DO TEMPO EM QUE O NATALENSE ERA BESTA! MAS SERÁ QUE ISSO ACABOU?

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Até mesmo Aristóteles acreditava que o ambiente onde uma pessoa cresce molda seu caráter. Outros sábios sustentavam que cada região de origem influencia a personalidade de maneira peculiar: as áreas rurais e urbanas moldam o caráter de formas distintas, e aqueles que crescem à beira-mar são diferentes dos que têm raízes nas montanhas..

Acredita-se que as pessoas que vivem em áreas rurais, apesar de, em certos aspectos, se mostrarem amigáveis, tendem a ser mais conservadoras politicamente e, de modo geral, menos abertas a novas experiências do que outras. Em contrapartida, os que habitam regiões litorâneas são considerados mais receptivos a novidades, acolhedores com os que vêm de fora e têm uma atitude mais leve, frequentemente mostrando entusiasmo ao apresentar sua terra natal. Normalmente, aqueles que nasceram à beira-mar e se mudam para outras localidades mantêm uma ligação tão forte com seu lugar de origem que frequentemente são atraídos de volta.

Os estudiosos afirmam que essa conexão se deve à sensação de liberdade e infinitude que o mar aberto proporciona, além de sua beleza visual. O poder imensurável do mar, que apela aos sentidos e emoções, e a profunda relação com a água desde o nascimento podem ser razões significativas pelas quais os moradores do litoral preservam essas características.

A Bucólica Natal do final da década de 1970 e início da ´decada seguinte pouco tinha de diferente da cidade em 1973. Na foto a Avenida Deodoro, próximo ao antigo Cinema Rio Grande e da lacnchonete Casa da Maçã.

Sinceramente, não sei se tudo isso explica uma das coisas que mais admiro no povo da minha querida terra: a forma tão positiva, franca e acolhedora com que recebemos aqueles que nos visitam. Essa hospitalidade não é algo recente em Natal, nem é fruto do crescimento do nosso turismo.

Entretanto, essa maneira de ser dos natalenses pode se tornar um fator de risco quando aqueles que aqui chegam trazem consigo uma extrema ignorância sobre como nos tratar, desembarcando carregados de preconceitos, racismo, pedantismo, sentimento de superioridade e outras atitudes deploráveis. Infelizmente, muitos que nos visitam se aproveitam da nossa hospitalidade, buscando sempre levar vantagem, praticando fraudes e nos traindo.

Restaurante no alto da Ladeira do Sol na década de 1970.

Há 53 anos, ocorreu um caso que marcou a cidade e se tornou notícia nacional!

O Filho do Ministro

Ele era moreno, andava bem vestido, não era tão alto, tinha cabelos pretos e bigodes bem aparados, entre 28 e 30 anos, e possuía uma ótima conversa. Apresentou-se como nascido no Rio de Janeiro e mostrou documentos com o nome Roberto Toniato Passarinho Filho. Assim, as portas da bucólica cidade de Natal se abriram para ele.

Jarbas Passarinho como Ministro da Educação, em 1973 – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Jarbas_Passarinho – Esta imagem é parte do Fundo Agência Nacional Série FOT Subsérie PPU

O sobrenome Passarinho e o contexto da época explicam tudo! Estamos em 1973, um período difícil sob o regime militar instaurado em 31 de março de 1964. Uma das figuras políticas de destaque naquele tempo era o coronel de Artilharia Jarbas Gonçalves Passarinho, que já havia exercido cargos como governador do Pará (1964-1966) e ministro do Trabalho (1967-1969). Em 1973, ele ocupava o cargo de ministro da Educação no governo do general Emílio Garrastazu Médici.

Naquele período de medo e submissão no Brasil, encontrar alguém com o sobrenome “Passarinho Filho” na carteira de identidade certamente surpreenderia qualquer um. Provavelmente, foi assim que aconteceu na manhã de sexta-feira, 7 de dezembro de 1973, quando o recepcionista Toinho viu aquele sobrenome importante na ficha de entrada do novo hóspede do Hotel Reis Magos, o melhor da cidade na época.

Segundo Toinho, que comentou no jornal Tribuna do Norte (edição de 13/12/1973), o “filho do ministro” disse que “estava de férias em Natal” e que, mesmo sendo filho de ministro, não queria chamar a atenção. Para corroborar sua identidade, uma moça ligou para a recepção do hotel perguntando pelo “filho de Jarbas Passarinho”. Toinho, sem hesitar, acomodou aquele importante visitante no apartamento 308, um dos melhores do hotel, com uma bela vista da Praia do Meio, em plena Avenida Café Filho.

