UM POUCO DA HISTÓRIA DO BRASIL NAS COPAS DO MUNDO

Ruas enfeitadas, festas por todos os lados, emoção à flor da pele, demonstrações de “patriotismo”: no Brasil e em muitos países, a cada quatro anos, vemos repetir-se a força de mobilização de uma Copa do Mundo de Futebol, cujas finais, que atualmente contam com 32 seleções nacionais, envolvem mais público, movimentam mais recursos e angariam mais prestígio do que os Jogos Olímpicos, outro grande evento esportivo que reúne mais de 20 modalidades.

As primeiras ideias de organizar uma competição mundial de futebol surgiram em 1905, em um cenário em que havia muitas iniciativas de criação de movimentos internacionais (escotismo, esperanto, Cruz Vermelha, jogos olímpicos, entre outros). As iniciativas, todavia, não chegaram a se concretizar por questões operacionais ou políticas, como a Primeira Guerra Mundial.

O 4º gol da seleção Uruguai x Argentina marcado por Héctor Castro – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/1930_fifa_world_cup_final#/media/file:uruguay_goal_v_argentina_1930.jpg

Somente a partir da década de 1920, quando a FIFA (Federação Internacional de Futebol Association, órgão máximo da modalidade, criada em 1904) era dirigida por Jules Rimet, houve esforços mais sistemáticos no sentido de operacionalizar a proposta, que culminaram com a organização da primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai, graças em grande parte ao desempenho da diplomacia do país-sede.

Ao contrário dos Jogos Olímpicos, organizados por cidades, as Copas do Mundo sempre foram promovidas por países. Do primeiro torneio, apenas 14 equipes nacionais participaram, sendo nove do continente americano e cinco do europeu.

Naquela ocasião, provavelmente não se imaginava que a competição iria crescer de tal forma que envolveria praticamente todos os países do mundo. Vale citar que a FIFA possui mais associados do que a Organização das Nações Unidas (ONU). Também no Brasil, essa primeira edição não teve grande impacto, inclusive pelo fato de a equipe representativa ser fruto de uma cisão entre paulistas e cariocas.

A seleção brasileira obteve um modesto sexto lugar. O Uruguai foi o campeão, o que não surpreendeu por sua condição de bicampeão olímpico (1924 e 1928) e país-sede. 

Jogadores da Alemanha Nazista realizando a sua saudação tradicional na Copa do Mundo de 1938 – Fonte – https://www.history.com/news/world-cup-nazi-germany-forced-austrian-players-lost

A segunda edição do evento foi realizada em 1934, na Itália. A competição começava a tornar-se mais popular, tendo sido inscritas 32 seleções para 16 vagas, tornando necessária a organização de eliminatórias. Tal Copa coincide com o avanço do fascismo na Itália, bem como de regimes autoritários na Alemanha, na Espanha e Portugal.  Foi concebida por Mussolini como uma forma de provar ossupostos avanços possibilitados pelo novo regime. Até mesmo facilitou-se a naturalização de estrangeiros, a fim de fortalecer a seleção italiana. Curiosamente, um brasileiro, Anfilogino Guarisi, foi campeão jogando pela equipe da casa.

Os torcedores brasileiros somente se empolgaram com a Copa do Mundo a partir de 1938, realizada na França. Com os problemas de organização no futebol nacional bastante amenizados, em função da intervenção governamental (já em pleno Estado Novo), enviou-se uma equipe forte, que contou com grande apoio popular. O Brasil conquistou o terceiro lugar, tendo uma participação bastante destacada: perdeu a semifinal para a Itália, um jogo bastante controverso por problemas de arbitragem. Leônidas da Silva foi o artilheiro da competição.

Selo comemorativo da Copa do Mundo de 1950 no BHr5asil – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/1950_FIFA_World_Cup

Deve-se ter em conta que, no cenário brasileiro, o futebol começava a ser mais comumente mobilizado como elemento discursivo na construção de uma identidade nacional, inclusive por uma reabilitação dos fenômenos culturais considerados mestiços, momento que tem como uma importante marca a difusão das ideias de Gilberto Freyre.

