PALMYRA WANDERLEY – A MULHER QUE TRANSFORMOU O RIO POTENGI EM POESIA E SOFREU UMA GRANDE DOR

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Na manhã de segunda-feira, 13 de março de 1916, os leitores do jornal A República, em Natal, encontraram na primeira página uma delicada composição poética dedicada ao Rio Potengi, ao amor, à infância e aos sentimentos humanos. É um conjunto de poemas intitulado “Trovas Soltas”, que, em minha opinião, é uma das demonstrações mais belas de sua capacidade de transformar paisagens e sentimentos em poesia.

Nota: Os versos abaixo foram atualizados para a ortografia vigente, preservando integralmente o conteúdo, a métrica e a estrutura poética da autora.

Trovas Soltas

No Potengi marulhoso
Todo mistério se encerra,
Nele circula ardoroso
O sangue azul desta terra.

Alva areia se desata
Pelas águas como um fio,
Lembrando um punhal de prata
Ferindo a alma do rio.

Duas velas bem ligeiras
O rio cortando vão,
Duas crenças feiticeiras
Dentro de um só coração.

Uma asa voa fremente
Da noite temendo o arcano.
Assim a ilusão da gente
Também foge ao desengano.

O formoso beija-flor
Que oscula as rosas risonho,
É como a ave do amor
Vagando de sonho em sonho.

Cantam ao luar as venturas
Um casal de namorados;
Deus fez as noites escuras
Para os que são desprezados.

Toda ave tem seu ninho,
Toda flor o seu perfume;
Não há rosa sem espinho,
Nem há paixão sem ciúme.

O amor desfaz-se ligeiro
Quando é mentira, falaz;
Quando é leal, verdadeiro,
O amor não se acaba mais.

Aos velhos não faço versos
Porque não têm esperanças;
Meus poemas deixo impressos
No coração das crianças.

Todo o astro que o azul doura
Lembra um novelo de luz;
E a criança loura
Lembra o Menino Jesus.

Estes anjos pequeninos
São tão queridos de Deus,
Que dos seus lábios divinos
Fez o néctar dos beijos seus.

Os versos eram assinados por uma jovem natalense de apenas 21 anos: Palmyra dos Guimarães Wanderley. Poetisa, cronista, jornalista, teatróloga, musicista e educadora, ela tornou-se uma das grandes vozes femininas da literatura potiguar nas primeiras décadas do século XX. Em uma época em que a imprensa e os espaços intelectuais eram dominados majoritariamente por homens, conquistou reconhecimento por meio de uma produção literária marcada pela sensibilidade, pelo amor à terra natal e pela defesa da participação feminina na vida cultural.

Anos depois, o crítico literário Tristão de Athayde a consagraria como “a grande poetisa do Nordeste”, enquanto o historiador e folclorista Luís da Câmara Cascudo destacaria sua inteligência e sua relevância para o cenário literário potiguar.

O Rio Potengi Transformado em Poesia

Logo nos primeiros versos de”Trovas Soltas”, Palmyra Wanderley revela que o Rio Potengi não aparece apenas como cenário: ele ganha personalidade, quase como um ser vivo. Ao afirmar que por suas águas circula “o sangue azul desta terra”, a poetisa estabelece uma ligação profunda entre o rio e a própria identidade do povo natalense. Em minha opinião, ela consegue construir uma relação visceral, quase sagrada, entre as águas do Potengi e o solo de Natal.

A imagem da areia branca cortando as águas como um “punhal de prata” demonstra sua extraordinária capacidade de criar cenas de grande impacto visual. Nessa passagem, percebe-se uma combinação entre beleza e uma discreta melancolia, característica presente em boa parte da poesia produzida naquele período.

O amor também ocupa posição central nas trovas. Surge representado pelo beija-flor, pela rosa, pelo luar e pelos sonhos, símbolos tradicionais da poesia romântica. Entretanto, Palmyra não apresenta apenas a face idealizada do sentimento amoroso. Ela também reconhece suas dores, suas incertezas e suas contradições.

Quando escreve:

“Não há rosa sem espinho,
Nem há paixão sem ciúme”

a autora demonstra compreender que os grandes sentimentos humanos carregam consigo tanto a alegria quanto o sofrimento.

Da mesma forma, ao afirmar:

“O amor desfaz-se ligeiro
Quando é mentira, falaz;
Quando é leal, verdadeiro,
O amor não se acaba mais”

Nos versos finais, a poetisa volta seu olhar para a infância. As crianças surgem como símbolos da pureza, da esperança e da renovação. Ao desejar deixar seus poemas “no coração das crianças”, demonstra acreditar que a sensibilidade, a capacidade de sonhar e a beleza da imaginação permanecem mais vivas naqueles que ainda não perderam a inocência.

