A manhã rompeu fria sob um céu encoberto em Caicó, no coração do sertão potiguar. No centro urbano, quatro homens ajustavam as selas e preparavam suas montarias, ajudando-se mutuamente nos últimos detalhes antes da partida. Sem alarde, o pequeno grupo começou a cavalgar a passos lentos em direção ao norte. Embora a comitiva fosse discreta, aqueles homens figuravam entre as personalidades mais influentes e respeitadas de toda a região.
À vanguarda do grupo marchava Joaquim Inácio Carvalho Filho, o juiz da comarca e o único forasteiro daquela comitiva. Nascido 34 anos antes na fazenda Pico Branco, na altiva Serra de Martins, diplomara-se bacharel pela tradicional Faculdade de Direito do Recife em 1908, acumulando desde então uma sólida trajetória em cargos de destaque no governo e na magistratura potiguar.
Ao seu lado seguia Celso Afonso Dantas, uma das lideranças públicas mais proeminentes de Caicó e do Seridó. Fazendeiro abastado, comerciante de visão e pioneiro no empreendedorismo local, Celso era o proprietário da única agência de automóveis e do único posto bancário da cidade, responsável por representar o Banco do Brasil e o Banco de Natal. Até três anos antes, ocupara o cargo de Intendente Municipal — equivalente ao de prefeito nos dias atuais —, tendo sido o responsável pela inauguração do Mercado Público em 1918.
Junto a eles viajava Honório Onofre de Medeiros, influente comerciante que, desde o ano anterior, integrava o conselho da Intendência, então sob o comando de José Ignácio Camboim.
Cerrando a fila vinha Pedro Militão Soares de Lucena, figura de intensa atuação na sociedade caicoense, onde desempenhou diversas funções públicas. Jornalista de pena afiada, Militão era o redator do periódico O Seridoense e seria o cronista responsável por imortalizar aquela jornada em suas linhas.
Independentemente dos títulos acadêmicos, das fortunas ou do prestígio social de cada um, cruzar as veredas do sertão a cavalo exigia uma sabedoria prática que não se aprendia nos livros. Era preciso conhecer o tempo, respeitar a vegetação espinhosa da caatinga e dominar as longas distâncias. Naquela época, quando automóveis e caminhões ainda eram raridades poeirentas nas estradas do Seridó, o lombo dos animais permanecia como o principal meio de locomoção. Mesmo sendo homens letrados e de elite, todos ali dominavam a arte da montaria com tamanha destreza que dispensaram a companhia de qualquer empregado na travessia.
A Fazenda Caboclos hoje – Foto – Rostand Medeiros
O ano de 1922 foi generoso em chuvas. Com o campo verdejante, os viajantes seguiam sem pressa, desfrutando de uma jornada tranquila e “numa prosa constante, versando sobre vários assuntos”, conforme registraram. O trajeto avançava ora pelo leito que hoje compete à rodovia RN-118 — que interliga Caicó a Jucurutu —, ora em paralelo a essa rota, estendendo-se em paradas contemplativas ao longo do percurso.
Mapa onde aponto a localização de Caicó e a Fazenda Caboclos.
Durante a viagem, o juiz Joaquim Inácio, entusiasta da geologia, compartilhava observações aguçadas sobre a geografia local. Pedro Militão registrou o entusiasmo do magistrado, que insistia em pausar a marcha para examinar formações de rochas estratificadas, trechos de tabuleiros arenosos e camadas profundas de sedimentos. Em contrapartida, Celso Dantas mantinha os olhos fixos na paisagem agrícola: deslumbrava-se com os algodoais que vicejavam vigorosos após o período de cheia. Sentado sobre a sela, ele calculava os horizontes da safra, avaliava a qualidade da pluma num relance e ponderava as oscilações do mercado nacional e internacional, antevendo a tão sonhada bonança da malvácea nas terras caicoenses.
