SOLDADO LUÍS GONZAGA: O HERÓI DA PM DO RN E UMA CONTROVÉRSIA HISTÓRICA

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Em uma das fotografia acima vemos uma cerimônia realizada no Cemitério do Alecrim em homenagem ao soldado Luís Gonzaga, considerado oficialmente o policial militar morto durante os combates ocorridos no antigo Quartel da Polícia, durante a Intentona Comunista de 23 de novembro de 1935.

Hoje, Luís Gonzaga é reconhecido pela Polícia Militar do Rio Grande do Norte como um de seus maiores símbolos. Seu nome batiza a principal condecoração da corporação e sua memória é reverenciada há décadas.

Publicada originalmente na Revista da Polícia, do Rio de Janeiro, edição de novembro de 1937, página 41.

Entretanto, existe uma controvérsia histórica que, embora pouco conhecida, nunca deixou de me chamar a atenção.

No livro Vertentes (1976), o desembargador João Maria Furtado dedica as páginas 128 e 129 a contestar a versão oficial. Segundo ele, Luís Gonzaga jamais teria sido soldado da Polícia Militar. Afirma que se tratava de um rapaz com deficiência mental, conhecido popularmente como “Doidinho”, que frequentava o quartel, utilizava peças antigas de uniforme e, durante o intenso tiroteio, acabou sendo atingido por uma bala, vindo a falecer.

Ainda segundo João Maria Furtado, embora diversos policiais tenham sido feridos naquele combate, nenhum integrante da corporação teria morrido em ação. Por essa razão, o então comandante da Polícia Militar, major Luiz Júlio, teria providenciado posteriormente o alistamento retroativo desse jovem, criando oficialmente a figura do soldado Luís Gonzaga como símbolo da resistência ao movimento comunista.

Essa interpretação não ficou restrita ao desembargador.

A capa e as páginas referentes ao caso no livro Vertentes, do desembargador João Maria Furtado.

Entre maio de 1984 e novembro de 1985, o jornalista Luiz Gonzaga Cortez publicou, no Diário de Natal, uma extensa série de reportagens sobre os acontecimentos políticos da década de 1930 no Rio Grande do Norte. Em diversos momentos, ele também questionou a narrativa oficial sobre Luís Gonzaga.

Essas reportagens motivaram forte reação do advogado João Medeiros Filho, que havia sido chefe de Polícia em 1935 e era autor do livro 82 Horas de Subversão (1980). Ele contestou energicamente as conclusões apresentadas por Gonzaga Cortez, mantendo viva uma discussão que já atravessava décadas.

Uma das páginas da séie de repotagens (um total de 20), publicadas pelo jornalista Luiz Gonzaga Cortez, no antigo jornal natalense O Poti, entre maio e novembro de 1985 sobre o comunismo e as lutas políticas no Rio Grande do Norte.

Entretanto, há um aspecto documental que torna essa discussão ainda mais interessante.

Há documentos oficiais da própria Polícia Militar que registram o alistamento de Luís Gonzaga como soldado em 30 de outubro de 1935. Também foram publicados boletins internos concedendo-lhe promoção post mortem ao posto de cabo por bravura, além do respectivo desligamento dos quadros da corporação em razão de sua morte. Há ainda um relato oficial sobre a ocorrência.

São justamente esses documentos que João Maria Furtado e Luiz Gonzaga Cortez consideravam ter sido produzidos posteriormente para oficializar, de forma retroativa, o ingresso de Luís Gonzaga na corporação.

Quartel da Força Policial, conhecido como “Quartel de Salgadeira”, em Natal, após ser metralhado durante a Intentona Comunista – Foto – toxina1.blogspot.com

Naturalmente, essa é uma interpretação historiográfica. Muitos a aceitam; outros a rejeitam completamente. Não possuo elementos para afirmar, de maneira categórica, qual dessas interpretações corresponde aos fatos. O que me chama a atenção é outro detalhe documental.

