COM FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO EM RECIFE, ENTREGANDO MEU LIVRO “1927 – O CAMINHO DE LAMPIÃO NO RIO GRANDE DO NORTE”

Rostand Medeiros – IHGRN

Depois de quase sete meses recluso na minha residência em Natal devido ao atual problema da pandemia, por esses dias eu tive a grata oportunidade de pegar a estrada BR-101 e seguir para Recife, onde visitei o amigo Frederico Pernambucano de Mello.

Como já aconteceu em outras oportunidades e apesar do distanciamento em relação a questão do COVID-19, eu fui muito bem recebido pelo amigo e a conversa foi bastante ampla e excepcional. E só tiramos as máscaras para bater uma chapa e registrar o momento!

Sempre é bom encontrar alguém com amplo conhecimento em determinados temas e mais ainda quando essa pessoa, como é o caso de Frederico, possuí algumas qualidades simples e que parecem faltar nos dias de hoje – Transmitir conhecimentos de forma clara e objetiva, além de escutar com atenção ideias e opiniões. Isso tudo em meio a muita simplicidade, algo que lhe é próprio e normal. Pude aprender mais sobre a História do nosso querido Nordeste.

Na ocasião lhe ofertei um exemplar do meu novo livro “1927 – O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte”. Fiquei muito agradecido pela atenção, respeito e fidalguia dispensada a esse potiguar.

Realmente valeu a viagem!

Segundo o Wikipédia, Frederico Pernambucano de Mello nasceu na cidade do Recife, capital do estado brasileiro de Pernambuco, é Procurador federal aposentado, é formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela tradicional Faculdade de Direito do Recife e em 1988 foi eleito para a Academia Pernambucana de Letras e foi superintendente da Fundação Joaquim Nabuco. Tem entre suas obras Rota Batida: escritos de lazer e de ofício, Guerreiros do sol: o banditismo no Nordeste do Brasil, Quem foi Lampião, A Guerra Total de Canudos, Delmiro Gouveia: desenvolvimento com impulso de preservação ambiental, Guararapes: uma visita às origens da pátria, A tragédia dos blindados: um episódio da Revolução de 30 no Recife, Estrelas de couro: a estética do cangaço, Benjamin Abrahão: Entre Anjos e Cangaceiros, Na trilha do cangaço: o sertão que Lampião pisou, Guerra em Guararapes & outros estudos, Apagando o Lampião: Vida e Morte do Rei do Cangaço.

LEMBRANÇAS DE LAMPIÃO, SABINO, MASSILON E JARARACA NO LIVRO “1927 – O CAMINHO DE LAMPIÃO NO RIO GRANDE DO NORTE”

Rostand Medeiros – Sócio efetivo do IHGRN e autor do livro “1927 – O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte”.

Em 2010 encontrei a consultora Kátia Lopes, do Serviço Brasileiro de Apoio às Pequenas e Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Norte – SEBRAE/RN. Através de Kátia soube do desenvolvimento do “Projeto Território Sertão do Apodi – Nas Pegadas de Lampião”, do qual ela era a gestora. No diálogo soube que ela planejava criar um grupo para percorrer o mesmo caminho palmilhado por Lampião e seus cangaceiros, como parte de um amplo reconhecimento histórico. Ali estava uma oportunidade imperdível de realizar um antigo sonho que desejava realizar.

Em grande parte do trajeto a motocicleta foi o meu transporte, como na ladeira do Riacho Preto, em Felipe Guerra, Rio Grande do Norte.

Com o apoio institucional da Sociedade Espeleológica Potiguar – SEP, através de Sólon Almeida Netto, pudemos apresentar a Kátia Lopes e a outros técnicos do SEBRAE, como seria possível coletar de forma sistemática as informações relativas ao caminho percorrido pelo bando de Lampião na sua invasão ao Rio Grande do Norte e as ações ali ocorridas.

Descobrimos que na antiga divisão territorial do Rio Grande do Norte, o bando de Lampião havia percorrido seis municípios – Luís Gomes, Pau dos Ferros, Martins, Caraúbas, Apodi e Mossoró. Para a realização deste projeto observamos que o antigo caminho está atualmente localizado na área territorial de dezenove territórios municipais potiguares. São eles Luís Gomes, Major Sales, Paraná, José da Penha, Tenente Ananias, Marcelino Vieira, Pilões, Pau dos Ferros, Serrinha dos Pintos, Antônio Martins, Frutuoso Gomes, Lucrécia, Umarizal, Caraúbas, Apodi, Felipe Guerra, Governador Dix-sept Rosado, Mossoró e Baraúnas.

No Povoado Cruz, na zona rural de Frutuoso Gomes, Rio Grande do Norte.

E teríamos de passar por todos esses locais.

Nesta área previamente delimitada procuramos identificar, documentar e catalogar o maior número de informações, tais como a descrição do trajeto percorrido pelos cangaceiros, a situação do patrimônio que eles atacaram, como também compilar as informações transmitidas pelas testemunhas e descendentes daqueles que presenciaram os episódios de 1927. Junto a essas informações utilizamos a bibliografia existente, complementada por informações de jornais e mapas.

Após esta fase, buscamos entrar em contato com as prefeituras, entidades e pessoas nos dezenove municípios listados, com o intuito de corroborar as informações coletadas e sobre ações realizadas no sentido de preservar a memória destes fatos.

Na bela cidade serrana de Martins-RN.