Mais adiante, Honório de Medeiros fez questão de conduzir a comitiva até o sítio Pai Bastião. Segundo as notas de Militão, a propriedade já pertencia a Honório naquela época, evidenciando que ele “estava se tornando mais fazendeiro do que comerciante”. Ali, o grupo fez uma pausa para o descanso, oportunidade em que o anfitrião orgulhosamente exibiu reprodutores recém-adquiridos em Pernambuco e um lote de reses gordas. Antes de alcançarem o destino principal, os cavaleiros ainda cruzaram as terras dos sítios Novo Mundo, Glória e Triunfo.
Embora a distância de Caicó a Fazenda Caboclos seja de aproximadamente quinze quilômetros — um percurso realizável em até duas horas de cavalgada mansa —, o tempo gasto pelos visitantes foi consideravelmente maior, dadas as inúmeras paradas. Ao finalmente aportarem na propriedade Caboclos, receberam as calorosas boas-vindas do proprietário, Manoel Cezário de Medeiros. Homem alto e esguio, então com 41 anos, ele trazia as marcas de uma origem humilde no sítio Glória. No alvorecer do século XX, Cezário havia partido para a Amazônia, onde prosperou no comércio do látex e extraiu fortuna no ápice do Ciclo da Borracha.
Ao regressar ao Seridó, converteu seu capital na compra do Caboclos e, movido por um dinamismo impressionante, passou a modernizar os arredores. Os caicoenses ilustres testemunharam os frutos desse esforço: uma usina de beneficiamento de algodão, um engenho de cana-de-açúcar, expressivos rebanhos de caprinos, suínos e bovinos, além de um pomar diversificado. Sob sua liderança, a fazenda alcançou tamanha fama regional que atraía comitivas de prestígio dispostas a conhecer aquele oásis de produtividade.
Ao descrever a sede da fazenda, Pedro Militão pontuou que a morada de Cezário era espaçosa e dotada de muitos aposentos, “porém baixa”, justificando ser este o padrão arquitetônico de “todas as casas do sertão”. Para quem estuda ou idealiza a opulência dos casarões de alpendre do Seridó, tal descrição chega a ser surpreendente, pois contraria a expectativa comum de encontrarmos fachadas imponentes e de pé-direito elevado nessas propriedades tradicionais.
Contudo, a residência contava com um vasto alpendre, onde foram servidos a todos muitas pinhas, laranjas, goiabas, mamões, canas-de-açúcar, bananas, cocos e os cajus, que eram tidos como “famosos” na região de Caicó. Mas foi a área do pomar, localizada a cerca de duzentos metros da casa, “nas costas do açude”, o local que mais impressionou os visitantes. A beleza era tanta que eles comentaram que aquilo mais parecia o “Brejo Paraibano” ou a “Serra de Baturité” do que o caliente Seridó potiguar.
Embora a reportagem não explique como Cezário realizava o cultivo das frutas, essa impressão positiva foi reforçada mais de uma vez no texto. O dono da propriedade Caboclos informou, inclusive, que a fruta mais rentável era, sem dúvidas, a banana. Cezário foi cassado pela primeira vez com em 1901 com Diogência Vitória de Medeiros, que faleceu em 1912 e lhe deixou dois filhos. No ano seguinte casou com Ana Rosalina de Medeiros e dessa união nasceram outros dez filhos.
Após visitarem o pomar, os viajantes foram até a parede do açude, que estava bastante cheio. Eles se impressionaram com as dimensões da estrutura e com o volume de água represado, além dos enormes algodoais que cresciam nas margens. Tudo ali transbordava produtividade. Para os visitantes, aquela propriedade só rivalizava com outras duas existentes em Caicó: uma no “vale de São José” e outra “no Umary, no Barra Nova”.
Muito bem tratados, os visitantes almoçaram, tomaram banho de açude e descansaram em redes armadas no alpendre — um costume completamente natural e acolhedor para qualquer nordestino. Sentiam-se tão bem que Pedro Militão escreveu:
Com o Sr. Medeiros, conhecido como Chico de Doca, que me apresentou o lugar – Foto – Rostand Medeiros.