Tenho fotografada, em alta resolução, toda a coleção do jornal A República referente ao ano de 1935: página por página, edição por edição. Ao consultar a edição do dia 28 de novembro de 1935, página 8, que traz a nota oficial do Governo do Estado comentando os acontecimentos da Intentona Comunista, observo que não há qualquer referência ao soldado Luís Gonzaga. Há 41 anos o jornalista Luiz Gonzaga Cortez informou sobre isso nas páginas do jornal dominical natalense O Poti.

Foto da página do jornal A República, edição do dia 28 de novembro de 1935, página 8, que traz a nota oficial do Governo do Estado sobre os fatos ligados a Intentona Comunista e não há qualquer referência ao soldado Luís Gonzaga.
Em 1985 o jornalista Luiz Gonzaga Cortez também não encontrou nada!

Ora, se ele realmente foi o único policial militar morto durante a defesa do quartel, por que seu nome não aparece justamente na primeira manifestação oficial do Governo sobre aqueles acontecimentos?

Essa ausência documental, pelo menos para mim, levanta uma questão que merece ser considerada. Seria um simples equívoco de quem redigiu a nota no Palácio do Governo? Uma falha da tipografia do jornal? Ou haveria outra explicação?

Tudo isso é possível. Contudo, permanece a pergunta: por que o nome daquele que seria o único policial militar morto em combate somente aparece dias depois?

Foi justamente essa sequência de documentos que me levou a refletir sobre o tema. Não apresento estas observações para oferecer uma conclusão definitiva, mas para expor uma questão historiográfica que, ao meu ver, permanece aberta.

Detalhes da página 8 do jornal A República, edição de 29 de novembro de 1935, onde é apresentado um resumo dos fatos ocorridos a partir do dia 23 de novembro. Podemos ver uma relação das vítimas dos conflitos violentos, incluindo militares da polícia, mas não se menciona o soldado Luiz Gonzaga, mesmo passados seis dias do início dos acontecimentos.

Ao longo dos anos, percorri, em quatro oportunidades diferentes, o mesmo caminho utilizado por Lampião e seus cangaceiros durante o ataque a Mossoró. Nessas pesquisas, passei a conhecer melhor a atuação do soldado José Monteiro de Matos, cuja coragem sempre me impressionou profundamente.

Paralelamente, estudando os jornais da época, o livro de João Maria Furtado e as reportagens de Luiz Gonzaga Cortez, percebi que meus questionamentos sobre a história de Luís Gonzaga apenas aumentaram.

A História não é construída apenas por certezas. Ela também é feita de documentos, de versões conflitantes e de perguntas que atravessam gerações.

Intentona Comunista de 1935 – Chegada à Estação da Great Western, em Natal, do primeiro grupo de comunistas capturados, indo para o interior – Fonte Wikipédia.

Talvez Luís Gonzaga tenha sido exatamente o herói que a tradição da Polícia Militar preservou. Talvez João Maria Furtado e Luiz Gonzaga Cortez tenham identificado uma inconsistência documental que ainda merece ser investigada.

Não sei.

O que sei é que, enquanto existirem documentos apontando caminhos diferentes, essa controvérsia continuará fazendo parte da própria História.

E não há nada de errado nisso. Questionar documentos, confrontar versões e buscar compreender o passado sempre foi — e sempre será — a essência do trabalho de qualquer pesquisador.

UM HERÓI ESQUECIDO? – A HISTÓRIA DO SOLDADO DA PM DO RN QUE NÃO FUGIU DO COMBATE A LAMPIÃO E PAGOU COM A VIDA

No dia 10 de junho de 1927, Lampião e seu bando invadiram o Rio Grande do Norte com o objetivo de atacar a cidade de Mossoró.

Na pequena vila de Vitória — atual município de Marcelino Vieira —, o tenente Napoleão de Carvalho Agra organizava um destacamento de policiais potiguares para tentar interceptar os cangaceiros antes que eles alcançassem seu destino.

Entre aqueles homens havia um jovem recruta, negro, de baixa estatura e recém-incorporado à força policial. Era tão novo na corporação que sequer possuía farda. Chamava-se José Monteiro de Matos.

Na tentativa de disfarçar a tensão que antecedia o combate, alguns companheiros faziam brincadeiras às suas custas. Diziam que, por ser pequeno e inexperiente, provavelmente seria o primeiro a fugir quando começassem os tiros. A resposta do soldado ficou para a História.

