DO TEMPO EM QUE O NATALENSE ERA BESTA! MAS SERÁ QUE ISSO ACABOU?

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Até mesmo Aristóteles acreditava que o ambiente onde uma pessoa cresce molda seu caráter. Outros sábios sustentavam que cada região de origem influencia a personalidade de maneira peculiar: as áreas rurais e urbanas moldam o caráter de formas distintas, e aqueles que crescem à beira-mar são diferentes dos que têm raízes nas montanhas..

Acredita-se que as pessoas que vivem em áreas rurais, apesar de, em certos aspectos, se mostrarem amigáveis, tendem a ser mais conservadoras politicamente e, de modo geral, menos abertas a novas experiências do que outras. Em contrapartida, os que habitam regiões litorâneas são considerados mais receptivos a novidades, acolhedores com os que vêm de fora e têm uma atitude mais leve, frequentemente mostrando entusiasmo ao apresentar sua terra natal. Normalmente, aqueles que nasceram à beira-mar e se mudam para outras localidades mantêm uma ligação tão forte com seu lugar de origem que frequentemente são atraídos de volta.

Os estudiosos afirmam que essa conexão se deve à sensação de liberdade e infinitude que o mar aberto proporciona, além de sua beleza visual. O poder imensurável do mar, que apela aos sentidos e emoções, e a profunda relação com a água desde o nascimento podem ser razões significativas pelas quais os moradores do litoral preservam essas características.

A Bucólica Natal do final da década de 1970 e início da ´decada seguinte pouco tinha de diferente da cidade em 1973. Na foto a Avenida Deodoro, próximo ao antigo Cinema Rio Grande e da lacnchonete Casa da Maçã.

Sinceramente, não sei se tudo isso explica uma das coisas que mais admiro no povo da minha querida terra: a forma tão positiva, franca e acolhedora com que recebemos aqueles que nos visitam. Essa hospitalidade não é algo recente em Natal, nem é fruto do crescimento do nosso turismo.

Entretanto, essa maneira de ser dos natalenses pode se tornar um fator de risco quando aqueles que aqui chegam trazem consigo uma extrema ignorância sobre como nos tratar, desembarcando carregados de preconceitos, racismo, pedantismo, sentimento de superioridade e outras atitudes deploráveis. Infelizmente, muitos que nos visitam se aproveitam da nossa hospitalidade, buscando sempre levar vantagem, praticando fraudes e nos traindo.

Restaurante no alto da Ladeira do Sol na década de 1970.

Há 53 anos, ocorreu um caso que marcou a cidade e se tornou notícia nacional!

O Filho do Ministro

Ele era moreno, andava bem vestido, não era tão alto, tinha cabelos pretos e bigodes bem aparados, entre 28 e 30 anos, e possuía uma ótima conversa. Apresentou-se como nascido no Rio de Janeiro e mostrou documentos com o nome Roberto Toniato Passarinho Filho. Assim, as portas da bucólica cidade de Natal se abriram para ele.

Jarbas Passarinho como Ministro da Educação, em 1973 – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Jarbas_Passarinho – Esta imagem é parte do Fundo Agência Nacional Série FOT Subsérie PPU

O sobrenome Passarinho e o contexto da época explicam tudo! Estamos em 1973, um período difícil sob o regime militar instaurado em 31 de março de 1964. Uma das figuras políticas de destaque naquele tempo era o coronel de Artilharia Jarbas Gonçalves Passarinho, que já havia exercido cargos como governador do Pará (1964-1966) e ministro do Trabalho (1967-1969). Em 1973, ele ocupava o cargo de ministro da Educação no governo do general Emílio Garrastazu Médici.

Naquele período de medo e submissão no Brasil, encontrar alguém com o sobrenome “Passarinho Filho” na carteira de identidade certamente surpreenderia qualquer um. Provavelmente, foi assim que aconteceu na manhã de sexta-feira, 7 de dezembro de 1973, quando o recepcionista Toinho viu aquele sobrenome importante na ficha de entrada do novo hóspede do Hotel Reis Magos, o melhor da cidade na época.