O belo e majestoso Hotel Reis Magos, infelizmente demolido em janeiro de 2020 – Fonte – Facebook

Golpe do Volks

Após se acomodar, Roberto Passarinho Filho começou a solicitar que a recepção realizasse uma série de ligações para comerciantes da cidade e pediu whiskies das melhores marcas internacionais. Como não havia no bar do hotel as garrafas que ele desejava, o homem se contentou com uma garrafa verde e quadrada do tradicional whisky Passport. Provavelmente, ele também degustou um delicioso prato de frutos do mar como tira-gosto, talvez uma suculenta lagosta, crustáceo abundante em nosso litoral.

Na sequência, aquele elemento preencheu um cheque do antigo Banorte (Banco Nacional do Norte) de Recife, no valor de 2.000 cruzeiros, a moeda corrente da época. Ele pediu a Toinho para trocar o cheque por dinheiro vivo e, como ninguém ousaria negar algo ao filho de um dos ministros mais importantes do complicado governo militar, o novo visitante passou o final de semana à vontade. Descobri nos jornais que, naquele ano de 1973, essa quantia era a média de lucratividade anual de um produtor de leite no Seridó com um plantel de seis vacas.

Volkswagen 1.300, ano 1973. O carro da foto é um modelo muito bem conservado e estava à venda recentemente por quase R$40.000 – Fonte – https://www.aircooledsales.com.br/produto/fusca-1300-1973-placa-preta/787337

Na segunda-feira, dia 10, com o dinheiro no bolso, aquele bon-vivant carioca fez o que ficou conhecido como o “Golpe do Volks”. Segundo os jornais, o estranho conheceu, na boate “Bambelô”, que funcionava no Hotel Reis Magos, uma mulher que trabalhava na filial da Xerox em Natal, localizada na Rua Potengi, no bairro de Petrópolis. O suposto carioca pediu à mulher que o ajudasse a alugar um carro na Auto Locadora Speed, então pertencente ao empresário Jaeci Emerenciano, situada na Rua João Pessoa, Cidade Alta, e recém-inaugurada. Ele alegou que, como “não tinha carteira de habilitação”, a mulher preencheria a papelada em seu nome e ele arcaria com as despesas.

Os jornais não comentaram se essa mulher foi a mesma que ligou para o Hotel Reis Magos atrás do “filho do ministro”, se havia alguma ligação anterior entre os dois ou se ela apenas queria ajudar um visitante. O certo é que esse meliante saiu da empresa de Jaeci dirigindo um popular Volkswagen 1.300, conhecido em Natal apenas como Volks, com a placa AA-8513-RN, e pagou 300 cruzeiros pelo aluguel.

Farra nos Cabarés de Natal

Com o carro em mãos, ele se entregou à diversão na limitada noite natalense daquela segunda-feira de dezembro de 1973, frequentando os únicos locais abertos até altas horas, os cabarés da Cidade do Sol. Não se sabe, por exemplo, se ele foi ao cabaré da Alaíde, em Lagoa Seca, ou ao Acapulco, na Rua General Glicério, na Ribeira, ou ainda a Cleide Drinks, na Praia do Forte, ou se atravessou a ponte de concreto sobre o rio Potengi para visitar o lupanar de Abílio, no final de Igapó. O que os jornais informaram foi que ele se divertiu intensamente no cabaré de Maria Boa, o melhor de Natal, frequentado pela elite e localizado na Rua Padre Pinto, Cidade Alta.

Provavelmente esse vigarista esteve na praia de Ponta Negra, então bem tranquila.

A farra foi tão intensa que Roberto Passarinho Filho só encerrou a “função” quando amanheceu a terça-feira. Ele chegou a presentear o Volks alugado em Jaeci à mais bela das prostitutas de Maria Boa, conhecida apenas como Renata.

Ao sair de Maria Boa, ainda usando a identidade do filho do Ministro Jarbas Passarinho, o vagabundo fluminense alugou com o Senhor Roque Araújo Azevedo, proprietário da Auto Locadora Dudu, um imponente Ford Maverick 4 portas, motor V8, praticamente zero quilômetro. Seu Dudu, como era conhecido por todos em Natal, havia adquirido o carro no dia anterior por 35.000 cruzeiros na firma Santos & Cia., representante da Ford na cidade, e já no modelo 1974.

