1910 – A MISTERIOSA NOITE DOS HOLOFOTES EM NATAL

Quando a Pequena e Provinciana Natal Foi Iluminada Por Poderosas Luzes Desconhecidas – Causou Medo e Preocupação no Povo – As Portas da Igreja de Bom Jesus foram Arrombadas Para as Pessoas Rezarem por Proteção  – O Fenômeno Foi Testemunhado Por Câmara Cascudo – Diferente do Que se Pensou na época, Não Foi o Encouraçado Minas Gerais Que Iluminou a Capital Potiguar

Rostand Medeiros – IHGRN

Estamos na capital potiguar em uma quarta-feira, dia 29 de março do ano de 1910, então uma bucólica cidade com pouco mais de 27.000 habitantes, que naqueles dias acordava em meio a muito frio para a sua realidade, com temperaturas que variavam entre 22 e 23 graus por volta das sete da manhã[1].

Além disso, de manhãzinha bateu um vento sudoeste e caiu uma chuva e ao longo do dia as temperaturas máximas nem sequer chegaram aos 29 graus[2]. Com a forte precipitação do dia anterior, onde foram testemunhados trovões e relâmpagos sobre a cidade, o pluviômetro marcou mais de 100 m.m. de chuvas em Natal[3].  

Pela manhã cedo era comum nessa antiga Natal que as pessoas seguissem para o Mercado Público na Avenida Rio Branco, o principal entreposto de vendas de alimentos. Outros locais procurados sempre pela manhã o povo natalense seguiam para orar, ascender velas, participar de missas nas igrejas de Nossa Senhora da Apresentação, do Galo, a de Nossa Senhora do Rosário, ou de Bom Jesus. Sendo as três primeiras localizadas na Cidade Alta e a última na Ribeira.

Próximo da estação da Great Western.

Nessa cidade calma e tranquila, em meio a um tempo frio e talvez bem nublado, o dia 29 de março de 1910 foi avançando e logo a noite foi chegando. 

Bom, quem estiver lendo esse texto deve imaginar que nessa noite em Natal os lampiões da Empresa de Iluminação a Gás Acetileno estariam acesos em seus postes de ferro, com os bicos de gás com potência de iluminação de apenas “15 velas”, clareando basicamente o bairro da Ribeira. Mas isso não ocorreu naquela data. Teria havido algum problema na iluminação?

Um dos lampiões de gás acetileno, que iluminavam a Rua do Comércio, atual Rua Chile, onde vivia em 1910 a família de Luís da Câmara Cascudo.

Recorremos então a Luís Câmara Cascudo para descobrir em seu livro História da Cidade do Natal, que essa iluminação ficava apagada três dias antes e três dias depois da fase em que a lua estava cheia[4]. E naquele mês de março de 1910, conforme está na primeira página do jornal A República de 26 de março, a lua cheia estava marcada para o dia 27.

Para completar a situação, na Natal de 29 de março de 1910 não existia luz elétrica nas residências. Em um mundo sem rádio, televisão, computador, aparelhos celulares, internet e outras maravilhas modernas que utilizam a energia elétrica para seu funcionamento, grande parte da população dormia bem cedo.

Feixes de Luzes Misteriosos e o Pânico em Natal

Rua Dr. Barata, na Ribeira.

Pesquisando os jornais da época vi que o jantar era servido normalmente às seis da noite e depois o que havia para fazer era se reunir com os parentes em casa, ler algo a luz de um candeeiro a base de querosene, ou simplesmente pegar uma cadeira, um tamborete e sentar nas calçadas com os vizinhos e conversar.

Mas naqueles dias a temperatura estava fria, de vez em quando chovia, e, mesmo com a pequena capital potiguar iluminada pela luz natural da lua, acredito que às nove da noite desse dia muita gente já estava em casa, se preparando para ir para cama. É possível que por volta das nove da noite a “Guarda Nocturna” já se encontrasse nas ruas com seus apitos e cassetetes realizando suas patrulhas, para uma ronda que se apresentava sem maiores alterações.

Foi quando repentinamente e de forma surpreendente, o céu foi iluminado por feixes de uma luz clara, branca, radiante e muito forte.

Luís da Câmara Cascudo, então com apenas 11 anos de idade, rememorou aquela noite inesquecível quase 32 anos depois na sua coluna “Acta Diurna”, no jornal natalense A República. Ele então morava com seus pais na Rua do Comércio (atual Rua Chile), no número 44. Eles viviam em uma casa com a parte posterior voltada para o Rio Potengi, onde certamente o jovem e sua mãe viram os feixes de luzes “cortarem os céus em súbitos safanões luminosos”, conforme descreveu em 1942.

Justino Cascudo, sua esposa e seu filho Luís.

Do seu local de visualização Cascudo comentou que as luzes iluminaram o mangue do outro lado do rio, as águas tranquilas do Potengi, coqueiros, dunas e chegavam até o Refolés, onde atualmente se encontra a Base Naval de Natal. Do seu ponto de observação Cascudo viu os feixes se elevarem no firmamento, onde depois escreveu que “Cruzavam-se, confundindo no espaço como num duelo dantesco de enormes serpentes vestidas de relâmpagos”.

Texto publicado por Luís da Câmara Cascudo no jornal natalense A República no dia 6 de fevereiro de 1942, em sua coluna “Acta Diurna”, onde detalhou o caso dos holofotes em Natal.

O pai de Cascudo, o comerciante Francisco Justiniano da Oliveira Cascudo, colocou o filho para rezar em alto e bom som um “Salve Rainha” e que fosse dito “sem errar”. Mas não foi apenas na casa da família Cascudo que a reza, embalada pelo medo do desconhecido, ecoou com força e fé. Cascudo informou que nas casas vizinhas na Rua do Comércio dava para ouvir as ladainhas dos desesperados em busca de proteção divina. Até uma das portas da Igreja do Bom Jesus das Dores da Ribeira foi arrombada (“voou em pedaços”, segundo Cascudo), para os fiéis adentrarem o templo e pedirem a salvação dos céus.

Igreja de Bom Jesus, no bairro da Ribeira.

Horas depois, certamente após tomar conhecimento com outras pessoas na cidade sobre aqueles feixes de luz, o coronel Cascudo explicou ao filho o que acreditava ser aquele fenômeno e a calma voltou na casa às margens do rio Potengi e também na cidade.

As luzes vistas no dia 29 de março repercutiram bastante, pois dois dias depois o jornal A República trazia na sua primeira página a nota que reproduzimos abaixo e que acredito ter sido a explicação aceita sem contestação sobre o estranho caso.

Não demorou e um interessante artigo assinado por Hernani Fontes apontou como a passagem do Minas Gerais por Natal chamou atenção da comunidade e era o motivo de conversas das “pessoas gradas” da comunidade[5].

Logo o medo do povo natalense se tornou coisa do passado e surgiu certo encantamento, pela capital potiguar ter sido a “Primeira cidade brasileira iluminada pelos potentes holofotes do encouraçado Minas Gerais”, considerado então o mais poderoso navio de guerra a singrar os sete mares.

Mas NÃO foi essa nave de guerra que realizou esse procedimento diante de Natal, pois na noite de 29 de março de 1910 o encouraçado Minas Gerais não se encontrava na costa brasileira!

O Encouraçado Minas Gerais e Como ele Veio Navegou Para o Brasil?

As obras de construção desse grande navio se iniciaram em abril de 1907, no estaleiro W. G. Armstrong Whitworth & Co Ltd, na cidade deNewcastle-on-Tyne, ou simplesmente Newcastle, no norte da Inglaterra.

