PALMYRA WANDERLEY – A MULHER QUE TRANSFORMOU O RIO POTENGI EM POESIA E SOFREU UMA GRANDE DOR

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Na manhã de segunda-feira, 13 de março de 1916, os leitores do jornal A República, em Natal, encontraram na primeira página uma delicada composição poética dedicada ao Rio Potengi, ao amor, à infância e aos sentimentos humanos. É um conjunto de poemas intitulado “Trovas Soltas”, que, em minha opinião, é uma das demonstrações mais belas de sua capacidade de transformar paisagens e sentimentos em poesia.

Nota: Os versos abaixo foram atualizados para a ortografia vigente, preservando integralmente o conteúdo, a métrica e a estrutura poética da autora.

Trovas Soltas

No Potengi marulhoso
Todo mistério se encerra,
Nele circula ardoroso
O sangue azul desta terra.

Alva areia se desata
Pelas águas como um fio,
Lembrando um punhal de prata
Ferindo a alma do rio.

Duas velas bem ligeiras
O rio cortando vão,
Duas crenças feiticeiras
Dentro de um só coração.

Uma asa voa fremente
Da noite temendo o arcano.
Assim a ilusão da gente
Também foge ao desengano.

O formoso beija-flor
Que oscula as rosas risonho,
É como a ave do amor
Vagando de sonho em sonho.

Cantam ao luar as venturas
Um casal de namorados;
Deus fez as noites escuras
Para os que são desprezados.

Toda ave tem seu ninho,
Toda flor o seu perfume;
Não há rosa sem espinho,
Nem há paixão sem ciúme.

O amor desfaz-se ligeiro
Quando é mentira, falaz;
Quando é leal, verdadeiro,
O amor não se acaba mais.

Aos velhos não faço versos
Porque não têm esperanças;
Meus poemas deixo impressos
No coração das crianças.

Todo o astro que o azul doura
Lembra um novelo de luz;
E a criança loura
Lembra o Menino Jesus.

Estes anjos pequeninos
São tão queridos de Deus,
Que dos seus lábios divinos
Fez o néctar dos beijos seus.

Os versos eram assinados por uma jovem natalense de apenas 21 anos: Palmyra dos Guimarães Wanderley. Poetisa, cronista, jornalista, teatróloga, musicista e educadora, ela tornou-se uma das grandes vozes femininas da literatura potiguar nas primeiras décadas do século XX. Em uma época em que a imprensa e os espaços intelectuais eram dominados majoritariamente por homens, conquistou reconhecimento por meio de uma produção literária marcada pela sensibilidade, pelo amor à terra natal e pela defesa da participação feminina na vida cultural.

Anos depois, o crítico literário Tristão de Athayde a consagraria como “a grande poetisa do Nordeste”, enquanto o historiador e folclorista Luís da Câmara Cascudo destacaria sua inteligência e sua relevância para o cenário literário potiguar.

O Rio Potengi Transformado em Poesia

Logo nos primeiros versos de”Trovas Soltas”, Palmyra Wanderley revela que o Rio Potengi não aparece apenas como cenário: ele ganha personalidade, quase como um ser vivo. Ao afirmar que por suas águas circula “o sangue azul desta terra”, a poetisa estabelece uma ligação profunda entre o rio e a própria identidade do povo natalense. Em minha opinião, ela consegue construir uma relação visceral, quase sagrada, entre as águas do Potengi e o solo de Natal.

A imagem da areia branca cortando as águas como um “punhal de prata” demonstra sua extraordinária capacidade de criar cenas de grande impacto visual. Nessa passagem, percebe-se uma combinação entre beleza e uma discreta melancolia, característica presente em boa parte da poesia produzida naquele período.

O amor também ocupa posição central nas trovas. Surge representado pelo beija-flor, pela rosa, pelo luar e pelos sonhos, símbolos tradicionais da poesia romântica. Entretanto, Palmyra não apresenta apenas a face idealizada do sentimento amoroso. Ela também reconhece suas dores, suas incertezas e suas contradições.