Montado então no possante, o meliante fugiu de Natal.

Ford Maverick 4 portas, motor V8 – Fonte – https://rrautosantigos.com.br/produto/ford-maverick-super-luxo-1974/

Confesso que essa última informação me deixou triste, pois conheci na juventude Seu Dudu, lá no velho bairro da Ribeira, no comércio de peças e acessórios de Seu Calabar Medeiros, meu pai. Guardo de Seu Dudu a recordação de um homem cordial e animado, que adorava caminhar pela cidade e conversar sobre a época da Segunda Guerra, quando trabalhou para os americanos na Base de Parnamirim.

Rastro de Prejuízos

Roberto Toniato Passarinho Filho deixou no Hotel Reis Magos um prejuízo de 3.300 cruzeiros, sendo 2.000 do cheque (sem fundos) trocado e o restante de itens consumidos e a hospedagem. Alguns afirmam que o prejuízo ultrapassou os dez mil cruzeiros e que alguns funcionários foram ameaçados de demissão.

A prostituta Renata, ao descobrir o verdadeiro desmantelo causado pelo galanteador que lhe dera o Volks, prontamente foi com Dona Maria de Oliveira Barros à Polinter e entregou o veículo ao coronel Bento Pacífico de Medeiros. Ela ainda comentou ao repórter da Tribuna do Norte que o vagabundo havia deixado no cabaré um cheque sem fundo de 1.000 cruzeiros pela farra realizada.

A equipe da Polinter descobriu que ele havia tido contato com uma jovem muito bonita, oriunda do interior do estado e que morava na Casa do Estudante. Para conquistá-la, o vigarista carioca ofereceu um cheque sem fundos de 18 mil cruzeiros e prometeu um Volks. Provavelmente, conseguiu o que tanto desejava!

Seu Dudu da locadora passou aos policiais a informação de que seu Maverick foi visto saindo da cidade, na área da Ponte Velha sobre o Rio Pitimbu, e que, na BR-101, o motorista desviou para a estrada que liga ao município de Monte Alegre, ao avistar a Polícia Rodoviária Federal rebocando um caminhão acidentado. Por sorte, o veículo foi encontrado dias depois em Recife e devolvido ao seu dono!

Para piorar a situação, naquela mesma semana, quem desembarcou no saudoso Aeroporto Augusto Severo foi o próprio ministro Jarbas Passarinho, que vinha a Natal para a colação de grau dos estudantes da UFRN. Para que a situação não ficasse ainda mais complicada, a Polícia Federal entrou em ação. O delegado Franklin Ferreira de Carvalho notificou todas as sedes da instituição para que prendessem o mentiroso e o recambiou para Natal.

A simplicidade de um barzinho na beira mar de Ponta Negra naqueles tempos.

Infelizmente, o caso se tornou notícia em todo o Brasil. Segundo os jornais cariocas Opinião (edição de 21/12/1973) e o tradicional Jornal do Brasil (edição de 15/12/1973), durante os três dias em que permaneceu no hotel, o “filho do ministro” só foi incomodado pela redobrada amabilidade e zelo dos funcionários, do gerente Cardoso aos garçons que lhe serviam na piscina, onde passava o tempo bebendo whisky e encantando as moças locais com sua boa conversa. Quando soube que o filho do ministro Passarinho estava em Natal, o professor Dalton Mello de Andrade, então Secretário Estadual de Educação e Cultura, tentou falar com o rapaz, mas a resposta foi taxativamente negativa. Certamente, o secretário soube da chegada do Ministro Passarinho a Natal e foi ao hotel de maneira correta procurar saber se estava tudo bem. Apenas um gesto de cortesia ao filho daquela autoridade.

No dia 15/12/1973, o Jornal do Brasil informou que, após a farra em Natal, o golpista deixou em Recife um prejuízo de dez mil cruzeiros no Hotel Miramar, um luxuoso cinco estrelas na Rua dos Navegantes, no bairro de Boa Viagem, inaugurado no ano anterior. Nesse mesmo dia, o periódico carioca Luta Democrática afirmou que, certamente, o larápio soube da chegada do Ministro da Educação e aproveitou a ocasião para aplicar seus golpes.

