brasileira, mas logo cedo estava na luta contra a bandidagem, onde começou sua carreira policial em 1964, como motorista do seu pai, o acariense Bento Manoel de Medeiros, coronel da Polícia Militar.

Passou no vestibular de jornalismo em 1971, onde se formou em 1975, mas nunca atuou atrás das câmeras e microfones, só diante destes instrumentos onde realizou milhares de entrevistas ao longo de sua carreira.

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Arquivo Tok de História

Dentre as diversas funções que exerceu, destaca-se a de subsecretário e secretário adjunto de Segurança Pública do Estado. Após participar de um curso no estado do Texas, Estados Unidos, Maurílio Pinto recebeu o título de Xerife e por este nome passou a ser chamado pelos colegas de trabalho e pela imprensa especializada.

Maurilio dedicou 47 anos à Polícia Civil, onde deixa para seus pares e para a sociedade potiguar uma memória e um legado sempre marcado pelo êxito no seu trabalho de investigar e elucidar crimes diversos, desde assassinatos a sequestros. Comandou a Delegacia Especializada em Capturas e Polinter (DECAP) e também coordenou a Central de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte.

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Maurílio Pinto de Medeiros (de camisa clara, no centro da foto), em uma fazenda na zona rural entre as cidades de São Miguel (RN) e Pereiro (CE) em 1983, nas ações policiais contra pistoleiros do “Sindicato do Crime” na região.

Participou de ações que ficaram célebres na imprensa potiguar, levando à prisão, inúmeros criminosos de alta periculosidade. Como, por exemplo, em 1982, nas investigações do assassinato do médico Ovídio Fernandes, que movimentou intensamente a crônica policial potiguar. No ano seguinte atuou intensamente nas prisões de pistoleiros do “Sindicato do Crime”, na região entre as cidades de São Miguel (RN) e Pereiro (CE), cujo comando foi atribuído ao fazendeiro Mardônio Diógenes.

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Recebendo informações durante a ação contra os pistoleiros em 1983.

Inclusive em 2011 declarou aos jornalistas Thyago Macedo e Sérgio Costa que em sua opinião o criminoso mais perigoso que atuou no Rio Grande do Norte foi o pistoleiro cearense chamado Edmar Nunes Leitão, conhecido por “Antônio Letreiro”, ou “Tonho do Letreiro”, que tinha esse apelido porque atirava tão bem que diziam que ele escrevia o nome à bala. Além dele, Maurílio Pinto afirmou aos dois jornalistas que o pistoleiro Idelfonso Maia Cunha, o “Mainha”, oriundo da região Oeste do Estado, era igualmente perigoso. Diziam que a esse último tinham sido atribuídas mais de 100 mortes em todo Nordeste e chegou a ser capa da Revista IstoÉ.

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Diário de Natal, terça-feira, 23 de agosto de 1983

O jornal AgoraRN informou que em 2001, o ex-presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Rio Grande do Norte, Roberto de Oliveira Monte, já falecido, acusou Maurílio Pinto de chefiar um grupo de extermínio responsável por dezenas de mortes, entre as quais a do advogado Gilson Nogueira Carvalho, morto com 17 tiros no dia 20 de outubro de 2001, após denunciar assassinatos e torturas cometidas supostamente por agentes policiais.

Ainda segundo o  jornal AgoraRN,  a partir daí o Ministério Público criou uma comissão de investigação independente que, após ouvir mais de 100 testemunhas, teria concluído que “a Polícia Civil e funcionários da Secretaria de Segurança Pública haviam cometido os crimes investigados” e classificou os acusados como integrantes de um grupo de extermínio conhecido como “Meninos de Ouro”, comandado por Maurílio, na época secretário-adjunto de Segurança Pública.

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Declaração de Maurílio Pinto de Medeiros concedida a jornalistas natalenses em 1984 e infelizmente uma problemática bem atual.

Em 1997, o então ministro da justiça, Nelson Jobim, pediu ao governador Garibaldi Alves Filho, a exoneração de Maurílio da chefia da Polícia Civil. A solicitação foi atendida pelo chefe do Executivo.

O delegado admitiu alguns erros – “mesmo sem maldade” -, fazer escutas telefônicas sem autorização judicial, mas negou veementemente comandar o suposto grupo de extermínio, conhecido popularmente como “Mão Branca”.

Em 2014, ele foi inocentado da denúncia de improbidade administrativa em consequência dos grampos telefônicos.

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Afirmou sobre o caso que tinha a consciência tranquila, de ter agido no estrito cumprimento do dever, com o objetivo de ajudar a sociedade e que nunca levou nada para o lado pessoal.