Era uma nave verdadeiramente espetacular para seu tempo. Possuía doze canhões com calibre de 305 mm, uma verdadeira bateria de ferro e fogo. Para nível de comparação, o famoso o encouraçado russo Potemkin, muito ligado a Revolução Russa de 1917, tinha apenas quatro canhões desse mesmo calibre. Além desse armamento superpesado, o Minas Gerais tinha nos seus costados quatorze canhões de 120 mm e couraças de proteção que variavam de oito a nove polegadas de espessura e confeccionados pela empresa Krupp. O Minas Gerais e seu irmão gêmeo, o São Paulo, poderiam alcançar uma velocidade máxima de 21 nós (39 km / h) e as tripulações desses navios podiam chegar a 106 oficiais e 887 marujos. A nave deslocava quase 20.000 toneladas, sendo lançada nas águas em setembro do ano seguinte e comissionado em abril de 1910.

Batimento da quilha do encouraçado Minas Gerais.

No final de 1910, segundo o jornal The Times de Londres, em sua edição de 3 de março de 1911 (pág. 7) a Inglaterra tinha doze encouraçados e o resto das grandes potências mundiais outros treze, dos quais cinco pertenciam à Alemanha e quatro aos Estados Unidos. Mas naquele momento o Brasil tinha dois dos mais recentes e maiores poderosos encouraçados navegando e prontos para entrar em ação[6]. E na Inglaterra estava sendo construído um terceiro encouraçado, o gigantesco Rio de Janeiro[7].

O Minas Gerais descendo para água.

E qual a razão do Brasil, uma grande nação repleta de recursos naturais, mas muito pobre e quase sem indústrias, drenou milhares de libras esterlinas para os ingleses construírem aqueles três colossos dos mares?

Na virada do século XX, a Marinha do Brasil era inferior às rivais argentinas e chilenas em qualidade e tonelagem total. Em 1904, o legislativo brasileiro votou pela alocação de uma quantia significativa de recursos para resolver esse desequilíbrio naval. Os proponentes dessa estratégia acreditavam que uma marinha forte ajudaria a tornar o país uma potência internacional. Esses navios de guerra, os mais poderosos do mundo, entrariam em serviço em uma época em que os encouraçados estavam rapidamente se tornando uma medida de prestígio internacional. Eles, portanto, chamaram a atenção global para o que era percebido como um país recém-ascendente.

O Minas, como os marujos simplificavam o nome do encouraçado, era comandado pelo veterano capitão de mar e guerra João Batista das Neves, um oficial com mais de trinta anos na Marinha de Guerra. Ele tivera um papel de destaque na conhecida Revolta da Armada de 1893, comandando o cruzador Andrada. Neves assumiu o comando desde a saída do encouraçado dos estaleiros de Newcastle-on-Tyne, no dia 4 de fevereiro de 1910.

O Minas Gerais já completamente pronto.

Mas o navio brasileiro não seguiu direto para o Brasil. Primeiramente rumou para os Estados Unidos, para o porto de Norfolk, no estado da Virgínia. Antes atracou no porto de Plymouth, sudoeste da Inglaterra, onde desembarcou alguns marinheiros que estavam doentes. Partiu no dia 8. Pouco mais de 24 horas depois o navio brasileiro se viu diante de um fortíssimo temporal e seu comandante decidiu seguir para a ilha de São Miguel, nos Açores, aonde chegou em 15 de fevereiro. Nessa ilha o Minas recebeu carvão e zarpou no dia 21 para os Estados Unidos[8].

O Minas Gerais, em uma pintura do inglês Charles L. De Lacy.

Chegaram na costa americana no dia 2 de março, mas só puderam entra no canal de Hampton Roads dois dias depois devido a um pesado nevoeiro. Antes de atracar no porto de Norfolk, o encouraçado seguiu para um local chamado Old Point Confort, defronte ao Fort Monroe, uma das maiores fortificações militares americanas na época. Nesse local o Minas Gerais disparou uma salva de 21 tiros de canhão em saudação a nação anfitriã. O navio brasileiro foi então saudado pela guarnição do forte e do encouraçado USS Lousiana.

USS North Carolina

Depois de treze dias o Minas Gerais se juntou ao cruzador blindado USS North Carolina, da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), e seguirem para o Rio de Janeiro. A missão do North Carolina era transportar o corpo de Joaquim Nabuco, então embaixador do Brasil nos Estados Unidos e falecido em janeiro de 1910. Os dois navios zarparam às dez e meia da manhã de 17 de março.

Na sequência os dois navios realizaram no dia 22 de março uma parada para abastecimento de carvão na ilha de Barbados, no Caribe, então uma colônia britânica. No outro dia as duas naves seguiram em direção ao Brasil[9].

Salva dos poderosos canhões do Minas Gerais.

E é aí onde começa o mistério da noite em que Natal foi iluminada por holofotes.

Quem Iluminou Natal?

Os primeiros brasileiros que comunicaram terem visualizado a dupla Minas Gerais e North Carolina, foi o pessoal do farol de Salinas, atualmente Salinópolis, no Pará. O caso ocorreu na tarde de 31 de março de 1910, quase dois dias depois do caso de Natal ter sido misteriosamente iluminada por luzes que aparentemente eram de holofotes[10].

É certo que esses navios passaram por Natal no começo da manhã do dia 4 de abril, onde provavelmente não foram vistos por ninguém. Sabemos disso porque nessa mesma data, às duas da tarde, eles passaram diante do porto de Recife, onde diminuíram a marcha, emitiram sinais de luz e foram vistos por muitas pessoas[11]. Dependendo da condição do mar, um navio que siga entre Natal e Recife a 21 nós de velocidade, leva cerca de sete a oito horas de navegação[12].

Se não foi nem o Minas Gerais e nem o North Carolina, quem então iluminou Natal?

Sabemos que não era incomum nessa época, anterior a criação do radar, que navios utilizassem seus holofotes. Evidentemente que a quantidade desses aparelhos por navio dependia da sua utilização, no caso do Minas Gerais, uma nave de guerra, haviam nove holofotes de 90 centímetros de diâmetros, que tinha um alcance de até seis minhas náuticas, ou cerca de onze quilômetros.

O uso desse tipo de aparelho de iluminação marítimo estava condicionado a situações variadas. Desde necessidade de navegação segura, localização de obstáculos, transmissão de sinais, busca de náufragos no mar e muito mais.

Holofotes de 90 cm em uma nave inglesa durante a Primeira Guerra Mundial, iguais aos utilizados no encouraçado Minas Gerais.

Então seria errado algum navio ligar seu farol para tentar entrar no porto de Natal e assim evitar bater nas rochas que durante séculos atrapalharam a entrada de naves no rio Potengi? Teoricamente não!

Inclusive nessa época já existia na Fortaleza dos Reis Magos um farol de sinalização que orientava os navegantes a ultrapassar a barra do rio e chegar ao porto. Mas em 1910 o procedimento normal era esses barcos entrarem no nosso porto com o apoio de um prático de navios durante o dia. Esse é tipo de profissional até hoje, mesmo com todos os avanços tecnológicos, conhece os detalhes e obstáculos de um determinado corpo de água e trabalham orientando navios a adentrarem e atracarem com segurança nos portos de todo mundo.

Uso de holofotes na Marinha do Canadá, na década de 1910.

Percebemos que um barco que utilizasse de maneira indiscriminada holofotes de alta potência e longo alcance sobre uma cidade, sem adentrar o seu porto (o que justificaria o uso dos holofotes), assustando toda uma população, não sei se é considerado algum tipo de crime. Mas certamente não é uma situação normal, pois não conheço outro caso.