Munidos destas informações foi planejada a sequência de viagens de campo, a logística envolvida para a execução desta fase do trabalho e, no momento certo, seguimos adiante pelas estradas do sertão!

Durante a realização da pesquisa de campo pelo oeste do Rio Grande do Norte, fossem nas cidades, distritos, localidades e propriedades visitadas, buscamos contatar primeiramente as testemunhas da passagem do bando ainda vivas e que se encontravam mais lúcidas. Mesmo sendo poucas as pessoas enquadradas nesse grupo que conseguimos encontrar, foi possível coletar alguns interessantes relatos destes acontecimentos. Percebemos que o muito do que essas pessoas guardavam em suas mentes sobre aqueles dias sombrios, estavam relacionados ao choque da passagem daqueles cangaceiros, com a quebra total de suas rotinas, suas perdas pessoais e materiais, das humilhações, das sevícias, deixando terríveis lembranças.

Às margens da rodovia estadual RN-117, na zona rural do município de Mossoró, no Sítio Lagoa dos Paus, encontramos o agricultor Expedito Evangelista de Oliveira, que narrou as agruras que seu sogro, João Abdias de Araujo, passou junto ao bando.

Mas foi com aqueles que não haviam nascido no momento da passagem de Lampião e seus homens, que em 2010 estavam na faixa entre os 70 a 80 anos de idade, que tivemos oportunidades de escutar ótimos relatos. Estas pessoas viveram em uma época anterior a existência massificada do rádio e da televisão, onde os relatos de viva voz feitos pelas testemunhas dos episódios de 1927, muitas vezes em inesquecíveis diálogos nos alpendres das casas sertanejas, que marcaram profundamente suas lembranças.

Em meio a esta coleta de informações, buscamos realizar a maior quantidade possível de registros fotográficos, para apresentar o que restava dos locais invadidos pelo bando. Infelizmente constatamos, desde a nossa primeira passagem, que uma taxa bastante elevada deste patrimônio já não mais existia.

Com a conclusão desta etapa, percebemos que havíamos seguido pelo caminho correto, pois foi possível elucidar dúvidas existentes na bibliografia tradicional, descartar informações duvidosas e descobrir novos detalhes da passagem deste grupo de cangaceiros pelos nossos sertões.

Buscamos então apresentar um relatório ao SEBRAE sobre a marcha do bando de forma cronológica, sequenciando os locais onde os cangaceiros estiveram apresentando fotografias dos pontos visitados e detalhando as informações conseguidas. Depois de 2010 eu tive a oportunidade de percorrer esse caminho em mais outras quatro ocasiões.

Fazenda Campos, Umarizal-RN.

Uma experiência rica e maravilhosa.

Gostaria de abrir um parêntese aqui, para comentar algo percebido durante o trajeto percorrido para a conclusão desta pesquisa.

Principalmente no trecho compreendido entre as cidades de Umarizal e de Governador Dix-sept Rosado. Percebi, por meio dos vários relatos transmitidos pelos descendentes dos que testemunharam os fatos de 1927, que a figura do cangaceiro Lampião assumiu uma interessante conotação positiva. Ouvi várias vezes que ele “Não era tão ruim”, “Que ele não era tão mal”.

No entendimento da maioria das pessoas entrevistadas, eram os “outros cangaceiros”, ou “o resto da tropa”, aqueles que realmente praticaram as ações mais negativas, mais malévolas, especialmente Sabino, Jararaca e Massilon. Praticamente quase não ouvi a menção dos nomes de outros cangaceiros ao longo do caminho, ficando esses três celerados como os mais recordados negativamente.

Sei, por meio da tradição oral e dos materiais publicados nos livros existentes sobre esse tema, que Lampião pontualmente praticou alguns gestos de boa vontade ao longo desse largo caminho, principalmente com mulheres gestantes ou que se encontrava em estado de resguardo. Observei que aparentemente essas suas “boas ações” lhe granjearam entre os potiguares da zona rural invadida uma imagem que ao longo de décadas cada vez mais foi se transformando em positiva.

Lampião

Em relação a Sabino, como todos naquela turba, foi um cangaceiro que praticou toda sorte de crimes por onde passou no Rio Grande do Norte, principalmente surras, e alguns desses acontecimentos são aqui narrados. Contudo, percebi que, aparentemente, a imagem negativa dele tinha uma forte ligação com a cor de sua pele. Para se referir a Sabino, não foi nem um pouco raro encontrar relatos em que sobraram termos como: “O safado do negro Sabino”, “O negro medonho do Sabino”, “O negro nojento do Sabino” e outros que descambaram para termos impublicáveis. Seja qual for o termo, sempre havia o adjetivo “negro” presente.

Jararaca é um caso à parte! O negro valente de Buíque (PE), alto e forte, que, segundo os estudiosos, seguia quase sempre à frente do grupo de bandoleiros, tem a sua figura associada a um crime verdadeiramente assombroso, que foi repetido muitas e muitas vezes durante meu deslocamento.

Cangaceiro Sabino.

Quando Jararaca se encontrava preso e indefeso na cadeia de Mossoró, foi-lhe questionado se tinha algum arrependimento pelos erros passados. Ele comentou que se arrependia apenas de uma coisa: em determinado lugar (que nunca é especificado), ao se encontrar em uma casa que estava sendo assaltada pelo bando, ele pegou um risonho bebezinho nos braços e o lançou para o alto. Quando a criança vinha caindo, o cangaceiro sumariamente o apunhalou, ou “aparou” no dizer do sertanejo, utilizando seu longo punhal. A criança teria morrido rindo, pois na sua inocência imaginava que Jararaca a teria jogado para o alto como parte de uma brincadeira.