Maurílio Pinto de Medeiros deixa mulher (Clarissa) e quatro filhos (Ana Cláudia, Adriana, Maurílio Júnior e Fabiana).

Fontes – http://agorarn.com.br/chamada/morre-aos-76-anos-o-delegado-maurilio-pinto-de-medeiros/

http://portalbo.com/materia/Maurilio-Pinto-sei-que-cometi-erros-mas-foram-sem-maldades/imprimir

OS RASTEJADORES DO SERTÃO – PROFISSÃO DE CORAGEM E DE RISCO

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Odiados e Respeitados, os Rastejadores Sertanejos Marcaram a História do Nordeste Desde a Época dos Escravos, Passando Pelos Cangaceiro e até na Morte do Pistoleiro Floro Gomes Novais

Rostand Medeiros – Escritor e Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Em poucas ocasiões no sertão do Nordeste eles foram ovacionados e na maioria das vezes intensamente odiados. Mas sempre foram muito respeitados pelo que sabiam fazer!

Para muitos estes homens nada mais eram do que uma sórdida escória, uma ralé, que pontuou de forma nefasta a História do sertão nordestino. Eles eram comparados a cães, que só serviam para caçar os que perturbavam a doce tranquilidade senhorial dos seus poderosos donos. Mas também poderiam está realizando seus serviços para o outro lado dessa moeda sangrenta.

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Quando não estavam percorrendo as trilhas sertanejas em alguma missão, geralmente os rastejadores não recebiam por parte dos poderosos, do governo e de seus policiais a atenção merecida. Além de bem poucas benesses pecuniárias que lhes eram creditadas, ou de algum butim aferido quando abatiam um criminoso, pouco lhes era dado. Entretanto quando o serviço surgia, aqueles homens analfabetos, que nunca realizaram algum tipo de treinamento formal, eram extremamente requisitados e respeitados pelas suas capacidades no ambiente natural e de mostrarem aos “homens da lei” os caminhos para capturar aqueles que perturbavam a ordem vigente.

Os rastejadores do sertão não eram adivinhos e nem mágicos, porém, sertanejos com conhecimentos privilegiados. Se uma missão lhes era dada, procuravam com invulgar intensidade a sua “caça”. Inconscientes de suas capacidades técnicas atribuíam o próprio sucesso a algo sobrenatural, “coisa do outro mundo”. Dizia-se que os rastejadores sertanejos eram tão dedicados ao que faziam que “enquanto vivos” iriam procurar o seu alvo e recuperar o que havia sido levado. Fosse honra ou ouro!

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O famoso comandante de volantes Zé Rufino e a sua esquerda o rastejador conhecido como Juriti – Fonte – Coleção do autor

Para os que viviam à margem da lei naquele sertão arcaico, estes caçadores de bichos e de homens eram aqueles que prioritariamente deveriam ser abatidos. Se possível da forma mais cruel e sangrenta existente e imaginável.

Trabalho Atencioso

A classe dos rastejadores do sertão sempre foi formado por um grupo de pessoas provenientes dos extratos mais simples da sociedade brasileira, isso desde os tempos da Colônia, do Império e chegando até a República.

Seguramente os primeiros rastejadores foram indígenas, os grandes conhecedores da natureza, grandes caçadores de animais e a mata não lhes tinha segredo. Quando aculturados, normalmente utilizavam suas técnicas especiais para capturar sua própria gente.

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Retirada da Laguna – Fonte – http://datasefatoshistoricos.blogspot.com.br/search?q=retirada+da+laguna&x=11&y=13

Na História do Brasil, durante a Guerra do Paraguai, no terrível episódio da Retirada da Laguna, ficou famoso o trabalho do Guia Lopes e do seu filho. Quem lê o clássico A Retirada da Laguna, de Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, primeiro e único visconde de Taunay, percebe a atenção que este nobre militar deu a estes homens simples, que possuíam muito mais conhecimento da região onde se deu os episódios da retirada, do que os estrategistas do Exército Brasileiro.

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Em junho de 1868, com a ajuda dos Lopes, um efetivo com cerca de 700 homens, de um grupo original de 3.000, retornaram alquebrados pela doença e pela fome às linhas brasileiras em Coxim.

Os rastejadores do sertão não tinham letras, mas eram Mestres da natureza sertaneja, donos de uma capacidade invulgar, onde o mínimo graveto quebrado, ou uma pequena pedra deslocada por uma leve pisada, poderia apresentar a estes homens o caminho percorrido por toda sorte de gente considerada malfeitores.

