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O BRASIL TAMBÉM TEVE CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO

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Durante a Segunda Guerra Mundial, também tivemos nossos campos de concentração – onde japoneses, italianos e principalmente alemães ficaram confinados. Conheça as histórias dessas pessoas.

Manhã de 2 de março de 1944. Na Estação Experimental de Produção Animal de Pindamonhangaba, uma fazenda no interior de São Paulo, ouviu-se um som que não era comum no local. Era o choro de uma criança nascendo. Mas não uma criança qualquer. O choro era de Carlos Johanes Braak, o único brasileiro nascido em um campo de concentração – e em seu próprio país. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil manteve 31 campos de concentração, para onde mandava os cidadãos de países do Eixo – a coligação formada por Itália, Japão e Alemanha. Os pais de Carlos, que eram alemães, estavam entre as centenas de pessoas que viveram esse lado menos cordial da história brasileira. “Era uma fazenda. O estábulo virou um dormitório. Minha mãe ficava numa casa, separada. Foi onde passei os dois primeiros anos da minha vida”, lembra Carlos.

O pai de Carlos se chamava August Braak. Sua mãe, Hildegard Lange. Eles partiram de Hamburgo, na Alemanha, em direção à Cidade do Cabo, na África do Sul. Estavam a bordo de um navio chamado Windhuk, no qual August trabalhava como comissário e tesoureiro.
O Windhuk era uma embarcação turística, mas também coletava mercadorias. Quando a 2ª Guerra começou, o navio já estava no continente africano – em Lobito, Angola, recebendo um carregamento de laranjas. O navio não tinha como voltar para a Alemanha em guerra, pois estava sendo perseguido por embarcações inglesas. O capitão decidiu fugir para o Brasil. E a embarcação acabou chegando ao Porto de Santos disfarçada de navio japonês, com o nome de Santos Maru, em 7 de dezembro de 1939.

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Assim que o navio chegou aqui, ficou evidente que ele não era japonês coisa nenhuma. Mas os alemães foram bem recebidos. August e Hidelgard, bem como os outros 242 tripulantes, viviam em Santos e redondezas. Alguns moravam no próprio barco, outros, em pensões. Todos recebiam salários do governo alemão, e levavam uma boa vida. Em 19 de abril de 1940, os pais de Carlos se casaram numa festa a bordo do navio.

Mas, em 1942, tudo mudou. O Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo – cujos cidadãos passaram a ser considerados inimigos. “O governo brasileiro precisava fazer isso [criar os campos de concentração] para se alinhar com as estratégias dos Aliados e dos EUA”, explica a pesquisadora Priscila Perazzo, autora do livro Prisioneiros da Guerra (Ed. Humanitas). Alguns estrangeiros foram mandados para presídios comuns – como os de Ilha Grande e Ilha das Flores (RJ). Mas a maioria foi para campos de concentração, organizados pelo Ministério da Justiça.

Os pais de Carlos foram parar num desses campos – a fazenda em Pindamonhangaba, onde ficaram confinados 136 alemães do navio Windhuk. Eles foram presos porque seu navio tinha chegado ao Brasil durante a guerra, coisa que o governo interpretou como uma ameaça.

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Os prisioneiros não podiam manter suas tradições. Nada de ler livros em alemão, por exemplo. Mas o clima era relativamente tranquilo. Alguns prisioneiros podiam visitar o centro da cidade aos sábados, aonde iam acompanhados pelos guardas. “Era comum os presos chegarem carregando os fuzis dos guardas, que sempre voltavam bêbados”, diz Carlos.

Trabalhos forçados 

A outra parte da tripulação do navio foi parar no campo de Guaratinguetá – entre eles Horst Judes, também tripulante do Windhuk, que tinha 19 anos. Quando desembarcou em Santos, foi um dos que ficaram vivendo no navio, até ser preso em 1942. No campo de concentração de Guarantinguetá, o tratamento não era tão bom. “Éramos obrigados a trabalhar no campo”, conta o alemão em entrevista em 2011, com 87 anos e dono de uma chácara no interior de São Paulo. A rotina no campo de Guarantinguetá era acordar cedo, pegar enxada e picareta e dar duro. Cada prisioneiro levava um número nas costas. “O meu era 17”, conta Horst. O café da manhã tinha dois pãezinhos e uma caneca de café. No almoço e no jantar era só arroz com feijão. Às quintas e aos domingos, era dia de macarrão. Mas a comida nem sempre era suficiente, e os prisioneiros dependiam de padrinhos, geralmente alemães livres, que os ajudavam de diversas maneiras. Alemães livres? Sim. A maior parte dos imigrantes não foi presa. Iam para os campos aqueles que chegavam ao Brasil em plena guerra, ou eram suspeitos de espionagem.

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Foi graças a esse apadrinhamento que Horst conseguiu sobreviver depois de ser solto, em 1945. “Saímos do campo sem dinheiro nem emprego. Foram os padrinhos que nos ajudaram. O meu era de São Paulo. Trabalhei como mordomo e até como taxista”, conta. Como a maioria desses estrangeiros, ele também constituiu uma família brasileira, e diz gostar do país que adotou de maneira forçada.

Na época, o governo brasileiro fazia de tudo para mostrar que os prisioneiros de guerra eram bem tratados – o que nem sempre era verdade. O tempo de internamento variava. Houve pessoas que ficaram 3 anos presas, mas outras conseguiam ser libertadas mais cedo. Também é difícil definir exatamente o número de presos que foram mandados para os campos de concentração brasileiros entre 1942 e 1945, pois os registros são vagos. Mas existe uma documentação que revela nomes e, em alguns campos, o número exato de prisioneiros que passaram por lá. Os registros comprovam que a maioria era de alemães, seguidos de japoneses em bem menor número, italianos e um ou outro austríaco.

Juventude Hitlerista 

Poucas pessoas foram tão afetadas com o internamento nos campos quanto Ingrid Helga Koster, cujas memórias registrou no livro Ingrid, uma História de Exílios (Ed. Sagüi). Nascida no Paraná, ela se tornou órfã de pai com apenas 1 ano de idade. Quando tinha 5 anos, sua mãe se casou novamente, com um alemão. Seu padrasto, Karl von Schültze, tinha migrado para o Brasil em 1920, para fugir da crise que castigava a Alemanha depois da 1ª Guerra Mundial. Schültze chegou aqui e, junto com outros estrangeiros, começou a trabalhar em uma empresa alemã, a AEG, fazendo instalações elétricas em vários lugares do país. Ele se casou com a mãe de Ingrid no início dos anos 30, em Rio Negro, no Paraná. Pouco depois a família, já com duas outras filhas, se mudou para Joinville, em Santa Catarina, cidade dominada pela cultura alemã. Ingrid se lembra de ouvir no rádio um novo chanceler que assumira o poder na Alemanha, cujo carisma a deixava emocionada. “Eu ficava arrepiada. Ele sabia falar com o povo. Nós não imaginávamos o que estava acontecendo”, conta Ingrid. O tal chanceler era Hitler.

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Então começou a guerra, e o pai de Ingrid pressentiu que as coisas ficariam ruins. Ele proibiu, mais de uma vez, que Ingrid se unisse ao movimento Juventude Hitlerista que existia em Joinville. Na Alemanha, esse grupo foi criado para reunir e doutrinar ideologicamente os jovens de 6 a 18 anos. No Brasil, o grupo assumiu um tom mais brando – servia principalmente como ponto de encontro para os imigrantes alemães. Mas o pai de Ingrid não quis nem saber. E também queimou todos os livros em alemão que tinha em casa. Entre eles o famoso Mein Kampf (Minha Luta), de Hitler.

Até que, em 1942, a polícia bateu à porta. “Eles chegaram procurando pelo meu pai, o levaram e ficamos dias sem notícias. Até que chegou um comunicado dizendo que ele estava preso aqui em Joinville”, lembra ela, que depois de algum tempo passou a levar marmitas para seu pai no Hospital Oscar Schneider, adaptado como campo de concentração à época. O governo brasileiro acreditava que Karl fosse um espião nazista.

Por isso, o regime de confinamento dele era rígido. Nos dois meses em que ficou em Joinville, nenhum familiar pode visitá-lo. A marmita era entregue aos guardas. Até que certo dia, quando Ingrid foi levar a comida, lhe avisaram que seu pai não estava mais lá: tinha sido transferido para o Presídio da Ilha das Flores, no Rio de Janeiro. “Nosso dinheiro acabou e tivemos que voltar para o Paraná, viver do jeito que dava”, diz Ingrid. “Nossa casa era apedrejada, pichavam a suástica nos muros. Nós éramos o inimigo.”