Na sequência desse relato, quando Jararaca morreu, muitos fizeram questão de dizer que ele tinha “Pago por esse crime terrível” quando ele morreu nas mãos dos policiais potiguares no Cemitério de Mossoró.

Para muitos entrevistados, o fim violento, covarde e cruel de Jararaca nas mãos dos agentes do Estado serviu como redenção do hediondo crime praticado contra a criancinha. Para corroborar com essa suposta redenção, muitos fizeram questão de me lembrar do fato de Jararaca ser considerado um “santo” pelo povo de Mossoró.

Mesmo a história dessa punhalada sendo repetida à exaustão ao longo do trajeto, esse crime nunca foi comprovado pelos principais estudiosos que se debruçaram sobre o tema.

Nos casos de Sabino e Jararaca, percebi que as violências praticadas pelo primeiro, principalmente por meio de suas inúmeras surras com chicotes, colocaram-lhe numa situação de repulsa muito intensa e logo surgia a lembrança de sua negritude. Já o segundo, Jararaca, mesmo sendo igualmente negro como Sabino, ele é pouco recordado pela cor de sua pele, mas sim pelos episódios narrados anteriormente.

O cangaceiro Jararaca ao lado de dois soldados, em Mossoró, Rio Grande do Norte

Já em relação ao cangaceiro Massilon, que era branco e – desde a fronteira do Rio Grande do Norte com a Paraíba, dependendo do lugar visitado e de acontecimentos ocorridos no passado – sua memória se alternou entre positiva e negativa.

Por um lado, nos locais onde anteriormente Massilon foi destratado pelos ricos proprietários e que, consequentemente, sofreram sua vingança já como cangaceiro, ele foi lembrado principalmente com termos como “moleque safado”, “cabra de peia” e “marginal”.

Por outro lado, nos locais onde ele realizou positivas ações de proteção dos velhos amigos, soltura de presos conhecidos, ou a preservação de patrimônios, houve definições que iam desde “um homem correto e de palavra”, até outras que apontavam Massilon como “uma pessoa boa que entrou na vida do cangaço por conta dos outros”. Ao questionar quem seriam esses “outros”, invariavelmente a resposta foi “os que tinham dinheiro e lhe trataram mal antes de ser cangaceiro”.

Bem amigos e amigas, a jornada foi percorrida e agora, em 2020, como que fechando um ciclo, através do apoio de SEBRAE/RN, apresento o que vi!

MEMÓRIAS DO ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ – JOÃO MANOEL FILHO E A TRINCHEIRA DO SOBRADINHO

João Manuel Filho – Foto – Francisco Rodrigues

Rostand Medeiros – Sócio efetivo do IHGRN e autor do livro “1927 – O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte”.

Ele chegou caminhando de forma lenta, mas firme. Trazia uma bengala na mão, um chapéu de cor clara na cabeça, tinha a pele curtida pelo sol da região oeste do Rio Grande do Norte e um semblante onde denotava uma vida de muita ação e experiência.

Estamos na cidade de Mossoró, na primeira metade de 1977, onde o cidadão João Manoel Filho concedeu uma entrevista ao jornalista Alexis Gurgel, do extinto jornal dominical natalense O Poti, onde narrou sua participação na “Resistência cívica” do povo mossoroense contra o bando de cangaceiros comandados pelo pernambucano Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Fato ocorrido em 13 de junho de 1927.

O cenário da entrevista, mostrado nas fotografias existentes na página 23, da edição de 5 de junho de 1977 de O Poti, foi realizada em um dos locais onde se vendia bebidas e comidas no tradicional Mercado Público de Mossoró, perto da igreja de Santa Luzia. João Manoel declarou a Alexis Gurgel que todos os dias pela manhã saia de sua casa na Rua Felipe Camarão, 853, perto da antiga rodoviária da cidade, com a intenção de conversar com os velhos amigos no Mercado Público e, às vezes, fazer uma “fezinha” no jogo do bicho. A tarde seu destino era a Prefeitura Municipal de Mossoró, onde na época da entrevista tinha um cargo no setor de abastecimentos. Fez questão de ressaltar que nem seus 78 anos bem vividos e nem a sua bengala eram problemas para o desenvolvimento do seu trabalho.

Alexis Gurgel informou que encontrou João Manoel ainda muito lúcido, com ótima memória e relembrando com clareza acontecimentos de uma vida pontuada de momentos bem agitados.

Bando de Lampião, conforme foram vistos no Rio Grande do Norte em junho de 1927.

Soube da Chegada dos Cangaceiros em Pau dos Ferros

Nascido em 1899 na cidade potiguar de Apodi, veio com seus familiares viver em Mossoró seis anos mais tarde. No ano de 1927 vamos encontrá-lo como funcionário da firma Tertuliano, Fernandes & Cia, uma tradicional empresa que atuava no ramo algodoeiro e salineiro.

Segundo informações existentes no Diário de Natal, edição de 26 de fevereiro de 1908 (pág. 1), o principal acionista dessa firma era o empresário Francisco Tertuliano Albuquerque, tendo como sócios Raimundo Nonato Fernandes, Vicente José Tertuliano Fernandes, Francisco Xavier Filho e Rodolfo Fernandes de Oliveira Martins. Não consegui uma informação definitiva se esse quadro societário era o mesmo em 1927, mas não podemos esquecer que Rodolfo Fernandes de Oliveira Martins era o Prefeito de Mossoró no dia do ataque de Lampião e seus homens a Mossoró[1].