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Fonte – chickenorpasta.com.br

Normalmente era uma figura que realizava seu trabalho sozinho e que seguia por caminhos ermos e difíceis. Na hora de sua estranha labuta andava sempre meio curvado pelas veredas e no meio do mato, como que procurando algo no chão. Seus passos eram leves, macios, silenciosos. Em algumas ocasiões era seguido por outros, que estavam ali para ajudar no seu objetivo, mas que nada entendiam de sua odiada e, ao mesmo tempo, respeitada função.

Todos os sentidos de seu magro corpo, queimado pelo sol ardente do sertão funcionavam como verdadeiras antenas que captavam qualquer coisa que fosse estranha em relação à indolente natureza a sua volta. Caçavam vestígios. Procuravam quaisquer alterações na ressequida ecologia que o cercava. Ao se debruçarem sobre um rastro davam notícia se era novo, ou velho, de dias, e de quantos dias.

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Foto: Carla Belke Paisagens do Seridó – OpenBrasil.org

Tinham os olhos quase sempre cerrados, com se estivesse mirando um alvo que só eles sabiam onde estava e vendo coisas que ninguém via e nem percebia. Quase nunca falavam e se assim fazia era baixinho, quase sussurrando. Os ouvidos estavam sempre atentos para o mínimo ruído, perscrutando tudo a sua volta e qualquer som estranho era devidamente analisado em átimos de segundos. Queria encontrar algum pequeno indício da passagem do mais violento de todos os seres viventes que andava na terra criada por Deus – O Homem!

Chico Sapateiro e o Escravo Assassino

No período da escravatura no Brasil não faltou trabalho para esses homens, que atuavam juntos aos capitães do mato na caça aos negros escravos fujões, ou quando estes cometiam algum crime.

O cearense Gustavo Adolfo Luiz Guilherme Dodt da Cunha Barroso, o conhecido Gustavo Barroso, que assinava seus textos sobre a região Nordeste e os nordestinos com o pseudônimo de João do Norte, transcreveu na revista carioca Fon-Fon, em setembro de 1937, um texto sobre um trágico episódio ocorrido quase cem anos antes na cidade cearense de Sobral e que envolveu um afamado rastejador sertanejo[1].

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Foto da antiga Praça da Sé, Sobral, Ceará – Foto Joscel Vasconcel

Em 2 de maio de 1841, por volta das dez horas da noite, o negociante Joaquim Francisco do Rego foi assassinado pelo seu escravo Sebastião, que lhe desfechou certeiramente uma forte facada no estômago, que deixou a vítima com um mortal ferimento de polegada e meia de comprimento.

Joaquim era homem de posses em Sobral, sendo conhecido como “doutor Rego” por ter cursado até o terceiro ano da Academia de Direito em Pernambuco, seu estado natal.

Evidentemente que um crime como esse era algo inadmissível naquela sociedade escravocrata e mereceu intensa atenção das autoridades. O juiz de paz Miguel Francisco do Monte convocou Luciano e Sabino, dois respeitados capitães do mato da região para empreitada de caça ao escravo Sebastião. Já um compadre e conterrâneo do falecido, o major Manuel Francisco de Moraes, aparentemente pagou uma certa quantia para que o célebre rastejador Chico Sapateiro apoiasse com a sua capacidade de homem do mato os afamados “homens da lei”. Talvez o rastejador Chico Sapateiro fosse assim conhecido não por produzir calçados, mas por caminhar bem de leve e silenciosamente pelas trilhas.

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A busca de escravos fugitivos foi um grande negócio para os rastejadores no período da escravatura no Brasil.

O major Manuel queria se garantir no serviço, reforçando o aparato que buscava o assassino de seu amigo.

O texto narra que os três homens ganharam os matos muito bem armados, certamente de punhais e armas de fogo de alma lisa. Palmilharam a região durante quatro dias até encontrarem Sebastião escondido na Lagoa das Pedras, perto do Riacho das Itans, e trouxeram o fugitivo amarrado.

Durante o interrogatório Sebastião afirmou que roubou um pouco de aguardente da dispensa de “doutor Rego” e estava bêbado quando esfaqueou e matou seu dono. E tudo ocorreu por medo de ser castigado em razão do seu delito, fato que ocorrera outras vezes. O escravo Sebastião foi condenado a forca e sua execução deveria ocorrer ás nove da manhã do dia 16 de junho do mesmo ano.

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Na execução, algoz subia nos ombros do condenado para acelerar morte. Parece que faltou alguém para fazer no escravo Sebastião isso que a ilustração apresenta.

