Arquivo da tag: Cristo

JESUS ANTES DE CRISTO

181888_246716275437514_867419990_n
Jesus – Fonte – http://2.bp.blogspot.com/

Pesquisadores vão além da Bíblia e procuram pelo Jesus histórico – e o que não é mencionado no livro sagrado

Rodrigo Cavalcante

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/religiao/jesus-antes-cristo-434985.phtml#.WF_PMPkrLIW

Cristo está em toda parte: nas obras mais importantes da história da arte, nos roteiros de Hollywood, nos letreiros luminosos de novas igrejas, nas canções evangélicas em rádios gospel, nos best-sellers de autoajuda, nos canais de televisão a cabo, nos adesivos de carro, nos presépios de Natal. Onde você estiver, do interior da floresta amazônica às montanhas geladas do Tibete, sempre será possível deparar com o símbolo de uma cruz, pena de morte comum no Império Romano à qual um homem foi condenado há quase 2 mil anos. Para mais de 2 bilhões de pessoas esse homem era o próprio messias (“Cristo”, do grego, o ungido) que ressuscitara para redimir a humanidade.

07-natal-nascimento-de-jesus-pinturas
Nascimento de Jesus – Obra de Lorenzo Costa (1460 – 5 de Março de 1535) foi um pintor italiano do Renascimento. Nasceu em Ferrara, mas se mudou para Bolonha quando tinha 20 anos. Neste quadro, chama atenção os detalhes da cidade ao fundo, a pose do bebê deitado sobre o braço – Fonte – http://khristianos.blogspot.com.br/2015/12/a-natividade-por-pintores-famosos.html

Embora o mundo inteiro (inclusive os não cristãos) esteja familiarizado com a imagem de Cristo, até a bem pouco tempo os pesquisadores eram céticos quanto à possibilidade de descobrir detalhes sobre a vida do judeu Yesua (Jesus, em hebraico), o homem de carne e osso que inspirou o cristianismo. “Isso está começando a mudar”, diz o historiador André Chevitarese, professor de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos especialistas no Brasil sobre o “Jesus histórico” – o estudo da figura de Jesus na história sem os constrangimentos da teologia ou da fé no relato dos evangelhos. Embora tragam detalhes do que teria sido a vida de Jesus, os evangelhos são considerados uma obra de reverência e não um documento histórico. Chevitarese e outros pesquisadores acreditam que, apesar de não existirem indícios materiais diretos sobre o homem Jesus, arqueólogos e historiadores podem ao menos reconstituir um quadro surpreendente sobre o que teria sido a vida de um líder religioso judeu naquele tempo, respondendo questões intrigantes sobre o ambiente e o cotidiano na Palestina onde ele vivera por volta do século I.

Nazaré, entre 6 e 4 a.C.

Uma aldeia agrícola com menos de 500 habitantes, cuja paisagem é pontuada por casas pobres de chão de terra batida, teto de estrados de madeira cobertos com palha, muros de pedras coladas com uma argamassa de barro, lama ou até de uma mistura de esterco para proteger os moradores da variação da temperatura no local. Segundo os arqueólogos, essa é a cidade de Nazaré na época em que Jesus nasceu, provavelmente entre os anos 6 e 4 a.C., no fim do reinado de Herodes. Isso mesmo: segundo os historiadores, Jesus deve ter nascido alguns anos antes do ano 1 do calendário cristão. “As pessoas naquele tempo não contavam a passagem do tempo como hoje, por meio da indicação do ano”, explica o historiador da Unicamp Pedro Paulo Funari. “O cabeçalho dos documentos oficiais da época trazia apenas como indicação do tempo o nome do regente do período, o que leva os pesquisadores a crer que Jesus teria nascido anos antes do que foi convencionado.”

jc-ducio
Imagem do século 13 de Jesus sendo apresentado aos rabinos | Crédito: Duccio di Buonis – Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/religiao/jesus-antes-cristo-434985.phtml#.WF_PMPkrLIW

Se você também está se perguntando por que os historiadores buscam evidências do nascimento de Jesus na cidade de Nazaré – e não em Belém, cidade natal de Jesus, de acordo com os evangelhos de Mateus e Lucas –, é bom saber que, para a maioria dos pesquisadores, a referência a Belém não passa de uma alegoria da Bíblia. Na época, essa alegoria teria sido escrita para ligar Jesus ao rei Davi, que teria nascido em Belém e era considerado um dos messias do povo judeu. Ou seja: a alcunha “Jesus de Nazaré” ou “nazareno” não teria derivado apenas do fato de sua família ser oriunda de lá, como costuma ser justificado.

Mesmo que os historiadores estejam certos ao afirmarem que o nascimento em Belém seja apenas uma alegoria bíblica, o entorno de uma casa pobre na cidade de Nazaré daquele tempo não deve ter sido muito diferente do de um estábulo improvisado como manjedoura. Como a residência de qualquer camponês pobre da região, as moradias eram ladeadas por animais usados na agricultura ou para a alimentação de subsistência. A dieta de um morador local era frugal: além do pão de cada dia (no formato conhecido no Brasil hoje como pão árabe), era possível contar com azeitonas (e seu óleo, o azeite, usado também para iluminar as casas), lentilhas, feijão e alguns incrementos como nozes, frutas, queijo e iogurte.