Caminhão abarrotado de fardos de algodão. A plantação desta malvácea foi um grande impulsionador da economia nordestina e potiguar.

João Manoel Filho narrou a Alexis Gurgel que dois dias antes do ataque dos cangaceiros contra a “Capital do Oeste”, ele estava a serviço da empresa na cidade potiguar de Pau dos Ferros, cerca de 150 quilômetros ao sul de Mossoró, junto com o gerente José de Oliveira Costa, conhecido como “Costinha Fernandes”, quando souberam que Lampião e seus cangaceiros estavam chegando.

Talvez eles tenham escutado algo sobre as invasões e depredações ocorridos nos sítios e fazendas da região, como os sofridos nas propriedades Nova, Aroeira e Panati. Ou o combate entre policiais e cangaceiros no lugar Caiçara, com a derrota dos primeiros. O certo foi que João Manoel e Costinha Fernandes trataram logo de voltar para Mossoró e para a sede da empresa, que nessa época se encontrava muito abastecida com algodão. Eles seguiram pela velha estrada que ligava as duas principais cidades do Oeste Potiguar e acredito que o destino evitou um desagradável encontro com os cangaceiros ao longo do caminho.

Capelinha da fazenda Caricé, local atacado pelo bando de Lampião em 11 de junho de 1927, Ao fundo o grande maciço rochoso do qual fazem parte, entre outras, as serras de Portalegre e Martins – Foto – Rostand Medeiros.

Lampião e seus homens, após passarem próximo do povoado Vitória[2], em meio aos saques e ataques em várias propriedades rurais, divisaram ao longe um enorme e elevado maciço rochoso, que em alguns pontos alcança quase 900 metros de altitude. Eles poderiam seguir adiante e ultrapassar essa elevação por algumas trilhas existentes, mas realizariam uma cansativa ascensão para seus animais de montaria e existia a real possibilidade de se defrontarem com piquetes de homens armados em uma ótima posição de disparo. Os cangaceiros então poderiam seguir em direção mais a leste, contornando a Serra de Martins, ou mais a oeste, margeando a Serra de Portalegre. Só que esse último caminho os levaria próximo a cidade de Pau dos Ferros, onde estavam aquarteladas tropas policiais. Tropas essas que sabiam da presença daquele bando de facínoras circulando pela região e da derrota dos seus companheiros de farda no combate da Caiçara.

Certamente sob as orientações do cangaceiro Massilon, seu guia em terras potiguares, Lampião ordenou aos seus homens seguir em direção mais a leste, contornando a Serra de Martins e depois rumando para Mossoró. Talvez essa decisão tenha evitado um encontro dos funcionários da Tertuliano, Fernandes & Cia com os cangaceiros de Lampião.

Mas não por muito tempo.

A Trincheira do Sobradinho e o Encontro com Luiz Formiga

João Manuel Filho – Foto – Francisco Rodrigues.

João Manoel comentou na entrevista a Alexis Gurgel que na manhã do dia 13 de junho, uma segunda-feira, o clima em Mossoró estava tenso, onde todos estavam compreensivelmente nervosos. Coube a ele o comando da trincheira que ficava na área dos armazéns da firma Tertuliano, Fernandes & Cia, “no fim da rua Frei Miguelinho, já na praça Felipe Guerra”. Seu grupo era formado por ele e mais seis participantes, onde João Manoel estava armado com um fuzil e todos os outros com rifles.

Fuzil Mauser modelo 1908 – Fonte – https://edelweissarms.com/dwm-brazilian-contract-1908-mauser-sn-6xxx/

Observando as fotos dos eventos ocorridos em 13 de junho de 1927, percebemos que os fuzis utilizados pelos defensores foram principalmente os modelos Mauser modelos 1894 e 1908, de fabricação alemã, calibre 7 milímetros e municiamento por ação de ferrolho. Já os rifles apresentados são em sua maioria os modelos Winchester modelos 1873 e 1892, em calibre 44, fabricados nos Estados Unidos e com ação de municiamento através do uso de alavanca. Essas últimas armas eram muito comuns nos sertões nordestinos.

Rifle Winchester modelo 1873 – Fonte – https://www.sportsmans.com/shooting-gear-gun-supplies/rifles/winchester-model-1873-short-lever-action-rifle/p/1414207

O grupo ficou de prontidão e bem protegidos por volumosos fardos de algodão, colocados no alto de um imóvel que João Manoel denominou como “Sobradinho”. E foi com esse nome que esse baluarte de defesa ficou conhecido no combate de Mossoró contra os cangaceiros.

Ainda sobre essa trincheira o entrevistado narrou em 1977.

Era uma trincheira pequena, é verdade, se fosse comparada as do coronel Rodolfo Fernandes, em frente à igreja de São Vicente, ou a de Saboinha[3], na Estrada de Ferro. Mas ali estavam homens dispostos a tudo, e por isso havia certa intranquilidade”.  

Ao ler a íntegra de sua entrevista, posso perceber que essa “intranquilidade” narrada por João Manoel parece ter mais haver com ansiedade para que o combate logo se iniciasse. Já que ele próprio comentou.

Defensores de Mossoró em 13 de junho de 1927.

