PALMYRA WANDERLEY – A MULHER QUE TRANSFORMOU O RIO POTENGI EM POESIA E SOFREU UMA GRANDE DOR

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Na manhã de segunda-feira, 13 de março de 1916, os leitores do jornal A República, em Natal, encontraram na primeira página uma delicada composição poética dedicada ao Rio Potengi, ao amor, à infância e aos sentimentos humanos. É um conjunto de poemas intitulado “Trovas Soltas”, que, em minha opinião, é uma das demonstrações mais belas de sua capacidade de transformar paisagens e sentimentos em poesia.

Nota: Os versos abaixo foram atualizados para a ortografia vigente, preservando integralmente o conteúdo, a métrica e a estrutura poética da autora.

Trovas Soltas

No Potengi marulhoso
Todo mistério se encerra,
Nele circula ardoroso
O sangue azul desta terra.

Alva areia se desata
Pelas águas como um fio,
Lembrando um punhal de prata
Ferindo a alma do rio.

Duas velas bem ligeiras
O rio cortando vão,
Duas crenças feiticeiras
Dentro de um só coração.

Uma asa voa fremente
Da noite temendo o arcano.
Assim a ilusão da gente
Também foge ao desengano.

O formoso beija-flor
Que oscula as rosas risonho,
É como a ave do amor
Vagando de sonho em sonho.

Cantam ao luar as venturas
Um casal de namorados;
Deus fez as noites escuras
Para os que são desprezados.

Toda ave tem seu ninho,
Toda flor o seu perfume;
Não há rosa sem espinho,
Nem há paixão sem ciúme.

O amor desfaz-se ligeiro
Quando é mentira, falaz;
Quando é leal, verdadeiro,
O amor não se acaba mais.

Aos velhos não faço versos
Porque não têm esperanças;
Meus poemas deixo impressos
No coração das crianças.

Todo o astro que o azul doura
Lembra um novelo de luz;
E a criança loura
Lembra o Menino Jesus.

Estes anjos pequeninos
São tão queridos de Deus,
Que dos seus lábios divinos
Fez o néctar dos beijos seus.

Os versos eram assinados por uma jovem natalense de apenas 21 anos: Palmyra dos Guimarães Wanderley. Poetisa, cronista, jornalista, teatróloga, musicista e educadora, ela tornou-se uma das grandes vozes femininas da literatura potiguar nas primeiras décadas do século XX. Em uma época em que a imprensa e os espaços intelectuais eram dominados majoritariamente por homens, conquistou reconhecimento por meio de uma produção literária marcada pela sensibilidade, pelo amor à terra natal e pela defesa da participação feminina na vida cultural.

Anos depois, o crítico literário Tristão de Athayde a consagraria como “a grande poetisa do Nordeste”, enquanto o historiador e folclorista Luís da Câmara Cascudo destacaria sua inteligência e sua relevância para o cenário literário potiguar.

O Rio Potengi Transformado em Poesia

Logo nos primeiros versos de”Trovas Soltas”, Palmyra Wanderley revela que o Rio Potengi não aparece apenas como cenário: ele ganha personalidade, quase como um ser vivo. Ao afirmar que por suas águas circula “o sangue azul desta terra”, a poetisa estabelece uma ligação profunda entre o rio e a própria identidade do povo natalense. Em minha opinião, ela consegue construir uma relação visceral, quase sagrada, entre as águas do Potengi e o solo de Natal.

A imagem da areia branca cortando as águas como um “punhal de prata” demonstra sua extraordinária capacidade de criar cenas de grande impacto visual. Nessa passagem, percebe-se uma combinação entre beleza e uma discreta melancolia, característica presente em boa parte da poesia produzida naquele período.

O amor também ocupa posição central nas trovas. Surge representado pelo beija-flor, pela rosa, pelo luar e pelos sonhos, símbolos tradicionais da poesia romântica. Entretanto, Palmyra não apresenta apenas a face idealizada do sentimento amoroso. Ela também reconhece suas dores, suas incertezas e suas contradições.

Quando escreve:

“Não há rosa sem espinho,
Nem há paixão sem ciúme”

a autora demonstra compreender que os grandes sentimentos humanos carregam consigo tanto a alegria quanto o sofrimento.

Da mesma forma, ao afirmar:

“O amor desfaz-se ligeiro
Quando é mentira, falaz;
Quando é leal, verdadeiro,
O amor não se acaba mais”

Nos versos finais, a poetisa volta seu olhar para a infância. As crianças surgem como símbolos da pureza, da esperança e da renovação. Ao desejar deixar seus poemas “no coração das crianças”, demonstra acreditar que a sensibilidade, a capacidade de sonhar e a beleza da imaginação permanecem mais vivas naqueles que ainda não perderam a inocência.

