NATAL A OITO DIAS DA TEMPESTADE DE 1935

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Há fotografias que guardam mais do que a simples pose de seus personagens; guardam o silêncio que antecede as grandes rupturas históricas. É o caso deste impressionante registro feito em Natal, no dia 15 de novembro de 1935. À primeira vista, a imagem colorizada através de Inteligência Artificial, nos apresenta o brilho de uma festividade cívica impecável. Contudo, cruzar os detalhes dessa cena com as páginas dos jornais da época revela que aquele era, literalmente, o último sopro de normalidade de uma capital prestes a explodir.

Apenas 17 dias de Governo e uma Sexta-feira de Festa

O cenário é a Avenida Rio Branco. O relógio marca precisamente 8h30 da manhã de uma sexta-feira. No centro da imagem, desfila o imponente automóvel oficial preto, um Ford Model 40, ano 1934, conversível, equipado com o famoso e possante motor Flathead V-8, ostentando a placa “RN 8-0”. No banco de trás do conversível, encontra-se o Governador Rafael Fernandes Gurjão.

Para entender a imponência do cortejo, é preciso recuar apenas 17 dias no calendário: Rafael Fernandes havia acabado de assumir o governo do Rio Grande do Norte após uma eleição acirrada na Assembleia Constituinte, em 29 de outubro. O desfile do feriado nacional do 46º aniversário da Proclamação da República era a oportunidade perfeita para consolidar sua imagem pública diante do povo natalense.

Ao seu lado, no veículo, militares e civis o acompanham. À direita, destaca-se a farda branca de gala de um oficial das Forças Armadas — o comandante do 21º Batalhão de Caçadores (21º BC), que, segundo os protocolos oficiais, faziam a revista das tropas naquela manhã.

O Ineditismo da AFA: Equitação e Ciclismo na Avenida

Graças às páginas preservadas do jornal A República, editado naquele exato 15 de novembro de 1935, conseguimos decifrar a identidade do cordão de isolamento que escolta o governador. Não se trata de uma unidade militar, mas sim das jovens da Associação Feminina de Athletismo (AFA).

NATAL A OITO DIAS DA TEMPESTADE DE 1935

O jornal anunciava com entusiasmo: “Associação Feminina de Athletismo — Um espectáculo de grande attracção e ineditismo para a cidade — Homenagem ao Governador do Estado”.

A reportagem detalhava que as atletas da AFA se apresentariam demonstrando os esportes praticados na agremiação, incluindo equitação e ciclismo. A fotografia imortaliza exatamente essa divisão: à esquerda, jovens rigorosamente alinhadas montam seus cavalos; à direita, dezenas de meninas seguram suas bicicletas, abrindo um corredor humano para a passagem do carro oficial. Todas vestem o uniforme padrão da associação — camisas azuis e saias brancas — e algumas utilizam boinas claras. Ao fundo, grandes bandeiras de agremiações esportivas e civis (como os tradicionais ABC e América) tremulam, conduzidas pelas próprias participantes.

A multidão que se espreme no calçamento de pedras reflete a diversidade social da Natal de 1935: cidadãos abastados de terno, populares em trajes simples e soldados da Polícia Militar do RN em seus característicos uniformes caqui, todos emoldurados pela arquitetura da época e pelos então modernos postes de fiação elétrica da Avenida Rio Branco.

Do Desfile Diurno às Luzes da Noite: O Misterioso Arco Japonês

O programa festivo impresso no jornal revela que as homenagens a Rafael Fernandes se estenderiam até depois do pôr do sol, prevendo uma “grande e deslumbrante corrida nocturna de bicycletas”. É nas linhas dedicadas aos preparativos dessa segunda parte do evento que surge um dos detalhes mais intrigantes do dia: a crônica menciona que, na entrada da Avenida Deodoro, foi erguido um “artístico ARCO DE TRIUMPHO em estylo japonez”, cuja iluminação especial ficou a cargo do engenheiro elétrico José Reis.

Meninas da Associação Feminina de Athletismo (AFA) de Natal na década de 1930.

Como a nossa fotografia registra o início das celebrações da manhã na Avenida Rio Branco, esse arco exótico infelizmente ficou fora do enquadramento. No entanto, cruzando o roteiro do desfile — que seguiria pela Rua João Pessoa até a Avenida Deodoro —, é altamente provável que a estrutura estivesse sendo finalizada ou já montada mais adiante, aguardando o cair da noite.