Quando escreve:

“Não há rosa sem espinho,
Nem há paixão sem ciúme”

a autora demonstra compreender que os grandes sentimentos humanos carregam consigo tanto a alegria quanto o sofrimento.

Da mesma forma, ao afirmar:

“O amor desfaz-se ligeiro
Quando é mentira, falaz;
Quando é leal, verdadeiro,
O amor não se acaba mais”

Nos versos finais, a poetisa volta seu olhar para a infância. As crianças surgem como símbolos da pureza, da esperança e da renovação. Ao desejar deixar seus poemas “no coração das crianças”, demonstra acreditar que a sensibilidade, a capacidade de sonhar e a beleza da imaginação permanecem mais vivas naqueles que ainda não perderam a inocência.

Uma Pioneira da Literatura e do Jornalismo Feminino

Palmyra dos Guimarães Wanderley nasceu em Natal, em 6 de agosto de 1894. Existem discordâncias sobre a sua data de nascimento, mas não acerca do ano. O certo é que, desde jovem, demonstrou interesse pela literatura e pela vida cultural.

Jornal A República, 5 de agosto de 1900, informando sobre o seu aniversário de seis anos. Talvez a primeira nota de jornal com seu nome.

Palmyra diferencia o amor efêmero daquele construído sobre a sinceridade, a lealdade e a fidelidade, revelando uma visão madura e realista das relações humanas.

Sua atuação ocorreu em um período de grandes transformações sociais. Natal começava a experimentar mudanças urbanas, enquanto novas ideias circulavam através de jornais, revistas e movimentos culturais.

Em 1914, ao lado de sua prima Carolina Wanderley e de outras jovens intelectuais, fundou a revista Via-Láctea, um marco histórico para a imprensa potiguar. A publicação foi pioneira por ser produzida, escrita e dirigida por mulheres, em uma época em que a participação feminina nos espaços públicos ainda enfrentava fortes limitações. Mais do que uma revista literária, a Via-Láctea representou uma oportunidade para que mulheres intelectuais expressassem suas ideias sobre cultura, educação e o papel feminino na sociedade. Em 1918, publicou Esmeralda, seu primeiro livro e contou com o apoio do governo potiguar, como podemos ver abaixo.

A partir da década de 1920, Palmyra Wanderley ampliou sua atuação nos jornais do Rio Grande do Norte, especialmente no tradicional A República, principal periódico potiguar da época. Em suas páginas, publicou poemas, crônicas e artigos, abordando temas relacionados à literatura, aos costumes, à educação e à modernização da sociedade. Também colaborou com outras publicações importantes, como A Cigarra, Diário de Natal, Revista Feminina e Revista Moderna, ampliando sua presença para além do estado.

Como muitas escritoras daquele período, utilizou pseudônimos em algumas publicações, entre eles Mirthô, Li-Lá, Masako e Ângela Marialva. Era uma prática comum entre mulheres que escreviam em uma sociedade ainda marcada por fortes restrições à atuação feminina. Sua produção conquistou prestígio nacional e aproximou seu nome dos grandes círculos literários brasileiros.

A Morte do Seu Amado

Um dos episódios menos conhecidos da vida de Palmyra Wanderley foi a morte de seu noivo, Moisés Soares de Araújo, natural de Assú. Considerado, em seu tempo, um dos maiores oradores do Rio Grande do Norte, era reconhecido por sua eloquência e pela firmeza com que defendia suas causas, sendo descrito na sociedade natalense como um homem “justo, fiel e luminoso”.

Formado em Direito no Rio de Janeiro, em 1910, Moisés exerceu intensa atividade intelectual e política no estado. Foi professor e diretor do Atheneu Norte-rio-grandense, um dos fundadores da Escola do Comércio, revisor e, posteriormente, diretor do jornal A República. Destacou-se também como desportista, ocupou o cargo de Secretário-Geral do Estado, elegeu-se diversas vezes deputado estadual e participou de praticamente todas as principais associações culturais e civis da capital.

