A NATAL QUE NÃO EXISTE MAIS: O TRÁGICO DESTINO DO PALACETE QUE SERIA DE PALMYRA

A paisagem urbana da cidade do Natal preserva fantasmas de concreto e linhas arquitetônicas que o tempo e a modernização desenfreada trataram de apagar. Um dos capítulos mais melancólicos e poeticamente trágicos da nossa memória arquitetônica e afetiva aponta para a movimentada esquina da Avenida Deodoro da Fonseca com a Rua João Pessoa, na Cidade Alta. Ali, no início da década de 1920, ergueu-se um imponente palacete que, antes mesmo de se tornar lar, transformou-se em um monumento à ausência.

O noivo: Moisés Soares, a voz da tribuna potiguar

O palacete imponente ficou pronto em 1922. Sua construção foi uma ordem direta do Dr. Moisés Soares de Araújo, um jovem advogado natural de Assu que, aos 37 anos, já havia fincado seu nome na história intelectual do Rio Grande do Norte. Invertendo a máxima latina de que os poetas nascem prontos e os oradores se formam, Moisés “nasceu orador e quis ser poeta”. Desistiu dos versos, mas converteu a palavra falada em arte. Era considerado um tribuno de raça: ágil, seguro, empolgado e dono de uma oratória magnética que cativava as plateias natalenses.

Além de sua atuação jurídica e na tribuna, Moisés Soares foi uma figura central na efervescência da imprensa potiguar da época. Foi um dos fundadores do combativo Jornal da Manhã, dividindo as páginas e os ideais políticos com nomes como Carlos Policarpo. Era um homem de seu tempo, brilhante e com um futuro promissor pela frente.

Palmyra Wanderley, uma grande admiradora de Auta de Souza

A noiva: Palmyra Wanderley, a musa das letras

A residência que Moisés erguia com tanto esmero não era um simples projeto imobiliário; era o ninho planejado para abrigar sua futura vida conjugal. Sua noiva era ninguém menos que Palmyra Wanderley, uma das mentes mais brilhantes e celebradas da literatura potiguar. Mulher à frente de seu tempo, poetisa de sensibilidade refinada e presença marcante nos círculos intelectuais da capital, Palmyra representava a própria alma da cultura natalense daquele período.

Segundo relata o cronista Lauro Pinto em sua clássica obra “Natal Que Eu Vi” (1971), o casamento selaria não apenas a união de dois jovens apaixonados, mas o encontro de duas das mentes mais reluzentes daquela geração. O palacete em estilo eclético — um belo exemplar de uma “arquitetura fantasiosa e romântica”, muito em voga nas primeiras décadas do século XX — estava pronto para recebê-los.

O golpe do destino e o prédio que “nasceu morto”

O destino, contudo, costuma ser indiferente aos planos humanos. No dia 6 de agosto de 1922, a pouquíssimos passos de realizar o grande sonho do matrimônio e de ocupar o novo lar, o Dr. Moisés Soares faleceu precocemente. A notícia chocou a sociedade natalense e interrompeu de forma abrupta uma história de amor e de promessas.

Os jornais da época falam de “tarbis dorsal”. Provavelmente se referem à “Tabes Dorsalis”, uma complicação neurológica grave da sífilis não tratada. A Tabes Dorsalis é uma manifestação da neurossífilis que ocorre anos (geralmente 15 a 20 anos) após a infecção inicial por Treponema pallidum. A doença afeta a medula espinhal, especificamente as colunas dorsais (posteriores), responsáveis por transmitir a sensibilidade e a propriocepção e pelo que li doi muito. Hoje o diagnóstico é feito através de exames de sangue e líquido cefalorraquidiano (LCR) para detectar a presença da bactéria.O tratamento envolve o uso de Penicilina G cristalina (que não existia em 1922) por via intravenosa. Embora o tratamento elimine a infecção e impeça a progressão, os danos neurológicos e a degeneração causados costumam ser irreversíveis. Em resumo, acho que podemos dizer que foi complicações por sífilis.

