CRÔNICAS DO SERIDÓ: UM SÉCULO DE HISTÓRIA NA FAZENDA CABOCLOS

O Registro Histórico, Eternizado nas Páginas de um Jornal em 1922, Ganhou Vida Mais de Um Século Depois.

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros  

A manhã rompeu fria sob um céu encoberto em Caicó, no coração do sertão potiguar. No centro urbano, quatro homens ajustavam as selas e preparavam suas montarias, ajudando-se mutuamente nos últimos detalhes antes da partida. Sem alarde, o pequeno grupo começou a cavalgar a passos lentos em direção ao norte. Embora a comitiva fosse discreta, aqueles homens figuravam entre as personalidades mais influentes e respeitadas de toda a região.

À vanguarda do grupo marchava Joaquim Inácio Carvalho Filho, o juiz da comarca e o único forasteiro daquela comitiva. Nascido 34 anos antes na fazenda Pico Branco, na altiva Serra de Martins, diplomara-se bacharel pela tradicional Faculdade de Direito do Recife em 1908, acumulando desde então uma sólida trajetória em cargos de destaque no governo e na magistratura potiguar.

Ao seu lado seguia Celso Afonso Dantas, uma das lideranças públicas mais proeminentes de Caicó e do Seridó. Fazendeiro abastado, comerciante de visão e pioneiro no empreendedorismo local, Celso era o proprietário da única agência de automóveis e do único posto bancário da cidade, responsável por representar o Banco do Brasil e o Banco de Natal. Até três anos antes, ocupara o cargo de Intendente Municipal — equivalente ao de prefeito nos dias atuais —, tendo sido o responsável pela inauguração do Mercado Público em 1918.

Honório Onofre de Medeiros – Fonte – https://www.familysearch.org/

Junto a eles viajava Honório Onofre de Medeiros, influente comerciante que, desde o ano anterior, integrava o conselho da Intendência, então sob o comando de José Ignácio Camboim.

Pedro Militão Soares de Lucena – Fonte – https://www.familysearch.org/

Cerrando a fila vinha Pedro Militão Soares de Lucena, figura de intensa atuação na sociedade caicoense, onde desempenhou diversas funções públicas. Jornalista de pena afiada, Militão era o redator do periódico O Seridoense e seria o cronista responsável por imortalizar aquela jornada em suas linhas.

Independentemente dos títulos acadêmicos, das fortunas ou do prestígio social de cada um, cruzar as veredas do sertão a cavalo exigia uma sabedoria prática que não se aprendia nos livros. Era preciso conhecer o tempo, respeitar a vegetação espinhosa da caatinga e dominar as longas distâncias. Naquela época, quando automóveis e caminhões ainda eram raridades poeirentas nas estradas do Seridó, o lombo dos animais permanecia como o principal meio de locomoção. Mesmo sendo homens letrados e de elite, todos ali dominavam a arte da montaria com tamanha destreza que dispensaram a companhia de qualquer empregado na travessia.

A Fazenda Caboclos hoje – Foto – Rostand Medeiros

O ano de 1922 foi generoso em chuvas. Com o campo verdejante, os viajantes seguiam sem pressa, desfrutando de uma jornada tranquila e “numa prosa constante, versando sobre vários assuntos”, conforme registraram. O trajeto avançava ora pelo leito que hoje compete à rodovia RN-118 — que interliga Caicó a Jucurutu —, ora em paralelo a essa rota, estendendo-se em paradas contemplativas ao longo do percurso.

Mapa onde aponto a localização de Caicó e a Fazenda Caboclos.