— Eu morro, mas não corro..

Pouco depois, a tropa deixou a vila e seguiu em direção ao sul. Não demorou para que o encontro com os homens de Lampião acontecesse. O combate foi intenso.

A superioridade numérica e tática dos cangaceiros acabou obrigando os policiais a recuar. Foi nesse momento que José Monteiro de Matos transformou sua frase em realidade.

Igreja próxima ao setor onde foi morto o soldado José Monteiro de Matos, onde durante muitos anos, sempre no dia da sua morte, os moradores da região chamavam o padrre da cidade de Marcelino Vieira para rezar o que ficou conhecido como “A Missa do Soldado”. Quando estive pela primeira vez nesse local em 2010, essa celebração religiosa já não mais existia.

Mesmo ferido, permaneceu em sua posição, dando cobertura à retirada dos companheiros. Lutou até o último instante, matou o cangaceiro Azulão e acabou sendo cercado e brutalmente assassinado pelos homens de Lampião.

Foto do laudo cadavérico original do soldado José Monteiro de Matos.

Seu laudo cadavérico registrou que seu corpo foi submetido a sucessivas sevícias, revelando a violência com que foi tratado após sua morte.

Sou autor do livro 1927 – O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte (2019), pesquisa para a qual percorri, de motocicleta, todo o trajeto realizado pelos cangaceiros em território potiguar.

Ao longo dessa jornada, uma coisa me chamou profundamente a atenção. Mesmo em localidades muito distantes de Marcelino Vieira, encontrei pessoas que ainda se lembravam da história do soldado que havia prometido:

“Eu morro, mas não corro.”

Quase um século depois, sua coragem permanecia viva na memória popular. Talvez seja essa a mais verdadeira das homenagens.

Até onde consegui apurar, a única homenagem oficial prestada ao Soldado José Monteiro de Matos foi dar seu nome à quadra de esportes do quartel da Polícia Militar em Pau dos Ferros. Se existe outra, sinceramente a desconheço.

As instituições constroem naturalmente seus símbolos e preservam aqueles que consideram representativos de sua própria história. Como um pesquisador independente, porém, sinto que

também tenho um dever. O dever de registrar histórias como esta para que homens como José Monteiro de Matos não desapareçam das páginas do passado.

Porque existem heróis que recebem monumentos. Outros recebem medalhas. E existem aqueles cuja maior homenagem é continuar sendo lembrados.

Na minha opinião, o Soldado José Monteiro de Matos merece nunca ser esquecido.

MARCOS DE RELIGIOSIDADE NO CAMINHO DE LAMPIÃO NO RIO GRANDE DO NORTE

Rostand Medeiros – Escritor, Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e historiador.

Jornal Tribuna do Norte.

Em 2010, em alternadas viagens,  estive percorrendo pela primeira os cenários da passagem do bando de Lampião no oeste potiguar, fato que ocorreu entre os dias 10 e 14 de junho de 1927.

Segui principalmente por áreas rurais desde a cidade de Luís Gomes, tendo como ponto focal Mossoró e finalizando em Baraúna. Percorri esse caminho originalmente palmilhado por estes cangaceiros como parte de uma consultoria que prestei ao SEBRAE, no âmbito do projeto Território Sertão do Apodi – Nas Pegadas de Lampião. Parte desse trajeto, que também focava em questões da espeleologia da região, percorri junto com Sólon Almeida.

Para traçar essa rota, além das obras escritas sobre a história da passagem do bando de Lampião pelo Rio Grande de Norte, fiz uso de materiais históricos existentes nos arquivos do Rio Grande do Norte, Paraíba e de Pernambuco e a bibliografia existente, com destaque ao livro do amigo Sérgio Augusto de Souza Dantas, autor de Lampião e a grande Jornada – A história da grande jornada.

Foram percorridos muitos quilômetros, onde visitamos vários sítios, fazendas, comunidades e cidades. Foram entrevistadas 123 pessoas e obtidas mais de 2.000 fotos. Em grande parte deste trajeto, a motocicleta se mostrou um aliado muito mais eficiente para se alcançar estes distantes locais.