No dia marcado o condenado saiu da cadeia de cabeça erguida, sendo assistido pelo Reverendíssimo Padre Antônio da Silva Fialho, com escolta de doze guardas nacionais formando alas e comandados por um tenente. Um oficial apregoava pelas ruas de Sobral o delito de Sebastião, sendo acompanhado pelo juiz de paz que seguia a cavalo.

Tudo ocorreu como mandava o figurino da época, mas em certo momento aconteceu uma situação um tanto estranha.

Começou que o carrasco, um outro condenado, não conseguiu executar a pena de tanto chorar e foi o próprio Sebastião, sem nenhuma demonstração de medo, que colocou a corda no pescoço e saltou do patíbulo. O problema foi que ele ficou “algumas horas” se contorcendo pendurado pelo pescoço, até morrer de uma asfixia agoniante.

Nunca mais aconteceu outra execução pública e oficial em Sobral.

O Primeiro Tiro Foi Para o Rastejador

No tempo que os cangaceiros percorriam as veredas das caatingas sertanejas, o rastejador era na maioria das vezes a figura mais importante de uma tropa policial volante e foi contra esses bandidos encourados que os rastejadores fizeram sua fama.

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Antônio Silvino

Não é a toa que os cangaceiros tinham extremado ódio aos rastejadores, que muitas vezes serviram de guias para as forças governamentais que combatiam os celerados nas caatingas. E eram para estes que os cangaceiros dirigiam as primeiras balas no meio de uma peleja.

Em 1910 o pernambucano Antônio Silvino, o conhecido “Rifle de Ouro”, atemorizava os sertões de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. No final de maio daquele ano o famoso chefe de bando seguia com seus cangaceiros pelo interior da Paraíba, na região da cidade de Taperoá, quando soube que em sua perseguição vinha o oficial de polícia Antônio Maurício Pereira de Mello e sua tropa volante[2].

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Xilogravura com a figura de Antônio Silvino

O pesquisador e escritor potiguar Sérgio Dantas comenta em seu livro Antônio Silvino, O Cangaceiro, O Homem, O Mito, que o afamado chefe tinha nutrido ódio a este oficial, tido e havido como valente, cruel e perigoso.

E era para ter cuidado mesmo!

Em 25 de maio, após Maurício receber a notícia que os cangaceiros iriam invadir a pequena urbe de Taperoá, seguiu a caça de Silvino e seus cangaceiros com dezoito homens armados, sendo dois deles, Vicente Pedro Miguel e José do Couto, afamados rastejadores sertanejos. Maurício aparentemente partiu com muita confiança e bem armado, tendo até mesmo em seu poder um artefato explosivo, que seria uma granada militar, ou uma bomba de dinamite. Esperava sem dúvida vencer Antônio Silvino. Mas a notícia da invasão era na verdade uma isca que o cangaceiro espalhou na região, com a ideia de Maurício e sua volante partirem ao seu encalço e caírem em uma emboscada.

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Cidade de Santo André na atualidade – Foto – Thiago Reis da Silva

Os policiais percorreram vários quilômetros até a pequena povoação de Santo André, onde compararam mantimentos e receberam a informação que os cangaceiros se encontravam em uma fazenda dois quilômetros adiante. Enquanto os homens da lei seguiam para o campo de luta, Silvino e seus homens armaram uma emboscada no local denominado Lagoa de Pedras, entre as povoações de Santo André e Timbaúba do Gurjão.

Mas, talvez por excesso de confiança, o oficial dividiu equivocadamente sua tropa, ficando apenas com mais cinco militares e o rastejador Vicente Pedro Miguel[3].

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Em meio às caminhadas e a busca pelos rastros dos bandidos, Maurício e seus homens, mesmo com pouca água e alimentos, pernoitarem embaixo de um umbuzeiro e só retomaram a pista dos cangaceiros nos primeiros raios de sol do dia 26.

O rastejador, segundo reportagem publicada no Jornal Pequeno, seguia a frente de Maurício, do cabo Manoel Albido (ou Albino) e dos soldados Pedro Salustiano, Antônio Beduíno, Manoel Pereira e Antonio José d’Andrade. Enquanto isso, em meio a um local com pedras soltas e paredões transversais, Silvino espalhou seus homens e calmamente aguardou a volante. Quando a tropa ficou na alça de mira dos cangaceiros, foi o rastejador Vicente o primeiro que recebeu um balaço que atravessou sua cabeça. Em meio à fuzilaria na Lagoa de Pedras, o oficial Mauricio ainda tentou incitar a tropa, mas também acabou varado com um tiro na cabeça disparado por Antônio Silvino. A ação de emboscada dos bandidos foi de tal maneira bem feita e executada, que o oficial nem conseguiu lançar seu propalado artefato explosivo contra os inimigos.