Durante a viagem, o juiz Joaquim Inácio, entusiasta da geologia, compartilhava observações aguçadas sobre a geografia local. Pedro Militão registrou o entusiasmo do magistrado, que insistia em pausar a marcha para examinar formações de rochas estratificadas, trechos de tabuleiros arenosos e camadas profundas de sedimentos. Em contrapartida, Celso Dantas mantinha os olhos fixos na paisagem agrícola: deslumbrava-se com os algodoais que vicejavam vigorosos após o período de cheia. Sentado sobre a sela, ele calculava os horizontes da safra, avaliava a qualidade da pluma num relance e ponderava as oscilações do mercado nacional e internacional, antevendo a tão sonhada bonança da malvácea nas terras caicoenses.

Mais adiante, Honório de Medeiros fez questão de conduzir a comitiva até o sítio Pai Bastião. Segundo as notas de Militão, a propriedade já pertencia a Honório naquela época, evidenciando que ele “estava se tornando mais fazendeiro do que comerciante”. Ali, o grupo fez uma pausa para o descanso, oportunidade em que o anfitrião orgulhosamente exibiu reprodutores recém-adquiridos em Pernambuco e um lote de reses gordas. Antes de alcançarem o destino principal, os cavaleiros ainda cruzaram as terras dos sítios Novo Mundo, Glória e Triunfo.

Embora a distância de Caicó a Fazenda Caboclos seja de aproximadamente quinze quilômetros — um percurso realizável em até duas horas de cavalgada mansa —, o tempo gasto pelos visitantes foi consideravelmente maior, dadas as inúmeras paradas. Ao finalmente aportarem na propriedade Caboclos, receberam as calorosas boas-vindas do proprietário, Manoel Cezário de Medeiros. Homem alto e esguio, então com 41 anos, ele trazia as marcas de uma origem humilde no sítio Glória. No alvorecer do século XX, Cezário havia partido para a Amazônia, onde prosperou no comércio do látex e extraiu fortuna no ápice do Ciclo da Borracha.

Manoel Cezário de Medeiros – Fonte – https://www.familysearch.org/

Ao regressar ao Seridó, converteu seu capital na compra do Caboclos e, movido por um dinamismo impressionante, passou a modernizar os arredores. Os caicoenses ilustres testemunharam os frutos desse esforço: uma usina de beneficiamento de algodão, um engenho de cana-de-açúcar, expressivos rebanhos de caprinos, suínos e bovinos, além de um pomar diversificado. Sob sua liderança, a fazenda alcançou tamanha fama regional que atraía comitivas de prestígio dispostas a conhecer aquele oásis de produtividade.

Ao descrever a sede da fazenda, Pedro Militão pontuou que a morada de Cezário era espaçosa e dotada de muitos aposentos, “porém baixa”, justificando ser este o padrão arquitetônico de “todas as casas do sertão”. Para quem estuda ou idealiza a opulência dos casarões de alpendre do Seridó, tal descrição chega a ser surpreendente, pois contraria a expectativa comum de encontrarmos fachadas imponentes e de pé-direito elevado nessas propriedades tradicionais.

Manoel Cezário de Medeiros e sua família – Fonte – https://www.familysearch.org/

Contudo, a residência contava com um vasto alpendre, onde foram servidos a todos muitas pinhas, laranjas, goiabas, mamões, canas-de-açúcar, bananas, cocos e os cajus, que eram tidos como “famosos” na região de Caicó. Mas foi a área do pomar, localizada a cerca de duzentos metros da casa, “nas costas do açude”, o local que mais impressionou os visitantes. A beleza era tanta que eles comentaram que aquilo mais parecia o “Brejo Paraibano” ou a “Serra de Baturité” do que o caliente Seridó potiguar.

Embora a reportagem não explique como Cezário realizava o cultivo das frutas, essa impressão positiva foi reforçada mais de uma vez no texto. O dono da propriedade Caboclos informou, inclusive, que a fruta mais rentável era, sem dúvidas, a banana. Cezário foi cassado pela primeira vez com em 1901 com Diogência Vitória de Medeiros, que faleceu em 1912 e lhe deixou dois filhos. No ano seguinte casou com Ana Rosalina de Medeiros e dessa união nasceram outros dez filhos.

