A NATAL QUE NÃO EXISTE MAIS: O CASARÃO DA RIBEIRA ONDE EM 1915 NASCEU O ABC F.C.

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Quem caminha hoje pela Avenida Rio Branco, no histórico e outrora vibrante bairro da Ribeira, dificilmente imagina a riqueza de memórias que as calçadas dali guardam. Olhando para trás do Teatro Alberto Maranhão — que na época da nossa história ainda se chamava Teatro Carlos Gomes —, o que se vê é o vazio urbano de um terreno baldio. Mas foi exatamente ali que a certidão de nascimento do futebol potiguar foi assinada.

Em seu livro “Natal Que Eu Vi” (1971), o cronista Lauro Pinto resgata a existência de um imponente casarão de linhas clássicas construído em 1898. O proprietário original era o Coronel Avelino Alves Freire, figura proeminente da nossa elite: próspero comerciante, fazendeiro, deputado estadual e então presidente da Associação Comercial do Rio Grande do Norte. A propriedade chamava a atenção por sua imponência e por abrigar um vasto sítio repleto de fruteiras aos fundos.

Foto da casa do Coronel Avelino, na Avenida Rio Branco, existente no livro de Lauro Pinto.

O que as páginas da obra de Lauro Pinto deixaram passar, contudo, foi o turbilhão histórico ocorrido naquela residência em uma terça-feira, no dia 29 de junho de 1915.

Treze Horas de uma Terça-Feira de São Pedro

Precisamente às 13 horas, aproveitando o feriado de São Pedro, cerca de 40 jovens da alta sociedade natalense cruzaram as portas do casarão de Avelino Freire. Muitos deles eram rapazes ligados aos clubes de remo do Rio Potengi, mas que vinham sendo fisgados por uma nova paixão que desembarcava no país: o football.

Sob a bênção e a presidência do Coronel Avelino, a reunião tinha um objetivo claro: fundar a primeira agremiação dedicada exclusivamente ao futebol no Rio Grande do Norte. Naquela tarde, por aclamação unânime, o filho do dono da casa, o jovem João Emílio Freire, assumiu o posto de primeiro presidente da história do clube.

A ata de fundação registrou a primeira diretoria pioneira:

Presidente: João Emílio Freire

Vice-presidente: José Potiguar Pinheiro

1º Secretário: Manoel Dantas Moura

2º Secretário: Solon Rufino Aranha

Tesoureiro: Avelino Freire Filho

Diretor de Esportes: José dos Santos

A Diplomacia que Deu Nome ao Time

Coube ao vice-presidente, José Potiguar Pinheiro, a sugestão que batizaria o clube. Ele propôs o nome de ABC Futebol Clube. O motivo estava na boca do povo e nas manchetes dos jornais de meados de 1915: o “Pacto do ABC”.

Foto da casa trabalhada com Inteligência Artificial, que longe de ser perfeita, apenas nos dá uma ideia de como teria sido esse local, hoje demolido.

Tratava-se de um célebre tratado diplomático de não agressão, cooperação e consulta assinado em maio daquele mesmo ano entre as três potências da América do Sul: Argentina, Brasil e Chile. A sigla, carregada de um ideal de união fraternal, foi aceita sem contestações. Nascia ali a alcunha do alvinegro.

A ironia mais fascinante da história do ABC está no seu DNA social. Embora tenha sido gerado pelas mãos de filhos da aristocracia açucareira e comercial dentro de um palacete aristocrático, o clube rapidamente transbordou para os operários, estivadores e trabalhadores humildes que moviam o comércio portuário da Ribeira. O time das elites acabou virando, legitimamente, o “Clube do Povo”.

O Batismo de Fogo e a Goleada nos Reservas

O entusiasmo daquele casarão não demorou a ganhar os campos improvisados da cidade. Poucas semanas depois, o ABC estreou com as chuteiras nos pés.

Segundo os registros minuciosos do pesquisador Procópio Netto no livro “Os Esportes em Natal” (1991), o primeiríssimo jogo ocorreu em 20 de setembro de 1915. O Alvinegro enfrentou o hoje extinto Natal Esporte Clube e aplicou um placar avassaladora de 13 a 1.

