O QUE FOI A REVOLTA DO 26º BATALHÃO DE CAÇADORES EM BELÉM DO PARÁ?

Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_do_26.%C2%BA_Batalh%C3%A3o_de_Ca%C3%A7adores

Entre as décadas de 1920 e 1930, os brasileiros ouviram muitas vezes o termo “Tenentismo”. E o que era isso?

Basicamente foi um movimento político-militar, baseado em uma série de rebeliões de jovens oficiais de baixa e média patente do Exército Brasileiro (tenentes), de camadas médias urbanas, que estavam insatisfeitos com o governo da República Oligárquica no início da década de 1920 no Brasil. O movimento defendia reformas na estrutura de poder do país, entre as quais se destacam o fim do voto aberto (fim do voto de cabresto), modalidade de voto que favorecia o coronelismo presente na República Oligárquica, além de defenderem a instituição do voto secreto e a reforma na educação pública.

Praça Siqueira Mendes, ou Praça do Relógio, Belém, Pará / Acervo Museu da República.

E a existencia desse movimento desencadeou pelo Brasil afora vários confrontos armados e sangrentos. Um deles é hoje praticamente esquecido – A Revolta do 26.º Batalhão de Caçadores de Belém do Pará…

O Tenentismo e o Pará

Ao início do movimento tenentista, o estado do Pará vivia sob a administração de Antônio de Sousa Castro (1921–1925) e sofria com as mazelas políticas, econômicas e sociais características da década final da Primeira República Brasileira. Desde a decadência do ciclo da borracha e, consequentemente, das receitas das exportações, o orçamento tinha um déficit fora de controle. A receita pública estadual em 1924 foi de 12.197 contos de réis, enquanto as despesas foram de 15.036 contos. Alguns servidores públicos passavam meses sem salário. A situação não afetava somente professores, gráficos e militares da Força Pública; o Juiz de Direito da comarca de Maracanã, dr. Lopes de Barros, anunciou num edital de 28 de setembro de 1921 que suspenderia os trabalhos fora de sua residência, “visto estar ainda impedido de substituir a minha beca inutilizada, e de comprar calçado para sair à rua, uma vez que não me são pagos os meus vencimentos, dos quais do ano fluente apenas recebi o relativo ao mês de janeiro”.

Entrda do Forte de Copacabana no Rio de Janeiro.

A política tinha como características, segundo o historiador Creso Coimbra, o “autoritarismo, o distanciamento com as bases populares, a fraude eleitoral, as perseguições, as depurações eliminando os indesejáveis, a nunca desmentida intenção de continuísmo, o revezamento no poder, os conchavos das cúpulas”. O situacionismo paraense alinhava-se às administrações federais de Epitácio Pessoa e Artur Bernardes. A Revolta dos 18 do Forte, executada por militares no Rio de Janeiro para impedir a posse de Bernardes, não teve equivalente em Belém. Os possíveis oficiais revoltosos já haviam sido transferidos, como o tenente Pires Camargo, que havia exercido o comando da 3.ª Companhia do 26.º Batalhão de Caçadores (26.º BC) durante a campanha eleitoral. Oficiais de Belém enviaram ao presidente um telegrama de solidariedade aos militares legalistas que debelaram a revolta.

Coronel Raimundo Barbosa, comandante da 8.ª Região Militar.

Um clima de desconfiança perdurava nos meios político e militar. Conforme um relatório do coronel Raimundo Barbosa, comandante da 8.ª Região Militar (8.ª RM) sediada em Belém, a oficialidade do 26.º BC e do 27.º BC, de Manaus, era “constituída na quase totalidade de oficiais removidos inoportunamente para a Amazônia, como indesejáveis em outros pontos do país e que vinham eivados de ideias subversivas”. Alguns eram “ligados por fortes laços de afeição e de parentesco a vultos de destaque nos partidos ou grupos em oposição aos governos estaduais”. Esta classe “não apresentava condições de segurança de sua fidelidade a lei e de respeito aos poderes constituídos”. Era o preço que o governo pagava pela política de transferências punitivas dos oficiais suspeitos. A Região comandava 1.258 homens dispersos pelo Pará, Amazonas, Maranhão e Piauí.

A Campanha da Bacia Amazônica

Uma calma aparente reinava em Belém no início de julho de 1924, sem perturbação pelas notícias da revolta tenentista que estourou em São Paulo no dia 5. A censura limitava as informações. Lideranças civis (Abel Chermont, Francisco Campos e Apolinário Moreira) organizavam um batalhão patriótico legalista para combater em São Paulo. O governo federal deslocou batalhões do Exército de diversos estados para a frente paulista. Em 7 de julho o Ministério da Guerra determinou que os quatro Batalhões de Caçadores da 8.ª RM (24.º, no Maranhão, 25.º, no Piauí, 26.º e 27.º) estivessem prontos para embarcar para o Rio de Janeiro. A situação era grave o suficiente para retirar toda a tropa federal da Amazônia.

Major Euclides de Oliveira Figueiredo.

A ordem de embarque chegou no dia 13, mas foi sustada por uma contraordem no mesmo dia, coincidindo com uma revolta em Sergipe. Uma nova ordem de embarque para os quatro batalhões foi expedida no dia 20. No dia 23, o major Euclides Figueiredo, do gabinete do ministro da Guerra, especificou que o embarque não seria das unidades inteiras, mas de contingentes de 250 praças por batalhão, acompanhados por oficiais indicados pelo ministro. O Estado do Pará noticiou o embarque no próximo domingo, dia 27, do contingente do 26.º BC, liderados pelo capitão Enéas Brasil. Eles seguiriam no paquete Bahia, que estava em Manaus, para o Rio de Janeiro. Rumores de uma revolta do 27.º BC e da Flotilha do Amazonas em Manaus já circulavam em Belém no sábado. Há 24 horas as casas comerciais da capital paraense já não tinham resposta a seus telegramas a Manaus. O silêncio era preocupante.

Os rumores eram verídicos: oficiais tenentistas haviam derrubado o governo amazonense no dia 23 e instalado o tenente Ribeiro Júnior como chefe de um governo revolucionário. Eles controlaram os três navios da Flotilha em Manaus, os avisos Teffé e Ajuricaba e a canhoneira Missões, e embarcaram cerca de 700 homens e quatro canhões no paquete Bahia. A canhoneira Amapá, único navio da Flotilha do Amazonas que estava ancorado em Belém, permaneceu legalista.

