O QUE FOI A REVOLTA DO 26º BATALHÃO DE CAÇADORES EM BELÉM DO PARÁ?

Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_do_26.%C2%BA_Batalh%C3%A3o_de_Ca%C3%A7adores

Entre as décadas de 1920 e 1930, os brasileiros ouviram muitas vezes o termo “Tenentismo”. E o que era isso?

Basicamente foi um movimento político-militar, baseado em uma série de rebeliões de jovens oficiais de baixa e média patente do Exército Brasileiro (tenentes), de camadas médias urbanas, que estavam insatisfeitos com o governo da República Oligárquica no início da década de 1920 no Brasil. O movimento defendia reformas na estrutura de poder do país, entre as quais se destacam o fim do voto aberto (fim do voto de cabresto), modalidade de voto que favorecia o coronelismo presente na República Oligárquica, além de defenderem a instituição do voto secreto e a reforma na educação pública.

Praça Siqueira Mendes, ou Praça do Relógio, Belém, Pará / Acervo Museu da República.

E a existencia desse movimento desencadeou pelo Brasil afora vários confrontos armados e sangrentos. Um deles é hoje praticamente esquecido – A Revolta do 26.º Batalhão de Caçadores de Belém do Pará…

O Tenentismo e o Pará

Ao início do movimento tenentista, o estado do Pará vivia sob a administração de Antônio de Sousa Castro (1921–1925) e sofria com as mazelas políticas, econômicas e sociais características da década final da Primeira República Brasileira. Desde a decadência do ciclo da borracha e, consequentemente, das receitas das exportações, o orçamento tinha um déficit fora de controle. A receita pública estadual em 1924 foi de 12.197 contos de réis, enquanto as despesas foram de 15.036 contos. Alguns servidores públicos passavam meses sem salário. A situação não afetava somente professores, gráficos e militares da Força Pública; o Juiz de Direito da comarca de Maracanã, dr. Lopes de Barros, anunciou num edital de 28 de setembro de 1921 que suspenderia os trabalhos fora de sua residência, “visto estar ainda impedido de substituir a minha beca inutilizada, e de comprar calçado para sair à rua, uma vez que não me são pagos os meus vencimentos, dos quais do ano fluente apenas recebi o relativo ao mês de janeiro”.

Entrda do Forte de Copacabana no Rio de Janeiro.

A política tinha como características, segundo o historiador Creso Coimbra, o “autoritarismo, o distanciamento com as bases populares, a fraude eleitoral, as perseguições, as depurações eliminando os indesejáveis, a nunca desmentida intenção de continuísmo, o revezamento no poder, os conchavos das cúpulas”. O situacionismo paraense alinhava-se às administrações federais de Epitácio Pessoa e Artur Bernardes. A Revolta dos 18 do Forte, executada por militares no Rio de Janeiro para impedir a posse de Bernardes, não teve equivalente em Belém. Os possíveis oficiais revoltosos já haviam sido transferidos, como o tenente Pires Camargo, que havia exercido o comando da 3.ª Companhia do 26.º Batalhão de Caçadores (26.º BC) durante a campanha eleitoral. Oficiais de Belém enviaram ao presidente um telegrama de solidariedade aos militares legalistas que debelaram a revolta.

Coronel Raimundo Barbosa, comandante da 8.ª Região Militar.

Um clima de desconfiança perdurava nos meios político e militar. Conforme um relatório do coronel Raimundo Barbosa, comandante da 8.ª Região Militar (8.ª RM) sediada em Belém, a oficialidade do 26.º BC e do 27.º BC, de Manaus, era “constituída na quase totalidade de oficiais removidos inoportunamente para a Amazônia, como indesejáveis em outros pontos do país e que vinham eivados de ideias subversivas”. Alguns eram “ligados por fortes laços de afeição e de parentesco a vultos de destaque nos partidos ou grupos em oposição aos governos estaduais”. Esta classe “não apresentava condições de segurança de sua fidelidade a lei e de respeito aos poderes constituídos”. Era o preço que o governo pagava pela política de transferências punitivas dos oficiais suspeitos. A Região comandava 1.258 homens dispersos pelo Pará, Amazonas, Maranhão e Piauí.

A Campanha da Bacia Amazônica

Uma calma aparente reinava em Belém no início de julho de 1924, sem perturbação pelas notícias da revolta tenentista que estourou em São Paulo no dia 5. A censura limitava as informações. Lideranças civis (Abel Chermont, Francisco Campos e Apolinário Moreira) organizavam um batalhão patriótico legalista para combater em São Paulo. O governo federal deslocou batalhões do Exército de diversos estados para a frente paulista. Em 7 de julho o Ministério da Guerra determinou que os quatro Batalhões de Caçadores da 8.ª RM (24.º, no Maranhão, 25.º, no Piauí, 26.º e 27.º) estivessem prontos para embarcar para o Rio de Janeiro. A situação era grave o suficiente para retirar toda a tropa federal da Amazônia.

Major Euclides de Oliveira Figueiredo.

A ordem de embarque chegou no dia 13, mas foi sustada por uma contraordem no mesmo dia, coincidindo com uma revolta em Sergipe. Uma nova ordem de embarque para os quatro batalhões foi expedida no dia 20. No dia 23, o major Euclides Figueiredo, do gabinete do ministro da Guerra, especificou que o embarque não seria das unidades inteiras, mas de contingentes de 250 praças por batalhão, acompanhados por oficiais indicados pelo ministro. O Estado do Pará noticiou o embarque no próximo domingo, dia 27, do contingente do 26.º BC, liderados pelo capitão Enéas Brasil. Eles seguiriam no paquete Bahia, que estava em Manaus, para o Rio de Janeiro. Rumores de uma revolta do 27.º BC e da Flotilha do Amazonas em Manaus já circulavam em Belém no sábado. Há 24 horas as casas comerciais da capital paraense já não tinham resposta a seus telegramas a Manaus. O silêncio era preocupante.

Os rumores eram verídicos: oficiais tenentistas haviam derrubado o governo amazonense no dia 23 e instalado o tenente Ribeiro Júnior como chefe de um governo revolucionário. Eles controlaram os três navios da Flotilha em Manaus, os avisos Teffé e Ajuricaba e a canhoneira Missões, e embarcaram cerca de 700 homens e quatro canhões no paquete Bahia. A canhoneira Amapá, único navio da Flotilha do Amazonas que estava ancorado em Belém, permaneceu legalista.

Um destacamento revoltoso subiu o rio Madeira até Porto Velho, enquanto a flotilha principal desceu o rio Amazonas, tendo como objetivo final ocupar Belém e controlar direta ou indiretamente toda a Amazônia. Manaus e Belém eram as duas maiores cidades da região e Belém era seu principal acesso ao comércio internacional. No caminho os revoltosos destituíram autoridades e capturaram estações telegráficas. O forte de Óbidos, no trecho mais estreito do rio Amazonas, seria crucial. Seu armamento principal era de quatro canhões navais Armstrong, de 152 milímetros, um poder de fogo muito maior do que o da Flotilha do Amazonas. Entretanto, a guarnição do forte entregou-se sem resistência. Canhões do forte foram embarcados no Bahia. Se a flotilha revoltosa chegasse a Belém, sua artilharia poderia bombardear os principais prédios militares e políticos; a intendência e o governo estadual estavam a centenas de metros da baía do Guajará. Os defensores não teriam nenhum canhão capaz de reagir.

Motim no Exército

Assim como em Manaus, a iminência de um embarque foi pretexto para uma revolta em Belém. Em 26 de julho o 26.° BC tinha ordens de embarcar no paquete Rodrigues Alves, do Lloyd Brasileiro. Já circulavam boatos de que a unidade recusava-se a embarcar para combater seus companheiros. Pelo relato do coronel Barbosa, “continuavam a circular, com inquietadora insistência, boatos sobre os desgostos que produzira no 26.° BC a ordem do sr. Ministro sobre o embarque de um contingente, em vez de todo o batalhão, como primeiramente fora ordenado e para que estava essa unidade preparada”. Ainda assim, “no Pará nada indica por enquanto que a ordem venha a ser perturbada”. Sua preocupação maior era com a Brigada Militar do Estado, insatisfeita com a corrupção e o descaso do governo estadual.