Antiga sede social do ABC Futebol Clube na Avenida Afonso Pena com a Rua Potengi, no bairro de Petrópolis, em uma bela foto de Jaeci Emerenciano Galvão, um dos maiores fotógrafos da história de Natal.
O projeto de arquitetura dessa bela sede, que infelizmente também não existe mais, foi de Aguinaldo Muniz (fonte: página do Facebook “Natal Não Há Tal”). Novamente, utilizei a inteligência artificial para ter uma ideia de como teria sido esse local, o qual tive o privilégio de frequentar quando era criança. Fui levado pelo meu pai, Calabar Medeiros, um grande torcedor do ABC, e, apesar da poucda idade, ainda me lembro de ter ficado impressionado com a sala de troféus.

Mas o teste definitivo viria no dia 26 de setembro de 1915, às 16 horas. O jornal A República cobriu o que seria o primeiro grande clássico do estado: ABC contra o América de Natal (este fundado em julho daquele ano). O palco foi o campo da Vila Cincinato, área que hoje conhecemos como a Praça Pedro Velho (a Praça Cívica).

Em uma provocação típica da época, o ABC mandou a campo o seu “segundo quadro” (o time reserva) para enfrentar a equipe principal do América. O resultado foi um sonoro 4 a 1 para o Alvinegro. Mousinho balançou as redes duas vezes, acompanhado por Bigois e Nóbrega; Neco descontou para os rubros.

Foto da equipe do ABC F.C, tetracampeã estadual de 1973.

O ABC entrou para a história naquele dia escalado com: Avelino, Batalha e Borges; Cabral, Paraguai e Freire; Bigois, Moacir, Mousinho, Nóbrega e Moura.

O Descaso com o Patrimônio

A história subsequente todos conhecem: o ABC F.C. cresceu, colecionou glórias, mudou-se para o Tirol e depois para Ponta Negra. Tornou-se o maior campeão estadual do mundo, ostentando com orgulho dezenas de títulos em sua galeria.

Contudo, a nossa memória arquitetônica não teve a mesma sorte. Em 1971, exatamente no mesmo ano em que Lauro Pinto publicava as lembranças da sua “Natal Que Eu Vi”, o casarão histórico da Avenida Rio Branco veio abaixo, demolido sob a lógica fria da especulação e do apagamento histórico.

Se as informações e o mapeamento geográfico da época estiverem corretos, o berço do clube mais antigo do estado hoje resume-se à poeira e ao mato de um lote vazio. Uma perda irreparável. Aquele palacete de 1898 poderia ser hoje um vibrante centro de memória ou um museu vivo, contando como a Ribeira viu nascer o maior fenômeno de massas da história do esporte potiguar.

Fica o registro — franco e direto — no nosso Tok de História, para que o tempo não apague o que as picaretas destruíram.

CRÔNICAS DO SERIDÓ: UM SÉCULO DE HISTÓRIA NA FAZENDA CABOCLOS

O Registro Histórico, Eternizado nas Páginas de um Jornal em 1922, Ganhou Vida Mais de Um Século Depois.

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros  

A manhã rompeu fria sob um céu encoberto em Caicó, no coração do sertão potiguar. No centro urbano, quatro homens ajustavam as selas e preparavam suas montarias, ajudando-se mutuamente nos últimos detalhes antes da partida. Sem alarde, o pequeno grupo começou a cavalgar a passos lentos em direção ao norte. Embora a comitiva fosse discreta, aqueles homens figuravam entre as personalidades mais influentes e respeitadas de toda a região.

À vanguarda do grupo marchava Joaquim Inácio Carvalho Filho, o juiz da comarca e o único forasteiro daquela comitiva. Nascido 34 anos antes na fazenda Pico Branco, na altiva Serra de Martins, diplomara-se bacharel pela tradicional Faculdade de Direito do Recife em 1908, acumulando desde então uma sólida trajetória em cargos de destaque no governo e na magistratura potiguar.

