DO TEMPO EM QUE O NATALENSE ERA BESTA! MAS SERÁ QUE ISSO ACABOU?

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Até mesmo Aristóteles acreditava que o ambiente onde uma pessoa cresce molda seu caráter. Outros sábios sustentavam que cada região de origem influencia a personalidade de maneira peculiar: as áreas rurais e urbanas moldam o caráter de formas distintas, e aqueles que crescem à beira-mar são diferentes dos que têm raízes nas montanhas..

Acredita-se que as pessoas que vivem em áreas rurais, apesar de, em certos aspectos, se mostrarem amigáveis, tendem a ser mais conservadoras politicamente e, de modo geral, menos abertas a novas experiências do que outras. Em contrapartida, os que habitam regiões litorâneas são considerados mais receptivos a novidades, acolhedores com os que vêm de fora e têm uma atitude mais leve, frequentemente mostrando entusiasmo ao apresentar sua terra natal. Normalmente, aqueles que nasceram à beira-mar e se mudam para outras localidades mantêm uma ligação tão forte com seu lugar de origem que frequentemente são atraídos de volta.

Os estudiosos afirmam que essa conexão se deve à sensação de liberdade e infinitude que o mar aberto proporciona, além de sua beleza visual. O poder imensurável do mar, que apela aos sentidos e emoções, e a profunda relação com a água desde o nascimento podem ser razões significativas pelas quais os moradores do litoral preservam essas características.

A Bucólica Natal do final da década de 1970 e início da ´decada seguinte pouco tinha de diferente da cidade em 1973. Na foto a Avenida Deodoro, próximo ao antigo Cinema Rio Grande e da lacnchonete Casa da Maçã.

Sinceramente, não sei se tudo isso explica uma das coisas que mais admiro no povo da minha querida terra: a forma tão positiva, franca e acolhedora com que recebemos aqueles que nos visitam. Essa hospitalidade não é algo recente em Natal, nem é fruto do crescimento do nosso turismo.

Entretanto, essa maneira de ser dos natalenses pode se tornar um fator de risco quando aqueles que aqui chegam trazem consigo uma extrema ignorância sobre como nos tratar, desembarcando carregados de preconceitos, racismo, pedantismo, sentimento de superioridade e outras atitudes deploráveis. Infelizmente, muitos que nos visitam se aproveitam da nossa hospitalidade, buscando sempre levar vantagem, praticando fraudes e nos traindo.

Restaurante no alto da Ladeira do Sol na década de 1970.

Há 53 anos, ocorreu um caso que marcou a cidade e se tornou notícia nacional!

O Filho do Ministro

Ele era moreno, andava bem vestido, não era tão alto, tinha cabelos pretos e bigodes bem aparados, entre 28 e 30 anos, e possuía uma ótima conversa. Apresentou-se como nascido no Rio de Janeiro e mostrou documentos com o nome Roberto Toniato Passarinho Filho. Assim, as portas da bucólica cidade de Natal se abriram para ele.

Jarbas Passarinho como Ministro da Educação, em 1973 – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Jarbas_Passarinho – Esta imagem é parte do Fundo Agência Nacional Série FOT Subsérie PPU

O sobrenome Passarinho e o contexto da época explicam tudo! Estamos em 1973, um período difícil sob o regime militar instaurado em 31 de março de 1964. Uma das figuras políticas de destaque naquele tempo era o coronel de Artilharia Jarbas Gonçalves Passarinho, que já havia exercido cargos como governador do Pará (1964-1966) e ministro do Trabalho (1967-1969). Em 1973, ele ocupava o cargo de ministro da Educação no governo do general Emílio Garrastazu Médici.

Naquele período de medo e submissão no Brasil, encontrar alguém com o sobrenome “Passarinho Filho” na carteira de identidade certamente surpreenderia qualquer um. Provavelmente, foi assim que aconteceu na manhã de sexta-feira, 7 de dezembro de 1973, quando o recepcionista Toinho viu aquele sobrenome importante na ficha de entrada do novo hóspede do Hotel Reis Magos, o melhor da cidade na época.

Segundo Toinho, que comentou no jornal Tribuna do Norte (edição de 13/12/1973), o “filho do ministro” disse que “estava de férias em Natal” e que, mesmo sendo filho de ministro, não queria chamar a atenção. Para corroborar sua identidade, uma moça ligou para a recepção do hotel perguntando pelo “filho de Jarbas Passarinho”. Toinho, sem hesitar, acomodou aquele importante visitante no apartamento 308, um dos melhores do hotel, com uma bela vista da Praia do Meio, em plena Avenida Café Filho.