Foto trabalhada pelo autor com Inteligência Artificial, da casa construida por Moíses Soares de Araújo, na esquina da Avenida Deodoro com a Rua João Pessoa e hoje demolido. Esse trabalho foi feito à partir de uma foto existente do livro de Lauro Pinto.

Seu relacionamento com Palmyra evoluiu para o noivado, e a data do casamento chegou a ser marcada. Nesse período, Moisés mandou construir um elegante sobrado na esquina da Avenida Deodoro com a Rua João Pessoa. O imponente palacete foi concluído em 1922 e, segundo relata Lauro Pinto em seu livro Natal que Eu Vi (1971), seria a residência do casal após a cerimônia de casamento.

O destino, entretanto, modificou completamente esses planos. No dia 6 de agosto de 1922, Moisés Soares de Araújo faleceu precocemente, aos apenas 37 anos de idade.

As causas de sua morte permanecem envoltas em incertezas. Alguns pesquisadores afirmam que ele teria falecido em decorrência de cirrose; outros mencionam pneumonia. Entretanto, as notícias publicadas pelos jornais da época registram como causa da morte a expressão “tabis dorsal”, grafia então utilizada para designar o que hoje conhecemos como tabes dorsalis.

A tabes dorsalis é uma grave complicação neurológica da sífilis não tratada, caracterizada pela degeneração das colunas posteriores da medula espinhal, responsáveis pela sensibilidade profunda e pelo equilíbrio corporal. Trata-se de uma manifestação tardia da neurossífilis, que normalmente surge muitos anos após a infecção inicial pela bactéria Treponema pallidum. Seus portadores costumam sofrer dores intensas, perda progressiva da coordenação motora e outras alterações neurológicas incapacitantes.

Uma estranha coincidência.

Atualmente, a doença pode ser diagnosticada por exames de sangue e do líquido cefalorraquidiano (LCR), sendo tratada com penicilina por via intravenosa. O tratamento elimina a infecção e impede sua progressão, embora os danos neurológicos já estabelecidos geralmente sejam irreversíveis.

Se a informação registrada nos jornais estiver correta, é possível que Moisés tenha falecido em decorrência das complicações provocadas pela neurossífilis. No entanto, diante da existência de outras versões para a causa de sua morte e da ausência, até onde se sabe, de documentação médica conclusiva, essa hipótese deve ser tratada com cautela.

Após sua morte, a casa construída para abrigar os recém-casados permaneceu fechada durante décadas. Sobre a atmosfera melancólica daquele imóvel, Lauro Pinto eternizou uma das frases mais conhecidas de sua obra ao afirmar que o belo sobrado “nasceu morto e, por isso, sempre triste”.

Roseira Brava e Um Legado que Permanece Vivo

A obra mais conhecida de Palmyra Wanderley é Roseira Brava, publicada originalmente em 1929. O livro reúne poemas que revelam sua profunda ligação com a paisagem potiguar, especialmente com Natal e seus elementos naturais. Nele, a autora consolidou uma poesia marcada pelo lirismo, pela sensibilidade e pela valorização da identidade regional.

A publicação recebeu Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras, reconhecimento que confirmou a relevância de sua produção literária no cenário nacional. Em sua edição original, Roseira Brava traz uma emocionante dedicatória: “À memória de Moisés Soares, a palavra mais viva e o maior coração. A rosa mais triste desta roseira brava.” Essas palavras evidenciam que a perda do noivo permaneceu como uma das marcas mais profundas de sua vida e de sua obra.

Além da literatura, Palmyra participou ativamente de iniciativas culturais e sociais, especialmente nas áreas da educação, da assistência social e da valorização da presença feminina na vida intelectual. Em 1936, tornou-se uma das fundadoras da Academia Norte-rio-grandense de Letras, ocupando a cadeira nº 20, cuja patrona é outra grande poetisa potiguar, Auta de Souza.

Mais de um século após a publicação de “Trovas Soltas”, a poesia de Palmyra Wanderley continua revelando um Rio Grande do Norte sensível, culto e profundamente ligado às suas paisagens, tradições e valores culturais. Ela escreveu sobre o Rio Potengi, sobre o amor, sobre a infância e sobre os sonhos humanos. Mas, acima de tudo, escreveu sobre a capacidade de enxergar beleza nas pequenas coisas da vida.