Ninguém aguentava mais. Ou Lampião invadia logo, chamava para a briga, ou nós íamos atrás dele. O clima criado até que favoreceu a disposição dos homens. Porque, como se sabe, o medo transforma todo mundo. Ficam todos valentes”.

Outra possibilidade para essa ansiedade estava no fato deles possuírem poucas munições.

Nesse meio tempo um homem chamado Luiz Joaquim de Siqueira, um pernambucano natural da cidade de Afogados da Ingazeira, que trabalhava em Mossoró na erradicação de formigueiros, sendo por essa razão conhecido popularmente como Luiz Formiga, ficou no caminho do bando antes deles chegarem a Mossoró e foi capturado pelo temido bandoleiro Jararaca, junto com um cidadão chamado Amadeu Lopes. Aparentemente pela mesma origem estadual, o dito Luiz Formiga caiu nas graças de Lampião e se tornou antes do início dos combates, uma espécie de “estafeta”, ou “menino de recados” entre Lampião e Rodolfo Fernandes. Numa dessas idas e vindas do mensageiro dos cangaceiros, João Manoel ficou frente a frente com esse elemento e narrou a seguinte situação quase 50 anos depois.

Lampião e seu aparato de guerra | Crédito: Reprodução – Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/brutal-lampiao.phtml#.WWwJ3ojyvXP

Conversei muito com Luiz Formiga, o homem que trazia os bilhetes do coronel Virgulino Ferreira. No entanto, o Luiz Formiga foi logo mentindo, ao dizer que Lampião pretendia entrar em Mossoró com 150 homens que trazia. Não era verdade, e logo desconfiamos. O coronel Virgulino poderia trazer, no máximo, cerca de 50 homens, como alias ocorreu”.

O Combate e o Enterro de Colchete

João Manoel Filho recordou que o bando invadiu a cidade por volta das quatro da tarde, com o céu nublado, caindo uma chuva fina, antecipando um pouco a noite.

Aqui eu prefiro até mesmo reproduzir na íntegra o interessante depoimento de João Manoel ao competente jornalista Alexis Gurgel.

Combatentes de Mossoró.

Os tiros começaram e foram aumentando aos poucos. Ouvíamos o papoucar aqui e acolá, talvez nas duas maiores trincheiras, as de Rodolfo Fernandes e da Estrada de Ferro. Depois de meia hora, mais ou menos, o tiroteio se intensificou e ficou praticamente fechado, ninguém ouvia mais nada, a não ser os estampidos dos fuzis e rifles. Nessa ocasião aproximou-se um grupo de cangaceiros de nossa trincheira, e então abrimos fogo. Mas o tiroteio com a nossa trincheira foi por pouco tempo, pois os cabras de Lampião logo debandaram. Eu então mandei que parassem de atirar, para poupar munição, coisa preciosa naquele dia e naquelas circunstâncias. Aliás, durante a noite, quando tudo estava terminado, aquele silêncio danado, chegaram mais munição para nós, na trincheira do Sobradinho. Muita munição, mas tudo já estava terminado.   

Logo eles ficaram sabendo da morte do cangaceiro Colchete e durante a noite ninguém pregou o olho com receio do retorno dos bandoleiros.

João Manuel Filho – Foto – Francisco Rodrigues.

Para Seu João Manoel a morte de Colchete ocorreu devido a sua ousadia, que assim ele narrou.

Estava aquela luta dos infernos em frente à trincheira de Rodolfo Fernandes. Um tiroteio cruzado, ninguém ia pra frente nem pra trás. Então Colchete decidiu logo resolver a parada. Sacou de um punhal e investiu contra os homens que estavam do outro lado da trincheira. A intenção era “comer” todo mundo no punhal, acabar logo com aquilo. No entanto, quando estava mesmo no meio do pátio da igreja, foi atingido entre os olhos por uma bala”. Morreu instantaneamente, sem apelação”.   

Já sobre de onde partiu o disparo que matou o cangaceiro, Seu João Manoel Filho foi taxativo na resposta a Alexis Gurgel, informando que a bala não poderia ter vindo do alto da igreja de São Vicente, mas da casa de Rodolfo Fernandes, onde estava concentrado o maior número de defensores.

Igreja São Vicente de Paula – Construída por retirantes na Seca de 1915. Aqui vemos as marcas de balas no campanário onde se posicionaram alguns combatentes de Mossoró.

Olha, dali (da igreja) era mais fácil ser alvejado do que alvejar alguém. Quem tivesse coragem de atirar contra os cangaceiros, teria que se expor, mostrar metade do corpo, então era baleado tranquilamente”.

No outro dia, quando o sol raiou ainda bem cedo, em meio a muito silêncio em Mossoró, lhe foi solicitada uma missão diferenciada – Enterrar o cangaceiro Colchete no Cemitério Público. Para isso ele foi acompanhado de um homem de certa idade e dois outros operários da empresa onde trabalhava e que em 1977 já eram falecidos.

Túmulo do cangaceiro Jararaca, um dos locais mais visitados do Cemitério Público de Mossoró no dia de finados. Durante anos se conjecturou que o cangaceiro Colchete estaria enterrado nessa mesma cova, mas João Manoel, que enterrou esse cangaceiro foi categórico em negar essa versão na reportagem de O Poti de 1977 – Foto – Rostand Medeiros

O cadáver do cangaceiro ainda estava estirado na frente da igreja e segundo o entrevistado era “Forte, musculoso, tipo mediano, cabelos enrolados e de cor moreno escura”. O grupo então amarrou os pés e as mãos do falecido e passou um tronco entre seus braços e pernas. Depois o corpo de Colchete foi levantado até os ombros dos defensores de Mossoró e levando para o cemitério da mesma forma como os sertanejos transportam um animal morto.  