Um destacamento revoltoso subiu o rio Madeira até Porto Velho, enquanto a flotilha principal desceu o rio Amazonas, tendo como objetivo final ocupar Belém e controlar direta ou indiretamente toda a Amazônia. Manaus e Belém eram as duas maiores cidades da região e Belém era seu principal acesso ao comércio internacional. No caminho os revoltosos destituíram autoridades e capturaram estações telegráficas. O forte de Óbidos, no trecho mais estreito do rio Amazonas, seria crucial. Seu armamento principal era de quatro canhões navais Armstrong, de 152 milímetros, um poder de fogo muito maior do que o da Flotilha do Amazonas. Entretanto, a guarnição do forte entregou-se sem resistência. Canhões do forte foram embarcados no Bahia. Se a flotilha revoltosa chegasse a Belém, sua artilharia poderia bombardear os principais prédios militares e políticos; a intendência e o governo estadual estavam a centenas de metros da baía do Guajará. Os defensores não teriam nenhum canhão capaz de reagir.

Motim no Exército

Assim como em Manaus, a iminência de um embarque foi pretexto para uma revolta em Belém. Em 26 de julho o 26.° BC tinha ordens de embarcar no paquete Rodrigues Alves, do Lloyd Brasileiro. Já circulavam boatos de que a unidade recusava-se a embarcar para combater seus companheiros. Pelo relato do coronel Barbosa, “continuavam a circular, com inquietadora insistência, boatos sobre os desgostos que produzira no 26.° BC a ordem do sr. Ministro sobre o embarque de um contingente, em vez de todo o batalhão, como primeiramente fora ordenado e para que estava essa unidade preparada”. Ainda assim, “no Pará nada indica por enquanto que a ordem venha a ser perturbada”. Sua preocupação maior era com a Brigada Militar do Estado, insatisfeita com a corrupção e o descaso do governo estadual.

Tenente-coronel Sousa Castro, comandante do 26.º Batalhão de Caçadores.

O comandante da Região, suspeitando da tropa desde o ocorrido em Manaus, dividiu o batalhão, deixando a 2.ª Companhia no quartel e a 3.ª Companhia no Forte do Castelo, onde estava o depósito de armas de munições. À noite uma multidão aguardou a saída do contigente nas imediações do quartel, na praça Justo Chermont, mas os soldados ainda não podiam sair por ordem do comandante, o tenente-coronel Sousa Castro. Todos sabiam que o destino seria Óbidos, não mais o Rio de Janeiro; o batalhão subiria o rio Amazonas escoltado pela canhoneira Amapá.

A anarquia gradualmente tomou conta do quartel. O tenente José Justiniano Freire deu ordem de prisão ao cabo Sapucaia por insistir em ultrapassar o portão das armas, desobedecendo ordens. Os soldados que deveriam conduzi-lo calaram as baionetas e disseram “Não pode. Não pode. Assim é demais”. Freire argumentou com eles, convencendo alguns, mas como outros continuaram hostis, ele ordenou ao corneteiro que tocasse a formatura geral do contingente. A tropa obedeceu vagarosamente ou ignorou a ordem. Freire prometeu transmitir ao comandante da Região as exigências dos soldados, que se diziam dispostos a partir, contanto que com o batalhão inteiro junto, incluindo o comandante e oficiais, pois apenas um acompanharia o contingente. O tenente-coronel Sousa Castro discursou aos soldados, alguns dos quais aplaudiram e outros gritaram “não queremos partir”.

Um sargento recomendou ao tenente Freire que fugisse, mas ele ignorou o aviso. O mesmo sargento voltou pouco depois para avisá-lo que “os soldados arrombaram a intendência e estão se municiando. Fuja enquanto é tempo”. O tenente conseguiu reunir 30 praças para manter a ordem e entrou no alojamento da companhia, mas seus subordinados dispersaram-se quando viram a companhia pelos corredores, atirando contra as paredes e o cassino dos oficiais. A tropa estava em plena revolta sob a liderança do capitão Augusto Assis de Vasconcelos, acompanhado pelo tenente Edgar Eremta. Grupos armados saíram do quartel e montaram guarda em todos os sentidos. Telefonemas do comando da Região ao batalhão e ao hospital militar não tiveram sucesso, pois os revoltosos cortaram o serviço no centro da cidade com antecedência.

Forte do Castelo na cidade de Belém, as margens da foz do rio Guamá. É também conhecido por Forte do Presépio.

O tenente-coronel Sousa Castro foi preso pelos soldados, mas o tenente Freire conseguiu sair pelo portão das armas. Ele conseguiu um automóvel e foi ao Forte do Castelo, onde verificou ser falso o boato de que a companhia ali sediada também estava em revolta. Ele tentou convencer o comandante, o tenente João da Costa Palmeira, a marchar rapidamente ao quartel do 26.° BC e impor a ordem na 2.ª Companhia, aproveitando o efeito surpresa. O tenente Palmeira preferiu levar a 3.ª Companhia ao QG da Região, onde o tenente Freire tentou convencer o coronel Barbosa do mesmo plano de ataque imediato. O comandante da Região preferiu conferenciar com o governador. A conversa foi demorada e a oportunidade se perdeu. A 3.ª Companhia desertou, soldado a soldado, levando os armamentos do Forte até o quartel. O QG da Região foi também abandonado pela maior parte da Companhia de Administração que ali servia, e foi preciso chamar os bombeiros para formar uma linha de defesa. Estes eventos transcorreram, dependendo da fonte, até as 21h00, quando o coronel Barbosa foi informado; após as 21h30, quando a multidão de civis foi aconselhada a abandonar as imediações do quartel; ou até as 22h00, tempo em que não houve resposta das forças destacadas para o embarque.

Comparação dos Combatentes

O efetivo total do 26.° BC, músicos e empregados inclusos, era de 332 homens, uma quantia pequena, da qual cerca de 200 homens lutaram na revolta. A curta duração da batalha não deu tempo para se fazer convocações, mas numerosos reservistas do Exército, estivadores, motorneiros de bondes e populares aderiram às fileiras rebeldes, de forma comparável ao ocorrido em Manaus. Isto revela o clima de descontentamento popular e, conforme Creso Coimbra, demonstra que o movimento “ultrapassou os limites de uma simples quartelada”.

Taciel Cylleno, comandante do Batalhão de Infantaria da Força Pública (indicado por um X) e os tenentes Henrique Ferreira da Silva e Plácido Martins Ferreira (indicados com os números 1 e 2, respectivamente), ambos mortos em combate.