Sua trajetória representa também a história de uma geração de mulheres que conquistou espaço em uma sociedade na qual os ambientes intelectuais e culturais eram ocupados quase exclusivamente por homens. Com talento, perseverança e sensibilidade, Palmyra conquistou o reconhecimento de seus contemporâneos e deixou uma obra que permanece atual.

Palmyra entre duas amigas, próximo a área da Ponta do Morcego, aproveitando a brisa do mar.

Redescobrir Palmyra Wanderley é compreender uma parte essencial da identidade cultural do Rio Grande do Norte. Sua voz permanece viva porque sua poesia não pertence apenas ao tempo em que foi escrita. Ela continua dialogando com diferentes gerações ao celebrar sentimentos universais, como o amor pela terra natal, a esperança, a memória e o desejo profundamente humano de transformar a vida em arte.

Talvez seja justamente essa a maior força de sua obra: mostrar que os lugares, as pessoas e os sentimentos podem sobreviver ao tempo quando encontram na poesia um abrigo permanente.

QUEM FOI CONFÚCIO? – AS VIRTUDES DA SABEDORIA

Fonte de inspiração – Canal Corvo Seco (Youtube) – https://www.youtube.com/watch?v=44o6MYyOfrc

“O caminho do Mestre consiste em dar o melhor de si e usar a si próprio como medida para julgar os outros. Isso é tudo”. 

– Zengzi (discípulo de Confúcio).

Pode-se explicar coisas grandes para quem quer ser grande, mas não para pessoas pequenas. 

Veja o rio: tudo flui sem cessar, dia e noite. 

Aos quinze anos, dediquei-me de coração a aprender; aos trinta, tomei uma posição; aos quarenta, livrei-me das dúvidas; aos cinquenta, entendi o Decreto do Céu; aos sessenta, meus ouvidos foram sintonizados; aos setenta, segui o meu coração, sem passar dos limites. 

Essas são as coisas que me causam preocupação: não consegui cultivar a virtude, não conseguir ir mais fundo naquilo que aprendi, incapacidade de, quando me é dito o que é certo, tomar uma atitude e incapacidade de me reformar quando apresenta defeitos. 

Aqueles que nascem com conhecimento são os mais elevados. A seguir vêm aqueles que atingiram conhecimento por meio do estudo. A seguir vem aqueles que se voltam para o estudo depois de terem passado por dificuldades. No nível mais baixo estão as pessoas comuns, por não fazerem esforço algum para estudar mesmo depois de terem passado por dificuldades. 

Não nasci com o conhecimento, mas por gostar do que antigo, apressei-me em buscá-lo. Eu transmito, mas não inovo; sou verdadeiro no que digo e devotado à antiguidade. 

Pode ser que existam pessoas que consigam algo sem saber nada, mas não sou uma delas. Ouvir muito, selecionar o melhor, testemunhar e registrar, esse ainda é o melhor meio de estudar sem nascer sabendo. 

Não sou sábio e nem perfeito; mas como eu deixaria de buscar isso.

Nunca me canso de ensinar essas coisas. Vou lhe contar o que há para saber.

As virtudes da sabedoria (Confúcio)

Ren, humanidade (altruísmo). Li, ou cortesia ritual. Zhi, ou conhecimento ou sabedoria moral. Xin, integridade. Zhing, fidelidade. Yi, justiça, retidão, honradez.

Vencer-se a si mesmo e restaurar as relações sociais, é o que se chama humanidade. Se dia-a-dia nos vencermos a nós mesmos e assegurarmos as relações sociais, o mundo todo se retornará ao humano.

Trazemos uma natureza ferida, para se alcançar a plenitude da condição humana, é nos imposto grandes exigências éticas. Ninguém as possuem, mas todas a podem, e devem alcançar.

Cenário do templo de Confúcio em Nanjing, China.

