SOLDADO LUÍS GONZAGA: O HERÓI DA PM DO RN E UMA CONTROVÉRSIA HISTÓRICA

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Em uma das fotografia acima vemos uma cerimônia realizada no Cemitério do Alecrim em homenagem ao soldado Luís Gonzaga, considerado oficialmente o policial militar morto durante os combates ocorridos no antigo Quartel da Polícia, durante a Intentona Comunista de 23 de novembro de 1935.

Hoje, Luís Gonzaga é reconhecido pela Polícia Militar do Rio Grande do Norte como um de seus maiores símbolos. Seu nome batiza a principal condecoração da corporação e sua memória é reverenciada há décadas.

Publicada originalmente na Revista da Polícia, do Rio de Janeiro, edição de novembro de 1937, página 41.

Entretanto, existe uma controvérsia histórica que, embora pouco conhecida, nunca deixou de me chamar a atenção.

No livro Vertentes (1976), o desembargador João Maria Furtado dedica as páginas 128 e 129 a contestar a versão oficial. Segundo ele, Luís Gonzaga jamais teria sido soldado da Polícia Militar. Afirma que se tratava de um rapaz com deficiência mental, conhecido popularmente como “Doidinho”, que frequentava o quartel, utilizava peças antigas de uniforme e, durante o intenso tiroteio, acabou sendo atingido por uma bala, vindo a falecer.

Ainda segundo João Maria Furtado, embora diversos policiais tenham sido feridos naquele combate, nenhum integrante da corporação teria morrido em ação. Por essa razão, o então comandante da Polícia Militar, major Luiz Júlio, teria providenciado posteriormente o alistamento retroativo desse jovem, criando oficialmente a figura do soldado Luís Gonzaga como símbolo da resistência ao movimento comunista.

Essa interpretação não ficou restrita ao desembargador.

A capa e as páginas referentes ao caso no livro Vertentes, do desembargador João Maria Furtado.

Entre maio de 1984 e novembro de 1985, o jornalista Luiz Gonzaga Cortez publicou, no Diário de Natal, uma extensa série de reportagens sobre os acontecimentos políticos da década de 1930 no Rio Grande do Norte. Em diversos momentos, ele também questionou a narrativa oficial sobre Luís Gonzaga.

Essas reportagens motivaram forte reação do advogado João Medeiros Filho, que havia sido chefe de Polícia em 1935 e era autor do livro 82 Horas de Subversão (1980). Ele contestou energicamente as conclusões apresentadas por Gonzaga Cortez, mantendo viva uma discussão que já atravessava décadas.

Uma das páginas da séie de repotagens (um total de 20), publicadas pelo jornalista Luiz Gonzaga Cortez, no antigo jornal natalense O Poti, entre maio e novembro de 1985 sobre o comunismo e as lutas políticas no Rio Grande do Norte.

Entretanto, há um aspecto documental que torna essa discussão ainda mais interessante.

Há documentos oficiais da própria Polícia Militar que registram o alistamento de Luís Gonzaga como soldado em 30 de outubro de 1935. Também foram publicados boletins internos concedendo-lhe promoção post mortem ao posto de cabo por bravura, além do respectivo desligamento dos quadros da corporação em razão de sua morte. Há ainda um relato oficial sobre a ocorrência.

São justamente esses documentos que João Maria Furtado e Luiz Gonzaga Cortez consideravam ter sido produzidos posteriormente para oficializar, de forma retroativa, o ingresso de Luís Gonzaga na corporação.

Quartel da Força Policial, conhecido como “Quartel de Salgadeira”, em Natal, após ser metralhado durante a Intentona Comunista – Foto – toxina1.blogspot.com

Naturalmente, essa é uma interpretação historiográfica. Muitos a aceitam; outros a rejeitam completamente. Não possuo elementos para afirmar, de maneira categórica, qual dessas interpretações corresponde aos fatos. O que me chama a atenção é outro detalhe documental.