Tenente-coronel Sousa Castro, comandante do 26.º Batalhão de Caçadores.

O comandante da Região, suspeitando da tropa desde o ocorrido em Manaus, dividiu o batalhão, deixando a 2.ª Companhia no quartel e a 3.ª Companhia no Forte do Castelo, onde estava o depósito de armas de munições. À noite uma multidão aguardou a saída do contigente nas imediações do quartel, na praça Justo Chermont, mas os soldados ainda não podiam sair por ordem do comandante, o tenente-coronel Sousa Castro. Todos sabiam que o destino seria Óbidos, não mais o Rio de Janeiro; o batalhão subiria o rio Amazonas escoltado pela canhoneira Amapá.

A anarquia gradualmente tomou conta do quartel. O tenente José Justiniano Freire deu ordem de prisão ao cabo Sapucaia por insistir em ultrapassar o portão das armas, desobedecendo ordens. Os soldados que deveriam conduzi-lo calaram as baionetas e disseram “Não pode. Não pode. Assim é demais”. Freire argumentou com eles, convencendo alguns, mas como outros continuaram hostis, ele ordenou ao corneteiro que tocasse a formatura geral do contingente. A tropa obedeceu vagarosamente ou ignorou a ordem. Freire prometeu transmitir ao comandante da Região as exigências dos soldados, que se diziam dispostos a partir, contanto que com o batalhão inteiro junto, incluindo o comandante e oficiais, pois apenas um acompanharia o contingente. O tenente-coronel Sousa Castro discursou aos soldados, alguns dos quais aplaudiram e outros gritaram “não queremos partir”.

Um sargento recomendou ao tenente Freire que fugisse, mas ele ignorou o aviso. O mesmo sargento voltou pouco depois para avisá-lo que “os soldados arrombaram a intendência e estão se municiando. Fuja enquanto é tempo”. O tenente conseguiu reunir 30 praças para manter a ordem e entrou no alojamento da companhia, mas seus subordinados dispersaram-se quando viram a companhia pelos corredores, atirando contra as paredes e o cassino dos oficiais. A tropa estava em plena revolta sob a liderança do capitão Augusto Assis de Vasconcelos, acompanhado pelo tenente Edgar Eremta. Grupos armados saíram do quartel e montaram guarda em todos os sentidos. Telefonemas do comando da Região ao batalhão e ao hospital militar não tiveram sucesso, pois os revoltosos cortaram o serviço no centro da cidade com antecedência.

Forte do Castelo na cidade de Belém, as margens da foz do rio Guamá. É também conhecido por Forte do Presépio.

O tenente-coronel Sousa Castro foi preso pelos soldados, mas o tenente Freire conseguiu sair pelo portão das armas. Ele conseguiu um automóvel e foi ao Forte do Castelo, onde verificou ser falso o boato de que a companhia ali sediada também estava em revolta. Ele tentou convencer o comandante, o tenente João da Costa Palmeira, a marchar rapidamente ao quartel do 26.° BC e impor a ordem na 2.ª Companhia, aproveitando o efeito surpresa. O tenente Palmeira preferiu levar a 3.ª Companhia ao QG da Região, onde o tenente Freire tentou convencer o coronel Barbosa do mesmo plano de ataque imediato. O comandante da Região preferiu conferenciar com o governador. A conversa foi demorada e a oportunidade se perdeu. A 3.ª Companhia desertou, soldado a soldado, levando os armamentos do Forte até o quartel. O QG da Região foi também abandonado pela maior parte da Companhia de Administração que ali servia, e foi preciso chamar os bombeiros para formar uma linha de defesa. Estes eventos transcorreram, dependendo da fonte, até as 21h00, quando o coronel Barbosa foi informado; após as 21h30, quando a multidão de civis foi aconselhada a abandonar as imediações do quartel; ou até as 22h00, tempo em que não houve resposta das forças destacadas para o embarque.

Comparação dos Combatentes

O efetivo total do 26.° BC, músicos e empregados inclusos, era de 332 homens, uma quantia pequena, da qual cerca de 200 homens lutaram na revolta. A curta duração da batalha não deu tempo para se fazer convocações, mas numerosos reservistas do Exército, estivadores, motorneiros de bondes e populares aderiram às fileiras rebeldes, de forma comparável ao ocorrido em Manaus. Isto revela o clima de descontentamento popular e, conforme Creso Coimbra, demonstra que o movimento “ultrapassou os limites de uma simples quartelada”.

Taciel Cylleno, comandante do Batalhão de Infantaria da Força Pública (indicado por um X) e os tenentes Henrique Ferreira da Silva e Plácido Martins Ferreira (indicados com os números 1 e 2, respectivamente), ambos mortos em combate.

Os revoltosos do Exército enfrentaram a Força Pública paraense, denominada Brigada Militar do Estado, e diferente de sua equivalente no Amazonas, ela se mostrou preparada para o combate. Os legalistas organizaram-se em duas colunas, da esquerda e da direita. A coluna da esquerda, comandada pelo major Taciel Cylleno, seria a força de contenção, defendendo os acessos ao QG da Região Militar, órgãos públicos, comércio e telégrafos. O capitão Antônio José do Nascimento comandava a coluna da direita, composta de dois pelotões de infantaria, dois canhões-revólver Hotchkiss, cavalaria ligeira e uma reserva de 30 bombeiros armados com fuzis. Esta seria a força principal de ataque.

Pela organização de 1922, a Brigada Militar era composta de um batalhão de infantaria de 459 praças, organizado em quatro companhias e um pelotão extranumerário, um regimento de cavalaria de 188 praças, organizado em três esquadrões e um pelotão extranumerário, e um grupo misto com uma companhia de metralhadoras e outra de administração, para um total de 71 oficiais, 5 aspirantes e 760 praças. Destes, combateram 151 homens do Batalhão de Infantaria e 34 de um piquete de cavalaria, conforme o historiador da força policial Orlando Rego. Também lutaram 56 guardas civis, 16 bombeiros municipais e 65 militares do Exército na Companhia de Administração, para um total de 292 combatentes, sem subtrair os desertores da Companhia de Administração. Creso Coimbra registra 500 homens no lado do governo, em expressiva vantagem numérica. Segundo o comandante da coluna da direita, ela chegou a ter 350 homens com o reforço de reservistas. Alguns marinheiros da Flotilha do Amazonas e Capitania dos Portos também lutaram nas fileiras legalistas.

Canhão-revólver Hotchkiss.

As fontes apresentam um armamento em bom estado, oriundo das modernizações do Exército nos anos anteriores: pistolas Parabellum, fuzis Mauser e armas de repetição. O Exército consumiu 18 mil balas de fuzil. Creso Coimbra ressalta que os legalistas estavam muito melhor municiados. Uma estação de radiotelegrafia portátil foi provavelmente usada pela coluna da direita para se manter em contato com o comando geral.

Ambos os lados pretendiam uma guerra total, preparando-se para a resistência mais longa possível, e esperavam reforços pelos rios; a batalha de Belém era somente uma parte da guerra civil mais ampla com duas grandes frentes, uma de São Paulo ao Paraná e outra na Amazônia. As táticas de ambos os lados eram de combate de posições, com o entrincheiramento de pontos nas ruas e a conquista de pontos do oponente. A escolha das posições defensivas demonstra um extenso planejamento. Os revoltosos demonstraram um bom conhecimento do terreno ao diluir a tropa em obstáculos como as mangueiras que margeavam as principais avenidas de Belém, de forma que em alguns momentos os legalistas mal souberam de onde vinha a fuzilaria. Os legalistas fizeram avanços e recuos paulatinos, entrincheirando cada quarteirão conquistado. Ao anoitecer, o controle do governo sobre os serviços públicos permitiu-o apagar a iluminação elétrica, que favorecia menos a tropa legalista concentrada.

