Até mesmo Aristóteles acreditava que o ambiente onde uma pessoa cresce molda seu caráter. Outros sábios sustentavam que cada região de origem influencia a personalidade de maneira peculiar: as áreas rurais e urbanas moldam o caráter de formas distintas, e aqueles que crescem à beira-mar são diferentes dos que têm raízes nas montanhas..
Acredita-se que as pessoas que vivem em áreas rurais, apesar de, em certos aspectos, se mostrarem amigáveis, tendem a ser mais conservadoras politicamente e, de modo geral, menos abertas a novas experiências do que outras. Em contrapartida, os que habitam regiões litorâneas são considerados mais receptivos a novidades, acolhedores com os que vêm de fora e têm uma atitude mais leve, frequentemente mostrando entusiasmo ao apresentar sua terra natal. Normalmente, aqueles que nasceram à beira-mar e se mudam para outras localidades mantêm uma ligação tão forte com seu lugar de origem que frequentemente são atraídos de volta.
Os estudiosos afirmam que essa conexão se deve à sensação de liberdade e infinitude que o mar aberto proporciona, além de sua beleza visual. O poder imensurável do mar, que apela aos sentidos e emoções, e a profunda relação com a água desde o nascimento podem ser razões significativas pelas quais os moradores do litoral preservam essas características.
A Bucólica Natal do final da década de 1970 e início da ´decada seguinte pouco tinha de diferente da cidade em 1973. Na foto a Avenida Deodoro, próximo ao antigo Cinema Rio Grande e da lacnchonete Casa da Maçã.
Sinceramente, não sei se tudo isso explica uma das coisas que mais admiro no povo da minha querida terra: a forma tão positiva, franca e acolhedora com que recebemos aqueles que nos visitam. Essa hospitalidade não é algo recente em Natal, nem é fruto do crescimento do nosso turismo.
Entretanto, essa maneira de ser dos natalenses pode se tornar um fator de risco quando aqueles que aqui chegam trazem consigo uma extrema ignorância sobre como nos tratar, desembarcando carregados de preconceitos, racismo, pedantismo, sentimento de superioridade e outras atitudes deploráveis. Infelizmente, muitos que nos visitam se aproveitam da nossa hospitalidade, buscando sempre levar vantagem, praticando fraudes e nos traindo.
Restaurante no alto da Ladeira do Sol na década de 1970.
Há 53 anos, ocorreu um caso que marcou a cidade e se tornou notícia nacional!
O Filho do Ministro
Ele era moreno, andava bem vestido, não era tão alto, tinha cabelos pretos e bigodes bem aparados, entre 28 e 30 anos, e possuía uma ótima conversa. Apresentou-se como nascido no Rio de Janeiro e mostrou documentos com o nome Roberto Toniato Passarinho Filho. Assim, as portas da bucólica cidade de Natal se abriram para ele.
O sobrenome Passarinho e o contexto da época explicam tudo! Estamos em 1973, um período difícil sob o regime militar instaurado em 31 de março de 1964. Uma das figuras políticas de destaque naquele tempo era o coronel de Artilharia Jarbas Gonçalves Passarinho, que já havia exercido cargos como governador do Pará (1964-1966) e ministro do Trabalho (1967-1969). Em 1973, ele ocupava o cargo de ministro da Educação no governo do general Emílio Garrastazu Médici.
Naquele período de medo e submissão no Brasil, encontrar alguém com o sobrenome “Passarinho Filho” na carteira de identidade certamente surpreenderia qualquer um. Provavelmente, foi assim que aconteceu na manhã de sexta-feira, 7 de dezembro de 1973, quando o recepcionista Toinho viu aquele sobrenome importante na ficha de entrada do novo hóspede do Hotel Reis Magos, o melhor da cidade na época.
Segundo Toinho, que comentou no jornal Tribuna do Norte (edição de 13/12/1973), o “filho do ministro” disse que “estava de férias em Natal” e que, mesmo sendo filho de ministro, não queria chamar a atenção. Para corroborar sua identidade, uma moça ligou para a recepção do hotel perguntando pelo “filho de Jarbas Passarinho”. Toinho, sem hesitar, acomodou aquele importante visitante no apartamento 308, um dos melhores do hotel, com uma bela vista da Praia do Meio, em plena Avenida Café Filho.
O belo e majestoso Hotel Reis Magos, infelizmente demolido em janeiro de 2020 – Fonte – Facebook
Golpe do Volks
Após se acomodar, Roberto Passarinho Filho começou a solicitar que a recepção realizasse uma série de ligações para comerciantes da cidade e pediu whiskies das melhores marcas internacionais. Como não havia no bar do hotel as garrafas que ele desejava, o homem se contentou com uma garrafa verde e quadrada do tradicional whisky Passport. Provavelmente, ele também degustou um delicioso prato de frutos do mar como tira-gosto, talvez uma suculenta lagosta, crustáceo abundante em nosso litoral.
Na sequência, aquele elemento preencheu um cheque do antigo Banorte (Banco Nacional do Norte) de Recife, no valor de 2.000 cruzeiros, a moeda corrente da época. Ele pediu a Toinho para trocar o cheque por dinheiro vivo e, como ninguém ousaria negar algo ao filho de um dos ministros mais importantes do complicado governo militar, o novo visitante passou o final de semana à vontade. Descobri nos jornais que, naquele ano de 1973, essa quantia era a média de lucratividade anual de um produtor de leite no Seridó com um plantel de seis vacas.
Na segunda-feira, dia 10, com o dinheiro no bolso, aquele bon-vivant carioca fez o que ficou conhecido como o “Golpe do Volks”. Segundo os jornais, o estranho conheceu, na boate “Bambelô”, que funcionava no Hotel Reis Magos, uma mulher que trabalhava na filial da Xerox em Natal, localizada na Rua Potengi, no bairro de Petrópolis. O suposto carioca pediu à mulher que o ajudasse a alugar um carro na Auto Locadora Speed, então pertencente ao empresário Jaeci Emerenciano, situada na Rua João Pessoa, Cidade Alta, e recém-inaugurada. Ele alegou que, como “não tinha carteira de habilitação”, a mulher preencheria a papelada em seu nome e ele arcaria com as despesas.
Os jornais não comentaram se essa mulher foi a mesma que ligou para o Hotel Reis Magos atrás do “filho do ministro”, se havia alguma ligação anterior entre os dois ou se ela apenas queria ajudar um visitante. O certo é que esse meliante saiu da empresa de Jaeci dirigindo um popular Volkswagen 1.300, conhecido em Natal apenas como Volks, com a placa AA-8513-RN, e pagou 300 cruzeiros pelo aluguel.
Farra nos Cabarés de Natal
Com o carro em mãos, ele se entregou à diversão na limitada noite natalense daquela segunda-feira de dezembro de 1973, frequentando os únicos locais abertos até altas horas, os cabarés da Cidade do Sol. Não se sabe, por exemplo, se ele foi ao cabaré da Alaíde, em Lagoa Seca, ou ao Acapulco, na Rua General Glicério, na Ribeira, ou ainda a Cleide Drinks, na Praia do Forte, ou se atravessou a ponte de concreto sobre o rio Potengi para visitar o lupanar de Abílio, no final de Igapó. O que os jornais informaram foi que ele se divertiu intensamente no cabaré de Maria Boa, o melhor de Natal, frequentado pela elite e localizado na Rua Padre Pinto, Cidade Alta.
Provavelmente esse vigarista esteve na praia de Ponta Negra, então bem tranquila.
A farra foi tão intensa que Roberto Passarinho Filho só encerrou a “função” quando amanheceu a terça-feira. Ele chegou a presentear o Volks alugado em Jaeci à mais bela das prostitutas de Maria Boa, conhecida apenas como Renata.