Os revoltosos do Exército enfrentaram a Força Pública paraense, denominada Brigada Militar do Estado, e diferente de sua equivalente no Amazonas, ela se mostrou preparada para o combate. Os legalistas organizaram-se em duas colunas, da esquerda e da direita. A coluna da esquerda, comandada pelo major Taciel Cylleno, seria a força de contenção, defendendo os acessos ao QG da Região Militar, órgãos públicos, comércio e telégrafos. O capitão Antônio José do Nascimento comandava a coluna da direita, composta de dois pelotões de infantaria, dois canhões-revólver Hotchkiss, cavalaria ligeira e uma reserva de 30 bombeiros armados com fuzis. Esta seria a força principal de ataque.

Pela organização de 1922, a Brigada Militar era composta de um batalhão de infantaria de 459 praças, organizado em quatro companhias e um pelotão extranumerário, um regimento de cavalaria de 188 praças, organizado em três esquadrões e um pelotão extranumerário, e um grupo misto com uma companhia de metralhadoras e outra de administração, para um total de 71 oficiais, 5 aspirantes e 760 praças. Destes, combateram 151 homens do Batalhão de Infantaria e 34 de um piquete de cavalaria, conforme o historiador da força policial Orlando Rego. Também lutaram 56 guardas civis, 16 bombeiros municipais e 65 militares do Exército na Companhia de Administração, para um total de 292 combatentes, sem subtrair os desertores da Companhia de Administração. Creso Coimbra registra 500 homens no lado do governo, em expressiva vantagem numérica. Segundo o comandante da coluna da direita, ela chegou a ter 350 homens com o reforço de reservistas. Alguns marinheiros da Flotilha do Amazonas e Capitania dos Portos também lutaram nas fileiras legalistas.

Canhão-revólver Hotchkiss.

As fontes apresentam um armamento em bom estado, oriundo das modernizações do Exército nos anos anteriores: pistolas Parabellum, fuzis Mauser e armas de repetição. O Exército consumiu 18 mil balas de fuzil. Creso Coimbra ressalta que os legalistas estavam muito melhor municiados. Uma estação de radiotelegrafia portátil foi provavelmente usada pela coluna da direita para se manter em contato com o comando geral.

Ambos os lados pretendiam uma guerra total, preparando-se para a resistência mais longa possível, e esperavam reforços pelos rios; a batalha de Belém era somente uma parte da guerra civil mais ampla com duas grandes frentes, uma de São Paulo ao Paraná e outra na Amazônia. As táticas de ambos os lados eram de combate de posições, com o entrincheiramento de pontos nas ruas e a conquista de pontos do oponente. A escolha das posições defensivas demonstra um extenso planejamento. Os revoltosos demonstraram um bom conhecimento do terreno ao diluir a tropa em obstáculos como as mangueiras que margeavam as principais avenidas de Belém, de forma que em alguns momentos os legalistas mal souberam de onde vinha a fuzilaria. Os legalistas fizeram avanços e recuos paulatinos, entrincheirando cada quarteirão conquistado. Ao anoitecer, o controle do governo sobre os serviços públicos permitiu-o apagar a iluminação elétrica, que favorecia menos a tropa legalista concentrada.

A Praça Justo Chermont nos dias de hoje. Essa praça fica localizada no centro da cidade de Belém, capital do estado brasileiro do Pará.

Coluna da Esquerda

Na noite de 26 e madrugada e manhã de 27 os revoltosos distribuíram patrulhas e sentinelas ao redor da praça Justo Chermont, da avenida 22 de Junho até as vias de São Jerônimo, Nazaré, Generalíssimo Deodoro, Gentil Bittencourt e Conselheiro Furtado. À tarde seu perímetro defensivo incluía posições na avenida Nazaré próximo à travessa Dr. Moraes, nas avenidas São Jerônimo e Ferreira Pena, na avenida Conselheiro Furtado próxima à travessa Quintino Bocaiuva e nas ruas Gentil Bittencourt e Brás Aguiar. Este perímetro defensivo permitia controlar as linhas de bonde.

Combatentes rebeldes abrigando-se por detrás de árvores na Praça da República em 27 de julho.

Assis Vasconcelos liderava um batalhão em desvantagem numérica, mas ainda assim partiu à ofensiva. Creso Coimbra compara este líder aos tenentes da Revolta dos 18 do Forte, pois “outro oficial mais técnico e menos arrojado teria preferido manter-se na posição defensiva”. Ele marchou do quartel do 26.° BC às 14h00 ou 14h30, pela avenida Nazaré, com 54 homens, conforme Orlando Rego. A coluna legalista da esquerda partiu também às 14h30: o major Cylleno seguiu à Praça da República, enquanto um piquete de 34 cavaleiros, liderados pelo tenente Henrique Ferreira da Silva, fez um reconhecimento na avenida São Jerônimo. Na esquina da travessa Rui Barbosa, a cavalaria foi atacada por revoltosos escondidos nas mangueiras e outros obstáculos. O tenente morreu com um tiro no peito e o piquete recuou.

A montaria do capitão Vasconcelos foi ferida e ele continuou a pé. Ao passar pela travessa Dr. Moraes, sua tropa quase foi atingida por fios de alta tensão. Na Praça da República eles foram recebidos pela fuzilaria e metralhadoras de um pelotão legalista, e após uma momentânea desorganização, expulsaram os defensores com uma carga de baionetas. O pelotão da Praça da República recuou ao quartel do Batalhão de Infantaria da Brigada Militar, na rua Gaspar Viana. A bibliografia é confusa quanto aos avanços e recuos. Segundo o jornal República (transcrito no Pacotilha, de São Luís), a coluna esquerda recuou ao quartel para que pudesse lutar de posições fortificadas. Um questionamento a essa interpretação é que o quartel seria fácil de cercar e render, e por si só não oferecia vantagem tática.

Praça da República, antigo Largo da Pólvora – Fonte – https://fragmentosdebelem.tumblr.com/post/50417327241

Perseguindo o pelotão legalista, o capitão Vasconcelos conduziu sua tropa na direção do Batalhão de Infantaria. No caminho, tomaram a sede do Tiro 14, na avenida Ferreira Pena, esquina da Lauro Sodré. Neste momento eles foram emboscados por legalistas entrincheirados nos muros e telhados da Serraria Batista Lopes, na rua 28 de setembro. A fuzilaria matou um dos revoltosos e feriu três, incluindo o comandante, que morreria mais tarde. Com seu comandante fora de combate, os atacantes nesse eixo desorganizaram-se. O tenente Juventino assumiu o comando da revolta, mas não conseguiu inspirar a confiança da tropa tanto quanto Assis de Vasconcelos.