A Praça Justo Chermont nos dias de hoje. Essa praça fica localizada no centro da cidade de Belém, capital do estado brasileiro do Pará.

Coluna da Esquerda

Na noite de 26 e madrugada e manhã de 27 os revoltosos distribuíram patrulhas e sentinelas ao redor da praça Justo Chermont, da avenida 22 de Junho até as vias de São Jerônimo, Nazaré, Generalíssimo Deodoro, Gentil Bittencourt e Conselheiro Furtado. À tarde seu perímetro defensivo incluía posições na avenida Nazaré próximo à travessa Dr. Moraes, nas avenidas São Jerônimo e Ferreira Pena, na avenida Conselheiro Furtado próxima à travessa Quintino Bocaiuva e nas ruas Gentil Bittencourt e Brás Aguiar. Este perímetro defensivo permitia controlar as linhas de bonde.

Combatentes rebeldes abrigando-se por detrás de árvores na Praça da República em 27 de julho.

Assis Vasconcelos liderava um batalhão em desvantagem numérica, mas ainda assim partiu à ofensiva. Creso Coimbra compara este líder aos tenentes da Revolta dos 18 do Forte, pois “outro oficial mais técnico e menos arrojado teria preferido manter-se na posição defensiva”. Ele marchou do quartel do 26.° BC às 14h00 ou 14h30, pela avenida Nazaré, com 54 homens, conforme Orlando Rego. A coluna legalista da esquerda partiu também às 14h30: o major Cylleno seguiu à Praça da República, enquanto um piquete de 34 cavaleiros, liderados pelo tenente Henrique Ferreira da Silva, fez um reconhecimento na avenida São Jerônimo. Na esquina da travessa Rui Barbosa, a cavalaria foi atacada por revoltosos escondidos nas mangueiras e outros obstáculos. O tenente morreu com um tiro no peito e o piquete recuou.

A montaria do capitão Vasconcelos foi ferida e ele continuou a pé. Ao passar pela travessa Dr. Moraes, sua tropa quase foi atingida por fios de alta tensão. Na Praça da República eles foram recebidos pela fuzilaria e metralhadoras de um pelotão legalista, e após uma momentânea desorganização, expulsaram os defensores com uma carga de baionetas. O pelotão da Praça da República recuou ao quartel do Batalhão de Infantaria da Brigada Militar, na rua Gaspar Viana. A bibliografia é confusa quanto aos avanços e recuos. Segundo o jornal República (transcrito no Pacotilha, de São Luís), a coluna esquerda recuou ao quartel para que pudesse lutar de posições fortificadas. Um questionamento a essa interpretação é que o quartel seria fácil de cercar e render, e por si só não oferecia vantagem tática.

Praça da República, antigo Largo da Pólvora – Fonte – https://fragmentosdebelem.tumblr.com/post/50417327241

Perseguindo o pelotão legalista, o capitão Vasconcelos conduziu sua tropa na direção do Batalhão de Infantaria. No caminho, tomaram a sede do Tiro 14, na avenida Ferreira Pena, esquina da Lauro Sodré. Neste momento eles foram emboscados por legalistas entrincheirados nos muros e telhados da Serraria Batista Lopes, na rua 28 de setembro. A fuzilaria matou um dos revoltosos e feriu três, incluindo o comandante, que morreria mais tarde. Com seu comandante fora de combate, os atacantes nesse eixo desorganizaram-se. O tenente Juventino assumiu o comando da revolta, mas não conseguiu inspirar a confiança da tropa tanto quanto Assis de Vasconcelos.

Na mesma tarde os revoltosos ainda fizeram uma ofensiva ao QG da Região Militar, que era defendido pela Companhia de Administração, quatro metralhadoras e 16 bombeiros, dispostos na praça Saldanha Marinho Após aprisionar duas patrulhas legalistas, eles tentaram três ataques ao QG, todos os quais foram repelidos. Conforme transcrito na Pacotilha, os revoltosos invadiram as ruas Aristides Lobo, Lauro Sodré, Paes de Carvalho e 28 de Setembro, foram repelidos e tentaram novamente pela avenida 15 de Agosto, a rua Riachuelo, a praça da Trindade e a travessa São Mateus; cerca de 30 deles atacaram a residência do governador, mas foram repelidos pela guarda de oito policiais. Ao escurecer, a notícia da morte do capitão Vasconcelos espalhou-se na tropa, que recuou ao quartel ou desertou.

O QG abrigava farta munição e tinha importância psicológica e simbólica. Segundo Creso Coimbra, os atacantes ao QG haviam sido mandados pelo capitão Vasconcelos, que separou sua força em duas para ofensivas simultâneas ao QG e ao Batalhão de Infantaria da Brigada Militar, o que foi um erro fatal, pois dispersou sua força que já estava em inferioridade numérica; o correto teria sido atacar o QG primeiro e depois o Batalhão de Infantaria. Orlando Rego, historiador da força policial paraense, tem uma descrição diferente: “com seu comandante fora de combate, os amotinados ficaram desorientados e, cerca de 16,00 horas, desarticulando-se, divididos em grupos, tomaram várias direções, tendo um deles seguido pela Aristides Lobo, a fim de tentar o assalto ao Quartel-General, onde pretendiam municiar-se e fazer dali o centro de operações para o ataque ao Palácio do Governo”.

Coluna da Direita

Paralelamente aos combates da coluna legalista esquerda, a coluna direita também avançou a partir das 14h00, conforme o relato do capitão Antônio Nascimento, deslocando-se para a praça Batista Campos. Uma cobertura de cavalaria foi enviada a cerca de um quarteirão daquela praça, provavelmente para cobrir o espaço entre as duas colunas, mas devido ao avanço lento da coluna da esquerda, sua ligação foi cortada. A coluna da direita prosseguiu até as ruas Munducurus e Serzedelo Corrêa e daí pela linha da Estrada de Ferro de Bragança até a avenida Conselheiro Furtado.

Grupo de oficiais e sargentos do exército em seus uniformes na época da Revolta de Belém.

Pequenos combates foram travados até chegar à avenida, na qual a coluna foi reforçada pelo contingente de infantaria do tenente José Martins do Nascimento. Ela avançou gradualmente sob fuzilaria “de todas as direções”, sem perceber claramente de onde vinham os disparos. Na travessa Quintino Bocaiuva a artilharia, que até então não tinha espaço para operar, pois o terreno era difícil, foi usada contra disparos vindos de um capinzal. A partir de então, segundo o capitão, “atacamos vigorosamente o inimigo até chegar à avenida Generalíssimo Deodoro. Entretanto, quase nenhum mal tínhamos feito ao adversário devido a este se achar em tocaia em toda a avenida Conselheiro Furtado”. Pouco antes das 18h00 o combate teve uma trégua, que a coluna aproveitou para fazer o levantamento de suas cinco baixas. Entre elas estava o tenente Menezes, morto enquanto manejava uma peça de artilharia, e portanto, um alvo prioritário do inimigo.

Combates finais

A avenida Generalíssimo Deodoro era também o objetivo da coluna esquerda, e ambas colunas continuaram a luta durante a noite. Na avenida Nazaré, revoltosos atiraram das sarjetas, portas, postes e mangueiras, mas em intensidade cada vez menor. Os legalistas conquistaram as ruas Gentil Bittencourt e Brás de Aguiar, “ficando apenas os mais fortes nos trilhos da E. F. de Bragança que correm por trás do quartel”. Os revoltosos acabaram sitiados no quartel do 26.° BC. A coluna da esquerda bombardeou o quartel com um canhão a partir das 02h00 da madrugada de 28 de julho, e a coluna da direita, a partir das 04h00. Os revoltosos concentraram fogo nesta peça, sem sucesso.