Algo que contribuiu e foi mesmo fundamental para o crescimento da popularidade do futebol e das Copas foi a atuação dos meios de comunicação. No Brasil, se em 1930 os torcedores tinham de esperar pelas notícias nas redações dos jornais, em 1938 já era possível acompanhar os jogos pelo rádio e também se podia assistir posteriormente às partidas nos cinemas.

Waldir Pereira, o Didi, bicampeão mundial de futebol em 1958 e 1962, apertando a mão do Presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira – Fonte – Arquivo Nacional.

Em 1958, os jogos já podiam ser acompanhados pela televisão, sempre alguns dias depois de sua realização. Ao vivo, isso somente se tornou possível a partir da Copa de 1970. Nessa ocasião, fora introduzido o recurso do replay e, no decorrer do tempo, cada vez mais inovações tecnológicas marcariam as coberturas esportivas. A transmissão dos jogos tornou-se um verdadeiro espetáculo, transmitido por muitas emissoras de todo o mundo, que pagam direitos caríssimos e buscam a todo custo conquistar o público.

A Copa do Mundo é o evento líder mundial de audiência televisiva. Na última edição do evento, realizada no Brasil, em 2014, estima-se que houve cerca de 4,5 milhões de espectadores por partida, média superior à obtida na África do Sul.

Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, conversando com Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha – Fonte – Arquivo Nacional.

Vários recordes mundiais foram também quebrados nos outros meios de comunicação, inclusive na internet.

Aproximadamente 1 bilhão de torcedores acompanharam on-line os jogos pelo site da FIFA No Brasil, se em 1938 o interesse foi grande, a Copa do Mundo tornou-se mesmo uma febre quando o país organizou a edição de 1950, construindo para tal o que na época seria o maior estádio do mundo e que ainda hoje, já bastante modificado por reformas recentes é uma das grandes referências do futebol mundial: o Maracanã.

O Preseidente da República João Melchior Marques Goulart abraçando o goleiro bicampeão mundial Gilmar dos Santos Neves – Fonte – Arquivo Nacional.

Depois de duas goleadas na fase final, ninguém esperava que o Uruguai fosse sair vitorioso na partida decisiva contra a seleção brasileira. A derrota por 2 × 1 foi uma das maiores tristezas do esporte brasileiro, para alguns foi mesmo encarada como uma marca das debilidades da nação.

Na ocasião, a competição era retomada depois do fim da Segunda Grande Guerra, e o Brasil, com a organização do evento, vislumbrava demonstrar seu protagonismo no novo tabuleiro internacional. Essa postura tornou-se comum no decorrer do século, inclusive em função da Guerra Fria: os blocos socialista e capitalista transferiram parte de seus conflitos e enfrentamentos para as instalações e competições esportivas.

O general Castelo Branco apertando a mão de Garrincha. Ao lado do militar vemos o então presidente da Confederação Brasilira de Desportos, CBD, Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange – Fonte – Arquivo Nacional.

Depois do fracasso na Copa de 1950, repetido na edição de 1954, realizada na Suíça, o país finalmente sagrou-se campeão em 1958, na Suécia, em um torneio que ficou marcado pela aparição internacional de uma das maiores estrelas da história do futebol e do esporte do século: Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, na época com 17 anos.

A seleção brasileira voltaria a se sagrar campeã em 1962, na Copa do Chile, onde o grande destaque foi Garrincha, não se saindo bem em 1966, na Inglaterra, uma edição marcada pela violência e pela benevolência dos árbitros com a equipe da casa, que se sagrou vitoriosa em uma final extremamente polêmica com o time nacional da Alemanha.

Pelé – Fonte – Arquivo Nacional.

Em 1970, no México, a equipe nacional tornou-se a primeira tricampeã da competição, após uma fase da preparação marcada por conflitos internos, com o técnico João Saldanha sendo substituído por Zagalo, mas também por grandes investimentos no treinamento. Nunca antes uma seleção brasileira fora tão bem preparada, com tanta antecedência.

Muitos autores sugerem que esses investimentos estariam ligados à vontade dos militares, que comandavam o regime de exceção em vigor no país, de provarem o quanto eram adequadas suas propostas para o país. Além disso, estariam relacionados com uma estratégia de dispersão e distração da população brasileira. Tais hipóteses têm sido muito contestadas. Independentemente das polêmicas, não se pode negar a ampliação da atenção ao esporte a partir de então, bem como o forte clima de patriotismo que cercou a participação da seleção brasileira no México.