Na mesma tarde os revoltosos ainda fizeram uma ofensiva ao QG da Região Militar, que era defendido pela Companhia de Administração, quatro metralhadoras e 16 bombeiros, dispostos na praça Saldanha Marinho Após aprisionar duas patrulhas legalistas, eles tentaram três ataques ao QG, todos os quais foram repelidos. Conforme transcrito na Pacotilha, os revoltosos invadiram as ruas Aristides Lobo, Lauro Sodré, Paes de Carvalho e 28 de Setembro, foram repelidos e tentaram novamente pela avenida 15 de Agosto, a rua Riachuelo, a praça da Trindade e a travessa São Mateus; cerca de 30 deles atacaram a residência do governador, mas foram repelidos pela guarda de oito policiais. Ao escurecer, a notícia da morte do capitão Vasconcelos espalhou-se na tropa, que recuou ao quartel ou desertou.

O QG abrigava farta munição e tinha importância psicológica e simbólica. Segundo Creso Coimbra, os atacantes ao QG haviam sido mandados pelo capitão Vasconcelos, que separou sua força em duas para ofensivas simultâneas ao QG e ao Batalhão de Infantaria da Brigada Militar, o que foi um erro fatal, pois dispersou sua força que já estava em inferioridade numérica; o correto teria sido atacar o QG primeiro e depois o Batalhão de Infantaria. Orlando Rego, historiador da força policial paraense, tem uma descrição diferente: “com seu comandante fora de combate, os amotinados ficaram desorientados e, cerca de 16,00 horas, desarticulando-se, divididos em grupos, tomaram várias direções, tendo um deles seguido pela Aristides Lobo, a fim de tentar o assalto ao Quartel-General, onde pretendiam municiar-se e fazer dali o centro de operações para o ataque ao Palácio do Governo”.

Coluna da Direita

Paralelamente aos combates da coluna legalista esquerda, a coluna direita também avançou a partir das 14h00, conforme o relato do capitão Antônio Nascimento, deslocando-se para a praça Batista Campos. Uma cobertura de cavalaria foi enviada a cerca de um quarteirão daquela praça, provavelmente para cobrir o espaço entre as duas colunas, mas devido ao avanço lento da coluna da esquerda, sua ligação foi cortada. A coluna da direita prosseguiu até as ruas Munducurus e Serzedelo Corrêa e daí pela linha da Estrada de Ferro de Bragança até a avenida Conselheiro Furtado.

Grupo de oficiais e sargentos do exército em seus uniformes na época da Revolta de Belém.

Pequenos combates foram travados até chegar à avenida, na qual a coluna foi reforçada pelo contingente de infantaria do tenente José Martins do Nascimento. Ela avançou gradualmente sob fuzilaria “de todas as direções”, sem perceber claramente de onde vinham os disparos. Na travessa Quintino Bocaiuva a artilharia, que até então não tinha espaço para operar, pois o terreno era difícil, foi usada contra disparos vindos de um capinzal. A partir de então, segundo o capitão, “atacamos vigorosamente o inimigo até chegar à avenida Generalíssimo Deodoro. Entretanto, quase nenhum mal tínhamos feito ao adversário devido a este se achar em tocaia em toda a avenida Conselheiro Furtado”. Pouco antes das 18h00 o combate teve uma trégua, que a coluna aproveitou para fazer o levantamento de suas cinco baixas. Entre elas estava o tenente Menezes, morto enquanto manejava uma peça de artilharia, e portanto, um alvo prioritário do inimigo.

Combates finais

A avenida Generalíssimo Deodoro era também o objetivo da coluna esquerda, e ambas colunas continuaram a luta durante a noite. Na avenida Nazaré, revoltosos atiraram das sarjetas, portas, postes e mangueiras, mas em intensidade cada vez menor. Os legalistas conquistaram as ruas Gentil Bittencourt e Brás de Aguiar, “ficando apenas os mais fortes nos trilhos da E. F. de Bragança que correm por trás do quartel”. Os revoltosos acabaram sitiados no quartel do 26.° BC. A coluna da esquerda bombardeou o quartel com um canhão a partir das 02h00 da madrugada de 28 de julho, e a coluna da direita, a partir das 04h00. Os revoltosos concentraram fogo nesta peça, sem sucesso.

Tropas do exército jurando a bandeira na época dos acontecimentos de Belém. Esse ritual ainda se existe nos meios militares brasileiros.

Conforme o relato do jornal República, “fuzilaria, metralhadoras e canhão não cessam do lado legalista, enquanto se enfraquece a cada momento a resistência dos soldados revoltosos”. As duas colunas se uniram às 05h00 e intensificaram o ataque, ocupando o quartel às 08h30. Em seguida a coluna da esquerda avançou pela 27 de Junho e a avenida da Independência, e a coluna da direita pela Gentil Bittencourt até o início da avenida Tito Franco. Os revoltosos remanescentes foram presos ou fugiram pelas matas.

Baixas

Creso Coimbra registra seis mortos no 26.° BC, incluindo o capitão Vasconcelos, e 16 feridos em todos os lados, dos quais cinco foram civis, incluindo uma menina de 13 anos. A população acompanhou os combates das portas e janelas das casas ou mesmo nas mangueiras e esquinas, ocasionando várias baixas. Os civis foram fontes prováveis de informação nos reconhecimentos. Ambos os lados procuraram evitar danos colaterais à cidade, e conforme o consulado dos Estados Unidos em Belém, a revolta não realizou pilhagens ou atentados contra a propriedade particular. A Brigada Militar registrou sete mortos e doze feridos. Dois de seus tenentes, Henrique Ferreira da Silva e Plácido Martins Ferreira, receberam promoções póstumas por bravura.

Tropa do exército em formação para uma parada militar, com oficiais sempre em posições elevadas e com destaque.

Assis de Vasconcelos recebeu três tiros: um na coxa esquerda, um na parte posterior do pescoço e o último, fatal, pelo omoplata esquerdo, nas costas, alojando-se no pulmão. Ele passou toda a noite de 27 de julho estendido na calçada e só pela manhã foi levado ao Hospital da Ordem Terceira de São Francisco, onde morreu no início da tarde. Os mesmos jornais que desdenharam dos tenentistas como “indisciplinados”, “rebeldes”, “insubordinados” e “mazorqueiros” elogiaram a “bravura”, “coragem” e liderança do capitão.

