UMA MENSAGEM EM UMA GARRAFA CHEGA A NATAL – UMA FAKE NEWS DO SÉCULO XIX?



É Verdadeira ou não a história de uma garrafa com uma mensagem encontrada em uma praia perto de Natal, que teria vindo de um navio desaparecido misteriosamente?

Rostand Medeiros – Escritor e pesquisador.

Em 15 de setembro de 1893, cruzou a barra do rio Potengi o navio de passageiros e cargas Beberibe, da Companhia Pernambucana de Navegação. Sua tripulação conduzia a nave com cuidado para evitar encalhar ou, pior, bater na famigerada pedra da Baixinha, que tanta dor de cabeça causava aos navegantes. O Beberibe vinha de Recife e trazia alguns passageiros para desembarcarem na pequena Natal, então com cerca de 15.000 habitantes. Entre os que ali ficariam estava Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão, um rico comerciante, senhor de engenho, agricultor e líder político no estado do Rio Grande do Norte. Ele vinha acompanhado de parte de sua família, dois criados e trazia um convidado para conhecer Natal e seus negócios. Este era um norte-americano alto, branco, de olhos claros, chamado Edwin Stevens e que até pouco tempo havia sido o cônsul dos Estados Unidos em Recife.

O navio Beberibe era muito importante no transporte marítimo entre as capitais nordestinas no final do século XIX.

Aparentemente Stevens era um homem discreto e provavelmente de pouca conversa, pois desde que assumiu o Consulado no dia 19 de julho de 1890, poucas foram as notícias na imprensa pernambucana sobre essa figura e o seu trabalho diplomático. Não sabemos especificamente porque Amaro Barreto trouxe esse estrangeiro para Natal. Uma possibilidade era para ele conhecer o que a terra potiguar produzia, compreender suas potencialidades e, quem sabe, desenvolverem juntos algum negócio que pudesse atender o mercado norte-americano.

Amaro Barreto estava então com 69 anos e faleceria em Recife três anos depois, quando então tinha catorze filhos e oitenta e oito netos. Entre seus filhos estavam o então governador Pedro Velho, o deputado federal Augusto Severo, o maestro Amaro Barreto Filho e o futuro governador Alberto Maranhão. Edwin Stevens certamente conheceu vários deles e usufruiu da hospitalidade da família Albuquerque Maranhão.

Não consegui saber nada sobre as andanças de Stevens na urbe natalense, mas sabemos que poucos dias após a sua chegada alguém encontrou uma garrafa contendo uma mensagem escrita em inglês em uma praia perto de Natal, que chamou bastante a atenção do gringo. A mensagem informava que o navio Naronic havia afundado rapidamente no Atlântico Norte, após colidir com uma “montanha de gelo boiando” (Nessa época os jornais brasileiros não usavam palavras estrangeiras como iceberg).

O norte-americano compreendeu que a missiva narrava os últimos momentos de um dos maiores navios do seu tempo, que sumiu sete meses antes e ninguém sabia porquê. Vale comentar que nenhum dos muitos jornais existentes em Natal publicou uma única linha sobre o desaparecimento do navio e o achado da garrafa.

Stevens vai então até a estação telegráfica de Natal e envia com urgência uma mensagem para o Recife, destinada ao inglês Arthur B. Dallas, um rico exportador de açúcar que morava a muitos anos na capital pernambucana e que por um tempo atuou como representante diplomático da sua nação na Paraíba. Arthur prontamente informou a redação do Jornal de Recife, que publicou na sua edição de 19 de setembro de 1893 a nota que segue.

Jornal de Recife, edição de 19 de setembro de 1893, pág. 3.

Um Navio Que Nunca Mais Foi Visto

O navio de transporte Naronic partiu da cidade inglesa de Liverpool com destino a Nova York no dia 11 de fevereiro de 1893. Era um navio muito novo e aquela era apenas a sua sétima viagem. Foi construído pelo estaleiro Harland and Wolff, de Belfast, Irlanda do Norte e foi entregue em 26 de maio de 1892 a empresa de navegação White Star Line. Tanto o estaleiro quanto a empresa de navegação iriam anos depois construir e operar um navio de passageiros chamado Titanic.

Já o Naronic média 144 metros de comprimento e tinha dois motores movidos a carvão, capazes de impulsioná-lo através das ondas a uma velocidade constante de 13 nós (24 km/h). Foi um navio destinado principalmente ao transporte de gado, onde podia acomodar mais de mil animais e haviam acomodações adicionais para alguns passageiros.