No campo santo eles rapidamente abriram uma cova e jogaram aquele cadáver para dentro sem maiores cerimônias. Após a conclusão da tarefa João Manoel comentou que alguém começou a tocar sinos em uma das igrejas da cidade e isso deixou os quatro defensores em extremo estado de alerta, pois esse era um alarme designado para apontar o retorno dos bandidos. Mas era o contrário. A cidade começava a comemorar a vitória contra o “Rei dos Cangaceiros”[4].

Orgulho Pela Vitória e as Comemorações dos 50 Anos da “Resistência cívica”

Com o passar dos anos João Manoel trabalhou como padeiro, foi comerciante, soldado de polícia, investigador, delegado e vereador por seis legislaturas, sendo apontado como um homem de positiva reputação em meio a sociedade mossoroense[5].

Durante toda a entrevista pouca coisa discorreu sobre seus antigos trabalhos, mas o que ele não evitou comentar foi sobre seu orgulho por ter participado da defesa de sua querida cidade.

Perguntado se tinha orgulho de sua participação no combate, a sua resposta foi bem incisiva “-Aí, sim. A gente deve se orgulhar, pois foi uma causa nobre, nós estávamos defendendo um direito nosso, a nossa gente. Aliás, Mossoró sempre soube se defender quem é contra ela”.

Já em relação as comemorações pela passagem do 50º aniversário da resistência do povo de Mossoró contra Lampião, na mesma edição do jornal O Poti, onde João Manoel foi entrevistado, consegui uma relação dos eventos que estavam programados entre os dias 7 e 12 de junho de 1977. Entre estes havia destaque para uma exposição no museu local sobre aqueles acontecimentos, aberta pelo então prefeito João Lauro da Escóssia, uma apresentação no Teatro do SESI da peça “A Derradeira Ceia”, encenada pelo Grupo Expressão, da TV Universitária, Canal 5, de Natal. Estava prevista uma exposição do desenhista natalense Eliphos Levi Bulhões, na Galeria de Arte Mossoroense, do jornal O Mossoroense, sendo um evento promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade Regional do Rio Grande do Norte e Prefeitura Municipal de Mossoró. Bandas de músicas tocariam pela cidade e uma outra atividade programada foi um concurso de músicas alusivas ao ataque de Lampião, realizado pelos alunos do Colégio Diocesano Santa Luzia e com apresentação no adro da capela da instituição. Havia na programação a apresentação no Colégio Diocesano de violeiros potiguares e dos violeiros pernambucanos Otacílio e Dimas Batista, de São José do Egito, e Oliveira de Panelas. Havia na programação apresentações de um grupo de xaxado vindo da Paraíba e de um Grupo Folclórico de Boi Calemba. O hoje extinto BANORTE – Banco nacional do Norte, organizou um concurso literário para estudantes do 1º e 2º graus sobre a defesa de Mossoró em 1927 e prometia realizar as premiações nas festividades dos 50 anos do episódio. Outro ponto alto era uma palestra com o médico Raul Fernandes, filho de Rodolfo Fernandes, que prometia lançar no ano seguinte um interessante livro sobre a história da resistência em Mossoró.

O grande dia evidentemente era o 13 de junho, dia do cinquentenário, que se iniciaria pela manhã cedo com apresentações das bandas de músicas do município e da Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte. Depois, as 8 horas, haveria uma missa de ação de graças, oficiada pelo capelão da igreja de São Vicente, padre Sátiro Cavalcanti Dantas. As 9 horas haveria uma cerimônia em homenagem ao prefeito Rodolfo Fernandes no Cemitério Público, com colocação de flores em seu túmulo e toque de silêncio por um corneteiro da Polícia Militar. Encerrando os festejos, aconteceu uma Sessão Magna, com entrega de “Medalha da Resistência” pelo Prefeito João Newton da Escóssia e o Governador Tarcísio de Vasconcelos Maia. Havia na lista a apresentação de um evento teatral denominado “Espetáculo da Resistência”, com texto original do professor Tarcísio Gurgel e direção de Carlos Furtado.

Eram outros tempos. Muito me chamou atenção que nas comemorações fossem utilizados muitos artistas e elementos da cultura popular.

NOTAS


[1] Seguramente a firma Tertuliano, Fernandes & Cia foi uma das mais importantes empresas de Mossoró e do Rio Grande do Norte nas primeiras décadas do Século XX.

[2] Hoje é o atual município de Marcelino Vieira.

[3] Diretor superintendente da estrada de ferro, Vicente Saboia Filho.

[4]João Manuel não especificou de qual igreja vieram o som das badaladas.

[5] Neste texto eu poderia discorrer muito sobre sua trajetória pessoal e política, bem como de um de filho de criação que teve grande sucesso nessa área, mas preferi focar no tema proposto.

AUTOR NATALENSE REFAZ CAMINHO DE LAMPIÃO PELO RIO GRANDE DO NORTE

Capa do livro “1927: O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte”

Rostand Medeiros refez o caminho cinco vezes e colheu depoimentos de pessoas que viveram à época, além de jornais e inquéritos.