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Daí em diante, ela só pôde visitar o padrasto uma vez por ano – no Natal. Quando a guerra acabou, Karl foi libertado por falta de provas. Mas seu chefe na AEG, Albrecht Gustav Engels, acabou condenado a 8 anos de prisão por fazer espionagem nazista. “Meu pai nunca falou sobre os tempos em que ficou preso. Mas acredito que tenha sofrido muito, inclusive tortura, porque antes era uma pessoa alegre e depois se tornou calado, triste”, conta Ingrid. Ela chegou a perguntar antes de o padrasto morrer, em 1966, se ele realmente espionara. Karl deu uma resposta vaga, e disse apenas que não foi condenado. Então ele era mesmo um espião nazista? “Até hoje não tenho certeza”, admite Ingrid.

Mesmo tendo passado por sofrimentos e humilhações, os prisioneiros alemães não quiseram deixar o Brasil depois da guerra. Como o padrasto de Ingrid. “Quando eu perguntava se ele não gostaria de voltar, ele dizia que, apesar de tudo, agora era brasileiro.”

Os principais campos de detenção
1. Tomé-Açú (PA)
A 200 km de Belém. Recebeu alemães e japoneses.
2. Chã de Estêvão (PE)
Abrigou empregados alemães da Cia Paulista de Tecidos (hoje conhecida como Casas Pernambucanas).
3. Ilha das Flores (RJ)
Nessa cadeia, prisioneiros de guerra foram misturados com detentos comuns – uma violação das leis internacionais.
4. Pouso Alegre (MG)
O campo de Pouso Alegre reunia presos militares: os 62 marinheiros do navio Anneleise Essberger.
5. Guaratinguetá e Pindamonhangaba (SP)
Fazendas que pertenciam ao governo e foram adaptadas para receber alemães.
6. Oscar Schneider (SC)
Hospital transformado em colônia penal.

FONTE – http://noitesinistra.blogspot.com.br/2013/09/o-brasil-tambem-teve-campos-de.html

 

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HÁ 100 ANOS, FIM DA SANGRENTA GUERRA DO CONTESTADO

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Grupo de vaqueanos (milícia armada privada) defende madeireira de ataques de revoltosos na Guerra do Contestado. Esta e as demais fotos desta galeria são do fotógrafo sueco Claro Jansson, que imigrou para o Brasil em 1891 e viveu na região na época da guerra Acervo Dorothy Jansson Moretti

Adeodato Ramos havia passado boa parte do gelado inverno catarinense de 1916 embrenhado na mata, fugindo de seus perseguidores. Depois de uma noite de geada, o último líder rebelde da Guerra do Contestado estava exausto. Ao sair da mata e sentar-se à beira da estrada para se aquecer ao sol, foi flagrado por uma patrulha. O “temido facínora”, o “sanguinário chefe dos fanáticos”, o “flagelo de Deus”, como o descreviam os jornais da época, entregou-se sem nem sequer esboçar resistência.

A captura dele, na virada de julho para agosto, marcaria o fim da guerra, que se arrastou por quatro anos e transformou a região do Contestado (área disputada por Santa Catarina e Paraná) no palco da revolta mais sangrenta do século 20 no Brasil.

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Os rebeldes chegaram a se espalhar por uma área equivalente ao tamanho de Alagoas. Entre 1912 e 1916, eles enfrentaram as forças policiais e militares dos dois estados e do Exército. Os insurgentes eram movidos por motivos que iam do messianismo à luta pela terra. Eram contra o poder público e os coronéis locais. Reagiam ao impacto da construção de uma estrada de ferro, que os expulsou da terra onde viviam.

 

Estima-se que pelo menos 10 mil pessoas pereceram na região do Contestado, tanto nos combates quanto de fome e de doenças como o tifo, que se alastrou pelas “cidades santas” erguidas pelos revoltosos. Entre os mortos, milhares de mulheres e crianças.

A guerra mobilizou metade do efetivo do Exército: mais de 7 mil soldados, nos momentos de luta mais intensa. 

Messianismo 

A indefinição dos limites territoriais entre Santa Catarina e Paraná vinha desde o Império, e até a Argentina pleiteava a posse de áreas dos dois estados. O Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa aos catarinenses em 1904 e reafirmou sua decisão nos anos seguintes, mas a sentença era ignorada pelo governo paranaense. Nesse cenário de conflito, a revolta prosperou.

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Curandeiro José Maria

A guerra começou pequena, com um grupo reduzido de sertanejos (moradores desses campos do Sul, chamados de sertão na época) que em 1912 reuniu-se em torno de um curandeiro. José Maria seguia a tradição de outros dois curandeiros que haviam passado por lá anos antes e eram considerados “monges” pelos sertanejos. Ele também fazia profecias: anunciava uma monarquia celestial em que todos viveriam em comunhão, dividindo bens.

Dos seguidores do novo monge, muitos eram posseiros, sitiantes e pequenos lavradores que haviam sido expulsos das terras em que viviam pelo grupo americano responsável pela construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, do megaempresário Percival Farquhart.

Além da concessão, Farquhart ganhou do governo brasileiro as terras situadas às margens da ferrovia, uma vasta faixa de 15 quilômetros de cada lado.

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Entroncamento da Brazil Railway, durante a construção de linha férrea entre o porto de São Francisco e São Bento, emSanta Catarina.

Depois da construção da estrada de ferro, a região, coberta de matas de árvores nobres como a araucária, começou a ser desmatada. O empresário ergueu lá a maior madeireira da América do Sul na época e uma companhia colonizadora que, depois do desmate, venderia as terras a imigrantes europeus. Famílias que viviam no local foram expulsas por milícias armadas da empresa, com apoio das autoridades brasileiras.

Primeira batalha

O monge José Maria e os fiéis se instalaram em Taquaruçu, nos arredores de Curitibanos (SC). Temendo que o grupo fosse usado por inimigos políticos, um poderoso coronel da cidade pediu ao governo catarinense tropas para dispersar um “ajuntamento de fanáticos” que supostamente queria proclamar a Monarquia no Sul do Brasil.

Ao saber que a força policial havia sido chamada, os fiéis fugiram para Irani (SC), localidade que na época estava na área do Contestado.

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Barricada de madeira protege serraria dos ataques rebeldes em Três Barras (SC) Acervo Dorothy Jansson Moretti

A chegada do grupo foi vista pelo Paraná como uma investida de Santa Catarina para forçar a posse do território contestado. Em resposta, o Paraná enviou um destacamento policial para expulsar os supostos invasores. Em outubro de 1912, a ação terminou de forma trágica, com 21 mortos. Entre eles, o monge José Maria e o comandante das forças de segurança do Paraná, coronel João Gualberto.

Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado mostram a reação dos senadores ao conflito. Dois dias depois da batalha, a morte do comandante foi anunciada no Plenário do Senado, sediado no Palácio Conde dos Arcos, no Rio.

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Serraria Lumber, maior da América do Sul na época, pertencia ao empresário americano Percival Farquhar Acervo Dorothy Jansson Moretti

O senador paranaense Generoso Marques falou aos colegas sobre a “horda de bandidos e fanáticos” que havia invadido o Paraná e leu um telegrama enviado pelo governador do Paraná, Carlos Cavalcanti, ao Congresso. O governador comunicava que o estado havia pedido ao presidente da República, Hermes da Fonseca, a intervenção de forças federais.

O senador catarinense Abdon Batista apoiou o colega: — Esse acontecimento, ao mesmo tempo em que nos cobre de pesado luto, nos anima e nos incita na obrigação de secundar as forças do estado vizinho para que, de uma vez, sejam extirpados os elementos maus que procuram perturbar nossa vida de trabalho e progresso.

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Trem carregado de toras enfrenta enchente do Rio Negro, em Três Barras (SC)

Ao longo do conflito, os dois estados trocariam acusações de incentivar os revoltosos e até de fornecer-lhes armas.

Exército encantado

Depois da morte do monge, os devotos se dispersaram. O messianismo, porém, permaneceu. No ano seguinte, difundiu-se a crença de que José Maria voltaria do céu, acompanhado do “Exército Encantado de São Sebastião”. Uma criança de 11 anos dizia ver o monge em sonhos pedindo aos fiéis que se preparassem para uma guerra santa. O grupo rebelde voltou a se reunir em Taquaruçu.

Agora não eram apenas os antigos seguidores do monge José Maria que se prepararam para a luta.

Somaram-se a eles descontentes em geral: mais colonos expulsos, fazendeiros que se opunham aos coronéis, tropeiros sem trabalho, desempregados da obra da ferrovia e até ex-combatentes da Revolução Federalista (1893–1895), que tinham experiência com armas e contestavam a República.