Consequências

Embora vitoriosa em Belém, a liderança política e militar paraense sabia que os reforços legalistas demorariam dias a chegar, e portanto, prepararou uma defesa do litoral contra um ataque fluvial tenentista. O capitão de mar e guerra Emmanuel Braga, comandante dos legalistas da Flotilha do Amazonas e inspetor do Arsenal de Marinha de Belém, ordenou a barragem (provavelmente com obstáculos como boias sinalizadoras) dos canais do Arrozal e Cotijuba, e seus respectivos faróis foram apagados. O exército legalista, reforçado por reservistas da Marinha, civis e bombeiros, formou trincheiras ao longo de todo o litoral. A tropa embarcada no Bahia seria equivalente a todo o efetivo da Brigada Miltiar. O governo federal estendeu o estado de sítio ao Pará e Amazonas no dia 27.

Antigo Arsenal da Marinha de Belém do Pará.

Nem todos os militares do 26.° BC abandonaram a luta de imediato. O cabo-furriel Sebastião Venâncio de Almeida, mais conhecido como “cabo Corumbá”, juntou cerca de 15 homens numa tentativa de guerrilha. Ele ameaçou seus subordinados de morte se fugissem, mas eles desertaram a cada oportunidade. O cabo Corumbá acabou viajando ao território tenentista de Óbidos, onde foi o único representante dos revoltosos de Belém.

Em Manaus a derrota tenentista em Belém não foi noticiada pelo Jornal do Povo, que estava sob controle dos revoltosos. Nenhum documento prova um planejamento conjunto dos movimentos em Manaus e Belém, mas os revoltosos do Amazonas sabiam da revolta no Pará e seu movimento apressado pelo rio Amazonas visava resgatar seus companheiros em Belém. Ao chegar a São Francisco da Jararaca, na ilha de Marajó, a flotilha revoltosa soube pelos jornais da provável derrota do movimento de Belém. Ainda assim, uma operação contra a cidade ainda foi tentada. Em 3 de agosto o aviso Ajuricaba contornou o canal de Cotijuba e aproximou-se de Belém, mas nada fez além de uma mensagem radiotelegráfica, à qual o governador Sousa Castro teria respondido: “Olhem, moços, a esquadrilha de guerra vem aí!” A 4 de agosto a flotilha revoltosa voltou a Óbidos.

A revolta em Belém foi a última chance de vitória dos tenentistas na Amazônia. Em 6 de agosto o consulado americano informou ao Departamento de Estado, em Washington, que o Pará estava sob lei marcial, os revoltosos de Manaus controlavam quase toda a região amazônica, mas não Belém, e o governador havia assegurado que o inimigo não teria condições de atacar a capital estadual. Em 31 de julho o governo federal organizou o Destacamento do Norte, comandado pelo general João de Deus Mena Barreto, para reprimir as revoltas na Amazônia. Seus primeiros navios atracaram em Belém no dia 9. O Destacamento tinha uma força de desembarque de pelo menos 69 oficiais e 1.474 praças do Exército e uma força naval com o cruzador Barroso, dois contratorpedeiros e embarcações menores, além de dois hidroaviões M.F. da Aviação Naval. O Destacamento do Norte embarcou a partir de 16 de agosto, simbolizando a vitória legalista com grandes desfiles pelas avenidas onde os revoltosos de Belém haviam lutado. Ele reocupou Santarém no dia 19, Óbidos no dia 26 e Manaus no dia 30, prendendo as lideranças da revolta e encerrando a campanha tenentista na Amazônia.

O governador Sousa Castro saiu fortalecido na opinião pública após o episódio. Seus dois sucessores, Dionísio Bentes e Eurico Vale, foram também representantes das oligarquias da Primeira República. O déficit no orçamento continuou, embora não tão grave quanto no governo Sousa Castro. No decurso da Revolução de 1930 houve mais uma revolta do Exército em Belém, e mais uma vez a resistência da Força Pública manteve o governo no poder. Eurico Vale só foi destituído do cargo após a vitória nacional da revolução. Seu sucessor, o interventor Magalhães Barata, era veterano do tenentismo. A construção de símbolos e tradições do novo regime elevou o capitão Assis de Vasconcelos a herói oficial, comemorado em datas cívicas e no nome de avenidas, praças públicas e escolas.

Bibliografia

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Belém: NUPESQ/PMPA. PMPA em revista: periódico de ciências sociais. 2 (3): 57-66.

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Rego, Orlando de Moraes (1981). Retrospectivo Histórico da Polícia Militar do Estado do Pará 1822-1930. Belém: Falangola.

O PAI DE ARIANO SUASSUNA – QUEM FOI JOÃO SUASSUNA, COMO SE DEU A SUA MORTE E COMO ESTE FATO INFLUENCIOU A VIDA E A OBRA DO SEU FILHO ARIANO

Rostand Medeiros – Escritor e pesquisador

Quando o escritor Ariano Suassuna faleceu em 23 de julho de 2014, muito de sua vida foi trazida ao conhecimento de milhares de brasileiros. Entre os muitos aspectos da biografia deste paraibano que marcou a história do Nordeste, um dos principais pontos abordados foi a importância da figura de seu pai, João Suassuna, em sua vida.

João Suassuna, pai de Ariano

Em inúmeros textos foi comentado, normalmente de maneira bem básica, que João Suassuna havia sido governador da Paraíba e que ele foi assassinado no ano de 1930, em meio às repercussões ocasionadas pela morte de João Pessoa e os acontecimentos políticos daquele período tumultuado da história do Brasil. Mas ao observamos com mais detalhes a figura do pai do grande escritor, que morreu quando Ariano tinha apenas três anos de idade, descobrimos uma história muito intensa, interessante e trágica!

Ariano Suassuna 1927 – 2014

O BACHAREL SERTANEJO

Há dez anos eu dei início a uma inacabada pesquisa por quatro estados nordestinos sobre a vida e morte do cangaceiro paraibano Chico Pereira. Esta motivação vinha do fato de ser imputado a este cangaceiro e seu bando, em fevereiro de 1927, o assalto a fazenda Rajada, em Acari, na região do Seridó Potiguar. Na época esta fazenda pertencia a Joaquim Paulino de Medeiros, meu bisavô e durante grande parte da minha juventude escutei inúmeras vezes os relatos deste episódio através de vários parentes queridos.

Fazenda Volta, zona rural de Catolé do Rocha, lugar onde viveram os primeiros membros da família Suassuna.