Nessa viagem de fevereiro de 1893 o Naronic transportava nos porões 3.572 toneladas de carga geral e como combustível havia 1.017 toneladas de carvão, suficiente para fazer uma viagem de ida e volta. Estava sob o comando do capitão William Roberts, que tinha a companhia de sessenta marinheiros britânicos e quatorze passageiros norte-americanos.

Tripulação original do Naronic, desaparecida junto com o navio.

Após a partida de Liverpool, o Naronic fez uma pequena parada em um lugar chamado Point Lynas, no País de Gales, e depois seguiu para Nova York. A partir daí nunca mais esse navio, seus tripulantes e passageiros foram vistos novamente.

Em 2 de março, o jornal New York Times relatou que o Naronic estava no Atlântico Norte há dezenove dias, quando normalmente completava seu percurso desde Liverpool em apenas onze. Informou também que o navio Bovic, também operado pela White Star Line, havia partido de Liverpool seis dias depois do navio desaparecido e havia completado a sua viagem.  O Bovic era praticamente idêntico ao Naronic, mas muito mais lento.

O navio Bovic era da mesma companhia e praticamente idêntico ao Naronic.

No dia seguinte foi relatado que, exceto por um ou dois, todos os navios que partiram de portos do Reino Unido para a costa leste dos Estados Unidos e eram considerados atrasados, haviam chegado com segurança e nenhum deles informou ter visto o Naronic. Também foi relatado no New York Times que esses navios estavam chegando nos portos após enfrentarem mares agitados, incluindo fortes ventos e neve. Vale informar que o Naronic não tinha telégrafo para enviar um pedido de socorro e no caso de um afundamento naqueles mares gelados, a tripulação só podia contar com o milagre de serem vistos pelos tripulantes de uma outra nave.

Depois que a preocupação começou a surgir nos Estados Unidos, a White Star Line buscou inicialmente tranquilizar a opinião pública, recordando a alta qualidade da sua nave e afirmando que o NaronicEra um navio novo, construído com compartimentos estanques, bem equipado, manejado e comandado pelos melhores oficiais do Atlântico”. Somente lá para o dia 13 de março foi que a empresa declarou: “Há agora uma grande preocupação com o navio”.

O Naronic na época do seu lançamento.

A Polêmica das Garrafas

Em 4 e 5 de março o Coventry, um navio a vapor britânico, avistou dois botes salva-vidas com o nome Naronic pintado em suas laterais. Um deles foi encontrado virado e o outro estava em boas condições, mas vazio de gente e com sua vela e mastro flutuando presos ao barco, como se estivessem sendo usados como uma espécie de âncora flutuante. Quando essa notícia chegou a Nova York, considerou-se que o Naronic estava perdido. Os botes foram achados a cerca de 500 milhas náuticas a leste da cidade canadense de Halifax e a 90 da posição onde em 1912 o malfadado Titanic colidiria com um iceberg.

Não demorou e quatro garrafas com mensagens afirmando serem do Naronic foram encontradas.

A primeira foi em 3 de março de 1893, na área de Bay Ridge, ao sul de Nova York e dizia “Naronic afundando. Todos orando de mãos dadas. Deus tenha piedade de nós”. Era assinado por “L. Winsel” e datada de 19 de fevereiro de 1893.

A segunda garrafa foi encontrada em 30 de março, na região costeira de Ocean View, cidade de Norfolk, no estado da Virgínia, com a seguinte inscrição “3h10 da manhã de 19 de fevereiro. O Naronic no mar. Para quem descobrir isso: informe aos nossos agentes. Se não tiver ouvido falar disso antes, o nosso navio afundou rapidamente sob as ondas. É uma tempestade tão grande que nunca poderemos viver nos pequenos botes. Um deles já partiu com sua carga humana para o fundo do mar. Deus permitiu que todos nós passássemos por isso. Fomos atingidos por um iceberg durante uma tempestade de neve ofuscante e flutuamos por duas horas. Agora são 3h20 da manhã no meu relógio e o grande navio desceu para o fundo do mar. Reporte aos agentes. Adeus para todos.” Era assinada por um certo “John Olsen”.

Um dos botes salva vidas do Naronic encontrado pela tripulação do navio inglês Coventry.

A terceira garrafa foi achada em junho de 1893 no Canal da Irlanda, do outro lado do Atlântico e dizia basicamente que o Naronic havia batido em um iceberg e estava afundando rapidamente. Era assinada apenas “Young”.