26 de agosto de 2020

Publicado no site de cultura potiguar Típico Local – https://tipicolocal.com.br/

Por Cinthia Lopes | Editora e redatora

FONTE – https://tipicolocal.com.br/noticia/autor-natalense-detalha-caminho-de-lampiao-pelo-rio-grande-do-norte-em-livro?fbclid=IwAR1Q_oNLdGZlfO4MQlmiBT-uIit03xGDqBSJGlHVijkzmIoVGOuAA7O763Q#.X0Z_W2j0XI8.whatsapp

Quando o chapéu estrelado de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, cruzou a vista dos primeiros alpendres no sertão do Rio Grande do Norte, vindo da Paraíba, o destino do cangaceiro e seu bando já estava traçado: o plano era entrar em Mossoró, a cidade mais próspera do oeste potiguar em busca de dinheiro dos coronéis, tendo a ajuda do jagunço nativo Massilon que já tinha praticado assalto na região um mês antes. Mas a invasão fracassou e o fatídico 13 de junho de 1927 entrou para a história e o folclore do cangaço. A expulsão de Lampião foi registrada por historiadores e também pelos poetas nos versos de cordel, ressaltando o heroísmo dos mossoroenses que rechaçaram o famoso bando de cangaceiros de porteira afora.

Mas até chegar a Mossoró, por onde mais Lampião andou?  Em menos de uma semana, o bando cruzou a cavalo um território que compreende 14 municípios do Rio Grande do Norte, incluindo Pau-do-Ferros e Martins, deixando um rastro de violência e impacto que o tempo não apagou da memória dos sertanejos. Foi preciso refazer todo esse chão para trazer à luz novas histórias, um desafio para o escritor e pesquisador Rostand Medeiros que agora chega ao livro “1927: O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte” (Caravela Selo Cultural, 375 págs.), com patrocínio do Edital de Economia criativa do Sebrae.

“1927: O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte” é divido em capítulos por dia em que os cangaceiros passaram pelas cidadezinhas. Era manhã de sexta-feira, dia 10 de junho de 1927, quando Lampião cruza a fronteira por Luís Gomes, trecho que hoje seria a BR-405. Sem polícia no encalço, eles então assassinam o lavrador Mané Chiquinho, dono da propriedade chamada Vaquejador. Foi a partir desse crime que as polícias da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará passaram a acompanhar o bando. Fatos importantes foram acontecendo no caminho até o ataque a Mossoró (dia 13) e a prisão e morte de Jararaca no dia 14 seguindo-se a fuga de Lampião para o Ceará.

Imagem dos defensores da frustrada invasão de Lampião: “Eram quatro para 1 cangaceiro”, relata o autor

Algo que se destaca neste livro é a reconstituição dos cenários mais antigos a partir das propriedades rurais. São sítios e fazendas centenárias de nomes curiosos que traçam um caminho de contornos semidesaparecidos: Sítio Bom Jardim, Sítio Diamantina, Fazenda Aroeira, Sítio Corredor, Sítio Gangorrinha, Fazenda Ausente, Sítio Saco, Fazenda Picada, Passagem de Oiticica, Fazenda Cacimba, Caboré, dentre muitas outras.

Um dos locais da passagem é o Sítio Ponta de Serra, com traços preservados. Ao fundo, a Serra de Martins. Foto: Rostand Medeiros.

Idas e vindas

Há mais de dez anos Rostand segue o rastro de Lampião pelo Rio Grande do Norte. Só de viagens foram cinco. De motocicleta, de carro e com diferentes propósitos. A primeira em 2010 a convite do Sebrae-RN, para criar o roteiro de turismo cultural. “A pesquisa fez parte do projeto Pegadas de Lampião, uma ideia do superintendente do Sebrae Zeca Melo, que inclusive prefaciou o livro que estou lançando”, destaca. 

 Ao final da primeira jornada, o pesquisador entregou o resultado para a instituição e desde então vinha tentando publicar o texto. Até que em 2015 pegou novamente na estrada para participar das filmagens do documentário “Chapéu Estrelado”, do diretor Silvio Coutinho, como principal consultor. “Participei ativamente das filmagens a convite de Silvio, Iaperi Araújo e Valério Andrade e foram vários dias de muito chão, poeira e aprendizado”, conta o escritor.

Vale lembrar que ‘Chapéu Estrelado’ foi apresentado em Natal e exibido no Canal Brasil, que era o co-produtor do documentário junto com a Locomotiva Cinema e Arte. “Quando estava sendo preparado para percorrer os circuitos de festivais de cinema, inesperadamente Sílvio Coutinho faleceu de um ataque cardíaco no Rio e aí tudo parou. Hoje eu nem sei como está a situação dessa obra cinematográfica, lamenta.

Em 2017, de volta a estrada em companhia do artista plástico e fotógrafo potiguar Sérgio Azol, focado em uma coleta de material fotográfico para o desenvolvimento de uma exposição em São Paulo, onde Azol é radicado. A exposição também passou por Natal.

A clássica foto do bando de Lampião em Limoeiro, após a fuga do Rio Grande do Norte.

Histórias coletadas

Após esse tempo de vivência, o autor se voltou aos registros em cartórios, jornais de época e bibliografia anterior. Rostand destaca o livro de Sérgio Augusto de Souza Dantas, que foi “muito elucidativo sobre o caminho”. O livro em questão é “Lampião e o Rio Grande do Norte: A História da Grande Jornada” (Ed.: Gráfica Real, esgotado).