Uma Pioneira da Literatura e do Jornalismo Feminino

Palmyra dos Guimarães Wanderley nasceu em Natal, em 6 de agosto de 1894. Existem discordâncias sobre a sua data de nascimento, mas não acerca do ano. O certo é que, desde jovem, demonstrou interesse pela literatura e pela vida cultural.

Jornal A República, 5 de agosto de 1900, informando sobre o seu aniversário de seis anos. Talvez a primeira nota de jornal com seu nome.

Palmyra diferencia o amor efêmero daquele construído sobre a sinceridade, a lealdade e a fidelidade, revelando uma visão madura e realista das relações humanas.

Sua atuação ocorreu em um período de grandes transformações sociais. Natal começava a experimentar mudanças urbanas, enquanto novas ideias circulavam através de jornais, revistas e movimentos culturais.

Em 1914, ao lado de sua prima Carolina Wanderley e de outras jovens intelectuais, fundou a revista Via-Láctea, um marco histórico para a imprensa potiguar. A publicação foi pioneira por ser produzida, escrita e dirigida por mulheres, em uma época em que a participação feminina nos espaços públicos ainda enfrentava fortes limitações. Mais do que uma revista literária, a Via-Láctea representou uma oportunidade para que mulheres intelectuais expressassem suas ideias sobre cultura, educação e o papel feminino na sociedade. Em 1918, publicou Esmeralda, seu primeiro livro e contou com o apoio do governo potiguar, como podemos ver abaixo.

A partir da década de 1920, Palmyra Wanderley ampliou sua atuação nos jornais do Rio Grande do Norte, especialmente no tradicional A República, principal periódico potiguar da época. Em suas páginas, publicou poemas, crônicas e artigos, abordando temas relacionados à literatura, aos costumes, à educação e à modernização da sociedade. Também colaborou com outras publicações importantes, como A Cigarra, Diário de Natal, Revista Feminina e Revista Moderna, ampliando sua presença para além do estado.

Como muitas escritoras daquele período, utilizou pseudônimos em algumas publicações, entre eles Mirthô, Li-Lá, Masako e Ângela Marialva. Era uma prática comum entre mulheres que escreviam em uma sociedade ainda marcada por fortes restrições à atuação feminina. Sua produção conquistou prestígio nacional e aproximou seu nome dos grandes círculos literários brasileiros.

A Morte do Seu Amado

Um dos episódios menos conhecidos da vida de Palmyra Wanderley foi a morte de seu noivo, Moisés Soares de Araújo, natural de Assú. Considerado, em seu tempo, um dos maiores oradores do Rio Grande do Norte, era reconhecido por sua eloquência e pela firmeza com que defendia suas causas, sendo descrito na sociedade natalense como um homem “justo, fiel e luminoso”.

Formado em Direito no Rio de Janeiro, em 1910, Moisés exerceu intensa atividade intelectual e política no estado. Foi professor e diretor do Atheneu Norte-rio-grandense, um dos fundadores da Escola do Comércio, revisor e, posteriormente, diretor do jornal A República. Destacou-se também como desportista, ocupou o cargo de Secretário-Geral do Estado, elegeu-se diversas vezes deputado estadual e participou de praticamente todas as principais associações culturais e civis da capital.

Foto trabalhada pelo autor com Inteligência Artificial, da casa construida por Moíses Soares de Araújo, na esquina da Avenida Deodoro com a Rua João Pessoa e hoje demolido. Esse trabalho foi feito à partir de uma foto existente do livro de Lauro Pinto.

Seu relacionamento com Palmyra evoluiu para o noivado, e a data do casamento chegou a ser marcada. Nesse período, Moisés mandou construir um elegante sobrado na esquina da Avenida Deodoro com a Rua João Pessoa. O imponente palacete foi concluído em 1922 e, segundo relata Lauro Pinto em seu livro Natal que Eu Vi (1971), seria a residência do casal após a cerimônia de casamento.

O destino, entretanto, modificou completamente esses planos. No dia 6 de agosto de 1922, Moisés Soares de Araújo faleceu precocemente, aos apenas 37 anos de idade.

As causas de sua morte permanecem envoltas em incertezas. Alguns pesquisadores afirmam que ele teria falecido em decorrência de cirrose; outros mencionam pneumonia. Entretanto, as notícias publicadas pelos jornais da época registram como causa da morte a expressão “tabis dorsal”, grafia então utilizada para designar o que hoje conhecemos como tabes dorsalis.

A tabes dorsalis é uma grave complicação neurológica da sífilis não tratada, caracterizada pela degeneração das colunas posteriores da medula espinhal, responsáveis pela sensibilidade profunda e pelo equilíbrio corporal. Trata-se de uma manifestação tardia da neurossífilis, que normalmente surge muitos anos após a infecção inicial pela bactéria Treponema pallidum. Seus portadores costumam sofrer dores intensas, perda progressiva da coordenação motora e outras alterações neurológicas incapacitantes.