Ao sair de Maria Boa, ainda usando a identidade do filho do Ministro Jarbas Passarinho, o vagabundo fluminense alugou com o Senhor Roque Araújo Azevedo, proprietário da Auto Locadora Dudu, um imponente Ford Maverick 4 portas, motor V8, praticamente zero quilômetro. Seu Dudu, como era conhecido por todos em Natal, havia adquirido o carro no dia anterior por 35.000 cruzeiros na firma Santos & Cia., representante da Ford na cidade, e já no modelo 1974.
Montado então no possante, o meliante fugiu de Natal.
Confesso que essa última informação me deixou triste, pois conheci na juventude Seu Dudu, lá no velho bairro da Ribeira, no comércio de peças e acessórios de Seu Calabar Medeiros, meu pai. Guardo de Seu Dudu a recordação de um homem cordial e animado, que adorava caminhar pela cidade e conversar sobre a época da Segunda Guerra, quando trabalhou para os americanos na Base de Parnamirim.
Rastro de Prejuízos
Roberto Toniato Passarinho Filho deixou no Hotel Reis Magos um prejuízo de 3.300 cruzeiros, sendo 2.000 do cheque (sem fundos) trocado e o restante de itens consumidos e a hospedagem. Alguns afirmam que o prejuízo ultrapassou os dez mil cruzeiros e que alguns funcionários foram ameaçados de demissão.
A prostituta Renata, ao descobrir o verdadeiro desmantelo causado pelo galanteador que lhe dera o Volks, prontamente foi com Dona Maria de Oliveira Barros à Polinter e entregou o veículo ao coronel Bento Pacífico de Medeiros. Ela ainda comentou ao repórter da Tribuna do Norte que o vagabundo havia deixado no cabaré um cheque sem fundo de 1.000 cruzeiros pela farra realizada.
A equipe da Polinter descobriu que ele havia tido contato com uma jovem muito bonita, oriunda do interior do estado e que morava na Casa do Estudante. Para conquistá-la, o vigarista carioca ofereceu um cheque sem fundos de 18 mil cruzeiros e prometeu um Volks. Provavelmente, conseguiu o que tanto desejava!
Seu Dudu da locadora passou aos policiais a informação de que seu Maverick foi visto saindo da cidade, na área da Ponte Velha sobre o Rio Pitimbu, e que, na BR-101, o motorista desviou para a estrada que liga ao município de Monte Alegre, ao avistar a Polícia Rodoviária Federal rebocando um caminhão acidentado. Por sorte, o veículo foi encontrado dias depois em Recife e devolvido ao seu dono!
Para piorar a situação, naquela mesma semana, quem desembarcou no saudoso Aeroporto Augusto Severo foi o próprio ministro Jarbas Passarinho, que vinha a Natal para a colação de grau dos estudantes da UFRN. Para que a situação não ficasse ainda mais complicada, a Polícia Federal entrou em ação. O delegado Franklin Ferreira de Carvalho notificou todas as sedes da instituição para que prendessem o mentiroso e o recambiou para Natal.
A simplicidade de um barzinho na beira mar de Ponta Negra naqueles tempos.
Infelizmente, o caso se tornou notícia em todo o Brasil. Segundo os jornais cariocas Opinião (edição de 21/12/1973) e o tradicional Jornal do Brasil (edição de 15/12/1973), durante os três dias em que permaneceu no hotel, o “filho do ministro” só foi incomodado pela redobrada amabilidade e zelo dos funcionários, do gerente Cardoso aos garçons que lhe serviam na piscina, onde passava o tempo bebendo whisky e encantando as moças locais com sua boa conversa. Quando soube que o filho do ministro Passarinho estava em Natal, o professor Dalton Mello de Andrade, então Secretário Estadual de Educação e Cultura, tentou falar com o rapaz, mas a resposta foi taxativamente negativa. Certamente, o secretário soube da chegada do Ministro Passarinho a Natal e foi ao hotel de maneira correta procurar saber se estava tudo bem. Apenas um gesto de cortesia ao filho daquela autoridade.
No dia 15/12/1973, o Jornal do Brasil informou que, após a farra em Natal, o golpista deixou em Recife um prejuízo de dez mil cruzeiros no Hotel Miramar, um luxuoso cinco estrelas na Rua dos Navegantes, no bairro de Boa Viagem, inaugurado no ano anterior. Nesse mesmo dia, o periódico carioca Luta Democrática afirmou que, certamente, o larápio soube da chegada do Ministro da Educação e aproveitou a ocasião para aplicar seus golpes.
O “filho do ministro” nunca foi capturado e, além de Seu Dudu da locadora, nenhum outro comerciante ludibriado por esse meliante conseguiu recuperar o prejuízo.
E agora, vem a pergunta que não posso deixar de fazer: será que aprendemos a ter cuidado com aqueles que aqui chegam com más intenções?
Existe uma falsa ideia que na época dos nossos avós e bisavós a única droga que existia era o álcool, com preferência no Brasil para a cachaça.
Isso é um engano!’
Quem desejava utilizar cocaína em Natal e em outras cidades brasileiras na metade da década de 1920, nem precisava comprar essa droga em algum lugar sombrio (algo que hoje é conhecido como “boca”), ou negociar com gente perigosa e inescrupulosa (os atuais traficantes). Para “abrir as portas da percepção”, como foi dito metaforicamente pelo escritor inglês Aldous Huxley, a situação nessa época era muito mais tranquila.
Bastava ir a alguma farmácia na Rua Dr. Barata, no bairro da Ribeira, ou na Avenida Rio Branco, na Cidade Alta, pois a cocaína era vendida basicamente em estado líquido e em pequenos frascos. E a cocaína nessa condição e nessa época chegou até mesmo ao sertão potiguar, mais precisamente em Caicó, conforme podemos ver nas propagandas abaixo.
Não sei como começou esse consumo de maneira mais forte, mas imagino até a cena – Um dia, certamente em outras freguesias (até porque Natal jamais foi moderninha a esse ponto), alguém foi medicado com algum preparado de cocaína. Aí o doente achou legal o efeito daquele remédio e, certamente impaciente antes da próxima colherada, a figura entornou o frasco goela abaixo e ficou muito doido. Pronto, começou a desgraça!
Como notícia do que não presta corre mais rápido que as boas novas, provavelmente toda rapaziada descolada e moderninha da época partiu célere para uma “bad trip” líquida e transparente nas boticas e farmácias pelo mundo afora. E a cocaína passou a ser consumida como alucinógeno desde a segunda metade do século XIX, passando pela “Belle Èpoque” e chegando a louquíssima década de 1920. Alguns de seus consumidores desse período vinham sempre com seus vistosos bigodes, elegantes ternos, camisas de colarinho duro, gravatinhas borboleta, bengalas de madeira nobre, chapéus cocos, ou de palhinha e lenços coloridos nas lapelas.
Não tenho detalhes quando e como a galera de Natal começou a consumir cocaína, mas uma pequena nota jornalística aponta que em Maceió, capital das Alagoas, o desmantelo rolava principalmente nas “pensões”[1]. Aí vale uma explicação – Nos jornais antigos esse termo muitas vezes não designava apenas um local de repouso temporário, como uma pousada, mas era também utilizado para descrever locais conhecidos como prostibulo, meretrício, cabaré e por aí vai!!!
Conforme podemos ver na foto que abre esse texto, a polícia em Natal não reprimia a venda. Mas os homens da lei não podiam realizar seu trabalho porque a cocaína era um produto liberado, utilizado em toda parte, receitada por médicos e farmacêuticos para vários males, além de ser fabricada por respeitadíssimas indústrias farmacêuticas. Até Sigmund Freud usou!