Pelos dias posteriores a 29 de março de 1910, as notícias sobre o encouraçado Minas Gerais que circularam no jornal natalense A República, o principal da cidade, focaram basicamente na sua chegada ao Rio de Janeiro, então Capital Federal. Comentaram principalmente sobre a retumbante festa que aconteceu no porto da cidade, onde não faltaram manifestações patrióticas e nacionalistas. Em tempo – Afora as notícias publicadas em A República, nenhum outro jornal, ou qualquer documento oficial, trouxe novas informações sobre a passagem do encouraçado Minas Gerais diante da capital potiguar e sobre a utilização de holofotes iluminando a cidade.

Não tenho meios para dizer o que foi que iluminou Natal e assustou sua população em 29 de março de 1910.

O mistério permanece!

NOTAS————————————————————————————————————————————————————–


[1] Sobre a população de Natal na época e outros dados ver Cascudo, C. História da Cidade do Natal, 3ª ed., Natal-RN, Edição IHGRN, 1999, página 95.

[2] Nesse tempo em Natal existia uma estação pluviométrica e suas medições eram publicadas diariamente na primeira página do jornal A República, o principal jornal do Rio Grande do Norte na época. Chama atenção as temperaturas bem mais amenas que nos dias atuais.

[3] Como ocorre até hoje em uma região afetada pelas secas, a boa notícia naqueles dias frios era que no interior do Rio Grande do Norte as chuvas caiam em todo sertão e os rios Assú, Mossoró, Ceará-Mirim e Potengi estavam com grande volume de água. Como naquela época o algodão, o gado e outros produtos agropastoris eram os motores da fraca economia potiguar, aquelas chuvas eram ótimas notícias depois de dois anos de seca.

[4] Ver Cascudo, C. História da Cidade do Natal, 3ª ed., Natal-RN, Edição IHGRN, 1999, página 301.

[5] Ver jornal A República, Natal-RN, ed. 18/03/1910, pág. 1. Não consegui encontrar nenhuma informação sobre quem era Hernani Fontes, mas seu artigo é muito interessante e aponta com antecedência o que ocorreu na Revolta da Chibata.

[6] Pesquisadores e jornalistas do ramo de defesa nacional apontam que durante um curto período após seu lançamento e incorporação na Marinha do Brasil o encouraçado Minas Gerais, assim como seu irmão São Paulo, realmente foram os navios de guerra mais poderosos em termos de armamentos no mundo. Ver o canal https://www.youtube.com/watch?v=4tMAxMwob70

[7] Em razão de falta de dinheiro, decorrente de uma da muitas crises econômicas que atingiram o Brasil em sua História, o encouraçado Rio de Janeiro foi vendido para o Império Otomano, atual Turquia, em outubro de 1913 e rebatizado Sultân Osmân-ı Evvel. Com o início da Primeira Guerra Mundial o navio foi assumido pelos ingleses e denominado HMS Agincourt. Ver http://www.dreadnoughtproject.org/tfs/index.php/H.M.S._Agincourt_(1913)

[8] As quase 20.000 toneladas de deslocamento permitiam ao Minas Gerais enfrentar a maioria dos temporais marítimos,  mas a tripulação a bordo estava reduzida a 836 homens e, na avaliação do comandante João Batista das Neves, estes se encontravam “bastante fatigados”. Por isso a necessidade dav parada nos Açores. Ver jornal A Imprensa, Rio de Janeiro-RJ, 17/04/1910, págs. 3 e 4.

[9] É possível conhecer todos os detalhes da viagem do encouraçado Minas Gerais para o Brasil em 1910 em uma grande reportagem publicada nos jornal A Imprensa, Rio de Janeiro-RJ, 17/04/1910, págs. 3 e 4.

[10] Ver notas sobre essa visualização nos jornais  A Imprensa, Rio de Janeiro-RJ, 17/04/1910, págs. 3 e 4. E A Província, Recife-PE, 02/04/1910, pág. 1. O farol do município de Salinas foi construído em 1852, reformado em 1916 e continua em funcionamento até nossos dias. Sobre esse farol ver – https://pt.wikipedia.org/wiki/Farol_de_Salin%C3%B3polis. Sobre o município de Salinópolis ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Salin%C3%B3polis.

[11] Ver Jornal de Recife, Recife-PE, 05/04/1910, pág. 1.

[12] Sobre a distância marítima entre Natal e Recife e o tempo de navegação, ver www.geografos.com.br

100 ANOS DA FEIRA DO ALECRIM, A MAIS ANTIGA E TRADICIONAL DE NATAL

Rostand Medeiros – IHGRN

O Alecrim como bairro foi oficialmente criado em 24 de setembro de 1911, sendo o quarto da capital potiguar, mas antes mesmo de sua criação oficial, já nos primeiros anos do século XX, na área do Alecrim existiam pequenas chácaras e sítios que produziam alimentos que ajudaram no desenvolvimento daquela parte da cidade e logo serviram de entreposto comercial com produtos que vinham do interior. Essa integração essencial fez o Alecrim transforma-se na porta de entrada daqueles que procuravam Natal.

Logo algumas pessoas simples, mas com forte capacidade no tocante a iniciativas coletivas, decidiram criar no Alecrim uma feira livre para popularizar, facilitar e incrementar principalmente a venda de produtos alimentícios.  

1912, feira na região do Passo da Pátria, anterior a Feira do Alecrim. Existiram algumas feiras livres na capital potiguar, mas a que realmente despontou foi a do Alecrim.

Consta no livro do Professor Itamar de Sousa a reprodução de um texto produzido pelo historiador Luís da Câmara Cascudo, publicado no jornal A República, edição de 19 de outubro de 1948, onde Cascudo detalhou a inauguração dessa feira livre[1].

A primeira vez que a Feira do Alecrim ocorreu foi em um domingo, 18 de julho de 1920 e a iniciativa partiu de João Estevam de Andrade e de Balbino José dos Passos. Naquele domingo o encontro dos vendedores aconteceu no que hoje é a casa de número 1297, no encontro da Rua Presidente Quaresma com a Avenida Coronel Estevão (onde atualmente existe uma farmácia).

Para Cascudo o movimento logo chamou atenção da cidade e nesses primeiros anos a feira continuou a acontecer sempre aos domingos. Outros que colaboraram para que aquela ideia tivesse êxito foram Francisco das Chagas Dantas, José Francisco, Francisco Justino, Sabino Duarte, José de Lima, Enéas Café, José dos Santos, José Alexandre, João Ferreira, Joaquim Vicente de Andrade, Genésio Pinheiro, Laurentino Moraes, José Barbosa e outros. 

Outra pessoa que muito ajudou no desenvolvimento da Feira do Alecrim foi o Professor Luís Soares. Esse homem magro, mas de um espírito e vontade enérgicos, já tinha sob sua batuta a direção do Grupo Escolar Frei Miguelinho e da Associação de Escoteiros do Alecrim, mesmo assim apoiou os feirantes e realizou a ponte entre aqueles pequenos empreendedores e a Intendência Municipal. Luís Soares falou por eles junto a Teodósio Paiva e Fortunato Aranha, respectivamente presidente e vice-presidente da Intendência de Natal[2]. O professor mostrou com seu contagiante entusiasmo o nascimento daquele movimento comercial popular, realizado por aqueles pequenos empreendedores que dificilmente poderiam adentrar as portas do Palácio Felipe Camarão sem que surgissem olhares de desconfiança.

Desenvolvimento

Em 1924 a feira livre do Alecrim já havia se tornado um hábito entre os natalenses e sua força econômica já se fazia sentir entre os membros da sociedade e do comércio.