Essa escolha estética pelo “estilo japonês” para um arco de triunfo cívico, embora soe curiosa hoje, reflete o ecletismo cultural e as influências arquitetônicas internacionais que flertavam com a modernidade urbana de Natal na década de 1930. É muito provável que o arco funcionasse como o portal de chegada ou o ponto central de iluminação onde o governador e as famílias da elite potiguar assistiriam às competições noturnas a partir de um coreto.

A Calmaria Antes da Tempestade

O que torna essa fotografia verdadeiramente magnética é o contexto invisível aos olhos dos personagens que sorriam para a câmera. Aquela manhã ensolarada de esporte, civismo e celebração feminina aconteceu apenas oito dias antes da eclosão da Insurreição Comunista de 1935 (também conhecida como Intentona Comunista).

Quartel da Força Policial, conhecido como “Quartel de Salgadeira”, em Natal, após ser metralhado durante a Intentona Comunista – Foto – toxina1.blogspot.com

Na noite de 23 de novembro, os mesmos setores do 21º Batalhão de Caçadores — cujo comandante dividia as atenções com Rafael Fernandes no desfile — se rebelariam, mergulhando a cidade em um dos episódios mais dramáticos e sangrentos de sua história política. Naquela sexta-feira, 15 de novembro, a revolta já estava sendo gestada nos quartéis, mas as ruas da capital potiguar ainda respiravam uma aparente e pacífica normalidade. O próprio governador seria pego de surpresa dias depois, enquanto participava de uma solenidade no Teatro Carlos Gomes… Mas isso é outra história!

1994 – JORNAL DE NATAL: OS DIAS DE GLÓRIA DOS B-25 E DO BOOGIE-WOOGIE NO BRASIL – A REPORTAGEM DO JORNAL THE NEW YORK TIMES SOBRE NATAL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

1994 – JORNAL DE NATAL: OS DIAS DE GLÓRIA DOS B-25 E DO BOOGIE-WOOGIE NO BRASIL – A REPORTAGEM DO JORNAL THE NEW YORK TIMES SOBRE NATAL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Por James Brooke – 26 de abril de 1994 – Fonte – https://www.nytimes.com/1994/04/26/world/natal-journal-brazil-s-glory-days-of-b-25-s-and-boogie-woogie.html

Depois de esticar em vão a rede numa tarde quente, um pescador finalmente mergulhou no mar, frustrado. Ao emergir das águas turvas do rio Potengi, ele relatou uma captura grande demais para seu barco a remo: um bombardeiro bimotor B-25.

Patrick Muller, um mergulhador francês, confirmou isso após um dia de exploração subaquática. “É um B-25 americano, quase completamente intacto”, disse ele. “O avião ficou lá embaixo por 50 anos, e então esse pescador o prendeu na rede.”

Há meio século, esta cidade costeira no nordeste do Brasil seguia freneticamente o apelo do presidente Roosevelt durante a Segunda Guerra Mundial para se tornar um “Trampolim para a Vitória”. Hoje a base é uma sombra de sua antiga grandeza, mas o Brasil tenta aproveitar o 50º aniversário do Dia D para renovar o interesse pela sua interessante história.

A base aérea americana mais movimentada do mundo na primeira metade de 1944, as faixas gêmeas do campo de Parnamirim, em Natal, realizavam um pouso a cada três minutos, enquanto tropas e cargas eram transportadas através do Atlântico Sul para alimentar campanhas na Itália, África, Rússia, Birmânia, China e a iminente invasão da Normandia.

O ponto mais próximo da África nas Américas, esta cidade equatorial proporcionou um ponto de partida durante todo o ano para os aviões de alcance limitado da época. Uma rota alternativa para o norte, através da Terra Nova e da Groenlândia, que ficava inoperante durante semanas devido ao inverno rigoroso nessas regiões.

“Foi uma operação tremenda”, lembrou Abe Cohen, 75 anos, um veterano americano que agora mora no Rio de Janeiro, sobre seus dias como controlador de tráfego aéreo. “Tínhamos centenas de aviões e milhares de homens passando por lá todos os dias nos períodos de pico”.

Há meio século, esta movimentada cidade militar americana tinha quartéis e tendas suficientes para 6.600 soldados, um jornal semanal e um grande Post Exchange fornecido pela primeira fábrica de engarrafamento da Coca-Cola da América Latina.