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Após a balaceira, que no entender do cangaceiro Cobra Verde foi “fogo grande”, o chefe do bando decidiu deixar um recado bem dado aos seus perseguidores. Munido de uma pesada pedra espatifou a cabeça do comandante da volante, cortou sua carótida e deixou várias perfurações de punhal em seu corpo.

Apesar das informações contidas sobre o episódio no ótimo livro de Sérgio Dantas e no texto do Jornal Pequeno nada comentarem, eu acredito que o corpo do rastejador Vicente deve ter recebido as mesmas “honrarias cangaceiras” prestadas ao oficial Maurício[4].

Lampião Sofre no Piancó com o rastejador João Montenegro

Seguindo por trilhas, “assuntando” o terreno com simples toques de seus dedos em seixos e cascalhos, apontando com segurança a um comandante de volante por onde seguiram os bandoleiros, muitas vezes eram estes rastejadores que poderiam trazer grandes problemas para os cangaceiros, inclusive para o maior deles – Lampião.

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Alguns marcaram época perseguindo Lampião, como, por exemplo, José Felix dos Santos, que serviu na volante do tenente Menezes, da polícia baiana, ou o pernambucano Antônio Cassiano, comentados por Ranulfo Prata em seu livro Lampião[5].

Em julho de 1927, praticamente um mês após o fracassado ataque de Lampião a Mossoró, quando ele e seus homens aterrorizaram o Rio Grande do Norte, ele se encontrava em franca debandada, bastante acossado pelos policiais e com o bando reduzido de 80 e poucos cangaceiros para algo em torno de 30 homens.  Além dos combates que teve de travar após Mossoró, dos prejuízos financeiros, das traições, Lampião perdeu homens do quilate de um Sabino, de um Jararaca e muitos outros cangaceiros desertaram de suas fileiras. Tentando recompor o bando e lamber as feridas de suas derrotas, Lampião buscou refúgio na região onde as fronteiras da Paraíba, Pernambuco e Ceará se encontram e daí chegar no seu Pajeú natal. 

Na noite quase enluarada de 12 de julho, uma terça feira, o chefe vem à frente de um grupo composto que para alguns seria de 32, e para outros de 24 cangaceiros. Vinham todos montados em alimárias e chegaram ao sul da zona rural da cidade de Conceição de Piancó, mais precisamente na localidade de Santa Inês. No seu trajeto haviam passado nas proximidades da Serra da Pintada.

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Não sabemos se houve alterações no povoado, mas aparentemente nada de errado aconteceu, pois a notícia corrente foi que o bando seguiu com suas montarias para se arrancharem ás margens de um riacho, que nas épocas de chuva formava uma corredeira conhecida como Cachoeira do Inferno. Os cangaceiros descansavam da verdadeira peregrinação para tentar chegar até o apoio de bons coiteiros[6].

Mas naqueles dias o que menos o grande chefe cangaceiro teria era tranquilidade!

Não sabemos se era por vingança, ou somente por dever de ofício, mas os jornais da época relatam que o rastejador João Montenegro foi quem levou José Leite, o delegado de Conceição do Piancó, o sargento Themistocles, da polícia paraibana, e Raimundo Quintino, o subdelegado da cidade, até a Cachoeira do Inferno. Além destes foi formado um grupo com cerca de 50 homens armados da região de Conceição para dá combate a Lampião e seus cangaceiros[7].

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O grupo partiu da cidade do extremo oeste da Paraíba por volta do meio dia de 13 de julho, percorrendo os 24 quilômetros até a região da Cachoeira do Inferno. Certamente seguiram com muito cuidado, atentos e nervosos com o que poderia acontecer. Por volta do meio da tarde os homens de Conceição chegaram no rancho dos cangaceiros e a bala comeu!

Sérgio Dantas aponta no seu livro Lampião no Rio Grande do Norte – A História da Grande Jornada que o grupo combateu os invasores com rara coragem. E deve ter sido mesmo, pois os cangaceiros fugiram deixando para trás todos os seus animais de montaria.  Mesmo entrincheirados os cangaceiros não aguentaram a força da investida. Depois de uma hora de renhido e feroz tiroteio, eles fugiram correndo no meio do mato. Fugiram para as Serras da Barrinha e do São Lourenço. Certamente a habilidade de João Montenegro também ajudou, pois colocou aquele grupo de homens valentes do Piancó em uma posição onde eles puderam surpreender os cangaceiros e atacar com sucesso[8].