Segundo um artigo publicado na primeira página do jornal natalense A República, em sua edição de sexta-feira, 14 de março de 1924, a feira dominical do Alecrim era algo extremamente positivo para a economia da cidade e que deveriam ser criadas outras feiras livres em Natal. Entre outros fatores apontados para a criação desses novos locais de venda estavam a distância dos bairros centrais da cidade em relação ao Alecrim e que essas feiras poderiam ocorrer em dias alternados, facilitando a vida de natalenses que viviam em uma época onde a conservação de alimentos em refrigeradores era algo quase inexistente na cidade.

Um dos locais apontados para a criação de novas feiras seria na então Praça Pio X, no centro da cidade, onde hoje se encontra a moderna Catedral Metropolitana de Natal. Já outro local seria na Esplanada Silva Jardim, no bairro da Ribeira, para atender os habitantes daquela que era a mais importante região comercial da cidade, além dos moradores das Rocas, que só se transformaria oficialmente em bairro através da Lei 251, promulgada em 5 de outubro de 1947[3].

Segundo os autores do texto, que acredito ser algum dos redatores do jornal na época (Manoel Dantas, José Vicente e Lélio Câmara), a cidade de Natal vivia então uma crise alimentícia. Para o autor (ou autores) do texto os preços praticados no Mercado Público de Natal eram elevados e a existência de feiras livres espalhadas pelos bairros tanto ajudariam no abastecimento, como na diminuição dos valores.

Ao ler o texto jornalístico fica claro que a Intendência Municipal de Natal desejava que a venda de produtos básicos ficasse concentrada no Mercado Público, com a desculpa que era um local com melhor condição de arrecadar impostos[4].

Vendas e Movimento

Um artigo publicado sobre o tema aponta que “as feiras livres se constituem em um ponto ou nó de encontro de fluxos de pessoas, mercadorias, informações, capitais, com diferentes dimensões socioespaciais, realizadas ao ar livre, em ruas, praças ou terrenos baldios, com produtos expostos em barracas ou no chão, intercaladas geralmente no intervalo de uma semana, ou num interstício menor, que podem ter uma área de influência local ou regional. A feira livre é, portanto, uma instituição econômica e uma prática social, constituída de uma notória dimensão geográfica”. A Feira do Alecrim era e ainda é exatamente isso[5].

Um jornalista deixou um testemunho onde informou que nos dias de movimento, na medida que crescia o volume de pessoas, igualmente crescia o número de cavalos e burros para levar as mercadorias. Comentou também que a região se tornava local de realização de diversos negócios, não apenas de venda de produtos alimentícios. Inúmeros comércios se formaram ao redor da feira livre que cada vez mais crescia.

A balburdia era enorme, com vendedores oferecendo produtos aos gritos, produzindo entonações de suas vozes para alcançar o maior número de clientes. O berreiro do regateio também era franco e extremamente intenso.

Os jornais antigos mostra que não eram raros no início da história da Feira do Alecrim os problemas com preços, qualidade dos alimentos e alterações de pesos de balanças.

As barracas eram pequenas, mas nelas se encontram farinha, milho, feijão. Carne de sol, queijos de coalho e de manteiga vinha do sertão no lombo de animais. Galinhas eram vendidas vivas, penduradas pelos pés em uma vara, devendo ser abatidas (torcendo o pescoço) e depenadas pelos fregueses em suas casas. Quando a carne verde estava cara, o negócio era partir para o toucinho de porco. Quando esse produto estava a peso de ouro o jeito era ir para os miúdos bovinos, como coração, língua, fígado, mocotó e tripas. O jornalista apontou que certamente no domingo tudo era misturado em uma suntuosa feijoada nas casas do Alecrim[6]

Mas além do comércio, a Feira do Alecrim era um local de extrema convivência social, principalmente das classes menos favorecidas da cidade. Não demora e a região da feira também serve para jogatinas, conforme podemos ver na nota que segue adiante.

Conflitos

A Feira do Alecrim também podia ser um lugar de conflitos sérios. Como o que aconteceu em agosto de 1935 e provavelmente possui ligação com a Intentona Comunista, deflagrada em 23 de novembro daquele mesmo ano.

Por volta das duas da manhã do domingo, 18 de agosto, um grupo de cinco praças do Exército bebiam café em uma das bancas que serviam comida antes da feira começar. De repente, três homens fardados como militares chegam correndo, com facas e punhais na mão e, sem a menor discursão, passam a atacar os desprevenidos militares com violentas cutiladas. Morreu o militar José Costa e ficaram gravemente feridos Raimundo Bernardo de Souza e José Olyntho da Silva. Já Pedro Paulino da Silva e um quinto membro do grupo tiveram ferimentos leves. Adaucto Rodrigues, então delegado de polícia do Alecrim, mandou chamar uma patrulha do 21º Batalhão de Caçadores para assumir o caso, já que todas as vítimas eram oriundas desse quartel. A patrulha veio e depois seguiu em diligência na busca dos atacantes, mas não conseguiu prendê-los. Segundo o jornal A Ordem esse crime na Feira do Alecrim repercutiu bastante em Natal, mas estranhamente não saiu uma linha sobre o caso no jornal A República, o periódico oficial do Governo do Estado[7].

Aparentemente esse caso teria relação com um outro ataque que ocorreu pouco tempo depois, dessa vez contra o tenente do exército Francisco Rufino de Santana.

Por volta de seis da noite de 16 de novembro de 1935, após o expediente e ao retornar para sua casa, esse oficial levou vários de tiros no braço ao descer de um bonde na Avenida Hermes da Fonseca, resultando em ferimentos graves. Ocorre que o tenente Santana participava de um inquérito militar que investigava alguns militares daquele quartel e que certamente provocaria a expulsão desses homens. Homero Costa aponta em seu livro que esse inquérito estava relacionado a assaltos contra bonde praticados por um soldado e um cabo do Exército, em conluio com dois sargentos da Polícia Militar. Esses marginais atacavam suas vítimas uniformizados e, para não serem reconhecidos, utilizavam máscaras. No livro de Homero não existe nenhuma referência se a investigação do inquérito que ocasionou o atentado contra o tenente Santana teria alguma relação com o conflito ocorrido na feira do Alecrim. Mas a proximidade das datas e seus praticantes parece apontar nesse caminho[8].

Ainda segundo Homero Costa, a notícia de dispensas no 21º Batalhão de Caçadores, como era de se esperar, gerou insatisfações. Na segunda-feira, dia 25 de novembro, haveria continuidade do inquérito, com as dispensas que seriam anunciadas. Mas antes disso, às 19h30 de sábado, 23 de novembro, os militares lotados no quartel do Exército Brasileiro em Natal deflagraram o que ficou conhecido como Intentona Comunista[9].

Quartel da Força Policial, conhecido como “Quartel de Salgadeira”, em Natal, após ser metralhado durante a Intentona Comunista – Foto – toxina1.blogspot.com

Para mim a associação de problemas políticos de âmbito nacional e estadual, em meio a uma época de extremo radicalismo político, foi o que provocou a deflagração da Intentona Comunista em Natal. A existência desse inquérito e a possível exclusão de militares do 21° Batalhão de Caçadores, apenas foi mais combustível para a execução desse movimento extremista na capital potiguar.

A Mudança Para os Sábados

O movimento da Feira do Alecrim aos domingos, mesmo com restrições, vinha seguindo normalmente, mas as mudanças nas leis trabalhistas no Brasil alteraram a data da feira livre do Alecrim e até mesmo os aspectos da relação trabalhista do comércio em Natal.