Hoje a base é centro de treinamento de pilotos da Força Aérea Brasileira. Numa tarde recente, um visitante do antigo teatro ao ar livre da USO assustou andorinhas que faziam ninhos entre as luzes do palco que outrora iluminavam espetáculos de Clark Gable e Humphrey Bogart. Mangas caídas cobriam a grama ao redor de uma capela no estilo da Nova Inglaterra, construída em 1943, com um farol de alerta de aeronave no topo do campanário. O único jipe ​​avistado na base foi um buggy que transportava aviadores brasileiros para um fim de semana na praia.

No início da década de 1940, num esforço finalmente bem-sucedido para conquistar o Brasil para o lado Aliado, os Estados Unidos construíram aeródromos e a primeira siderúrgica do Brasil. Uma geração de amizades militares aqui forjadas permitiu uma estreita aliança entre o Brasil e os Estados Unidos.

Hoje o Brasil está tentando ressuscitar a aliança da Segunda Guerra Mundial em nome do nexo internacional moderno da região: o turismo.

No ano passado, pela primeira vez desde o encerramento do sistema de transporte aéreo da Segunda Guerra Mundial, Natal inaugurou o seu primeiro voo internacional regular – para Roma. As autoridades desta cidade de 650 mil habitantes esperam atrair os americanos, tirando a poeira da ligação quase esquecida durante a guerra.

Ainda este ano, será inaugurado um Museu Histórico da Aviação da Segunda Guerra Mundial, com base em equipamentos deixados pelos americanos, incluindo um B-23 e um B-25. Também será exibido um jipe ​​usado pelo presidente Roosevelt e pelo presidente Getúlio Vargas do Brasil, quando se conheceram em Natal em 1943.

As fotografias irão capturar algumas das figuras da década de 1940 que por aqui passaram: Eleanor Roosevelt, Madame Chiang Kai-shek, Antoine de Saint-Exupéry, Harry Hopkins, Charles Lindbergh, Jack Benny, Ernie Pyle e Tyrone Power.

O elenco de espiões do Eixo que transformou Natal em uma Casablanca brasileira será menos visível – a freira alemã que rotineiramente passou por guardas nas docas e os obscuros fascistas brasileiros que sempre pareciam passar com suas motocicletas pelo porto quando os transportes de tropas ancoravam.

“A polícia local foi duramente criticada pela forma negligente como tratou os supostos agentes do Eixo”, escreveu Clyde Smith Jr., um professor americano que mora aqui e que no ano passado lançou um livro sobre a história da base em português.

Para os brasileiros com idade suficiente para se lembrarem da presença americana, as lembranças desagradáveis ​​de exercícios antiaéreos e abrigos antiaéreos deram lugar, em grande parte, a imagens mais felizes de soldados derrubando Cuba Libres no Wonder Bar.

“Aprendi a dançar swing”, lembra Maria Lúcia da Costa, hoje bisavó, enquanto servia bolo caseiro a uma visitante americana. “O boogie-woogie foi ótimo. As festas americanas tinham de tudo”.

Seu marido, Fernando Hippolyto da Costa, coronel aposentado da Força Aérea Brasileira, entrou na conversa com uma lista de contribuições americanas à cultura local: “Óculos de sol Rayban, cigarros americanos, cerveja em lata, cabelos oleados e uso de shorts”.

Protasio Pinheiro de Melo, que ensinava português na base, escreveu recentemente um livro sobre “Contribuições norte-americanas para a vida do Rio Grande do Norte”. Relaxando em sua varanda à sombra de palmeiras, ele listou sua lista: “Beijar garotas em público, beber em garrafas, dançar jitterbug, chamar todo mundo de ‘meu amigo’ e usar roupas esportivas”.

“Quando os americanos chegaram aqui, encontraram uma cidade pequena com muitos preconceitos”, disse de Melo sobre Natal, que há 50 anos tinha uma população de 40 mil habitantes. “As meninas não podiam ir a festas sem acompanhantes. Tínhamos que usar paletó e gravata no cinema.”

Apontando para uma foto sua vestindo solenemente paletó, gravata e chapéu em um jogo de vôlei de soldados em 1943, Melo acrescentou rindo: “Devo ter 80 gravatas no armário que nunca mais usei”.

Uma versão deste artigo aparece impressa em 26 de abril de 1994, Seção A, página 4 da edição Nacional com a manchete: “Dias de Glória dos B-25’s e Boogie-Woogie do Brasil”