Uma Pioneira da Literatura e do Jornalismo Feminino

Palmyra dos Guimarães Wanderley nasceu em Natal, em 6 de agosto de 1894. Existem discordâncias sobre a sua data de nascimento, mas não acerca do ano. O certo é que, desde jovem, demonstrou interesse pela literatura e pela vida cultural.

Jornal A República, 5 de agosto de 1900, informando sobre o seu aniversário de seis anos. Talvez a primeira nota de jornal com seu nome.

Palmyra diferencia o amor efêmero daquele construído sobre a sinceridade, a lealdade e a fidelidade, revelando uma visão madura e realista das relações humanas.

Sua atuação ocorreu em um período de grandes transformações sociais. Natal começava a experimentar mudanças urbanas, enquanto novas ideias circulavam através de jornais, revistas e movimentos culturais.

Em 1914, ao lado de sua prima Carolina Wanderley e de outras jovens intelectuais, fundou a revista Via-Láctea, um marco histórico para a imprensa potiguar. A publicação foi pioneira por ser produzida, escrita e dirigida por mulheres, em uma época em que a participação feminina nos espaços públicos ainda enfrentava fortes limitações. Mais do que uma revista literária, a Via-Láctea representou uma oportunidade para que mulheres intelectuais expressassem suas ideias sobre cultura, educação e o papel feminino na sociedade. Em 1918, publicou Esmeralda, seu primeiro livro e contou com o apoio do governo potiguar, como podemos ver abaixo.

A partir da década de 1920, Palmyra Wanderley ampliou sua atuação nos jornais do Rio Grande do Norte, especialmente no tradicional A República, principal periódico potiguar da época. Em suas páginas, publicou poemas, crônicas e artigos, abordando temas relacionados à literatura, aos costumes, à educação e à modernização da sociedade. Também colaborou com outras publicações importantes, como A Cigarra, Diário de Natal, Revista Feminina e Revista Moderna, ampliando sua presença para além do estado.

Como muitas escritoras daquele período, utilizou pseudônimos em algumas publicações, entre eles Mirthô, Li-Lá, Masako e Ângela Marialva. Era uma prática comum entre mulheres que escreviam em uma sociedade ainda marcada por fortes restrições à atuação feminina. Sua produção conquistou prestígio nacional e aproximou seu nome dos grandes círculos literários brasileiros.

A Morte do Seu Amado

Um dos episódios menos conhecidos da vida de Palmyra Wanderley foi a morte de seu noivo, Moisés Soares de Araújo, natural de Assú. Considerado, em seu tempo, um dos maiores oradores do Rio Grande do Norte, era reconhecido por sua eloquência e pela firmeza com que defendia suas causas, sendo descrito na sociedade natalense como um homem “justo, fiel e luminoso”.

Formado em Direito no Rio de Janeiro, em 1910, Moisés exerceu intensa atividade intelectual e política no estado. Foi professor e diretor do Atheneu Norte-rio-grandense, um dos fundadores da Escola do Comércio, revisor e, posteriormente, diretor do jornal A República. Destacou-se também como desportista, ocupou o cargo de Secretário-Geral do Estado, elegeu-se diversas vezes deputado estadual e participou de praticamente todas as principais associações culturais e civis da capital.

Foto trabalhada pelo autor com Inteligência Artificial, da casa construida por Moíses Soares de Araújo, na esquina da Avenida Deodoro com a Rua João Pessoa e hoje demolido. Esse trabalho foi feito à partir de uma foto existente do livro de Lauro Pinto.

Seu relacionamento com Palmyra evoluiu para o noivado, e a data do casamento chegou a ser marcada. Nesse período, Moisés mandou construir um elegante sobrado na esquina da Avenida Deodoro com a Rua João Pessoa. O imponente palacete foi concluído em 1922 e, segundo relata Lauro Pinto em seu livro Natal que Eu Vi (1971), seria a residência do casal após a cerimônia de casamento.

O destino, entretanto, modificou completamente esses planos. No dia 6 de agosto de 1922, Moisés Soares de Araújo faleceu precocemente, aos apenas 37 anos de idade.

As causas de sua morte permanecem envoltas em incertezas. Alguns pesquisadores afirmam que ele teria falecido em decorrência de cirrose; outros mencionam pneumonia. Entretanto, as notícias publicadas pelos jornais da época registram como causa da morte a expressão “tabis dorsal”, grafia então utilizada para designar o que hoje conhecemos como tabes dorsalis.