Segundo Toinho, que comentou no jornal Tribuna do Norte (edição de 13/12/1973), o “filho do ministro” disse que “estava de férias em Natal” e que, mesmo sendo filho de ministro, não queria chamar a atenção. Para corroborar sua identidade, uma moça ligou para a recepção do hotel perguntando pelo “filho de Jarbas Passarinho”. Toinho, sem hesitar, acomodou aquele importante visitante no apartamento 308, um dos melhores do hotel, com uma bela vista da Praia do Meio, em plena Avenida Café Filho.

O belo e majestoso Hotel Reis Magos, infelizmente demolido em janeiro de 2020 – Fonte – Facebook

Golpe do Volks

Após se acomodar, Roberto Passarinho Filho começou a solicitar que a recepção realizasse uma série de ligações para comerciantes da cidade e pediu whiskies das melhores marcas internacionais. Como não havia no bar do hotel as garrafas que ele desejava, o homem se contentou com uma garrafa verde e quadrada do tradicional whisky Passport. Provavelmente, ele também degustou um delicioso prato de frutos do mar como tira-gosto, talvez uma suculenta lagosta, crustáceo abundante em nosso litoral.

Na sequência, aquele elemento preencheu um cheque do antigo Banorte (Banco Nacional do Norte) de Recife, no valor de 2.000 cruzeiros, a moeda corrente da época. Ele pediu a Toinho para trocar o cheque por dinheiro vivo e, como ninguém ousaria negar algo ao filho de um dos ministros mais importantes do complicado governo militar, o novo visitante passou o final de semana à vontade. Descobri nos jornais que, naquele ano de 1973, essa quantia era a média de lucratividade anual de um produtor de leite no Seridó com um plantel de seis vacas.

Volkswagen 1.300, ano 1973. O carro da foto é um modelo muito bem conservado e estava à venda recentemente por quase R$40.000 – Fonte – https://www.aircooledsales.com.br/produto/fusca-1300-1973-placa-preta/787337

Na segunda-feira, dia 10, com o dinheiro no bolso, aquele bon-vivant carioca fez o que ficou conhecido como o “Golpe do Volks”. Segundo os jornais, o estranho conheceu, na boate “Bambelô”, que funcionava no Hotel Reis Magos, uma mulher que trabalhava na filial da Xerox em Natal, localizada na Rua Potengi, no bairro de Petrópolis. O suposto carioca pediu à mulher que o ajudasse a alugar um carro na Auto Locadora Speed, então pertencente ao empresário Jaeci Emerenciano, situada na Rua João Pessoa, Cidade Alta, e recém-inaugurada. Ele alegou que, como “não tinha carteira de habilitação”, a mulher preencheria a papelada em seu nome e ele arcaria com as despesas.

Os jornais não comentaram se essa mulher foi a mesma que ligou para o Hotel Reis Magos atrás do “filho do ministro”, se havia alguma ligação anterior entre os dois ou se ela apenas queria ajudar um visitante. O certo é que esse meliante saiu da empresa de Jaeci dirigindo um popular Volkswagen 1.300, conhecido em Natal apenas como Volks, com a placa AA-8513-RN, e pagou 300 cruzeiros pelo aluguel.

Farra nos Cabarés de Natal

Com o carro em mãos, ele se entregou à diversão na limitada noite natalense daquela segunda-feira de dezembro de 1973, frequentando os únicos locais abertos até altas horas, os cabarés da Cidade do Sol. Não se sabe, por exemplo, se ele foi ao cabaré da Alaíde, em Lagoa Seca, ou ao Acapulco, na Rua General Glicério, na Ribeira, ou ainda a Cleide Drinks, na Praia do Forte, ou se atravessou a ponte de concreto sobre o rio Potengi para visitar o lupanar de Abílio, no final de Igapó. O que os jornais informaram foi que ele se divertiu intensamente no cabaré de Maria Boa, o melhor de Natal, frequentado pela elite e localizado na Rua Padre Pinto, Cidade Alta.

Provavelmente esse vigarista esteve na praia de Ponta Negra, então bem tranquila.

A farra foi tão intensa que Roberto Passarinho Filho só encerrou a “função” quando amanheceu a terça-feira. Ele chegou a presentear o Volks alugado em Jaeci à mais bela das prostitutas de Maria Boa, conhecida apenas como Renata.