Uma estranha coincidência.

Atualmente, a doença pode ser diagnosticada por exames de sangue e do líquido cefalorraquidiano (LCR), sendo tratada com penicilina por via intravenosa. O tratamento elimina a infecção e impede sua progressão, embora os danos neurológicos já estabelecidos geralmente sejam irreversíveis.

Se a informação registrada nos jornais estiver correta, é possível que Moisés tenha falecido em decorrência das complicações provocadas pela neurossífilis. No entanto, diante da existência de outras versões para a causa de sua morte e da ausência, até onde se sabe, de documentação médica conclusiva, essa hipótese deve ser tratada com cautela.

Após sua morte, a casa construída para abrigar os recém-casados permaneceu fechada durante décadas. Sobre a atmosfera melancólica daquele imóvel, Lauro Pinto eternizou uma das frases mais conhecidas de sua obra ao afirmar que o belo sobrado “nasceu morto e, por isso, sempre triste”.

Roseira Brava e Um Legado que Permanece Vivo

A obra mais conhecida de Palmyra Wanderley é Roseira Brava, publicada originalmente em 1929. O livro reúne poemas que revelam sua profunda ligação com a paisagem potiguar, especialmente com Natal e seus elementos naturais. Nele, a autora consolidou uma poesia marcada pelo lirismo, pela sensibilidade e pela valorização da identidade regional.

A publicação recebeu Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras, reconhecimento que confirmou a relevância de sua produção literária no cenário nacional. Em sua edição original, Roseira Brava traz uma emocionante dedicatória: “À memória de Moisés Soares, a palavra mais viva e o maior coração. A rosa mais triste desta roseira brava.” Essas palavras evidenciam que a perda do noivo permaneceu como uma das marcas mais profundas de sua vida e de sua obra.

Além da literatura, Palmyra participou ativamente de iniciativas culturais e sociais, especialmente nas áreas da educação, da assistência social e da valorização da presença feminina na vida intelectual. Em 1936, tornou-se uma das fundadoras da Academia Norte-rio-grandense de Letras, ocupando a cadeira nº 20, cuja patrona é outra grande poetisa potiguar, Auta de Souza.

Mais de um século após a publicação de “Trovas Soltas”, a poesia de Palmyra Wanderley continua revelando um Rio Grande do Norte sensível, culto e profundamente ligado às suas paisagens, tradições e valores culturais. Ela escreveu sobre o Rio Potengi, sobre o amor, sobre a infância e sobre os sonhos humanos. Mas, acima de tudo, escreveu sobre a capacidade de enxergar beleza nas pequenas coisas da vida.

Sua trajetória representa também a história de uma geração de mulheres que conquistou espaço em uma sociedade na qual os ambientes intelectuais e culturais eram ocupados quase exclusivamente por homens. Com talento, perseverança e sensibilidade, Palmyra conquistou o reconhecimento de seus contemporâneos e deixou uma obra que permanece atual.

Palmyra entre duas amigas, próximo a área da Ponta do Morcego, aproveitando a brisa do mar.

Redescobrir Palmyra Wanderley é compreender uma parte essencial da identidade cultural do Rio Grande do Norte. Sua voz permanece viva porque sua poesia não pertence apenas ao tempo em que foi escrita. Ela continua dialogando com diferentes gerações ao celebrar sentimentos universais, como o amor pela terra natal, a esperança, a memória e o desejo profundamente humano de transformar a vida em arte.

Talvez seja justamente essa a maior força de sua obra: mostrar que os lugares, as pessoas e os sentimentos podem sobreviver ao tempo quando encontram na poesia um abrigo permanente.

O BANCO DA BOTICA – MEMÓRIAS DAS ANTIGAS FARMÁCIAS DO SERTÃO

Raimundo Nonato – Figuras e Tradições do Nordeste – Editora Irmãos Pongetti, Rio de Janeiro, 1958, Páginas 9 a 18.

O banco de botica sertaneja era um lugar de importância, gozando de prestígio e de renome, dono por assim dizer, de meio mundo de influência e respeito da gente da localidade.

Era, também, ponto perigoso para a reputação da vida alheia, pois ali tanto se falava de política ou de inverno, como se difamava o vizinho ou a mulher do próximo. Alguns desses bancos chegaram a deixar uma história, tal a importância da sua roda de conversadores, de ordinários, de gente boa, onde se contavam autoridades como o juiz de direito, o presidente da Intendência, o vigário, o promotor e o velho chefe político, que andava pelas ruas de ceroula e de alpercata de rabicho.