— Num determinado momento, torna-se uma guerra de pobres contra ricos — diz o historiador Paulo Pinheiro Machado, autor do livro Lideranças do Contestado. — Uma guerra daqueles que queriam formar suas comunidades autônomas, onde todos viveriam em comunhão de bens, o que era uma negação da própria ordem republicana, da concentração fundiária, do poder dos coronéis da Guarda Nacional e da força da polícia, do Exército e da companhia norte-americana ferroviária sobre eles.

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Milícia armada de um coronel em Canoinhas (SC), em 1914 – Acervo Dorothy Jansson Moretti

Machado contesta a visão de que o fanatismo religioso de sertanejos pobres e ignorantes foi o principal combustível da revolta. O pesquisador sustenta que, paralelamente à crença na guerra santa, os rebelados haviam desenvolvido uma nítida consciência de sua marginalização social e política e de que “lutavam contra o governo, que defendia os interesses dos endinheirados, dos coronéis e dos estrangeiros”.

“Novo Canudos”

Na época, porém, a visão predominante na imprensa, refletida no Congresso Nacional, ignorava os problemas que motivaram a insurreição sertaneja. Em setembro de 1914, o senador Abdon Batista desqualificou no Plenário denúncias do deputado federal Maurício de Lacerda, do Rio de Janeiro, que afirmava que a usurpação de terras era a principal causa do conflito: — É uma lenda. Essa gente não tem terras nessas zonas, o que querem é viver sem trabalhar.

Uma das poucas vozes dissonantes no Congresso, Lacerda disse à imprensa que o Contestado era “um novo Canudos” e defendia os revoltosos, “brasileiros donos de suas terras e que foram usurpados por uma empresa estrangeira”.

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Messianismo presente – Na foto vemos Nhá Emídia, famosa curandeira que morava em uma grata em Três Barras, SC. Fanatismo nascido da miséria.

— As vítimas, como era natural, defenderam-se. O que se devia esperar? Que o Estado fosse em socorro daqueles homens, mas verificou-se o contrário — declarou aos jornalistas.

O deputado denunciava que dois influentes políticos paranaenses, “protetores da empresa estrangeira que havia se apoderado à força das terras dos sertanejos”, conseguiram que o governo mandasse forças para “defender os ladrões e matar brasileiros que licitamente defendiam suas propriedades”.

Esses políticos eram o senador Alencar Guimarães (que havia governado o Paraná) e o vice-governador Affonso Camargo.

Guimarães defendeu-se no Plenário do Senado. — Nunca fui homem de negócios, jamais advoguei interesses de qualquer companhia nacional ou estrangeira que colidissem com interesse do Estado.

“Pavor e pena”

Expedições militares tentaram desmobilizar o movimento, atacando Taquaruçu. Depois de várias tentativas, o reduto foi destruído em fevereiro de 1914. A força militar bombardeou a comunidade de longe. Atingiu principalmente mulheres, crianças e idosos, pois a maior parte dos homens havia partido para formar outro reduto, o de Caraguatá.

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Comandante João Gualberto (montado) a caminho da batalha, pouco antes de morrer em combate Acervo Dorothy Jansson Moretti

Foi um massacre. Metralhadoras, canhões e até granadas foram usados no ataque. No livro A Campanha do Contestado, o militar Demerval Peixoto, que participou dos combates como soldado, reproduz o relatório do médico que acompanhou a expedição: “Pernas, braços, cabeças, casas queimadas… Fazia pavor e pena o espetáculo que se desenhava aos olhos. Pavor motivado pelos destroços humanos; pena das mulheres e crianças que jaziam inertes por todos os cantos”.

A revolta da população contra o massacre só fez fortalecer o movimento, e os sertanejos começaram a expandir suas ações. Milhares de novos adeptos se mudavam para os redutos. Novas “cidades santas” surgiam. A maior delas, Santa Maria (que não tem relação com o município gaúcho homônimo), tinha 25 mil pessoas.

Ao mesmo tempo, o movimento se militarizou, com líderes “de briga” aliados aos religiosos. No inverno de 1914, os sertanejos começaram a saquear fazendas, roubando gado e comida e arregimentando pessoal (até sob ameaça) para reforçar os redutos. Passaram a atacar e ocupar cidades. Nos ataques, estações de trem e repartições públicas eram queimadas.

Com apoio dos governadores de Santa Catarina e Paraná, em 1914 o governo federal decidiu empreender uma grande operação militar para aniquilar a insurreição. Sob o comando do general Setembrino de Carvalho, 6 mil soldados rumaram para o sul do país. Além deles, 2 mil civis (chamados vaqueanos), a maioria integrantes das guardas privadas armadas mantidas pelos coronéis da região, foram contratados para auxiliar o Exército. A ordem do governo era clara: “acabar com os fanáticos”, como contou o próprio general Setembrino em suas memórias.

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Artilharia das forças paranaenses que seria usada nos ataques contra os sertanejos Acervo Dorothy Jansson Moretti

Quando o cerco aos redutos se apertou, começou a faltar comida, remédios e munição para os rebeldes. Sobreviventes relataram que, no final, comeram até couro de cintos e arreios para não morrer de fome. Para evitar deserções, alguns líderes, como Adeodato, impuseram um regime de terror nos redutos, executando os suspeitos de traição.

O reduto de Santa Maria foi destruído na Páscoa de 1915. Em telegrama a Setembrino, o capitão responsável pelo ataque detalha: “Tomei e arrasei 13 redutos com enormes sacrifícios do meu heroico destacamento. Matamos em combate perto de 600 jagunços, não contando o grande número de feridos. Arrasei perto de 5 mil casas e 10 igrejas”.

Fotos produzidas por Terceiros
Guerra do Contestado: forças legais acampadas às margens do Iguaçu em Porto União da Vitória (PR).

Os últimos combates ocorreram em dezembro de 1915, e os rebelados, derrotados, se dispersaram. Houve rendições em massa das famílias sertanejas.

Os vaqueanos começaram então uma caçada aos últimos líderes rebeldes. Muitos deles foram mortos em execuções sumárias, mesmo depois de rendidos. Alguns vaqueanos ganharam fama por retirar sertanejos da cadeia para executá-los.

Acordo de limites

Com a captura de Adeodato Ramos, o último e mais temido líder dos rebelados, a guerra foi encerrada de vez, naquele inverno de 1916. Logo em seguida, em outubro, finalmente veio a assinatura do acordo de limites entre Santa Catarina e Paraná. Pressionados pelo presidente Wenceslau Braz, cada um dos dois estados teve que ceder um pouco. A partilha, porém, foi vista como favorável aos catarinenses, que ficaram com 28 mil dos 48 mil quilômetros quadrados da área contestada.

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Em janeiro de 1915, um dos chefes rebeldes, Bonifácio Papudo, se rende às forças policiais. O militar que conversa com o rebelde era o tenente Castelo Branco. Acervo Dorothy Jansson Moretti

Na assinatura do acordo, no Palácio do Catete, no Rio, o governador de Santa Catarina, Felipe Schmidt, comemorou a paz, encerrando um “passado amargo” que fazia os dois estados se olharem com desconfiança, como “dois povos estranhos que aguardassem, de arma em punho, a hora da peleja”.

O governador do Paraná, Affonso Camargo, também exaltou a paz, mas deixou claro o ressentimento com um desfecho que considerava injusto. Ele justificou sua decisão de assinar o acordo mesmo assim citando a necessidade urgente de encerrar uma “luta fratricida sem precedentes”: — Ali caíram sem vida oficiais do Exército, bravos soldados das forças nacionais e estaduais e milhares de sertanejos, na sua maioria laboriosos, em uma confusão desumana que dolorosamente impressionou todo o país.

Ao citar os sertanejos “em sua maioria laboriosos”, o governador reconhecia que o movimento, hoje visto como uma das maiores revoltas camponesas do Brasil, era mais que uma combinação de fanatismo e banditismo.

Essa consciência se ampliaria a partir dos anos 1970, explica o historiador Paulo Pinheiro Machado. Com a redemocratização do país, criou-se um ambiente favorável para a retomada da memória e dos estudos sobre a Guerra do Contestado.

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Família de sertanejos se rende às forças oficiais em Canoinhas (SC), em 1915 Acervo Dorothy Jansson Moretti

No Senado, essa releitura histórica ficou patente numa sessão especial realizada em agosto de 2009 para lembrar a guerra. No Plenário, os senadores ressaltaram o caráter de revolta social do movimento, as injustiças cometidas contra a população pobre do Contestado e a ausência do Estado.