Um dos fatos mais interessantes foi o surgimento de marcos de religiosidades ligados aqueles dias tumultuosos de 1927.

Cruzeiros marcando locais de acontecimentos intensos, capelas edificadas como promessas pela salvação de pessoas ante a passagem dos cangaceiros, o caso da utilização de uma igreja por parte dos cangaceiros. Além desses fatos temos a controversa situação envolvendo o túmulo do cangaceiro Jararaca na cidade de Mossoró.

Ao longo dos anos eu tive a grata oportunidade de realizar esse caminho em quatro outras ocasiões, sendo o mais importante em 2015, para a realização de um documentário de longa metragem denominado Chapéu Estrelado, dirigido pelo mineiro radicado no Rio de Janeiro Silvio Coutinho e produção executiva de Iapery Araújo.

Infelizmente pelo falecimento do diretor Coutinho em 2018, no Rio, esse documentário não seguiu adiante.

Esses foram os locais mais interessantes ligados a esse tema e seus respectivos municípios.

MARCELINO VIEIRA 

A área próxima à sede do atual município de Marcelino Vieira é repleta de lembranças e marcos que mantém vivo na memória da população local os fatos ocorridos naquela longínqua sexta-feira, 10 de junho de 1927.

Cruz em homenagem ao soldado Matos.

Sítio Caiçara e a “Missa do Soldado” – Nesse local ocorreu um combate onde morreram o soldado José Monteiro de Matos e o cangaceiro Patrício de Souza, o Azulão.

Percebemos nitidamente que para as pessoas que habitam a região, os fatos mais marcantes em termos de memória estão relacionados ao combate conhecido como “Fogo da Caiçara” e a valente postura do soldado José Monteiro de Matos. Não foi surpresa que membros da comunidade local, no dia 10 de junho de 1928, apenas um ano após o combate na região da Caiçara, decidissem realizar, uma missa em honra a memória do valente militar.

Igrejinha onde é rezada a “Missa do Soldado”.

Segundo pessoas da comunidade do Junco, as margens do açude da Caiçara, de forma espontânea e apoiadas pelas lideranças locais, os mais antigos moradores deram início a um ato religioso. No começo ele ocorria no mesmo ponto onde se desenrolou o combate. Segundo pessoas entrevistadas na região, o evento sempre atraiu um número considerável de pessoas, passando a ser conhecida como “A Missa do soldado”. Com o passar do tempo à missa transformando-se em uma das mais importantes tradições religiosas de Marcelino Vieira.

ANTÔNIO MARTINS – ZONA RURAL

Fazenda Caricé – a fazenda Caricé estava no roteiro de destruição dos cangaceiros. Caminho lógico para quem seguia em direção norte, no caminho a Mossoró, a fazenda pertencia ao pecuarista Marcelino Vieira da Costa. Este era um paraibano que prosperou com a criação de gado e tornou-se tradicional líder político. Faleceu em dezembro de 1938 e seu nome batiza atualmente a cidade onde decidiu viver.

Capela em honra a Jesus, Maria e José, no sítio Caricé, erguida como promessa pela salvação da família do Coronel Marcelino Vieira das garras do bando de cangaceiros de Lampião

Ao saber da aproximação do bando do cangaceiro Lampião, o fazendeiro Marcelino Vieira decidiu dormir em uma área onde existia um canavial, próximo ao açude da fazenda. A chegada do grupo, insuflados por supostas contas a acertar do temível cangaceiro Massilon Leite com a família Vieira, produziu um saque que resultou em um prejuízo no valor de um conto e duzentos mil réis. Os celerados deixaram o lugar antes do meio-dia.

Da velha sede da fazenda Caricé nada mais resta, mas por lá encontramos uma pequena capela.

Interior da capelinha.

Quando a família Vieira e seus empregados estavam no canavial, em dado momento alguns cangaceiros chegaram a se aproximar do esconderijo. Diante do que poderia acontecer, com muito medo, a filha do fazendeiro, rogou intensamente aos céus que os bandoleiros se afastassem.

Vista noturna da capela do Caricé.