O belo e majestoso Hotel Reis Magos, infelizmente demolido em janeiro de 2020 – Fonte – Facebook

Golpe do Volks

Após se acomodar, Roberto Passarinho Filho começou a solicitar que a recepção realizasse uma série de ligações para comerciantes da cidade e pediu whiskies das melhores marcas internacionais. Como não havia no bar do hotel as garrafas que ele desejava, o homem se contentou com uma garrafa verde e quadrada do tradicional whisky Passport. Provavelmente, ele também degustou um delicioso prato de frutos do mar como tira-gosto, talvez uma suculenta lagosta, crustáceo abundante em nosso litoral.

Na sequência, aquele elemento preencheu um cheque do antigo Banorte (Banco Nacional do Norte) de Recife, no valor de 2.000 cruzeiros, a moeda corrente da época. Ele pediu a Toinho para trocar o cheque por dinheiro vivo e, como ninguém ousaria negar algo ao filho de um dos ministros mais importantes do complicado governo militar, o novo visitante passou o final de semana à vontade. Descobri nos jornais que, naquele ano de 1973, essa quantia era a média de lucratividade anual de um produtor de leite no Seridó com um plantel de seis vacas.

Volkswagen 1.300, ano 1973. O carro da foto é um modelo muito bem conservado e estava à venda recentemente por quase R$40.000 – Fonte – https://www.aircooledsales.com.br/produto/fusca-1300-1973-placa-preta/787337

Na segunda-feira, dia 10, com o dinheiro no bolso, aquele bon-vivant carioca fez o que ficou conhecido como o “Golpe do Volks”. Segundo os jornais, o estranho conheceu, na boate “Bambelô”, que funcionava no Hotel Reis Magos, uma mulher que trabalhava na filial da Xerox em Natal, localizada na Rua Potengi, no bairro de Petrópolis. O suposto carioca pediu à mulher que o ajudasse a alugar um carro na Auto Locadora Speed, então pertencente ao empresário Jaeci Emerenciano, situada na Rua João Pessoa, Cidade Alta, e recém-inaugurada. Ele alegou que, como “não tinha carteira de habilitação”, a mulher preencheria a papelada em seu nome e ele arcaria com as despesas.

Os jornais não comentaram se essa mulher foi a mesma que ligou para o Hotel Reis Magos atrás do “filho do ministro”, se havia alguma ligação anterior entre os dois ou se ela apenas queria ajudar um visitante. O certo é que esse meliante saiu da empresa de Jaeci dirigindo um popular Volkswagen 1.300, conhecido em Natal apenas como Volks, com a placa AA-8513-RN, e pagou 300 cruzeiros pelo aluguel.

Farra nos Cabarés de Natal

Com o carro em mãos, ele se entregou à diversão na limitada noite natalense daquela segunda-feira de dezembro de 1973, frequentando os únicos locais abertos até altas horas, os cabarés da Cidade do Sol. Não se sabe, por exemplo, se ele foi ao cabaré da Alaíde, em Lagoa Seca, ou ao Acapulco, na Rua General Glicério, na Ribeira, ou ainda a Cleide Drinks, na Praia do Forte, ou se atravessou a ponte de concreto sobre o rio Potengi para visitar o lupanar de Abílio, no final de Igapó. O que os jornais informaram foi que ele se divertiu intensamente no cabaré de Maria Boa, o melhor de Natal, frequentado pela elite e localizado na Rua Padre Pinto, Cidade Alta.

Provavelmente esse vigarista esteve na praia de Ponta Negra, então bem tranquila.

A farra foi tão intensa que Roberto Passarinho Filho só encerrou a “função” quando amanheceu a terça-feira. Ele chegou a presentear o Volks alugado em Jaeci à mais bela das prostitutas de Maria Boa, conhecida apenas como Renata.

Ao sair de Maria Boa, ainda usando a identidade do filho do Ministro Jarbas Passarinho, o vagabundo fluminense alugou com o Senhor Roque Araújo Azevedo, proprietário da Auto Locadora Dudu, um imponente Ford Maverick 4 portas, motor V8, praticamente zero quilômetro. Seu Dudu, como era conhecido por todos em Natal, havia adquirido o carro no dia anterior por 35.000 cruzeiros na firma Santos & Cia., representante da Ford na cidade, e já no modelo 1974.