“Quando o Estado falta, não cumpre com seu dever, se omite, o resultado é este: as pessoas reagem”, disse o senador Raimundo Colombo, hoje governador de Santa Catarina.

O então senador Flavio Arns, do Paraná, afirmou que o governo desconsiderou uma população pobre para privilegiar empresários e fazendeiros.

Fotos produzidas por Terceiros
Guerra do Contestado – Sertanejos após a rendição. Canoinhas (SC), janeiro de 1915

Na época da guerra, uma rara visão lúcida do conflito veio justamente de um comandante do Exército, o jovem capitão Mattos Costa. Idealista, ele defendia uma solução pacífica e morreu em combate, em 1914. Ficou registrada em relatos militares sua concepção da guerra: “A revolta do Contestado é apenas uma insurreição de sertanejos espoliados nas suas terras, nos seus direitos e na sua segurança. A questão do Contestado se desfaz com um pouco de instrução e o suficiente de justiça, como um duplo produto que ela é da violência que revolta e da ignorância que não sabe outro meio de defender o seu direito”.

Fotos produzidas por Terceiros
Guerra do Contestado: Adeodato Ramos, o último líder rebelde (entre os dois policiais), é preso, em agosto de 1916.

Último líder dos rebeldes ganhou fama de “demônio”

A Guerra do Contestado começou com um líder considerado santo — o monge José Maria — e terminou com outro tido como o próprio diabo — Adeodato Ramos.

“O demônio está encarcerado”, anunciou em agosto de 1916 o jornal O Imparcial, de Canoinhas (SC), referindo-se à captura de Adeodato, que tinha fama de assassino e era temido pelos próprios companheiros.

O repórter do jornal O Estado, de Florianópolis, porém, se surpreendeu ao entrevistar Adeodato na prisão.

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General Setembrino de Carvalho (de quepe branco) em estação em União da Vitória (PR)

“Nós, que esperávamos ver o semblante perverso de um bandido, cujos traços fisionômicos estivessem a denotar sua filiação entre os degenerados do crime, vimos, pelo contrário, um mancebo em todo o vigor da juventude, de uma compleição física admirável, esbelto, olhos de azeviche [pretos], dentes claros, perfeitos e regulares, e ombros largos”, escreveu, destacando a postura recatada do “célebre bandoleiro”.

O jornal O Dia, de Florianópolis, relatou que ele respondia aos policiais de forma serena e “tinha o olhar suave”.

Adeodato era uma figura controvertida. “É evidente que ele cometeu muitas atrocidades nos redutos, mas não era muito diferente de outros líderes rebeldes”, escreveu o historiador Paulo Pinheiro Machado, ressaltando que houve uma “demonização” do último líder rebelde, alimentada pelos próprios sertanejos.

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Milícia armada (vaqueanos) protege serraria de ataques, em Três Barras (SC)

Conta-se que, no julgamento, após a ouvir a sentença de 30 anos de prisão, o réu declamou no tribunal versos irônicos:

“Para tirar o mal do mundo / Tinha feito uma jura / Ajudei nosso governo / A quem amo por ternura / Acabei com dez mil pobres / Que livrei da escravatura / Liquidei todos os famintos / E os doentes sem mais cura / Quem é pobre neste mundo / Só merece sepultura.”

Adeodato foi morto em 1923, numa suposta tentativa de fuga da prisão.

Autora – Tatiana Beltrão
Fonte – AGÊNCIA SENADOhttp://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/07/01/ha-100-anos-o-fim-da-sangrenta-guerra-do-contestado

BRASIL TEVE O MAIOR PARTIDO NAZISTA FORA DA ALEMANHA

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Reprodução da capa de revista Der Nationalsozialist, periódico do Partido Nazista

Estima-se que existiram 2,9 mil filiados ao partido em 17 estados brasileiros

Apesar de o Brasil não ter aderido ao nazismo – e lutar contra ele junto aos aliados na Segunda Grande Guerra –, um grupo de alemães que morava no país cultivou as ideologias propostas por Adolf Hitler. Essas pessoas ajudaram, inclusive, a colocar o Füher no poder em 1933.

Calcula-se que chegaram a 2,9 mil os filiados ao Partido Nazista Brasileiro. Mesmo se tratando de um partido, ele não almejava nem concorrer a eleições nacionais, nem ser registrado na Justiça Eleitoral do Brasil. Por este motivo, o presidente Getúlio Vargas e os governadores locais não se importaram com sua fundação, pelo contrário, eram simpatizantes, até mesmo participaram de festividades nazistas. O partido existiu em 83 países, mas, no exterior, foi justamente no Brasil onde teve mais repercussão. “Sua expressividade foi maior, inclusive, do que em países como a Áustria e a Polônia, que estavam sob a tutela do 3.º Reich”, afirma a professora de História da Universidade Federal do ABC Ana Maria Dietrich.

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Fundação

Um documento mostra que foi em Santa Catarina, na cidade de Timbó, em 1928, que o partido foi fundado no país. O estado, porém, teve um número menor de filiados (528) do que São Paulo (785). No Paraná, o partido foi o quinto maior (com metade dos filiados em Curitiba). Segundo o Censo da época, havia 12 mil alemães natos no estado, dos quais menos de 2% eram filiados. “Os nazistas do Paraná, do ponto de vista institucional, não se reportavam diretamente à Alemanha. Acima estava o Landesgruppe (com sede em São Paulo) e este, por sua vez, se reportava à Auslandsorganisation (Organização do Partido Nazista para o Exterior), em Berlim”, explica o historiador Rafael Athaides, que acaba de lançar o livro O partido nazista no Paraná (Editora UEM, R$ 50 com frete).

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Na foto, crianças alemãs da cidade de Presidente Bernardes (SP) fazem a saudação a Hitler, na década de 1930

Comunidade alemã

A explicação para o partido nazista ter sido bem sucedido por aqui está diretamente relacionada com a extensa comunidade alemã do Brasil – eram cerca de 230 mil – que migraram, sobretudo para São Paulo, na década de 1920, quando a Alemanha de Weimar estava em crise e havia a busca por melhora na vida econômica.

Assim como na Alemanha, o partido nazista brasileiro pregava a superioridade de certas raças, combatia o comunismo, fomentava o repatriamento de alemães (muitos retornaram, após receber um financiamento) e, graças ao partido, os alemães daqui também puderam votar em Hitler para assumir o poder na Alemanha em 1933. “O Füher também financiou atividades nazistas nas empresas alemãs instaladas no país”, conta Ana.

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No Paraná, segundo Athai­­des, a atuação do partido foi barulhenta. “Se fez sentir, sobretudo, nos indivíduos da comunidade germânica do estado. Os nazistas se sentiam no direito de se portar como administradores das entidades germânicas locais ”, afirma. É claro que, para fazer parte do partido, era preciso ser alemão de nascimento (os descendentes não eram bem-vindos). Os partidários, de certa forma, também sabiam que o nazismo não era apenas uma reviravolta na economia alemã – que cresceu e quase zerou o desemprego –, mas, acima de tudo, era violento e exterminador.

Dentre as organizações vinculadas ao Partido Nazista Brasileiro, uma delas era a Juventude Hitlerista. “O discurso de Hitler era o de investir em crianças e jovens, porque, dizia ele, os velhos estavam gastos”, afirma a historiadora Ana Maria Dietrich. As crianças alemãs que viviam no Brasil cantavam hinos nazistas, celebravam o aniversário de Hitler e faziam saudações a ele. O Füher pediu a introdução da disciplina de eugenia nas escolas. As crianças aprendiam, entre outras coisas, que não podiam se miscigenar. Os professores das escolas alemãs do Brasil foram orientados a ensinar às crianças segundo os ideários do 3º Reich. 

Amazônia seria alvo de alemães

Existem diversas especulações de que os nazistas pretendiam criar uma área alemã no Brasil, mas historiadores descartam a hipótese porque esta intenção política nunca foi documentada. Na verdade, segundo historiadores, isso não passa de confusão.

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Primeiro porque existiu uma expedição de alemães, patrocinada por nazistas, de 1935 a 1937, à Amazônia. “Na verdade, estas expedições de reconhecimento de território eram comuns à época. A questão é que um dos integrantes morreu durante o caminho e o enterram lá com uma cruz que existe até hoje”, afirma a historiadora Ana Maria Dietrich. A cruz, que tem uma suástica, é explorada como atração turística no Amapá.