Uma quarta garrafa foi encontrada em 18 de setembro de 1893, desta vez na foz do rio Mersey, Reino Unido, e dizia: “Todos perdidos; Naronic, não há tempo para dizer mais nada”. Foi assinado com um singelo “T”.

Ainda em junho de 1893, quando as esperanças de recuperar o navio haviam desaparecido e nem todas as garrafas haviam sido encontradas, uma comissão de inquérito foi convocada em Liverpool pelo Conselho do Comércio Britânico, uma entidade criada em 1660 e que queria ao menos tentar desvendar esse desaparecimento.

De saída a comissão classificou as mensagens nas garrafas como “farsas”, em parte porque os nomes assinados nos papeis não correspondiam a listagem das pessoas a bordo e considerou que era impossível que essas garrafas tivessem chegado no litoral devido as condições das correntes marítimas, vento e clima. A posição da comissão foi aceita pela White Star Line.

Outras Possibilidades

A lista de carga, publicada em março de 1893 pelo jornal New York Herald, incluía vários produtos químicos como ácidos, clorato de potássio, sulfeto de sódio, hipoclorito de cálcio e outros. Sob certas condições, se a tempestade tivesse deslocado as garrafas onde esses produtos estavam acondicionados e eles fossem liberados dentro do Naronic, poderia ter causado uma explosão catastrófica que resultaria no naufrágio. Mas essa hipótese não foi considerada pelo inquérito oficial.

Ainda em outubro de 1893 surgiu a notícia que a tripulação do navio norueguês Emblem declarou ter avistado em julho um bote salva-vidas do Naronic, flutuando de cabeça para baixo e coberto de cracas. Tudo parecia indicar que o bote foi preparado às pressas, confirmando a hipótese de um afundamento rápido e repentino.

Foi observado que duas das cartas encontradas em garrafas informavam sobre uma colisão com um iceberg e em fevereiro alguns navios avistaram grandes blocos de gelo flutuando no Atlântico Norte. Isso levou a comissão britânica a examinar essa hipótese. Mas o curso estimado do navio, segundo dados da White Star Line, chegou à conclusão que o Naronic estava a pelo menos 100 milhas náuticas do gelo mais próximo. Esta conclusão foi, no entanto, questionável, com a imprensa de Nova York relatando na época que vários navios informaram terem visto icebergs nessa região. A mesma onde o Titanic afundou dezenove anos depois.

Afundamento do Titanic, da White Star Line, após bater em um iceberg. Foi entre a noite de 14 para 15 de abril de 1912. Dezenove anos depois o Naronic, da mesma empresa, aparentemente encontraria o mesmo fim.

Após avaliar a segurança do navio, a comissão reconheceu a sua impotência e declarou: “A menos que sejam fornecidos novos elementos, a causa provável da perda do navio continua a ser uma questão de especulação e acrescenta mistérios ao mar“.

Até hoje o desaparecimento do Naronic é um mistério, sendo o caso ainda bem comentado nos Estados Unidos e Reino Unido, com livros publicados, documentários, várias páginas na internet e vídeos disponíveis no Youtube. Igualmente nos dias atuais as pessoas parecem estar divididas em suas opiniões sobre as garrafas com as mensagens. Alguns duvidam muito que essas garrafas possam ter chegado as praias norte-americanas e irlandesa no tempo realizado, considerado rápido demais. Quem defende alega que era um momento de fortes tempestades e por isso que elas chegaram nesse período de tempo. Outro argumento dos defensores é que as mensagens eram parecidas em seus conteúdos e as garrafas foram encontrados em locais distantes. Para outras é apenas farsa, uma Fake News de tempos antigos e bem elaborada.

E a Garrafa Encontrada Perto de Natal?

Mensagens chegando em garrafas nas praias potiguares nas últimas décadas do século XIX não eram nenhuma novidade.

Caes da Tavares de Lira, no bairro da Ribeira, em Natal. Uma provinciana capital do Nordeste do Brasil.

Segundo o jornal natalense O Atalaia, edição de 2 de dezembro de 1876, foi encontrada na praia de Muriú uma garrafa com uma mensagem que descrevia sérios problemas ocorridos no clipper inglês Coolingrove. Este barco aparentemente se encontrava na costa sudoeste da África e quem escreveu a missiva narrou que um “Máo tempo” tinha destruído a vela bujarrona e outras velas do barco. Mais grave ainda era a informação que quatro pessoas a bordo tinham perecido “pela febre”. O autor pedia a quem encontrasse a garrafa, que a mensagem fosse destinada a “esposa de Mr. John Bryce”, uma senhora que vivia em Fountain House, na pequena cidade de Loanhead, próximo a Edimburgo, a capital da Escócia. Aparentemente quem escreveu a mensagem foi alguém sem nenhuma experiência em viagens marítimas, que presenciou uma tempestade que danificou o Collingrove, mas não o afundou.