O Decreto Nº 14.969, de 3 de setembro de 1921, assinado pelo Presidente da República Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa não criava maiores restrições para a venda, mas regulamentava a entrada no país das substancias tóxicas, onde as penalidades impostas aos contraventores eram apenas multas e nada de cadeia. Para os consumidores essa Lei criou no Rio de Janeiro o “Sanatorio para toxicômanos – um estabelecimento para ministrar tratamento medico e correccional, pelo trabalho, aos intoxicados pelo alcool ou substancias inebriantes ou entorpecentes”.
Mas como esse produto se tornou um grande problema na década de 1920 em Natal e em outras partes do Brasil?
Uma Droga Antiga
Na atualidade, basicamente conhecemos a cocaína como um estimulante, sendo atualmente considerada uma droga ilegal. É extraída a partir das folhas da planta da coca, vegetal da família Erythroxylaceae, cujo nome científico é Erythroxylum coca. Possui porte arbustivo, pode ficar frondosa e suas flores são amarelo-alvacentas.
Cientistas acreditam que a cerca de 4.000 ou 5.000 anos que a coca vem sendo utilizada como um remédio e estimulante no que hoje é a Colômbia, Peru e Bolívia. a partir do século XVI viajantes europeus descreveram a prática dos povos sul americanos de mascar uma mistura de tabaco e folhas de coca. Esse consumo tradicional da coca pelos povos andinos possui certas características que o distinguem nitidamente do consumo da cocaína. Ao introduzir a folha de coca oralmente, suas propriedades psicoativas são absorvidas lentamente através do sistema digestivo, sem causar efeitos nocivos.
Visitantes ilustres que já estiveram na Bolívia, incluindo o Papa João Paulo II e a princesa Anne da Inglaterra beberam chá de coca (mate de coca), pois é a maneira tradicional na região andina para evitar a doença da altitude (hipóxia). Investigações imparciais e científicas demonstraram que o uso regular da folha de coca não é prejudicial.
No início do século XIX pesquisadores europeus começaram a fazer experiências para descobrir os segredos da planta mágica, mas foi o cientista alemão Albert Niemann, da Universidade de Gottingen, que em 1859 isolou com sucesso o alcaloide da planta de coca responsável por seu efeito estimulante.
Início do Uso Comercial
Em 1860, Ângelo Mariani introduziu o Vin Mariani, um vinho tinto com a nova droga na sua composição. Mariani acumulou uma fortuna a partir desta bebida, com a venda sendo divulgada por pessoas notáveis, como a atriz francesa Sarah Bernhardt, a rainha Vitória da Inglaterra, o inventor americano Thomas Edison e até o Papa Leão XIII.
Não demorou para empresas farmacêuticas americanas começassem a explorar a folha de coca e em pouco tempo os Estados Unidos se tornaram o maior importador e principal mercado legal de cocaína no planeta.
Por volta de 1880 a cocaína na terra do Tio Sam era receitada livremente pelos médicos em doenças como a exaustão, depressão e estava disponível em muitos medicamentos patenteados. Como a cocaína era amplamente disponível neste país, não é difícil de entender porque o xarope da primitiva Coca-Cola continha aproximadamente 4,5 mg/180 ml de cocaína até os primeiros anos do século XX.
John S. Pemberton
A História desta famosa bebida tem início indireto em 1879, quando a cocaína foi usada até mesmo para tratar o vício da morfina. Após o fim da Guerra Civil Americana, um veterano chamado John S. Pemberton começou a usar morfina para diminuir a dor dos seus ferimentos e ele rapidamente tornou-se viciado. Ele leu em uma revista médica que a cocaína poderia ajudar a curar o “morfinismo” e passou a produzir seu próprio tônico à base de vinho que continha cocaína. Quando o Estado da Geórgia impôs a proibição do consumo de álcool, ele começou a misturar cocaína com extrato de noz de cola e água de soda. Depois comercializou o produto e este se tornou um sucesso instantâneo. Pemberton vendeu sua fórmula a outro farmacêutico, que fundou a Coca-Cola Company em 1892.
Uso Médico
A cocaína foi introduzida como um anestésico em 1884 pelo Dr. Karl Koller. Este era um estagiário de oftalmologia no Hospital Geral de Viena e em um experimento público, ele aplicou no seu próprio olho uma solução de cocaína e depois, para espanto da plateia, o picou com alfinetes sem problemas.
Karl Koller – Fonte – Wikipédia.com
O Dr. Koller escreveu sobre as propriedades anestésicas da cocaína e pouco tempo depois esse medicamento foi manchete em todo o mundo e os médicos começaram a prescrevê-la em larga escala. A fabricação do medicamento envolvia um processamento onde entrava na composição um determinado número de outras substâncias químicas, formando um pó branco vulgarmente conhecido como cloridrato de cocaína. Como fármaco os efeitos da dosagem podiam variar significativamente. A cocaína foi considerada primeiramente um estimulante seguro e um ótimo tônico para os nervos.
Freud publicou em 1884 o tratado “Über Coca”, sobre a droga – Fonte – afkra.blogspot.com
Consta que nessa época Sigmund Freud, o pai da psicanalise, usou cocaína em seus pacientes e através da auto experimentação escreveu um tratado sobre o tema. Freud era conhecido por levar cocaína para suas idas ao teatro, locais de danças, esportes e passeios. Ele se tornou um viciado contumaz até que finalmente parou de usar cocaína em 1886. Apesar do uso da cocaína, Freud acabou por morrer de uma overdose intencional de morfina em 1939, atormentado pelas dores de um câncer.
Não demorou muito para os usuários e os médicos começassem a perceber que as propriedades da cocaína causavam dependência e logo vários regulamentos limitantes ao uso foram introduzidos. Um dos primeiros, o Food and Drug Act americano (Lei Federal sobre Alimentos e Drogas), de 1906, ainda não instituía a proibição, mas regulamentava a produção e venda, inaugurando a intervenção governamental no tema.
No Nosso Brasil Tropical
Eu não sei quando a cocaína chegou ao Brasil, mas sei que ela já estava no país nos trinta anos finais do século XIX.
Cocaína vendida como bebida em Juiz de Fora – MG, na década de 1880.
Encontramos em antigos jornais da década de 1880, ainda no período do Império, a propaganda de um armazém de secos e molhados da cidade mineira de Juiz de Fora, Minas Gerais, onde na sua parte destinada a bebidas, vemos que ali aparentemente se vendia uma bebida à base de cocaína. Seria uma percursora da famosa Coca-Cola, ou do Vin Mariani?
Além da importação como bebida, a cocaína evidentemente também aportou no Brasil como um medicamento.
Em 1890, na Rua dos Ourives, atual Rua Miguel Couto, no Centro do Rio de Janeiro, que na época era a Capital Federal, havia a “Pharmacia Central do Brazil”, que vendia medicamentos manipulados. Conforme a foto que segue, a mistureba de produtos medicamentosos parece mais uma receita de algum caldeirão de bruxa.
Pastilhas de cocaína vendidas no Rio em 1890
Entre os ditos medicamentos encontramos as “Pastilhas de Clorato de Potássio e Cocaína”, que serviam para as moléstias bucais e da laringe.
Interessante esta ideia de pastilhas com cocaína e clorato de potássio, pois até onde eu sei esta última substância foi um ingrediente utilizado nas antigas espoletas de armas de fogo, chamado então de clorato de potassa e quando misturado com outros materiais, pode gerar explosivos de forte potência.
A chegada cocaína ao Brasil não ficou restrita apenas a região centro sul do país. A droga extraída da folha de coca também chegou ao caloroso Nordeste.
Venda de cocaína em Recife em 1900.
Em um jornal pernambucano de 1900 temos na Rua Barão da Vitória, número 51, atual Rua Nova, no tradicional bairro de Santo Antônio, no centro de Recife, a antiga botica do Sr. Idelfonso de Azevedo, que vendia cocaína misturada com salsa, caroba, elixir de antipirina e esmaltina. Podendo o cliente escolher esta mistura liquida ou em pó.