Por isso ou por aquilo, o certo é que ninguém queria ser inimigo do boticário. O seu conceito vinha da língua dos faladores que por lá se encontravam, era ainda assim elevado, pois sempre prestava favores e servia indistintamente nas ocasiões de apertura.

O boticário, nesses velhos tempos, era uma pessoa extraordinária na vida dos lugarejos do sertão. Coisa semelhante a feiticeiro, homem mágico, milagroso, com quem poucos se atreviam a tirar prosa. Só ele conhecia o segredo dos remédios, a arte daquelas drogas maravilhosas que estancavam sangue, fazia desaparecer as dores, levantavam as pessoas, curavam os doentes e salvavam vidas preciosas, às vezes à beira da sepultura.

Em vista disso, tinha lá suas inúmeras amizades, sendo largo o compadresco, aparecendo sempre como padrinho de vela e testemunha de casamento quando o Padre Natanael vinha celebrar missa, de quinze em quinze dias.

Também não era necessário largo conhecimento para atender às necessidades dos membros da comunidade rústica. Naqueles dias as indicações eram as mais simples. Não havia maiores possibilidades, o dilema era fatal: ou os remédios curavam, ou levavam o paciente, irremediavelmente, para a cidade dos pés juntos.

E como eram esses remédios?

Os nomes eram grandes, impressionantes, de prosódia retumbante e forte.

— Semicúpios, sinapismo e purgantes. Estes últimos, espécie de panaceia universal, eram recomendados para todos os achaques. Variavam só os ingredientes e as dosagens. De todos o óleo de rícino era o mais generalizado. Depois o sal amargo, que se vendia na loja de Cristalino Costa, em Martins, a 18 vinténs o quilo. A aguardente alemã, magnésia, Limonada de Leford, água vienense, Rubinat e purgante dos quatro humores. Jalapa e azeite de caroço de carrapato eram aplicados segundo a gravidade da moléstia, servindo, indistintamente, ora para aliviar empanzinamentos, ora para dores em geral, inchações ocasionadas por coice de burro, para dor nas cruzes e ventre crescido. Na verdade, só os casos mais graves reclamavam a aguardente alemã, ou a jalapa, considerados sempre purgantes muito fortes. Eram comuns nos distúrbios originados pela congestão.

Em Caicó, na Praça do Mercado, a Farmácia Pereira vendia uma bebida refrescante que utilizava na sua composição cocaína.

Nem sempre era encontrado o remédio no momento de maior vexame. A aguardente alemã, por exemplo, sempre desaparecia da botica. Mas, o homem dos remédios não se perturbava. Quando aparecia um caso de urgência, preparava o ingrediente com cachaça velha da terra e o resultado era sempre o mesmo. Até os doutores formados recomendavam esse emprego…

Em Mossoró, o bodegueiro João Caetano possuía várias garrafas do precioso líquido que passarinho não bebe. Eram nove garrafinhas brancas, bastante antigas, colocadas no alto das prateleiras. Aquela cana do Cumbe da Bahia que não vinha ao balcão para venda, contava bem vinte anos de conservação, pois, conforme assegurava o dono da bodega, era da mesma idade de uma filha sua e de uma gata mourisca de estimação, que dormia dentro do caixão de bolachas ou ressonava por cima da saca de farinha de mandioca. Pois lá um dia adoeceu a esposa do Teofinho, um vendedor de massas dos Paredões de Mossoró, e não foi encontrado o remédio receitado. O Dr. Castro[1] não criou embaraços, mandou aplicar a cachaça do Caetano, e a mulher ficou novinha em folha.

De modo rigoroso, a pessoa purgada tinha regime especial. Não podia ouvir barulho, nem tiro ou gritaria. Ficava agasalhada em quarto escuro, bem fechado, com as frestas das portas e janelas tomadas com pano para o vento não entrar. Permanecia nesse estado de três a nove dias. Ninguém podia falar alto, nem menino gritava por perto. Para manter esse silêncio, trabalhavam o puxa-vante de orelha e ferozes beliscões de arrancar o couro. O purgado ficava ainda de cabeça amarrada com pano branco, calçado de meias e com os ouvidos entupidos de algodão. Essa precaução ocorria quando se tratava de mulher de parto. A alimentação era cuidada e pouca. Só caldo de pinto, às vezes de mungunzá ou de arroz do barco e chá. Mais para o fim, uns crespinhos de goma e que não fosse fresca. De vício só o café, torrado, sem doce e que não estivesse requentado.

Remédio que serviam para quase tudo!

Quebrar o resguardo de uma pessoa era coisa muito séria!

Mas, em última situação, o boticário era a chave da esperança. Dele dependia tudo. Sua palavra e seus remédios decidiam a sorte de muitas vidas.