Aja antes de falar e, portanto, fale de acordo com seus atos. A sinceridade é o princípio e o fim de todas as coisas, sem sinceridade nada seria possível. Estabeleça como princípio norteador dar o melhor de si mesmo pelos outros e ser coerente com aquilo que diz, e vá onde a retidão, então você estará exaltando a virtude.

Quando cometer um erro não tenha medo de corrigi-lo. Não corrigir as próprias falhas é cometer a pior delas. 

Os homens de antigamente estudavam para aprimorar a si próprios. Os homens de hoje estudam para impressionar os outros.

A três métodos para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; terceiro, por experiência, que é o mais amargo. 

É preciso que o discípulo da sabedoria tenha o coração grande e corajoso. O fardo é pesado e a viagem é longa.

Não importa o quanto você vá devagar, desde que não pare. Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.

Onde quer que você vá, siga com todo o coração. A maior Glória não é ficar de pé, mas levantar-se cada vez que se cai. Quem pretende ter felicidade e sabedoria ao mesmo tempo, deve se acostumar com as mudanças frequentes.

Você não pode mudar o vento, mas pode ajustar as velas do barco para chegar onde quer. A pedra preciosa não pode ser polida sem fricção e nenhum homem aperfeiçoado sem provação.

É durante as trevas que podemos enxergar se a nossa luz é verdadeira, nas adversidades é que nossa virtude é provada e conhecemos a verdade de quem nos tornamos. Lembre-se de como você agiu nos tempos difíceis, para descobrir em que grau sua raiz é virtuosa.

Uma estátua de Confúcio de 72 metros de altura fica no topo da Terra Sagrada de NiShan Foto: Shan Jie – Global Times.

O homem virtuoso não deixa de praticar o bem em nenhuma circunstância. Ele é virtuoso quando tudo o favorece e o é também quando tudo é obstáculo.

Há homens que perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver no presente e nem no futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido. O homem pequeno pensa que pequenos atos de bondade não trazem nenhum benefício e não os pratica. Pensa também que as pequenas ações do mal não fazem mal e não se abstém delas. Consequentemente, sua maldade se torna tão grande, que não pode ser escondida, e sua culpa tão grande, que não pode ser perdoada.

A virtude da humanidade consiste em amar os homens; a prudência em conhecê-los. Veja os meios que um homem emprega, observe o caminho que ele toma e examine as circunstâncias em que ele se sente confortável. Como poderia o verdadeiro caráter de um homem esconder-se?

Quando conhecer alguém melhor do que você, dirija seus pensamentos para torna-se igual a essa pessoa. Quando conhecer alguém tão bom quanto você, olhe para dentro e examine a si próprio.

Estátua de Confúcio na Alemanha.

Dizer que você sabe quando você sabe, e dizer que não sabe quando não sabe: isso é conhecimento. Conhecimento real é saber a extensão da própria ignorância.

A humildade é a única base sólida de todas as virtudes. 

Não se preocupe por não ter um cargo oficial, preocupe-se com as suas qualificações. Não receie em ser desconhecido, receie ser incompetente. Não se preocupe porque ninguém aprecia suas qualidades, procure ser merecedor de apreço. Não se preocupe se os outros não o compreendem; preocupe-se com fato de você não compreender os outros. Não é quando os outros falham em apreciar as suas habilidades que você deveria ficar incomodado, mas, antes, quando você falha em apreciar as habilidades dos outros.

A melhor maneira de ser feliz e contribuir para a felicidade dos outros. Ame a todos, sem distinção.

Firmeza, devoção, simplicidade e silêncio – isso nos aproxima do humanismo.

Não imponha aos outros aquilo que você não deseja para si próprio. Exija muito de si e pouco dos outros, e isso lhe trará sossego. 

Estátua de Confúcio, o grande filósofo chinês, no templo de Confúcio, em Pequim, China.

Quando natureza de alguém prevalece sobre a educação recebida, o resultado será uma pessoa intratável. Quando a educação prevalece sobre a natureza, o resultado será uma pessoa pedante. Apenas uma mistura bem equilibrada das duas resultará em cavalheirismo. 