A tabes dorsalis é uma grave complicação neurológica da sífilis não tratada, caracterizada pela degeneração das colunas posteriores da medula espinhal, responsáveis pela sensibilidade profunda e pelo equilíbrio corporal. Trata-se de uma manifestação tardia da neurossífilis, que normalmente surge muitos anos após a infecção inicial pela bactéria Treponema pallidum. Seus portadores costumam sofrer dores intensas, perda progressiva da coordenação motora e outras alterações neurológicas incapacitantes.

Uma estranha coincidência.

Atualmente, a doença pode ser diagnosticada por exames de sangue e do líquido cefalorraquidiano (LCR), sendo tratada com penicilina por via intravenosa. O tratamento elimina a infecção e impede sua progressão, embora os danos neurológicos já estabelecidos geralmente sejam irreversíveis.

Se a informação registrada nos jornais estiver correta, é possível que Moisés tenha falecido em decorrência das complicações provocadas pela neurossífilis. No entanto, diante da existência de outras versões para a causa de sua morte e da ausência, até onde se sabe, de documentação médica conclusiva, essa hipótese deve ser tratada com cautela.

Após sua morte, a casa construída para abrigar os recém-casados permaneceu fechada durante décadas. Sobre a atmosfera melancólica daquele imóvel, Lauro Pinto eternizou uma das frases mais conhecidas de sua obra ao afirmar que o belo sobrado “nasceu morto e, por isso, sempre triste”.

Roseira Brava e Um Legado que Permanece Vivo

A obra mais conhecida de Palmyra Wanderley é Roseira Brava, publicada originalmente em 1929. O livro reúne poemas que revelam sua profunda ligação com a paisagem potiguar, especialmente com Natal e seus elementos naturais. Nele, a autora consolidou uma poesia marcada pelo lirismo, pela sensibilidade e pela valorização da identidade regional.

A publicação recebeu Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras, reconhecimento que confirmou a relevância de sua produção literária no cenário nacional. Em sua edição original, Roseira Brava traz uma emocionante dedicatória: “À memória de Moisés Soares, a palavra mais viva e o maior coração. A rosa mais triste desta roseira brava.” Essas palavras evidenciam que a perda do noivo permaneceu como uma das marcas mais profundas de sua vida e de sua obra.

Além da literatura, Palmyra participou ativamente de iniciativas culturais e sociais, especialmente nas áreas da educação, da assistência social e da valorização da presença feminina na vida intelectual. Em 1936, tornou-se uma das fundadoras da Academia Norte-rio-grandense de Letras, ocupando a cadeira nº 20, cuja patrona é outra grande poetisa potiguar, Auta de Souza.

Mais de um século após a publicação de “Trovas Soltas”, a poesia de Palmyra Wanderley continua revelando um Rio Grande do Norte sensível, culto e profundamente ligado às suas paisagens, tradições e valores culturais. Ela escreveu sobre o Rio Potengi, sobre o amor, sobre a infância e sobre os sonhos humanos. Mas, acima de tudo, escreveu sobre a capacidade de enxergar beleza nas pequenas coisas da vida.

Sua trajetória representa também a história de uma geração de mulheres que conquistou espaço em uma sociedade na qual os ambientes intelectuais e culturais eram ocupados quase exclusivamente por homens. Com talento, perseverança e sensibilidade, Palmyra conquistou o reconhecimento de seus contemporâneos e deixou uma obra que permanece atual.

Palmyra entre duas amigas, próximo a área da Ponta do Morcego, aproveitando a brisa do mar.

Redescobrir Palmyra Wanderley é compreender uma parte essencial da identidade cultural do Rio Grande do Norte. Sua voz permanece viva porque sua poesia não pertence apenas ao tempo em que foi escrita. Ela continua dialogando com diferentes gerações ao celebrar sentimentos universais, como o amor pela terra natal, a esperança, a memória e o desejo profundamente humano de transformar a vida em arte.

Talvez seja justamente essa a maior força de sua obra: mostrar que os lugares, as pessoas e os sentimentos podem sobreviver ao tempo quando encontram na poesia um abrigo permanente.

A NATAL QUE NÃO EXISTE MAIS: O TRÁGICO DESTINO DO PALACETE QUE SERIA DE PALMYRA

A paisagem urbana da cidade do Natal preserva fantasmas de concreto e linhas arquitetônicas que o tempo e a modernização desenfreada trataram de apagar. Um dos capítulos mais melancólicos e poeticamente trágicos da nossa memória arquitetônica e afetiva aponta para a movimentada esquina da Avenida Deodoro da Fonseca com a Rua João Pessoa, na Cidade Alta. Ali, no início da década de 1920, ergueu-se um imponente palacete que, antes mesmo de se tornar lar, transformou-se em um monumento à ausência.