Bem, mesmo sem ser farmacêutico, realizando uma rápida pesquisa, descobri algo interessante sobre este medicamento. O sumo de salsa (em dosagem dupla, como diz o anúncio) é rico em vitaminas B e C e a sua celulose ajuda o movimento intestinal. Já a planta caroba (também conhecido como caroba-do-mato, marupá, simauba-falsa, caraúca, carabussú, caruba, curoba, marupauba e parapará) é o que podemos chamar de um santo remédio, pois suas propriedades medicinais são adstringente, aperiente, cicatrizante, depurativo, diurético, emético, laxante, sudorífera, tônico. As indicações da caroba são para as afecções da pele, artritismo, blenorragia, cancro, catarro crônico da bexiga e uretra, coriza, dispepsia, dor (reumática, muscular), estômago, febre, gases, inflamação (próstata, rins, garganta), picada de insetos, mau hálito, sífilis, úlcera estomacal e até no combate as vermes.
Bem, junto a misturada de salsa e caroba vinha o elixir de Antipirina, que é uma substância medicamentosa usada como antitérmico e um sedativo utilizado para identificar o efeito de outras drogas. No meio desta mistura o Sr. Idelfonso de Azevedo acrescentava esmaltina, que é um mineral de cor cinza claro, uma combinação de cobalto e arsênico, utilizado na fabricação de esmaltes azuis. No final de tudo isso vinha a cocaína.
As duas próximas propagandas são respectivamente de 1900 e 1901. Originalmente publicadas em jornais baianos, estão bem explicativas na composição e servem para se conhecer o uso medicinal da cocaína no Brasil. O interessante nestas duas propagandas é que estes remédios à base de cocaína vinham da França.
Arrancar Dente Com Cocaína Era Normal
O leitor pode perceber que a cocaína chegou ao grande país tropical e simplesmente não havia restrições a sua importação, manipulação e venda. Era tudo liberado. Daí para começar o consumo no sentido alucinógeno foi um passo. Correto? Aparentemente não!
No início do século XX vemos as notícias antigas se referindo basicamente a cocaína como um produto ligado a área médica. Praticamente não se encontra uma utilização ilícita do seu uso. Se havia era algo privado, talvez restrito a determinados ambientes (cabarés, prostíbulos, lupanares, etc.), sem aparentemente afetar o dia a dia da sociedade, sem atrapalhar a vida das comunidades, principalmente nas maiores áreas urbanizadas do país.
Logo um outro tipo de profissional brasileiro passou a utilizar a cocaína; os dentistas. Voltando um pouco no tempo, sabemos que em 1884 a cocaína foi inicialmente utilizada em cirurgias oftalmológicas pelo Dr. Karl Koller Consta que neste mesmo ano um médico chamado R. J. Hall solicitou ao seu dentista que utilizasse cocaína como um anestésico para tratá-lo e aparentemente funcionou.
Na virada do século, por volta de 1903, a cocaína foi misturada com epinefrina, de modo a melhorar a sua eficácia clínica e ser utilizada para amortecer as gengivas. Mas devido a várias mortes ligadas à combinação de cocaína e epinefrina, este foi descartado por volta de 1924. No entanto, a cocaína continuou a ser utilizada e considerada uma droga útil para anestesia tópica na região do ouvidos, nariz e garganta.
Interessante lista de preços de atendimento odontológico no início do séc. XX, A cocaína era anestésico.
Na imagem que apresentamos acima temos uma propaganda do dentista Paulo (ou Paul) Kieffer, que coincidentemente atendia na mesma área onde estava estabelecida a Pharmacia Central do Brazil, na Rua dos Ourives, atual Rua Miguel Couto, no Centro do Rio de Janeiro. O Dr. Kieffer aplicava anestesia local com cocaína, ou “nevarnina” (talvez um subproduto), ao preço de 2$000 réis.
Morrer Com Cocaína Era Moda…
Mas observando os jornais antigos das décadas de 1900 e 1910, é claramente perceptível que nesse período começou a existir o consumo de cocaína, tanto para aqueles que desejavam criar seus próprios “paraísos artificiais”, mas principalmente para se matar!
Nos periódicos brasileiros do limiar do século XX, o que não faltam são inúmeras notícias de homens e mulheres, que utilizavam a cocaína pura, ou misturada com todo tipo de material, para simplesmente darem fim as suas vidas. E a imprensa da época era de uma sutileza de fazer dó e piedade. Nas páginas antigas lemos que estes desesperados eram os “decaídos”, os “desgraçados”, os “transloucados” (isso quando eram pobres), que buscavam no suicídio o fim a uma vida sem perspectivas. Este tipo de notícia era um “ótimo” incentivo para quem estava em depressão.
Nos jornais das décadas de 1900 e 1910 percebemos que a quantidade de suicídios chegou a um ponto tal, que virou uma espécie de “moda” se matar com cocaína.
As mulheres eram o grupo majoritário que recorriam a cocaína para dar cabo de suas vidas. Não podemos esquecer o quanto era terrível a situação das mulheres nesta época. Criadas para serem exemplares donas de casa, servir aos maridos, trabalharem pesado pelos filhos e pela casa, em uma sociedade onde trabalhar fora, ou ser separada, era uma distância mínima para serem consideradas vulgares, ou algo pior. A perda da virgindade sem que houvesse a consumação do casamento, ou um filho indesejado, era um verdadeiro suplício, principalmente para as mulheres mais pobres. Para muitas o suicídio era a solução dos seus problemas.
Em relação à maneira de morrer com cocaína, chama atenção o fato dos jornais comentarem que os suicidas faleciam ingerindo quantidades que poucas vezes ultrapassam cinco gramas da droga. Não tenho base de conhecimento para saber se na atualidade esta quantidade de cocaína é capaz de matar uma pessoa, mas no passado era normal misturar a cocaína com outros produtos, até mesmo benzina, um líquido obtido na destilação fracionada do petróleo e utilizado, entre outras aplicações, como solvente.
Pelo que pude compreender não havia a figura clássica do traficante. O comércio era exercido pelos funcionários das farmácias, ou por algum um farmacêutico, certamente com a anuência e o beneplácito do proprietário.
Tudo leva a crer que de um pseudo modismo para se alcançar a morte, restrito aos ambientes privados, logo o consumo de cocaína no Rio de Janeiro passou a ser algo que passou a chamar atenção do dia a dia da sociedade carioca.
Venda e Consumo da Cocaína no Rio de Janeiro
Em 4 de janeiro de 1913, jornalistas do periódico carioca A Noite, em um interessante trabalho investigativo, apresentaram os processos do consumo de cocaína na primeira metade da década de 1910 na cidade do Rio de Janeiro. Foram noticiados que vários jornalistas compraram em meia hora 37 gramas de cocaína sem maiores problemas, sem nenhum estabelecimento farmacêutico exigir uma receita médica.
Consta na reportagem o preço dos frascos variou de 1$000 a 2$500 réis (um mil a dois mil e quinhentos réis). Para efeitos de comparação, no mesmo exemplar de A Noite encontramos o anúncio da Cervejaria Tolle, instalada na Rua Riachuelo, 92, onde cada garrafa da cerveja neozelandesa “Bismarck Brown” custava $300 réis (trezentos réis).
Ou seja, pelo preço médio de um frasco com uma grama de cocaína, podia se comprar de três garrafas de cerveja importadas da Nova Zelândia. Talvez isso explique porque era tão fácil morrer com cocaína.