Ao sair de Maria Boa, ainda usando a identidade do filho do Ministro Jarbas Passarinho, o vagabundo fluminense alugou com o Senhor Roque Araújo Azevedo, proprietário da Auto Locadora Dudu, um imponente Ford Maverick 4 portas, motor V8, praticamente zero quilômetro. Seu Dudu, como era conhecido por todos em Natal, havia adquirido o carro no dia anterior por 35.000 cruzeiros na firma Santos & Cia., representante da Ford na cidade, e já no modelo 1974.

Montado então no possante, o meliante fugiu de Natal.

Ford Maverick 4 portas, motor V8 – Fonte – https://rrautosantigos.com.br/produto/ford-maverick-super-luxo-1974/

Confesso que essa última informação me deixou triste, pois conheci na juventude Seu Dudu, lá no velho bairro da Ribeira, no comércio de peças e acessórios de Seu Calabar Medeiros, meu pai. Guardo de Seu Dudu a recordação de um homem cordial e animado, que adorava caminhar pela cidade e conversar sobre a época da Segunda Guerra, quando trabalhou para os americanos na Base de Parnamirim.

Rastro de Prejuízos

Roberto Toniato Passarinho Filho deixou no Hotel Reis Magos um prejuízo de 3.300 cruzeiros, sendo 2.000 do cheque (sem fundos) trocado e o restante de itens consumidos e a hospedagem. Alguns afirmam que o prejuízo ultrapassou os dez mil cruzeiros e que alguns funcionários foram ameaçados de demissão.

A prostituta Renata, ao descobrir o verdadeiro desmantelo causado pelo galanteador que lhe dera o Volks, prontamente foi com Dona Maria de Oliveira Barros à Polinter e entregou o veículo ao coronel Bento Pacífico de Medeiros. Ela ainda comentou ao repórter da Tribuna do Norte que o vagabundo havia deixado no cabaré um cheque sem fundo de 1.000 cruzeiros pela farra realizada.

A equipe da Polinter descobriu que ele havia tido contato com uma jovem muito bonita, oriunda do interior do estado e que morava na Casa do Estudante. Para conquistá-la, o vigarista carioca ofereceu um cheque sem fundos de 18 mil cruzeiros e prometeu um Volks. Provavelmente, conseguiu o que tanto desejava!

Seu Dudu da locadora passou aos policiais a informação de que seu Maverick foi visto saindo da cidade, na área da Ponte Velha sobre o Rio Pitimbu, e que, na BR-101, o motorista desviou para a estrada que liga ao município de Monte Alegre, ao avistar a Polícia Rodoviária Federal rebocando um caminhão acidentado. Por sorte, o veículo foi encontrado dias depois em Recife e devolvido ao seu dono!

Para piorar a situação, naquela mesma semana, quem desembarcou no saudoso Aeroporto Augusto Severo foi o próprio ministro Jarbas Passarinho, que vinha a Natal para a colação de grau dos estudantes da UFRN. Para que a situação não ficasse ainda mais complicada, a Polícia Federal entrou em ação. O delegado Franklin Ferreira de Carvalho notificou todas as sedes da instituição para que prendessem o mentiroso e o recambiou para Natal.

A simplicidade de um barzinho na beira mar de Ponta Negra naqueles tempos.

Infelizmente, o caso se tornou notícia em todo o Brasil. Segundo os jornais cariocas Opinião (edição de 21/12/1973) e o tradicional Jornal do Brasil (edição de 15/12/1973), durante os três dias em que permaneceu no hotel, o “filho do ministro” só foi incomodado pela redobrada amabilidade e zelo dos funcionários, do gerente Cardoso aos garçons que lhe serviam na piscina, onde passava o tempo bebendo whisky e encantando as moças locais com sua boa conversa. Quando soube que o filho do ministro Passarinho estava em Natal, o professor Dalton Mello de Andrade, então Secretário Estadual de Educação e Cultura, tentou falar com o rapaz, mas a resposta foi taxativamente negativa. Certamente, o secretário soube da chegada do Ministro Passarinho a Natal e foi ao hotel de maneira correta procurar saber se estava tudo bem. Apenas um gesto de cortesia ao filho daquela autoridade.

No dia 15/12/1973, o Jornal do Brasil informou que, após a farra em Natal, o golpista deixou em Recife um prejuízo de dez mil cruzeiros no Hotel Miramar, um luxuoso cinco estrelas na Rua dos Navegantes, no bairro de Boa Viagem, inaugurado no ano anterior. Nesse mesmo dia, o periódico carioca Luta Democrática afirmou que, certamente, o larápio soube da chegada do Ministro da Educação e aproveitou a ocasião para aplicar seus golpes.