331259776
O que seria a alimentação típica no tempo de Jesus – Fonte – http://dailylifeinthetimeofjesus.weebly.com/daily-life-at-the-time-of-jesus.html

De acordo com os arqueólogos, o consumo de carne vermelha era raro, reservado apenas para datas especiais. O peixe era o animal consumido com mais frequência pela população, seco sob o sol, para durar. A maioria dos esqueletos encontrados na região mostra deficiência de ferro e proteínas. Essa parca alimentação é coerente com relatos como o da multiplicação dos pães, no Evangelho de Mateus, no qual os discípulos, preocupados com a fome de uma multidão que seguia Jesus, mostram ao mestre cinco pães e dois peixes, todo o alimento de que dispunham.

Se alguém presenciasse o nascimento de Jesus, provavelmente iria deparar com um bebê de feições bem diferentes da criança de pele clara que costuma aparecer nas representações dos presépios. Baseados no estudo de crânios de judeus da época, pesquisadores dizem que a aparência de Jesus seria mais próxima da de um árabe (de cabelos negros e pele morena) que da dos modelos louros dos quadros renascentistas. Seu nome, Jesus, uma abreviação do nome do herói bíblico Josué, era bastante comum em sua época. Ainda na infância, deve ter brincado com pequenos animais de madeira entalhada ou se divertido com rudimentares jogos de tabuleiro incrustados em pedras. Quanto à família de Jesus, os pesquisadores não acreditam que ele tenha sido filho único. Afinal, era comum que famílias de camponeses tivessem mais de um filho para ajudarem na subsistência da família. Isso poderia explicar o fato de os próprios evangelhos falarem em irmãos de Jesus, como Tiago, José, Simão e Judas. “As igrejas Ortodoxa e Católica preferiram entender que o termo grego adelphos, que significa irmão, queria dizer algo próximo de discípulo, primo”, diz Chevitarese.

835592106
Vestuário no tempo de Jesus – VESTUÁRIO – No primeiro século a roupa era muito mais simples do que é hoje. A maioria das roupas eram feitas de lã, embora o linho também fosse usado (feito de linho cultivado na área de Jericó ou importado do Egito). Tanto os homens como as mulheres usavam normalmente uma túnica e um manto. A lei judaica exigia que o manto tivesse bordas unidas aos seus quatro cantos. Cada borda era para incluir um cordão azul e foi concebido como uma forma de ajudar as pessoas a se lembrar de manter a Lei de Deus. Para ocasiões especiais uma longa roupa conhecida como ‘estola’ era usada. Eram usados geralmente sandálias de couro (ou talvez de madeira) – Fonte – http://dailylifeinthetimeofjesus.weebly.com/daily-life-at-the-time-of-jesus.html

Assim como outros jovens da Galileia, é provável que ele não tenha tido uma educação formal ou mesmo a chance de aprender a ler e escrever, privilégio de poucos nobres. Ainda assim, nada o impediria de conhecer profundamente os textos religiosos de sua época transmitidos oralmente por gerações.

Política, religião e sexo

Desde aquele tempo, a região em que Jesus vivia já era, digamos, um tanto explosiva. O confronto não se dava, é claro, entre judeus e muçulmanos (o profeta Maomé só iria receber sua revelação mais de cinco séculos depois). A disputa envolvia grupos judaicos e os interesses de Roma, cujo império era o equivalente, na época, ao que os Estados Unidos são hoje. E, assim como grupos religiosos do Oriente Médio resistem atualmente à ocidentalização dos seus costumes, diversos grupos judaicos da época se opunham à influência romana sobre suas tradições. Na verdade, fazia séculos que os judeus lutavam contra o domínio de povos estrangeiros.

770146556
Ocupações no tempo de Cristo – Os principais trabalhos masculinos eram ser fazendeiros, artesãos, ou pescadores. As mulheres aprendiam a cozinhar e os deveres domésticos. Elas também memorizavam as escrituras, mas era proibido para elas ler ou escrever. Os mais afortunados teriam aprendido um ofício de seu pai – como ocorreu com o próprio Jesus. Muitos dos que não tinham um emprego estável seriam trabalhadores ocasionais, cujo salário diário dependia do capricho daqueles que contratavam um grupo de trabalhadores todas as manhãs. Alguns indivíduos tinham uma vida de mendicância ou mesmo de escravidão – Fonte – http://dailylifeinthetimeofjesus.weebly.com/daily-life-at-the-time-of-jesus.html

Antes de os romanos chegarem, no ano 63 a.C., eles haviam sido subjugados por assírios, babilônios, persas, macedônios, selêucidas e ptolomeus. Os judeus sonhavam com a ascensão de um monarca forte como fora o rei Davi, que por volta do século 10 a.C. inaugurara um tempo de relativa estabilidade. Não à toa, Davi ficaria lembrado como o messias (ungido por Javé) e, assim como ele, outros messias eram aguardados para libertar o povo judeu (veja quadro na pág. 33).

A resistência aos romanos se dava de maneiras variadas. A primeira delas, e mais feroz, era identificada como simples banditismo. Nessa categoria estavam bandos de criminosos formados por camponeses miseráveis que atacavam comerciantes, membros da elite romana ou qualquer desavisado que viajasse levando uma carga valiosa.