A Seleção Brasileira de Futebol que participou da Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental. Ao centro da foto, de paletó preto, está o general Ernesto Geisel, tendo ao seu lado esquerdo o potiguar Francisco das Chagas Marinho, o Marinhgo Chagas – Fonte – Arquivo Nacional.

As Copas de 1974 (Alemanha), 1978 (Argentina, uma edição muito polêmica em função de o país-sede viver um período ditatorial, liderado por militares, que cometiam constantes desrespeitos aos direitos humanos), e 1982 (ao contrário da anterior, marcada pelo processo de redemocratização da Espanha) foram marcadas por muitas mudanças, uma tentativa de a FIFA se sintonizar com o novo cenário internacional, algo que imediatamente repercutiu no aumento do número de participantes nas finais do evento e numa maior atenção para as equipes asiáticas e africanas.

Além disso, melhor se estruturavam as estratégias de negócios ao redor do futebol. Em 1982, pela primeira vez foi introduzido o conceito de “patrocinador oficial”. Se as primeiras propagandas apareceram de forma muito embrionária já na Copa de 1934, a partir da Espanha essa relação comercial tornou-se cada vez mais intensa. Basta lembrar que, no Brasil, o personagem “Pacheco”, parte da propaganda de uma empresa de lâmina de barbear, tornou-se um dos mais populares até hoje.

Arthur Antunes Coimbra, o Zico- Fonte – Arquivo Nacional.

Por trás dessas mudanças, deve-se citar o nome de João Havelange, que desde 1974 assumira a FIFA e veio a tornando uma das mais poderosas instituições do mundo. O dirigente tornou o futebol em um grande negócio global. As Copas do Mundo passaram a ser um dos principais palcos de lançamento de novidades, de estratégias comerciais e de badalação, a faceta mais conhecida de um dos esportes mais influentes e populares.

Se essas mudanças definitivamente projetaram o futebol, também trouxeram muitos problemas. Muitas têm sido as denúncias de que o aspecto esportivo está sendo abandonado em função dos lucros e do benefício dos investidores, para além de problemas de falcatruas financeiras diversas.

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o Dr. Sócrates – Arquivo Nacional.

A Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, foi o momento auge desses problemas, uma expressão das ambiguidades que cercam o evento. Se de um lado alcançou popularidade e impacto jamais visto, foi marcada também por manifestações e insatisfação da população com os gastos públicos excessivos e com a interferência da FIFA na governança nacional. Se de um lado, observou-se um dos melhores resultados técnicos, foram também descobertas ilegalidades nos negócios que cercam a competição.

Somente no futuro será possível melhor precisar o impacto dessas ocorrências, mas provavelmente durante muitos anos ainda persistirá a articulação entre governos instituídos e mercado na promoção das Copas do Mundo. As próximas edições já têm sido marcadas por polêmicas em função das características autoritárias do governo de Putin, cuja Copa de 2018 ocorreu na Rússia e da compra de votos na escolha da sede de 2022 (Qatar), denúncia ainda não confirmada, que está sendo apreciada pela FIFA, que
também tem sido compelida a adotar posturas mais transparentes em função de escândalos financeiros que cercam o mundo futebolístico.

Neymar da Silva Santos Júnior, considerado por muitos o maior craque da atual Seleção Brasileira de Futebol- Fonte – https://esportes.r7.com/prisma/copa-2018/cosme-rimoli/o-mal-que-neymar-faz-para-a-selecao-brasileira-10072018 – REUTERS/DAVID GRAY – 02.JUL.2018

Fonte

Livro – Enciclopédia de guerras e revolução, Volume 1, 1901 a 1919, páginas 338 a 342. Organizadores – FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA DA SILVA, SABRINA EVANGELISTA MEDEIROS e ALEXANDER MARTINS VIANNA.

Referências

HELAL, Ronaldo, CABO, Álvaro do. Copas do Mundo: comunicação e identidade cultural no país do futebol. Rio de Janeiro: EdUerj, 2014.

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de; MELO, Victor Andrade de (orgs.). O esporte na imprensa e a imprensa esportiva no Brasil. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012.

MASCARENHAS, Gilmar, BIENENSTEIN, Glauco, SANCHEZ, Fernanda (orgs.). O jogo continua: megaeventos esportivos e cidades. Rio de Janeiro: EdUerj, 2011.