Nesse regime, além dos purgativos, as pílulas gozavam de muita aceitação. As pomadas eram sempre recomendadas na cura das perebas e dos arranhões malignos. A de São Lázaro era a mais conhecida. Também não havia de que duvidar. Ferida braba, por pior que fosse, não aguentava sete curativos, desde que o doente não fizesse extravagâncias e não abusasse de comida carregada, como peba gordo, guiné, carne de porco ou avoante.

Emulsão de Scott, até hoje nas farmácias.

A velha botica tinha um rol dos seus remédios afamados: Elixir de Mururé, Pílulas de Mato, Emulsão de Scott, Pílulas de Bristol, Antigal do Dr. Guerra, Pomada Reclus, Elixir de Nogueira, Pomada de São Lázaro, Viperina do Dr. Castro contra as mordeduras das cobras venenosas. Pílulas de Pião e Jalapa, Joatonka Rosado, Gotas Salvadoras, Água Inglesa e Xarope de Angico.

As drogas da botica eram, porém, insignificantes em vista do grande número de indicações e meizinhas caseiras. As folhas, as raízes, sementes e cascas desempenhavam larga influência na atividade da medicina sertaneja. A maior parte dos remédios era mesmo de origem vegetal. Daí, o largo ciclo da sua propaganda, dominando grande parte e composição da farmacopeia grosseira, de emergência, linha marginal da arte e da ciência de curar por meios e processos racionais.

O Antigal do Dr. Machado.

De comum havia um chá para cada doença, uma indicação, um recurso de cuja eficácia não cabia levantar suspeita. Sua variedade era imensa e rica como a própria flora de onde vinham. O fedegoso, por exemplo, deixou fama, assim como a jurubeba branca. O cozimento de raiz de velame, a batata de purga, o cardo santo para dor na garganta e a infusão de malva e agrião para mal do peito. O chá de cravo de defunto era para doença dos olhos, a cabacinha e a cabeça de negro eram como depurativos. Cebola branca serenada para o catarro. Chá de alho para gripe e mel de juá para doença do peito. Cumaru e sucupira para reumatismo. Mororó para enfraquecimento e Babosa (nove folhas lavadas em nove águas) feito mel com açúcar branco servia para escarro de sangue. Capeba usado para doenças do fígado e a jandiroba para reumatismo. Mão-fechada para a dor de mulher. Catucá era calmante. Jatobá para os rins e vias respiratórias e a milona para o fígado. Alcaçuz era outro remédio para a tosse. Mastruço (ou Mastruz) com leite usavam para bronquite. Leite de pião era para as mordidas de cobra. Língua de vaca para o baço e melancia da praia para a dor de lado. Jucá para espalhar o sangue e maxixe do Pará (a flor) para puxado. Casca de jaboticaba utilizavam para dor de barriga e velame branco para afinar o sangue. E mais raspa de juá, folha de abacate, capim santo, folha de laranjeira eram os remédios de casa para todas as indicações.

Também a folha de mostarda quente servia para dor de cabeça. Emplasto de jerimum com pirão de farinha para estourar panariço. Casca de romã para rouquidão. Chá de quebra pedra para rins e gado e o chá de folha de mamão para indigestão.

Pílulas de Bristol em uma propaganda de 1954.

Havia coisa mais violenta: chá de caroço de pinha usavam para a mordida de cascavel e pimenta malagueta com café amargo baixava a febre.

Fora da farmácia havia ainda um remédio temerário, conhecido pelo nome de “garrafadas”, preparadas por especialistas e que, segundo se dizia, arrancavam o mal pela raiz.

Já a nomenclatura das doenças era extensa e os nomes de alguns chegavam a dar nó na garganta. Muitos nem podiam ser pronunciados na presença das crianças, como o garrotilho, que era chamado “mal de menino”. De uma relação rica e vasta não seria demais que se citasse:

Propaganda da Farmácia Pires, em Jardim do Seridó.

— Quebranto, olhado, espinhela caída, dor de veado, mal das juntas, puxado, nó na tripa, ar encasado, cupim, boqueira, fininha, impinge, inteiriça, cobreiro, sete couros, doença do peito, gafeira, chega e vira, dor na boca do estombo (estômago), tontura, brotoeja, pereba, pilora, calor de figo, farnezim, dor de mulher, curuba, fogo selvagem, bexiga lixa, caminheira, campainha caída, mau olhado, dor de ventosidade, ventre-caído, bucho quebrado, cabeça de prego, pé triado, mazela, braço desmentido, galco, quebradura, fuá, gota serena, sapiranga, tersol, andaço, morrinha no corpo, macacoa, sarampão, esquinência, doença interiora, câimbra de sangue, esquentamento e erisipela.