O historiador Rafael Athaides lembra que a ideia de que os nazistas “agiam sorrateiramente para conquistar o Sul do Brasil é uma falácia veiculada pela mídia durante a Segunda Guerra Mundial.”

“Esse mito de ‘perigo alemão’ serviu durante o Estado Novo (1937–1945) por dois motivos”, diz Athaides. Um deles, o projeto nacionalista varguista, que via nos alemães uma ameaça nacional; outra, a aproximação do Brasil com os Estados Unidos durante a Segunda Guerra, que resultou em benefícios econômicos ao país, mas criou a necessidade de rompimento com a Alemanha.

Atualidade

Outra confusão que costuma acontecer é associar as ações dos neonazistas (de hoje) com a comunidade alemã e o nazismo histórico. Athaides acredita que é pouco provável que exista qualquer ligação. “Basta fazermos um levantamento do perfil dos indivíduos presos por atividades neonazistas. Nenhum deles é descendente dos nazistas históricos”, diz, antes de completar em seguida. “Os neonazis são, em geral, jovens, desprovidos de referencial identitário e que manipulam os signos do nazismo no mundo.” (PM)

Fonte – http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/brasil-teve-o-maior-partido-nazista-fora-da-alemanha-cf8zq3aco0zap6q9928osdzym

P.S. – Algumas fotos possuem função meramente ilustrativa.

Fonte das fotos – http://historia.newsweek.pl/odpowiedzialnosc-niemcow-za-ii-wojne-swiatowa-spoleczenstwo-niemieckie-ii-wojna-swiatowa,artykuly,371716,1.html

O ESQUECIDO REPENTISTA POTIGUAR JOÃO DA TAPITANGA

Curitiba no início do século XX - Fonte - curitibanosdasilva.blogspot.com
Curitiba no início do século XX – Fonte – curitibanosdasilva.blogspot.com CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR

Homem de vida curta, mas que realizava sua arte com talento e fez muito sucesso no Paraná

Autor – Rostand Medeiros

Sou nascido e vivo em um pequeno estado nordestino chamado Rio Grande do Norte. Aqui é uma terra boa, onde a natureza foi muito benéfica e criou paisagens incríveis e maravilhosas. É também uma terra de gente amiga e onde não é difícil surgir pessoas com muito talento para realizar muitas coisas, principalmente para as artes.

Mas, infelizmente, como tudo na vida sempre possui dois lados, esses talentosos artistas normalmente são sempre vistos em segundo (talvez terceiro? Ou quarto? Quinto?) plano por vários setores de nossa sociedade. Estes artistas são muitas vezes marginalizados, desprezados e esquecidos em sua própria terra. Por vezes o melhor caminho para estes potiguares talentosos vencerem através de sua arte é saindo fora desta terra maravilhosa.

Dizem que na atualidade existem mais facilidades para nossos artistas conquistarem seu lugar ao sol por aqui mesmo. Não sei se esta informação é correta, sei que pesquisando sobre a nossa história em jornais antigos disponíveis na internet, não é difícil encontrar dados sobre pessoas que deixaram nosso chão para tentar vencer em terras distantes.

Um destes foi João da Tapitanga… 

No Sul

Em 1871 Natal era uma esquecida capital de província do Império do Brasil, de vida muito tranquila, onde moravam cerca de 20.000 almas (equivalente atualmente em número de habitantes a cidade potiguar de Monte Alegre). No dia 8 de março nascia João, filho de Francisco I. Emereciano China, membro de uma tradicional família que vivia em Natal, onde não faltavam renomados médicos e até um deputado estadual[1].

Curitiba início do século XX - Fonte - Wikipédia
Curitiba início do século XX – Fonte – Wikipédia

Eu nada encontrei sobre a infância de João Emereciano China, sua adolescência, detalhes sobre sua família, seus estudos e o despertar para a arte do repente. Mas podemos apontar com certa tranquilidade, principalmente através do que deixou escrito, que João China teve uma boa educação. Além disso, sobre estes primeiros anos deste repentista, existe documentação que comprova que João era empregado dos Correios e Telégrafos, na função de “praticante de 2ª classe”[2].

Em 1893, aos 22 anos, João China veio viver em Curitiba, a bela capital paranaense, aonde chegou transferido pela repartição pública que trabalhava. Logo este natalense se envolveu em um sangrento conflito de sérias proporções no Paraná, que marcou a história do Brasil.

Em Meio a Guerra

Nesta época Curitiba era uma cidade menor que Natal, com cerca de 11.500 pessoas vivendo por lá[3]. Muitos dos que ali moravam eram imigrantes alemães, italianos, poloneses e ucranianos, que influenciavam a sociedade, a cultura e a economia da capital paranaense. Mesmo convivendo entre pessoas com maneiras de falar tão distintas e aspectos bastante diferenciados aos encontrados em Natal, sabemos que João China não sentiu muitas dificuldades em se adaptar a nova localidade e logo começou a fazer várias amizades entre os curitibanos.

Maragatos em Santa Catarina Prefeitura de Braço do Norte - SC - Fonte - http://ecomoveiogente.blogspot.com.br/2012/09/a-revolucao-federalista.html
Maragatos em Santa Catarina
Prefeitura de Braço do Norte – SC – Fonte – http://ecomoveiogente.blogspot.com.br/2012/09/a-revolucao-federalista.html

Ativo politicamente, se colocou ao lado do marechal Floriano Vieira Peixoto, presidente do Brasil durante a chamada Revolução Federalista.

Este sério conflito, que se estendeu de 1893 a 1895, foi travado entre os partidários de dois oligarcas gaúchos: de um lado, os federalistas liderados por Gaspar Silveira Martins (conhecidos como maragatos e de lenço vermelho amarrado no pescoço como distintivo); de outro, os republicanos (chimangos ou pica-paus e identificados pelo lenço branco), seguidores do positivista Júlio de Castilhos.

Os federalistas defendiam a instalação de um regime parlamentarista nos moldes do que existiu no Segundo Reinado. Já os republicanos defendiam um presidencialismo forte, centralizador, no estilo do governo de Floriano Peixoto. O confronto ultrapassou as fronteiras gaúchas, estendendo-se até Santa Catarina, Paraná e até no Uruguai [4].

Fotografia de 1894 é de um prédio em ruínas, durante a Revolta da Armada no Rio - Fonte - http://www.revistadehistoria.com.br/secao/na-rhbn/ruinas-em-flashback
Fotografia de 1894 é de um prédio em ruínas, durante a Revolta da Armada no Rio – Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/na-rhbn/ruinas-em-flashback

Em setembro de 1893, paralelo aos conflitos no sul do país, estourou no Rio de Janeiro, mais precisamente na Baía de Guanabara, a Revolta da Armada. Seus principais líderes eram os almirantes Saldanha da Gama e Custódio de Mello, que comandaram a tomada de navios de guerra e bombardearam a então Capital Federal. Na sequência Custódio de Mello seguiu para o sul com seus navios, unindo-se aos revoltosos da Revolução Federalista. Na sequência foi criado um governo provisório para os revoltosos na ilha do Desterro, Santa Catarina.

Floriano Peixoto ficou em uma situação difícil, pois além de ficar impedido de deslocar tropas por mar para o sul do país, ao mesmo tempo precisava defender o Rio de um ataque por terra.

Quando ocorreu o ataque dos federalistas estes conseguiram dominar boa parte do Rio Grande do Sul e Santa Catarina e estabeleceram planos de derrotar o Paraná. A ideia era seguir depois para tomar São Paulo e alcançar o Rio. Em território paranaense os revoltosos visaram dominar por mar a cidade de Paranaguá, vindos de Santa Catarina tomariam a cidade de Tijucas do Sul e a tomada da localidade de Lapa deixaria Curitiba indefesa.

Coronel Dulcídio (militar com menor estatura) em pé, atrás de uma metralhadora Nordenfelt - Fonte - Wikipédia
Coronel Dulcídio (militar com menor estatura) em pé, atrás de uma metralhadora Nordenfelt – Fonte – Wikipédia

Desde o início do Império, a região de Curitiba, sempre se colocou ao lado do poder central, funcionando como uma barreira contra revoluções que vinham do sul e o Paraná se preparou para enfrentar este novo problema. O coronel Cândido Dulcídio Pereira, Comandante do Regimento de Segurança, atual Polícia Militar do Paraná, criou uma nova unidade militar que foi denominada Batalhão Patriótico 23 de outubro e colocou seu efetivo à disposição do Governo Federal. O comando da unidade ficou a cargo de Domingos Virgílio do Nascimento, um antigo aluno das Escolas Militares do Rio de Janeiro e Porto Alegre, mas também conhecido como jornalista, poeta e autor do hino do Paraná. Entre os civis incorporados a este batalhão, com a patente de tenente, estava o repentista potiguar João da Tapitanga.[5]

Informações apontam que o Batalhão Patriótico 23 de Novembro foi colocado à disposição das Forças Federais, sendo esta unidade reunida ao 8º Regimento de Cavalaria e o 17º Batalhão de Infantaria do Exército, todos sob o comando do general Francisco de Paula Argolo. Estas unidades militares receberam ordens para avançar sobre a ilha de Desterro, onde se concentravam os federalistas e os marinheiros sublevados da Revolta da Armada.