Além do banditismo, havia a resistência inspirada pela religião, principalmente a dos chamados movimentos apocalípticos. De acordo com os seguidores desses movimentos, Israel estava prestes a ser libertado por uma intervenção direta de Deus que traria prosperidade, justiça e paz à região. A questão era saber como se preparar para esse dia.

romanempire7
Mosaico do século XII, existente na Catedral de Cefalù, na Sicília, Itália – Fonte – http://www.teslasociety.com/hagiasophia.htm

Alguns grupos, como os zelotes, acreditavam que o melhor a fazer era se armar e partir para a guerra contra os romanos na crença de que Deus apareceria para lutar ao lado dos hebreus. Para outros grupos, como os essênios, a violência era desnecessária e o melhor mesmo a fazer era se retirar para viver em comunidades monásticas distantes das impurezas dos grandes centros. E Jesus, de que lado estava?

É quase certo que Jesus tenha tido contato com ao menos um líder apocalíptico de sua época, que preparava seus seguidores por meio de um ritual de imersão nas águas do rio Jordão. Se você apostou em João Batista, acertou.

O curioso é que, para a maioria dos pesquisadores, incluindo aí o padre católico John P. Meier, autor da série sobre o Jesus histórico chamada Um Judeu Marginal, o movimento apocalíptico de João Batista deve ter sido mais popular, em seu tempo, do que a própria pregação de Jesus. Os historiadores acreditam que é bem provável que Jesus, de fato, tenha sido batizado por João Batista nas margens do rio Jordão, e que o encontro deve ter moldado sua missão religiosa dali em diante.

romanarmyengineers
Representação moderna dos soldados romanos – Fonte – http://www.instonebrewer.com/visualSermons/Jesus%2BChildren/_Sermon.htm

Apesar de não haver nenhuma restrição para que um líder religioso judeu tivesse relações com mulheres em seu tempo, ninguém sabe ainda se entre as práticas espirituais de Jesus estaria o celibato. Da mesma forma, afirmar que ele teve relações com Maria Madalena, como no enredo de livros como O Código Da Vinci, também não passaria de uma grande especulação.

Uma morte marginal

O pesquisador Richard Horsley, professor de Ciências da Religião da Universidade de Massachusetts, em Boston, é categórico: a morte de Jesus na cruz em seu tempo foi muito menos perturbadora para o Império Romano do que se costuma imaginar. Horsley e outros pesquisadores desapontam os cristãos que imaginam a crucificação como um evento que causara, em seu tempo, uma comoção generalizada, como naquela cena do filme O Manto Sagrado em que nuvens negras escurecem Jerusalém e o mundo parece prestes a acabar. Apesar de ter sido uma tragédia para seus seguidores e familiares, a morte do judeu Yesua deve ter passado praticamente despercebida para quem vivia, por exemplo, no Império Romano. Ou seja: se existisse uma rede de televisão como a CNN, naquele tempo, é bem possível que a morte de Jesus sequer fosse noticiada. E, caso fosse, dificilmente algum estrangeiro entenderia bem qual a diferença da mensagem dele em meio a tantas correntes do judaísmo do período – assim como poucas pessoas no Ocidente compreendem as diferenças entre as diversas correntes dentro do Islã ou do budismo.

jesus-crucifixion-copia
Fonte – http://allchristiannews.com/wp-content/uploads/2016/03/Jesus-Crucifixion.jpg

Os pesquisadores sabem, no entanto, que Jesus não deve ter escolhido por acaso uma festa como a Páscoa para fazer sua pregação em Jerusalém. A data costumava reunir milhares de pessoas para a comemoração da libertação do povo hebreu do Egito. No período que antecedia a festa, o ar tornava-se carregado de uma forte energia política. Era quando os judeus pobres sonhavam com o dia em que conseguiriam ser libertados dos romanos.

Para a elite judaica que vivia em Jerusalém, contudo, as manifestações anti-Roma não eram nada bem-vindas. Afinal, como ela se beneficiava da arrecadação de impostos da população de baixa renda, boa parte dela tinha mais a perder que a ganhar com revoltas populares que desafiassem os dirigentes romanos, cujos estilos de vida eram copiados por meio da construção de suntuosas vilas (espécie de chácaras luxuosas) nas cercanias de Jerusalém.

The Crucifixion by Tintoretto, 1565
Fonte – https://pradoshmitter.files.wordpress.com/2009/12/the_crucifixion_tintoretto_1565.jpg

A própria opulência do Templo do Monte de Jerusalém, reconstruído por Herodes, o Grande, parecia uma evidência de que a aliança entre os romanos e os judeus seria eterna. A construção era impressionante até mesmo para os padrões romanos, o que fazia de Jerusalém um importante centro regional em sua época.

Em meio às festas religiosas, o comércio da cidade florescia cada vez mais. Vendia-se de tudo por lá, incluindo animais para serem sacrificados no templo. Os mais ricos podiam comprar um cordeiro para ser sacrificado e quem tivesse menos dinheiro conseguia comprar uma pomba no mercado logo em frente. A cura de todos os problemas do corpo e da alma (na época, as doenças eram relacionadas à impureza do espírito) passava pela mediação dos rituais dos sacerdotes do templo.

92-giotto-the-crucifixion
Representação da crucificação de Cristo através do pintor italiano Giotto di Bondone (1266 – 1337) – Fonte – http://art-now-and-then.blogspot.com.br/2014/05/art-and-jesus-crucifixion.html

Não é difícil imaginar a afronta que devia ser para esses líderes religiosos ouvir que um judeu rude da Galileia curava e livrava as pessoas de seus pecados com um simples toque, sem a necessidade dos sacerdotes. A maioria dos pesquisadores concorda que atos subversivos como esses seriam suficientes para levar alguém à crucificação.