Tenho fotografada, em alta resolução, toda a coleção do jornal A República referente ao ano de 1935: página por página, edição por edição. Ao consultar a edição do dia 28 de novembro de 1935, página 8, que traz a nota oficial do Governo do Estado comentando os acontecimentos da Intentona Comunista, observo que não há qualquer referência ao soldado Luís Gonzaga. Há 41 anos o jornalista Luiz Gonzaga Cortez informou sobre isso nas páginas do jornal dominical natalense O Poti.

Foto da página do jornal A República, edição do dia 28 de novembro de 1935, página 8, que traz a nota oficial do Governo do Estado sobre os fatos ligados a Intentona Comunista e não há qualquer referência ao soldado Luís Gonzaga.
Em 1985 o jornalista Luiz Gonzaga Cortez também não encontrou nada!

Ora, se ele realmente foi o único policial militar morto durante a defesa do quartel, por que seu nome não aparece justamente na primeira manifestação oficial do Governo sobre aqueles acontecimentos?

Essa ausência documental, pelo menos para mim, levanta uma questão que merece ser considerada. Seria um simples equívoco de quem redigiu a nota no Palácio do Governo? Uma falha da tipografia do jornal? Ou haveria outra explicação?

Tudo isso é possível. Contudo, permanece a pergunta: por que o nome daquele que seria o único policial militar morto em combate somente aparece dias depois?

Foi justamente essa sequência de documentos que me levou a refletir sobre o tema. Não apresento estas observações para oferecer uma conclusão definitiva, mas para expor uma questão historiográfica que, ao meu ver, permanece aberta.

Detalhes da página 8 do jornal A República, edição de 29 de novembro de 1935, onde é apresentado um resumo dos fatos ocorridos a partir do dia 23 de novembro. Podemos ver uma relação das vítimas dos conflitos violentos, incluindo militares da polícia, mas não se menciona o soldado Luiz Gonzaga, mesmo passados seis dias do início dos acontecimentos.

Ao longo dos anos, percorri, em quatro oportunidades diferentes, o mesmo caminho utilizado por Lampião e seus cangaceiros durante o ataque a Mossoró. Nessas pesquisas, passei a conhecer melhor a atuação do soldado José Monteiro de Matos, cuja coragem sempre me impressionou profundamente.

Paralelamente, estudando os jornais da época, o livro de João Maria Furtado e as reportagens de Luiz Gonzaga Cortez, percebi que meus questionamentos sobre a história de Luís Gonzaga apenas aumentaram.

A História não é construída apenas por certezas. Ela também é feita de documentos, de versões conflitantes e de perguntas que atravessam gerações.

Intentona Comunista de 1935 – Chegada à Estação da Great Western, em Natal, do primeiro grupo de comunistas capturados, indo para o interior – Fonte Wikipédia.

Talvez Luís Gonzaga tenha sido exatamente o herói que a tradição da Polícia Militar preservou. Talvez João Maria Furtado e Luiz Gonzaga Cortez tenham identificado uma inconsistência documental que ainda merece ser investigada.

Não sei.

O que sei é que, enquanto existirem documentos apontando caminhos diferentes, essa controvérsia continuará fazendo parte da própria História.

E não há nada de errado nisso. Questionar documentos, confrontar versões e buscar compreender o passado sempre foi — e sempre será — a essência do trabalho de qualquer pesquisador.

UM HERÓI ESQUECIDO? – A HISTÓRIA DO SOLDADO DA PM DO RN QUE NÃO FUGIU DO COMBATE A LAMPIÃO E PAGOU COM A VIDA

No dia 10 de junho de 1927, Lampião e seu bando invadiram o Rio Grande do Norte com o objetivo de atacar a cidade de Mossoró.

Na pequena vila de Vitória — atual município de Marcelino Vieira —, o tenente Napoleão de Carvalho Agra organizava um destacamento de policiais potiguares para tentar interceptar os cangaceiros antes que eles alcançassem seu destino.

Entre aqueles homens havia um jovem recruta, negro, de baixa estatura e recém-incorporado à força policial. Era tão novo na corporação que sequer possuía farda. Chamava-se José Monteiro de Matos.

Na tentativa de disfarçar a tensão que antecedia o combate, alguns companheiros faziam brincadeiras às suas custas. Diziam que, por ser pequeno e inexperiente, provavelmente seria o primeiro a fugir quando começassem os tiros. A resposta do soldado ficou para a História.