“Naquelles momentos o juiz não pensou nas suas sentenças, os commerciantes esqueceram os seus planos de negocios, nem a sombra da secca passou pela mente do fazendeiro e o periodista nem viu que já era terça feira e nada tinha para o seu numero da sexta. Todos despreoccupados, alheios a labuta quotidiana, apenas queriam saber que estavam desfructando a genuina hospedagem de um sertanejo da gemma, que gosavam o espectaculo saudavel de um céo limpo e um campo verde”.
Por volta das três da tarde, após calorosas despedidas, os quatro cavaleiros partiram rumo a Caicó. Sem nenhuma parada, o trajeto levou apenas uma hora e meia. A jornada foi integralmente noticiada na primeira página do jornal O Seridoense, na edição de sexta-feira, 14 de julho de 1922..
Em forte contraste com aquela época, hoje vemos o campo se despovoar e o apreço pelas tradições se esvair; para muitos, o valor da História reduziu-se ao eco jocoso de que “quem gosta de passado é museu”. Por essa razão, para quem ama as origens de sua terra, é profundamente gratificante resgatar a memória de um Seridó que ainda pulsa na mente daqueles que preservam a identidade desse amado pedaço do Rio Grande do Norte.
Felipe Nery de Brito Guerra – Publicada originalmente na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, 1927, Volumes XXIII e XXIV, páginas 228 a 239.
* Informação do Blog Tok de História – Como comentado anteriormente, busquei atualizar o centenário texto do Desembargador Felipe Guerra, sem, contudo, alterá-lo. Foi necessário também dividi-lo em duas partes, uma dedicada as lutas e outra aos combatentes potiguares, que será a nossa próxima publicação..
Entre seus filhos que mais se distinguiram por feitos militares é preciso citar que nos dois primeiros séculos da conquista, os Potiguares ILHA GRANDE, JACAÚNA, e o maior de tolos eles, Dom Antônio Felipe Camarão, chefe dessa valorosa tribo que, já em 1603, havia fornecido 800 guerreiros para pacificar os Aimorés, que se revoltaram na Bahia, e para dar fim aos Quilombos, que infestavam a região do Itapecuru, na mesma Capitania.
Retrato anônimo de Felipe Camarão, do século XVII, no Museu do Estado de Pernambuco– Fonte – Wikipedia.
Inquestionavelmente na grande crise da luta holandesa, o mais sério e grave perigo que ameaçou a integridade do Brasil, na frase de Silvio Romero, foi Camarão um dos mais valorosos generais, e o completo conhecimento que tinha, do teatro da luta, pode-se bem avaliar quão decisivo foi o papel que desempenhou na campanha. Não é esta a ocasião de escrever a vida de Camarão, já proficientemente estudada pelo desembargador Luiz Fernandes.
Cabe, porém, citar ligeiramente alguns episódios.
Camarão recebera ordens para estabelecer guerrilhas contra os holandeses entre Goiana e Itamaracá. “O terror que incutia o seu nome era tal que o general holandês Arciszewski (Krzysztof Arciszewski) saiu de propósito do Recife com mil soldados para destruir esse punhado de valentes guerrilheiros e prender seu chefe”.
Krzysztof Arciszewski- Fonte – Wikipedia.
Sobre o resultado da empresa disse o próprio general holandês: “Há mais de quarenta anos que milito na Polônia, na Alemanha e em Flandres, ocupando sem interrupção postos honrosos; mas só o índio Camarão veio abater-me o orgulho”.
Logo depois, seguiu Camarão para Alagoas guiando, através de 70 léguas de território dominado pelo inimigo, milhares de pessoas até Porto Calvo, onde se achavam as forças do general em chefe de então. Sob o comando do conde da Torre, auxiliou eficazmente a defesa da Bahia, recebendo ordens dele para percorrer os sertões hostilizando os holandeses. Portou-se de tal forma nessa excursão que, referindo se a ele, o inimigo chamou-o Anjo do extermínio.