Montado então no possante, o meliante fugiu de Natal.

Ford Maverick 4 portas, motor V8 – Fonte – https://rrautosantigos.com.br/produto/ford-maverick-super-luxo-1974/

Confesso que essa última informação me deixou triste, pois conheci na juventude Seu Dudu, lá no velho bairro da Ribeira, no comércio de peças e acessórios de Seu Calabar Medeiros, meu pai. Guardo de Seu Dudu a recordação de um homem cordial e animado, que adorava caminhar pela cidade e conversar sobre a época da Segunda Guerra, quando trabalhou para os americanos na Base de Parnamirim.

Rastro de Prejuízos

Roberto Toniato Passarinho Filho deixou no Hotel Reis Magos um prejuízo de 3.300 cruzeiros, sendo 2.000 do cheque (sem fundos) trocado e o restante de itens consumidos e a hospedagem. Alguns afirmam que o prejuízo ultrapassou os dez mil cruzeiros e que alguns funcionários foram ameaçados de demissão.

A prostituta Renata, ao descobrir o verdadeiro desmantelo causado pelo galanteador que lhe dera o Volks, prontamente foi com Dona Maria de Oliveira Barros à Polinter e entregou o veículo ao coronel Bento Pacífico de Medeiros. Ela ainda comentou ao repórter da Tribuna do Norte que o vagabundo havia deixado no cabaré um cheque sem fundo de 1.000 cruzeiros pela farra realizada.

A equipe da Polinter descobriu que ele havia tido contato com uma jovem muito bonita, oriunda do interior do estado e que morava na Casa do Estudante. Para conquistá-la, o vigarista carioca ofereceu um cheque sem fundos de 18 mil cruzeiros e prometeu um Volks. Provavelmente, conseguiu o que tanto desejava!

Seu Dudu da locadora passou aos policiais a informação de que seu Maverick foi visto saindo da cidade, na área da Ponte Velha sobre o Rio Pitimbu, e que, na BR-101, o motorista desviou para a estrada que liga ao município de Monte Alegre, ao avistar a Polícia Rodoviária Federal rebocando um caminhão acidentado. Por sorte, o veículo foi encontrado dias depois em Recife e devolvido ao seu dono!

Para piorar a situação, naquela mesma semana, quem desembarcou no saudoso Aeroporto Augusto Severo foi o próprio ministro Jarbas Passarinho, que vinha a Natal para a colação de grau dos estudantes da UFRN. Para que a situação não ficasse ainda mais complicada, a Polícia Federal entrou em ação. O delegado Franklin Ferreira de Carvalho notificou todas as sedes da instituição para que prendessem o mentiroso e o recambiou para Natal.

A simplicidade de um barzinho na beira mar de Ponta Negra naqueles tempos.

Infelizmente, o caso se tornou notícia em todo o Brasil. Segundo os jornais cariocas Opinião (edição de 21/12/1973) e o tradicional Jornal do Brasil (edição de 15/12/1973), durante os três dias em que permaneceu no hotel, o “filho do ministro” só foi incomodado pela redobrada amabilidade e zelo dos funcionários, do gerente Cardoso aos garçons que lhe serviam na piscina, onde passava o tempo bebendo whisky e encantando as moças locais com sua boa conversa. Quando soube que o filho do ministro Passarinho estava em Natal, o professor Dalton Mello de Andrade, então Secretário Estadual de Educação e Cultura, tentou falar com o rapaz, mas a resposta foi taxativamente negativa. Certamente, o secretário soube da chegada do Ministro Passarinho a Natal e foi ao hotel de maneira correta procurar saber se estava tudo bem. Apenas um gesto de cortesia ao filho daquela autoridade.

No dia 15/12/1973, o Jornal do Brasil informou que, após a farra em Natal, o golpista deixou em Recife um prejuízo de dez mil cruzeiros no Hotel Miramar, um luxuoso cinco estrelas na Rua dos Navegantes, no bairro de Boa Viagem, inaugurado no ano anterior. Nesse mesmo dia, o periódico carioca Luta Democrática afirmou que, certamente, o larápio soube da chegada do Ministro da Educação e aproveitou a ocasião para aplicar seus golpes.

O “filho do ministro” nunca foi capturado e, além de Seu Dudu da locadora, nenhum outro comerciante ludibriado por esse meliante conseguiu recuperar o prejuízo.