Tropas do exército jurando a bandeira na época dos acontecimentos de Belém. Esse ritual ainda se existe nos meios militares brasileiros.

Conforme o relato do jornal República, “fuzilaria, metralhadoras e canhão não cessam do lado legalista, enquanto se enfraquece a cada momento a resistência dos soldados revoltosos”. As duas colunas se uniram às 05h00 e intensificaram o ataque, ocupando o quartel às 08h30. Em seguida a coluna da esquerda avançou pela 27 de Junho e a avenida da Independência, e a coluna da direita pela Gentil Bittencourt até o início da avenida Tito Franco. Os revoltosos remanescentes foram presos ou fugiram pelas matas.

Baixas

Creso Coimbra registra seis mortos no 26.° BC, incluindo o capitão Vasconcelos, e 16 feridos em todos os lados, dos quais cinco foram civis, incluindo uma menina de 13 anos. A população acompanhou os combates das portas e janelas das casas ou mesmo nas mangueiras e esquinas, ocasionando várias baixas. Os civis foram fontes prováveis de informação nos reconhecimentos. Ambos os lados procuraram evitar danos colaterais à cidade, e conforme o consulado dos Estados Unidos em Belém, a revolta não realizou pilhagens ou atentados contra a propriedade particular. A Brigada Militar registrou sete mortos e doze feridos. Dois de seus tenentes, Henrique Ferreira da Silva e Plácido Martins Ferreira, receberam promoções póstumas por bravura.

Tropa do exército em formação para uma parada militar, com oficiais sempre em posições elevadas e com destaque.

Assis de Vasconcelos recebeu três tiros: um na coxa esquerda, um na parte posterior do pescoço e o último, fatal, pelo omoplata esquerdo, nas costas, alojando-se no pulmão. Ele passou toda a noite de 27 de julho estendido na calçada e só pela manhã foi levado ao Hospital da Ordem Terceira de São Francisco, onde morreu no início da tarde. Os mesmos jornais que desdenharam dos tenentistas como “indisciplinados”, “rebeldes”, “insubordinados” e “mazorqueiros” elogiaram a “bravura”, “coragem” e liderança do capitão.

Consequências

Embora vitoriosa em Belém, a liderança política e militar paraense sabia que os reforços legalistas demorariam dias a chegar, e portanto, prepararou uma defesa do litoral contra um ataque fluvial tenentista. O capitão de mar e guerra Emmanuel Braga, comandante dos legalistas da Flotilha do Amazonas e inspetor do Arsenal de Marinha de Belém, ordenou a barragem (provavelmente com obstáculos como boias sinalizadoras) dos canais do Arrozal e Cotijuba, e seus respectivos faróis foram apagados. O exército legalista, reforçado por reservistas da Marinha, civis e bombeiros, formou trincheiras ao longo de todo o litoral. A tropa embarcada no Bahia seria equivalente a todo o efetivo da Brigada Miltiar. O governo federal estendeu o estado de sítio ao Pará e Amazonas no dia 27.

Antigo Arsenal da Marinha de Belém do Pará.

Nem todos os militares do 26.° BC abandonaram a luta de imediato. O cabo-furriel Sebastião Venâncio de Almeida, mais conhecido como “cabo Corumbá”, juntou cerca de 15 homens numa tentativa de guerrilha. Ele ameaçou seus subordinados de morte se fugissem, mas eles desertaram a cada oportunidade. O cabo Corumbá acabou viajando ao território tenentista de Óbidos, onde foi o único representante dos revoltosos de Belém.

Em Manaus a derrota tenentista em Belém não foi noticiada pelo Jornal do Povo, que estava sob controle dos revoltosos. Nenhum documento prova um planejamento conjunto dos movimentos em Manaus e Belém, mas os revoltosos do Amazonas sabiam da revolta no Pará e seu movimento apressado pelo rio Amazonas visava resgatar seus companheiros em Belém. Ao chegar a São Francisco da Jararaca, na ilha de Marajó, a flotilha revoltosa soube pelos jornais da provável derrota do movimento de Belém. Ainda assim, uma operação contra a cidade ainda foi tentada. Em 3 de agosto o aviso Ajuricaba contornou o canal de Cotijuba e aproximou-se de Belém, mas nada fez além de uma mensagem radiotelegráfica, à qual o governador Sousa Castro teria respondido: “Olhem, moços, a esquadrilha de guerra vem aí!” A 4 de agosto a flotilha revoltosa voltou a Óbidos.

A revolta em Belém foi a última chance de vitória dos tenentistas na Amazônia. Em 6 de agosto o consulado americano informou ao Departamento de Estado, em Washington, que o Pará estava sob lei marcial, os revoltosos de Manaus controlavam quase toda a região amazônica, mas não Belém, e o governador havia assegurado que o inimigo não teria condições de atacar a capital estadual. Em 31 de julho o governo federal organizou o Destacamento do Norte, comandado pelo general João de Deus Mena Barreto, para reprimir as revoltas na Amazônia. Seus primeiros navios atracaram em Belém no dia 9. O Destacamento tinha uma força de desembarque de pelo menos 69 oficiais e 1.474 praças do Exército e uma força naval com o cruzador Barroso, dois contratorpedeiros e embarcações menores, além de dois hidroaviões M.F. da Aviação Naval. O Destacamento do Norte embarcou a partir de 16 de agosto, simbolizando a vitória legalista com grandes desfiles pelas avenidas onde os revoltosos de Belém haviam lutado. Ele reocupou Santarém no dia 19, Óbidos no dia 26 e Manaus no dia 30, prendendo as lideranças da revolta e encerrando a campanha tenentista na Amazônia.

O governador Sousa Castro saiu fortalecido na opinião pública após o episódio. Seus dois sucessores, Dionísio Bentes e Eurico Vale, foram também representantes das oligarquias da Primeira República. O déficit no orçamento continuou, embora não tão grave quanto no governo Sousa Castro. No decurso da Revolução de 1930 houve mais uma revolta do Exército em Belém, e mais uma vez a resistência da Força Pública manteve o governo no poder. Eurico Vale só foi destituído do cargo após a vitória nacional da revolução. Seu sucessor, o interventor Magalhães Barata, era veterano do tenentismo. A construção de símbolos e tradições do novo regime elevou o capitão Assis de Vasconcelos a herói oficial, comemorado em datas cívicas e no nome de avenidas, praças públicas e escolas.

Bibliografia

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Belém: NUPESQ/PMPA. PMPA em revista: periódico de ciências sociais. 2 (3): 57-66.

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Rego, Orlando de Moraes (1981). Retrospectivo Histórico da Polícia Militar do Estado do Pará 1822-1930. Belém: Falangola.

APROVEITE A GUERRA ENQUANTO PODE, PORQUE A PAZ SERÁ TERRÍVEL – A MOTIVAÇÃO E A RESISTÊNCIA DO SOLDADO ALEMÃO NO FINAL DA SEGUNDA GUERRA

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

No Brasil sempre existiu uma polêmica envolvendo a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em solo italiano na Segunda Guerra Mundial e trata sobre seus principais adversários – os militares alemães.

Desde muito jovem escutei essas coisas aqui em Natal, principalmente quando estava na loja do meu pai, lá no tradicional bairro da Ribeira. Ficava ouvindo a conversa dos mais velhos, que de quando em vez rememoravam a participação do Brasil na guerra e o que não faltavam eram críticos a ida das nossas tropas a Itália. Eu ouvia coisas do tipo “– A FEB lutou com soldados alemães velhos e cansados”. Ou algo como “– As tropas alemãs que lutaram na Itália não tinham treinamento adequado e foi tudo muito fácil para os brasileiros”. Tinha também “– Os alemães que combateram a FEB eram pessoas que anteriormente não seriam aproveitadas nas tropas de Hitler, mas com a guerra chegando ao fim os líderes nazistas empurraram para frente de combate qualquer tipo de gente”. Depois descobri através de textos antigos que esse tipo de pensamento em relação a FEB, de uma maneira ou de outra, já vinha acontecendo desde o fima da Segunda Guerra Mundial.