Quase tudo o que os pesquisadores conhecem sobre a crucificação deve-se à descoberta, em 1968, do único esqueleto encontrado de um homem crucificado em Giv’at há-Mivtar, no nordeste de Jerusalém. Após uma análise dos ossos, eles concluíram que os calcanhares do condenado foram pregados na base vertical da cruz, enquanto os braços haviam sido apenas amarrados na travessa. A raridade da descoberta deve-se a um motivo perturbador: a pena da crucificação previa a extinção do cadáver do condenado, já que o corpo do crucificado deveria ser exposto aos abutres e aos cães comedores de carniça. A idéia era evitar que o túmulo do condenado pudesse servir de ponto de peregrinação de manifestantes. De qualquer forma, a descoberta desse único esqueleto preservado prova que, em alguns casos, o corpo poderia ser reivindicado pelos parentes do morto, o que talvez tenha acontecido com Jesus.

O que aconteceu após sua morte?

Para os pesquisadores, a vida do Jesus histórico encerra-se com a crucificação. “A ressurreição é uma questão de fé, não de história”, diz Richard Horsley.

1463pierodellafrancescatheresurrectionfrescopinacotecacomunalesansepolcro
A ressurreição de Cristo na visão do italiano Piero della Francesca (1415 — 1492) – Fonte – http://www.jesus-story.net/painting_resurrection.htm

Tudo o que os historiadores sabem é que, apesar de pequeno, o grupo de seguidores de Jesus logo conseguiria atrair adeptos de diversas partes do mundo. E foi um dos novos convertidos, um ex-soldado que havia perseguido cristãos e ganhara o nome de Paulo, que se tornaria uma das pedras fundamentais para a transformação de Jesus em um símbolo de fé para todo o mundo. Com sua formação cosmopolita, Paulo lutou para que os seguidores de Jesus trilhassem um caminho independente do judaísmo, sem necessidade de obrigar os convertidos a seguirem regras alimentares rígidas ou, no caso dos homens, ser obrigados a fazer a circuncisão. A influência de Paulo na nova fé é tão grande que há quem diga que a mensagem de Jesus jamais chegaria aonde chegou caso ele não houvesse trabalhado com tanto afinco para sua difusão.

Mesmo para quem não acredita em milagres, não há como negar que Paulo e os outros seguidores de Jesus conseguiram uma proeza e tanto: apenas três séculos após sua morte, transformaram a crença de uns poucos judeus da Palestina do século I na religião oficial do Império Romano. Por essa época, a vida do judeu Yesua já havia sido encoberta pela poderosa simbologia do Cristo: assim como os judeus sacrificavam cordeiros para Javé, o Cristo se tornaria símbolo do cordeiro enviado por Deus para tirar os pecados do mundo. Desde então, a história de boa parte do mundo está dividida entre antes e depois de sua existência.


SAIBA MAIS –

isisnursinghorus
Fonte – http://www.crystalinks.com/isis.html

Nossa Senhora de Ísis

De onde pode ter se originado uma das mais belas imagens cristãs

Se você acha que conhece a imagem acima, é bom dar uma olhada com um pouco mais de atenção. À primeira vista, ela parece, de fato, representar a Nossa Senhora embalando o menino Jesus. Mas não é. A imagem da estátua é uma representação da deusa egípcia Ísis oferecendo o peito a seu filho Hórus. Apesar de não haver como provar que as imagens de Nossa Senhora tenham sido inspiradas diretamente em representações como essa, os pesquisadores sabem que o cristianismo sofreu, em seus primórdios, a influência de diversos cultos que faziam parte dos mundos egípcio e greco-romano. “Desde seu início, o cristianismo tinha uma diversidade assombrosa”, diz o professor de Teologia Gabriele Cornelli, da Universidade de Brasília. Na região do Egito, por exemplo, prevalecera o chamado cristianismo gnóstico, cujos textos revelam um Jesus bem mais parecido com um monge oriental. Alguns historiadores acreditam até que alguns cristãos gnósticos possam ter sido influenciados por missionários budistas vindos da Índia.

O luxo que vem de Roma – Diferentemente de Jesus, nobres judeus viviam muito bem, obrigado

Para a elite judaica que vivia na Palestina do século I, levar uma vida com requinte e elegância era sinônimo de viver como os romanos. Escavações arqueológicas em Jerusalém e outras cidades indicam uma clara influência da arquitetura e da decoração de Roma no interior das mansões. Para criar uma atmosfera palaciana, era comum, no interior das casas, a reprodução de afrescos e desenhos decorativos com motivos florais e geométricos. Em ambientes maiores, as colunas no estilo romano eram indispensáveis, assim como o uso de mármore para o acabamento dos detalhes – quem não podia pagar pelo mármore usava uma tinta de cor parecida para manter a aura palaciana. Fontes, vasos vitrificados e pisos de mosaico colorido também faziam parte do sonho de consumo dos novos ricos de Jerusalém, que costumavam receber os amigos influentes recostados confortavelmente no triclinium, espécie de divã usado na hora das refeições. Resquícios da importação de vinhos e outros ingredientes nobres da cozinha mediterrânea, como o garum, um molho especial de peixe típico da cidade de Pompéia, também foram encontrados no interior das mansões. Algumas delas deviam ter uma vista privilegiada para o Templo de Jerusalém, de onde os nobres podiam assistir confortavelmente à movimentação dos peregrinos ou mesmo à condenação à morte de rebeldes judeus.