Ao seu lado seguia Celso Afonso Dantas, uma das lideranças públicas mais proeminentes de Caicó e do Seridó. Fazendeiro abastado, comerciante de visão e pioneiro no empreendedorismo local, Celso era o proprietário da única agência de automóveis e do único posto bancário da cidade, responsável por representar o Banco do Brasil e o Banco de Natal. Até três anos antes, ocupara o cargo de Intendente Municipal — equivalente ao de prefeito nos dias atuais —, tendo sido o responsável pela inauguração do Mercado Público em 1918.

Honório Onofre de Medeiros – Fonte – https://www.familysearch.org/

Junto a eles viajava Honório Onofre de Medeiros, influente comerciante que, desde o ano anterior, integrava o conselho da Intendência, então sob o comando de José Ignácio Camboim.

Pedro Militão Soares de Lucena – Fonte – https://www.familysearch.org/

Cerrando a fila vinha Pedro Militão Soares de Lucena, figura de intensa atuação na sociedade caicoense, onde desempenhou diversas funções públicas. Jornalista de pena afiada, Militão era o redator do periódico O Seridoense e seria o cronista responsável por imortalizar aquela jornada em suas linhas.

Independentemente dos títulos acadêmicos, das fortunas ou do prestígio social de cada um, cruzar as veredas do sertão a cavalo exigia uma sabedoria prática que não se aprendia nos livros. Era preciso conhecer o tempo, respeitar a vegetação espinhosa da caatinga e dominar as longas distâncias. Naquela época, quando automóveis e caminhões ainda eram raridades poeirentas nas estradas do Seridó, o lombo dos animais permanecia como o principal meio de locomoção. Mesmo sendo homens letrados e de elite, todos ali dominavam a arte da montaria com tamanha destreza que dispensaram a companhia de qualquer empregado na travessia.

A Fazenda Caboclos hoje – Foto – Rostand Medeiros

O ano de 1922 foi generoso em chuvas. Com o campo verdejante, os viajantes seguiam sem pressa, desfrutando de uma jornada tranquila e “numa prosa constante, versando sobre vários assuntos”, conforme registraram. O trajeto avançava ora pelo leito que hoje compete à rodovia RN-118 — que interliga Caicó a Jucurutu —, ora em paralelo a essa rota, estendendo-se em paradas contemplativas ao longo do percurso.

Mapa onde aponto a localização de Caicó e a Fazenda Caboclos.

Durante a viagem, o juiz Joaquim Inácio, entusiasta da geologia, compartilhava observações aguçadas sobre a geografia local. Pedro Militão registrou o entusiasmo do magistrado, que insistia em pausar a marcha para examinar formações de rochas estratificadas, trechos de tabuleiros arenosos e camadas profundas de sedimentos. Em contrapartida, Celso Dantas mantinha os olhos fixos na paisagem agrícola: deslumbrava-se com os algodoais que vicejavam vigorosos após o período de cheia. Sentado sobre a sela, ele calculava os horizontes da safra, avaliava a qualidade da pluma num relance e ponderava as oscilações do mercado nacional e internacional, antevendo a tão sonhada bonança da malvácea nas terras caicoenses.

Mais adiante, Honório de Medeiros fez questão de conduzir a comitiva até o sítio Pai Bastião. Segundo as notas de Militão, a propriedade já pertencia a Honório naquela época, evidenciando que ele “estava se tornando mais fazendeiro do que comerciante”. Ali, o grupo fez uma pausa para o descanso, oportunidade em que o anfitrião orgulhosamente exibiu reprodutores recém-adquiridos em Pernambuco e um lote de reses gordas. Antes de alcançarem o destino principal, os cavaleiros ainda cruzaram as terras dos sítios Novo Mundo, Glória e Triunfo.

Embora a distância de Caicó a Fazenda Caboclos seja de aproximadamente quinze quilômetros — um percurso realizável em até duas horas de cavalgada mansa —, o tempo gasto pelos visitantes foi consideravelmente maior, dadas as inúmeras paradas. Ao finalmente aportarem na propriedade Caboclos, receberam as calorosas boas-vindas do proprietário, Manoel Cezário de Medeiros. Homem alto e esguio, então com 41 anos, ele trazia as marcas de uma origem humilde no sítio Glória. No alvorecer do século XX, Cezário havia partido para a Amazônia, onde prosperou no comércio do látex e extraiu fortuna no ápice do Ciclo da Borracha.