Manoel Cezário de Medeiros – Fonte – https://www.familysearch.org/

Após visitarem o pomar, os viajantes foram até a parede do açude, que estava bastante cheio. Eles se impressionaram com as dimensões da estrutura e com o volume de água represado, além dos enormes algodoais que cresciam nas margens. Tudo ali transbordava produtividade. Para os visitantes, aquela propriedade só rivalizava com outras duas existentes em Caicó: uma no “vale de São José” e outra “no Umary, no Barra Nova”.

Muito bem tratados, os visitantes almoçaram, tomaram banho de açude e descansaram em redes armadas no alpendre — um costume completamente natural e acolhedor para qualquer nordestino. Sentiam-se tão bem que Pedro Militão escreveu:

Com o Sr. Medeiros, conhecido como Chico de Doca, que me apresentou o lugar – Foto – Rostand Medeiros.

“Naquelles momentos o juiz não pensou nas suas sentenças, os commerciantes esqueceram os seus planos de negocios, nem a sombra da secca passou pela mente do fazendeiro e o periodista nem viu que já era terça feira e nada tinha para o seu numero da sexta. Todos despreoccupados, alheios a labuta quotidiana, apenas queriam saber que estavam desfructando a genuina hospedagem de um sertanejo da gemma, que gosavam o espectaculo saudavel de um céo limpo e um campo verde”.

Por volta das três da tarde, após calorosas despedidas, os quatro cavaleiros partiram rumo a Caicó. Sem nenhuma parada, o trajeto levou apenas uma hora e meia. A jornada foi integralmente noticiada na primeira página do jornal O Seridoense, na edição de sexta-feira, 14 de julho de 1922..

Em forte contraste com aquela época, hoje vemos o campo se despovoar e o apreço pelas tradições se esvair; para muitos, o valor da História reduziu-se ao eco jocoso de que “quem gosta de passado é museu”. Por essa razão, para quem ama as origens de sua terra, é profundamente gratificante resgatar a memória de um Seridó que ainda pulsa na mente daqueles que preservam a identidade desse amado pedaço do Rio Grande do Norte.

AS IMAGENS NAS PAREDES DAS ANTIGAS CASAS DO SERTÃO

Autor – Rostand Medeiros

Sempre que viajo ao sertão gosto de observar os costumes, o modo de vida, a forma como o sertanejo interage com o Mundo.

Aguço meus sentidos principalmente quando estou nos sítios, nos rincões, nas pequenas ou grandes propriedades rurais, sejam nas modernas ou nas antigas, com seus sótãos, suas grossas paredes e histórias.

Fique bem claro que ao fazer estas observações, nunca faço de modo pedante, superior, tipo “o cara da capital que olha de cima”, mas apenas pela ideia de poder ainda observar os últimos resquícios do velho sertão, que muda cada dia, cada vez mais rápido.

Não sou contra a evolução, o progresso, apenas tenho a utopia de ver o que Câmara Cascudo e Mario de Andrade viram em sua viagem pelo sertão, ou ver os costumes que Oswaldo Lamartine observou e transmitiu magistralmente.
Sei que agora, o que existe, é somente uma pálida visão deste antigo sertão.

Observei que mesmo nos sítios mais distantes, no interior das casas sertanejas, a velha iconografia existente nas paredes destas casas, está cada vez mais difícil de ser observada.

As figuras atualmente mostradas são muito distintas das imagens que os sertanejos orgulhosamente apresentavam, com sua variedade de contrastes, suas figuras santificadas, suas simpatias e outros temas. Sobram imagens inúmeras outras bandas de um forró de qualidade duvidosa, ou imagens de ídolos do futebol e da televisão.

Não que a figura santificada tenha deixado de existir, mas o espaço diminuiu e muito. Os políticos ainda se fazem presentes, mas diferente do passado, mais na época de eleição.