A GRANDE AVENTURA DOS JESUÍTAS NO BRASIL

9070005
Os europeus levantando uma cruz na costa americana (1706) – Fonte – http://brazilcomesalive.yolasite.com/alyssa-images.php

A Companhia de Jesus foi fundamental na fundação de Salvador, Rio e São Paulo. Criou nossa versão do idioma português. Catequizou índios, participou de batalhas, liderou explorações em busca de ouro. Ajudou a formar o país

Desde os anos 1960, muitas crianças sonham em ser astronauta. Viajar para outros planetas, com suas paisagens bizarras, seus ambientes absurdos e – quem sabe? – seus moradores de costumes quase inacreditáveis de tão diferentes. Por volta de 1550, era possível viver esse mesmo sonho: jovens ousados, educados nas melhores escolas católicas, podiam ser convidados para viver entre os algonquins do Canadá, os astecas mexicanos, os indianos de Goa, os moradores do arquipélago japonês, os tupis-guaranis do Brasil. Cada um deles, em todos os sentidos para o ponto de vista de um europeu, vivia, comia e rezava como um verdadeiro alienígena. Os jovens do Velho Continente podiam experimentar esses novos planetas, desde que reunissem uma combinação de fé, disciplina, espírito didático e capacidade de gerenciamento. Havia muitas opções para um missionário cristão abraçar a causa da catequização das terras distantes. Mas a Companhia de Jesus era a mais nova e mais promissora. Surgira poucos anos antes, pelas mãos de um jovem basco, amante das armas e das mulheres, convertido para a fé por uma bala de canhão.

jesuitas-no-brasil
Ignácio de Loyola, nascido Inigo Lopez de Recalde (1491-1556), fundador da Companhia de Jesus – Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/a-grande-aventura-dos-jesuitas-no-brasil.phtml#.V6H_DI-cHIV

Aventureiro e enamorado

Iñigo vinha de família bem relacionada de Azpeitia, no noroeste da Espanha. Na juventude, fez estágio como pajem do nobre Juan Velázquez de Cuellar e se acostumou a andar bem-vestido, com cabelos loiros e compridos. Dizia-se encantado por uma moça da elite, que nunca chegou a nomear, mas que, confessava, não parava de ocupar seus pensamentos. “Ficava logo embebido a pensar nela duas, três ou quatro horas sem se dar conta, imaginando o que havia de fazer em serviço de uma senhora”, ele escreveria em sua autobiografia. O gosto pelas guerras era bem mais público.

Como seguidor do vice-rei de Navarra, António Manrique de Lara, Iñigo participou da batalha de guerra que colocava os reis da França e da Espanha na disputa pelo controle do Sacro Império Romano-Germânico. Lutando a favor dos espanhóis, em 20 de maio de 1531, durante um cerco francês a Pamplona, uma bala de canhão passou entre suas pernas. Milagrosamente, o jovem basco sobreviveu. Foi levado para casa, com a perna destroçada. No castelo da família, onde passou por uma recuperação lenta e dolorosa, com direito a uma cirurgia nos joelhos – sem anestesia – que tinha por objetivo consertar uma cirurgia anterior – também sem anestesia –, um jovem sofredor e entediado encontrou consolação em livros católicos da biblioteca da família. O guerreiro mulherengo se recuperou com uma perna mais curta e uma decisão firme: seguir os caminhos de Cristo.

567px-Ihs-logo.svg
O símbolo dos jesuítas – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/Society_of_Jesus

Começou tentando ir à Cidade Santa. Conseguiu em 1523, mas ficou por um período muito curto, durante o qual ele se mostrou um risco para os católicos que negociavam cuidadosamente sua permanência na Jerusalém dominada por muçulmanos. Andando sem seguranças, forçando a entrada em lugares vedados a cristãos, ele foi convidado a voltar para a Europa o mais rápido possível. Retornou a contragosto, sonhando em voltar, sem conseguir. 

Iñigo dirigiria suas atenções a outro objetivo: fundar uma ordem religiosa guerreira, de forte caráter missionário. Para isso, voltaria a estudar, a fim de preencher uma grave lacuna, a falta de formação teológica. Em Paris, encontrou seis religiosos mais novos que se tornaram o núcleo central da Companhia de Jesus: Francisco Xavier, Pedro Fabro, Simão Rodrigues, Nicolás Bobadilla, Diogo Laínez e Alfonso Salmerón. Em 15 de agosto de 1534, durante um encontro na Igreja de Saint Denis, no bairro parisiense de Montmartre, eles fundaram a Companhia de Jesus. Em 1537, o fundador adotou um novo nome, mais amigável para os ouvidos dos espanhóis não bascos: Inácio. Em 1540, o papa Paulo III aprovou a existência do novo grupo. Era um começo rápido e promissor.

Soldados de Cristo

Inácio nunca usou o termo “jesuítas”, pelo qual o grupo ficaria conhecido. A expressão se estabeleceria décadas depois, quando o esforço missionário ajudou a estabelecer o apelido, que fazia referência a “pessoas que citam o nome de Jesus com muita frequência”. Mas o nome oficial, Societas Jesu, ou Sociedade de Jesus, caracterizava com precisão os objetivos do grupo, criado como uma milícia com hierarquia clara, conduta impecável e o mesmo espírito de conquista que acompanhou o fundador até o fim da vida, em 1556.

eucharist1
Padre celebra a eucaristia (1707) – Fonte – http://library.brown.edu/create/fivecenturiesofchange/chapters/chapter-2/the-jesuits/

Inácio ainda sonhou com um retorno a Jerusalém. Depois, se instalou em Veneza, à espera de orientações papais. Até que aquele grupo de jovens instruídos e disponíveis para a evangelização chamou a atenção das lideranças do Vaticano, que resolveram usar os jesuítas no esforço de reação à reforma protestante. Todos os fundadores se envolveriam na catequização e na publicação de trabalhos que lutavam pela restauração da fé católica. O sucessor de Inácio, Diogo Laínez, chegaria a se estabelecer como uma importante liderança no Concílio de Trento. Era forte candidato a papa, mas não chegou ao posto. Os jesuítas só formariam um pontífice em 2013, com a eleição do argentino Jorge Bergoglio. Sua vocação, no século 16, era outra: a evangelização em terras estrangeiras.