O “filho do ministro” nunca foi capturado e, além de Seu Dudu da locadora, nenhum outro comerciante ludibriado por esse meliante conseguiu recuperar o prejuízo.

E agora, vem a pergunta que não posso deixar de fazer: será que aprendemos a ter cuidado com aqueles que aqui chegam com más intenções?

É FATO QUE O EXÉRCITO BRASILEIRO PRODUZIU UM MATERIAL COM FOTOS E FILMES SOBRE NATAL E A BASE DE PARNAMIRIM DURANTE A SEGUNDA GUERRA? E ONDE SE ENCONTRA ESSE RARO MATERIAL?

Descobri Que o Exército Brasileiro Realizou em 1942 Todo um Trabalho Documental e Iconográfico, Com Fotos e Filmes Sobre Natal e a Base de Parnamirim. Mas onde está esse material???

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Mesmo com muitos historiadores não aceitando essa situação, o tema sobre a cidade de Natal durante a Segunda Guerra Mundial sempre foi algo que chamou (e chama) bastante a atenção do povo dessa cidade, sendo os materiais produzidos sobre esse período da história local os mais consumidos. São livros, vídeos, histórias em quadrinhos, peças de teatro e outros produtos.

NATAL, BRASIL – JUNHO 1943: A view as US servicemen at the Parnamirim airport at the US Air Force base in Natal, Brazil. (Photo by Ivan Dmitri/Michael Ochs Archives/Getty Images) *** Local Caption***

A presença de tropas estrangeiras na cidade, dos atos de espionagem nazifascista em Natal, a reação dos natalenses envolvidos nesse contexto, o que mudou na cidade, o que a população conseguiu de vantagem com tudo isso e também o que sofreu, são sempre pontos de interesse dos moradores da “Cidade do Sol”.

Enfim, devido a sua propalada posição estratégica, Natal foi seguramente a cidade mais envolvida na Segunda Guerra Mundial na América do Sul.

Parnamirim Field – Fonte – NARA.

Aqui existiu uma das maiores bases aéreas Aliadas envolvidas no conflito e daqui partiram milhares de aeronaves para atuarem em diversas frentes de combate, desde a África, passando pela Europa e chegando até a China.

Por aqui sempre chamou atenção quando surgem novos dados e materiais, principalmente iconográficos, sobre a cidade naqueles tempos turbulentos. Uma coleção de novas fotos, ou até mesmo uma simples foto, já é motivo de discussão entre aqueles que gostam de observar esse período da História da cidade.

E com muita satisfação eu descubro que o Exército Brasileiro realizou em 1942 todo um trabalho documental e iconográfico, com fotos e filmes sobre Natal e a Base de Parnamirim. Todo esse material foi destinado para a produção de uma palestra que se realizou nas primeiras semanas de janeiro de 1943, no antigo Palácio da Guerra, atual Palácio Duque de Caxias, ao lado da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Vejam abaixo!

Maravilha! Mas como foi produzido esse material? Quem o produziu? Quem foi o oficial que apresentou esse trabalho no Rio? E o mais importante – onde está esse material?

Sobre Quem Apresentou

Nos jornais brasileiros, não consta o nome de quem realizou e produziu o material iconográfico, mas como as notícias apontam o capitão Jefferson Cardim de Alencar Osorio como o palestrante do evento no Palácio Duque de Caxias e devido a sua patente, o mais provável é que ele tenha sido o responsável por essa pesquisa.

Mas quem era Jefferson Cardim e como ele veio parar em Natal?

O capitão Jefferson Cardim de Alencar Osorio na época da Segunda Guerra.

Sabemos que nasceu em 17 de fevereiro de 1912 no Rio de Janeiro, sendo filho do capitão de corveta Roberto de Alencar Osorio e da professora Corina Cardim de Alencar Osório.

Apesar de ter um pai oficial da Marinha, Cardim decidiu seguir a carreira militar no Exército. Entrou na Escola Militar do Realengo, sendo declarado aspirante a oficial em 25 de janeiro de 1934 (Turma Marechal José Pessoa) na arma de artilharia. Logo ô jovem oficial foi promovido a segundo tenente.