Sobre o Caso da Garrafa com Uma Mensagem que Chegou a Praia de Muriú, clique no linl abaixo…

https://tokdehistoria.com.br/2016/06/25/1876-quando-uma-desesperada-mensagem-chegou-dentro-de-uma-garrafa-na-praia-de-muriu/

Já no caso da garrafa que aqui chegou, pretensamente enviada pela desesperada tripulação do Naronic, algumas coisas devem ser levadas em consideração.

Realmente a distância onde o fato teria ocorrido, em pleno Atlântico Norte, é muito longe de Natal e as correntes marítimas existentes apontam que seria praticamente impossível uma garrafa dessas chegar por aqui em somente sete meses. Contudo, quem pesquisar nos antigos jornais brasileiros disponíveis na internet, vai ver que o episódio do desaparecimento do Naronic foi muito pouco comentado. Encontrei apenas duas notas em um jornal do Pará. Veja abaixo uma delas.

E a razão foi que nesse período o sul do país sofria com a Revolução Federalista, iniciada em 2 de fevereiro de 1893. Havia também a Revolta da Armada no Rio de Janeiro, que começou em setembro do mesmo ano. Em meio a tanta notícia envolvendo conflitos no Brasil, ficou difícil encontrar espaço nas páginas dos jornais para informar o sumiço de um navio inglês.

Então, como é que a mensagem entregue ao norte-americano Edwin Stevens e redigida em inglês continha, mesmo em um texto pequeno, informações e características iguais as mensagens encontradas nos Estados Unidos, Irlanda e Reino Unido?

Anos depois desse caso da garrafa, Arthur B. Dallas se tornou cônsul na Paraíba.

Talvez o Mr. Stevens que, conforme comentamos anteriormente, foi cônsul dos Estados Unidos em Recife e poderia ter tido acesso a informações detalhadas sobre o ocorrido, teve então a brilhante ideia de criar em Natal uma Fake News com o desaparecimento do Naronic, contando com a colaboração do inglês Arthur B. Dallas em Recife?

Talvez pregar uma peça em Amaro Barreto e sua família? Acho meio difícil, pois os jornais de Natal nem divulgaram o desaparecimento do navio e nem o achado da garrafa!

Nas minhas pesquisas descobri que esses dois estrangeiros residiam a anos em Recife, eram casados com brasileiras, tinham filhos, negócios, viviam bem e eram respeitados pela sociedade pernambucana. Aí fica difícil acreditar que essas duas criaturas iriam criar uma presepada dessas para arriscar serem desmascarados e se tornarem motivo de chacota em Natal e Recife!

Se assim foi, essa doidice era destinada a quem? E serviu para o que?

Stevens viria a falecer em Recife no ano de 1902 na sua casa da Rua Visconde de Goiana e possui descendentes em Pernambuco. Já o Arthur continuou suas atividades comerciais sem maiores alterações e veio a falecer em 1910, em uma antiga granja na área do atual bairro do Cajueiro, também em Recife.

Nota do jornal Daily Pacific Commercial Advertise, da cidade havaiana de Honolulu, publicado em 18 de outubro de 1893.

Nota final – Ao pesquisar sobre esse caso nos milhares de jornais existente no site da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, eu só consegui dois resultados positivos. E são duas notas idênticas, publicadas em 18 de outubro de 1893, em dois jornais da cidade de Honolulu, lá no distante Havaí. Como é que essa notícia gerada Natal foi parar tão longe é um outro mistério!

O SURF NO RIO GRANDE DO NORTE – O INÍCIO

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Aspectos da História do Surf no Mundo, no Brasil e no Rio Grande do Norte e Como Foi o Primeiro Campeonato de Surf em Terras Potiguares

Rostand Medeiros – Escritor e membro do IHGRN 

O surf é um dos mais antigos esportes praticados no planeta, onde a arte de vencer as ondas com material flutuante é uma mistura do esforço atlético e da total compreensão da beleza e do poder da natureza. Surf é também um dos poucos esportes que criou a sua própria cultura e estilo de vida.