— Eu morro, mas não corro..

Pouco depois, a tropa deixou a vila e seguiu em direção ao sul. Não demorou para que o encontro com os homens de Lampião acontecesse. O combate foi intenso.

A superioridade numérica e tática dos cangaceiros acabou obrigando os policiais a recuar. Foi nesse momento que José Monteiro de Matos transformou sua frase em realidade.

Igreja próxima ao setor onde foi morto o soldado José Monteiro de Matos, onde durante muitos anos, sempre no dia da sua morte, os moradores da região chamavam o padrre da cidade de Marcelino Vieira para rezar o que ficou conhecido como “A Missa do Soldado”. Quando estive pela primeira vez nesse local em 2010, essa celebração religiosa já não mais existia.

Mesmo ferido, permaneceu em sua posição, dando cobertura à retirada dos companheiros. Lutou até o último instante, matou o cangaceiro Azulão e acabou sendo cercado e brutalmente assassinado pelos homens de Lampião.

Foto do laudo cadavérico original do soldado José Monteiro de Matos.

Seu laudo cadavérico registrou que seu corpo foi submetido a sucessivas sevícias, revelando a violência com que foi tratado após sua morte.

Sou autor do livro 1927 – O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte (2019), pesquisa para a qual percorri, de motocicleta, todo o trajeto realizado pelos cangaceiros em território potiguar.

Ao longo dessa jornada, uma coisa me chamou profundamente a atenção. Mesmo em localidades muito distantes de Marcelino Vieira, encontrei pessoas que ainda se lembravam da história do soldado que havia prometido:

“Eu morro, mas não corro.”

Quase um século depois, sua coragem permanecia viva na memória popular. Talvez seja essa a mais verdadeira das homenagens.

Até onde consegui apurar, a única homenagem oficial prestada ao Soldado José Monteiro de Matos foi dar seu nome à quadra de esportes do quartel da Polícia Militar em Pau dos Ferros. Se existe outra, sinceramente a desconheço.

As instituições constroem naturalmente seus símbolos e preservam aqueles que consideram representativos de sua própria história. Como um pesquisador independente, porém, sinto que

também tenho um dever. O dever de registrar histórias como esta para que homens como José Monteiro de Matos não desapareçam das páginas do passado.

Porque existem heróis que recebem monumentos. Outros recebem medalhas. E existem aqueles cuja maior homenagem é continuar sendo lembrados.

Na minha opinião, o Soldado José Monteiro de Matos merece nunca ser esquecido.

A LOUCA HISTÓRIA DE UM HOMEM QUE SAIU DE CASA PARA LEVAR CERVEJAS AOS AMIGOS NO MEIO DA GUERRA DO VIETNÃ

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Caros leitores, apenas imagine que você se encontra em um lugar distante, longe de casa, de todos que você ama e tem amizade. Imagine então que você está em um país tropical, cercado de muita selva, em meio a muito calor e extrema umidade. Imagine também que você é um simples soldado com um fuzil na mão, se protegendo em uma trincheira lamacenta, com seu uniforme verde todo ensopado, suas botas cheias de água, sem tomar banho a vários dias, comendo mal e bebendo água suspeita de conter todo tipo de germes e bactérias. Mas o pior é que a todo momento o lugar onde você está é alvejado por tiros e bombas e que mais além de sua trincheira estão seus inimigos. Eles são aguerridos nativos desse país tropical, onde você é considerado um maldito invasor e eles estão doidos para lhe enviar para o inferno com uma bala na cabeça.

Rick Duggan, que se achava na área de Quang Tri, a província do Vietnã do Sul mais próxima da então fronteira com o Vietnã do Norte e uma das áreas “quentes” da guerra em 1967.

Aí, no meio de todo esse pesadelo, do nada, sem nenhum aviso prévio, surge na sua frente um velho amigo do seu bairro, com uma camisa quadriculada berrante, calças de veludo cotelê, um sorriso no rosto e dizendo;

– Oi, vim lhe trazer umas cervejas!

Por mais que possa parecer loucura, essa história aconteceu de verdade e agora virou filme!