No desenrolar das pesquisas vi que a história de Francisco Pereira Dantas, o verdadeiro nome de Chico Pereira, possuía ligações com a trajetória política de João Suassuna. Até mesmo a sua morte, ocorrida em 1928 na zona rural de Currais Novos, em um rumoroso caso de violência estatal, que manchou a biografia do então governador potiguar Juvenal Lamartine de Farias, também possui ligações com o pai de Ariano.

Mas de maneira totalmente independente do fato de João Suassuna ser pai do autor de “Auto da Compadecida”, busquei conhecer mais sobre sua vida.

João Suassuna no início de sua carreira

Nascido João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna, veio ao mundo em Catolé do Rocha, Paraíba, no dia 16 de janeiro de 1886. Anos depois estudou na conceituada e tradicional Faculdade de Direito de Recife, onde se bacharelou em 1909. O início de sua carreira como advogado foi em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Depois João Suassuna assumiu o posto de juiz nas cidades de Umbuzeiro e Campina Grande, ambas na Paraíba. Na sequência foi Procurador da Fazenda Nacional no seu estado natal.

Em 1 de dezembro de 1913, quando tinha 27 anos, casou com Rita de Cássia Vilar Suassuna, então com 17 anos, a quem chamava carinhosamente de Ritinha. Quando Castro Pinto esteve a frente do executivo paraibano (1912-1915), João Suassuna assumiu cargos de importância na máquina governamental.

Casa onde nasceu João Suassuna em Catolé do Rocha, que na época da foto era o Grupo Escolar Antônio Soares. Atualmente essa antiga casa não existe mais, foi demolida para a construção da nova sede da prefeitura dessa cidade paraibana.

Em 1917, após este período de governo, voltou a ser juiz, desta vez na cidade de Monteiro (PB). Foi nesta época que João Suassuna adquiriu uma propriedade chamada “Malhada da onça”, pra onde seguia ocasionalmente. A fazenda ficava em Desterro, local de nascimento de sua mulher, na época uma comunidade pertencente à cidade paraibana de Teixeira. Em 1919 deixou a magistratura e foi trabalhar no antigo Instituto Federal de Obras Contra as Secas – IFOCS e nesta época adquiriu a Fazenda Acauã, na época localizada na zona rural de cidade de Sousa[1].

Fazenda Acauã na atualidade – Fonte – http://artenapedrapolida.blogspot.com.br/

No começo da década de 1920, João Suassuna foi convidado pelo então governador Sólon de Lucena para assumir a Inspetoria do Tesouro do Estado, depois foi eleito deputado federal. Estava no exercício do mandato parlamentar no Rio de Janeiro, então Capital Federal, quando foi eleito “Presidente da Parahyba”, o que corresponde hoje ao cargo de governador.

O mandato de João Suassuna se caracterizou em grande parte por uma valorização das ações desenvolvidas pelos grandes latifundiários de terras do interior, possuidores de grandes riquezas baseadas no cultivo do algodão e na pecuária. Estes “coronéis” atuavam através de uma estrutura política arcaica, que se valia entre outras coisas do mandonismo, da utilização de grupo de jagunços armados, da conivência com grupos de cangaceiros e outras ações.

Foi nesta época, no palácio do governo da Paraíba, que servia de residência oficial do chefe do executivo daquele estado, mais precisamente no dia 16 de junho de 1927, que nasceu um dos nove filhos do casal João e Rita. Foi batizado como Ariano.

João Pessoa

João Suassuna entregou o cargo em 22 de outubro de 1928 a João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque e assumiu novamente uma das vagas de deputado federal pela Paraíba.

PROBLEMAS À VISTA!

João Pessoa discordava da forma como o grupo político que o elegera conduzia a política do seu estado e logo surgiram sérias divergências com os latifundiários. Um dos maiores embates estava na cobrança de taxas de exportação do algodão. Por esta época os coronéis exportavam o produto principalmente através do porto de Recife, provocando enormes perdas de divisas tributárias para a Paraíba. Procurando evitar esta sangria financeira e efetivamente cobrar os coronéis, João Pessoa implantou diversos postos de fiscalização nas fronteiras da Paraíba, irritando de tal forma estes caudilhos, que pejorativamente passaram a chamar o governador de “João Cancela”.

Os embates políticos entre o governador e os coronéis foram crescendo. A maior liderança entre estes poderosos foi sem dúvida o coronel José Pereira Lima. Verdadeiro imperador da região oeste da Paraíba, na área da fronteira com Pernambuco, tendo como base, a cidade de Princesa e este discordava com veemência das ações de João Pessoa. Do embate entre estes dois homens, resultou um dos maiores conflitos armados do Brasil Republicano.

Foto de 1930 – Sentado vemos Marcolino Florentino Diniz (conhecido como Marcolino Pereira Diniz, um dos líderes de Princesa, que era sobrinho e cunhado do coronel José Pereira. Em pé, da esquerda para direita, temos Pedro Inácio (proprietário de terras em Pernambuco), João Pereira e Pacífico Lopes (proprietários rurais), Joaquim Inácio (grande proprietário de terras no município pernambucano de Triunfo) e Chôcho (proprietário rural na localidade de Irerê, município de Princesa). Agradeço a atenção e participação de Natércia Suassuna Dutra, sobrinha-neta de João Suassuna, que enviou as informações aqui colocadas.

A contenda teve início em 28 de fevereiro de 1930, quando ocorreu a invasão da cidade de Teixeira por parte da polícia paraibana, com o aprisionamento dos membros da conceituada família Dantas, ligada por profundos laços de parentescos e interesses ao coronel José Pereira. Apesar de governador João Pessoa não contar com o apoio do Palácio do Catete, onde o titular, Washington Luís não viabilizou uma efetiva ajuda às forças policiais paraibanas, o governador paraibano foi à luta.

Em meio aos conflitos da chamada “Guerra de Princesa”, no dia 26 de julho de 1930, um sábado, João Pessoa estava na Confeitaria Glória, em Recife, quando foi atingido por dois disparos desfechados pelo advogado paraibano João Duarte Dantas.

Da mesma família Dantas da região de Teixeira, consta que após realizar uma viagem João Dantas encontrou seu escritório na capital paraibana violado. Entre os objetos roubados estavam cartas e poemas eróticos, além de fotografias sensuais, trocados com a sua amante, a poetisa Anayde Beiriz. Estes materiais teriam sido roubados por membros da polícia paraibana, sob as ordens de João Pessoa, sendo publicados e colocados em locais públicos. Diante dessa exibição João Dantas foi à confeitaria vingar a sua privacidade violada[2].