O “filho do ministro” nunca foi capturado e, além de Seu Dudu da locadora, nenhum outro comerciante ludibriado por esse meliante conseguiu recuperar o prejuízo.

E agora, vem a pergunta que não posso deixar de fazer: será que aprendemos a ter cuidado com aqueles que aqui chegam com más intenções?

“DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE A LER” – CONHEÇA A MAIS INTENSA E REVOLUCIONÁRIA EXPERIÊNCIA EDUCACIONAL REALIZADA NO BRASIL – E ELA ACONTECEU EM NATAL!

FONTE – DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE A LER- Uma Experiência revolucionária – Boletim da VIII SESAC – Semana de Estudos da Semana Comunitária, Natal-RN, abril de 1981, págs. 37 a 39.

NOTA – Esse texto é dedicado a Professora Claudete Lourenço Alves, que trabalhou nesse projeto, me comentou anos atrás sobre sua participação com muito orgulho e lembrava principalmente do progresso que conseguia junto as crianças com o método. Infelizmente Clau, como a minha família carinhosamente lhe chamava, não está mais nesse plano, mas jamais esqueci seu relato.

Durante três anos — de fevereiro de 1961 a abril de 1964 — Natal viveu uma das experiências mais importantes na História do Brasil em termos de educação popular. Foi a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, iniciativa do prefeito Djalma Maranhão, o líder que morreu de saudade, exilado em Montevidéu, e cujos restos mortais estão depositados hoje no tradicional Cemitério do Alecrim.

O prefeito Djalma Maranhão discursando em novembro de 1960. A sua esquerda, posicionado um pouco mais atrás, está Miguel Arraes, então governador de Pernambuco. Também se encontram na foto Moacyr de Góes, Roberto Furtado e Aldo Tinoco. Fonte – Livro – De pé no chão também se aprende a ler (1961 – 1964) – Uma escola democrática – de Moacyr de Góes, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980.

O principal assessor de Djalma na área educacional — Moacyr de Góes — que era Secretário Municipal de Educação, Cultura e Saúde, esteve à frente dessa experiência que chegou a movimentar cerca de 17 mil alunos nos bairros natalenses,não só com aulas, mas também com debates e outras atividades culturais. A dura repressão desencadeada em 1964 conseguiu paralisar “De pé no chão também se aprende a ler”, mas não impediu que a memória daquela mobilização popular ficasse na consciência de todos os que a viveram.

A Natal dos anos de 1960 era uma cidade de 160 mil habitantes. dos quais 36 mil eleitores. O seu líder popular mais expressivo — Djalma Maranhão lá havia sido prefeito nomeado de 1956 a 1959, quando a capital era considerada “cidade base”, de acordo com a Constituição de 1946, e não podia eleger diretamente seu prefeito.

Djalma Maranhão

Em 1960. Djalma foi eleito com 66% dos votos e seu Partido – o Partido Trabalhista Nacional, PTN – fez aliança com a dissidência da UDN (União Democrática Nacional), representada por Aluízio Alves, candidato a governador: e com o PSD (Partido Social Democrático) que apresentou como candidato a vice-governador monsenhor Walfredo Gurgel. Já no plano nacional, Djalma e Luiz Gonzaga dos Santos, seu candidato a vice, deram apoio à chapa do marechal Henrique Batista Duffles Teixeira Lott, do PSD.

Foi neste contexto político que a Secretaria de Educação do município começou a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, com dois objetivos básicos: a erradicação do analfabetismo e a execução de uma política de educação e cultura popular, definida a nível de unia proposta das classes subalternas.

Entre 1960/1964, estas classes estavam organizadas em Comités Nacionalistas ou Comités de Ruas, que se reuniam regularmente para a discussão de temas políticos — tais como o latifúndio, o imperialismo — e temas específicos dos bairros e ruas, como água, luz, esgoto e outros equipamentos comunitários.

Destes comités surgiram as convenções de bairros (uma das mais dinâmicas funcionou no Alecrim), visando fazer uma listagem dos problemas comunitários, incluindo propostas de solução. Este trabalho de base levou à convocação de uma convenção municipal, de onde foi tirada a plataforma de Djalma Maranhão.