E agora, vem a pergunta que não posso deixar de fazer: será que aprendemos a ter cuidado com aqueles que aqui chegam com más intenções?

UM POUCO DA HISTÓRIA DO BRASIL NAS COPAS DO MUNDO

Ruas enfeitadas, festas por todos os lados, emoção à flor da pele, demonstrações de “patriotismo”: no Brasil e em muitos países, a cada quatro anos, vemos repetir-se a força de mobilização de uma Copa do Mundo de Futebol, cujas finais, que atualmente contam com 32 seleções nacionais, envolvem mais público, movimentam mais recursos e angariam mais prestígio do que os Jogos Olímpicos, outro grande evento esportivo que reúne mais de 20 modalidades.

As primeiras ideias de organizar uma competição mundial de futebol surgiram em 1905, em um cenário em que havia muitas iniciativas de criação de movimentos internacionais (escotismo, esperanto, Cruz Vermelha, jogos olímpicos, entre outros). As iniciativas, todavia, não chegaram a se concretizar por questões operacionais ou políticas, como a Primeira Guerra Mundial.

O 4º gol da seleção Uruguai x Argentina marcado por Héctor Castro – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/1930_fifa_world_cup_final#/media/file:uruguay_goal_v_argentina_1930.jpg

Somente a partir da década de 1920, quando a FIFA (Federação Internacional de Futebol Association, órgão máximo da modalidade, criada em 1904) era dirigida por Jules Rimet, houve esforços mais sistemáticos no sentido de operacionalizar a proposta, que culminaram com a organização da primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai, graças em grande parte ao desempenho da diplomacia do país-sede.

Ao contrário dos Jogos Olímpicos, organizados por cidades, as Copas do Mundo sempre foram promovidas por países. Do primeiro torneio, apenas 14 equipes nacionais participaram, sendo nove do continente americano e cinco do europeu.

Naquela ocasião, provavelmente não se imaginava que a competição iria crescer de tal forma que envolveria praticamente todos os países do mundo. Vale citar que a FIFA possui mais associados do que a Organização das Nações Unidas (ONU). Também no Brasil, essa primeira edição não teve grande impacto, inclusive pelo fato de a equipe representativa ser fruto de uma cisão entre paulistas e cariocas.

A seleção brasileira obteve um modesto sexto lugar. O Uruguai foi o campeão, o que não surpreendeu por sua condição de bicampeão olímpico (1924 e 1928) e país-sede. 

Jogadores da Alemanha Nazista realizando a sua saudação tradicional na Copa do Mundo de 1938 – Fonte – https://www.history.com/news/world-cup-nazi-germany-forced-austrian-players-lost

A segunda edição do evento foi realizada em 1934, na Itália. A competição começava a tornar-se mais popular, tendo sido inscritas 32 seleções para 16 vagas, tornando necessária a organização de eliminatórias. Tal Copa coincide com o avanço do fascismo na Itália, bem como de regimes autoritários na Alemanha, na Espanha e Portugal.  Foi concebida por Mussolini como uma forma de provar ossupostos avanços possibilitados pelo novo regime. Até mesmo facilitou-se a naturalização de estrangeiros, a fim de fortalecer a seleção italiana. Curiosamente, um brasileiro, Anfilogino Guarisi, foi campeão jogando pela equipe da casa.

Os torcedores brasileiros somente se empolgaram com a Copa do Mundo a partir de 1938, realizada na França. Com os problemas de organização no futebol nacional bastante amenizados, em função da intervenção governamental (já em pleno Estado Novo), enviou-se uma equipe forte, que contou com grande apoio popular. O Brasil conquistou o terceiro lugar, tendo uma participação bastante destacada: perdeu a semifinal para a Itália, um jogo bastante controverso por problemas de arbitragem. Leônidas da Silva foi o artilheiro da competição.

Selo comemorativo da Copa do Mundo de 1950 no BHr5asil – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/1950_FIFA_World_Cup

Deve-se ter em conta que, no cenário brasileiro, o futebol começava a ser mais comumente mobilizado como elemento discursivo na construção de uma identidade nacional, inclusive por uma reabilitação dos fenômenos culturais considerados mestiços, momento que tem como uma importante marca a difusão das ideias de Gilberto Freyre.