A sua primeira unidade foi o 6º Grupo de Artilharia de Costa (6º G. A. Co.), no Forte de Coimbra, no atual estado do Mato Grosso do Sul. Em 1936 estava no 4º Regimento de Artilharia Montado (4º R. A. M.), em Itu, interior de São Paulo, sendo depois transferido para Santa Maria, no Rio Grande do Sul, para atuar no 5º Regimento de Artilharia Montado (5º R. A. M.), conhecido como Regimento Mallet. Na sequência veio para Niterói, Rio de Janeiro, para servir no Forte de São Luiz, como oficial da 2ª Bateria Independente de Artilharia de Costa (2ª B. I. A. C.).

Canhão alemão antiaéreo de 88m.m. do I/3º R. A. A. Ae e utilizado em Natal.

Em dezembro de 1941, um dia antes do ataque japonês a base americana de Pearl Harbor, ele concluiu o curso de defesa antiaérea e logo foi transferido para o Primeiro Batalhão do 3º Regimento de Artilharia Antiaérea (I/3 R. A. A. Ae.) que estava aquartelado em Natal, tendo sido promovido a capitão.

Como Pode Ter Sido Realizado Esse Trabalho

Certamente trabalhando com outros militares e provavelmente devido ao volume de informações, o capitão Jefferson Cardim decidiu dividir o seu trabalho em duas partes. Em uma das partes ele trabalhou com dados sobre a topografia, clima, custo de vida (que estava subindo bastante em Natal com a presença dos militares americanos), saúde, alimentação, ambiente social e cultural.

NATAL, BRASIL – JUNHO 1943: A street view as servicemen talk with locals in Natal, Brazil. (Photo by Ivan Dmitri/Michael Ochs Archives/Getty Images) *** Local Caption***

Na outra parte, segundo foi publicado nos jornais, foram basicamente contemplados os aspectos relativos a defesa militar de Natal, a defesa da Base de Parnamirim e finalizando havia o foco sobre os militares brasileiros e americanos na região. Foi visado o número de militares atuando na área e, provavelmente, nesse último quesito um dos pontos observados podem ter sido os aspectos da interação e convivência entre as forças do Brasil e dos Estados Unidos, algo que preocupava os dois governos.

NATAL, BRASIL – JUNHO 1943: US servicemen sit to have a drink at the Grande Hotel in NATAL, BRAZIl. (Photo by Ivan Dmitri/Michael Ochs Archives/Getty Images) *** Local Caption***

Outras coisas colocadas pelo capitão Jefferson Cardim nessa última parte dos estudos e da palestra são os chamados “pontos sensíveis importantes” como as vias de transporte em Natal, tanto terrestre como fluvial, nesse caso certamente o Rio Potengi. Outros pontos eram as “defesas naturais da cidade” uma parte específica sobre as dunas que cercam Natal. Havia ainda uma parte sobre “o moral da tropa” e outro sobre as “Secas na defesa do Nordeste”. Sobre essa última parte parece que esse militar e quem mais o tenha assessorado adentraram para o sertão potiguar.

Apresentação no Rio de Janeiro

Quando esse projeto teve início e quando se deu sua finalização não sabemos. Mas sabemos que o capitão Jefferson Cardim sofreu um acidente quando estava em Natal, mas não é comentado em nenhum local o que lhe aconteceu. Mas aparentemente foi algo grave, pois consta uma notícia publicada no jornal carioca Diário de Notícias, de 9 de agosto de 1942, que ele veio de Natal para o Rio de Janeiro para ficar internado no Hospital Central do Exército e estava acompanhado do soldado Antônio da Conceição, lotado no I/3 R. A. A. Ae.

Dois meses depois, dia 20 de novembro, é publicado no mesmo Diário de Notícias uma reprodução do Boletim Interno nº 269 da Diretoria de Artilharia, ordenando que Cardim fosse “inspecionado” pela Diretoria de Saúde para a conclusão da sua licença de saúde.

Jefferson Cardim quando era coronel, no início da década de 1960.

As próximas noticias sobre Cardim é a divulgação da palestra, que foi chamada “Conferência sobre a Defesa de Natal”.

Em um mesmo dia (03/12/1942) foram publicadas três notas explicativas sobre a conferência em jornais do Rio (Jornal do Brasil, Diário de Notícias e Gazeta de Notícias). Dois dias depois esse material foi repetido na imprensa natalense no jornal A Ordem. Todos esses jornais comentaram que a palestra iria ocorrer no dia 9 de dezembro, uma quarta feira, às duas da tarde. Depois surgiu outra nota informando que foi alterada para o dia 13, no mesmo horário.

Bem, se a conferência aconteceu, ou não, sinceramente eu não sei!