O ponto número um nas reivindicações populares de Natal, segundo Moacyr de Góes, foi o de escola para todos. Com base neste pedido, aSecretaria de Educação partiu para a primeira fase da Campanha, com o funcionamento das escolinhas que eram, simplesmente, salas cedidas à Prefeitura para o funcionamento declasses. Eram salas de sindicatos, casas populares, clubes, associações diversas. A prefeitura entrava com as carteiras, a monitora, material escolar e merenda. No final de 1961, realizou-se uma importante reunião no Comité Nacionalista do Bairro das Rocas, importante bairro proletário da capital potiguar, cujo presidente era o pastor José Fernandes Machado, funcionário dos Correios e Telégrafos. O principal resultado do debate foi a decisão de construir acampamentos escolares, já que não havia condições financeiras para a construção de grupos de alvenaria. Em fevereiro daquele ano já estava construído o primeiro acampamento nas Rocas: era um conjunto de quatro galpões, sem paredes. cobertos com palha de coqueiro. As divisórias eram quadros murais e de giz; cada galpão tinha quatro salas de aulas e o chão era de barro batido. Ao lado dos galpões escolares, havia um outro, redondo, para as festas e debates comunitários. O conjunto também incluía horta e aviários, para enriquecimento da merenda escolar.

Salas de aula do projeto “De pé no chão também se aprende a ler”. Fonte – Livro – De pé no chão também se aprende a ler (1961 – 1964) – Uma escola democrática – de Moacyr de Góes, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980.

Enquanto as escolinhas eram organizadas nos bairros mais populares da cidade, e o primeiro acampamento começava a funcionar nas Rocas, a campanha “De pé no chão também se aprende a ler” iniciava mais uma etapa: a do ensino mútuo, com a primeira experiência também nas Rocas. O método Paulo Freire ainda não chegara ao Rio Grande do Norte e cerca de vinte secundaristas engajavam-se na tarefa de alfabetizar adultos em suas próprias casas. O coordenador da experiência foi o professor Antônio Campos e Silva. Este mesmo educador coordenava a equipe que fazia a identificação das manchas de analfabetismo na cidade de Natal pesquisando também as causas da evasão escolar.

PRAÇAS DE CULTURA

Sob a influência direta do Movimento de Cultura Popular MCP — de Recife (criado no governo de Miguel Arraes), a Prefeitura de Natal, através de sua Secretaria de Educação, partiu, em seguida, para uma nova etapa na campanha através das Praças de Cultura.

A Campanha de Pé no Chão frontalizou, politicamente, o projeto americano “Aliança para o Progresso”, financiadora do sistema educacional do Governador Aluízio Alves. Fonte – Livro – De pé no chão também se aprende a ler (1961 – 1964) – Uma escola democrática – de Moacyr de Góes, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980.

As duas maiores foram instaladas no bairro das Quintas e nas Rocas, com quadra esportiva, arquibancada de cimento, parque infantil e uma pequena biblioteca. A Praça servia tanto para jogos quanto para teatro e outros espetáculos populares, além de debates. Somente com quadra e parque, chegaram a ser implantadas dez praças. Na Praça André de Albuquerque, chamada de “Praça da Cultura”, havia também uma concha acústica, uma biblioteca, galeria de arte e um local para danças, onde o professor Gracio Barbalho fez muitas palestras sobre a música popular brasileira. “A Praça André de Albuquerque era um verdadeiro fórum aberto e democrático, de onde todos se aproximavam para participar dos debates e usufruir da cultura, lembrou anos depois Moacyr de Góes.

O POVO TECE SUA HISTÓRIA

Paralelamente, a expansão da campanha exigia a preparação do pessoal técnico e, por isso, a Secretaria decidiu criar o Centro de Formação de Professores – CFP, ligado ao Grupo de Educação Popular e à Coordenadoria Técnico-Pedagógica da instituição. A responsável pelo Centro foi Margarida de Jesus Cortez, que fizera curso, promovido nos anos de 1950, em São Paulo, pela UNESCO, sobre uma nova educação para os pises subdesenvolvidos.

Aula no projeto “De pé no chão também se aprende a ler”. Fonte – Livro – De pé no chão também se aprende a ler (1961 – 1964) – Uma escola democrática – de Moacyr de Góes, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980.