PRIORE, Mary Del; MELO, Victor Andrade de (orgs.). História do Esporte no Brasil: da colônia aos dias atuais. São Paulo: Editora Unesp, 2009.

OUTRA FACE DA II GUERRA – AS VIOLAÇÕES SEXUAIS PRATICADA PELOS ALIADOS CONTRA AS MULHERES ALEMÃS

Para muitos americanos nos Estados Unidos a imagem apresentada de suas tropas de ocupação na Alemanha pós Segunda Guerra Mundial foi de cordialidade e fidalguia. Mas parece a realidade foi bem outra fora das lentes das câmeras - Fonte - www.organizedrage.com
Para muitos americanos nos Estados Unidos a imagem apresentada de suas tropas de ocupação na Alemanha pós Segunda Guerra Mundial foi de cordialidade e fidalguia. Mas parece a realidade foi bem outra fora das lentes das câmeras – Fonte – http://www.organizedrage.com

Historiadora alemã descobre que não foram apenas as tropas russas que praticaram as selvagerias sexuais contra as mulheres alemãs

“-Não havia água corrente e eu e minha mãe tínhamos de ir buscar água com baldes em um córrego. Na ponte havia alguns soldados norte-americanos que disseram à minha mãe para retornar e mandaram que eu esperasse na ponte. Mamãe começou a voltar relutante e eles me empurraram e me forçaram a atravessar a ponte. Ela olhou para trás sem perder de vista, mas não podia fazer nada”. Assim relata Elfriede Seltenheim, quando tropas americanas que haviam ocupado Ostbrandenburg lhe arrancaram do seio de sua família. 

Fim da guerra e do regime nazista na Alemanha - Fonte - www.civishir.hu
Fim da guerra e do regime nazista na Alemanha – Fonte – http://www.civishir.hu

Ela tinha 14 anos de idade em fevereiro de 1945. Uma fotografia tirada poucos dias antes, como uma celebração pelo fim da Segunda Guerra Mundial, mostra a menina com um sorriso tímido e duas tranças douradas que caem sobre os seus ombros. Da ponte Elfriede foi levada para um quartel, onde soldados americanos a estupraram inúmeras vezes, dia e noite, durante quatro semanas. 

“-Eu não me lembro de gritar sequer uma vez. Fiquei apavorada”, diz ela aos 84 anos. Elfriede se lembra dos acontecimentos enquanto revisa suas memórias e fica passando as mãos, uma e outra vez, na cobertura que protege o braço da cadeira em que está sentada.

Quando voltou para casa, ele nunca falou do assunto, nem buscou reclamar visando qualquer reconhecimento ou compensação. “-Alguma coisa morreu dentro de mim”, ele tenta explicar agora. “-Eu perdi o sorriso para sempre. Depois perdi as lágrimas. E eu vou te dizer uma coisa, você pode viver sem sorrir, mas você não pode viver sem chorar.” 

Elfriede Seltenheim em recente entrevista na TV alemã - Fonte - www.welt.de
Elfriede Seltenheim em recente entrevista na TV alemã – Fonte – http://www.welt.de

Setenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial na Alemanha, ainda existe um tabu neste país sobre as mulheres e meninas estupradas por tropas de ocupação Aliadas.

A família de Elfriede, como muitas outras de alemães, estava profundamente apavorada com a chegada das tropas russas nas vilas e cidades. Histórias sobre violações sistemáticas praticadas pelo Exército Vermelho viajaram rapidamente naqueles dias sombrios e os soldados americanos foram recebidos como libertadores. Propagou-se a ideia na coletividade alemã do “amigo americano”, de um militar de ocupação que não cometia crimes de guerra. Mas a pesquisa da historiadora alemã Miriam Gebhardt muda essa versão da história.

 Números Vergonhosos 

Gebhardt, que pela primeira vez coloca números para a violação sexual massiva, estima que cerca de 860.000 mulheres foram forçadas sexualmente ao fim da guerra e nos meses seguintes. Pelo menos 190 mil destes casos foram perpetrados por soldados americanos. Mas, segundo a historiadora, estes números são apenas a ponta do iceberg. “-O número provavelmente é muito maior, pois muitas mulheres e garotas nunca quiseram falar sobre isso por vergonha”, ela explica. 