Típica farmácia, ou drogaria, nos Estados Unidos em 1905. No Brasil elas não eram muito diferentes – Fonte – Wikipédia.org
Para os jornalistas, só “uns 20 %” do pessoal das farmácias trabalhavam corretamente. O resto vendia cocaína aos cariocas sem problemas. As notícias apontaram que junto aos profissionais dos estabelecimentos farmacêuticos trabalhavam os “rápidos”, ou seja, as figuras que entregavam rapidamente a cocaína, daí o nome!
A reportagem escancarou geral. Deu nome das farmácias que venderam as drogas e quem não vendeu. Foram publicados os endereços dos estabelecimentos, as quantidades vendidas em cada local e, num verdadeiro escândalo, até uma criança na Rua do Estácio comprou cocaína sem nenhum problema a pedido dos jornalistas. Um atendente afirmou que vendia de setenta a cem gramas da droga por dia.
As matérias de “A Noite” foram bem denunciativas, mas parece que não obteve maiores resultados.
Ampliação e Declínio do Uso da Cocaína
Nesta história toda descobri que a repressão não era tanto pelo lado policial, mas praticada pelo pessoal da Saúde Pública. Eram os funcionários desta repartição que fiscalizavam os estabelecimentos farmacêuticos e a atuação dos funcionários destes locais.
A polícia participava quando havia denúncias de venda e consequente morte de alguém, mas era difícil provar a participação deste pessoal nesse tráfico. Quem comprava cocaína para se matar e por um erro na aplicação sobrevivesse, tinha pouco interesse em denunciar seus fornecedores diante da vergonha do seu ato. Normalmente estes suicidas, conforme já foi dito aqui, eram das classes mais humildes da sociedade carioca e ninguém os escutava. Se morressem eram enterrados e ficava por isso mesmo!
Provavelmente como um resultado paralelo da investigação jornalística de A Noite contra o consumo de cocaína, foram publicadas algumas cartas denunciando o uso de cocaína em locais públicos. No dia 12 de abril de 1913 esse jornal trouxe na sua segunda página o relato enviado por um leitor, que apontava a condição degradante das mulheres viciadas em cocaína, que se prostituíam pela droga nas praças do centro do Rio de Janeiro, como elas eram aliciadas e como se encontravam em franca decadência física e moral.
Uma carta denúncia de 1913, incomodamente atual.
Concluía o leitor pedindo aos jornalistas que realizassem um trabalho investigativo.
O relato desta denúncia é bastante similar ao que ocorre atualmente com as jovens que se prostituem para consumir cocaína e o seu nefasto “filhote”, o crack.
Percebemos através da leitura dos jornais antigos que entre as décadas de 1910 e 1920 passou a existir uma maior preocupação, um maior debate, até mesmo uma maior repressão a compra e venda de cocaína no Brasil.
No início da década de 1920 o consumo de cocaína começou a diminuir no Brasil. Mas não foi por campanhas governamentais, ou pelo endurecimento da repressão e combate ao consumo da droga. A farra diminuiu porque simplesmente o produto foi escasseando no mercado externo.
Para os pesquisadores do tema os fatores deste declínio estavam no surgimento de leis restritivas e punitivas que baniram a cocaína e a heroína do mercado livre em vários países, principalmente nos Estados Unidos. Maior controle da importação e exportação desta droga, perseguição aos médicos que prescreviam tais substâncias indiscriminadamente, além do surgimento na Europa de medidas socioeducativas e de saúde pública, visando à prevenção e ao tratamento desses pacientes. O próprio advento da depressão econômica, com a quebra da Bolsa de Nova York em 1929, deixou o mundo com menos dinheiro para gastos supérfluos. E por fim, o surgimento das anfetaminas em 1932, como um novo e potente estimulante de longa duração, ajudou em certo ostracismo da cocaína.
Mas aparentemente estas situações não significaram o fim total da vinda e do consumo da cocaína no Brasil antes da Segunda Guerra Mundial. Tanto assim que o popular cantor Francisco Alves intitulou a sua música para o carnaval de 1937 como “Cocaína”.
Não Baixem a Guarda, esta Epidemia Está Aí e Não vai Acabar tão Cedo e Nem Existe Vacina
Sabemos que foi na convenção internacional realizada pela Organização das Nações Unidas em 1961, que estabeleceram regras que pautariam as políticas sobre drogas em vários países entre o final do século XX e os dias atuais. O critério principal foi proibir drogas que não tinha uso médico e essas substâncias passaram a ter um maior controle e repressão. Na sequência os Estados Unidos assumiram a dianteira da cruzada antidrogas, fortalecendo o combate ao tráfico, com operações internacionais de alcance cada vez maior e impondo aos demais países na Europa e nas Américas Latina e do Sul convenções que dariam origem à chamada “guerra às drogas”, que foi declarada pelo presidente americano Richard Nixon em 1972.
Combate a fabricação de cocaína na Colômbia.
Nesse meio tempo a cocaína voltou à cena como estimulante em um mercado de trabalho cada vez mais frenético. A economia do tráfico, então, assumiu um novo circuito. Tradicionais regiões de plantação de coca na Bolívia e Peru aumentaram sua produção para o mercado ilícito; a pasta produzida era repassada a principalmente a vendedores colombianos, que era encaminhada aos centros consumidores nos Estados Unidos e Europa. Países como o Brasil serviam apenas de entreposto logístico da droga e eram centros de consumo de menor importância. Mas com o crescimento econômico do país, deixou de ser apenas um corredor para o tráfico internacional de drogas, mas como um grande mercado consumidor.
Os jovens com poucas oportunidades de educação e trabalho dignos foram atraídos pelo poder e dinheiro dos traficantes de cocaína, crack e armas. Muitos foram (e ainda são) assassinados em guerras de gangues que se seguiram e que conhecemos bem dos jornais.
Amigos e amigas queiram vocês ou não, as drogas como a cocaína, crack, heroína, anfetaminas, maconha, lança perfume, álcool e outras desgraças estão nas ruas, nas portas das escolas, nas casas de espetáculo, na porta da sua casa, nos locais de trabalho e por aí vai. Não conheço outra maneira de livrar nossos filhos deste problema do que sendo seus maiores amigos, confidentes, tendo tempo para estar ao lado deles.
E não custa nada conhecer o que são estas drogas através de leituras e de outras formas de informação, assim é possível debater melhor sobre os malefícios que estes produtos geram.
Não baixem a guarda, esta epidemia está nas ruas tanto quanto o COVID-19. Mas para o COVID já existem vacinas e para as drogas não e seu consumo não vai acabar tão cedo!
Todos os direitos reservados
É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.
NOTA
[1] Não era apenas a cocaína que preocupava as autoridades, mas a morfina também estava na alça de mira. Descoberta pelo farmacêutico alemão Friedrich Wilhelm Adam Sertürner em 1817, a morfina é um analgésico processado quimicamente a partir do látex seco obtido das cápsulas das sementes de uma planta chamada papoula (Lachryma papaveris), sendo e desse látex conhecido como ópio.
As primeiras décadas do século XX foram tempos bem difíceis para qualquer mulher no Brasil. Era um período estranho, insatisfatório, cheio de aspirações ingratas em meio a uma sociedade dominada pelos homens.
Era um tempo onde a mulher era vista como uma criatura diferente, onde se ofuscou suas qualidades e habilidades, onde o padrão duplo de moralidade privilegiava os homens no que se referia a absolutamente tudo[1].
Quem ainda tinha pais que se esmeravam em dar as suas filhas alguma educação, proporcionada por uma melhor condição financeira e social, poderia fazer esta jovem sonhar em ser uma professora, praticamente a única profissão aceita para as moças ditas de boa família.