A origem do surf é incerta. Para alguns historiadores, a prática nasceu há cerca de quatro mil anos entre moradores da atual costa do Peru, que, para pescar, deslizavam sobre as ondas em canoas de junco. Mas muitos discordam desta teoria, afirmando que não há provas de que os antigos peruanos ficassem de pé nas embarcações. E menos ainda de que fizessem manobras por diversão – a alma do esporte.

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Fonte – http://www.surfingforlife.com/history.html

Para muitos cientistas a origem do surf está na Polinésia Ocidental, quando o ato de montar ondas com uma tábua de madeira originou-se há mais de três mil anos. Os primeiros surfistas foram pescadores que descobriram que deslizar sobre as ondas era um método eficiente de chegar à costa com suas capturas. Eventualmente está sobre estas ondas passou gradativamente de ser apenas parte do trabalho de sobrevivência, para ser um passatempo. Esta mudança revolucionou o que compreendemos hoje como surf.

Não há registro exato de quando o surf tornou-se um esporte. Sabe-se que durante o século XV, reis, rainhas e outras pessoas das Ilhas Sandwich se destacaram no esporte denominado “he’enalu”, ou onda de deslizamento, no velho idioma havaiano. “He’e” significa mudar de uma forma sólida para uma forma líquida e “nalu” refere-se ao movimento de uma onda.

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Encontro dos havaianos com o capitão ingles James Cook e sua tripulação – Fonte – herbkanehawaii.com

Os primeiros registros históricos da civilização europeia sobre o surf remontam ao século XVIII, quando os europeus e os polinésios fizeram o primeiro contato. Em 1779 o capitão e navegador inglês James Cook viajou pelo Oceano Pacífico. Em meio a suas navegações aportou na baía de Kealakekua, no Havaí, onde testemunhou competições sobre as ondas que faziam parte dos festivais de ano-novo, dedicados a Lono, deus da fertilidade e da fartura, do sol e da chuva.

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Fonte – https://longboardsurfearte.wordpress.com/2012/06/04/o-longboard-e-a-origem-do-surf/

No Taiti ele descreveu maravilhado como um nativo pegou ondas com sua canoa apenas por diversão: “Ao caminhar um dia onde nossas barracas foram erguidas, vi um homem remando em uma pequena canoa tão rapidamente e olhando ao redor com muita avidez. Ele sentou-se imóvel e foi levado ao mesmo ritmo que a onda. Seguiu até que desembarcou na praia, começou a esvaziar a canoa e foi em busca de outra onda. Eu não pude deixar de concluir que esse homem sentiu um prazer supremo enquanto ele era conduzido tão rápido e tão suavemente pelo mar”.

Quase o fim e o Renascimento

Os primeiros colonos polinésios a desembarcar no Havaí eram mais aptos a surfar e depois de algumas centenas de anos montando as ondas das ilhas surgiu a conhecida forma havaiana do esporte. Mas com a chegada de missionários cristãos às ilhas, a partir de 1820, o surf perdeu força. Os religiosos estavam determinados a pôr fim aos costumes pagãos, e enfrentar as ondas de pé e sem roupa estava no topo da lista – além de indecente, minava a produtividade. As pranchas foram transformadas em mesas e cadeiras, usadas nas escolas que ensinariam religião, “bons costumes” e escrita aos “selvagens”.

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Homens e mulheres surfando em desenho de Wallace Mackay, 1874 – Fonte – http://www.surfingforlife.com/history.html

Apesar do esforço dos missionários, o surf sobreviveu. Mais de um século depois, em 1907, um havaiano de ascendência irlandesa, George Freeth, levou o esporte para a Califórnia. Naquele tempo, as pranchas costumavam ser feitas de madeira maciça, tinham três metros de comprimento, pesavam 45 kg e não possuíam quilha, o que as tornava difíceis de manobrar.

Da Califórnia, a partir dos anos 1950, o esporte conquistou o planeta – com o empurrão de Hollywood e filmes como Maldosamente Ingênua (1959), com a atriz Sandra Dee.

Na tela, corpos bronzeados disseminavam a cultura da praia, associada a hedonismo, diversão e liberdade.

No Brasil o Surf Começou no Improviso 

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Thomas Ernest Rittscher Júnior, o pioneiro do surfe brasileiro – Fonte – http://www.avisoesporte.com.br/2011/11/surf-morre-aos-94-anos-de-idade-o.html

Para alguns a ideia de surfar com algo flutuante sobre as ondas no Brasil pode ter começado desde os tempos pré-Cabralinos. Teria sido com os indígenas e suas canoas escavadas de um único tronco de árvore, que poderiam ter voltado surfando após suas pescas no mar. Mas isso é até agora pura especulação.