União Irlandesa

Inwood é um bairro da área norte da ilha de Manhattan, na cidade de Nova York, Estados Unidos. Antigamente ali existiam pequenas propriedades rurais, que foram dando lugar a casas e edifícios conforme Nova York crescia. O lugar foi sendo habitado por imigrantes irlandeses, que criaram a principal feição étnico e cultural dessa região.

Ao longo da história os irlandeses foram injustamente escravizados e oprimidos pelos ingleses, que durante séculos mantiveram controle estrito sobre a grande ilha da Irlanda e tratando a população local como a mais baixa escória da sociedade britânica. O domínio inglês levou a situações extremas, como a chamada “Grande Fome”, onde metade da população irlandesa morreu de inanição e muitos trataram de literalmente fugir para o outro lado do Atlântico. Quando chegaram aos Estados Unidos entre 1840 e 1860, quase todos os irlandeses vieram em condições de extrema pobreza e não tiveram vida mansa.

Contudo muitos conseguiram superar a falta de oportunidades, a falta de dinheiro, as doenças e as discriminações. Muito dessa superação estava ligada à ideia de união das pessoas dessa comunidade em áreas específicas, como foi o caso de Inwood. Ali eles se apoiavam, se amavam, brigavam, se protegiam, bebiam cerveja clara ou escura, mantinham suas crenças ligadas a São Patrício, a adoração ao trevo de quatro folhas, a cor verde, aos gnomos, duendes e outras coisas. Isso tudo gerou, além da forte união, um sentimento de orgulho em olhar para o passado e ver como seus ancestrais conseguiram superar os desafios. O resultado foi uma cultura persistente e forte, que se tornou um pilar da atual sociedade norte-americana.

Mas no final da década de 1960, em um país a 14.300 km de distância de Nova York e chamado Vietnã, os militares norte-americanos participavam de uma intensa luta para manter de pé o malfadado e corrupto regime do Vietnã do Sul, contra os motivados guerrilheiros comunistas do Vietcong e os membros do Exército do Vietnã do Norte.   

Em 1967 o número de americanos mortos nessa guerra crescia semanalmente e em Inwood os velórios ocorriam regularmente. Até o momento do desenrolar dessa história, nada menos que 28 jovens daquele bairro haviam morrido no Vietnã.

Cadáver de um militar americano deixando o sudeste asiático =- Fonte – https://www.wbur.org/news/2015/04/29/kennedy-vietnam-war-final-marines

Um dia, em um bar tradicional chamado Doc Fiddler’s, o barman George Lynch, um veterano da Segunda Guerra Mundial conhecido como “Coronel”, ficou indignado ao ver na TV as crescentes manifestações contra a Guerra do Vietnã. O Coronel começou então a fazer um animado discurso a favor dos soldados e proclamou que “alguém deveria levar algumas cervejas” para os heróis locais. O bar explodiu em aplausos.

O que parecia uma mera lorota de mesa de bar, foi ouvida com atenção por um dos frequentadores. Este era o marinheiro mercante John Charles Donohue, conhecido como “Chickie”, então com 26 anos de idade. Ele era um antigo fuzileiro naval que nunca havia participado de combates, mas que havia estado no Vietnã do Sul algumas vezes, quando os navios mercantes que trabalhava aportavam por lá.

Outra imagem de Rick Duggan no Vietnã

Anos depois Donohue afirmou que não sabia o que estava pensando seriamente quando decidiu partir para a zona de guerra, mas achava que tinha de fazer alguma coisa pela galera do bairro que estava na linha de frente. O espirito de união que ligava os irlandeses falou mais alto!

“Se eu lhes dissesse a verdade, vocês não acreditariam em mim”

Nos últimos meses de 1967 o marinheiro mercante Donohue conseguiu uma vaga em um navio que seguia para o Vietnã transportando toneladas de munições. Ele embarcou com algumas roupas e uma bolsa cheia de latas de cervejas. Inicialmente a ideia era se encontrar com seis jovens de Inwood, mas, como ele logo descobriria, o número baixou para quatro, pois um havia sido morto em combate e o outro havia retornado aos Estados Unidos com um caso grave de malária.