Neste sentido, no jornal “A Republica”, de 13 de março de 1923, em um artigo intitulado “A Iconographia Sertaneja”, já se apontava as mudanças da percepção iconográfica do sertanejo potiguar de então.

Naquele tempo, junto com a imagem do santo de devoção, já havia a figura do político. Entre as imagens mais vistas, até nas “mais humildes choças”, estava o retrato de Augusto Severo, depois as figuras de Pedro Velho, Ferreira Chaves e uma ou outra de Alberto Maranhão.

A figura do ex-senador Almino Afonso, outrora muito popular, estava deixando de ser vista. Fato semelhante ocorria com a figura do velho chefe político de Mossoró, Almeida Castro.

O retrato de Augusto Severo ainda era popular em 1923, devido à mitificação da sua figura como o “grande herói potiguar dos ares”. Em relação à ainda estarem fixados nas paredes sertanejas, as figuras da decadente oligarquia Maranhão e seus aliados, pode-se explicar no sentido que estas figuras políticas estavam, naquele período, deixando o cenário do poder, para a ascensão de José Augusto Bezerra de Medeiros e Juvenal Lamartine de Faria. Deve-se levar em conta que as informações naquele tempo demoravam muito a chegar aos rincões do nosso Estado.

Papa Leão XIII

Chama a atenção no artigo, o fato do autor comentar existirem muitas fotos do Papa Leão XIII e poucas dos seus sucessores, Pio X e Bento XV. Provavelmente isto se devia ao sucesso que este Papa obteve junto ao clero nordestino. O Papa Leão XIII ficou conhecido pelas suas doutrinas econômicas, nas quais ele argumentava a falha do capitalismo e do comunismo. Ficou famoso como o “papa das encíclicas”. A mais conhecida de todas foi a “Rerum Novarum”, de 1891, sobre os direitos e deveres do capital e trabalho. Ele introduziu mudanças fortes no pensamento social católico, que alcançaram o sertanejo de outrora e fizeram a sua figura ser um sucesso nas casas do sertão nordestino.

Outro ponto tocado pelo autor foi o fato de, em meio a um Brasil efervescente de revoltas e revoluções, não haver encontrado a foto de um “agitador das massas”, mostrando o conservadorismo das populações interioranas.

Já o santo mais visto nas casas não poderia ser outro que não São José, principalmente pela sua relação com o dia 19 de março, o dia decisivo, o dia da verdade, o dia quando o agricultor sabe se vai ter ou não chuvas, se o seu ano está salvo ou perdido. A figura deste santo existia em quadros de todos os tamanhos e formatos. Nossa Senhora, sobre qualquer invocação, era sempre muito popular.

Em um sertão de poucas letras, de poucos livros, onde as figuras ditas “letradas”, eram praticamente invisíveis nestes lares. O autor afirmou ter encontrado, em apenas uma casa, a figura do poeta Olavo Bilac.

Nos locais que moravam as pessoas mais idosas, ou que um venerável idoso era o comandante deste lar, era normal as imagens de D. Pedro II, com sua respeitável barba branca, e a da “Redentora”, a princesa Isabel.

Uma surpresa; Segundo o autor de “A Iconographia Sertaneja” neste época a figura do padre Cícero Romão Batista era extremamente popular no sertão, com muito prestígio e enorme influência. Para ele era difícil alguém de fora fazer até uma simples crítica ao “Padim Ciço do Joazeiro”.  Contudo, apesar de todo o prestígio do cura cearense poucas eram as imagens deste “santo” nas casas sertanejas visitadas.

Antigamente, ao se entrar em uma casa no sertão, era fácil conhecer o pensamento político, o santo de sua devoção e outras características. Hoje é diferente.

As duas fotos que apresento, foram conseguidas no interior da Paraíba, em duas localidades distintas e bem pequenas, próximas as fronteiras com o Ceará e Pernambuco. Foram as imagens que considerei mais bonitas e originais.

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