As conquistas sociais em relação ao trabalho no Brasil são tardias, porque nosso desligamento com a escravidão se deu próximo do início do século XX, bem como as nossas indústrias só começaram a se instalar em maior número nessa mesma época. Em 1930, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, este passou a buscar um maior equilíbrio em relação aos direitos trabalhistas. Com a Constituição de 1934 foi previsto o salário mínimo, jornada de trabalho de oito horas, repouso semanal, férias remuneradas e assistência médica e sanitária[10]. Vale ressaltar que todas essas conquistas trabalhistas foram implantadas em um período onde o poder do Governo Federal era imenso e extremamente forte.

Mas em Natal as mudanças parecem ter ocorrido de forma muito lenta, pois quase no início da Segunda Guerra Mundial esses eram os horários normais de trabalho dos comerciários na capital potiguar.

Foi quando o então prefeito Gentil Ferreira de Souza decidiu alterar várias situações ligadas aos horários de trabalho. Em 1º de agosto de 1939 ficou determinado que não haveria mais trabalho no comércio da cidade de Natal aos domingos[11].

Um dos setores que realmente vibrou com a nova ideia foi a Igreja Católica, pois agora o domingo poderia ser totalmente dedicado a Deus[12]. Obviamente quem não gostou nem um pouco dessa decisão foram os feirantes do Alecrim, pois ficou decidido que o dia de funcionamento da feira livre mais importante da cidade deveria passar a ser na segunda-feira. 

Lendo os jornais do período percebe-se que a mudança não foi aceita tranquilamente nem pelos feirantes, nem muito menos pelos consumidores e certamente criou problemas para o prefeito Gentil Ferreira. Percebemos que a Feira do Alecrim, ou uma parte dela, ocorreu no domingo. Como consequência os fiscais da então Inspetoria Regional do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio em Natal, que tinha sob seu comando Amílcar de Faria Cardoni, multaram vários feirantes.

No jornal católico A Ordem de 6 de agosto de 1939 temos a publicação de telegramas trocados por Amílcar Cardoni e o Prefeito Gentil Ferreira. Inclusive na manchete de primeira página que dá publicidade a essas correspondências, esse jornal utilizou a palavra “Alvitre” para o conteúdo da missiva emitida pelo Prefeito Gentil Ferreira. Mas o Prefeito de Natal apenas apontou para Amílcar que eles deveriam aguardar o retorno do Interventor Federal Rafael Fernandes Gurjão, que então realizava uma viagem ao interior do Rio Grande do Norte, para debaterem sobre o melhor horário de funcionamento da Feira do Alecrim e que a Inspetoria sustasse quaisquer ações fiscais.

A resposta de Amílcar Cardoni ultrapassa os limites da arrogância e foi típica de funcionários públicos federais superiores em períodos de ditaduras no Brasil, como no caso do Estado Novo nesse tempo. Na sua missiva o barnabé federal procurou ensinar ao Prefeito de Natal as suas funções, utilizando a frase “Definindo com clareza nossas atribuições, em face do citado assunto” e chega mesmo ao ponto de resumir como era o funcionamento do órgão federal onde trabalhava[13].

Não sabemos como a querela entre os poderes municipal e federal prosseguiu e nem se a Feira do Alecrim alterou seu dia de atuação para as segundas, como desejava o prefeito. Mas o certo é que somente um ano depois o problema obteve uma solução definitiva e satisfatória para todos os envolvidos.

No dia 23 de agosto de 1940 houve uma reunião na sede da repartição comandada por Amílcar Cardoni, onde estiveram presentes o prefeito Gentil Ferreira e Paulo Pinheiro de Viveiros, Diretor do Departamento Administrativo do Governo do Rio Grande do Norte. Saiu na imprensa que “Após animados debates transcorridos em ambiente de cordialidade”, ficou decidido que a Feira do Alecrim ficaria sendo realizada no sábado.

E finalmente no dia 14 de setembro de 1940, há pouco mais de oitenta anos, pela primeira vez a Feira do Alecrim funcionou no sábado.

Um Dos Locais Mais Populares e Tradicionais de Natal

A Feira do Alecrim se tornou a maior e mais importante referência do bairro onde ela se realiza. E, além do comércio, percebi lendo os velhos jornais que ao longo de muitos anos a Feira do Alecrim foi um local de intensa atividade de grupos folclóricos, que se apresentavam para os consumidores. Infelizmente nos dias de hoje a maioria dessas manifestações folclóricas ou não são mais executadas, ou não recebem por parte da nossa sociedade o mesmo interesse que havia nesse período. E isso é porque estamos na terra onde nasceu Luís da Câmara Cascudo, o maior folclorista brasileiro!

E falando em folclore, foi na administração de um prefeito natalense que muito deu valor ao folclore e a cultura em geral, que um dos fundadores da Feira do Alecrim foi homenageado.

O Prefeito Djalma Maranhão sancionou em 12 de junho de 1958 a Lei nº 823-E, que estabelecia que fosse colocada na casa número 1297, na esquina da Rua Presidente Quaresma com a Avenida Coronel Estevão, uma placa de bronze com o nome de João Estevam de Andrade, apontando-o como o homem que idealizou e incentivou a feira livre a partir do dia 18 de julho de 1920[14]. Naquele ano a Feira do Alecrim completava 38 anos de existência e as informações para a criação dessa Lei foram oriundas do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN, do extinto Concelho de Turismo e da Câmara Municipal de Natal.

E por falar em turismo, durante anos o autor dessas linhas atuou profissionalmente como Guia de Turismo em Natal, cadastrado pela Ministério do Turismo. Trabalhei diretamente com o público que era proveniente da Península Ibérica e em algumas ocasiões tive o privilégio de apresentar para, sei lá quantos portugueses e espanhóis, a Feira do Alecrim. Para mim sempre foi uma experiência incrível ver aqueles estrangeiros embasbacados com as cores, os cheiros, os sabores e a alegria da nossa gente. Eles se encantavam com a gentileza e humildade dos feirantes, o gosto das nossas frutas, a maneira como as pessoas anunciavam seus produtos. 

Nasci morando no bairro das Rocas, mas me entendi por gente vivendo na Rua Borborema, perto da Base Naval de Natal, no Alecrim. Hoje moro no Barro Vermelho, a poucas quadras do final da Feira do Alecrim, aonde quase todos os sábados estou presente para comprar frutas e verduras.

Em uma época onde em Natal não faltam alguns modernos e interessantes shopping centers, chama minha atenção como algumas pessoas ditas cultas e inteligentes dessa cidade, com uma interessante formação acadêmica, comentam de maneira arrogante que “-Como é possível em pleno século XXI existir algo como a Feira do Alecrim?”. Essas pessoas transparecem uma grande aversão e um completo desconhecimento sobre a importância e, principalmente, a história de um dos mais antigos locais em atividade comercial contínua de Natal e onde existe uma das maiores interações comerciais e sociais da capital potiguar.

Mas a Feira do Alecrim estará lá, aberta aos sábados, esperando por vocês!

NOTAS


[1] Ver Nova História de Natal, de Itamar de Souza, 2ª ed. ver. atual. Natal-RN, Departamento Estadual de Imprensa, 2008, págs. 549 a 552.

[2] Intendência Municipal é o que hoje chamamos de Prefeitura Municipal.

[3] Ver Nova História de Natal, de Itamar de Souza, 2ª ed. ver. atual. Natal-RN, Departamento Estadual de Imprensa, 2008, pág. 326.

[4] Ver jornal A República, Natal-RN, edição de 14 de março de 1924, pág. 1. O antigo Mercado Público de Natal se situava na Avenida Rio Branco, onde atualmente se localiza a agência centro do Banco do Brasil.