O marinheiro mercante John Donohue a caminho do Vietnã

Uma vez que ele pôs os pés em terra, no porto sul-vietnamita de Quy Nhom, milagrosamente conseguiu rastrear alguns dos quatro amigos, a maioria dos quais tinha apenas vinte e poucos anos. Os militares com quem conversava atrás de informações e caronas presumiram que Donohue, vestido com calças de veludo cotelê e uma camisa quadriculada, era algum tipo de agente do governo americano. Ao falar com oficiais de alto escalão, ele simplesmente lhes dizia: “Se eu lhes dissesse a verdade, vocês não acreditariam em mim”. Assim ele conseguiu pegar carona em jipes, caminhões, aviões e helicópteros para áreas onde seus amigos estavam.

Tommy Collins, da Polícia Militar do Exército dos Estados Unidos.

O primeiro encontrado foi Tommy Collins, que servia em uma unidade de Polícia Militar do Exército dos Estados Unidos, com base no mesmo porto em que Donohue desembarcou. Após a surpresa do encontro a farra foi grande. Recentemente Collins comentou – “Donohue estava em uma zona de combate, mas andava como se estivesse indo para uma partida de golfe”.

Depois veio Kevin McLoone, cujas as circunstâncias desse encontro beiram o absurdo. Mas, segundo eu pesquisei, realmente aconteceram dessa maneira. Donohue tentava chegar até um certo local e ao entrar em um jipe que parou para lhe dar carona, ele reconheceu que o motorista era McLoone. Foi um encontro totalmente inesperado.

Kevin McLoone

Junto com sua mochila cheia de cervejas, Donohue trouxe novidades de casa para seus amigos. Os rapazes estavam famintos pelas últimas manchetes do país, de Nova York e principalmente de Inwood. Eles recebiam regularmente cartas de entes queridos, mas com Donohue presente, em meio às cervejas, os rapazes receberam as últimas e quentes notícias sobre as garotas do bairro. Vale ressaltar que antes da viagem o marinheiro mercante se encontrou com alguns membros das famílias que queriam transmitir mensagens pessoais a seus filhos no Vietnã.

Rick Duggan com colegas da 1ª Divisão de Cavalaria dos Estados Unidos.

O próximo encontro foi com Rick Duggan, que se achava na área de Quang Tri, a província do Vietnã do Sul mais próxima da então fronteira com o Vietnã do Norte e uma das áreas “quentes” da guerra naquela época. Em abril de 1967, membros do exército sul vietnamita e militares da 1ª Divisão de Cavalaria dos Estados Unidos haviam retomado a capital dessa província do Exército Norte Vietnamita. Apesar disso os combates ainda continuavam intensos na região nos últimos meses daquele ano.

John Donohue degustando comida enlatada na área da LZ Jane.

Duggan estava na chamada Landing Zone Jane (LZ Jane), ou Zona de Desembarque Jane, ao sul de uma base aérea chamada La Vang. Consta que o encontro foi mesmo no meio de uma batalha e, segundo Duggan, a roupa de Donohue o tornava um verdadeiro alvo ambulante, onde poderia ser colocado uma tabuleta dizendo “Atire em mim, eu sou de Nova York”. O combatente lembrou no documentário The gratest beer rum ever, de 2019, que ele teve de colocar roupas militares verdes em Donohue, para assim evitar que o amigo de bairro fosse atingido por disparos dos norte vietnamitas.

John Donohue no seu encontro com Rick Duggan e seus colegas de pelotão.

Esse encontro foi, como os demais, uma mistura de surpresa, emoção, risos, cervejas e muito papo.

No Meio da Ofensiva do Tet

O próximo da lista era Bobby Pappas, que se encontrava perto de Saigon, em um lugar chamado Long Binh. Na época da guerra Saigon era a capital do Vietnã do Sul, sendo hoje conhecida como Cidade de Ho Chi Minh e o maior centro urbano da atualmente unificada República Socialista do Vietnã. 

Só que nessas idas e vindas de John Donohue pelo Vietnã em guerra, ele perdeu seu navio. O marinheiro então tentou se encaixar em algum transporte para fora do Vietnã, através do apoio da Embaixada dos Estados Unidos naquele país. Enquanto isso o ano de 1967 acabou e logo o mês de janeiro de 1968 vai chegando ao fim, quando aconteceu a intensa Ofensiva do Tet.