Começou com São Francisco Xavier, possivelmente o jesuíta mais famoso da história. O único fundador da ordem a deixar a Europa estava em Portugal, onde o rei João III se mostrava interessado no esforço missionário daqueles jovens promissores. Em uma década morando na Ásia, ele converteria algo entre 30 mil e 100 mil pessoas, um número espantoso – e obviamente inflado, no sentido de que muitos dos pagãos que aceitavam o batismo não entendiam o que havia acontecido e não mudavam nenhum de seus costumes, mesmo que incluíssem o canibalismo, a poligamia e a crença em vários deuses.

jesuit
Diogo de Mendonça Furtado e o padre jesuíta Domingo Coinia, diante de um grupo de clérigos e soldados em São Salvador da Bahia de Todos os Santos, atual Salvador, Bahia, Brasil – Fonte – http://library.brown.edu/create/fivecenturiesofchange/chapters/chapter-2/the-jesuits/

O exemplo de Xavier seria seguido no Brasil, onde, em 1549, chegaram, junto com o primeiro governador-geral Tomé de Souza, seis jesuítas, liderados por um religioso muito dedicado, com vocação para professor, mas rejeitado por causa de sua gagueira quase insuportável. Manoel da Nóbrega chegava a uma região desacreditada, de menor importância para Portugal. Ninguém esperava muito de Nóbrega, mas ele surpreenderia a todos.

Um padre, três metrópoles

O pai de Nóbrega era desembargador. Ele se formou em direito canônico e filosofia na Universidade de Coimbra. Em 1544, com 27 anos, finalmente desistiu de tentar ser aprovado como professor, entrou para a Companhia de Jesus e começou a fazer viagens de peregrinação e pregação pela Península Ibérica. Nos hospitais onde tentava realizar exorcismos, era conhecido como “o Gago”. Convidado para vir ao Brasil depois que o cofundador Simão Rodrigues preferiu ficar em Portugal, chegou em 29 de março de 1549, depois de 56 dias de viagem, como parte de uma comitiva com seis navios e mil pessoas. Nunca mais retornaria à Europa.

Nobrega2
Padre Manuel da Nóbrega, em um selo Português comemorativo aos 400 anos de fundação de São Paulo – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/Society_of_Jesus

Nóbrega era o chefe da primeira turma de jesuítas. Recebeu excelentes condições de trabalho: diferentemente do que acontecia na Ásia ou na América do Norte, a ordem detinha a exclusividade sobre a evangelização da colônia. Apesar de descoberta em 1500, e de uma primeira tentativa mais sistemática de ocupação em 1532, seria apenas com a chegada do governador-geral Tomé de Souza a Salvador que Portugal começava, de fato, a colonizar a vasta Terra de Santa Cruz, dominada por diferentes grupos de indígenas e tomada por uma vegetação espessa que praticamente impedia qualquer investigação para além do litoral.

Até sua morte, em 1570, Nóbrega se mostrou incansável. Ajudou a definir o traçado de Salvador, a primeira cidade planejada do país. Na sequência, andou por todo o território que formava a colônia, de São Paulo a Pernambuco. Mapeou vilas, identificou tribos, foi decisivo em guerras e rebeliões e ajudou a colocar em pé três futuras metrópoles fundamentais: Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro.

3450007
Vista de Salvador em 1735 – Fonte – http://brazilcomesalive.yolasite.com/alyssa-images.php

O jesuíta deu atenção especial a Porto Seguro, onde Pedro Álvares Cabral havia desembarcado e os indígenas eram especialmente hostis. Ali ficou João de Azpilcueta Navarro, responsável por organizar uma primeira tentativa de explorar os sertões que hoje pertencem à Bahia e ao interior de Minas Gerais. Na busca por uma famosa Serra das Esmeraldas, Navarro e outros 13 desbravadores conheceram o Rio São Francisco, acamparam em condições precárias e tiveram de se esconder de índios que surgiam e desapareciam misteriosamente. 

Ao voltar para o litoral, depois de um ano e meio e 2 mil quilômetros de viagem, estava tão doente que acabou morrendo, dois anos depois, em Salvador. Deixou como legado uma carta em que descrevia a fauna e a flora que encontrou. “Há muita caça, assim de animais como de aves”, escreveu. “Há uns animais que se chamam antas. Há muitas castas de macacos, entre os quais uns pardos com barba como homens. Há veados, gatos, onças, tigres e muitas cobras, entre as quais há umas que têm no rabo uma coisa à maneira de cascavel.” João também deixou estudos com os primeiros fundamentos para traduzir tupi para o português e vice-versa. O documento seria usado pelo padre José de Anchieta na construção de sua própria gramática. João, aliás, foi quem iniciou Anchieta no trabalho de entender aquela língua tão difícil para os europeus.