Soldados Brasileiros da FEB treinando com morteiros – Colorizada por Ricardo Morais – @imagemepoesia

Talvez por haver escutado essas críticas, eu sempre me perguntei quem eram esses alemães que combateram a FEB?

Sei que existe muita informação sobre as unidades germânicas que enfrentaram os brasileiros na Itália, a maioria delas veteraníssimas nas várias frentes de combate que as forças de Hitler atuaram. Mas confesso que sempre quis saber algo mais sobre esses combatentes, mas por aqui esse tipo de informação é limitada.

Comboio de viaturas da FEB rodando pela Itália – Colorizada por Ricardo Morais – @imagemepoesia.

É verdade que no Brasil foi lançado o livro As duas faces da glória: a FEB vista pelos seus aliados e inimigos” (São Paulo. Ed. Planeta, 2015), do jornalista William Waack“. Esse livro, tido como polêmico na sua essência, até que trouxe alguns relatos e memórias de militares alemães que atuaram na Itália contra a FEB, mas ele não respondeu aquilo que mais desejava saber – Quais os motivos para as forças armadas da Alemanha Nazista a continuar lutando na Itália e em outros locais, quando a guerra já estava claramente perdida?

A Visão Alemã da “Ponte Longe Demais”

Recentemente eu tive a oportunidade de ler o interessante livro “It Never Snows in September” – The German View of Market-Garden and The Battle of Arnhem, September 1944” (“Nunca Neva em Setembro” – A visão alemã de Market Garden e a Batalha de Arnhem, setembro de 1944), de autoria do norte-americano Robert J. Kershaw.

Esse livro foca nas batalhas travadas no sul da Holanda, ou Países Baixos, entre os dias 17 a 25 de setembro de 1944, como parte da famosa Operação Market Garden, o maior lançamento de paraquedistas que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial.

Não vou detalhar os fatos envolvendo essa operação, já bastante esmiuçado em livros, filmes, documentários e na internet, mas basicamente essa história se resume assim – Após os desembarques aliados no dia 6 de junho de 1944 na Normandia, França, as forças alemães recuaram e perderam a França e a Bélgica. No começo de setembro os Aliados estavam na fronteira da Holanda, com os alemães recuando e se nada fosse feito, logo depois entrariam na Alemanha. Foi quando o general inglês Bernard Law Montgomery decidiu realizar um grande ataque. A ideia básica seria o lançamento de 34.000 paraquedistas ingleses, norte-americanos e poloneses na Holanda, que deveriam conquistar nove pontes, sendo os alvos principais as pontes sobre os rios Waal e o Baixo Reno, nas cidades de Nimegen e Arnhem. Os paraquedistas deveriam lutar e manter as suas posições, enquanto uma grande quantidade de unidades blindadas e de infantaria Aliadas, com mais de 50.000 homens, partiriam da Bélgica. Após o encontro das duas forças, eles avançariam sobre a Alemanha.

Paraquedas abrem no alto enquanto ondas de paraquedistas pousam na Holanda durante operações do 1º Exército Aerotransportado Aliado. Setembro de 1944.

A questão é que os Aliados saltaram em uma região onde estavam acampadas divisões blindadas, de paraquedistas e tropas de infantaria do Exército Alemão e das temidas e fanáticas unidades SS.

Ao final de oito dias de combate mais de 17.000 militares das forças de Montgomery foram mortos, feridos, ou caíram prisioneiros dos alemães. Os blindados aliados não conseguiram se unir aos paraquedistas e estes, apesar de muito heroísmo, foram subjugados. No final das contas, o estrago foi tanto que Arnhem só seria libertada no final da guerra na Europa e, como sempre, quem mais sofreu foram os civis. Nos meses seguintes após os combates, o oeste da Holanda ficou sem fornecimento de alimentos e durante o inverno de 1945 morreram mais de 20.000 pessoas.

Operação Market Garden.

Os fatos ligados a história da Operação Market Garden são bem conhecidas no Brasil através do livro “Uma Ponte Longe Demais” (A Bridge Too Far), do inglês Cornelius Ryan e publicado em 1974. O resultado desse trabalho serviu de base para um filme homônimo rodado em 1977, que obteve um grande sucesso e foi dirigido pelo também inglês Richard Attenborough. Muitos outros materiais foram criados com foco nesse grande fracasso militar. Só que o livro de Robert J. Kershaw, lançado pela primeira vez em 1990, fez algo bem diferente dos demais, pois ele buscou uma perspectiva que contemplou as experiências dos soldados alemães comuns envolvidos nesses combates e no qual eles saíram vitoriosos.

Estávamos Preparados Para Continuar Lutando

Segundo Kershaw, os documentos alemães para este período são incompletos e por isso ele recorreu a relatos contemporâneos de testemunhas oculares e grande parte deste livro se preocupou com experiências individuais.

Hitler nos primeiros anos do Nazismo na Alemanha.

Na época de sua pesquisa ele teve a oportunidade de conversar com antigos combatentes do Exército Alemão (Wehrmacht), das tropas SS (Waffen SS) e da Força Aérea Alemã (Luftwaffe). Nessa última os principais entrevistados foram os sobreviventes das famosas Fallschirmjäger, os paraquedistas alemães. Além das entrevistas o autor teve acesso a diários pessoais e correspondências não publicadas para leitura. Mas o autor não deixou de ir aos arquivos na Holanda, Alemanha, Inglaterra, França, Bélgica, Estados Unidos e outros locais, bem como percorreu as áreas dos combates na Holanda e conversou com os sobreviventes locais daqueles dias intensos e complicados.

No livro “It Never Snows in September”, Kershaw escreveu nas páginas 53 a 62 um texto intitulado “Beliefs and concerns” (Crenças e preocupações), onde o autor norte-americano basicamente respondeu ao meu questionamento. E muitas das respostas vieram dos próprios alemães que Kershaw entrevistou.

Como, por exemplo, o cabo mensageiro Alfred Ziegler, um jovem de 19 anos, que fazia parte da equipe antitanque da 9ª Divisão Panzer SS Hohenstaufen. Ziegler relembrou a atmosfera e a situação da sua unidade pouco antes de chegar à cidade belga de Mons (285 km de Arnhem), onde a unidade foi reorganizada como uma companhia de infantaria de resposta rápida na véspera da famosa Operação Market Garden:

“O moral estava bom, mas não tínhamos ilusões de que a guerra tinha acabado. A piada quando fomos enviados para Tamopol, na Rússia, era: “Estamos a caminho para escolher um bom quartel na Sibéria”. As coisas melhoraram com a invasão da Normandia, agora tínhamos mais probabilidade de acabar cortando lenha no Canadá! Um dos meus melhores amigos me disse em segredo: “Não banque o herói, a guerra está perdida”.

Já Wolfgang Dombrowski, outro membro da SS na Holanda em 1944, se colocou de maneira que o autor definiu como “filosófico, mas em um sentido prático”:

“Nós pensávamos que a guerra provavelmente acabaria logo. Mas você deve ter em mente que as classes de tropas tinham apenas 18 ou 19 anos. Nossos oficiais tinham 24 ou 29. Eles ainda eram jovens! As questões mais profundas da vida não nos preocupavam muito. Estávamos preparados para continuar lutando”.

Os reveses catastróficos sofridos pelos militares alemães em todas as frentes de combate no verão de 1944 serviram para ressaltar o principal fator que os manteve unidos até o fim: uma crescente consciência de que a Pátria estava agora em perigo. Este fator por si só provavelmente encorajou a vontade de resistir mais do que toda a propaganda nazista.