Livro da historiadora Miriam Gebhardt sobre este complicado tema para os alemães
Livro da historiadora Miriam Gebhardt sobre este complicado tema para os alemães

“-Durante a primavera de 1945, as tropas americanas tomaram uma a uma as aldeias e cidades da Oberbayern (região administrativa alemã, cuja capital é a cidade de Munique). Na maioria dos locais os americanos não encontraram nenhuma resistência e até mesmo foram recebidos com bandeiras americanas nas ruas. Os americanos se instalaram na prefeitura e depois foram de casa em casa e realizaram um primeiro registro sobre os ex-soldados alemães e suas armas. Uma vez que descobriram que estavam a salvo, começaram a pilhar. Eles se apropriavam de relógios, bicicletas, rádios, óculos de sol, joias e qualquer objeto que gostassem como lembrança. Depois passavam a estuprar mulheres e meninas antes de marcharem para outras áreas”. Recorda Charlotte W., então com 18 anos e que ao longo de sua vida assegurou que escapou dos estupros por ter sido escondida por seus pais. 

A historiadora Miriam Gebhardt
A historiadora Miriam Gebhardt

Segundo a historiadora Miriam Gebhardt “-Muitas destas mulheres fingem até hoje que não aconteceu nada e guardaram silêncio durante décadas por vergonha. É um sintoma comum na maioria das vítimas”. O objetivo da historiadora com esta pesquisa é promover uma reparação para essas mulheres e o seu sofrimento, até agora ignorado pelas autoridades alemãs e, claro, pelos responsáveis. 

Russos molestando uma alemã. É inegável que a maioria dos abusos sexuais praticados contra as alemãs foram perpetrados por tropas russas, mas eles não estavam sozinhos na tarefa - Fonte - httpwww.svobodata.com
Russos molestando uma alemã. É inegável que a maioria dos abusos sexuais praticados contra as alemãs foram perpetrados por tropas russas, mas eles não estavam sozinhos na tarefa – Fonte – httpwww.svobodata.com

A maioria das violações contra as mulheres alemãs foram realizadas pelos soldados russos, com fatos muito mais documentados. Mas quase nada se sabia dos ultrajes cometidos pelos americanos. “-Eu mesmo fiquei surpresa com a quantidade desses crimes”, admite a historiadora. Estas violações continuaram até 1955, quando a região finalmente recuperou sua soberania. Durante esse período mais de 1.600.000 soldados dos Estados Unidos estiveram na Alemanha. 

Registros 

Nem a administração alemã, inexistente na época, ou as tropas de ocupação realizaram registros destas violações. Gebhardt encontrou a maioria das provas documentais em relatórios realizados pela Igreja.

O arcebispo de Munique e Freising, diante do silencio do que estava ocorrendo, pediu aos sacerdotes realizarem um registro pontual das atividades dos exércitos estrangeiros na região e os seus efeitos sobre as comunidades. Esses registros são mantidos em Munique e incluem, por exemplo, apontamentos de Michael Merxmüller, pároco da cidade de Ramsau, que em 20 de julho de 1945 escreveu: “Oito meninas e mulheres estupradas, algumas delas na frente de seus pais”. 

A natural beleza platinada de muitas jovens alemãs daquela época foi a razão de muito sofrimento para várias delas - Fonte - kurz-geschrieben.de
A natural beleza platinada de muitas jovens alemãs daquela época foi a razão de muito sofrimento para várias delas – Fonte – kurz-geschrieben.de

Em 25 do mesmo mês, o padre Andreas Weingand escreveu em uma aldeia ao norte de Munique: “A coisa mais triste na passagem das tropas foram as violações de três mulheres: uma casada, uma solteira e uma menina virgem de 16 anos e meio. Todos cometido por soldados americanos fortemente embriagados”. 

Já o Padre Alois Schiml, de Moosburg, escreveu no dia 01 de agosto de 1945: “-Por ordem do governo militar, uma lista de todos os residentes e as suas idades deve ser pregado na porta de cada casa. Como resultado deste decreto, (…. ) 17 meninas e mulheres (…) tiveram de ser levadas ao hospital depois de terem sido submetidas a repetidos abusos sexuais”. 