Juntou-se depois as forças de Luiz Barbalho, que haviam desembarcado em Touros, no Rio Grande do Norte, após a derrota sofrida pela esquadra do conde da Torre, guiando essas forças, com Vidal e Henrique Dias, por ínvios sertões em luta aberta contra os inimigos até a Bahia, onde chegaram “a tempo de poder livra-la de ser atacada e tomada pelas forças do almirante Lichthart (Jan Cornelisz Lichthart), já as suas portas“. Os holandeses haviam seguido de porto a coluna sem alcança-la, vingando-se cruelmente ao matar aqueles que, doentes ou estropiados, não podiam acompanhar a heroica retirada que assim caminhou cerca de quatrocentas léguas.
Quadro que mostra os fortes na foz do Rio Paraíba, capturados pelo almirante Lichthart em 1634– Fonte – Wikipedia.
Regressando a Pernambuco ordenou Vital a Camarão que viesse prosseguir novas hostilidades no Rio Grande do Norte e vingar, nesta parte do Brasil, tantas crueldades não só dos selvagens, como dos próprios holandeses, que se bem que cristãos de nome, mais bárbaros se haviam mostrado que os índios.
“Camarão cumpriu o seu mandato muito além do que se podia esperar; e conseguindo chamar a si um grande número de índios que estavam com o inimigo, chegou a dominar todo o sertão do norte até os confins do Ceará”. Assim se exprimiu o visconde de Porto Seguro, citado pelo desembargador Luiz Fernandes, que muito judiciosamente acrescenta: Acreditamos que esse fato reduzindo a força dos Tapuias, poderosos aliados dos holandeses, foi uma das causas determinantes do seu enfraquecimento e consequente perda das suas conquistas“.
Frota de guerra holandesa – Fonte – Wikipedia.
Esse homem superior ao cansaço, lutando da Bahia ao Ceará, esse general de gênio que soube aliar o esforço e a disciplina no cumprimento do dever à coragem do soldado, à estratégia do índio, gozando da férrea resistência do selvagem, pode ser colocado ao lado de Caxias, como um dos fatores da integridade nacional, sem desdouro para este general que ocupa o ponto culminante na história militar e política do Brasil.
Não houve uma só ação, diz Fernandes Pinheiro, em que se pleiteasse a causa da liberdade, em que os batavos não sentissem o peso do seu braço, empalidecendo ao ouvir seu nome aqueles mesmos que nas águas do Zuiderzee haviam submergido os brasões de Castela.
O indígena Antonio Felipe Camarão (ilustração de autor desconhecido/Domínio público) e, ao fundo, carta escrita por ele a Pedro Poti – Imagens: Arquivo de Eduardo Navarro.
Hoje, para bem se poder aquilatar o valor da intervenção de Camarão na guerra holandesa é suficiente refletir que, em uma época de arraigados preconceitos de raça, de nobreza e de religião, ele representante de selvagens, sobre os quais a qualidade de “humanos” havia sido objeto de controvérsias, recebia excepcionais distinções não só da parte dos que se achavam à frente da luta como também da parte da Côrte da Metrópole.
Assim, por carta regia de 1633 foi-lhe conferido brasão d’armas, 40$ de soldo e patente de Capitão-mor de todos os Índios do Brasil. Depois o rei da Espanha também lhe conferiu o Hábito de Cristo e o tratamento de Dom, e mais tarde foi recompensado cora a comenda lucrativa, na Ordem de Cristo dos Moinhos da Vila de Soure, em Portugal, com que eram galardoados os heróis lusitanos que se distinguiam por serviços em guerras na África, havendo excepção para Camarão, conforme diz o visconde de Porto Seguro: “Por faltarem serviços em África, ocorreram dúvidas e foi necessário dispensa da Cúria, de modo que a comenda só chegou a realizar-se a 3 de maio de 1641”.