O Medo Universal Não Era a Morte

Kershaw apontou através de seus estudos e entrevista que o medo de perder a guerra raramente era expresso abertamente e certamente não era mencionado pelos oficiais e suboficiais aos soldados. Dúvidas sobre um final feliz teriam enfraquecido a resistência. E o único final feliz concebível naquela época era defender as fronteiras da pátria e negociar para preservar o status quo pré-guerra com a ajuda das novas “armas maravilhosas”, a V1 e a V2. Ninguém poderia imaginar as consequências de uma derrota total. Mesmo no meio do desastre do Bolsão de Falaise[1], na Normandia, um cabo assim escreveu para a sua esposa em 18 de agosto de 1944:

“Tivemos que recuar às pressas. O resto das unidades recuou sem disparar um tiro e nos fez ficar para trás para cobri-los… Eu me pergunto o que será de nós. O bolsão está quase fechado, e o inimigo já está em Rouen. Acho que nunca mais verei meu lar. Apesar de tudo, lutamos pela Alemanha e por nossos filhos, e não importa o que aconteça conosco. Estou finalmente esperando que um milagre aconteça e que eu veja meu lar novamente”.

Para Kershaw, de qualquer forma, o soldado alemão nas frentes de combates nunca encontrou a paz e a solidão necessárias para pensar no curso da guerra. Sua preocupação imediata era a mera sobrevivência. O medo universal não era a morte, mas algo pior: que ninguém sairia da guerra com vida. Ninguém queria morrer heroicamente ou sofrer mutilação naquela altura do campeonato. Para a maioria, e particularmente para os veteranos, o período de maior ansiedade era a espera nas áreas de reunião antes de partir para a troca de tiros na linha de frente. Os substitutos novatos demonstraram uma ignorância feliz, até receberem o duvidoso privilégio da experiência de combate.

Portanto, a sobrevivência era uma questão mais importante na frente do que a política e o partido. De vez em quando havia reclamações sobre os “chefões do partido” em casa. Quando as cartas das suas famílias mencionavam os escândalos de membros importantes do partido, a resposta geralmente era: “Espere até chegarmos em casa e acertaremos as contas…”

O interessante é que Kershaw aponta que tais declarações raramente eram levadas a sério pelos oficiais superiores que censuravam as correspondências, dando pouca atenção a tais manifestações. Afinal, reclamar era prerrogativa do soldado na frente de batalha. Desabafar fez mais bem do que mal. O mais significativo foi que as reclamações sobre os líderes do partido nunca chegaram a Hitler; talvez ainda houvesse uma medida de confiança ou fé cega nele. Um comandante de batalhão ecoou as opiniões de seus homens quando escreveu depois da guerra:

“Não sabíamos quão tensa ou desesperadora era a situação no front, nem sabíamos nada sobre o impacto negativo que as diferenças entre Hitler e seus generais tiveram nas decisões operacionais”.

Poder de Combate

Robert J. Kershaw comentou que era inevitável que o súbito afluxo de pessoal clinicamente inapto e mal treinado causasse uma séria deterioração no moral das forças alemãs estacionadas na Holanda. Mas os soldados ainda dependiam de transmissões de rádio, jornais de primeira linha, correspondências e ordens para acompanhar a situação geral.

O que um soldado viu em primeira mão teve um impacto profundo, e a retirada da França abriu os olhos de muitos, mas não era esperada uma oposição em massa à guerra. A disciplina estava profundamente enraizada, e os soldados alemães apreciavam as medidas organizacionais e de controle instituídas nos vários destacamentos de recepção. Os horrores da retirada prenunciaram um colapso potencial que poucos poderiam imaginar ou mesmo pensar inconscientemente.

De fato, o “sistema” os manteve juntos. A formação de uma linha defensiva no início de setembro ao longo do Canal Albert, na Holanda, foi um excelente exemplo da resiliência do Estado-Maior Alemão em retardar a derrota total.

Kershaw aponta que o autor Martin van Creveld[2] escreveu trabalhos sugerindo que o Exército Alemão infligiu mais baixas per capita em seus inimigos do que qualquer um de seus adversários Aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Isto foi alcançado através do desenvolvimento de uma infraestrutura militar dedicada quase exclusivamente às operações. Construído para atender às necessidades operacionais, sociais e psicológicas do combatente; produziu por unidade uma maior concentração de “poder de combate” do que qualquer outro Exército Aliado.

O Estado-Maior Alemão desempenhou um papel fundamental em tudo isso. O planejamento inteligente e preciso do quartel-general, que continuou a funcionar apesar da aniquilação das unidades de combate, desempenhou um papel fundamental na restauração da ordem entre os comandantes da frente, sobrecarregados por crises locais. Os soldados alemães ansiavam por ordem e lutavam melhor quando estavam organizados.

Nos níveis mais baixos, os laços de camaradagem também mantinham a coesão. Dificuldades compartilhadas produziram amizades próximas, que significavam mais do que identificação com Hitler e o Terceiro Reich quando se tratava de lutar e morrer. O exército levou esses laços em consideração ao estruturar o sistema de treinamento que o apoiaria para o serviço ativo. As divisões eram responsáveis ​​por treinar seus próprios recrutas em batalhões de substituição, os Feldersatz, cujas três companhias tinham como objetivo alimentar os três regimentos que formavam a divisão. Após a conclusão do treinamento, os recrutas eram designados para os “Batalhões em marcha”, que eram unidades inteiras que podiam ser enviadas como reforços em qualquer estágio da jornada até o front, se a situação local exigisse.

Esse era o sistema adotado pelos centros de recepção localizados atrás da linha de frente no sul da Holanda. Lá os “Batalhões em marcha” eram frequentemente empregados por necessidade, antes que tivessem a chance de formar uma identidade como unidade. Uma das maneiras de promover a identidade era nomear a unidade em homenagem ao seu oficial em comando. Por exemplo, durante as lutas dos alemães contra os Aliados na Operação Market Garden, os Kampfgruppen (Grupos de combate) “Walther”[3], “Chill”, “Möller” e outros, seguiram esse padrão.

O quartel-general conhecia a personalidade dos oficiais em questão e, com o tempo, os soldados podiam sentir certo grau de associação com seus comandantes. O sistema era preferível à atribuição de um número as unidades, um número que era antes de tudo impessoal.

Verrückte Helmuts

O contato pessoal com as famílias em casa também teve impacto no moral do combatente na frente de batalha. Apesar das restrições, as cartas que chegavam de casa não correspondiam necessariamente aos boletins oficiais publicados. Isso podia ser perturbador para alguns. Entretanto, a principal preocupação dos soldados na frente de batalha era a segurança de suas famílias, expostas a terrível e destruidora campanha de bombardeios dos Aliados.

Kershaw descobriu o caso da Senhora Doris Dantscher, que tinha 71 anos quando sofreu os efeitos dos bombardeios em Munique. A carta escrita aos filhos em 20 de julho de 1944 é típica das centenas recebidas pelas tropas no front. Ela tinha acabado de ser evacuada para a cidade de Münnerstadt, na Baixa Francónia.

“Desde quinta-feira, não temos mais um teto sobre nossas cabeças; perdemos tudo. Tudo aconteceu tão rápido que não conseguimos salvar nada; Tudo o que resta é o que estava no porão, que sobreviveu… a casa está completamente queimada… O pai conseguiu limpar a entrada do porão nos fundos com uma pá. É impossível entrar pela rua, você tem que descer a Zentnerstraße e passar pelo jardim para entrar… Johanna me tirou desse inferno na segunda-feira e me levou para Münnerstadt. O pai ainda está em Munique, e estou muito preocupada porque ele tem que viver e dormir no porão… Espero que ele ainda esteja vivo, porque nos dias 18 e 19 houve ataques intensos em Munique… Ainda não consigo me acostumar com o fato de que não temos mais um lar. Em nosso infortúnio, temos a sorte de ter a tia Johanna, com quem conseguimos nos recuperar. Quem diria que quando você saiu da casa dos seus pais pela última vez, seria para sempre. Tudo o que foi querido para nós teve que ser abandonada… Não pudemos nos mover por cinco dias. Não havia água, nem eletricidade, nem gás. Foi um alívio poder lavar roupa em Münnerstadt.