Manoel Cezário de Medeiros – Fonte – https://www.familysearch.org/

Ao regressar ao Seridó, converteu seu capital na compra do Caboclos e, movido por um dinamismo impressionante, passou a modernizar os arredores. Os caicoenses ilustres testemunharam os frutos desse esforço: uma usina de beneficiamento de algodão, um engenho de cana-de-açúcar, expressivos rebanhos de caprinos, suínos e bovinos, além de um pomar diversificado. Sob sua liderança, a fazenda alcançou tamanha fama regional que atraía comitivas de prestígio dispostas a conhecer aquele oásis de produtividade.

Ao descrever a sede da fazenda, Pedro Militão pontuou que a morada de Cezário era espaçosa e dotada de muitos aposentos, “porém baixa”, justificando ser este o padrão arquitetônico de “todas as casas do sertão”. Para quem estuda ou idealiza a opulência dos casarões de alpendre do Seridó, tal descrição chega a ser surpreendente, pois contraria a expectativa comum de encontrarmos fachadas imponentes e de pé-direito elevado nessas propriedades tradicionais.

Manoel Cezário de Medeiros e sua família – Fonte – https://www.familysearch.org/

Contudo, a residência contava com um vasto alpendre, onde foram servidos a todos muitas pinhas, laranjas, goiabas, mamões, canas-de-açúcar, bananas, cocos e os cajus, que eram tidos como “famosos” na região de Caicó. Mas foi a área do pomar, localizada a cerca de duzentos metros da casa, “nas costas do açude”, o local que mais impressionou os visitantes. A beleza era tanta que eles comentaram que aquilo mais parecia o “Brejo Paraibano” ou a “Serra de Baturité” do que o caliente Seridó potiguar.

Embora a reportagem não explique como Cezário realizava o cultivo das frutas, essa impressão positiva foi reforçada mais de uma vez no texto. O dono da propriedade Caboclos informou, inclusive, que a fruta mais rentável era, sem dúvidas, a banana. Cezário foi cassado pela primeira vez com em 1901 com Diogência Vitória de Medeiros, que faleceu em 1912 e lhe deixou dois filhos. No ano seguinte casou com Ana Rosalina de Medeiros e dessa união nasceram outros dez filhos.

Manoel Cezário de Medeiros – Fonte – https://www.familysearch.org/

Após visitarem o pomar, os viajantes foram até a parede do açude, que estava bastante cheio. Eles se impressionaram com as dimensões da estrutura e com o volume de água represado, além dos enormes algodoais que cresciam nas margens. Tudo ali transbordava produtividade. Para os visitantes, aquela propriedade só rivalizava com outras duas existentes em Caicó: uma no “vale de São José” e outra “no Umary, no Barra Nova”.

Muito bem tratados, os visitantes almoçaram, tomaram banho de açude e descansaram em redes armadas no alpendre — um costume completamente natural e acolhedor para qualquer nordestino. Sentiam-se tão bem que Pedro Militão escreveu:

Com o Sr. Medeiros, conhecido como Chico de Doca, que me apresentou o lugar – Foto – Rostand Medeiros.

“Naquelles momentos o juiz não pensou nas suas sentenças, os commerciantes esqueceram os seus planos de negocios, nem a sombra da secca passou pela mente do fazendeiro e o periodista nem viu que já era terça feira e nada tinha para o seu numero da sexta. Todos despreoccupados, alheios a labuta quotidiana, apenas queriam saber que estavam desfructando a genuina hospedagem de um sertanejo da gemma, que gosavam o espectaculo saudavel de um céo limpo e um campo verde”.