Devido o iminente cerco por outras colunas móveis, o general Argolo decidiu recuar as tropas para Rio Negro, no Paraná. Esse procedimento desagradou Floriano Peixoto, que ordenou a Argolo que repassasse o comando das tropas para o coronel Antônio Ernesto Gomes Carneiro, com ordens de reter ao máximo os revoltosos no Paraná, em uma linha de defensiva concentrada na cidade de Lapa, até receber reforços de São Paulo. Mas os reforços paulistas nunca chegaram.

Entrada dos federalistas em Curitiba, Alm. Custódio de Mello e Gal. Gumercindo Saraiva Acervo do Museu Paranaense
Entrada dos federalistas em Curitiba, Alm. Custódio de Mello e Gal. Gumercindo Saraiva
Acervo do Museu Paranaense

Curitiba estava sem exército e governantes, só a Lapa estava guarnecida. Carneiro e suas tropas foram cercadas na cidade, em um dos mais célebres episódios da vida militar brasileira, conhecido como Cerco da Lapa. A cidade foi continuamente bombardeada por 28 dias, entre 15 de janeiro e 11 de fevereiro de 1894 e a luta seguiu ferrenha pelas ruas da cidade, onde restavam apenas escombros. Logo após a rendição e desarmamento dos derrotados, começaram as degolas. Curitiba seria invadida pelos maragatos no dia 20 de janeiro, que permaneceram na cidade até o dia 26 de abril, num total de quase 100 dias.

Com o tempo que conseguiu com a resistência no Paraná, Floriano pôde adquirir armamentos e navios de guerra nos EUA e com eles derrotar Saldanha da Gama. Os comandantes maragatos resolveram voltar ao sul, alguns deles refugiando-se no Uruguai e Argentina. Este conflito deixou um saldo de cerca de 10.000 mortes[6].

No meio dessas movimentações militares, segundo os jornais da época, o tenente, depois promovido a capitão fiscal, João da Tapitanga esteve em ação em fins de 1893, na região de Villa Tamandaré e esteve no Cerco da Lapa, mas não teve a cabeça cortada.[7]

O Repentista Curitibano

Aparentemente a participação militar de João da Tapitanga na Revolução Federalista o colocou em um patamar extremamente positivo junto a sociedade curitibana. Este patamar se ampliou com a sua arte, seu jeito tranquilo, carisma e sua boêmia.

Cartão Postal - Setor HIstórico de Curitiba no início do século XX. Acervo Fundação Cultural de Curitiba
Cartão Postal – Setor HIstórico de Curitiba no início do século XX. Acervo Fundação Cultural de Curitiba

Um dos paranaenses de renome que conviveram com o potiguar foi Francisco Ribeiro de Azevedo Macedo, então Procurador-Geral do Estado, escritor, um dos fundadores e professores da Universidade do Paraná (atual UFPR). Azevedo Macedo e sua esposa Clotilde Portugal Macedo, comentaram em 1913 que João da Tapitanga era considerado um jovem poeta talentoso, que versejava com uma espontaneidade extraordinária e era tido como um homem de maneiras simples e honesta[8].

Era conhecido simplesmente e carinhosamente pelos amigos curitibanos como “Tapi”. Boêmio, tinha no álcool um grande amigo e o seu maior inimigo, que inclusive o levou a demissão dos Correios e Telégrafos. Não era difícil encontrá-lo na Confeitaria Bube, verdadeiro areópago e centro da boemia curitibana, localizado na antiga Rua das Flores, depois Rua 15 de novembro, cujo proprietário, Roberto Bube, lhe havia presenteado com uma cadeira cativa, pois atraia os clientes.

Gostava de participar de reuniões politicas, sempre se colocando como republicano fiel e seguidor ardoroso do marechal Floriano Peixoto. Não era raro nestas reuniões que Tapitinga proferisse discursos arrebatadores com seu forte sotaque nordestino (ou nortista, como chamavam na época), repletos de entusiasmo, recebendo aplausos dos presentes e destaque na imprensa curitibana[9].

Para Azevedo Macedo, o poeta João da Tapitanga chegou ao Paraná já homem feito, com seu espirito já formado e havia estudado longe de Curitiba, mas o que ele trouxe de sua terra natal, a sua arte do repente, impressionou os curitibanos. Chamava atenção quando alguém pedia a Tapitanga um verso, ou lhe davam um mote, que ele respondia sem pestanejar cvom uma grande quantidade de versos “cheio de imagens arrojadas, em redondilha menor”, como registrou Azevedo Macedo.

Detalhe da parte inicial da reportagem produzida  por Euclides da Mota Bandeira sobre Tapitanga em 1926 e publicada em Natal.
Detalhe da parte inicial da reportagem produzida por Euclides da Mota Bandeira sobre Tapitanga em 1926 e publicada em Natal.

Vale ressaltar que nos jornais que li sobre este natalense, raramente era tratado de poeta, sendo normalmente apresentado como REPENTISTA.

Outro contemporâneo de João da Tapitanga, pessoa de renome em Curitiba, foi Euclides da Mota Bandeira e Silva, jornalista, poeta e membro da Academia Paranaense de Letras. Este considerava os repentes do potiguar algo que pelo sul era pouco conhecido e chamava atenção. João da Tapitanga deixou em Bandeira o registo de ser um “incorrigível boêmio, perdulário de rimas e de verves, o qual foi durante alguns anos o bardo popular da cidade”. Comentou também que ele era totalmente autêntico, que “não se prestava a digressões acadêmicas, recheadas de complexidades psicológicas e coisas campanudas sobre escolas literárias” e que “escreveria para gente simples”. [10]

Euclides Bandeira trás a informação que o repentista natalense trabalhava, ou como ele mesmo dizia, “ganhava dinheiro quando este lhe faltava”, em jornais curitibanos, ou passando um tempo como um barnabé que não se preocupava muito com a folha de ponto na Secretária do Interior do Paraná e ganhando uns cobres produzindo folhetins com versos de sua lavra. Um deles, intitulado “Alzira”, fez sucesso e chamou atenção dos curitibanos em 1896, cujo um dos trechos foi assim escrito;

“Alzira, fitando o espaço

Cheios de pontos de luz,

E as mãos unidas em cruz

Sobre o pequeno regaço,

 

Pede ao azul transparente,

Onde os astros ascendem,

Que guarde a alma inocente

Das flores que já morreram…”

João da Tapitanga  era um homem típico do final do século XIX, em um período de comunicações limitadas, mas não era distante dos acontecimentos que ocorriam no exterior. Fez versos e produziu folhetos sobre a Guerra de Independência Cubana de 1895, a vitória do imperador etíope Menelik II contra tropas italianas em Ádua no ano de 1896, ou sobre a Guerra dos Bôeres, na África do Sul.

Em 1897 o 39° Batalhão de Infantaria do Exército Brasileiro partiu de trem de Curitiba em direção ao porto de Paranaguá, seguindo depois para a Bahia de barco, com a missão de participar da Campanha de Canudos. Em meio à multidão delirante que assistia à partida dos militares, Tapitanga, com seu sotaque forte nordestino (algo que nunca perdeu e nem escondia), proferiu um inflamado discurso em prol dos soldados e foi intensamente ovacionado. 

Esquecido

O repentista natalense casou com uma jovem prendada e humilde chamada Jesuína Silva da Cunha e tiveram um filho e duas filhas, cujos nomes na época não eram nada convencionais; Jesoão, Joina e Transvalina. Morava em uma casa alugada na Rua da Assembleia, atual Alameda Dr. Muricy, centro de Curitiba[11].