Caso isto se concretizasse, ela e sua família tratariam de erguer uma ermida em honra ao poder de Jesus, Maria e José. Pouco tempo as imagens foram adquiridas ainda em 1927, tendo sido trazidas da Bahia e que a primeira missa rezada no local foi verdadeiramente suntuosa.  O templo já apresenta sinais de abandono, com algumas telhas caindo, mas a estrutura ainda se mantém em grande parte firme.

Serra da Veneza.

Capelinha da Serra da Veneza – Uma interessante situação relativa à memória da passagem do bando nessa região ocorreu na região da Serra da Veneza, na fronteira de Antônio Martins com o vizinho município de Pilões. Nessa elevação granítica, que segundo o mapa da SUDENE chega a atingir a altitude de 555 metros, existe uma capela edificada em razão do medo provocado pela passagem do bando.

Quando Lampião e seu bando se aproximavam, em meio às terríveis notícias, três fazendeiros da região procuraram refúgio junto às rochas da base desta elevação. Essas famílias solicitaram junto ao mesmo santo, São Sebastião, que os protegessem contra a ação dos cangaceiros. E o mais interessante, mesmo sem se combinarem, as três famílias elegeram a mesma penitência; caso nada de negativo ocorresse a eles e as suas famílias, cada um deles teria de galgar a Serra da Veneza, erguer um oratório e ali depositar uma imagem em honra ao santo.

Capelinha da Serra da Veneza.

Lampião passou sem acontecer problemas a essas pessoas. Logo os fazendeiros e seus familiares foram a Vila de Boa Esperança, como muitos moradores da região, para agradecer na capela de Santo Antônio pelo fato de nada de pior haver ocorrido. Nesse local as três famílias se encontraram e ao debaterem sobre os fatos vividos, para surpresa de todos os presentes, compreenderam que havia ocorrido uma interseção divina com relação a eles terem tido as mesmas ideias e os mesmos pensamentos de penitência. Em pouco tempo eles adquiriam conjuntamente uma pequena imagem de São Sebastião e logo galgavam a Serra da Veneza para unidos edificarem um pequeno oratório. A ação dos três fazendeiros e as estranhas coincidências chamaram a atenção das pessoas na região e logo outros penitentes subiam a serra para pagar promessas. Em pouco tempo teve início uma procissão e não demorou muito para que o pároco local também viesse participar. Com o passar do tempo começou a ocorrer a participação de pessoas de outros municípios. Em 1948, vinte e um anos após a passagem do bando e do pretenso milagre, treze famílias deram início a construção da atual capela, em meio a uma intensa confraternização.

A cada dia 20 de janeiro, inúmeros ex-votos são colocados como pagamento de promessas, velas são acesas e fiéis de vários municípios vêm participar subindo a serra.

ANTÔNIO MARTINS- ZONA URBANA

Cangaceiros na Capela de Santo Antônio – O período da chegada dos cangaceiros, no dia 11 de junho de 1927, na então pequena comunidade de Boa Esperança, atual Antônio Martins, coincidiu com as celebrações da festa de Santo Antônio, o padroeiro local. De certa maneira essa situação de comemoração e alegria do povo, serviram para a rápida ocupação do lugarejo e a sua total capitulação diante da cavalaria de cangaceiros.

A capela de Santo Antônio era o principal local em Boa Esperança para realização dos festejos relativos ao padroeiro local. Nessa festa é tradicional a realização das chamadas “trezenas”, onde durante treze dias anteriores ao dia 13 de junho, a data consagrada a Santo Antônio, ininterruptamente são realizadas missas, orações de grupos de pessoas com terços nas mãos, cantos de benditos, encontros e outras participações da comunidade neste templo cristão. Quando o bando chegou, haviam algumas pessoas reunidas no local e um grupo de cangaceiros, visivelmente embriagados, proibiu a saída dos fiéis do local. Essas pessoas assistiram horrorizadas de dentro da capela o suplício de um habitante local, o jovem Vicente Lira, que apunhalado e sangrando abundantemente, era obrigado a engolir talagadas de cachaça. Mesmo em meio a essa cena de terror, diante da igreja aberta e engalanada, soubemos que alguns cangaceiros adentraram o local, se ajoelharam, se benzeram e saíram sem perturbar os atônitos presentes. Na saída soltaram Vicente Lira.