Por volta das três da tarde, após calorosas despedidas, os quatro cavaleiros partiram rumo a Caicó. Sem nenhuma parada, o trajeto levou apenas uma hora e meia. A jornada foi integralmente noticiada na primeira página do jornal O Seridoense, na edição de sexta-feira, 14 de julho de 1922..

Em forte contraste com aquela época, hoje vemos o campo se despovoar e o apreço pelas tradições se esvair; para muitos, o valor da História reduziu-se ao eco jocoso de que “quem gosta de passado é museu”. Por essa razão, para quem ama as origens de sua terra, é profundamente gratificante resgatar a memória de um Seridó que ainda pulsa na mente daqueles que preservam a identidade desse amado pedaço do Rio Grande do Norte.

RACISMO À BRASILEIRA – SEMPRE CÍNICO E VENENOSO!

Rostand Medeiros

Acho sempre muito engraçado quando encontro pessoas que dizem, muitas vezes alterando o tom da voz e com ar de extrema sapiência, que “no Brasil não existe racismo”.

Quem dera fosse assim!

O racismo no Brasil existe e possui na sua gênese um cinismo miserável, que espalha um veneno terrível, além de ser algo muito antigo, conforme podemos ver na foto que abre esse texto.

É uma foto publicada em uma revista “Fon Fon” de 1908, um dos mais respeitáveis informativos brasileiros do início do século XX.

Nela vemos uma mulher muito bem trajada, com um vestido típico da alta sociedade da sua época, com o colarinho fechado, bordados, chapéu com ramos e flores, além de luvas. Ela traz uma sobrinha clara para lhe proteger do sol.

Pelos desenhos existentes na pedraria da calçada ela está em um boulevard muito bem organizado. Ao fundo vemos mesas e cadeiras, com uma cobertura para proteger do sol, apontando que no local existe um café, ou um restaurante, certamente um interessante ponto de encontro. Na rua estão estacionadas carruagens, talvez do tipo cabriolet, ou caleche. Em suma, era um local “chic”, onde provavelmente se reunia a alta sociedade do Rio de Janeiro.

A foto não é muito nítida, mas percebemos que essa mulher não parece ser tão nova em sua idade e ela tem a mão uma criança, um menino, que veste uma roupa do tipo “calça curta”, com uma pequena gravatinha contendo detalhes geométricos interessantes, que se repetem no colarinho. Nos pés o menino parece calçar botinas. Em tudo são roupas caras, típicas de uma criança da alta sociedade dessa época.

Mas a mulher olha diretamente para a câmera. Um olhar firme, sem sorriso no rosto, um olhar de quem não gosta do que está acontecendo.

Conforme podemos ver acima, a foto foi publicada com a seguinte frase: “Mme. Cecília Carvalho e seu interessante filhinho”. O “Mme.” é diminutivo de mademoiselle e essa mulher, conforme pude ver nos jornais da época, era uma pessoa cujo nome era constantemente repetido como participante de inúmeros eventos sociais. Indicando ser uma mulher da alta sociedade carioca, da elite.

A publicação foto em si não teria nada demais e certamente seria motivo para deixar Mademoiselle Cecília Carvalho feliz. Mas a criança que aparece no “instantâneo” é negra.

Diante da expressão do rosto de Mademoiselle Cecília, acredito que a frase que acompanha a foto na “Fon Fon” é uma ironia ridícula, que reserva uma espécie de reprimenda, certamente pelo fato dela estar acompanhada de uma criança negra nesse tipo de ambiente.  

Evidentemente que sem maiores dados fica difícil de compreender o que se esconde por trás da foto e da publicação da frase.

Não sei se essa criança era realmente filho de Mademoiselle Cecília. Acho que não. Talvez um filho de criação, ou de alguma empregada. Mas seja lá quem fosse a criança, aparentemente para aquela mulher não havia nenhum problema em sair na rua com ele. Não havia problema que ele fosse bem vestido, assim como ela. Mas parece que para o fotógrafo, e por extensão toda a sociedade da época, havia algo errado naquele conjunto. Tanto que valeu o click e a frase…

E assim vamos vivendo nesse país negro, repleto de ironias e hipocrisias em relação ao seu racismo antigo e ainda muito presente.