Moacyr lembrou que Margarida Cortez inovou a pedagogia do Rio Grande do Norte, com a criação de unidades de trabalho na experiência de educação popular. Eram textos mimeografados, com o objetivo de integrar conhecimentos, e distribuídas nos vários níveis da campanha.

O Centro oferecia treinamentos de três meses para os futuros monitores e também cursos de reciclagem durante as férias, além de cuidar da supervisão da campanha e manter uma escola experimental. Ele representava o grande laboratório da revolucionária experiência.

NOVA CAMPANHA

A partir da realidade básica do trabalho, os responsáveis pela campanha “De pé no chão também se aprende a ler” resolveram partir para mais uma etapa, implantando a campanha – “De pé no chão também se aprende uma profissão”.

Fonte – Livro – De pé no chão também se aprende a ler (1961 – 1964) – Uma escola democrática – de Moacyr de Góes, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980.

Em fevereiro de 1963, já funcionavam oito cursos nas Rocas: corte e costura, enfermagem de urgência, sapataria, marcenaria, barbearia, datilografia, artesanato e encadernação. Em setembro, a campanha já oferecia dezessete cursos nas regiões das Rocas, no Carrasco, Nova Descoberta, Bairro Nordeste e Quintas, atingindo a jovens e adultos.

A experiência de Paulo Freire uniu-se à de Natal em 1963 e, segundo Moacyr, chegaram a funcionar em Natal de dez a doze Círculos de Cultura, debatendo a passagem da consciência ingénua para a consciência crítica e os passos necessários para a construção de uma sociedade democrática. O próprio Paulo Freire veio a Natal preparar os monitores. Nesta fase, a campanha “De pé no chão também se aprende a ler” ampliou a sua interiorização, com a vinda de professores leigos para cursos em Natal, assinatura de convênios com instituições das cidades potiguares de São Tomé, São Paulo do Potengi, Afonso Bezerra, Assú, Currais Novos, São Gonçalo e Macau (principalmente sindicatos), além de uma importante reunião na capital com quarenta prefeitos.

Paulo Freire fala numa Praça de Cultura da Prefeitura de Natal. No palanque, entre outros, da esquerda para a direita, na primeira fila: Grimaldi Ribeiro (Secretário de Educação do Estado), Monsenhor Walfredo Gurgel (Vice-Governador do Estado), Agnelo Alves (representando o Governador Aluízio Alves), Luiz da Câmara Cascudo (Presidente da Associação Brasileira de Folclore) e o jornalista Marcelo Fernandes (em pé). Fonte – Livro – De pé no chão também se aprende a ler (1961 – 1964) – Uma escola democrática – de Moacyr de Góes, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980.

Neste encontro os prefeitos chegaram a fundar a Frente de Educação Popular do Rio Grande do Norte, que não chegou a se consolidar por causa do Golpe de 1964.

A nova fase da campanha de Djalma para que todos tivessem acesso bens culturais foi a de “uma escola brasileira construída comdinheiro brasileiro”. E a escolha deste sloganestava intimamente ligado ao quadro político estadual da época, a aliança de 1960 já estava rompida e Djalma Maranhão estava em um campo oposto ao do governador Aluízio Alves. O pomo central da discórdia era o papel do programa “Aliança para o Progresso” no Rio Grandedo Norte e no Nordeste.

A professora Vanilda Pereira Paiva contou essa história em seu livro – Paulo Freire e o nacionalismo desenvolvimentista” (Civilização Brasileira, 1950. páginas 22 e 23): “Devemos lembrar aqui que a criação da Aliança Pelo Progresso em 1961 muito deveu à situação política vivida no campo nordestino no período, especialmente à multiplicação das Ligas Camponesas. Não por casualidade que no Brasil o escritório da USAID – United States Agency of International Development (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) foi montado na cidade de Recife, logo após a criação da Aliança para o Progresso.

A merenda escolar – muitas vezes, a principal refeição do dia. Na falta de copos, as crianças se apresentavam com pequenas latas. Fonte – Livro – De pé no chão também se aprende a ler (1961 – 1964) – Uma escola democrática – de Moacyr de Góes, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980.

E sua política de “ajuda ao desenvolvimento” deixou ver, em seguida, a sua verdadeira face de “programas de impacto”, entrando o novo organismo em conflito com a SUDENE – Superintendência Para o Desenvolvimento do Nordeste, por realizar convênios diretamente com os governos estaduais considerados “receptivos” e aplicando seus recursos com base em critérios essencialmente políticos.