De certo mesmo temos a história de um garoto nascido em 1917 na cidade de Nova York, Estados Unidos, cuja família se mudou para Santos em 1930.

Seu nome era Thomas Ernest Rittscher Júnior e consta que ele surfou com sua “tábua havaiana” na Praia do Gonzaga, quando tinha apenas 16 anos de idade. Thomas Rittscher construiu sua prancha baseado em um esquema da revista americana Popular Mechanics. A primeira prancha do Brasil pesava entre 50 e 60 kg e tinha quase quatro metros de comprimento.

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Thomas e Margot Rittscher em Santos, anos 30. Foto: arquivo pessoal família Rittscher – Fonte – http://supclub.waves.com.br/sup-video-homenagem-a-thomas-rittscher/

Ao avistarem as manobras de Rittscher nas praias do litoral sul, a população de Santos se espantou, acreditando que o pioneiro do surfe conseguia andar sobre as ondas. Rittscher é considerado o primeiro homem a surfar uma onda no Brasil e sua irmã Margott, que acompanhava o irmão nas aventuras, é considerada a primeira mulher a surfar no país.

A partir dos anos 1940, no Arpoador, Rio de Janeiro, o esporte começou a se popularizar, primeiro entre os praticantes de pesca submarina. Na década seguinte, quando virava moda mundial, ficou popular entre garotos da American School of Rio de Janeiro (Escola Americana do Rio de Janeiro), que na época ficava no bairro do Leblon.

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1959 – Jorge Paulo Lemann, de sunga escura, com amigos na Praia do Arpoador, Rio – Fonte – http://revistatrip.uol.com.br/trip/lemann-broders

Em 1952, um grupo de cariocas, liderado por Paulo Preguiça, Jorge Paulo Lemann (atualmente tido como o homem mais rico do Brasil) e Irency Beltrão começaram a descer as ondas na praia de Copacabana com pranchas de madeirite e o esporte começou a popularizar-se. Já as primeiras pranchas de fibra de vidro, importadas dos Estados Unidos, só chegaram ao Brasil em 1964, mas a maioria das pranchas continuavam a ser improvisadas, sendo confeccionadas de madeirite, ou isopor revestido com sacos de sisal.

A prancha que se denominava de isopor era feita de poliestireno expandido (EPS), material descoberto em 1949, nos laboratórios da empresa alemã BASF e que ficou mais conhecido no Brasil pela marca comercial “Isopor” (depois surgiu outra marca chamada “Isonor”). Foram pranchas que marcaram época, sendo muitas vezes as primeiras pranchas de muita gente por aí, mas que normalmente quebravam na primeira onda mais forte.

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Meninas competindo no Rio. Foto do acervo de Irencyr Beltrão, extraída do livro de Alex Gutenberg: “HISTÓRIA DO SURF NO BRASIL – 50 ANOS DE AVENTURA” 1989, Editora Azul. Uma produção da REVISTA FLUIR.

A primeira fábrica de pranchas de surf mais bem elaboradas no país era a carioca São Conrado Surfboard, que inaugurou suas atividades em 1965.

Em 15 de julho deste mesmo ano foi fundada a primeira entidade de surf brasileira – a Associação de Surf do Rio de Janeiro. Esta organizou o primeiro campeonato em outubro daquele ano. No entanto, o surf só seria reconhecido como esporte pelo Conselho Nacional de Desportos em 1988. 

E em Natal, como a coisa rolou?

Pesquisando nos jornais antigos, através de uma interessante reportagem produzida por Ricardo Rosado Holanda, com fotos de Joab Fabrício, e publicada em 25 de maio de 1975 (página 24) no extinto dominical natalense “O Poti”, observamos que a rapaziada da cidade já praticava surf com as antológicas pranchas de isopor. Ainda segundo Ricardo Rosado o pessoal local dominava as ondas deslizados deitados nas pranchinhas.

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Foi quando em janeiro de 1974 um surfista, cujo nome não ficou registrado nesta reportagem, surfou na cidade com uma clássica longboard, um tipo de prancha alongada, que na década de 1960 fez sucesso entre os surfistas californianos. O desconhecido praticante do antigo esporte criado no Oceano Pacifico parece que chamou atenção da rapaziada local por deslizar nas ondas em pé e provavelmente ele deu o “start” de algo que já estava latente nas praias potiguares.