Enquanto tudo isso acontecia, Nóbrega já tinha descido até São Vicente, onde fez uma tentativa diferente de incursão para além das praias: o estabelecimento de um ponto de apoio no planalto. Foi ele quem escolheu uma área instalada entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí e controlada pelo cacique Tibiriçá, amigo dos ocidentais desde que havia começado a conviver, muitos anos antes, com um degredado chamado João Ramalho. Tibiriçá e os 25 mil índios tupiniquins que ele liderava ajudaram a construir um colégio onde se ensinava a ler e escrever em tupi e onde se aprendiam noções de latim, além de carpintaria e marcenaria.

Anchieta
Padre José de Anchieta – Fonte – https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d8/Anchieta.jpg

Foi naquele vale bem protegido por tupiniquins que 13 dos 26 jesuítas que viviam no Brasil na época morariam em um barracão de cerca de 90 m2, feito de paredes de taipa de pilão e com telhado de folhas de palmeira. Nóbrega chegou a realizar uma missa no local, em 29 de agosto de 1553. Mas foi uma segunda celebração, conduzida pelo padre Manuel de Paiva com José de Anchieta no apoio, que marcou o batismo da cidade: São Paulo, em homenagem ao santo celebrado naquele 25 de janeiro de 1554. A política de estabelecer colégios como a base de centros urbanos, tipicamente jesuíta, seria rapidamente aplicada também no Rio de Janeiro, além de Olinda, São Luís, Ilhéus e Recife.

Anchieta havia encontrado Nóbrega em São Paulo, e reencontraria o chefe outras vezes. Em especial quando os dois se fizeram reféns voluntários da tribo dos tamoios, aliados dos franceses, na região onde hoje fica Ubatuba.

O fim provisório

O conflito com os tamoios seria decisivo para a fundação do Rio de Janeiro, uma terra que parecia destinada a ficar em mãos francesas. Para ajudar na negociação com os portugueses, Nóbrega e Anchieta permaneceram entre os indígenas. Foram bem-recebidos – tão bem que precisavam rezar muito e fazer autoflagelação frequente para lidar com o assédio das índias que os maridos e pais ofereciam. Um único episódio destoante quase levou os dois ao martírio: um jovem líder, muito amigo dos franceses, perseguiu os dois padres, que tiveram que correr muito e se esconder até que os chefes o acalmassem. 

Brazil_18thc_JesuitFather
Padre jesuíta no Brasil Colonial – Fonte – http://library.brown.edu/create/fivecenturiesofchange/chapters/chapter-2/the-jesuits/

A negociação não foi muito longe, mas o terceiro governador-geral, Mem de Sá, acabaria destruindo o forte francês Coligny e instalando os portugueses na vila de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde Nóbrega construiu um colégio e viveu até a morte. Anchieta ainda tinha mais duas décadas de trabalho pela frente. Deixaria como legado um conhecimento do idioma do grupo tupi-guarani, o início de uma literatura produzida no Brasil e uma lista de conhecimentos das plantas locais.

A partir do século 17, os jesuítas estavam instalados como uma potência. Desde 1580 não detinham o monopólio sobre a pregação, mas seus colégios formavam as elites locais, suas fazendas (que contavam com o uso de mão de obra escrava) forneciam alimentos para todas as cidades. E, mais importante, suas aldeias, centros autônomos onde os índios viviam protegidos dos colonizadores civis, protegiam os locais da exploração exagerada. Delimitado por Nóbrega, o conceito de aldeias provocaria atritos intensos com os jesuítas que vieram depois. Eles seriam cercados e expulsos, em diferentes ocasiões, em todas as principais cidades do país. Os conflitos foram especialmente graves no Maranhão, graças a um religioso português com vocação para a confusão: Antonio Vieira.

jesuit-2
Padre Antônio Vieira retratado na obra “Celeberrus P. Antonius Vieyra Soc. Jesu Lusit. Vijssipon” (1742) – Fonte – http://library.brown.edu/create/fivecenturiesofchange/chapters/chapter-2/the-jesuits/

Nascido em Portugal, educado em Salvador, Vieira dividiria sua atenção entre os assuntos dos europeus e dos brasileiros. Na corte em Lisboa, defendeu que os lusitanos deixassem Pernambuco com os holandeses – na década de 1630, parecia impossível aos portugueses recuperar aquelas terras. Diante da pressão da coroa espanhola, bolou um plano que incluía a instalação do rei João IV no Rio de Janeiro, mas nunca seria colocado em prática. 

No Brasil, Vieira se envolveu principalmente com a colonização da Amazônia e com os conflitos com as lideranças civis do Maranhão, que insistiam em tomar os índios para si e se irritavam com a interferência jesuítica nos assuntos seculares. Em um de seus muitos sermões, de 1654, ele se dirigiu aos maranhenses com desprezo: “A este Evangelho do Domingo Quinto da Quaresma chamais comumente o domingo das verdades. Por me não sair, contudo, do que hoje todos esperam, estive considerando comigo que verdades vos diria, e, segundo as notícias que vou tendo desta nossa terra, resolvi-me a vos dizer uma só verdade. Mas que verdade será esta? Não gastemos tempo. A verdade que vos digo é que no Maranhão não há verdade.” Perseguido pela Inquisição, isolado das cortes em Portugal, Vieira morreria nos arredores de Salvador, cansado e desiludido.