A vítima mais jovem registrada nestes documentos foi uma pequena de sete anos de idade, que contraiu uma séria doença venérea. A mais velha foi uma mulher de 69 anos. 

Propaganda americana. Foto de Ralph Morse, da revista LIFE, mostrando um aspecto menos complicado da aproximação entre tropas de ocupação americanas e jovens alemãs.
Propaganda americana. Foto de Ralph Morse, da revista LIFE, mostrando um aspecto menos complicado da aproximação entre tropas de ocupação americanas e jovens alemãs.

“-Muitas vezes as tropas dos Estados Unidos pediram às autoridades locais grupos de mulheres, supostamente para realizar trabalhos de secretariado e de cozinha. Era um tipo de trabalho forçado, que muitas vezes escondida violações indiscriminadas. Os grupos de mulheres eram substituídas a cada 15 dias e quando eles voltaram para casa ficavam em silêncio, inclusive com sentimento de culpa”, descreve a pesquisadora. 

Além disso, proliferaram entre as tropas americanas escapadas noturnas em busca de mulheres indefesas. “-Uma noite bateram em minha porta sete soldados americanos armados. Eles exigiram que lhes preparassem comida e, em seguida, estupraram a minha avó e a minha mãe. O meu primo viu tudo, mas nunca falou disso. Minha mãe e minha avó também”, narrou Maximiliane, que cresceu sem saber que era a filha de um daqueles sem coração. “-Eu comecei a suspeitar quando na minha universidade surgiu a oportunidade de ser realizada uma viagem de estudo para os Estados Unidos. Aquela notícia desestabilizou completamente a minha mãe e depois de vários meses de estressante tensão o meu primo me disse o que estava por trás de tudo aquilo”. 

Fonte - www.dw.de
Fonte – http://www.dw.de

Os soldados chegavam ao ponto de venderem para os colegas de farda informações sobre as casas que tinham mulheres e crianças indefesas. “-A coisa que mais me surpreendeu depois de todos esses anos, desde que eu soube o que aconteceu, é que a minha mãe simplesmente aceitou. Em sua concepção das coisas ela pertencia a lado perdedor da guerra e, de alguma forma, tinha que aceitar isso como um castigo. Nós nunca conversamos sobre isso”, lamenta Maximiliane. 

Filhos da Guerra

Os resultados dessas violações indiscriminadas foram inúmeras gestações indesejadas. São sobre elas que a historiadora Gebhardt agora faz suas projeções.

Em registros hospitalares ficaram partes das evidências das brutalidades. “Além de estupro, muitas mulheres foram açoitadas com chicotes ou atacadas com armas.” 

Em documentos judiciais também existem vários registros de suicídios de meninas após terem sido estupradas em grupos. Normalmente se matavam enforcando-se em uma viga nas casas, ou ingerindo altas doses de essência de vinagre. “-Minha sobrinha de 13 anos foi estuprada na sala ao lado por 14 soldados russos. Minha esposa foi arrastada para o celeiro e lá foi estuprada também. Na parte da manhã, antes de saírem da fazenda, os russos voltaram ao celeiro e a estupraram novamente. Quando abri o celeiro eu encontrei seu corpo quebrado”, diz Otto H., que guardou pelo resto de sua vida aquela noite terrível em uma fazenda próximo a cidade de Friedeberg, na Pomerânia. 

Fonte - www.daserste.de
Fonte – http://www.daserste.de

Após os primeiros meses do final da guerra, em que o abuso foi a ordem do dia, proliferaram outros tipos de atos sexuais onde a fronteira do consentimento se tornou muito mais difusa. Fome e privações ocasionadas pela guerra levaram muitas alemãs para a prostituição, onde muitas vezes trocavam o corpo por uma misera batata, que muitas vezes alimentava toda uma família.

A sempre eficiente propaganda americana promoveu a ideia de que as mulheres alemãs ficaram atraídas pelas tropas estadunidenses, que serviu como um argumento para muitos excessos. 

Gebhardt insiste em que o sentido de remover o véu é a denúncia da crueldade com que os conflitos armados afetam as mulheres, que são perdidos no esquecimento nas vergonhas mais profundas. 

Texto de ROSALÍA SÁNCHEZ – http://www.elmundo.es/cronica/2015/03/08/54fadb85268e3ee0518b4570.html