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No mesmo dia em Santa Inês, por volta das quatro da tarde, o grupo de paraibanos se encontrou com a volante do sargento José Alves, da polícia pernambucana. Os dois grupos uniram forças e subiram as serras em busca dos cangaceiros, mas eles conseguiram fugir[9].

Com o passar dos anos o Cangaço acabou. Com a evolução tecnológica, a melhoria das estradas e dos veículos de  transporte, das armas de fogo e do uso das comunicações via rádio no combate contra a criminalidade, muitos membros das forças policiais nordestinas deixaram de buscar os tradicionais saberes dos afamados rastejadores sertanejos para caçarem toda sorte de gente ruim.

Os Últimos Rastejadores – O Caso Floro Gomes Novais

Mas houve um caso em especial, ocorrido em 24 de fevereiro de 1971 , onde as forças policiais voltaram a utilizar os poucos rastejadores sertanejos ainda na ativa. O caso em questão foi a morte do mais famoso pistoleiro do Nordeste na época – Floro Gomes Novais.

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Este era para muitos dos seus aliados era um justiceiro, que só matava por vingança. Já para os inimigos era um cruel e frio pistoleiro de aluguel, com mais de 120 mortes nas costas.

Floro nasceu em 15 de janeiro de 1931, no distrito de Prata, em Garanhuns e sua vida de crimes realmente começou após o assassinato de seu pai, o marchante Ulisses Gomes Novais, ocorrida em 4 de dezembro de 1951, em uma emboscada no lugar Capelinha, em Santana do Ipanema, município vizinho a Olivença, Alagoas.

Enéas Vieira era o líder político de Olivença e desejava comandar a política no lugar onde Floro morava com sua família e isso levou a uma desavença com seu pai e um outro amigo da família chamado Manoel Roberto. Logo seu pai e Roberto foram assassinados. Para evitar morrer Floro foi para São Paulo, mas prometeu voltar.

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Floro Novais atirava muito bem e utilizava pequenos alvos, no caso da foto com uma lagartixa, para treinar sua destreza com um 38.

Não demorou muito o jovem retornou e foi logo matando dois dos assassinos de seu pai. Um deles – João José – morreu na bodega de seu primo Bida, em Capelinha. Em 1957 foi tocaiado por três pistoleiros e matou todos eles. Um dos atingidos por Floro, antes de morrer, confessou que o grupo havia sido contratado por Enéas Vieira. Floro chegou mesmo a atacar Enéas Vieira em uma feira, atingindo-o com um tiro e só não o retalhou a peixeradas pela intervenção do padre do lugar. Em outra ocasião emboscou Enéas e um irmão (alguns apontam que era um sobrinho) em uma estrada, mas errou o acusado de ser o mandante da morte de seu pai e matou seu parente que o acompanhava. Contudo foi seu irmão Antônio, o caçula da família, que em setembro de 1970 matou sozinho Enéas Vieira diante de uma barbearia em Olivença.

Mas na quarta feira de cinzas de 1971, Floro foi assassinado a tiros nas caatingas da sua fazenda Mamoeiro, em Itaíba, sertão de Pernambuco. Sabia-se que ele tinha sido convidado para uma caçada, mas a caça foi ele!

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Casa sede da fazenda Mamoeiro, em Itaíba, sertão de Pernambuco.

Ocorre que a morte de Floro causou extrema repercussão em Pernambuco e um delegado especial foi designado, era o Dr. Severino Torres Galindo. Em meio às investigações para a prisão dos assassinos de Floro, as polícias civis e militares de Pernambuco e Alagoas, em conjunto com vinte agentes da Polícia Federal sob o comando do inspetor David Sales, realizaram uma verdadeira “varredura no terreno” em busca de pistoleiros implicados em vários outros processos.

Muitas fazendas das zonas rurais de Itaíba, Águas Belas (Pernambuco), Santana do Ipanema e Jacaré dos Homens (Alagoas) foram extensivamente vasculhadas. Muitas destas fazendas eram verdadeiros “covis de pistoleiros” e os acessos a estes locais um inferno. Mas deu resultado positivo, com a prisão de trinta e tantos matadores de aluguel e seus coiteiros.

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Policiais civis, militares e federais, com o apoio de rastejadores, na caça aos assassinos de Floro Gomes Novais em 1971 no sertão de Pernambuco.