De volta de suas excursões guerreiras, a junção de Camarão aos chefes da guerra era recebida como um desafogo. A sentinela, diz o historiador Southey, que teve a fortuna de anunciar a vinda de sete índios do regimento de Camarão, que traziam aviso da próxima chegada do seu comandante, deu Vieira dois escravos de alvissaras..
O indígena Antonio Felipe Camarão (ilustração de autor desconhecido/Domínio público) e, ao fundo, carta escrita por ele a Pedro Poti – Imagens: Arquivo de Eduardo Navarro.
O Brasil ainda está em dívida para com esse seu glorioso filho: falta-lhe um monumento digno, capaz de exteriorizar a gratidão nacional para com o mais genuíno representante da raça aborígene.
E Portugal? Os holandeses chegaram a dominar até Sergipe. A política portuguesa pensou seriamente — e manifestou em acordo — reconhecer o domínio holandês. Firmado essa dominação, teria a colonização portuguesa resistido a pressão holandesa do norte para o sul; a pressão espanhola ao sul; as ambições francesas?
E se a bela língua de Camões se estende hoje a uma região cem vezes maior que Portugal, e é falada por uma população cinco vezes maior do que a do seu país de origem, deve a expulsão dos holandeses do Brasil, para qual o gênio de Dom Antônio Felipe Camarão teve preponderante e decisivo valor. Portugal acha-se assim também em dívida para com o grande Poti.
Dona Clara Camarão, legitima esposa de Felipe Camarão, tomou parte nas lutas e acompanhou seu marido nas horas de extremo perigo, batendo-se denodadamente ao seu lado. Da grande emigração de Mathias de Albuquerque, diz a história: “Nesta penosa emigração distinguiram-se pelos seus grandes feitos militares Felipe Camarão e sua mulher Clara Camarão”.
Na revolução do 1817, como já ficou dito, não foram os feitos guerreiros que imortalizaram a gloriosa tentativa. Assim diz o Capitão Alípio Bandeira no seu completo estudo histórico — O Brasil Heroico de 1817 — “o que constitui a gloria dos heróis de 1817 é o esforço valoroso com que trabalharam pela nossa autonomia política, são as reformas verdadeiramente liberais que eles tentaram implantar no governo que estabeleceram, são a lisura e o desprendimento, a lhaneza e a tolerância, em suma — a honesta fraternidade com que invariavelmente procederam”.
Depois de abafado o movimento, nenhuma revolução no Brasil fez tantos mártires quanto a de 1817. Segundo a citada obra do Capitão Alípio Bandeira, foram fuzilados quatro patriotas, enforcados nove, supliciados em horrorosas prisões por mais de três anos e meio cerca de trezentos, e por mais de um ano cerca de duzentos!
Do Rio Grande do Norte, além do nobre chefe André de Albuquerque, estúpida e barbaramente assassinado em Natal, além de Miguelinho, o puro e evangélico mártir, ambos riograndenses, fornece a história numerosa lista de patriotas martirizados nos cárceres, sendo talvez João Francisco Fernandes Pimenta, com o ardor de seus vinte anos, a encarnação mais forte e mais ativa do guerrilheiro e lutador que, nos sertões do Rio Grande do Norte, durante meses, zombou de forças legalistas que o perseguiam.
Bênção das bandeiras da Revolução de 1817, óleo sobre tela de Antônio Parreiras– Fonte – Wikipedia.
Estudando a história da revolução de 1817 no Rio Grande do Norte, fica-se certo de que se o governador de então, José Ignacio Borges, talvez inclinado aos ideais da revolução, tivesse os mesmos sentimentos ferozes e sanguinários daqueles que dirigiram a reação em Pernambuco e Bahia, muito mais elevado teria sido o número dos mártires riograndenses.
Considerando que grande número de pessoas de destaque daquele tempo, no sertão do Rio Grande do Norte, principalmente em Portalegre, Patu, Martins, Pau dos Ferros, Apodi e Campo Grande, estiveram implicados na revolução, em comunicação direta com os chefes do movimento em Recife, é de supor, com bons fundamentos, que duas causas concorreram para diminuir o número daqueles mártires riograndenses.