Algo que contribuiu e foi mesmo fundamental para o crescimento da popularidade do futebol e das Copas foi a atuação dos meios de comunicação. No Brasil, se em 1930 os torcedores tinham de esperar pelas notícias nas redações dos jornais, em 1938 já era possível acompanhar os jogos pelo rádio e também se podia assistir posteriormente às partidas nos cinemas.

Waldir Pereira, o Didi, bicampeão mundial de futebol em 1958 e 1962, apertando a mão do Presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira – Fonte – Arquivo Nacional.

Em 1958, os jogos já podiam ser acompanhados pela televisão, sempre alguns dias depois de sua realização. Ao vivo, isso somente se tornou possível a partir da Copa de 1970. Nessa ocasião, fora introduzido o recurso do replay e, no decorrer do tempo, cada vez mais inovações tecnológicas marcariam as coberturas esportivas. A transmissão dos jogos tornou-se um verdadeiro espetáculo, transmitido por muitas emissoras de todo o mundo, que pagam direitos caríssimos e buscam a todo custo conquistar o público.

A Copa do Mundo é o evento líder mundial de audiência televisiva. Na última edição do evento, realizada no Brasil, em 2014, estima-se que houve cerca de 4,5 milhões de espectadores por partida, média superior à obtida na África do Sul.

Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, conversando com Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha – Fonte – Arquivo Nacional.

Vários recordes mundiais foram também quebrados nos outros meios de comunicação, inclusive na internet.

Aproximadamente 1 bilhão de torcedores acompanharam on-line os jogos pelo site da FIFA No Brasil, se em 1938 o interesse foi grande, a Copa do Mundo tornou-se mesmo uma febre quando o país organizou a edição de 1950, construindo para tal o que na época seria o maior estádio do mundo e que ainda hoje, já bastante modificado por reformas recentes é uma das grandes referências do futebol mundial: o Maracanã.

O Preseidente da República João Melchior Marques Goulart abraçando o goleiro bicampeão mundial Gilmar dos Santos Neves – Fonte – Arquivo Nacional.

Depois de duas goleadas na fase final, ninguém esperava que o Uruguai fosse sair vitorioso na partida decisiva contra a seleção brasileira. A derrota por 2 × 1 foi uma das maiores tristezas do esporte brasileiro, para alguns foi mesmo encarada como uma marca das debilidades da nação.

Na ocasião, a competição era retomada depois do fim da Segunda Grande Guerra, e o Brasil, com a organização do evento, vislumbrava demonstrar seu protagonismo no novo tabuleiro internacional. Essa postura tornou-se comum no decorrer do século, inclusive em função da Guerra Fria: os blocos socialista e capitalista transferiram parte de seus conflitos e enfrentamentos para as instalações e competições esportivas.

O general Castelo Branco apertando a mão de Garrincha. Ao lado do militar vemos o então presidente da Confederação Brasilira de Desportos, CBD, Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange – Fonte – Arquivo Nacional.

Depois do fracasso na Copa de 1950, repetido na edição de 1954, realizada na Suíça, o país finalmente sagrou-se campeão em 1958, na Suécia, em um torneio que ficou marcado pela aparição internacional de uma das maiores estrelas da história do futebol e do esporte do século: Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, na época com 17 anos.

A seleção brasileira voltaria a se sagrar campeã em 1962, na Copa do Chile, onde o grande destaque foi Garrincha, não se saindo bem em 1966, na Inglaterra, uma edição marcada pela violência e pela benevolência dos árbitros com a equipe da casa, que se sagrou vitoriosa em uma final extremamente polêmica com o time nacional da Alemanha.

Pelé – Fonte – Arquivo Nacional.

Em 1970, no México, a equipe nacional tornou-se a primeira tricampeã da competição, após uma fase da preparação marcada por conflitos internos, com o técnico João Saldanha sendo substituído por Zagalo, mas também por grandes investimentos no treinamento. Nunca antes uma seleção brasileira fora tão bem preparada, com tanta antecedência.

Muitos autores sugerem que esses investimentos estariam ligados à vontade dos militares, que comandavam o regime de exceção em vigor no país, de provarem o quanto eram adequadas suas propostas para o país. Além disso, estariam relacionados com uma estratégia de dispersão e distração da população brasileira. Tais hipóteses têm sido muito contestadas. Independentemente das polêmicas, não se pode negar a ampliação da atenção ao esporte a partir de então, bem como o forte clima de patriotismo que cercou a participação da seleção brasileira no México.