Setores da imprensa divulgaram, de maneira bem discreta, que os policiais estaduais e federais utilizaram os serviços de alguns dos velhos rastejadores pernambucanos. Mesmo com toda discrição, aparentemente o uso destes rastejadores chegou a imprensa do sul do país. Em dezembro de 1971 a extinta Revista Realidade publicou uma interessante reportagem produzida pelo jornalista José Leal da Silva, com fotografias do francês Jean Solari, onde trouxe a baila as histórias das pessoas que perseguiam bandidos com métodos bem peculiares e pitorescos. 

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Entre esses rastejadores se encontravam Serra Azul. Este era um octogenário índio da tribo Fulniô, que contou ter perseguido Lampião e quase foi morto pelo chefe cangaceiro, mas que um dia chegou a um acordo com ele e selaram a paz. Disse que era rastejador, mas também “tinha sido soldado, cangaceiro e criminoso”. Morava na aldeia Fulniô perto da cidade de Águas Belas, Pernambuco, e para conseguir pegar os fugitivos sempre rezava para Edjaú, a entidade máxima da religião de sua tribo.

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Outro rastejador famoso entrevistado foi José Gomes dos Santos, o João Bolandeira. Este era um orgulhoso pai de 27 filhos que “vingaram” (ou que sobreviveram a seca e a fome) e em 1971 morava em uma casa de chão batido no lugar Riacho das Lajes, também em Pernambuco. Bolandeira tinha fama de ter capturado mais de cem assassinos e ladrões. Entre seus métodos infalíveis para capturar os meliantes estava o de rezar para as almas do outro mundo em busca de orientação. Se o “causo” era complicado ele acendia sete velas, em sete encruzilhadas diferentes, sempre da última para primeira. E quando a situação era periclitante mesmo, pedia ajuda externa. João Bolandeira recorria então a amiga Liquinha, ou madrinha Lica, uma rezadeira de Garanhuns que considerada infalível e vivia em uma humilde casa nesta bela cidade serrana pernambucana.

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Outro dos famosos foi Manuel Matias, o conhecido Tôta. Este só seguia o rastro dos “cabras de peia” depois de limpar o corpo com um banho que incluía na sua composição água de colônia e alecrim. Além disso fazia a assepsia em um quarto com incenso e terminava o ritual vestindo roupas bem limpas. Dizia que tinha ao seu lado um guia de luz, do qual nunca declinou o nome e que o protegia durante o rastejo. O certo é que ele foi responsável pela prisão de muitos pistoleiros, entre estes o perigosíssimo Antônio do Algodão, que juntamente com seu filho Luís Marco, verdadeiramente tocaram o terror nas caatingas entre a Paraíba e Pernambuco. Pai e filho pistoleiros tinha assassinado o vaqueiro Manuel Mariano, no lugar Serra Queimada, perto do município de Iati, Pernambuco. O fato se deu no cabaré de Zé Cazuza e ocorreu apenas pelo fato do vaqueiro está bebendo em uma mesa junto a Luísa, mulher que o pistoleiro Antônio do Algodão considerava sua propriedade. Injuriado com uma morte tão covarde Tôta se armou de um Papo amarelo 44, rezou muito e foi à caça dos dois assassinos. E não deu outra, Tôta prendeu os dois e os levou para a delegacia do povoado de Santo Antônio do Tará, perto da cidade de Pedra, no Agreste Pernambucano.

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A reportagem de 1971 mostravam homens que pareciam deslocados do tempo, exercendo um ofício que parecia mais não se encaixar nos tempos modernos.

Sobre os rastejadores do sertão se criaram ideias fáceis e praticamente fixas sobre seu modo de ser e de viver. Pelo seu trabalho e sua condição de vida estes homens foram geralmente desprezados ao longo de décadas pelos estudiosos do sertão nordestino. Estes não perceberam que ao redor destas figuras existia um intenso manancial de impressionantes informações sobre a natureza, sobre a gente, a religiosidade e a História desta peculiar região do Brasil.

P.S. – Gostaria de esclarecer que as informações sobre o pistoleiro Floro Gomes Novais me foram transmitidas por pessoas da região do Pajeú, em Pernambuco.


NOTAS

[1] Ver Revista Fon-Fon, Rio de Janeiro-RJ, edição de 18 de setembro de 1937, pág. 36. O líder integralista e notório antissemita Gustavo Barroso copiou este texto, sem dar nenhum crédito, de um texto produzido pelo magistrado, jornalista, historiador e político Paulino Nogueira Borges da Fonseca. Intitulado “Execuções de pena de morte no Ceará”, foi publicado na Revista Trimestral do Instituto do Ceará, ano VIII, Tomo VIII, 1º e 2º trimestres de 1894. Apesar do tema ser pesado e difícil, o texto de Paulino Nogueira possui uma narrativa ágil e interessante, onde o autor, em mais de 150 páginas, enumera as execuções oficiais ocorridas no Ceará desde 1632. Diante de uma verdadeira praga de criminalidade que vivemos nos dias atuais o texto mostra que em um país chamado Brasil a pena de morte seria algo sem a mínima condição de funcionar corretamente.