Já quando uma mulher vinha de uma classe menos abastarda e a educação e os recursos eram limitados, ela poderia almejar ser uma empregada doméstica, trabalhando em condições desprezíveis e com salários miseráveis. Isso quando recebiam salário![2]
Permanecer solteira era considerado uma verdadeira desgraça e aos trinta anos uma mulher que não fosse casada já era chamada de velha solteirona.
Foto ilustrativa que mostra a diferença do padrão de vestuários entre homens e mulheres no início do século XX no Brasil. Percebemos que até na vestimenta as mulheres seguiam rígidas normas – Fonte – José Valdir Nogueira, de Belmonte-PE
E estando nesta condição, como essas mulheres sobreviviam depois que seus pais morriam? O que elas podiam fazer? Para onde poderiam ir?
Se tivessem um irmão, ou uma irmã com um cunhado benevolente poderia viver em suas casas, como hóspedes permanentes e indesejados. Ou então se tornavam freiras, o que às vezes nem era tão simples.
A típica filha de “boa família” – Fonte – – Fonte – Enciclopédia Nosso Século, Livro 1 – 1900/1910, Editora Abril, 1980, pág. 29.
Diante da pouca importância social dada as mulheres naquela sociedade arcaica, cedo as jovens brasileiras compreendiam que a instituição do casamento era única porta aberta para uma vida que fosse respeitável, pretensamente mais segura e menos difícil.
Seguindo essa linha de pensamento, muitos pais acreditavam que uma educação séria para suas filhas era algo supérfluo. Sendo assim os bons modos, prendas domésticas e saber cuidar dos filhos e do marido seriam o suficiente para elas. Este era um pensamento comum, onde aprender aritmética não ajudava as filhas a encontrar um bom partido[3].
O cotidiano dessas mulheres então se baseava quase que totalmente nos afazeres domésticos. Muitas delas não tinham interesse para a instrução e a consciência de mudança através do conhecimento era quase inexistente.
Prostituta do início do século XX no Brasil – Fonte – Enciclopédia Nosso Século, Livro 1 – 1900/1910, Editora Abril, 1980, pág. 29.
Mas está casada por si só não era garantia alguma de estabilidade e uma vida sem privações. Neste contexto certamente não poderia haver nada de pior, de mais terrível, se algumas destas mulheres casadas fossem abandonadas pelos seus companheiros[4].
Nesse caso, se a mulher abandonada não tivesse uma estrutura familiar preparada para lhe apoiar, ficaria exposta à miséria. Mas é bom lembrar que naquela época a maioria das mulheres abandonadas pelos companheiros era terrivelmente discriminada pela família e pela sociedade.
Em 1912 o fotógrafo americano John Ernest Joseph Bellocq se aventurou por Storyville, o distrito da “luz vermelha” de New Orleans. Mas ele estava lá apenas pelo trabalho. Bellocq nunca conseguiu publicar as imagens, que só foram descobertas muito tempo após a sua morte. Lee Friedlander foi quem as encontrou em uma pasta empoeirada no velho estúdio do fotógrafo. Ele cuidou para que eles fossem impressos e liberados ao público – Fonte -https://www.ideafixa.com/as-prostitutas-de-new-orleans-em-1900/
Para muitas mulheres então a única maneira de não passar fome naqueles tempos duros era a prostituição (do latim “prostituere”: “colocar diante”, “à frente”, “expor aos olhos”)[5].
Os homens acreditavam (e muitos ainda acreditam) que as prostitutas vendiam seus corpos em um ato livre de busca pelo prazer, apenas para satisfazer seus desejos carnais, suas taras. Esquecendo que estas mulheres eram (e ainda são na maioria dos casos), impulsionadas à prostituição devido a elementos de diversas ordens.
Marinheiros norte-americanos negociando com prostitutas em um prostíbulo do Rio de Janeiro no início do século XX – Fonte – Fonte – Enciclopédia Nosso Século, Livro 1 – 1900/1910, Editora Abril, 1980, pág. 28.
Entre outras causas estavam as deficiências no meio familiar (era comum o fato de muitas mulheres terem sido violentadas pelos membros da sua própria família), ou uma gravidez inesperada com a consequente expulsão de casa e a falta de capacitação para desenvolver uma profissão que lhe sustentasse. Assim a prostituição em troca de favores, de sobrevivência, revelou-se uma opção[6].
A Mulher Livre de Campina Grande
Estudiosos e pesquisadores acreditam que as características de como se apresenta nos dias atuais aquela que é considerada “a profissão mais antiga do mundo”, é um resultado direto do desenvolvimento urbano. E o Brasil do início do século XX, não obstante ainda possuir sua economia atrelada basicamente a produção rural, começou a viver uma nova fase de sua história econômica.
Décadas antes havia sido extinta a estrutura escravista e as primeiras práticas capitalistas tornavam-se presentes no meio econômico do país. Logo essas mudanças ocasionavam profundas alterações nas relações sociais em algumas regiões do Brasil, modificando substancialmente muitos núcleos urbanos[7].
E uma cidade chamada Campina Grande, localizada no interior da Paraíba, aproveitou soberbamente as mudanças que surgiram no horizonte econômico do país e mudou para sempre a sua história, tornando-se uma referência no Nordeste do Brasil.
A história desta urbe possui características similares a criação de muitas localidades nordestinas no final do século XVII – Uma pequena propriedade agropecuária que gradativamente vai ampliando sua população na medida em que ocorre o seu desenvolvimento econômico. Mas no caso de Campina Grande a sua criação certamente foi acompanhada de uma interessante percepção geográfica dos seus criadores, pois o lugarejo estava fadado a se tornar um grande entreposto comercial da região.
Conforme o lugarejo crescia ele tornou-se um ótimo ponto de apoio para pessoas que se deslocavam entre o litoral e o interior da província, além de ser um bom ponto de parada para aqueles que negociavam produtos como carne, roupas de algodão e farinha. Campina Grande começou a ter em 1790 um governo formal, constituído por um conselho da cidade e um cartório.
Embora existisse muita atividade comercial, havia muito pouca construção real de casas e prédios do governo, tanto que no final do século XIX a cidade só possuía cerca de 500 habitações. O desenvolvimento da localidade foi estimulado pelo crescimento da indústria regional de algodão e a introdução da ferrovia, tanto como via de escoamento deste produto agrícola, como via de chegada de produtos manufaturados mais baratos e variados que impactaram a economia local de forma radical. Isso tudo causou a transformação de uma pequena aldeia com cerca de 2.800 pessoas em 1872, para uma movimentada cidade com 38.303 habitantes em 1900[8].
E é em meio a essa cidade pulsante, em franco crescimento em uma região pobre, onde o dinheiro é presente e circulante, que vamos encontrar no ano de 1915 a jovem Amélia Mendes da Silva.
Esta é uma mulher que naquele ano tinha 28 anos de idade, nasceu na localidade de Serraria, a cerca de 80 quilômetros ao norte de Campina Grande, e para sobreviver proporcionava prazer aos homens da terra com seu corpo e seus atributos sexuais[9].
Atacada Por Um Cangaceiro
Sabemos que Amélia era separada de João Bento da Silva, mas não sabemos a razão de sua separação e nem a razão da sua entrada no ramo da prostituição. Mas em 1915 ela aparentemente estava conseguindo tocar sua vida naquela atividade com certa garantia de sobrevivência.
Isso fica um tanto claro na única foto existente de Amélia. Ela mostra uma mulher com traços faciais interessantes e proporcionais, com belos lábios carnudos, utilizando um chapéu típico das mulheres urbanizadas da época. Vemos igualmente Amélia utilizando uma roupa com um interessante bordado e dois grandes colares em volta do pescoço. Sendo estes colares de ouro (o que infelizmente não consegui nenhuma indicação), apontaria claramente que Amélia não fazia seu trabalho em um prostíbulo, os populares cabarés. A jovem paraibana era uma prostituta independente, ou isolada, aparentemente sem ter a sombra de um cafetão para ditar regras, que habitava na sua própria casa, escolhia com quem teria as suas relações sexuais, quanto ganharia por cada programa. Assim ela poderia atender um menor número de homens e consequentemente ter uma renda melhor.