O casamento nunca se realizou. Palmyra Wanderley seguiu seu caminho de letras e saudades, carregando o luto e a postergante fama de noiva daquele palacete vazio. A casa, construída para transbordar vida, ritos sociais e conversas intelectuais, permaneceu como uma concha desabitada daquela felicidade prometida. Devido aos valores morais da época, Palmyra não deve ter sido infectada. Mas não sei detalhes da biografia dela. Sei que essa história é algo muito intenso.

Sobre a atmosfera melancólica e pesada que passou a emanar da propriedade, Lauro Pinto eternizou em Natal Que Eu Vi um dos veredictos mais poéticos e tristes da nossa literatura urbana: aquele belo e imponente prédio “nasceu morto e, por isso, sempre triste”.

Hoje, o palacete de Moisés e Palmyra junta-se à extensa lista de joias arquitetónicas demolidas que sobrevivem apenas em fotografias amareladas e nas crônicas daqueles que insistem em lembrar que Natal já foi outra.

O RÁDIO FAROL DA PRAIA DA LIMPA

Antenas e estruturas do Rádio Farol da Limpa, atualmente na área do 17° GAC – Arquivo Nacional.

Antes da Segunda Guerra a Marinha do Brasil Construiu em Natal uma Moderna Estação de Rádio Comunicação e Navegação. Um Investimento Que Apontava a Importância Estratégica da Capital Potiguar. E o Que Restou Desse Local??

Rostand Medeiros – IHGRN

Nos primeiros tempos da aviação, um grande problema para os pilotos que buscavam cruzar os oceanos era a questão do direcionamento sobre imensas massas d’água. Qualquer erro de localização e navegação aérea resultaria na queda da aeronave sem combustível no meio do mar.

Para sanar esse problema, a incipiente indústria aeronáutica criou sistemas que utilizavam a recepção de ondas de rádio, com a finalidade de determinar a direção através da localização de uma estação de transmissão instalada em uma posição geográfica fixa e conhecida. As aeronaves passaram a utilizar antenas de rádio direcional que determinavam a localização dessas estações e essas, por sua vez, transmitiam sinais em Código Morse com o prefixo designador do local. Esse sistema era chamado radiogoniometria.

Entre o final da década de 1920 e 1930, sabemos que a Marinha do Brasil possuía uma estação de radiotelegrafia na região de Refóles. Essa estação atuou, por exemplo, no contato com o navio cargueiro inglês Phidias em 1927, para que a sua tripulação informasse se haviam visualizado o hidroavião português Argos, que se dirigia para Natal. Já no carioca Jornal da Manhã, edição de 02 de novembro de 1928, na página 11, encontramos a inauguração na região do bairro de Petrópolis de uma estação de rádio de ondas curtas, de propriedade do Telegrapho Nacional. Havia outra estação ligada à empresa exportadora de algodão S.A. Wharton Pedroza, mas desconhecemos a natureza de suas operações.

Essas estações radiotelegráficas tiveram papel importante na radiocomunicação potiguar, mas, como Natal se tornou um importante centro de movimentação aérea, era natural a criação de uma estação radiogoniométrica de localização e direcionamento aeronáutico. O local escolhido foi próximo ao estuário do Rio Potengi, e da Fortaleza do Reis Magos, em uma área de dunas elevadas, não muito distante das margens do rio, em um setor conhecido como Praia da Limpa. Ali próximo ficavam as bases de hidroaviões do Sindicato Condor e PANAIR[1].

O Rádio Farol da Limpa visto do Rio Potengi.