Com todas essas doenças, ainda se podia morrer de:

— Bexiga, garrotilho, estopor, moléstia do ar, moléstia do vento, frouxo, cancro, antraz, gálico, urinas doce, tosse, força de sangue, paridura, vício, inchação, catarrão, maligna, espasmo, cobreiro, sezões, gota, inchaço, puxado, moléstia do peito, ferida na garganta, chagas, maleita, ferida na boca, lombriga, defluxo, pontada, fluxo de sangue, frouxo de sangue, doença gálica, pontada no ouvido, sezões malignas, tumor nas costas, humor recolhido, moléstia do vento, estrepada, caroço na barriga, velhice, inflamação no estômago, cobra, feridas recolhidas, tuberto, andosso, gota coral, caroço no rosto, sarampo, umas cacetadas, uma inflamação nos bofes, quebradura descida, tiro, mordidela de cascavel, uma inchação nos peitos, frialdade, hemorroidas, tísica, parto, um tumor de repente, uma queda, afogado, feridas gomosas, moléstia na barriga, retrocesso de sangue, facada, uma ferida, dor nos ouvidos, hidrópico, feridas espasmódicas, inchação na cabeça, inflamação no fígado e estopor.

A farmácia de Jerônimo Rosa, em Mossoró.

Muitos dos velhos donos de botica do sertão se tornaram afamados pela segurança com que indicavam seus xaropes.

De quantos exerceram os trabalhos de farmacêuticos por esses tempos de meu Deus, Palmério Filho, da cidade de Assu, é, sem dúvida, o profissional mais interessante, não só pela sua atividade nesse ramo, como pelo número de anos que tem atravessado no contacto da frascaria, dos sais, das latas de pomadas. e vidros de tintura.[2]

Uma curiosidade do boticário da terra de Ulisses Caldas é que ele não gosta de receitar. De lá era também Amorim, o Cajurema, boticário de projeção pelos lugares marginais do Baixo Assu. Em São Miguel, Chico França sempre viveu metido no seu quarto vendendo drogas e meizinhas poderosas. Em Martins, Areamiro de Almeida e Neco Cocada negociaram com homeopatias e laxantes por muitos anos, depois de João Teixeira de Sousa. Em outra época, Álvaro Andrade pontificava em Pau dos Ferros. Patu vivia nos domínios “clínicos” de Ascendino de Almeida, boticário que sarjava, fazia parto e encanava braço quebrado. Nas Pendências quem receitava todo o mundo era João Lalau e no Itaú, do Apodi, Fausto Pinheiro fazia até defunto andar…

Havia também grandes homeopatas e alopatas do maior conceito. De alguns afirmavam que eram “quase médicos”. Zenon Martins, na cidade deste nome, Bento Antônio de Oliveira, em Mossoró, Quinca Antão, na Várzea do Assú, e o Cel. Zé Leite do Castelo, nos pés da Serra, sempre foram tidos e havidos como homens de “muita ciência”.

Em Mossoró, depois da antiga botica de Manuel Artur de Azevedo, que apareceu lá pelas eras de 1877, a farmácia do Dr. Monteiro gozou de justo renome, especialmente, no que regista sua crônica sobre o caso de um ilustre comerciante da cidade que sempre chegava para a prosa, impondo a contar a história de um gordo peru que comera. Cansado daquilo, lá um dia o médico dono do negócio, em vez do digestivo habitual impingiu ao amigo boa dose de tártaro, bastante para o mesmo revelar que o peru não passava de grossa feijoada…

Já em época mais recente, três estabelecimentos se desenvolveram nesse ramo de negócio. A Farmácia Rosado, de Jerônimo Rosado, continuando com os seus sucessores. Esse local tornou-se saliente porque nos seus bancos, o Partido Popular fez tenda de reunião. A Farmácia Central, de Edgar Medeiros, era o maior foco de linguarudos deste mundo. Já a farmácia Almeida, de Vicente Almeida, onde faziam paradas em períodos diversos Carlile Magalhães (gerente da agência do Banco do Brasil), Aprígio Câmara, Dário de Andrade, Alfredo Simonetti (diretores da Escola Normal), Henrique Lima, Major Rufino Caldas, (representante da Fábrica de Algodãozinho de Aracati) e Vicente Praxedes da Silveira Martins, além dos tipos populares que motivavam encrencas, como Artur Capote, o deputado das “massas oprimidas”. Vitorino da Caieira, sertanejo de quatro costados, e Anélio, o profeta de barba grande e cabeleira desgrenhada, sobraçando um respeitável cajado de miolo de aroeira[3].

Quem relembra, hoje (1958), os dias desse passado tem necessariamente de reconhecer a influência de desbravamento que o banco da botica desempenhou em tantos pontos do interior do Brasil. Seu papel de concentração social e humana concorreu, poderosamente, para melhorar a formação dos pequenos núcleos de populações rurais, onde a ação do boticário, à semelhança do vigário, do comboieiro, do professor de meninos e do coronel chefe político, se fez sentir de modo realmente construtivo e duradouro..