Nas suas relações com o mundo o cavaleiro não é rigidamente contra ou a favor de nada. Ele fica do lado daquilo que é justo. Enquanto o cavaleiro acalenta o bom governo, o homem vulgar acalenta sua terra natal. Enquanto o cavaleiro acalenta respeito pela lei, o homem vulgar acalenta um tratamento generoso.

O cavaleiro entende o que é moral e o vulgar entende o que é lucrativo. O cavaleiro tem a mente tranquila, enquanto o homem vulgar está sempre tomado de ansiedade. O cavaleiro ajuda os outros a perceberem o que é de bom neles; não os ajuda a perceber o que há de ruim. O homem vulgar faz o contrário.

O cavaleiro fica à vontade sem ser arrogante; o homem vulgar é arrogante sem ficar à vontade. O cavaleiro come sem exagero, mora em um lugar simples, dedica-se ao trabalho, fala com cuidado e busca boas companhias. Uma pessoa assim gosta mesmo de aprender. 

Um cavalheiro coloca todo seu coração no Caminho. Se ele se envergonha das roupas, ou da comida, ele não é sério. Um cavaleiro que é apegado ao conforto, não merece ser chamado de cavaleiro. O cavaleiro não fica triste nem assustado. Ele tem a consciência livre; por que deveria ter tristeza ou medo?

Seja fiel, leal, estudioso ande no Caminho. Não vá aonde há desordem; não more onde há tumulto. Apareça quando o Caminho vier para ficar; oculte-se quando o caminho for perdido.

O progresso do cavaleiro é para cima; o progresso do homem vulgar é para baixo. O cavaleiro vê o todo; o homem vulgar vê as partes. Aquilo que um cavaleiro procura, ele procura dentro de si próprio; aquilo que um homem vulgar procura, ele procura nos outros.

O cavaleiro teme três coisas. Teme o Decreto do Céu. Teme grandes homens. Teme as palavras dos sábios. O homem vulgar, sendo ignorante do Decreto do Céu, não teme. Trata grandes homens com insolência e as palavras dos sábios com ironia.

Há nove coisas as quais o cavaleiro deve dedicar o seu pensamento: enxergar claramente ao usar os olhos, escutar acuradamente ao usar os ouvidos, ter uma atitude cordial, ter um comportamento respeitoso, ser consciencioso ao falar, ser reverente ao cumprir seus deveres, buscar em conselho quando estiver em dúvida, prever as consequências ao ficar com raiva e à vista de uma vantagem a ser obtida, saber o que é correto. 

Não se pode senão concordar com palavras exemplares, mas o importante é retificar assim mesmo. Nada posso fazer com um homem que concorda com esses preceitos, mas que não retífica a si próprio, ou com o homem que fica lisonjeado, mas que não reforma si próprio. Não se pode senão ficar satisfeito com palavras elogiosos, mas o importante é reformar a si próprio.

Aprende a viver bem, e bem saberás morrer. Quem de manhã compreendeu bem os ensinamentos da sabedoria, à noite pode morrer contente.

O céu é o autor da virtude que há em mim. Se não se respeita o sagrado, não se tem nada em que fixar a conduta. 

Se eu pudesse em uma frase resumir todos os meus ensinamentos eu diria: Nunca deixe o mal dominar seus pensamentos. Quem se modera raramente se perde. 

O homem que é firme, paciente, simples, natural e tranquilo está perto da virtude.

Na Paz e tranquilidade do seu ser encontra as respostas para todas as suas dúvidas e inquietações. 

O silêncio é um amigo que nunca trai.

Uma outra estátua de Confúcio na Alemanha.

QUEM FOI CONFÚCIO?

Confúcio nasceu em 551 a.C. como membro de uma antiga família nobre no estado de Lu, na Península de Shandong, leste da China.  Seu local de nascimento é atualmente a cidade de Jining.
Muitas das informações biográficas de Confúcio são incertas. Afirma-se que ele perdeu o pai quando tinha apenas três anos, com sua educação exclusivamente nas mãos da sua mãe e ele cresceu em circunstâncias modestas. 