Mas existe uma dúvida nisso tudo – Ou o desenvolvimento do surf foi bem rápido em praias potiguares? Ou o pessoal local já praticava surf com materiais flutuantes de melhor qualidade do que as frágeis pranchinhas de isopor, antes mesmo da apresentação do surfista desconhecido com seu pranchão na Praia dos Artistas?

Comento isso porque dois surfistas natalenses participaram do II Campeonato Pernambucano de Surf, na Praia de Porto de Galinhas e que aconteceu nos dias 29 e 30 de março de 1974. Eles eram Fabiano e Lamartine e competiram respectivamente nas categorias Júnior e Sênior. O evento era bem organizado e chegou a ser patrocinado pela Rede Globo e os dois surfistas saídos do Rio Grande do Norte conseguiram os sextos lugares em suas respectivas categorias, competindo contra 60 surfistas de Pernambuco e de todo país. Eu entendo que isso foi uma grande mostra da capacidade destes dois surfistas potiguares, pelo fato do esporte ser ainda tão incipiente e com poucos praticantes nas praias do Rio Grande do Norte (Ver Diário de Natal, edição de 4 de abril de 1975, sexta feira, página 10). 

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Já Ricardo Rosado apontou na sua reportagem de 1975 que cerca de 30 a 35 surfistas entubavam ondas nas Praias dos Artistas, Areia Preta, Ponta Negra e na idílica Baía Formosa, a 98 km de Natal e que na época era extremamente preservada na sua natureza.

Nesta matéria os surfistas considerados “feras” foram Luruca, Ronaldo, Barata, Fabiano, Albino, Sérgio, Hugo, Chico Adolfo, Seu Braz e “mais 30 adeptos”. O repórter apontou claramente que estes surfistas eram filhos de famílias tradicionais e abonadas da cidade. E certamente muitos deles eram de famílias com bom lastro financeiro, até porque nessa época o preço médio das pranchas de surf variavam de 1.500 a 3.000 cruzeiros. Com 2.800 cruzeiros em 1975 o Governo do Estado do Rio Grande do Norte pagava o salário mensal de um dentista. Já 3.000 cruzeiros dava para efetuar uma gorda entrada no pagamento do financiamento de um Fusca 1.300 em Marpas Veículos, ou pagar o valor do aluguel mensal de uma luxuosa casa de quatro quartos no bairro de Petrópolis, até hoje um dos mais valorizados de Natal.

Além do preço não podemos esquecer que neste período a maioria das pranchas eram fabricadas no Rio de Janeiro, normalmente por surfistas famosos e campeões, os “shapers”, como Mudinho, Toni, Missary e Rico, este último o famoso surfista carioca Rico Fontes de Souza. 

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Rico de Souza na década de 1970. Surfista carioca e referência na confecção de pranchas – Fonte http://acervo.oglobo.globo.com/

Do Rio também vinha a parafina para evitar escorregar da prancha (12 cruzeiros a caixa), roupa de neoprene para não sentir frio na água (700 cruzeiros a peça da marca Cobra Sub) e o par de rack para segurar as pranchas nos tetos dos veículos durante o transporte para as praias (400 cruzeiros).

Independente destas questões é interessante perceber que aqueles primeiros surfistas potiguares já possuíam dentro de suas mentes o principal aspecto da filosofia que impulsiona até hoje o surf pelo mundo afora – A integração com a natureza. Eles também já se organizavam para fundar um clube que unisse os praticantes do esporte em Natal. Sonhavam até mesmo com o apoio do Governo do Estado para a construção de um píer na Ponta do Morcego e holofotes para a prática noturna do esporte na Praia dos Artistas.

Mas a reportagem aponta que eles tinham em mente algo mais palpável para ser trabalhado em curto prazo – A realização de um campeonato de surf em Natal.

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Mas faltava um patrocinador para adquirir uma prancha para ser entregue como premiação principal.

O I Campeonato de Surf do Rio Grande do Norte

Para minha surpresa a ideia de ser realizado um campeonato de surf na capital potiguar atraiu favoravelmente uma parcela da sociedade potiguar para o evento. O campeonato foi efusiva e extensamente comentado na principal coluna social da cidade naqueles tempos, a do jornalista Paulo Macedo.

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A premiação do I Campeonato de Surf do Rio Grande do Norte em 1975.

Mesmo sendo um evento organizado por pessoas privadas, no caso Carlos Magno Campelo, Ronaldo Barreto e José Carlos, o patrocínio para a sua realização veio da empresa de divulgação de turismo do Rio Grande do Norte, a EMPROTURN, cujo presidente na época era Valério Mesquita (Ver Diário de Natal, edição de 29 de julho de 1975, terça feira, página 2).