O projeto foi levado adiante pela Diretoria-Geral de Navegação da Marinha do Brasil, cujos técnicos chegaram a Natal em 06 de julho de 1936. Com recursos oriundos do Ministério da Fazenda, a estação foi erguida sob as ordens do Capitão de fragata Guilherme Bastos Pereira das Neves, que trouxe do Rio de Janeiro vários profissionais especializados para construir aquilo que ficou conhecido em Natal como Rádio Farol da Limpa.

Esses homens trabalharam principalmente para erguer duas torres de 62 metros de altura cada uma, afastadas uma da outra por 100 metros, sendo pintadas de vermelho e branco e possuindo no topo iluminação para evitar colisão com aeronaves. Já a aparelhagem instalada para emitir os sinais era toda alemã, da empresa Telefunken Gesellschaft für drahtlose Telegraphie mbH, que transmita sinais de rádio em código Morse, na frequência de 1.050 metros.

O prefixo que partia de Natal era P.X.N., sendo transmitido a cada cinco minutos, que podia se “escutado desde a África”. Além do aparelho de radiogoniômetro, havia, no Rádio Farol da Limpa, um aparelho de rádio com grande alcance, que podia fazer “transmissão e recepção por telegrafia e telephonia”. Existia igualmente no local uma estação de rádio de ondas curtas “com capacidade de 100 volts” e um gerador elétrico à gasolina.

Mesmo existindo rede elétrica no local, a colocação desse gerador servia para que a estação não deixasse de transmitir em nenhum momento. No local foram erguidas quatro construções: duas casas para os radiotelegrafistas, uma casa para os equipamentos de rádio e a última que servia para abrigar o gerador e como depósito.

No dia 27 de janeiro de 1937, uma quarta-feira, aconteceu a inauguração como Rádio Farol da Limpa.

Segundo reportagem publicada no jornal A República, um dia após a solenidade, na sua página 10, aquela estrutura era a terceira do gênero construída no país, sendo a primeira edificada na praia do farol de São Tomé, em Campo dos Goytacazes, Rio de Janeiro, e a segunda na Barra do Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Na inauguração esteve presente o então Governador Rafael Fernandes e vários políticos potiguares. Fernandes foi convidado pelo Capitão Pereira Neves a ligar os aparelhos e realizar a primeira transmissão.

O Governador Rafael Fernandes e o Capitão de fragata Guilherme Bastos Pereira das Neves, na inauguração do Rádio Farol da Limpa.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Rádio Farol da Limpa aparentemente continuou a funcionar, pois, no dia 04 de julho de 1944, recebeu a visita de Dom Marcolino Dantas, então Bispo de Natal, e do Vigário Capitular de Mossoró Júlio Bezerra. No local, as autoridades eclesiásticas foram recebidas por Antônio José Caldas, Primeiro sargento da Marinha, potiguar da cidade de Portalegre.[2]

Em 2019, por solicitação do Ministério Público Federal do Rio Grande do Norte, estive visitando esse local, que atualmente, se encontra na área interna do 17º Grupamento de Artilharia de Campanha.

Casas do antigo Rádio Farol da Limpa, na área do atual 17° GAC.

Nesse aquartelamento do Exército Brasileiro contamos com todo apoio do seu comandante, o Tenente-coronel Haryan Gonçalves Dias, bem como do Capitão Renato Esteves Costa, que nos acompanhou na visita ao local.

Mesmo não mais existindo as antigas torres de comunicação, ali encontramos todas as casas construídas em 1936 ainda muito bem preservadas, com poucas alterações nas estruturas e sendo utilizadas como moradia por militares e seus familiares.

NOTAS

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[1] Atualmente, esse local é ocupado pelas dependências do 17º Grupamento de Artilharia de Campanha, do Iate Clube de Natal, do Comando do Terceiro Distrito Naval e pelo prédio histórico da Rampa. Já a toponímia Praia da Limpa, hoje, é conhecida apenas pelos moradores mais idosos dos bairros das Rocas e Santos Reis e pelos historiadores.

[2] Ver A Ordem, Natal, 04 de julho de 1944, pág. 6.