João Duarte Dantas

Após o crime, João Pessoa se tornou um grande herói para o povo paraibano e seu assassinato foi o estopim da conhecida Revolução de 1930. Neste meio tempo cresceu descontroladamente o radicalismo na Paraíba e muito sangue correu[3].

A PARTIDA

Por ser João Suassuna casado com uma prima de João Dantas, ter sido eleito deputado federal com o apoio dos Dantas da cidade de Teixeira e do coronel José Pereira, o pai de Ariano ficou na mira dos familiares, amigos e correligionários do falecido João Pessoa.

No dia da morte do então governador paraibano na Confeitaria Gloria, João Suassuna se encontrava no Recife. Já sua família, inclusive o menino Ariano de três anos, estava na capital paraibana, em uma casa alugada ao Dr. Mariano Falcão, na Rua das Trincheiras. Diante do aumento da tensão na capital, Rita Suassuna e seus nove filhos vão se refugiar no 22º Batalhão de Caçadores, ou 22º BC, atual 15º Batalhão de Infantaria Motorizada. Em pouco tempo João Suassuna conseguiu apoio do rico empresário Frederico João Lundgren e consegue apoio do Exército para trazer sua família para uma casa mobiliada, pertencente a este empresário e localizada na cidade pernambucana de Paulista. Um dado interessante foi que a escolta da família Suassuna era comandada pelo tenente Agildo Barata[4].  

João Pessoa morto

O deputado João Suassuna recebeu a comunicação que havia sido denunciado como cúmplice no assassinato de João Pessoa e teria que ir ao Rio de Janeiro para se defender na Câmara dos Deputados. No Porto do Recife ele embarcou no paquete “Zelândia” e lá estava toda a sua família para as despedidas. Mesmo tendo naquela ocasião apenas três anos de idade, Ariano Vilar Suassuna sempre relatou ao longo de sua vida que jamais esqueceu a partida do seu pai para a Capital Federal, pois aquela foi a última ocasião que o viu com vida. 

João Suassuna chegou a Capital Federal no dia 22 de outubro de 1930, se apresentou a Câmara Federal. Lá soube que tramitava na comissão de constituição e justiça um pedido do deputado pernambucano João Paes de Carvalho Barros, para que fosse concedida uma licença para abrir uma investigação sobre a participação de Suassuna como cúmplice no assassinato de João Pessoa. Logo o pedido foi indeferido pelo presidente da casa, o deputado federal João Santos[5].

TEMPO DE REVOLTA

Não tarda e a convulsão política eclode. A conhecida Revolução de 1930 teve seu início em 03 de outubro de 1930, uma sexta feira, com movimentos sincronizados que foram levados a efeito no Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Paraíba.

João Suassuna (com papéis e na mão), tendo ao seu lado esquerdo Washington Luís no Porto de Cabedelo, Paraíba.

Mesmo diante desta situação, o deputado João Suassuna se coloca ao lado do presidente Washington Luís, junto com mais de uma centena de políticos. Todos se encontraram na tarde do dia 4 de outubro no Palácio da Guanabara, atual sede do Governo do Estado do Rio de Janeiro, onde morava o mandatário que em breve seria deposto[6].

Os dias seguiam com mais notícias preocupantes vindas da Paraíba e de Pernambuco. Na capital paraibana, na madrugada do dia 4 de outubro, poucas horas após o movimento ter-se iniciado, os revolucionários atacaram o 22º BC e ali morreu o general legalista Alberto Lavenère Wanderley, comandante da 7ª Região Militar. Já o 23º BC da cidade de Sousa, opôs resistência aos revolucionários. Logo em seguida sublevaram-se o 25º BC de Teresina, o 24º BC de São Luís e o 29º BC de Natal.

Revolucionários de 1930 – Fonte – ultimosegundo.ig.com.br

Em Recife o movimento encontrou uma resistência maior por parte das forças legalistas, que haviam se colocado de prontidão ao surgirem notícias da revolução. A vitória dos revolucionários, contudo, foi garantida pelo apoio popular à insurreição, tendo ocorrido, inclusive, distribuição de armas aos populares. Já na manhã do dia 5 de outubro, o movimento havia triunfado em Pernambuco, antes mesmo que os reforços provenientes da Paraíba chegassem a Recife. No dia seguinte a posição dos revoltosos se consolidou quando o presidente do estado, Estácio Coimbra, abandonou o governo[7].

TIRO MORTAL

Enquanto as notícias das sublevações e lutas pelo Brasil afora preocupavam os cariocas e o governo Washington Luís seguia para seus últimos dias, João Suassuna se dividia entre saber notícias de sua família e a atividade parlamentar.

Nesta época o deputado paraibano morava no quarto 63, do Novo Hotel Belo Horizonte, localizado na Rua Riachuelo, 130, no bairro da Lapa.

Rua Riachuelo, em Botafogo, Rio de Janeiro – Fonte – http://www.rioquepassou.com.br

Suassuna tinha o hábito de sempre descer ao “hall” principal para ler os jornais ainda pela manhã. Naquela quinta feira, 9 de outubro de 1930, ele estava nesta atividade quando apareceu uma visita. Era o farmacêutico paraibano Caio Gusmão, que há quatro meses residia no Rio. Eram cerca de oito e quarenta da manhã, quando o deputado decidiu seguir junto com seu visitante para o Palácio Tiradentes, sede da Câmara Federal. Estava vestido de paletó de casimira cinza e sapatos pretos.

Os dois caminharam um bom trecho pela Rua Riachuelo, quando Suassuna  olhou para o céu e comentou…

 – Parece que vai chover e vou buscar minha capa no hotel!

Deu meia volta, avançou alguns passos, mas nesse momento foi atingido por um disparo de arma de fogo. Suassuna tentou sacar um revólver “Colt” que conduzia, mas caiu no chão já morto por apenas aquele único tiro. O fato ocorreu na altura do número 111, próximo a esquina com a Rua dos Inválidos[9].

Caio Gusmão nada pode fazer, o corpo ficou em decúbito dorsal, com o revólver do falecido ao lado e a sua mão manchada de sangue[10].

Logo encheu de gente. Rapidinho se espalhou a notícia sobre quem havia sofrido aquele atentado e o espanto dos transeuntes foi geral. Populares chamaram a “Assistência”, o SAMU da época, que logo chegou, mas nada puderam fazer em favor de João Suassuna.