Durante todo nosso percurso, esta foi a única informação de que alguns cangaceiros do bando de Lampião, teriam adentrado um templo religioso católico em todo Rio Grande do Norte.

LUCRÉCIA

Fazenda Castelo.

Capela da Fazenda Castelo – Após a saída da cidade de Frutuosos Gomes, na zona urbana do município de Lucrécia, as margens da RN-072, soubemos que o bando realizou a invasão da fazenda Castelo, propriedade tida como a mais importante da antiga localidade. No terreno ao lado da sede da fazenda Castelo se encontra uma bem preservada capelinha dedicada a Nossa Senhora da Guia. Entretanto, ao buscarmos contato com as pessoas mais idosas em busca da história da capela, não foi possível um esclarecimento mais exato sobre quem a construiu e se essa construção tem alguma relação com a passagem do bando de Lampião, como no caso da ermida da fazenda Caricé. Houve pessoas que indicaram que a construção foi consequência de uma promessa pela salvação dos proprietários locais junto a passagem dos cangaceiros, outros indicaram que ela seria anterior a 1927 e outros apontaram que ela seria posterior a essa data. 

Capela da fazenda Castelo, Lucrécia, Rio Grande do Norte.

Foi perceptível a necessidade de ampliar as pesquisas sobre o local.

A Cruz dos Canelas – Depois de passarem por Lucrécia, os cangaceiros atacaram uma propriedade rural e sequestraram um fazendeiro bastante conhecido e querido na região. A notícia se espalhou entre vários parentes e amigos e logo um grupo decide com extrema coragem sair em busca do povoado de Gavião, atual cidade de Umarizal, onde pudessem levantar a quantia estipulada por Lampião para soltar o popular fazendeiro.

Sítio Serrota dos Leites, de onde foi sequestrado o fazendeiro Egídio Dias.

O grupo era pequeno, com um número que aparentemente chega a quatorze e só quatro deles, membros de uma família conhecido como “Canelas”, eram os únicos que os pesquisadores do assunto apontam como possuidores de armas de fogo com alguma potência. Esse grupo conhecia os caminhos e provavelmente confiaram no fato de ser período de lua cheia. Onde essa condição facilitaria o trajeto.

Enquanto se desenrolava esta situação, na região do sítio Caboré, cansados pelo deslocamento, esgotado pelas ações e pelo consumo de bebidas, o bando de cangaceiros decidiu descansar nas terras do Caboré. Por volta das três da manhã o grupo de amigos chegou ao Caboré em busca de informações. Não sabiam que um cangaceiro, facilitado pelo luar, vigiava os movimentos do grupo. No local conhecido como “Serrote da Jurema” foi armada uma emboscada pelo bando de experientes combatentes. Logo abriram fogo contra a incipiente tropa e três deles tombaram e o resto fugiu em franca debandada. Segundo os laudos cadavéricos a vingança do bando de Lampião nos corpos dos amigos do fazendeiro sequestrado foi terrível.

Cruz dos Três Heróis, ou Cruz dos Canelas.

Apesar de todo empenho em buscar ajudar o amigo detido, o que o grupo de resgate não sabia era que a sua ação era totalmente inútil. Algum tempo antes, no bivaque armado pelos bandidos, em meio ao cansaço generalizado da tropa de Lampião, o sequestrado conseguiu fugir para o meio do mato.

Atualmente, as margens da rodovia estadual RN-072, na comunidade Caboré, se encontra uma cruz conhecido como “A cruz dos três heróis”, aonde o povo de Lucrécia e da região vêm homenagear àqueles que agora são conhecidos apenas como “Os Canelas”, ou os “Heróis de Caboré”. No local muitos rezam e pagam promessas e acendem velas em honra desses homens.

MOSSORÓ

Caso da Igreja de São Vicente de Paula e a questão do túmulo do Cangaceiro Jararaca.