De 539 a 533 ele foi ensinado por seu avô. A partir dos 15 anos aprendeu as seis artes do arco e flecha, condução de carruagens, escrita, aritmética, dança e música. Aos 19 anos casou-se e um ano depois gerou seu filho Li, que significa carpa. 

O próprio nome Confúcio é latinizado e significa “mestre da família Kung”. No início, Confúcio trabalhou como supervisor de um celeiro público e em outros empregos para sustentar sua família. Em 530 a.C. fundou sua própria escola, onde ensinou poética, música e ritos tradicionais. Além disso, ele ensinou histórias antigas de reis do Livro de Documentos Shu-jing. Mais tarde, ele anexou a este trabalho suas próprias histórias intituladas “Primavera e Outono”.

O forte senso de tradição de Confúcio foi revelado já em seus primeiros trabalhos, o que também se reflete em seus próprios ensinamentos. Em 518 a.C. Confúcio viajou para o principado Chou, onde, entre outras coisas, aperfeiçoou seus estudos de música e costumes antigos. Durante este tempo ele conheceu Lao Tse, outro dos filósofos mais importantes da China antiga. 

Em 516 a.C. Confúcio foi exilado, mas continuou a estudar história e tradição. Em 509 a.C., após a morte do príncipe, ele teria retornado ao estado de Lu, onde tornou-se administrador. 

A partir do ano 501 a.C., ele inicialmente ocupou o cargo de governador em uma cidade chinesa e a partir do ano 498 a.C. exerceu um ofício ministerial. Suas atividades administrativas lhe deram a oportunidade de implementar politicamente suas ideias de tradição e ordem. Mas tendo sido desacreditado por intrigas, desistiu de todos os cargos e deixou o país. No período de 497 a 483 levou uma vida conturbada. Confúcio estava constantemente em movimento. Confúcio era cosmopolita e, no entanto, mantinha os valores tradicionais.

Depois disso ele voltou a China, mas a sua concepção da virtude do Estado e do comportamento moral era radical demais para os governantes, de modo que Confúcio não era mais empregado em nenhuma função pública. 

Confúcio então dedicou-se a escrever e editar velhas tradições até sua morte. Ele fez a ordem, que ele acreditava ser alcançável através do respeito por outras pessoas e culto aos ancestrais, o tema central de seus ensinamentos. O status social era irrelevante. O ideal “nobre” de Confúcio era um ser humano moralmente impecável e mais elevado. Ele difundiu a ideia que “o homem pode ser nobre quando está em harmonia com o mundo e como um todo. Encontrar o pivô que une nossa natureza moral, com a ordem abrangente, é a harmonia central”.

Seus ensinamentos foram transmitidos apenas por seus discípulos no “Livro das Conversações” (Lunyu). Ele mesmo publicou os cinco clássicos “Shu Jing”, “Shi Jing”, “Yi Jing”, “Li Jing” e a obra “Chunqui”, que contém a história do estado de Lu no período de 722 a 481 a.C. Em seus ensinamentos, Confúcio representava o princípio da medida e da média. Ele orientou-se para a prática e comportamento moral.

Confúcio morreu em 479 a.C. com a idade de setenta e nove anos.

O confucionismo mais tarde se desenvolveu a partir de seus ensinamentos, que, no entanto, só foi desenvolvido e sistematizado em um corpo de ensino no século II a.C. O confucionismo então tornou-se a doutrina estatal chinesa. 

O ensino contém valores religiosos, filosóficos e sócio-políticos, com ética social e política focada em normas comportamentais e um culto estrito dos ancestrais era praticado. O confucionismo também propagou os princípios da força masculina e feminina do yin e yang e em ação no universo. 

Somente com a Revolução Chinesa em 1912 o confucionismo foi superado como doutrina de Estado e desvalorizado durante a Revolução Cultural. Foi somente depois de 1976 que Confúcio foi reconhecido novamente como um espírito de preservação do Estado Chinês.