[5] Sobre o tema ver o interessante artigo As feiras livres e suas (contra)racionalidades: Periodização e tendências a Partir de Natal-RN-Brasil, de Francisco Fransualdo de Azevedo e Thiago Augusto Nogueira de Queiroz, ambos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e publicado na Revista Bibliográfica de Geografía y ciencias sociales, Universidade de Barcelona, Vol. XVIII, nº 1009, 15 de janeiro de 2013. Esse artigo pode ser visualizado na internet através do endereço eletrônico – http://www.ub.edu/geocrit/b3w-1009.htm

[6] Ver jornal A Ordem, Natal-RN, edição de 18 de junho de 1949, pág. 4.

[7] Ver jornal A Ordem, Natal-RN, edição de 20 de agosto de 1935, pág. 4.

[8] Ver A insurreição comunista de 1935, de Homero Costa, Natal-RN, EDURF, 2015, págs. 167 a 169.

[9] O livro A insurreição comunista de 1935, de Homero Costa, é leitura obrigatória para conhecer melhor esse momento da história do Rio Grande do Norte.

[10] Antes das mudanças apoiadas por Getúlio Vargas, entre o final do século XIX e início do século XX foram estabelecidas normas que previam férias (quinze dias por ano) e alguns tipos de direito em relação aos acidentes de trabalho, mas sem uma regulamentação mais ampla. Com relação aos horários e dias da semana utilizados para o trabalho, o que vigorava era o regulamento de cada comércio ou fábrica, e alguns trabalhadores chegavam a trabalhar entre 14 e 18 horas por dia. Data dessa época a organização dos primeiros sindicatos e as primeiras greves, que tinham entre as principais reivindicações a restrição da duração do trabalho. Ver https://www.politize.com.br/direitos-trabalhistas-historia/

[11] Ver jornal A República, Natal-RN, edição de 23 de julho de 1939, pág. 1.

[12] Ver jornal A Ordem, Natal-RN, edição de 23 de julho de 1939, pág. 4.

[13] Ver jornal A Ordem, Natal-RN, edição de 6 de agosto de 1939, pág. 1.

[14] Na Lei nº 823-E não faz nenhuma referência a nenhuma outra pessoa que tenha sido fundador da Feira do Alecrim. Igualmente não sei se a placa foi colocada.

OS PRIMEIROS ANOS DO BAIRRO DO ALECRIM E UMA OUTRA VERSÃO SOBRE A ORIGEM DO SEU NOME

Uma Carta Produzida por um dos Primeiros Moradores do que Se Tornaria o Bairro do Alecrim Informa Uma Outra Versão Sobre a Sua Toponímia e Quem Teria “Batizado” um dos Mais Tradicionais Bairros de Natal

Rostand Medeiros – IHGRN

Segundo o historiador Luís da Câmara Cascudo, antes da existência do que hoje conhecemos como Cemitério Público do Alecrim, as pessoas em Natal eram enterradas na parte interna, ou nas proximidades das igrejas católicas[1]. E isso eram um baita de um problema.

Cemitério Público do Alecrim na década de 1920.

Podemos perceber essa necessidade através do registro de uma sessão da Assembleia Legislativa Provincial, ocorrida em 29 de julho de 1851, quando João Ignácio de Loyola Barros debateu com José Moreira Brandão Castelo Branco se uma verba de 500$000 (quinhentos mil réis) seria destinada para a iluminação pública ou para a construção de um cemitério. Ganhou a iluminação[2].

Quanto ao cemitério público, segundo Câmara Cascudo, somente em 8 de fevereiro de 1856, o Presidente da Província Antônio Bernardo dos Passos fechou um contrato com o mestre Manuel da Costa Reis para a construção de um cemitério pelo valor de 3.400$000 (três contos e quatrocentos mil réis), “na esplanada que fica no caminho das Quintas” [3]. Como podemos perceber o valor aumentou bastante em relação do que se previu gastar com a mesma obra em 1851. E a razão para o aumento dos gastos é bem clara e transparente, pois 1856 foi o ano da cólera[4].

Região do Baldo no início do século XX.

Câmara Cascudo aponta que nesse tempo Natal tinha cerca de 5.000 habitantes, que a capital perdeu 215 vidas e o Rio Grande do Norte pagou o alto preço de 2.563 mortos. O Presidente Passos então proibiu enterros fora do cemitério e João Estevão Barbosa tomou posse como primeiro administrador do Cemitério Público em 11 de abril de 1856 e ganhava 40$000 (quarenta mil réis) por mês. Segundo Câmara Cascudo, diante do poder aquisitivo da moeda vigente no Império do Brasil, aquele valor era uma verdadeira fortuna. Quem sabe se não seria complementado por uma espécie de “adicional de insalubridade”?

Outra ação do Presidente Passos nessa época foi construir um Lazareto para abrigar os doentes pobres. Sobre a importância histórica desse local, um texto acadêmico aponta que “Os primórdios da psiquiatria potiguar se inserem na construção, em 1857, de um hospital Lazareto”[5]. Tudo indica que em 7 de setembro de 1882, o então Presidente da Província Francisco de Gouveia Cunha Barreto ou começou a ampliação desse local, ou derrubou o prédio velho e construiu uma nova edificação, que foi concluída em 1885 e passou a ser denominado de Lazareto da Piedade[6].

Certamente pelo medo de propagação do cólera e de outras doenças a partir dos corpos em decomposição, foi que o Presidente Passos escolheu o local do Cemitério Público em um ponto bem distante da área central de Natal, o que provocou novos problemas. Cascudo comentou que para atenuar essa situação, o Presidente da Província mandou comprar em Recife um carro fúnebre no valor de 750$000 (setecentos e cinquenta mil réis). Entretanto, quase quarenta anos depois do ataque do cólera em Natal, uma nota de jornal transparece como a distância para o Cemitério Público continuou sendo grande para a população local. Em 24 de agosto de 1891 o jovem Manoel Adélio Emerenciano faleceu de causas desconhecidas e foi enterrado no Cemitério do Alecrim. Seu pai, José Idelfonso Emerenciano, mesmo em meio a tragédia da perda do seu filho, fez questão de publicar uma nota agradecendo aqueles que se dignaram a acompanhar o velório até o cemitério[7].

Origem do Nome

Em sua interessante obra História da Cidade do Natal, Câmara Cascudo informou que uma senhora que habitava nas proximidades do cemitério público costumava enfeitar com pequenos ramos de alecrim os ataúdes das crianças que eram ali sepultadas. Não sabemos se essa mulher, conhecida como Velha do Alecrim, realizava essa caridosa tarefa por piedade, ou para pagar alguma promessa. Nem sabemos se sua ação ocorreu na época da epidemia do cólera, ou começou depois. Assim como nada ficou registrado sobre seu nome e sua história pessoal. Mesmo sem maiores referências, essa é a versão mais conhecida para a criação da toponímia do bairro do Alecrim[8].

Já na edição de 4 de agosto de 1948 (pág. 2) do jornal católico natalense A Ordem, encontramos um interessante relato feito por um oficial do Exército Brasileiro ao Monsenhor Paulo Herôncio de Melo (1901 – 1963), sobre os primeiros anos do que hoje é o bairro do Alecrim e um certo elemento, nem um pouco piedoso e caridoso, que supostamente teria batizado o bairro.