A primeira foi o espirito de benevolência, de camaradagem e amizade reinante entre os sertanejos do Rio Grande do Norte, naquela época principalmente, oriundos de pequeno número de famílias, já então ligados por entrelaçamentos e afinidades, formando quase que uma só família: não houve delações; o esforço de cada um e de todos foi salvar o amigo das garras tigrinas das Juntas Militares.
O Carmelita Miguel de Almeida e Castro, conhecido como Frei Miguelinho, era potiguar de Natal e teve participação ativa na revolta de 1817 em Pernambuco. O quadro mostra seu julgamento em Salvador, onde foi condenado a morte pelo fuzilamento e a pena cumprida no dia 12 de junho de 1817. É nome de cidade em Pernambuco e muito cultuado no Rio Grande do Norte– Fonte – Wikipedia.
A segunda causa deve ser procurada na coragem nobre e santa de Miguelinho, em seu elevado espirito.
Sabendo que no dia seguinte seria encarcerado, não se abateu, não se entregou a inúteis fraquezas; passou a noite queimando papeis e documentos capazes de comprometer a sorte de seus amigos. Ao entrar em casa disse Á sua irmã em lagrimas, as memoráveis palavras: “Mana, nada de choros; estás órfã. Tenho enchido os meus dias. Logo virão buscar me para a morte; entrego te à vontade de Deus, nele terás um pai que não morre mais aproveitemos a noite. Imita-me. Ajuda-me a salvar a vida de milhares de desgraçados”.
Miguelinho durante alguns anos fora professor no Seminário de Olinda. Muitos vigários do Rio Grande do Norte haviam sido seus discípulos e, naturalmente, continuavam amigos do mestre. O seminarista José Ferreira da Motta, de Portalegre, e que então cursava o seminário de Olinda, correspondeu-se diretamente com seu pai, capitão José Ferreira da Motta. Seguiu imediatamente, disfarçado em boiadeiro a entender-se com os chefes em Recife, o sargento Mór Manoel Fernandes Pimenta. Teve assim a revolução, que depois relacionou-se com os chefes do movimento em Natal, fortes ramificações pelo sertão. Não foram relativamente numerosos os sertanejos que padeceram nos cárceres. É de supor que a noite de vigília de Miguelinho, queimando papeis, o amargurado Horto da vítima votada ao sacrifício, tenha redimido muito sofrimento e evitado muita lagrima em seu torrão natal.
Quadro de um combate de forças de cavalaria, como os que ocorreram durante a Guerra do Paraguai – Fonte – Wikipedia.
Durante a guerra do Paraguai foram inúmeros os contingentes enviados do Rio Grande do Norte. Muitos de seus filhos lá cumpriram o seu dever, derramaram o sangue, perderam a vida. Entre os riograndenses, já mortos (em 1927), que ocuparam postos de destaque no Exército, acham-se:
– José Xavier Garcia de Almeida, engenheiro militar e brigadeiro José Correia Telles, natural do Assú, praça em 1856, fez toda a campanha do Paraguai a começar pela do Uruguai. Cavaleiro da Ordem de Aviz, recebeu a medalha argentina da comemoração da guerra. Fez parte da junta governativa de Alagoas em 1891, Coronel em 1894, foi reformado como general em 1897 e faleceu no mesmo ano.
Nota sobre José Pedro de Oliveira Galvão após a Guerra do Paraguai.
– José Pedro de Oliveira Galvão, praça em 1862. coronel efetivo em 1895. Fez a campanha do Paraguai. Senador pelo Rio Grande do Norte, por seis anos, faleceu em 1896.
Coronel Fonseca e Silva, anos após a Guerra do Paraguai– Fonte – Wikipedia.