A seu tempo, a botica era uma casa cujo nome despertava confiança. A palavra e o vidro de remédio faziam escapar os males da vida, mais pela confiança que inspiravam, do que propriamente pelos seus efeitos e poder curativo.

Em outro aspecto, observado através do campo sociológico, é das mais expressivas a função desempenhada na comunidade pelo grupo do banco da botica[4].

Ali, entre conversas e animadas partidas de gamão, muita coisa séria foi ventilada, sobressaindo ideias boas, de ordem, pública ou interesse privado, notícias da política, do inverno e do comércio, assuntos sempre discutidos, para os quais até soluções foram apontadas, embora sem aplicação, porque a maior parte dos problemas dos rincões sertanejos ainda continua virgem, como era nos dias pré-cabralianos.

Aqueles encontros, se, às vezes, puderam fermentar dissenções, e rixas, também serviram para dirimir questões, amainar ódios, e, até evitar crimes. Os frequentadores é que eram quase sempre os mesmos. Lá um dia, surgia a novidade: uma cara nova. Era um estranho que chegava à terra e ali comparecia, penetrando na conversa, passando assim a se filiar ao ajuntamento, não raro, ficando permanentemente no lugar, integrado no pensamento da sua gente, no seu trabalho e no destino das suas preocupações coletivas.

Tempo virá, talvez, em que estudo mais demorado e profundo chegue a evidenciar a influência aglutinadora dessas reuniões, tão simples nas suas origens, mas tão poderosas como fator de contacto, que tiveram início nas rodas de conversas do banco da botica, centro de movimentação, de pensamentos e atividades, consequentemente, elemento social e civilizador[5].

NOTAS


[1] — Dr. Francisco Pinheiro de Almeida Castro. Médico, natural da Província do Ceará, radicado em Mossoró, onde foi chefe político de incontestável prestígio. Nessa posição, sempre se conduziu com elevado espírito de harmonia, mantendo entendimentos com o chefe antagonista, o Cel. Bento Praxedes Fernandes Pimenta. Na cidade, muitos relembram a esse respeito a desinteligência surgida por ocasião da visita do Capitão José da Penha, onde o local indicado pelos amigos do Dr. Castro para um discurso do vibrante militar foi o mercado público, inaugurado há pouco tempo, quando era presidência da Intendência Municipal Antônio Filgueira. Contra isso se levantaram os governistas, achando que o Penha não podia falar num próprio público para atacar o Governador do Estado, que nesse tempo era Alberto Maranhão. Pois mesmo “de baixo”, na condição difícil de oposicionista, Almeida Castro articulou-se com seu adversário Bento Praxedes, e chamando o presidente da Intendência, Francisco Izódio de Sousa, permitiram que o Jota da Penha falasse do mercado, que para isso fora embandeirado, respeitando-se os locais que pertenciam aos elementos governistas. Dr. Castro faleceu em Mossoró a 22-6-1922, quando exercia o mandato de Deputado Federal. Em sua homenagem a cidade, além de um busto, deu o seu nome a uma das suas ruas, por sinal, aquela em que residiu por muitos anos.

[2] — Jornalista Palmério Filho, homem de letras, conservador e pertencente a tradicional família açuense. Durante muito tempo fez publicar, sob sua direção, um jornal de bom formato chamado “A CIDADE”, infelizmente, hoje (1958), desaparecido. A seu respeito além do mais é típico o apego de Palmério Filho ao seu rincão, pois numa longa existência nunca viu outro lugar, mesmo dos mais perto do Assú. Seu mundo geográfico perde-se ali mesmo, em redor dos carnaubais verdejantes que pontilham às margens do velho rio, cuja várzea tem hoje uma história graças aos ensaios de M. Rodrigues de Melo. Palmério Filho é ainda afamado pelas suas qualidades de tribuno.

[3] — Essa gente que frequentava o banco da farmácia Almeida, deixou memória em Mossoró. De uma feita, o dono da casa para envenenar a situação, contou ao coronel Vicente Martins que o Major Romão Filgueiras ia sair, num andor, durante as festas do 30 de setembro. E isso, acrescentava o farmacêutico, maldosamente, era só por adulação, pois o Desembargador João Dionísio Filgueira se encontrava no cargo de Secretário do Estado, ao tempo da Interventoria do General Fernando Dantas. O outro, sem se dar por achado, saiu logo e chegando em casa mudou de fatiota e lá se foi à procura do velho abolicionista mossoroense. Não perdeu tempo em andar, pois na primeira esquina, descobrindo o amigo, dele se aproximou e foi deitando a queima roupa: — “Mas, Romão, meu parente, você não está vendo que isso é uma coisa ridícula, essa de pensar em correr as ruas num andor? — Não vê, meu primo, que isso é arrumação do Padre Mota para agradecer ao Dionísio e vê por esse meio se pode continuar na Prefeitura, inventando impostos e matando os jumentos dos pobres?” Diante daquilo, o Major Romão que tudo ignorava, não teve melhor saída e foi dizendo: — “É Vicente, não é bem um andor, ouviu? …É uma coisa assim…” E lá se foi deixando o amigo embatucado.