Reinaldo F. Lourival nasceu em Natal, sendo um dos dezenove filhos legítimos de Lourival Eduvirges de Mello Açucena (1827 – 1907), o renomado poeta Lourival Açucena[9]. Esse verdadeiro ícone da poesia potiguar teve três mulheres e ainda foi responsável pela vinda ao mundo de outros treze rebentos bastardos, perfazendo trinta e dois filhos no total. Apesar dessa situação, nada incomum em muitas famílias brasileiras na virada dos séculos XIX e XX, Reinaldo cresceu tendo acesso a uma boa qualidade de vida, o que lhe proporcionou entrar no Exército e seguir a carreira militar. Ele fez o curso de oficial na extinta Escola Militar da Província do Rio Grande do Sul[10].

Igreja de São Pedro Apóstolo, na área da Praça Pedro II. Nessa área é onde acreditamor ter sido construída a casa de Reinaldo Lourival.

Em 1948 Reinaldo Lourival escreveu para o Monsenhor Paulo Herôncio comentando que retornou do Rio Grande do Sul em abril de 1892, passando a residir na Rua Padre Pinto, antiga Rua do Fogo. Depois comprou um terreno que ficava além da região do Baldo, próximo da atual Praça Pedro II, onde construiu uma casa. Depois, na mesma área, edificou uma vivenda para sua mãe Dona Flora Clarindo de Vasconcelos Lourival, a segunda esposa de Lourival Açucena. Ele informou que naqueles primeiros momentos do Alecrim, afora algumas poucas casas ao redor do seu terreno, do cemitério e do lazareto, ou de algum rancho mais afastado, o resto era basicamente mato.

Câmara Cascudo faz eco ao texto de Reinaldo Lourival, apontando que antes de 1892 a região era ainda mais desabitada, onde comentou que “Raríssimas pessoas habitavam o descampado. Era terra de roçados de mandioca e de milho, zona de caçada para os morros. Umas quatro casinhas de taipa, cobertas de palha, sem reboco, denominadas capuabas, estavam dispersas num âmbito de légua quadrada”. Já em relação aos moradores da região onde atualmente se localiza a Praça Pedro II, Cascudo comentou que essa praça “teve as honras das iniciais filas de casas”. Ele apontou que entre os primeiros moradores que ali viviam estava Flora Lourival, mãe do militar Reinaldo Lourival[11].

Voltando ao texto produzido pelo militar em 1948, Reinaldo informou que batizou a área onde morava como “Alto da Santa Cruz”. Segundo ele a aprovação desse nome contou com o apoio de ninguém menos que o Padre João Maria Cavalcanti de Brito. E o bondoso e caridoso padre teria lhe dito que “Coloque lá uma cruz, que é o símbolo do Cristianismo”. Se o militar chantou essa cruz, eu não descobri.

Tempos depois, por volta de fevereiro ou março de 1895, um cidadão chamado Manuel dos Prazeres vendeu sua residência, que ficava após o cemitério e o lazareto. O comprador foi um negro conhecido Manuel Peregrino, que foi escravo de um rico comerciante chamado Joaquim Inácio Pereira. Após a sua libertação Peregrino, tido como “pândego”, montou uma “pensão” em uma antiga artéria de Natal chamada Rua do Morcego (anteriormente conhecida como Rua do Sebo) [12]. Um ambiente que, segundo Reinaldo, promovia bailes e batuques e a “gente do meretrício e do álcool” circulava tranquilamente. Sempre tarde da noite era servido pelo proprietário uma suculenta Panelada e uma ótima Mão de vaca, para levantar a moral e o espírito dos frequentadores, tidos pelo autor como uma “baixa e temível freguesia”.

Ocorre que o negócio de Peregrino estava perturbando a vizinhança da Rua do Morcego e o ex-escravo foi devidamente “convidado” a se retirar do setor pelas autoridades. Consta que ele pagou um bom dinheiro pela sua nova casa, mas o problema é que Manuel Peregrino levou para a região próxima do “Alto da Santa Cruz”, do cemitério e do lazareto o seu ganha pão, seu batuque, sua clientela, sua Panelada e a Mão de vaca.

Não demorou e começaram o que o militar classificou de “orgia e desordem”. Um dia o filho de Lourival Açucena testemunhou Peregrino atacar violentamente um ex-escravo do coronel Bonifácio Câmara a cacetadas. O fato ocorreu no meio da rua e na frente de todos, sem ter sido divulgada a razão do ataque[13].

Na revista carioca Fon Fon, edição de 11 de dezembro de 1916, na página 26, encontramos essa foto, onde o militar fardado é Reinaldo F. Lourival, atuando como juiz de uma luta de esgrima. O que mostra sua mudança para o Rio deJaneiro.

Reinaldo Lourival informou na carta publicada no jornal A Ordem que foi o próprio Manuel Peregrino que lhe confessou em uma ocasião que “batizou de Alecrim o novo bairro” e que isso ocorreu “de parceria com seus convivas, sentindo talvez o cheiro da planta aromática, que certamente em casa tinha”. O militar apontou que Peregrino fez isso “talvez ignorando o que eu tinha proposto”, que foi chamar a região de “Alto da Santa Cruz”, com a anuência do Padre João Maria.

Apesar do Relato Interessante, Seria Essa História Verdadeira?

Será que Manuel Peregrino, por talvez possuir ramos da popular planta aromática no seu negócio, decidiu junto com sua a sua gente bem destrambelhada chamar de “Alecrim” a área onde estava a sua dita “pensão”?

Realmente a única referência sobre essa versão de onde surgiu o nome Alecrim para o bairro, é a carta desse militar ao Monsenhor Paulo Herôncio e publicada na edição de 4 de agosto de 1948 (pág. 2) do jornal católico natalense A Ordem.

Parece não haver dúvidas que a planta alecrim (Salvia rosmarinus) era uma planta abundante e popular na capital potiguar. Encontramos inúmeras citações do seu uso entre os moradores de Natal nos jornais do final do século XIX. Certamente ela proliferava desde a região onde hoje se encontra a Praça Pedro II, até o Cemitério Público e o setor onde foi construído o antigo Lazareto da Piedade. Quem sabe se bem antes de existir o cemitério e a Velha do Alecrim com a sua caridosa ação, ou o “pensão” onde Manuel Peregrino vendia sua Panelada e a Mão de vaca, de alguma forma toda aquela região já era conhecida pelo nome da popular planta que ali proliferava?

Realmente eu não sei!

O que sei é que a história das cidades e de seus bairros é algo extremante dinâmico e interessante, cuja existência segue adiante independente de meras questões toponímicas.

Já nos primeiros anos do século XX existem várias referências sobre uma área, aparentemente um logradouro não oficial, denominado “Rua Alecrim”, cuja localização era “alguns passos além do campo santo”.

Essa referência encontramos na edição do jornal natalense A República, de 30 de julho 1902 (pág. 1), que afirmava ser a dita “Rua Alecrim” um dos locais perigosos de Natal. Um setor onde “a língua, as armas e a cachaça estão elevadas ao último grau”. Inclusive essa nota informava sobre o caso de um homem chamado Belarmino Bezerra Borges, que tinha sua horta composta de jerimuns, quiabos, macaxeiras, feijão de corda e outros legumes, sendo continuamente roubada e destruída por um certo Francisco de Oliveira, que acabou preso.

Outras referências deixam claro que a área no entorno da “Rua do Alecrim” era realmente “quente”. Poucos meses antes do roubo a Belarmino Bezerra Borges, encontramos a designação de José Pereira Neves como “Inspector de Quarteirão” da “Rua Alecrim” e da “Travessa Barro Vermelho, conforme está descrito na edição de 4 de fevereiro de 1902 (pág. 4) de A República,[14].

Região do Baldo. A avenida a direita na foto segue em direção a Praça Pedro II.