Assim Amélia evitava viver em uma casa normalmente com sérios problemas de higiene, onde as mulheres que ali trabalhavam eram obrigadas a receber todos aqueles que frequentavam o bordel e tinham pouco repouso proporcionado pelas donas dos prostíbulos. Além de estarem mais próximas da violência devido à alta rotatividade dos clientes.
Mesmo assim a forma como Amélia praticava a sua profissão não lhe isentava de sofrer alguma violência. E foi isso que lhe aconteceu de forma contundente em maio de 1915, quando dois homens lhe aplicaram uma terrível surra em sua casa e lhe estupraram com extrema violência.
Esse ataque bestial teria sido realizado, segundo comentaram seus algozes, a mando de um cliente enciumado com a prostituta paraibana. Existe outra versão que afirma que a violência teria sido realizada a mando de uma rica senhora da sociedade de Campina Grande, que percebeu que seu marido se afastava cada vez mais em direção a cama de Amélia e direcionava seus carinhos a uma mulher que era tida como “descaída”.
O problema para Amélia é que um dos homens, o que comandava a dupla, prometeu que onde a encontrasse em outra ocasião lhe mataria[10].
Antônio Silvino
E o homem em questão não era alguém de promessas vazias. Ele havia sido um cangaceiro do bando de Antônio Silvino.
Um Cabra Complicado Até Para Outros Cangaceiros
Seu nome era José Maria de Oliveira, sua alcunha Serrote e teria nascido em algum local na Paraíba. Era conhecido por já ter praticado diversos crimes, entre estes assassinatos. Sempre agindo com requintada malvadeza na região do interior do estado onde nasceu. Ele foi descrito pelos jornais da época como tendo “estatura regular, preto, cabellos carapinhos, olhos grandes, nariz chato, orelhas grandes, pés e mãos pequenas, dentadura perfeita”.
Um jornal recifense aponta que em agosto de 1909, após Antônio Silvino retornar do Ceará, ele e seus homens foram vistos na região rural da cidade paraibana de Cabaceiras e na mesma nota é informado que Serrote estava com um pequeno bando de quatro membros, um “subgrupo” de Silvino, agindo de forma independente para atrair a atenção das volantes da polícia[11].
Entretanto outro periódico mostra que Serrote não havia deixado o bando de Silvino comandando um subgrupo, ele havia sido expulso pelo chefe, com mais outros cabras da sua laia, por Silvino não confiar nessa gente. Nesta nota ele foi tido como “Trahidor” e “perverso ao extremo” pelos seus próprios companheiros de cangaço.
Ainda em relação às andanças de Serrote como chefe de bando em 1909, ele parece não ter ido muito longe nesta função que requeria astúcia, companheirismo, uma boa rede de apoiadores e enorme capacidade de combate. Pois uma nota na segunda página do Jornal do Recife, edição do dia 4 novembro de 1909, aponta que Serrote havia sido preso no lugar denominado Bonita, próximo a Cabaceiras, ficando lá recolhido. É desta época a foto que trago deste cangaceiro[12].
Sobre o hiato de sete anos entre a prisão de Serrote a o ataque contra Amélia em Campina Grande eu não consegui nenhuma informação. Mas se este cabra safado, que possuía tão terrível fama e uma extensa ficha criminal, estava vivendo tranquilamente na rica cidade do interior da Paraíba, é que certamente era protegido de alguém muito poderoso. Onde provavelmente Serrote era utilizado, junto com outros de sua estirpe, para variados serviços violentos, como a surra e o estrupo cometidos contra Amélia.
Para esse bandido, que um dia se ombreou com Antônio Silvino, certamente a cidade de Campina Grande, com sua larga circulação monetária, proporcionava uma condição de ação muito mais facilitada do que andar de arma na mão no meio da caatinga.
Além disso, diante das sempre comuns querelas politicas e dos muitos conflitos sociais, um elemento com o seu nível de “expertise” não era de todo descartável e poderia ser sempre útil para abonados de baixo caráter. E certamente que sua fama de antigo companheiro do chefe cangaceiro Antônio Silvino só lhe ajudava nestas nefandas atividades em Campina Grande.
Luta na Noite de Campina Grande
Não tenho dúvida que diante das lesões provocadas em seu corpo e igualmente pelo medo daquele homem perverso e do seu companheiro de atividades criminais, Amélia passou um tempo escondida. Para não dizer acuada[13].
Mas ela não tinha ninguém para lhe proteger e precisava sair para se sustentar. Fugir certamente não estava nos seus planos, pois tinha seu local de repouso em Campina Grande, tinha clientela e ir embora significava viver em algum fedorento cabaré perdido no interior do Nordeste, com todas as incertezas que esta decisão acarretaria.
Foi então que Amélia passou a andar com um punhal e foi para rua para sua triste e dura luta de vender o seu corpo para sobreviver.
A imagem de violências praticadas contra as mulheres era muito comum no início do século XX – Fonte – http://www.pinterest.com
Mas o seu encontro com o antigo cangaceiro não demorou.
Eram por volta das seis da noite de uma terça-feira, 11 de maio de 1915, quando a jovem Amélia seguia por um beco que desembocava em uma avenida denominada Lauritzen. Neste momento, na esquina, ficou frente a frente com seu algoz[14].
Logo Serrote partiu para o ataque e desferiu pesada cacetada com um porrete na cabeça da mulher, que baqueou, mas suportou a pancada. Nesse momento, quando Serrote se preparava para desferir o segundo golpe, para sua total surpresa Amélia cravou-lhe com coragem e segurança o punhal no peito do cangaceiro.
Através da dissertação de Mestrado em História “Cidade e Imagens: Crônicas visuais das Ruas de Campina Grande? PB (1900-1950)”, do historiador João Paulo França, descobri a obra “Abrindo o livro do passado”, publicada em 1956, e de autoria do escritor e historiador campinense Cristino Pimentel. Ele afirmou em seu livro que o ferimento no cangaceiro foi embaixo do peito esquerdo e nem sangue saiu. Para o falecido cronista Pimentel o conflito se deu em um beco que era conhecido pelo sugestivo nome de “Beco dos Paus Grandes”, atual Rua João Alves de Oliveira[15].
Segundo os jornais da época o perigoso Serrote saiu cambaleando e não fez uso de um revólver carregado com seis munições que trazia na cintura e que depois foi encontrado com ele. O violento ex-cangaceiro andou um pouco mais e foi cair na calçada, defronte ao comércio de Elias Montenegro[16].
Amélia por sua vez, ao ver que Serrote se afastava cambaleando e por não ver seu inimigo sangrando, decidiu sair discretamente do palco dos acontecimentos. Certamente acreditava que espantara aquele verdadeiro “encosto” de sua vida.
Dali seguiu tranquilamente para um hotel onde jantava com frequência. Lá soube por algumas pessoas que nas proximidades o temido cangaceiro estava morto na calçada e entendeu que aquilo foi o resultado de sua certeira estocada.
Do jeito que ela estava no hotel, ela continuou e não se abalou. Certamente com uma sensação positiva, ela não fez a mínima ação de evadir-se do local e jantou tranquilamente aguardando o seu destino. Ainda bem tranquila ela comentou com todos os presentes no hotel que ela era a responsável pela morte do cangaceiro e explicou a causa do assassinato.
Após encerrar seu jantar Amélia Mendes da Silva, certamente acompanhada de muitos curiosos e quero crer de cabeça erguida, se dirigiu para se entregar a polícia de Campina Grande. Junto à autoridade policial ela relatou o ocorrido e as razões do seu ato. Ficou presa.