Essas cartas, que muitas vezes chegavam atrasadas, tinham um efeito particularmente negativo no moral dos envolvidos. Às vezes, essas notícias nem eram comunicadas. Quando isso acontecia, oficiais superiores tentavam amenizar o golpe por meio de camaradas que eram amigos próximos da pessoa em questão.

Mas os soldados alemães estavam constantemente preocupados com suas famílias e por vezes surgiam reclamações como esta – “É uma inutilidade de lutar, se nossas famílias estão sendo mortas em casa“. Ou também – “Por que ouvir discursos sobre armas maravilhosas quando a Luftwaffe não pode mais abater bombardeiros inimigos!

Kershaw aponta que as notícias das atrocidades perpetradas pelo Exército Vermelho na Prússia Oriental e as tragédias contínuas causadas pela ofensiva de bombardeio criaram os chamados “Verrückte Helmuts” (Helmuts Loucos). Um veterano paraquedista relatou que “havia um em cada pelotão“. Homens que perderam tudo — famílias, namoradas, casas — ficaram despersonalizados pelo desespero. Eles não tinham mais nada pelo que viver, exceto talvez lutar e vender suas vidas para se vingar. Esses indivíduos imprevisíveis se tornaram adversários mortais para o inimigo, apesar de seu treinamento inadequado, mas sua imprudência fanática tinha que ser constantemente monitorada por seus comandantes. 

Queimado Suas Pontes

Todos esses fatores tiveram um impacto coletivo na qualidade da luta na frente. Talvez a principal emoção que motivou a tenacidade alemã nessa fase da guerra, e que muitas vezes não é reconhecida, foi o medo de que logo estariam lutando em suas próprias ruas e praças, juntamente com o desejo de proteger sua terra natal e suas famílias contra os mesmos crimes que foram perpetrados pelos exércitos alemães em suas próprias campanhas até então.

Seria incorreto dizer que isso era um sentimento de culpa sobre a guerra, já que a extensão total da matança sistemática de judeus e “indesejáveis” estava apenas gradualmente começando a se tornar pública. A maioria dos alemães, como eles próprios afirmam, desconhecia as atrocidades perpetradas no submundo administrado pelo braço político da SS. Mas havia evidências visíveis o suficiente para deixar qualquer um desconfortável.

Isso produziu uma resignação fatalista: uma consciência de que o Reich havia “Queimado suas pontes[4] e que a única saída era continuar lutando. Na época, isso não estava claro para o combatente, que já estava cansado da pressão dos acontecimentos. Começava a surgir um sentimento de mal-estar, que era sentido, embora ainda não definido.

Fritz Fullriede

O diário do Oberstleutnant (tenente-coronel) Fritz Fullriede[5], que tantas vezes criticou a condução das operações durante esse período, não mostra nenhuma emoção. O que ele escolheu não contar é, em alguns aspectos, mais significativo do que o que ele contou. Depois de discutir a situação com seus camaradas no refeitório dos oficiais em Utrecht, Holanda, no dia 2 de setembro, ele escreveu em seu diário:

“A Frente Ocidental acabou, o inimigo já está na Bélgica e na fronteira alemã; Romênia, Bulgária, Eslováquia e Finlândia pedem paz. É exatamente como em 1918”.

Para aquela geração, o ano de 1918 foi o equivalente ao ano zero. Teríamos que começar tudo de novo, do zero.

Em 1944, a Wehrmacht e a Waffen SS não estavam totalmente imunes às atrocidades que haviam cometido até então. As divisões que estavam em campo na Frente Oriental, que eram a maioria naquela época, testemunharam o tratamento dado aos guerrilheiros e prisioneiros soviéticos. Consequentemente, pouca misericórdia era esperada dos Aliados como um todo e nenhuma dos Russos. Dos 5,7 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos, 3,3 milhões morreram em cativeiro. E aqueles infelizes alemães que foram cercados pelos soviéticos após o colapso do Grupo de Exércitos do Centro[6], estavam recebendo o mesmo tratamento.

Kershaw informa que relatórios oficiais alemães se referiam aos guerrilheiros como “bandidos“. Não havia lugar na mentalidade militar alemã organizada, ou em sua doutrina tática, alguma norma ou mesmo ideias para lidar com civis irregulares. Essa incapacidade da Wehrmacht de compreender a mentalidade da “guerrilha” foi responsável por sua incapacidade de enfrentar levantes de Resistência e pela utilização em larga escala de um terror cruel e sádico para combatê-las. Historicamente, esse tem sido o caso desde a Guerra Franco-Prussiana de 1870 até a Primeira Guerra Mundial e igualmente na Segunda.

Milhares de soldados foram designados para tarefas policiais nas áreas de retaguarda da Frente Oriental. Incapaz de lidar com o mesmo fenômeno na Frente Ocidental, atrocidades como as de Vercors[7] e Oradour-sur-Glane[8] ocorreram. Os guerrilheiros holandeses, capturados ou suspeitos, eram frequentemente fuzilados de maneira rápida. Houve execuções perto de Arnhem pouco antes do desembarque dos paraquedistas.

Em 1944, a derrota do Exército Alemão na Holanda e no resto da Europa era iminente. Mesmo que houvesse dúvidas sobre as qualidades de liderança do Führer Adolf Hitler após os desastres no Leste e no Oeste no verão de 1944, a exigência dos Aliados de “Rendição incondicional” provocou uma resposta visceral e instintiva de que não havia outra saída a não ser continuar lutando.

Essa situação obscureceu as diferenças entre nazistas e antinazistas. Uma pesquisa dos Aliados com prisioneiros alemães revelou que, em uma unidade típica, nazistas fanáticos, nazistas apolíticos e antinazistas eram praticamente iguais. Os nazistas eram consideravelmente mais numerosos entre os oficiais subalternos e suboficiais, e estes últimos, como espinha dorsal das tropas, escolheram continuar lutando.

Durante as entrevistas, ao perguntar a um antigo cabo o que ele pensava em relação à derrota da Alemanha próximo do final da guerra, ele me disse que certa vez perguntou a um suboficial de sua inteira confiança o porquê deles não se renderem, se tudo estava praticamente perdido?

Sua resposta evasiva e sarcástica, cheia de humor negro, foi: “Aproveite a guerra enquanto pode, porque a paz será terrível.

E O Que Tem Isso Com a FEB?

Realmente, como comentamos anteriormente, o material produzido pelo norte-americano Robert J. Kershaw está focado na atuação dos alemães na Holanda em setembro de 1944, mesmo mês em que a FEB se engajava nos seus primeiros combates na Itália.

Mas, ao ler o livro de Willian Waack (páginas 298 a 290), o autor parece não deixar muitas dúvidas que o alemão que combatia na Holanda era o mesmo que estava na Itália.

Transcrevo essas páginas e deixo os leitores à vontade para considerarem essa minha opinião correta, ou não!   

“Quando se considera a situação sem saída dos alemães a partir de meados de 1944, ainda assim se pode estabelecer a hipótese plausível de que o soldado raso alemão, sem grandes possibilidades de ouvir rádios estrangeiras (a população “em casa” tinha mais acesso a esse tipo de informação “inimiga” do que o soldado na frente), nutrisse àquela altura algum tipo de crença na possibilidade de uma vitória. Para oficiais com discernimento médio, em posições de comando, as dificuldades de abastecimento, a superioridade material inimiga e o constante movimento de recuo – fora as assombrosas notícias sobre derrotas alemãs na Frente Russa – deveriam constituir, no mínimo, motivo para alguma reflexão. Para oficiais inteligentes, como o general von Gablenz ou o coronel Herre (que muito antes do final da guerra já se preparava para o seu prosseguimento sob a forma da “guerra fria”), em 1944 o conflito era abertamente dado como perdido para a Alemanha. A motivação do alemão que enfrentou brasileiros na Itália a partir de outubro de 1944 teria sido a crença na vitória? A motivação ideológica? O fanatismo do desespero?