– Francisco Victor da Fonseca e Silva, natural de São Gonçalo, praça em 1865, reformou-se com a graduação de general de divisão, vindo a falecer em 1905. Fez também a campanha do Paraguai. Como comandante da força policial da então Província do Rio de Janeiro foi um dos auxiliares da revolução de 15 de novembro de 1889. Foi deputado à Constituinte Republicana pelo Estado do Rio de Janeiro, e, ainda, deputado da primeira legislatura da Câmara Federal pelo mesmo Estado. Eleito, depois, deputado pelo Rio Grande do Norte, representou este Estado na quarta e quintas legislaturas.
– Antônio da Rocha Bezerra Cavalcante, fez com distinção, a campanha do Paraguai, falecendo no posto de general, reformado.
Foto de combatentes da Guerra do Paraguai. O terceiro sentado da esquerda para a direita, é o Coronel Joca Tavares e seus auxiliares imediatos, incluindo José Francisco Lacerda, mais conhecido como “Chico Diabo” (terceiro em pé, da esquerda para a direita), que matou o ditador paraguaio Solano Lopez. Imagem: Wikipedia, Domínio Público. In: Salles, Ricardo. Guerra do Paraguai: memórias & imagens. Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional, 2003. ISBN 85-333-0264-9 (p.180)
– Francisco de Paula Moreira. Fez a campanha do Paraguai. Tomou parte na organização republicana do Estado, como deputado à Constituinte. Faleceu no posto de Coronel, reformado.
Antônio Florêncio Pereira do Lago
– Antônio Florêncio Pereira do Lago. Foi um distintíssimo rio-grandense-do-norte que morreu no posto de coronel, reformado. Nascido em 1827, bacharelou se em ciências físicas e matemáticas e pertenceu ao corpo do Estado-Maior de primeira classe. Oficial da Ordem da Rosa, cavaleiro da Ordem de Cristo e da de São Bento de Aviz, foi condecorado, ainda, com a medalha da campanha do Uruguay em 1851 e com a da guerra do Paraguai. Exerceu com brilho comissões do Ministério da Guerra e do da Agricultura. Por ordem do Governo fundou a colônia do Alto Uruguai.
Escreveu várias obras e trabalhos oficiais, entre os quais “Relatório dos estudos da comissão exploradora dos rios Tocantins e Araguaia”. Ilustre e esquecido brasileiro que honra a sua pátria e é uma legitima glória de sua corporação. O visconde de Taunay traçou o retrato de sua personalidade: “Lago, isto é, a prudência, a força, a reflexão, o sentimento apurado de dever; Lago, a personificação do bom senso, mas, ao mesmo tempo, a tenacidade levada ao extremo da teima. Alto, gordo, então simples capitão, mas com proporções para ser general, tem ele fisionomia, franca e simpática. Possui inteligência, ilustração e, sobretudo, consciência. Reto e leal, é amigo as deveras, mas também inimigo decidido”.
No posto de capitão de engenheiros fez parte do Corpo de Exercito que seguiu para Mato Grosso, e que escreveu a heroica e dolorosa pagina que é a Retirada de Laguna. O visconde de Taunay escreveu que a expedição de Mato Grosso escapou de completo aniquilamento devido á energia e ao estoicismo de Pereira do Lago que, nos momentos mais cheios de angustia, perigo e desalento, conseguia com seu exemplo, sua calma e coragem, levantar o espirito de todos. “Oficial do maior valor moral, nunca foi apreciado na medida de seus méritos”, ainda repetia Taunay, em 1896, em seu livro “Viagens de Outrora”.
Pereira do Lago faleceu na idade de 65 anos, no posto de coronel, reformado, 1º de janeiro de 1892.
– Padre Amaro Theó Castor Brasil, que seguiu de Campo Grande (RN) com mais dois irmãos e dois parentes para o Paraguai, onde fizeram toda a campanha como Voluntários da Pátria, e voltaram como oficiais. Um deles, José Lucas Barbosa prestou depois valiosos serviços nas3 lutas e na organização do Acre, onde foi comandante da Guarda Nacional.