O noivo: Moisés Soares, a voz da tribuna potiguar

O palacete imponente ficou pronto em 1922. Sua construção foi uma ordem direta do Dr. Moisés Soares de Araújo, um jovem advogado natural de Assu que, aos 37 anos, já havia fincado seu nome na história intelectual do Rio Grande do Norte. Invertendo a máxima latina de que os poetas nascem prontos e os oradores se formam, Moisés “nasceu orador e quis ser poeta”. Desistiu dos versos, mas converteu a palavra falada em arte. Era considerado um tribuno de raça: ágil, seguro, empolgado e dono de uma oratória magnética que cativava as plateias natalenses.

Além de sua atuação jurídica e na tribuna, Moisés Soares foi uma figura central na efervescência da imprensa potiguar da época. Foi um dos fundadores do combativo Jornal da Manhã, dividindo as páginas e os ideais políticos com nomes como Carlos Policarpo. Era um homem de seu tempo, brilhante e com um futuro promissor pela frente.

Palmyra Wanderley, uma grande admiradora de Auta de Souza

A noiva: Palmyra Wanderley, a musa das letras

A residência que Moisés erguia com tanto esmero não era um simples projeto imobiliário; era o ninho planejado para abrigar sua futura vida conjugal. Sua noiva era ninguém menos que Palmyra Wanderley, uma das mentes mais brilhantes e celebradas da literatura potiguar. Mulher à frente de seu tempo, poetisa de sensibilidade refinada e presença marcante nos círculos intelectuais da capital, Palmyra representava a própria alma da cultura natalense daquele período.

Segundo relata o cronista Lauro Pinto em sua clássica obra “Natal Que Eu Vi” (1971), o casamento selaria não apenas a união de dois jovens apaixonados, mas o encontro de duas das mentes mais reluzentes daquela geração. O palacete em estilo eclético — um belo exemplar de uma “arquitetura fantasiosa e romântica”, muito em voga nas primeiras décadas do século XX — estava pronto para recebê-los.

O golpe do destino e o prédio que “nasceu morto”

O destino, contudo, costuma ser indiferente aos planos humanos. No dia 6 de agosto de 1922, a pouquíssimos passos de realizar o grande sonho do matrimônio e de ocupar o novo lar, o Dr. Moisés Soares faleceu precocemente. A notícia chocou a sociedade natalense e interrompeu de forma abrupta uma história de amor e de promessas.

Os jornais da época falam de “tarbis dorsal”. Provavelmente se referem à “Tabes Dorsalis”, uma complicação neurológica grave da sífilis não tratada. A Tabes Dorsalis é uma manifestação da neurossífilis que ocorre anos (geralmente 15 a 20 anos) após a infecção inicial por Treponema pallidum. A doença afeta a medula espinhal, especificamente as colunas dorsais (posteriores), responsáveis por transmitir a sensibilidade e a propriocepção e pelo que li doi muito. Hoje o diagnóstico é feito através de exames de sangue e líquido cefalorraquidiano (LCR) para detectar a presença da bactéria.O tratamento envolve o uso de Penicilina G cristalina (que não existia em 1922) por via intravenosa. Embora o tratamento elimine a infecção e impeça a progressão, os danos neurológicos e a degeneração causados costumam ser irreversíveis. Em resumo, acho que podemos dizer que foi complicações por sífilis.

O casamento nunca se realizou. Palmyra Wanderley seguiu seu caminho de letras e saudades, carregando o luto e a postergante fama de noiva daquele palacete vazio. A casa, construída para transbordar vida, ritos sociais e conversas intelectuais, permaneceu como uma concha desabitada daquela felicidade prometida. Devido aos valores morais da época, Palmyra não deve ter sido infectada. Mas não sei detalhes da biografia dela. Sei que essa história é algo muito intenso.

Sobre a atmosfera melancólica e pesada que passou a emanar da propriedade, Lauro Pinto eternizou em Natal Que Eu Vi um dos veredictos mais poéticos e tristes da nossa literatura urbana: aquele belo e imponente prédio “nasceu morto e, por isso, sempre triste”.

Hoje, o palacete de Moisés e Palmyra junta-se à extensa lista de joias arquitetónicas demolidas que sobrevivem apenas em fotografias amareladas e nas crônicas daqueles que insistem em lembrar que Natal já foi outra.