[4] — O fato não é apenas originalidade de pequenos lugares do interior. Em muitas cidades importantes, e, até, em capitais, há notícia da existência desses pontos de reuniões. Em Fortaleza, por exemplo, é tradicional a crônica do Banco da Praça do Ferreira, bem em frente à Farmácia Pasteur, centro de encontros e conversações de figuras respeitáveis da progressista capital alencarina. Também em Natal, são conhecidas memórias de alguns desses locais que adquiriram celebridade na vida da cidade. Na sua magnífica História do Rio Grande do Norte, o escritor Luís da Câmara Cascudo faz referências a pelo menos dois desses recantos, afirmando: “Amintas, o Juiz da Capital, era o delegado do Conselheiro Tarquino de Souza, conservador da velha lei, um dos chefes do grupo da Botica (a Botica era do Comendador José Gervasio de Amorim Garcia, cunhado de Amintas) adversário do Cantão da Gameleira, na Cidade Alta, ponto de reunião dos fiéis do Padre João Manuel”.

[5] — Remédios Tradicionais -— Escreveu Veríssimo de Melo: “Estou recebendo, com alegria, uma nova e curiosa colaboração do Prof. Raimundo Nonato. Trata-se de uma relação de remédios caseiros, usados ainda hoje nos nossos sertões. Muitos deles têm nomes gosados e parecem extravagantes. Mas, ninguém pode condená-los sem procurar sua justificação científica. Se eles persistem na memória popular, desafiando os séculos, é sinal de que são realmente úteis. O Prof. Raimundo Nonato confessou-me que ele próprio já bebera chá de flor de toco. Uma tia minha já tomou chá de perna de grilo. Mas, vamos à revelação, tal qual me mandou o prezado confrade Raimundo Nonato”:

1 — Chá de lagartixa, para dor de garganta;

2 — Ovo com breu, para asma;

3 — Banha de urubu, para erisipela;

4 — Água de bilro ou de chocalho, para menino aprender a falar;

5 — Chá de perna de pinto com mel de jandaíra, para puxado; (sic)

6 — Rosário de sabugo, para tosse de cachorro;

7 — Água de raiz de fedegoso, para catarro;

8 — Mistura de vinagre, cachaça e goma, para dor de barriga;

9 — Chá de flor de toco, para sarampo;

10 — Urina de menino novo, para dordói; (sic)

11 — Chá de cavalo do cão, para papeira que desce;

12 — Chá de barata assada, para dor de veado;

13 — Sanapismo (cataplasma) de alho numa perna, para dor de dente;

14 — Mel de cupim, para atalhar hemorragia;

15 — Garapa de-açúcar preto, também para estancar o sangue;

16 — Sarro de. cachimbo, para matar carrapato;

17 — Pó de caroço de pião, para. dor de cabeça;

18 — Barro de casa de besouro, para papeira;

19 —- Chá de esterco de cavalo, para sezão;

20 — Café com pimenta malagueta, contra gripe;

21 — Cebola branca assada e serenada, para tosse braba;

22 — Chá de grilo para menino ficar falador;

23 — Chá de talo de mamoeiro, para empanzinamento;

24 — Pó. de bucho de barata, para dor de ouvido e para estourar fleimão:

25 — Mascar a flor do cajueiro, contra queima (asia);

26 — Baba de fumo mascado, com leite de pião, contra veneno de cobra;

27. — Picada de abelha de enxuí, contra reumatismo;

28 — Cortar um novelo de linha, misturar com açúcar e comer de manhã, em. jejum, para expelir vermes;

29 — Chá de encosto da pena de galinha pedrês, contra tuberculose;

30 — Chá de encosto da pena de galinha pedrês, contra tuberculose; 31 — Meter um botão de-ceroula na boca, para passar a dor de mordida de lacrau. Também. se fala num. chá de mão de pilão, e noutro de cabo-de chapéu de sol de parteira, sem indicação muito certa. Termina. Raimundo Nonato.

31 — Meter um botão de-ceroula na boca, para passar a dor de mordida de lacrau. Também. se fala num chá de mão de pilão, e noutro de cabo-de chapéu de sol de parteira, sem indicação muito certa. Termina Raimundo Nonato.