O palco foi a Praia dos Artistas e ficou decidido que a data para a realização do campeonato seria nos dias 16 e 17 de agosto, sábado e domingo. As inscrições tinham o valor de 50 cruzeiros por surfista e não houve premiação em dinheiro, só em materiais, sendo que o primeiro colocado levaria uma prancha de surf novinha em folha da marca “Gledson”. Prometeram até mesmo juiz do Rio, mas isso ficou só na promessa.

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Com mais de 50 participantes inscritos eu acredito que quase todo mundo que praticava surf no Rio Grande do Norte caiu na água atrás da premiação, junto com surfistas vindos da Paraíba, Ceará, Pernambuco e até mesmo do Rio de Janeiro, pelo menos nominalmente.

Ficou acordado que o I Campeonato de Surf do Rio Grande do Norte teria cada uma de suas baterias classificatórias formada por cinco ou seis surfistas, com cerca de 30 minutos de duração e teriam início pela manhã e o encerramento previsto para as cinco da tarde. Os juízes eram de Pernambuco, do Ceará e um do Rio Grande do Norte.

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Segundo os jornais da época se inscreveram um total de 53 surfistas, oriundos de “todos os estados do Nordeste”, mas cinco destes não participaram. Entretanto os 48 surfistas restantes realizaram um campeonato muito disputado.

Eles ficaram divididos em oito baterias, com seis concorrentes cada uma. Dois concorrentes de cada bateria foram classificados no sábado, resultando dezesseis participantes para as baterias finais no domingo.

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Público presente na Praia dos Artistas para prestigiar o I Campeonato de Surf do Rio Grande do Norte de 1975

Duas baterias com cinco surfista e uma com seis concorrentes aproveitaram ao máximo as ondas da Praia dos Artistas no dia 17 de agosto e o campeão foi Ronaldo Barreto, de Natal e com apenas 17 anos de idade. Em segundo ficou Alfredo (de Fortaleza, Ceará), em terceiro Luruca (Natal), em quarto o classificado foi Capibaribe (Fortaleza), em quinto Amim (de Recife, Pernambuco) e em sexto Marquinho (do Rio de Janeiro, mas que morava em Natal).

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1975 – Ronaldo Barreto foi o campeão do I Campeonato de Surf do Rio Grande do Norte, aqui recebendo sua premiação de Valério Mesquita, o então presidente da EMPROTURN

Aquele primeiro campeonato potiguar de surf, realizado há quase 42 anos, foi considerado bem organizado e seguramente serviu como um grande marco para o desenvolvimento deste esporte na região. Segundo os jornais, já durante o evento os surfistas locais debatiam a criação de uma federação de surf no estado. Não demorou muito e rolou na Praia de Ponta Negra, em outubro daquele mesmo ano, o I Campeonato de Surf do Colégio Marista.

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Visão comum em Natal a partir de 1975

Aí a coisa não parou mais!

Hoje o surf potiguar é um dos esportes mais atuantes nas praias potiguares, com uma extensa história de sucesso e nomes que alcançam o circuito mundial deste esporte.

O Rio Grande do Norte tem representantes na elite do surf desde 1995, quando Aldemir Calunga começou a “dropar” as ondas pelo mundo. Depois, vieram Danilo Costa, Marcelo Nunes e Joca Júnior, que mantiveram a presença potiguar na elite.

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Os potiguares Jadson André e Ítalo Ferreira vão disputar a elite do Circuito Mundial de Surf em 2017 (Foto: Jocaff Souza/GloboEsporte.com)

E a saga continua firme e forte – Dos nove surfistas que vão representar o Brasil no Circuito Mundial de Surf em 2017, dois deles são potiguares – Jadson André, de Natal, e Itálo Ferreira, de Baía Formosa. A mesma bela praia que testemunhou o início do surf potiguar entre 1974 e 1975.


Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/acervo/surf-uma-historia-politica.phtml#.WJSEw4WcHIV

http://www.earj.com.br/history.html

http://iml.jou.ufl.edu/projects/spring04/britton/history.htm

http://jornalzonasulnatal.blogspot.com.br/2015/03/uma-onda-sem-fim.html

http://esporte.ig.com.br/maisesportes/surfe/morre-thomas-rittscher-o-primeiro-surfista-do-brasil/n1597382505205.html

https://www.wsj.com/articles/a-short-history-of-surfing-1439479278

http://www.future-surf.com/en/surf/historia/