[2] Com relação a história do munícipio paraibano de Taperoá, em 1873, por lei provincial nº 475, de 06 de outubro, a localidade de Batalhão foi elevada a categoria de Distrito de Paz. Já Herculano de Souza Bandeira, Presidente da Província da Parayba do Norte, através da Lei nº 829, de 06 de outubro de 1886, elevou a povoação à categoria de vila. Em 1905, através de Lei Municipal, a comunidade teve a denominação mudada para Taperoá. Em 31 de dezembro de 1943, o decreto-lei estadual nº 520, oficializou a antiga denominação de Batalhão. Mas a comunidade se insurgiu e menos de dois anos depois, em 07 de janeiro de 1945, a lei estadual nº 318 restabeleceu o topônimo Taperoá. O termo nitidamente bélico para esta comunidade estaria ligado a uma grande peleja ocorrida entre os remanescentes dos índios cariris e os primeiros brancos que penetraram na região, ou a uma batalha travada em 1824 entre os republicanos da Confederação do Equador, que tentavam uma retirada para o Ceará, e as forças legalistas. http://www.taperoa.pb.gov.br/a_cidade/historia

[3] Atualmente as cidades paraibanas de Santo André e Gurjão.

[4] Ver DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. Lampião e o Rio Grande do Norte: A história da grande jornada. Natal: Cartgrat Gráfica Editora, 2005. Págs. 141 a 145. Ver igualmente Jornal Pequeno, Recife-PE, edição de sábado, 18 de junho de 1910, página 2. Este periódico recifense reproduziu a matéria publicada em 12 de junho daquele ano no jornal 15 de Novembro, de Campina Grande, Paraíba. Em um texto muito detalhista, é nítida a ideia de enaltecer o falecido oficial Maurício, mas percebe-se sem maiores problemas o seu grave erro ao dividir a tropa e a grande capacidade de combate de Antônio Silvino e seus homens.

[5] Ver Prata, Ranulfo. Lampião. São Paulo: Editora Traço, 1985, pág. 151.

[6] A cidade paraibana de Conceição de Piancó, atualmente é apenas conhecida como Conceição e se encontra na área da Região do Vale do Piancó e fica a 482 quilômetros da capital João Pessoa. Existe atualmente ao sul de Conceição o município de Santa Inês, emancipado Pela lei estadual nº 5908, de 29 de abril de 1994.

[7] Raimundo Quintino era um homem valente e brigador. Em junho de 1926 ele havia entrado em combate contra o grupo de Sabino nas proximidades de Conceição do Piancó, que deixou fora de combate três cangaceiros, entre estes João Mariano. A volante de Raimundo conseguiu alguns troféus interessantes dos bandoleiros, entre estes consta um ferro de marcar com as letras “J J” e que teria pertencido ao cangaceiro José Juriti. Outro material que chamou atenção foi um punhal de três quinas, com 35 centímetros de comprimento na lâmina, que teria sido um presente do próprio Lampião ao seu companheiro Sabino. O grande punhal trazia oito marcas na lâmina, que teria sido creditado a oito “sangramentos” praticados pelo temível e violento Sabino. Um jornal carioca reproduziu um texto publicado pelo Jornal do Commercio, de Recife, sobre estes materiais, suas procedências e a quem eles haviam pertencido. Consta na nota que este material ficou em exposição na sede do periódico na Rua do Imperador, no bairro de Santo Antônio, centro da capital pernambucana. Ver O Imparcial, Rio de Janeiro-RJ, edição de quarta feira, 25 de agosto de 1926, pág. 5.

[8] Sobre a narrativa do combate ver DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. Lampião e o Rio Grande do Norte: A história da grande jornada. Natal: Cartgrat Gráfica Editora, 2005. Págs. 323 e 345. E o jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro-RJ, edição de terça feira, 19 de julho de 1927, pág. 2.

[9] O sargento Alves telegrafou ao seu comandante, o então major Theophanes Torres Ferraz, dando ciência do ocorrido. Sobre o telegrama ver o jornal A Província, Recife-PE, edição de sexta feira, 15 de julho de 1927, pág. 1.