No outro dia os jornais comentam que a cidade entrou em transe com os acontecimentos, exultando a morte deste perigoso elemento. Muitos foram ver o cadáver do homem que um dia andou junto a Antônio Silvino e depois seguiram para cadeia ver a mulher que o matou.
Mesmo sem haver encontrado nenhuma outra referência sobre violências praticadas pelo antigo cangaceiro Serrote em Campina Grande e região, é perceptível pelos jornais a descrição de um certo alívio pela morte do celerado.
Diante do que ocorreu Amélia recebeu apoios. O ilustre educador Clementino Gomes Procópio se prontificou a patrocinar a causa pela defesa da prostituta[17].
Fugindo Para Sobreviver
Segundo bem observou o historiador João Paulo França em sua tese de Mestrado, os códigos de comportamento da sociedade campinense de então reconheceram a “legítima defesa” de Amélia e a absorveram por unanimidade “aquela mulher da vida”. É plausível que o passado de “cangaço”, e os espancamentos feitos por Serrote, muito contribuíram para que seu assassinato fosse visto como um “alívio” para a sociedade. Todavia, Amélia a partir de então “deixava” de ser “Amélia Mendes da Silva”, para carregar pelo resto da vida a alcunha de “Amélia de Serrote”.
O historiador nós trás em seu trabalho acadêmico as palavras do cronista Cristino Pimentel, que em seu livro de 1956 comentou sobre o destino de Amélia de Serrote – “vítima da má sorte e dos homens, perseguida pelo destino, tomou o caminho dos ignorados, pois não se sabe como, nem onde foi ficar depois de absolvida pelo crime”.
Estando correta a afirmação do ilustre Cristino Pimentel, mesmo com a absolvição do seu crime, mesmo com toda a repercussão positiva em relação ao caso, é provável que Amélia de Serrote tenha decidido deixar Campina Grande pelas ligações que o antigo cangaceiro possuía junto a poderosos da cidade. Isso provavelmente fazia dela um elemento de risco para alguém. Enfim ela já tinha levado uma baita surra ordenada por alguém poderoso e algo pior poderia advir contra ela a qualquer momento.
O certo é que nenhuma referência mais eu encontrei sobre esta valente mulher paraibana, que um dia matou um cangaceiro.
Em tempo – E porque não pensar em um final feliz?
Talvez diante do feito de Amélia ao matar o cangaceiro, quem sabe se algum homem não lhe propôs uma união estável?
Ela então deixou a prostituição, saiu de cena e viveu uma vida tranquila e feliz!
[3] Sobre a problemática do processo de escolarização que se realizou no Brasil desde a chegada dos jesuítas até a Revolução de 1930, sob a ótica do gênero ver “UM OLHAR NA HISTORIA: A MULHER NA ESCOLA (BRASIL: 1549 – 1910)”, de Maria Inês Sucupira Stamatto, do Programa de Pós-Graduação em Educação – UFRN – http://www.sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe2/pdfs/Tema5/0539.pdf Ver també “MULHER E EDUCAÇÃO CATÓLICA NO BRASIL (1889-1930): DO LAR PARA A ESCOLA OU A ESCOLA DO LAR?”, de Michelle Pereira Silva, Geraldo Inácio Filho, Universidade Federal de Uberlândia – http://www.histedbr.fe.unicamp.br/revista/revis/revis15/art14_15.pdf
[4] Sobre o cotidiano das mulheres neste período ver “MULHER, MÃE, TRABALHADORA, CIDADÃ…: CONDIÇÃO FEMININA NAS TRÊS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX”, de Simone da Silva Costa, Doutora em História e Professora da Prefeitura Municipal de Santa Rita – PB – file:///C:/Users/Isa%20Bezerra/Downloads/23811-47870-2-PB.pdf
[9] Ver “AS DECAÍDAS: PROSTITUIÇÃO EM FLORIANÓPOLIS (1900 – 1940)”, de Silvia Maria Fávero Arend – file:///C:/Users/Isa%20Bezerra/Downloads/6175-18860-1-SM.pdf
[10] Ver “JORNAL DE RECIFE”, Recife-PE, edição de quinta-feira, 1 de julho de 1915, pág. 3.
[11] Essa tática de criar subgrupos entre os integrantes de Antônio Silvino não era novidade, sendo um dos mais famosos era o subgrupo do cangaceiro Cocada, cujo nome verdadeiro, segundo o cangaceiro Rio Preto, era Manoel Marinho, sendo natural de Guarita, vila localizada a menos de dez quilômetros da cidade paraibana de Itabaiana e teria cerca de 40 anos em 1906. Mário Souto Maior comenta, sem informa datas, que Cocada morreu em combate no lugar chamado Serrinha, na Paraíba. No seu local de morte, o povo ergueu um cruzeiro. O folclorista Evandro Rabelo, ao passar pelo local, viu depositado na base da cruz, alguns ex-votos de pessoas que obtiveram graças por intermédio deste cangaceiro. Ver https://tokdehistoria.com.br/2011/12/04/a-saga-do-cangaceiro-rio-preto/
[12] Ver “JORNAL DE RECIFE”, Recife-PE, edição de quinta-feira, 1 de julho de 1915, pág. 3.
[13] Eu não consegui nenhuma informação sobre que era o homem que ajudou Serrote na violência contra a prostituta Amélia.
[14] Essa suposta avenida, da qual não encontrei referências, seria alusiva a figura de Christian “Cristiano” Lauritzen. Este foi um imigrante dinamarquês nascido em 1847 e que chegou ao Brasil, mais precisamente em Recife, aos 21 anos de idade. Por volta de 1880 se estabeleceu em Campina Grande, quando a cidade tinha pouco mais de três mil habitantes. Em 1883 casou-se com a senhora Elvira Cavalcanti, filha do comerciante Alexandrino Cavalcanti, então Presidente da Câmara Municipal de Vereadores, com quem teve dez filhos. Lauritzen foi prefeito municipal durante 19 anos ininterruptos e durante sua longa gestão ocorreu a chegada do primeiro trem na cidade, marco histórico para o desenvolvimento econômico da região. Em 1922 fundou o Jornal Correio de Campina Grande e faleceu no ano seguinte, ainda exercendo o mandato de prefeito.
[16] Já para Cristino Pimentel, em seu atualmente raro livro, o cangaceiro Serrote não sentiu que estava ferido e foi tombar, para morrer, no “Beco de seu Lindolfo”. Ainda sobre Elias Montenegro eu descobri que naquele mesmo ano de 1915, poucos meses antes da morte de Serrote, mais precisamente no dia 12 de abril, o comerciante havia sido um dos sócios fundadores do time de futebol Campinense Clube, uma das mais tradicionais equipes de futebol da Paraíba e conhecido como o “aristocrático”. Ver – http://cgretalhos.blogspot.com.br/2009/09/campinense-clube-1-parte.html#.V-B_1_ArLIU
[17] Nascido na fazenda Chéus, no município pernambucano de Bom Jardim, em 1855, Clementino Gomes Procópio foi seminarista aos quinze anos, mas não concluiu os estudos para ser padre. Depois de uma breve passagem pela cidade de Batalhão, hoje Taperoá, na Paraíba, onde fundou uma escola, seguiu para Campina Grande em 1877. Foi político, jornalista e fez da educação seu ofício maior. Fundou o Instituto São José, uma escola particular que funcionava como internato e externato, no bairro de São José. Consta que a caridade era um traço forte de sua personalidade, talvez aí se explique se colocar ao lado de Amélia na sua defesa jurídica no caso do assassinato de Serrote. Faleceu aos 80 anos, em 1935. Ver http://cafecomresenhas.blogspot.com.br/2013_08_01_archive.html