Helicóptero americano Bell Uh-1H na Guerra do Vietnã.

Essa foi uma das maiores campanhas militares de toda a Guerra do Vietnã, sendo executada por forças do Vietcong e do Exército Norte Vietnamita na madrugada de 30 de janeiro. Foi uma campanha de ataques surpresa contra os militares do Exército do Vietnã do Sul, das Forças Armadas dos Estados Unidos e seus aliados. Os ataques atingiram principalmente os centros de comando e controle militares e civis, visando desencadear instabilidade política em larga escala, na crença que ocorreriam deserções e rebeliões nos centros urbanos.

O nome dessa ofensiva é a versão truncada da denominação em vietnamita do festival do Ano Novo Lunar – Tết Nguyên Đán. já a data foi escolhida por coincidir com o período de férias e de licença da maioria dos funcionários públicos e militares do Vietnã do Sul e um dos principais alvos foi justamente Long Binh.

Em 1968 o complexo militar de Bien Hoa/Long Binh era a maior base militar dos Estados Unidos no Vietnã do Sul. A Base Aérea de Bien Hoa era a maior do país, abrigando mais de 500 aeronaves da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) e da Força Aérea da República do Vietnã (RVNAF), enquanto a chamada Long Binh Post era a maior base logística do exército americano.

Rick Duggan e John Donohue em Long Binh.

Donohue e Pappas se encontraram em Long Binh antes da Ofensiva do Tet, mas após o ataque, quando os comunistas explodiram o enorme depósito de munições que havia por lá, o marinheiro mercante saiu às pressas de Saigon para a zona de combate em busca de notícias do seu amigo, que estava vivo. Pappas comentou em uma entrevista para a rede de TV americana CBS que no ataque a Long Binh os inimigos “explodiram oito toneladas de munições em oito segundos”.

Resultado do ataque a Long Binh durante a Ofensiva do Tet.

Não demorou e Donohue partiu do Vietnã para Inwood. Em casa recebeu a admiração e o agradecimento dos amigos e parentes dos soldados do bairro que estavam na guerra.

Ele continuou trabalhando como marinheiro mercante, fez parte do sindicato de sua classe e hoje está aposentado. Tommy Collins, Kevin McLoone, Rick Duggan e Bobby Pappas sobreviveram à Guerra do Vietnã.

A Louca História Que Virou Filme

Antes de sua jornada, Donohue se colocou contrário às manifestações contra a Guerra do Vietnã. Mas ao final de sua visita de oito semanas àquele país, ele começou a mudar de ideia. Embora até hoje ele não concorde inteiramente com a forma como as manifestações ocorreram, ele diz que entendeu que os manifestantes estavam tentando parar uma guerra que “não valia a pena”.

Ao centro, à frente está John Donohue. A sua esquerda Kevin McLoone e a sua direita Tommy Collins. Atrás, da esquerda para direita estão Bobby Pappas e Rick Duggan.

Recentemente Tommy Collins comentou ao programa CBS Sunday Morning, que reuniu todos os cinco participantes dessa louca aventura, que “500.000 soldados e fuzileiros navais estavam naquela época no Vietnã, e Donohue encontrou quatro de nós. Incrível”, Rick Duggan acrescentou: “Ele me encontrou, o que é um milagre em si. Nunca estive no mesmo lugar por mais de dois ou três dias de cada vez”.

Agora essa história se tornou um filme. Intitulado The Greatest Beer Run Ever (no Brasil Operação Cerveja) é uma mistura de filme biográfico, comédia e drama de guerra. Foi dirigido e co-escrito por Peter Farrelly, baseado no livro de mesmo nome de John Donohue e Joanna Molloy.

O filme é estrelado por Zac Efron e Russell Crowe e segue a história real de Donohue, mas com alguma licença poética.

The Greatest Beer Run Ever teve sua estreia mundial em 13 de setembro de 2022, no Festival Internacional de Cinema de Toronto, Canadá, e foi lançado na plataforma de streamer Apple TV+ em 30 de setembro de 2022.