Não. Nenhum dos sobreviventes aponta a “motivação ideológica” como elemento central para prosseguir numa luta desigual contra um adversário reconhecidamente superior. Deve ser verdade. A grande maioria dos entrevistados passara por horrores em outras frentes e pensava, sobretudo em sair viva de uma guerra na qual já não via muito sentido. “O general von Gablenz tinha um jeito especial de pedir maiores esforços às tropas”, recorda-se o ex-major Goetze. “Ele se dirigia frequentemente aos homens dizendo que a única maneira de voltar logo para casa seria resistir e organizar uma retirada cautelosa, que nos permitisse chegar à fronteira da Suíça e passar daí para a Alemanha. Entregar-se ao inimigo não era solução, ele dizia, e seu apelo tinha muito efeito.”

Os soldados alemães na Itália eram veteranos experimentados com a própria propaganda e a adversária. O que os mantinha juntos e ainda, mal ou bem, lutando parecia ser um forte senso de disciplina e, no caso de alguns oficiais, de dever profissional (se se preferir, de uma falsa ética vilipendiada por uma causa errada, prova de que as “virtudes” têm de ser consideradas sempre em relação aos propósitos que se perseguem), mesmo que isso levasse a casos beirando o fatalismo inútil.

Alguns, como o capitão Otto Schweitzer, gostam de lembrar (talvez um álibi) o caso do coronel Kurt Stöckel, oficial declaradamente simpático aos social-democratas, “mas preocupado em cumprir seu dever como soldado”. “O que dizer dos brasileiros, o que estavam fazendo lá, se não cumprindo seu dever como soldados, da mesma maneira que nós fizemos? Acho que deve ter sido ainda mais difícil explicar para os brasileiros o que tinham a fazer na Itália do que a nós mesmos, que já não compreendíamos o sentido daquela luta.”

Outros, como o capitão Alfred Pfeffer, pergunta-se qual teria sido a alternativa: “Que iria eu fazer? Mandar meus homens se entregarem?

Sabotar a linha de frente? Tinha, afinal, de pensar também na minha responsabilidade frente aos outros camaradas nos outros trechos da frente, que poderiam ser dominados pelo inimigo se eu abandonasse meu pedaço.” Ao longo do tempo, evidentemente, os oficiais sobreviventes fizeram questão de serem tratados só como os soldados profissionais que afirmam ter sido – e sequer dos mais entusiasmados: apenas um grupo preso a uma resignação obstinada, ao sabor de um destino sobre o qual julgavam não ter a menor influência.

NOTAS————————————————————————


[1] O Bolsão de Falaise, ou Batalha do Bolsão de Falaise, foi o engajamento decisivo da Batalha da Normandia na Segunda Guerra Mundial e ocorreu entre 12 a 21 de agosto de 1944. As forças aliadas formaram um bolsão ao redor da cidade francesa de Falaise, no qual o Grupo de Exércitos B alemão, consistindo do 7º Exército e do 5º Exército Panzer, foram cercados pelos Aliados Ocidentais. A batalha resultou na destruição da maior parte do Grupo de Exércitos B a oeste do rio Sena, o que abriu caminho para Paris, depois Bélgica, Holanda e a fronteira franco-alemã.

[2] Fighting Power. German and US Army Performance 1939—45 (Greenwood Press, USA, 1982)

[3] Um exemplo desses “Grupos de Combate” é o Kampfgruppe Walther, que surgiu em meio às lutas da Operação Market Garden com o objetivo inicial de aniquilar as concentrações de paraquedistas ingleses e americanos e bloquear qualquer avanço adicional dos Aliados. Esse grupo de batalha improvisado foi formado sob o comando do coronel Erich Walther, do Fallschirmjäger (paraquedistas), e eventualmente consistiu em soldados de todos os serviços; Fallschirmjäger, Luftwaffe, exército regular e SS. O grupo entrou em ação pela primeira vez em 11 de setembro de 1944, depois que a Divisão de Guardas Britânica capturou a ponte em Lommel/Neerpelt, apelidada de Ponte de Joe. Depois o Kampfgruppe Walther lutou contra os americanos e britânicos em uma série de batalhas sangrentas nos pântanos de Peel, ainda na Holanda. A história culmina na Batalha de Overloon, sudeste da Holanda, onde algumas das lutas foram as mais difíceis travadas desde a Normandia e as baixas aliadas e alemãs foram horrendas. Durante seu breve período de existência o Kampfgruppe Walther lutou contra a 101ª Divisão Aerotransportada e a 7ª Divisão Blindada, ambas norte-americanas, como também contra a 3ª Divisão, a Divisão de Guardas e a 11ª Divisão Blindada, todas britânicas.

[4] A expressão “Queimar pontes” tem suas origens em estratégias militares antigas. Quando um exército cruzava uma ponte rumo ao território inimigo, era comum destruí-la atrás de si. Essa atitude eliminava qualquer possibilidade de recuo, simbolizando um compromisso irreversível com a batalha.

[5] Fritz Fullriede (4 de janeiro de 1895 – 3 de novembro de 1969) foi um oficial alemão e criminoso de guerra durante a Segunda Guerra Mundial . Fullriede lutou na invasão alemã da Polônia , na Frente Oriental , no Afrika Korps e na Campanha Italiana . O último comandante do Festung Kolberg , Fullriede recebeu a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro com Folhas de Carvalho em 1945. A defesa capaz de Fullfriede de Kolberg permitiu que 70.000 civis e 40.000 militares evacuassem Kolberg por via marítima para outras partes da Alemanha. Após a guerra, Fullriede foi julgado e condenado por um tribunal holandês por seu papel no ataque de Putten em 1944. Ele foi sentenciado a 2,5 anos de prisão.

[6] Grupo de Exércitos do Centro, ou Heeresgruppe Mitte, foi um grupo de exércitos da Wehrmacht (Exército Alemão), criado durante a Segunda Guerra Mundial para lutar primordialmente na Frente Oriental. Foi um dos três exércitos reunidos pelos alemães para a chamada Operação Barbarossa, a invasão da antiga União Soviética em 1941.

[7] A Batalha de Vercors, ocorrida entre julho e agosto de 1944, foi um intenso combate entre um grupo rural das Forças do Interior Francesas (FFI), os conhecidos “Maquis”, e as forças nazistas que ocuparam a França desde 1940. Os Maquis usaram o Massif du Vercors (Planalto de Vercors) como refúgio e de onde partiam para realizarem sabotagens e operações contra os alemães. Os Aliados apoiaram os insurgentes com lançamentos de armas de paraquedas e fornecendo equipes de conselheiros e treinadores. Mas a revolta foi prematura. Em julho de 1944, até 10.000 soldados alemães invadiram o maciço e mataram mais de 600 Maquis e 200 civis, muitos deles executados. Foi a maior operação da Alemanha na Europa Ocidental contra guerrilheiros.

[8] Oradour-sur-Glane era uma comunidade rural tranquila no centro da França. Na manhã de 10 de junho de 1944, apenas quatro dias após o Dia D, entrou na vila algo entre 120 e 200 soldados do regimento Panzer Der Führer da Waffen-SS (um ramo da 2ª Divisão Panzer SS Das Reich). Sob o comando do SS-Sturmbannführer (Major) Adolf Diekmann, em meio a gritos, empurrões e coronhadas, os SS separaram em três grupos os homens, as mulheres e as crianças no mercado e na igreja local. Carros blindados saíram atrás dos cidadãos que estavam trabalhando nos campos e em uma hora os SS reuniram todos os moradores que puderam encontrar. Na sequência, abriram fogo com suas metralhadoras e puseram fogo na igreja., onde. Ao final massacraram 642 seres humanos e queimaram a vila até o chão. Até hoje o motivo do ataque alemão a Oradour permanece desconhecido. As ruínas da vila estão preservadas exatamente como foram deixadas em 10 de junho de 1944. Oradour agora serve como um símbolo de lembrança às atrocidades que os franceses enfrentaram sob a opressão nazista.