Apesar dos problemas envolvendo violências nessa área da capital potiguar, encontramos um indicativo de crescimento habitacional na região da “Rua Alecrim”. Ainda em 1902 foi publicado um convite feito por Godofredo Xavier da Silva Brito, Presidente da 1ª Seção de Alistamento Eleitoral, conclamando as pessoas que habitavam nas localidades “Pirangí”, “Ponta Negra”, “Quintas”, “Réfoles” e “Rua Alecrim”, para comparecerem na sede da Intendência Municipal e se registrarem como eleitores. Vale recordar que nessa época nem mulheres e analfabetos eram aceitos como eleitores e a fraude era uma constante nas votações. Já o que se chamava de Intendência Municipal, ou simplesmente Intendência, é algo que hoje denominamos como Prefeitura[15].

Logo a designação “Alecrim” começou a aparecer também em documentação oficial do Governo do Estado. Na página quatro do relatório da diretoria do Hospital de Caridade, entregue ao governador Alberto Frederico de Albuquerque Maranhão e anexado a sua mensagem ao Congresso Legislativo do Estado de 1904, o futuro bairro aparece como “Alto do Alecrim”.

E parece que a área foi crescendo, se ramificando e parindo outros logradouros com a denominação “Alecrim”. Em 1907 o Sr. Lucio Ferreira do Nascimento requereu na Intendência Municipal de Natal o aforamento de um terreno de sua propriedade na área da Praça Pedro Américo[16]. Nessa nota essa praça é também referenciada como “antiga do Alecrim”[17].

Bonde da linha o bairro do Alecrim.

Essa região, considerada periférica na época, continuou crescendo e em 23 de outubro de 1911, através da Resolução número 151, promulgada pela Intendência Municipal de Natal, é criado o bairro do Alecrim, o quarto bairro da cidade do Natal.

NOTAS


[1] Sobre a história do Cemitério do Alecrim ver Cascudo, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal-RN. IHGRN, 3ª Ed., págs. 263 a 266, 1999.

[2] O tribuno Loyola torcia que a verba se destinasse a iluminação e Brandão pelo cemitério. Apesar da Lei 225 ter sido promulgada em 9 de agosto de 1851, com a devida autorização para a compra de quinze lampiões que utilizavam azeite, ela não foi cumprida. Natal só veio a ter seu primeiro sistema de iluminação pública em 1859. Ver Cascudo, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal-RN. IHGRN, 3ª Ed., págs. 299 e 300, 1999.

[3] Sobre esses interessantes debates ocorridos na Assembleia Legislativa Provincial, ver o jornal Argos Natalense, Natal-RN, ed. 07/09/1851, pág. 2 e a edição de 20/09/1851, na pág. 4.

[4] Nesse mesmo ano de 1856 o Presidente Passos ergueu o Hospital da Caridade. Esse hospital ficava localizado na rua que ficou conhecida como Caridade e hoje se chama Presidente Passos, na Cidade Alta. Ver Cascudo, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal-RN. IHGRN, 3ª Ed., pág. 206, 1999.

[5] Reforma psiquiátrica em Natal-RN: evolução histórica e os desafios da assistência de enfermagem. Autores – Fernando de Souza Silva, Clélia Albino Simpson e Rita de Cássia Dantas. Publicado originalmente na SMAD, Revista Eletrônica de Saúde Mental, Álcoo e Drogas.(ED. Port.) vol.10no.2 Ribeirão Preto-SP ago. 2014.

[6] Segundo placa comemorativa ao centenário do prédio, onde hoje funciona o CEI Leste II, localizado no Alecrim, em 1921 o antigo Lazareto da Piedade se transformou no Hospital dos Alienados, depois foi construído no local o Centro de Saúde do Alecrim e hoje é o Centro de Saúde Reprodutiva Prof. Leide Morais, na Rua Fonseca e Silva.

[7] O carro fúnebre foi adquirido ainda em 1856. Sobre a nota publicada por José Idelfonso Emerenciano, ver o jornal O Santelmo, Natal-RN, ed. 06/09/1891, 1ª pág.

[8] Ver Cascudo, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal-RN. IHGRN, 3ª Ed., pág. 356, 1999.

[9] Foi Luís da Câmara Cascudo, com a ajuda de Joaquim Lourival, filho do poeta, que recolheu o que foi possível de seus poemas, publicando um volume em 1927. Este filho do bardo foi igualmente uma figura muito conhecido na capital potiguar, sendo proprietário de uma escola particular e chamado por todos de “Professor Panqueca”. Mais sobre a vida de Lourival Açucena ver https://tokdehistoria.com.br/2017/09/09/lourival-acucena-o-grande-artista-de-natal/

[10] Entre os filhos de Lourival Açucena ao menos três deles seguiram a carreira militar no Exército. Foi o caso do coronel Reinaldo F. Lourival, que anos depois do episódio aqui comentado passou a residir no Rio de Janeiro, e do major Pedro Lourival, que passou a residir em Pelotas, Rio Grande do Sul. Já o cadete Carlos Lourival, outro filho de Lourival Açucena, morreu com 21 anos em decorrência do “uso imoderado de morfina”. Este jovem nascido em Natal era fruto do segundo casamento do poeta, morava em São Paulo e estava lotado no 10° Regimento de Cavalaria, onde faleceu na madrugada de 4 para 5 de julho de 1889. Ver https://tokdehistoria.com.br/2017/09/09/lourival-acucena-o-grande-artista-de-natal/

[11] Ver Cascudo, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal-RN. IHGRN, 3ª Ed., pág. 355 e 356, 1999.

[12] Não consegui descobrir onde se localizava essa antiga artéria natalense.

[13] Alguém pode estranhar que Reinaldo F. Lourival, um oficial do Exército Brasileiro durante a Primeira República, uma época onde os militares detinham muito poder político em meio a sérias crises institucionais no Brasil, tenha aceitado a existência desse tipo de “ambiente” em uma área não muito distante da sua casa e a da residência de sua mãe. Entretanto, apesar de todo movimento, parece que nem o militar e nem sua família se sentiram atingidos pelo o que ocorria no lugar de trabalho de Manuel Peregrino, pois em seu longo relato não encontrei a menor referência desse militar utilizar a polícia contra esse lugar. Ainda segundo o texto publicado no jornal natalense A Ordem, na edição de 4 de agosto de 1948 (pág. 2), nessa época Reinaldo F. Lourival estava aposentado no posto de coronel e vivia no Rio de Janeiro. Por essa época morava em Natal um filho seu chamado Mauro, que havia estado na Itália, como 1º tenente-médico e integrante do contingente da Força Expedicionária Brasileira – FEB.

[14] Um “Inspector de Quarteirão” era uma pessoa designada, sem remuneração, como auxiliar do delegado municipal. Ficavam encarregados do policiamento em locais normalmente mais afastados dos centros urbanos, onde cabia-lhes lidar com situações diversas, sendo responsáveis pela solução de problemas localizados em seus setores, ou realizar o encaminhamento dos envolvidos para as Delegacias de Polícia. Segundo o historiador Anderson Szeuczuk, em um artigo publicado na Revista Saber Acadêmico (edição nº 28, dezembro de 2019) da Faculdade Presidente Prudente, informa que os quarteirões designados ao seus respectivos inspetores deveriam normalmente ter no mínimo 25 casas, o que poderia indicar um número relativo aos primeiros habitantes do bairro do Alecrim.

[15] Ver jornal A República, Natal-RN, ed. 23/04/1902, pág. 2.

[16] A antiga Praça Pedro Américo é chamada nos dias atuais de Praça Pedro II.

[17] Ver jornal A República, Natal-RN, 23/01/1907, 1ª pág.