– Ulysses Olegário Lins Caldas e João Percival Luiz Caldas, eram irmãos, ambos do Assú, seguiram como Voluntários da Pátria para o Paraguai. O primeiro, ardente e destemido jovem de 18 anos, encetou seus passos na campanha como herói, e assim continuou até cair fulminado por uma bala no coração, nas avançadas de Curuzu, em novembro de 1866. Galgando trincheiras inimigas, arrebatando canhões, morreu pouco depois de completar vinte anos e alcançara o posto de tenente e por distinção o Hábito de Cavalleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro. A ordem do dia do Exército em campanha, de 4 de setembro de 1866, referindo-se ao assalto de Curuzu, citando o nome de alguns oficiais, diz: “…que quais leões, se lançaram sobre as baterias inimigas, chegando ao ponto de subir sobre sua artilharia, como fez este último oficial, com uma intrepidez que a todos surpreendeu”. Este último oficial, que “a todos surpreendeu com sua intrepidez” era, na citação, Ulysses Caldas.
O Barão de Porto Alegre liderando as tropas em Curuzu, pintura de Victor Meirelles– Fonte – Wikipedia.
– Alexandre Baraúna Mossoró. Filho da cidade de Mossoró, humílimo e obscuro herói, soldado da quinta companhia do terceiro batalhão de infantaria, fez a campanha do Uruguai. Tomou parte no assalto de Paissandu. Ferido, continuou a bater-se encarniçadamente. Novo ferimento lhe vasou uma vista; mandam-no retirar-se do combate e ele continua a bater-se. Terceiro ferimento inutiliza-lhe o braço direito. Empunha então a arma com a mão esquerda, pois “com o canhoto ainda pôde dar uma lição aos gringos“, conforme grita ao comandante; escala a trincheira e cai lutando ainda, do lado oposto, em meio dos inimigos, sendo então morto! O seu comandante cerca de veneração o cadáver do herói. Ao espirar, vêm-lhe à lembrança sua mãe e seu torrão natal: “minha mãe… viva o Mossoró!…” Indômito filho do povo não menos herói, mais infeliz, porém, do que o corneta Jesus ainda não teve a consagração condigna, nem mesmo da poesia, a imortalizar lhe o nome!
– Ponciano Souto, natural do Assú, Voluntário da Pátria que fez toda a campanha do Paraguai, voltando como capitão, e faleceu em 1882, em Bananal, São Paulo, como tabelião vitalício.
João Mafaldo, do Martins, alferes, morto no assalto à cidadela de Canudos.
Nota sobre o batalhão de potiguares na Guerra de Canudos, no Jornal “A República”, 10 de dezembro de 1897.
José da Penha, de Angicos, sincero republicano, escritor, polemista e tribuno, absorvido e sacrificado, infelizmente, pela politicagem que o vitimou no posto de capitão, a 19 de fevereiro de 1914, em Iguatu (Ceará).
Theophilo Guerra, jornalista, e cronista das secas. Quando cadete em Minas Geraes, levantou uma “questão militar,’ não se sujeitando, em serviço local, ao cominando de oficial de polícia. Submetido, então, a conselho de guerra, foi absolvido. Faleceu no posto de alferes..
São esses os traços gerais da história militar do Rio Grande do Norte, que poderia comportar largo desenvolvimento, mas não é possível em ligeira “introdução” nomear todos aqueles, numerosos, que no cumprimento do dever, souberam honrar a Pátria.
As figuras culminantes desta história são — Camarão, Pereira do Lago e o obscuro soldado Baraúna Mossoró. Sofredores, incansáveis, superiores ao desalento e aos revezes, tenazes na luta, devotados, estoicos, são bem tipos representativos desta população martirizada pelas secas, oferecendo sempre sobre humana e tenaz resistência a desapiedados golpes da natureza, sem abandonar o ingrato e querido solo, que, afinal, será conquistado.