SvDBM9FWeuoBl84NWDl3Hb
Pintura que mostra o Marquês de Pombal – Fonte – http://jesuitsslaverybrazil.blogspot.com.br/

Portugal oscilava entre o apoio aos colonos e a defesa dos religiosos. Isso até a ascensão de reis que tinham a pretensão de modernizar o Estado e reduzir a influência dos jesuítas, que, em Portugal, na Espanha e na França, eram professores, confessores e orientadores de várias gerações de reis e rainhas. Em Portugal em específico, sob a influência do marquês de Pombal, a ordem seria expulsa do país e de suas colônias em 1759. 

Cidade após cidade, os cerca de 600 religiosos que viviam no Brasil foram colocados em navios em direção a Portugal. Alguns foram detidos, outros seguiram para a Itália. Uma pequena parte reagiu e ficou entre os índios, dentro das missões que a ordem vinha fundando e mantendo, em especial ao sul do Brasil, no Paraguai e na Argentina. Religiosos e locais pegaram em armas e acabaram massacrados nas Guerras Guaraníticas. A experiência das missões havia deixado um legado impressionante: os índios viviam com relativa autonomia. Alguns se mostraram artesãos talentosos, cuja produção de instrumentos musicais povoaria os salões e as igrejas europeias com violinos feitos nas Américas.

Ruinas-saomiguel13
O Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, popularmente conhecido como Ruínas de São Miguel das Missões, é o conjunto de remanescentes da antiga redução jesuítica de São Miguel Arcanjo, integrante dos chamados Sete Povos das Missões. Localiza-se no município de São Miguel das Missões, Rio Grande do Sul – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADtio_Arqueol%C3%B3gico_de_S%C3%A3o_Miguel_Arcanjo

Catorze anos depois, em 1773, a ordem toda foi extinta por decisão do papa Clemente XIV. Nesse momento, os inacianos ligados a Portugal já tinham o destino selado. A inquisição encerraria a vida de Gabriel Malagrida: o padre de 72 anos foi queimado na Praça do Rossio, em Lisboa, na tarde de 21 de setembro de 1761. Foi a última vez que um condenado pela Inquisição era morto em praça pública em território português. Ele havia batido de frente com o marquês de Pombal por muitos anos, desde que afirmara que o terremoto que aterrou Lisboa em 1755 era um castigo divino.

E assim, por força do fogo e de uma bula papal, a ordem deixou de influenciar os rumos do Brasil. Foi autorizada a voltar em 1814, mas a marca sobre o país nunca mais seria a mesma. Permanece nos centros educacionais. Em termos internacionais, os jesuítas agora alcançaram, depois de cinco séculos, o cargo mais alto da Igreja Católica: o papa Francisco pertence ao grupo fundado por Inácio de Loyola e construído com o sangue e o suor de jovens cultos e corajosos.

Linha do tempo

A trajetória da ordem

  • 1491• Nascimento de Inácio de Loyola
  • 1500• Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil
  • 1534•Inácio funda a Companhia de Jesus
  • 1540•O papa Paulo III formaliza a criação da Companhia de Jesus
  • 1542• Primeira ação missionária dos jesuítas, no Congo
  • 1549• Chegada de Tomé de Souza e Manoel da Nóbrega a Salvador
  • 1551• Chegada a Salvador do primeiro bispo do Brasil, Pero Fernandes Sardinha
  • 1553• Chegada de José de Anchieta ao Brasil
  • 1554• Missa de fundação da cidade de São Paulo
  • 1565• Fundação da cidade do Rio de Janeiro
  • 1580• Portugal é anexado ao reino da Espanha e os jesuítas perdem a exclusividade no Brasil
  • 1607• Início das missões jesuíticas
  • 1640• Portugal volta a ser um reino independente, sob o comando do rei dom João IV
  • 1665• O Tribunal da Inquisição manda prender Antonio Vieira
  • 1759• Expulsão dos jesuítas de Portugal e suas colônias
  • 1773• Extinção da Companhia de Jesus por ordem do papa Clemente XIV
  • 1814• O papa Pio VII reabre a Companhia de Jesus
  • 2013• Jorge Bergoglio é eleito papa e adota o nome Francisco.

Jesuítas no Brasil

  • Manoel da Nóbrega • 

1517-1570 

Decisivo na fundação de Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro.

  • José de Anchieta •

1534-1597 

Grande pregador, criou uma gramática tupi-português e converteu centenas de índios.

  • João de Azpicuelta Navarro •

1521/3-1557 

Esteve na primeira expedição em busca de ouro em Minas Gerais.

  • Antonio Vieira •

1608-1697

Polêmico, participou ativamente da História de Portugal, de Salvador e de São Luís, no Maranhão.

  • João Felipe Bettendorf • 

1625-1698

Decisivo na colonização da Amazônia e na fundação de Santarém.

  • Gabriel Malagrida •

1689-1761

Realizou uma expedição de 14 mil quilômetros no sertão nordestino. Morto pela Inquisição.

SAIBA MAIS

LIVROS

A Grande Aventura dos Jesuítas no Brasil, Tiago Cordeiro, Ed. Planeta, 2016

Autobiografia, Inácio de Loyola, Editorial A.O., 2005

História da Companhia de Jesus no Brasil, Serafim Leite, Itatiaia, 2000

A Heresia dos Índios – Catolicismo e Rebeldia no Brasil Colonial, Ronaldo Vainfas, Companhia das Letras, 1995


Autor e fonte – TIAGO CORDEIRO http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/a-grande-aventura-dos-jesuitas-no-brasil.phtml#.V6H_DI-cHIV