Segundo Riordan Roett, que trabalhou como membro da equipe da missão Aid no Nordeste, os “Estados Unidos viam a região como, um problema de segurança internacional e a assistência econômica externa como uma arma contra uma ameaça que o Brasil não reconhecia unanimemente”. Por isso, os planos de ajuda eram, em primeiro lugar, adaptados às “exigências da segurança dos Estados Unidos”, a fim de “derrotar a ameaça comunista” e, em abril de 1962, os Estados Unidos consideravam que a situação nordestina já ultrapassava o estado de que motivou a decisão inicial de oferecer ajuda econômica.

Consta que cada galpão de aulas se dividia em quatro salas. Nos turnos da manhã e da tarde estudam adolescentes e crianças. À noite a frequência era de adultos. Fonte – Livro – De pé no chão também se aprende a ler (1961 – 1964) – Uma escola democrática – de Moacyr de Góes, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980.

Do ponto de vista de Washington — dia Roett — o Problema não era mais o desenvolvimento econômico e social, mas a sobrevivência política imediata deuma sociedade não comunista no Nordeste. Ora, não apenas as Ligas Camponesas eram vistas corno ameaçadoras. Também a vitória eleitoral das Frentes com participação de forças de esquerda não somente revelava a radicalização da vida política da região, como contribuía para levá-la mais longe.

Assim, preocupava a conquista das prefeituras de Recife e Natal, mas especialmente a possibilidade dos prefeitos daquelas cidades chegarem e governos dos respectivos Estados; um dos problemas dos norte-americanos era corno contribuir para evitá-lo. A interferência nas eleições através do financiamento dos candidatos antinacionalistas não era suficiente; havia que fortalecer os políticos “receptivos”.

A Biblioteca Popular Monteiro Lobato, no bairro das Rocas. Ess pequena biblioteca e uma outra denominada e Castro Alves emprestaram, em menos de seis meses de atuação, quase 80.000 volumes. Fonte – Livro – De pé no chão também se aprende a ler (1961 – 1964) – Uma escola democrática – de Moacyr de Góes, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980.

Aluízio Alves — antigo quadro (leia LDN — não só era “receptivo”. como conjugava características ideais, por um lado ele era capaz de controlar os impulsos da radicalização das classes populares, através da prática de urna política ultramanipulatória e suficientemente ambicioso e conservador para não representar um perigo potencial de evolução para a esquerda. Por outro lado, embora aliado a algumas oligarquias tradicionais, ele representava a vitória deuma política de incentivo à industrialização no seu Estado. Tratava-se. pois, de ajudar a um governador “favorável ao progresso”.

As negociações entre Alves e a USAID começaram em agosto de 1962, mas devemos lembrar que logo que foi eleito, ele visitou Kennedy, em Washington, a convite do Departamento de Estado norte-americano, e recebeu promessa de ajuda. Esta era essencial para Alves, pois, representando a vitória de um espírito “desenvolvimentista” e travando uma dura luta contra as oligarquias udenistas, seu fortalecimento político e a realização de suas ambições ao nível federal estavam ligados à transformação económica do Estado eaos programas que ele conseguisse realizar na sua gestão.

Informação sobre o avanço do projeto no bairro das Rocas. Ai fundo podemos ver a Igreja Matriz da Sagrada Família. Fonte – Livro – De pé no chão também se aprende a ler (1961 – 1964) – Uma escola democrática – de Moacyr de Góes, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980.

A obtenção de recursos parece ter sido facilitadapela aceitação, por parte do governador, de pressões norte-americanas para que entregasse a Secretaria de Educação ao jornalista Calazans Fernandes. Os interesses ianques e os de Alves acoplaram-se bem no que concerne ao tipo de programa aser lançado: os “programas de impacto” que deixam de lado projetos de ajuda propriamente económica e se concentram emáreas “visíveis” como saúde e educação (principalmente a construção de prédios escolares), serviam para assegurar à população ointeresse norte-americano e do governo do Estado pelo seu bem-estar.

O complemento para o programa de construções escolares era urna campanha de alfabetização que aumentasse o eleitorado sob controle do líder populista, fortalecendo suas bases eleitorais e diminuindo as chances de uma futura vitória do então prefeito de Natal.