Como o evento se desenrolou e como foi apresentado, ou como foi visto e recebido pelos presentes e até quem estava por lá é um mistério!

Soldados dos Dragões da Indepêndencia no interior do Palácio Duque de Caxia em 1942.

E a razão foi porque não encontrei nenhuma indicação sobre isso nos jornais e revistas disponíveis no site da Biblioteca Nacional. Também fiz uma busca nos riquíssimos sites do Arquivo Nacional e nada. Mas eu não acredito que depois de tanta propaganda, tanta divulgação em alguns dos principais jornais do país, esse evento deixou de acontecer.

Evento no Palácio Duque de Caxias em 1945, com a participação do general Eurico Gaspar Dutra e o general norte-americano Mark Clark, comandante do 5º Exército dos Estados Unidos na Itália.

Mas no final das contas, o mais importante é saber o que foi feito desse importante material, que teoricamente foi apresentado pelo capitão Jefferson Cardim.

Guerrilha de Três Passos

Jefferson Cardim continuou no Exército Brasileiro, progrediu na carreira militar, mas adentrou bastante no aspecto político e houve consequências para ele e sua família.

O coronel Jefferson Cardim e sua esposa em uma solenidade.

Segundo os sites Memória da Democracia e Memória da Ditadura ( https://memorialdademocracia.com.br/card/ditaduras-se-unem-as-ordens-de-tio-sam e https://memoriasdaditadura.org.br/personagens/jefferson-cardim/  ), esses são os fatos envolvendo Cardim e a criação de um núcleo de guerrilheiros contra o Regime Militar em 1965.

Na noite de 26 de março de 1965, um grupo de camponeses, militares e profissionais liberais liderado pelo coronel do Exército Jefferson Cardim Osório e pelo sargento da Brigada Militar (PM) Albery Vieira dos Santos toma a cidade de Três Passos (RS).

Militares coletando informações na região de Três Passos, Rio Grande do Sul.

Depois de cortar a comunicação telefônica da localidade e levar armas, fardas e munição do destacamento policial, o comando invadiu a rádio local e transmitiu um manifesto contra a ditadura. Dali, o grupo partiu para os municípios de Tenente Portela e Barra do Guarita, no Rio Grande do Sul, e Itapiranga, em Santa Catarina, onde tomaram os postos da Polícia Militar.

A prisão dos guerrilheiros deu-se na cidade paranaense de Capitão Leônidas Marques dois dias mais tarde. O coronel Cardim fazia parte do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), grupo de militares ligados ao ex-governador Leonel Brizola, exilado no Uruguai. 

Jefferson Cardim preso.

Cardim é conhecido por ser o líder de um dos primeiros movimentos armados contra a ditadura. Filho de um oficial da Marinha, em diversas situações se posicionou contra as orientações do exército. Com o golpe, a ditadura cassou sua patente e o aposentou depois do Ato Institucional Nº 1 (AI-1).

Quando ele já estava no Uruguai, por auxílio de João Goulart, organizou o Movimento 26 de Março, também conhecido como Guerrilha de Três Passos. Da cidade do Rio Grande do Sul de mesmo nome, o grupo do coronel subiu em direção ao Paraná. Isso porque, no dia 26 de março de 1965, o presidente Castelo Branco estaria em Foz do Iguaçu para a inauguração da Ponte da Amizade, na fronteira entre Brasil e Paraguai.

Solenidade no velório do sargento Carlos Argemiro de Carvalho, paranaense, única vítima da Guerrilha de Três Passos.

A ação foi frustrada pelas tropas do governo, resultando na dispersão e posterior prisão de todos os insurgentes. Preso e levado a Curitiba (PR), Cardim foi torturado e ficou detido até 1968, quando conseguiu fugir. Em 1970, foi sequestrado na Argentina, como uma das primeiras ações da Operação Condor”.

Em 1985, Jefferson Cardim teve a sua anistia cassada e foi viver fora do país como refugiado Através da ação de setores da Organização das Nações Unidas (ONU), o governo francês o acolheu e durante a sua permanência em Paris. lhe concederam uma ajuda de 3.600 francos, que, segundo Cardim declarou, dava para comer em restaurantes universitários e dormir em um quartinho de hotel no Quartier Latin.

Faleceu no Rio de Janeiro, em 29 de janeiro de 1995.

MINHA CIDADE SE CHAMA NATAL!

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