A notícia de que Lampião avançava na direção de Mossoró chegou aos ouvidos dos moradores de Mossoró em abril de 1927. À época, a Capital do Oeste Potiguar, como seus habitantes ainda gostam de intitulá-la, já era um dos municípios mais importantes do interior nordestino. Com 20 mil habitantes, localizada no meio do caminho entre duas capitais – Natal e Fortaleza –, em nada se assemelhava às pequenas cidades onde Lampião e seu bando atacava e saqueava o comércio.


Igreja de São Vicente de Paula, em Mossoró.

No dia 13 de junho de  1927, após dizer não a Lampião, que cobrou 400 contos de reis (em moeda da época 400  milhões de reis – atualmente uns 20 milhões de reais) para não invadir a cidade, começava um tiroteio entre moradores da cidade e os cangaceiros. A igreja de São Vicente de Paula foi o local principal da resistência. Lampião costumava dizer que “cidade com mais de uma torre de igreja não é lugar para cangaceiro”. Não se tratava de superstição, mas de raciocínio lógico – municípios com tal característica eram maiores e, portanto, mais difíceis de dominar. Os ocupantes das trincheiras no alto da Igreja de São Vicente e da casa do intendente tinham visão privilegiada do avanço das tropas. Tão logo o grupo surgiu no horizonte, iniciaram-se os disparos. Os cangaceiros, acostumados a desfilar nos povoados sem serem incomodados, foram surpreendidos. 

Findando com a expulsão dos cangaceiros, a morte de alguns deles e a prisão do temível José Leite de Santana, vulgo Jararaca, enterrado vivo no cemitério da cidade, após cavar sua própria cova.

Túmulo do cangaceiro Jararaca.

A Jararaca é atribuída todas as crueldades. A mais famosa consistia em arremessar crianças para o alto e apará-las com a ponta do punhal. Trespassados pela lâmina, garotinhos leves o bastante para serem lançados na direção do sol morriam lenta e dolorosamente, em meio aos gritos dos pais – e às gargalhadas do cangaceiro.

O interessante é que hoje é visto como santo pelo povo, devido a crueldade com que foi morto. Recebendo o seu túmulo visita de milhares de pessoas em dias de finado e ao longo de todo ano. Na verdade mais prestigiado que o túmulo de muitos políticos famosos da cidade, enterrados no mesmo cemitério e esquecidos de todos. Mostrando que nem sempre o séquito que em vida rodeia os poderosos permanece uma vez morto. Ironicamente ao contrário do cangaceiro.

Túmulo de Rodolfo Fernandes.

O famoso chefe cangaceiro deveria ter pensado duas vezes antes de tentar invadir e ser expulso de forma humilhante, assim historicamente a cidade ligou seu nome ao famoso personagem Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Anualmente, em frente  à igreja que funcionou como trincheira é encenada um musical chamado: Chuva de bala no país de Mossoró, que remonta todo o fato histórico e mantém viva a memória.

Os heróis da resistência de Mossoró, de toda forma foram bravos sim!

Mas por que o santificado é um cangaceiro e não um dos resistentes?

Por  que não santificaram o prefeito de Mossoró que liderou a resistência?  Por que as fotos dos heróis da resistência são tão pequenas e a dos cangaceiros estão expostos em painéis enormes? Parece até que o povo de Mossoró não se identificou muito com os heróis da resistência!

Memorial da Resistência.

A história por trás do túmulo de Jararaca se confunde muito com o misticismo, com a conduta cultural de um povo. Jararaca apenas foi consagrado, por conta de sua bravura. O povo sempre busca o menor para enaltecê-lo. É perceptível essa situação no próprio cemitério, quando o túmulo de Rodolfo Fernandes não recebe o mesmo número de visitas correspondentes ao túmulo onde está Jararaca.

Fonte sobre o túmulo de Jararaca – Valdecy Alves, “MOSSORÓ EXPULSOU O BANDO DE LAMPIÃO A BALA – DISSE NÃO À EXTORSÃO DO CANGACEIRO – UM GRANDE FATO NA HISTÓRIA DO NORDESTE – FATOS E FOTOS!” – http://valdecyalves.blogspot.com/2011/12/mossoro-expulsou-o-bando-de-lampiao.html