Um "causo" de joão da Tapitanga em Curitiba - Gazeta de Notícias, 15 de dezembro de 1935
Um “causo” de joão da Tapitanga em Curitiba – Gazeta de Notícias, 15 de dezembro de 1935

Mesmo com informações limitadas, percebemos um João da Tapitanga batalhador e desejando melhorar de vida, mas com dificuldades. Através de pesquisas soubemos que este natalense tentou manter uma escola na chamada Colônia de Agua Verde, hoje um bairro de Curitiba. Esta área, então periférica, era pouco assistida pelas autoridades e os que ali viviam recorriam ao uso de abaixo-assinados para reclamarem, denunciarem e suplicarem pelas mais diversas melhorias na sua região. Um destes abaixo-assinados, produzido em 27 de fevereiro de 1896, foi enviado ao então govenador paranaense, José Pereira Santos Andrade, solicitando a subvenção para uma escola particular que era mantida pelo professor João da Tapitanga desde o mês de janeiro daquele ano. Na tese de doutorado “A escolarização dos imigrantes e de seus descendentes nas colônias italianas de Curitiba, entre táticas e estratégias de italianità e brasilitá (1875-1930)”, apresentada na Universidade Federal do Paraná, pela pesquisadora Elaine Cátia Falcade Maschio, temos a transcrição deste abaixo-assinado; 

“Neste sentido, Nós abaixo assignados, moradores na Colônia Água Verde, a qual não tem actualmente escola nem subvencionada pelo Estado nem pública ou contractada pelo mesmo, mas onde há um ellevadissimo número de meninos de ambos os sexos, vimos confiadamente pedir a VEª para que seja subvencionado o estabelecimento de ensino n’esta colônia dirigido pelo cidadão João da Tapitanga desde o princípio de Janeiro último a contento de todos, e onde já se vê o ellevado numero de alumnos que se verifica dos mappas junctos fornecidos pelo mesmo cidadão.”

O repentista natalense aparentemente continuou buscando melhorar sua condição financeira e o futuro de seus familiares. No primeiro semestre de 1897 ele participou de um concurso para o cargo “vitalício de ofício privativo de Escrivão de Casamentos”. Tapitanga concorria com um certo Luciano José Garcia e perdeu a vaga[12].

Pequeno trecho de um verso de João da Tapitanga sobre a sorte, ou a falta dela.
Pequeno trecho de um verso de João da Tapitanga sobre a sorte, ou a falta dela.

Jornais apontam que nos últimos anos de sua vida a sua produção em termos de poesia declinou e o nome do natalense começa a desaparecer dos jornais curitibanos.

Sobre a morte do repentista curitibano nascido em Natal
Sobre a morte do repentista curitibano nascido em Natal

João da Tapitanga faleceu de uma febre, provavelmente adquirida indiretamente das mazelas advindas do álcool, na noite de 28 de setembro de 1901, aos 31 anos de idade. Foi enterrado no cemitério municipal de Curitiba e sua morte foi extensamente noticiada na imprensa local. Na edição de 30 de setembro do jornal “A República” de Curitiba a um extenso necrológico na 1ª página sobre a vida deste repentista potiguar. Vale ressaltar que sua esposa Jesuína ficou em uma situação de extrema pobreza, que foram socorridos pelos amigos que levantaram fundos através para a compra de uma casa. Seu nome foi sendo aos poucos esquecido em Curitiba.

Sua obra ficou dispersa, não foi reunida pelos amigos e parentes. João da Tapitanga jamais retornou ao Rio Grande do Norte e, aparentemente, não voltou a manter contato com a sua família em Natal. Em uma correspondência datada de 23 de março de 1932, a pedido da família de Tapitanga em Natal, o poeta potiguar Henrique Castriciano solicita ao critico literário e ficcionista curitibano José Cândido de Andrade Muricy, alguma informação do repentista potiguar. Não sabemos se houve alguma resposta[13].

 NOTAS


[1] Ver jornal “A República”, Natal, edição de 21 de agosto de 1926, página 1.

[2] Ver jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, edição de 22 de julho de 1891, página 1. Neste jornal encontramos o parecer positivo do “Ministro da instrução pública”, referente a um pedido feito por João China para alterar oficialmente seu nome para João da Tapitanga. Sabemos que o termo em tupi para pedra vermelha é Itapitanga, ou Tapitanga, e que no atual município catarinense de Balneário Barra do Sul existe uma ilha denominada Tapitanga, mas não sabemos porque o potiguar que foi morar em Curitiba passou a assinar com esse nome indígena.

[3] Hoje Curitiba possui de 1.800.000 habitantes.

[4] Embora Floriano tivesse tropas federais nos estados sulistas, somente em 1895, no governo de Prudente de Morais é que seria assinado um acordo de paz na região. Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Federalista .

[5]  Informações apontam que o tenente João da Tapitanga já pertencia ao batalhão patriótico desde maio daquele ano. Em 21 deste mês ele participou de uma celebração a um companheiro de corporação, onde proferiu um marcante discurso. Ver exemplar do jornal “A República”, Curitiba, edIções de 23 de maio de 1893 (pág. 2).

[6] A Revolução Federalista foi um exemplo de barbárie e violência de ambos os lados. Não apenas os maragatos promoveram degolas, estupros e assassinatos de prisioneiros. Os legalistas ocuparam a capital eliminando todos aqueles que acusados de haver colaborado com os federalistas, ou de haver desertado. Ver – http://www.museuparanaense.pr.gov.br/arquivos/File/a_revolucao_federalista_no_parana.pdf

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lapa_%28Paran%C3%A1%29

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Ernesto_Gomes_Carneiro

[7] Ver exemplares do jornal “A República”, Curitiba, edições de 11 de outubro de 1893 (pág. 1), 1 de dezembro de 1893 (pág. 2), 13 de dezembro de 1893 (pág. 1), 14 de dezembro de 1893 (pág. 2). Atualmente a Villa Tamandaré se denomina Almirante Tamandaré. Sobre João da Tapitanga no Cerco da Lapa, ver jornal “Gazeta de Notícias”, Rio de Janeiro, edição de 15 de dezembro de 1935.

[8] Ver jornal “Diário da tarde”, Curitiba, edição de 23 de agosto de 1913. Nesta reportagem ele é apontado erradamente como sendo natural do estado de Alagoas (pág. 3).

[9] Tapitanga também participava como um dos principais oradores de eventos comemorativos ao nascimento e morte de Floriano Peixoto. Ver jornal “A República”, Curitiba, edição de 1 de julho de 1900 (pág. 1) e “o Comércio”, Curitiba, ed. De 30 de junho de 1900 (pág. 1).

[10] Entre os dias 1 e 4 de julho de 1926, Euclides Bandeira publicou no jornal matutino curitibano “O Dia”, uma extensa reportagem biográfica sobre João da Tapitanga, que foi reproduzida no jornal natalense “A República” nas edições de 18 e 19 de agosto daquele ano, sempre nas primeiras e segundas páginas.

[11] Ver jornal “A República”, Curitiba, edição de 13 de agosto de 1898 (pág. 2).

[12] Ver http://www.ppge.ufpr.br/teses/D12_Elaine%20C%C3%A1tia%20Falcade%20Maschio.pdf

[13] Na fundação Casa Rui Barbosa, no bairro Botafogo, Rio de Janeiro, encontra-se o arquivo de José Cândido de Andrade Muricy, onde está a carta de Henrique Castriciano. Ver http://www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/texto/FCRB_AMLB_Arquivo-Andrade-Muricy.pdf

1945 – FILME DO VP-211 / VPB-211 NO RIO DE JANEIRO

O VP-211 foi criado nos Estados Unidos em 15 de fevereiro de 1943 e possuía no seu inventário 15 hidroaviões Martin PMB-3S Mariner. No Brasil primeiramente ficou baseado na NAF Aratu (NAF – Naval Air Facility), na Bahia, onde chegou em 27 de setembro de 1943, sob o comando do militar C. Fink Fisher. Á última seção do esquadrão de quatro aeronaves chegou a Aratu no dia 16 de outubro e ficou sob o controle operacional da FAW-16 (FAW-Fleet Air Wing). Depois o VP-211 tornou-se uma parte da Task Force 44, sendo uma unidade aérea integrante da 4ª Frota da US Navy, que tinha sua base em Recife.

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Em 12 de novembro de 1943, por um período de três meses, o esquadrão mudou sua sede para a Ilha do Governador, na NAF Galeão, no Rio de Janeiro. Deixaram um destacamento de três aeronaves em Aratu. Para os americanos, apesar da NAF Galeão estar mais perto da zona de caça aos submarinos inimigos, as condições de vida eram consideradas “primitivas” e frequentemente o lugar estava envolto na névoa no amanhecer.

Quase todas as patrulhas deste esquadrão foram realizadas à noite, com ajuda de holofotes e utilização de radar de busca. Era uma média de 14 a 16 patrulhas semanais e isso começou a cobrar um preço das aeronaves. Como as instalações de manutenção no Galeão eram muito básicas, as mudanças de motores foram feitos no mar, próximo a Florianópolis, Santa Catarina.