Bambelô Aza Branca (Coco de roda) – O folclore era um dos focos da política cultural da Prefeitura de Natal na época. Realmente esse tipo de ação foi bastanter negligenciada em Natal nas últimas décadas. Fonte – Livro – De pé no chão também se aprende a ler (1961 – 1964) – Uma escola democrática – de Moacyr de Góes, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980.

Djalma Maranhão nunca deixou de denunciar esta ação da Aliança para oProgresso e, segundo Moacyr de Góes, propôs “uma escola brasileira com dinheiro brasileiro”. Em vez dos dólares, ele recebeu 50 mil cruzeiros do então Ministro da Educação, Paulo de Tarso, e com esse dinheiro foram construídos o Centro de Treinamento de Professores, na região do Baldo, e algumas poucas escolas de alvenaria nos bairros.

A REPRESSÃO

Toda essarica experiência de educação c de participação popular em Natal foi interrompida pelo golpe de 31 de março de 1964. Djalma foi pressionado pela repressão para renunciar, mas não o fez. A Prefeitura foi invadida e o prefeito preso. No quadro estadual, houve centenas de prisões na área rural (sindicatos c Ligas Camponesas), Correios, estrada de ferro, meio estudantil, sindicatos urbanos e na Prefeitura natalense. Nesta última, osetor mais atingido foi a Secretaria de Educação. Entre março e abril, foram presos o secretário Moacyr de Góes, o diretor de ensino Omar Fernandes Pimenta, a chefe de documentação Mailde Ferreira de Almeida, a diretora do CFP Margarida de Jesus Cortez, o diretor do Colégio Estadual Genilberto Paiva Campos, a vice-diretora do CFP, Maria Diva da Salete Lucena, o chefe de gabinete e ex-presidente da CFP, Francisco Floripes Ginani, o responsável pela interiorização da campanha, Josemá Azevedo, opresidente do Comitê Nacionalista das Rocas e responsável pelo sistema Paulo Freire na Colónia dos Pescadores, José Fernandes Machado, oprofessor do CFP e Presidente da União Estadual dos Estudantes – UEE, João Faustino Ferreira Neto.

Muitos outros colaboradores da Campanha também foram presos: Luiz Maranhão Filho, Aldo da Fonseca Tinoco, Luiz Gonzaga dos Santos, Hélio Xavier de Vasconcelos, Evlin Medeiros, Carlos Alberto de Lima, Maria Lali Carneiro, Nei Leandro de Castro, José Arruda Fialho, Paulo Frassinetti de Oliveira, Eurico Reis, Guaracy Queiroz de Oliveira, entre outros.

Outro importante educador, Marcos José de Castro Guerra, responsável na área do Estado pela experiência Paulo Freire em Angicos, foi preso nada menos de oito vezes, entre abril e dezembro de 1964.

O interrogatório dos presos — e a investigação de “comunismo” — foram feitos por dois policiais pernambucanos, Carlos Moura de Moraes Veras e José Domingos da Silva — nomeados pelo governador Aluízio Alves, através do decreto publicado em 17 de abril de 1964, no Diário Oficial e republicado no dia 29. Segundo constava na época, os policiais haviam feito curso nos Estados Unidos no FBI, o Federal Bureau of Investigation, ou Departamento Federal de Investigação.

Com o Golpe Militar de 1964, todas as atividades da Campanha foram encerradas. Com a deposição e prisão de Djalma Maranhão, assumiu como prefeito de Natal Tertius César Pires de Lima Rebelo, um oficial da Marinha do Brasil. Na sequência foram criadas várias comissões de inquérito especificas para a Secretaria de Educação.

Outros inquéritos civis e militares foram iniciados, os líderes da Campanha indiciados e presos, e seus materiais, documentos e parte da infraestrutura foram destruídos. Desse modo, teve fim uma das mais importantes propostas de democratização da Educação formal durante o século XX em Natal. Ao ser destruída pelo Golpe Militar, a Campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler já tinha alfabetizado vinte e cinco mil crianças somente em Natal.

MAIS SOBRE A CAMPANHA “DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE A LER” VEJA NO TOK DE HISTÓRIA – https://tokdehistoria.com.br/2013/04/21/de-pe-no-chao-tambem-se-aprende-a-ler/