A Seleção Brasileira de Futebol que participou da Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental. Ao centro da foto, de paletó preto, está o general Ernesto Geisel, tendo ao seu lado esquerdo o potiguar Francisco das Chagas Marinho, o Marinhgo Chagas – Fonte – Arquivo Nacional.

As Copas de 1974 (Alemanha), 1978 (Argentina, uma edição muito polêmica em função de o país-sede viver um período ditatorial, liderado por militares, que cometiam constantes desrespeitos aos direitos humanos), e 1982 (ao contrário da anterior, marcada pelo processo de redemocratização da Espanha) foram marcadas por muitas mudanças, uma tentativa de a FIFA se sintonizar com o novo cenário internacional, algo que imediatamente repercutiu no aumento do número de participantes nas finais do evento e numa maior atenção para as equipes asiáticas e africanas.

Além disso, melhor se estruturavam as estratégias de negócios ao redor do futebol. Em 1982, pela primeira vez foi introduzido o conceito de “patrocinador oficial”. Se as primeiras propagandas apareceram de forma muito embrionária já na Copa de 1934, a partir da Espanha essa relação comercial tornou-se cada vez mais intensa. Basta lembrar que, no Brasil, o personagem “Pacheco”, parte da propaganda de uma empresa de lâmina de barbear, tornou-se um dos mais populares até hoje.

Arthur Antunes Coimbra, o Zico- Fonte – Arquivo Nacional.

Por trás dessas mudanças, deve-se citar o nome de João Havelange, que desde 1974 assumira a FIFA e veio a tornando uma das mais poderosas instituições do mundo. O dirigente tornou o futebol em um grande negócio global. As Copas do Mundo passaram a ser um dos principais palcos de lançamento de novidades, de estratégias comerciais e de badalação, a faceta mais conhecida de um dos esportes mais influentes e populares.

Se essas mudanças definitivamente projetaram o futebol, também trouxeram muitos problemas. Muitas têm sido as denúncias de que o aspecto esportivo está sendo abandonado em função dos lucros e do benefício dos investidores, para além de problemas de falcatruas financeiras diversas.

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o Dr. Sócrates – Arquivo Nacional.

A Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, foi o momento auge desses problemas, uma expressão das ambiguidades que cercam o evento. Se de um lado alcançou popularidade e impacto jamais visto, foi marcada também por manifestações e insatisfação da população com os gastos públicos excessivos e com a interferência da FIFA na governança nacional. Se de um lado, observou-se um dos melhores resultados técnicos, foram também descobertas ilegalidades nos negócios que cercam a competição.

Somente no futuro será possível melhor precisar o impacto dessas ocorrências, mas provavelmente durante muitos anos ainda persistirá a articulação entre governos instituídos e mercado na promoção das Copas do Mundo. As próximas edições já têm sido marcadas por polêmicas em função das características autoritárias do governo de Putin, cuja Copa de 2018 ocorreu na Rússia e da compra de votos na escolha da sede de 2022 (Qatar), denúncia ainda não confirmada, que está sendo apreciada pela FIFA, que
também tem sido compelida a adotar posturas mais transparentes em função de escândalos financeiros que cercam o mundo futebolístico.

Neymar da Silva Santos Júnior, considerado por muitos o maior craque da atual Seleção Brasileira de Futebol- Fonte – https://esportes.r7.com/prisma/copa-2018/cosme-rimoli/o-mal-que-neymar-faz-para-a-selecao-brasileira-10072018 – REUTERS/DAVID GRAY – 02.JUL.2018

Fonte

Livro – Enciclopédia de guerras e revolução, Volume 1, 1901 a 1919, páginas 338 a 342. Organizadores – FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA DA SILVA, SABRINA EVANGELISTA MEDEIROS e ALEXANDER MARTINS VIANNA.

Referências

HELAL, Ronaldo, CABO, Álvaro do. Copas do Mundo: comunicação e identidade cultural no país do futebol. Rio de Janeiro: EdUerj, 2014.

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de; MELO, Victor Andrade de (orgs.). O esporte na imprensa e a imprensa esportiva no Brasil. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012.

MASCARENHAS, Gilmar, BIENENSTEIN, Glauco, SANCHEZ, Fernanda (orgs.). O jogo continua: megaeventos esportivos e cidades. Rio de Janeiro: EdUerj, 2011.

PRIORE, Mary Del; MELO, Victor Andrade de (orgs.). História do Esporte no Brasil: da colônia aos dias atuais. São Paulo: Editora Unesp, 2009.