Símbolo do VP-211\VPB-211, baseado no personagem Dumbo, de Walt Disney.
Símbolo do VP-211\VPB-211, baseado no personagem Dumbo, de Walt Disney. Mas aqui o tranquilo personagem joga uma bomba contra os inimigos.

Estas tarefas eram efetuadas em quatro seções de três aeronaves cada, com um Martin PMB-3S Mariner realizando a mudança, enquanto um segundo hidroavião ficava junto para ajudar na manutenção. As aeronaves eram apoiadas por navios da US Navy que possuíam a função de manter operacionais os hidroaviões. Estas naves tinham tudo que as aeronaves necessitavam; suprimentos necessários, gasolina e pessoal de manutenção.

Em 12 de janeiro de 1944 o esquadrão sofreu seu primeiro acidente operacional. Foi quando durante um exercício de treinamento o oficial Thomas E. Donahue e a equipe do hidroavião P-8 soltaram uma carga de profundidade em uma altitude muito baixa. Houve uma detonação perto da cauda, ​​fazendo com que o hidroavião caísse na água. A tripulação do hidroavião P-4 amerissou e desembarcaram imediatamente na área do sinistro. Conseguiram resgatar cinco sobreviventes gravemente feridos da água.

PBM MARTIN MARINER

Infelizmente outros acidentes se seguiriam. Em 21 de abril de 1944, o hidroavião P-4 partiu de Natal para Aratu para treinamento noturno em e desapareceu numa tempestade com toda a tripulação composta por três oficiais e cinco subalternos. Em 10 de junho de 1944 o VP-211 foi transferido para Natal, ficando baseado na RAMPA, onde realizava patrulhas que normalmente seguiam até 800 milhas náuticas de Natal.

Em 31 de agosto do mesmo ano outro infortúnio – um Martin PMB-3 Mariner colidiu com obstáculo ao pousar em Aratu com perda total da aeronave.

Aqui vemos o pelo Kapitänleutnant Dietrich von der Esch, comandante do U-863 - Fonte - http://uboat.net/index.html
Aqui vemos o pelo Kapitänleutnant Dietrich von der Esch, comandante do U-863 – Fonte – http://uboat.net/index.html

O mesmo Martin PMB-3S Mariner número P-4, que resgatou os sobreviventes do acidente  de 12 de janeiro, em 28 de setembro de 1944 localizou por radar um submarino alemão, tentou atacar, mas foi expulso da área pelo fogo pesado da artilharia antiaérea embarcada. Foi feita uma localização do submarino e no outro dia por dois Consolidated PB4Y-1 Liberator, do esquadrão VB-107, pilotados pelos Tenentes E.A. Krug e J.T. Burton, realizaram um ataque coordenado sobre o submarino alemão U-863, comandado pelo Kapitänleutnant Dietrich von der Esch, pertencente a 12. Unterseebootsflottille, com base na cidade francesa Bordeaux, então ocupada pelos alemães.

Este submarino, ou U-boat como também eram conhecidos, estava a 66 dias em patrulha de combate, não afundou nenhum navio Aliado e foi afundado a sudoeste de Recife, na mesma área anteriormente registrada pelo pessoal do VP-211. O naufrágio foi confirmado pela avaliação dos registros inimigos no pós-guerra, com a morte de toda tripulação de 69 homens.

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Em fevereiro de 1945 o esquadrão mudou a denominação para VPB-211 e ficou baseado temporariamente a bordo do tender de hidroaviões USS Matagorda (AVP 22) na Baía de Todos os Santos, em Salvador, Bahia. A missão era ajudar na formação da tripulação do navio a lidar com hidroaviões em bases avançadas. Depois a mesma tarefa foi feita no USS Rockaway (AVP 29), USS Rehoboth (AVP 50) e USS Humboldt (AVP 21). O pessoal do esquadrão especulava que todo esse treinamento poderia ser uma preparação para a transferência iminente de VPB-211 para o teatro de operações do Pacífico.

Em 16 de maio de 1945 as patrulhas de apoio a comboios foram interrompidas e depois, no dia 24 de maio de 1945, o esquadrão deixou o Brasil em direção a San Juan, Puerto Rico. Na sequência seguiram para a Base Naval de Norfolk, Estados Unidos, onde o VPB-211 foi desmobilizado.

Martin PMB-3S Mariner do VP-211\VPB-211 sobre o Rio de Janeiro.
Martin PMB-3S Mariner do VP-211\VPB-211 sobre o Rio de Janeiro.

Este esquadrão de hidroaviões Martin PMB-3S Mariner não entrou em combate na costa do Brasil e no Atlântico Sul, mas certamente foi o mais fotografado das aeronaves da US Navy na América do Sul.

Fonte – Dictionary of American Naval Fighting Squadrons e http://uboat.net/index.html 

UM NAVIO PIRATA EM FLORIANÓPOLIS


Exploradores lutam para preservar e estudar destroços de embarcação espanhola que foi capturada por britânicos e naufragou no litoral catarinense no século XVII

Em 1989, o mergulhador Alexandre Viana encontrou uma botija antiga em uma parte rasa do mar da praia dos Ingleses, em Florianópolis. O aspecto do objeto o fez pensar em um naufrágio, mas ele não podia imaginar aonde o achado o levaria. Com o tempo, novas botijas e vários outros objetos começaram a surgir, e Alexandre fundou, junto com Narbal Corrêa e Marcelo Lebarbenchon Moura, o Projeto de Arqueologia Subaquática (PAS), para investigar a origem das misteriosas peças. Os anos de pesquisa levaram a uma constatação surpreendente: as botijas vinham de um navio que havia naufragado no litoral de Santa Catarina no século XVII.

Sede do PAS, que está catalogando as partes encontradas do navio- (C) Victor Carlson

O primeiro a levantar essa hipótese foi o historiador Amílcar D’Avila de Mello. Ele suspeitou que os destroços eram de uma embarcação espanhola tomada pelo pirata inglês Thomas Frins que naufragou em 1687 na atual praia dos Ingleses.

Com o tempo, os exploradores subaquáticos encontraram peças que corroboram essa tese, endossada ainda por pesquisas realizadas pelo arqueólogo Francisco Silva Noelli sobre artefatos de embarcações do período. “Esses piratas ficaram vários anos saqueando as colônias espanholas na costa do Pacífico e conseguiram um barco para encontrar outro grupo, ao todo 900 homens” – explica Viana. “Há relatos pontuais desses ataques. E achamos fragmentos de conchas e moluscos do Pacífico no lastro.”

Ao que tudo indica, havia também índios e negros a bordo, pois os mergulhadores encontraram fragmentos de ossos humanos, sugerindo batalha antes do afundamento da nau. De fato, Frins e seus homens foram capturados por Francisco Dias Velho, o bandeirante que fundou a cidade de Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis), e enviados a São Paulo para ser interrogados. O documento que atesta a captura, infelizmente, perdeu-se, mas seria, ao que tudo indica, o melhor endosso de todas as interpretações. O assassinato de Dias Velho pode ter sido cometido por Thomas Frins, que, solto, foi vingar-se.

Desenho esquemático dá uma ideia de como era a nau, que foi a pique em 1687- (C) Victor Carlson

Hoje, o PAS tem a guarda de um notável acervo. Essas peças atualmente passam por um processo de restauro e conservação em contêineres montados na praia dos Ingleses, que servem também de laboratório e espaço para exposição ao público. Seu livro de visitas conta com mais de 25 mil assinaturas. O projeto recebe apoio do governo estadual e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). Além disso, seus integrantes obtiveram a primeira autorização da Marinha para exploração. Pode-se falar em êxito até aqui.

Imagem ilustrativa. Fonte-http://www.google.com.br/imgresMCoasM

Esse tipo de acervo, porém, demanda técnicas de análise e conservação específicas e continua em tratamento, à espera de um destino à altura da descoberta, dos esforços de desvendamento e do patrimônio. “Vamos definir o que é preciso para instalações adequadas e exposição”, afirma o atual presidente do PAS, Narbal Corrêa, que precisará, sem dúvida, do apoio das autoridades. Trata-se da preservação de um achado arqueológico que o acaso tornou relíquia de Santa Catarina e do Brasil. É a luta presente dos integrantes do PAS.

Autora – Mônica Cristina Corrêa – Doutora em língua e literatura francesa pela USP, tradutora e representante cultural da Succession Saint-Exupéry em Santa Catarina.

Fonte – http://www2.uol.com.br/historiaviva/noticias/um_navio_pirata_em_florianopolis.html