Além desse autor, foram consultados trabalhos de Raul Fernandes e Raimundo Nonato.  E ainda os processos criminais abertos em Pau dos Ferros e Martins sobre os ataques dos cangaceiros, reproduzindo depoimentos dos cangaceiros Mormaço, Casca Grossa e Jararaca, nomes famosos que estavam no bando de Lampião à época.

“Nos depoimentos eles declararam que vieram para o Rio Grande do Norte por instância do cangaceiro Massilon e em nenhum dos depoimentos informaram alguma motivação diferente das ações que normalmente os cangaceiros efetuavam na época”, pontua.

Rostand ficou impressionado com o destaque dado pelos jornais de todo Brasil ao ataque a Mossoró e como a passagem do bando marcou de forma intensa as muitas comunidades que visitou. “Encontrei poucas pessoas que foram testemunhas diretas dos episódios, mas delas colhi depoimentos preciosos. Principalmente os filhos, que escutaram essas histórias nos alpendres das casas sertanejas antes da chegada do rádio e da televisão, que consegui ótimas memórias da passagem do bando”. O autor confrontou o depoimento dos sertanejos às informações que estavam nos livros, jornais e processos.

Noticiário relatado no jornal A República de 16 de junho de 1927.

No livro Rostand reforça que o objetivo de Lampião no Rio Grande do Norte não era guerrear, mas tentar conseguir dinheiro com alguma aliança com os coronéis. “Lampião normalmente só se envolvia em contendas de outras pessoas se isso de alguma forma lhe trouxesse vantagem. Não podemos esquecer que Lampião sequer conhecia o Rio Grande do Norte e aqui não tinha inimigos.”

Para o autor a tentativa de invasão a Mossoró foi o maior combate da história do Cangaço em área urbana e, apesar de haver quatro defensores para cada cangaceiro, a chamada Resistência Cívica do povo de Mossoró contra Lampião e seu bando merece todas as loas.

Mas em acontecimento dessa magnitude não poderia deixar de existir controvérsias. “Uma foi sobre o destino do jovem cangaceiro Menino-de-Ouro. Este teria sido gravemente ferido no combate em Mossoró e por não suportar a dor teria pedido a Lampião que o executasse e assim foi feito. Mas o pesquisador Hilário Lucetti encontrou um idoso Menino-de-Ouro morando no sul do Ceará e sua história foi contada em um interessante livro de 1995”.

Outros temas

Rostand Medeiros é escritor, pesquisador e formado em Turismo, e escreve no blog Tok de História. Temas como Segunda Guerra também fazem parque do seu foco de pesquisa. Escreveu “Lugares de Memória: edificações e estruturas históricas utilizadas em Natal durante a Segunda Geurra” (Caravela), “Os Cavaleiros do Céu: A Saga do Vôo Ferrarin Del Prete” (Caravela), “João Rufino: Um Visionário de Fé”, dentre outros.

LIVRO “1927 – O CAMINHO DE LAMPIÃO NO RIO GRANDE DO NORTE” ESTÁ SENDO VENDIDO NA LIVRARIA DA COOPERATIVA DO CAMPUS DA UFRN

Olá amigos e amigas.

Gostaria de lhes informar que o nosso novo livro “1927 – O CAMINHO DE LAMPIÃO NO RIO GRANDE DO NORTE” se encontra a venda em Natal na livraria da Cooperativa do Campus da UFRN está com exclusividade na venda.

Essa livraria se encontra aberta de 9 da manhã as 15 da tarde, seguindo todas as orientações e procedimentos preconizados pelas das autoridades em relação a questão do COVID-19, conforme você pode ver nas fotos que lhe envio. O livro tem 375 páginas, 180 fotos e mostra o mesmo caminho que os cangaceiros percorreram em junho de 1927, os locais atacados e as histórias envolvidas. O valor é R$ 60,00.

ENCONTRO COM O MESTRE FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO

Rostand Medeiros – IHGRN

Normalmente as pessoas que gostam de um determinado tema histórico possuem em suas casas livros sobre o assunto de sua preferência. Certamente que nestas estantes alguns destes livros se destacam de outros pelo constante manuseio e a frequência com que seus proprietários vasculham suas páginas em busca de respostas para certas indagações. São aqueles livros que se tornam referência. Evidentemente que diante dessa situação, surge naturalmente uma positiva admiração pelos autores destes maravilhosos trabalhos.

Na minha estante sobre livros do cangaço, que nem é tão numerosa assim, existem alguns poucos livros que se enquadram perfeitamente nesta situação, cujos autores são verdadeiros Mestres para mim. Um deles é “Guerreiros do Sol”, de Frederico Pernambucano de Mello.

Nessa minha busca pelo conhecimento do que significa o fenômeno do cangaço, sem dúvida alguma esta obra é uma grande ferramenta que me ajuda a ampliar o meu conhecimento sobre o tema.

Com o tempo fui incorporando ao meu acervo outros interessantes livros de Frederico Pernambucano de Mello, todos de alto nível.

E hoje, em Recife, eu tive o privilégio de conhecer Mestre Frederico.

Fui recebido de maneira extremamente atenciosa, em um momento muito agradável, muito salutar, onde pudemos debater de maneira tranquila e aberta sobre o universo do cangaço e da história de nossa região.

Conheci um homem com amplo conhecimento sobre esse tema, mas com uma natural simplicidade, enorme fidalguia e extrema atenção a este seu admirador.

Eu só tenho o mais franco agradecimento ao Mestre Frederico por este agradável encontro.