Em pouco tempo o delegado do 12º Distrito Policial, o Dr. Eunápio Hardman Castello Branco, em companhia do comissário Antônio Pizarro de Morais, chegou ao local e depois vieram várias outras autoridades policiais. Das primeiras investigações descobriram que o assassino fugiu pela Rua Paula Matos, em direção ao Morro de Santa Tereza. Foi comentado aos policiais que o atirador possuía estatura mediana, vestia paletó branco, usava boné de casimira negra e calçava “tennis”[11].

Desde os primeiros momentos que os jornais cariocas apontavam que a razão do assassinato de João Suassuna era vingança pela morte de Joao Pessoa e mesmo com revoltas pipocando no país, os revolucionários de 1930 ainda não tinham conquistado a Capital Federal. Começou então a caçada ao assassino.

Inicialmente em uma vila, um policial encontrou um revólver de grosso calibre do tipo “buldogue” e uma pistola modelo “Liberty”. Além de toda a roupa utilizada pelo pistoleiro na hora do crime. Logo os investigadores perceberam pelas pistas deixadas que um cúmplice estava dando apoio ao matador.

Fosse pela importância de João Suassuna, ou por eficiência (ou uma soma destes dois fatores), o certo é que ás onze e meia da noite do dia 9 de outubro, policiais da 2ª Delegacia Auxiliar capturaram o assassino.

Este se chamava Miguel Alves de Souza e havia sido preso no grande sobrado que pertencia ao engenheiro Joaquim de Souza Leão, localizado na Rua São Clemente, 261, bairro de Botafogo, a poucos metros da tradicional Igreja e Colégio Santo Inácio. Assim foi preso Miguel Alves confessou o crime[12].

Este era paraibano de Alagoa Grande, tinha 30 anos, havia chegado ao Rio pelo vapor “Itapuy” no dia 18 de julho de 1929, trabalhava como tratador de cavalos de cavalos e depois se tornou empregado do engenheiro Joaquim de Souza Leão.

Em uma entrevista concedida ao jornalista Ricardo Farias, publicada no caderno especial do jornal paraibano “A União”, edição de 12 de fevereiro de 2013, página 3, Ariano Suassuna comentou que o assassino de seu pai foi preso na casa do concunhado de João Pessoa[13].

Provavelmente os algozes de João Suassuna tinham a ideia que a polícia carioca jamais concluiria que na casa de gente tão graúda, como a Dr. Joaquim de Souza Leão, encontrariam um elemento que havia matado covardemente um homem pelas costas.

TRAMA ASSASSINA

No dia 10 de outubro, enquanto as autoridades “apertavam” Miguel para ele dar conta do assassinato, no Senado Federal, para onde seguiu o corpo de João Suassuna, ocorreram várias homenagens.

O ex-governador potiguar, então senador, José Augusto Bezerra de Medeiros, proferiu um interessante discurso sobre a vida do falecido político paraibano. Houve uma missa de corpo presente, várias autoridades estiveram no velório e foram colocadas muitas coroas de flores. João Suassuna foi enterrado no túmulo número 611, no cemitério São João Batista, em Botafogo. Mas nem sua mulher e nenhum de seus nove filhos estiveram presentes!

Enquanto isso na delegacia, Miguel Alves de Souza confessou que recebeu o apoio de outro paraibano chamado Antônio Granjeiro. Este era carteiro dos Correios e Telégrafos no Rio, lhe forneceu as armas e apoiou na sua fuga. Granjeiro foi logo preso[14].

Os dois comparsas entregaram então Otacílio de Lucena Montenegro, um funcionário do Tribunal de Contas, como a pessoa que procurou Granjeiro, lhe deu o dinheiro para a compra das armas do crime e a ordem para procurar alguém disposto a apertar o gatilho.

E quem era Otacílio de Lucena Montenegro?

Na mesma entrevista concedida ao jornalista Ricardo Farias, do jornal paraibano “A União”, em fevereiro de 2013, Ariano Suassuna comentou que foi Otacílio quem intermediou junto a Granjeiro o assassinato de seu pai e que Otacílio era sobrinho do então coronel do Exército Aristarco Pessoa, irmão de João Pessoa[15].

Demorou mais alguns dias para prenderem Otacílio, mas ele foi finalmente detido na Tijuca. Para dirimir dúvidas, o investigador Silvio Terra fez uma acareação na 2ª Delegacia Auxiliar entre Otacílio, Granjeiro e Miguel Alves e para o policial ficou patente a participação de Otacílio. Mas este negou peremptoriamente quaqlquer envolvimento.

Para os policiais Antônio Granjeiro, homem pobre e com numerosa família (tinha onze filhos), era considerado “doentio e muito sugestionável” e as preleções de Otacílio, que entre outras coisas dizia “-Será que não existe um paraibano que seja capaz de vingar a morte de João Pessoa?” surtiram efeito desejado. Granjeiro foi atrás de Miguel e o crime ocorreu.

Entre outras acusações Granjeiro foi apontado como o homem que seguiu João Suassuna, conheceu sua rotina, comprou as duas armas usadas no crime e chegou a enviá-las para um armeiro quando foram detectadas defeitos nelas. Foi ele quem adquiriu a munição e no dia 7 de outubro, dois dias antes do crime, foi com Miguel Alves praticar tiro ao alvo nas margens da hoje superpovoada lagoa Rodrigo de Freitas, próximo ao Jóquei Clube do Rio.

Os três acusados, entre estes um carteiro e um tratador de animais, foram defendidos pelo ninguém menos que advogado Clóvis Dunshee de Abranches, considerado um dos maiores criminalistas do Brasil na época e famoso pelo rumoroso caso Sylvia Seraphin Thibau[16].

Mas nesta época nem foi tão necessário a participação de um jurista tão renomado para defender estes homens, pois logo os revolucionários chegaram ao Rio de Janeiro, depuseram o presidente e assumiram o poder. No vácuo institucional, em meio às alegrias da vitória, os três homens responsáveis pela morte de João Suassuna foram soltos[17].

EM BUSCA DE JUSTIÇA

Foi Rita Suassuna que não deixou a morte de seu marido cair no esquecimento.

Tempos depois ela enviou uma carta extremamente intensa e emocionada ao então Presidente Getúlio Vargas e este mandou reabrir o caso. Em pouco tempo a morte de João Suassuna voltou às páginas dos periódicos cariocas.

Antônio Granjeiro, esposa e filhos em 1933.

Foram decretadas as prisões de Antônio Granjeiro e Miguel Alves. O primeiro foi preso em casa, no Rio. O segundo foi capturado na Paraíba e recambiado de navio para a Capital Federal[18].

Já os autos do processo simplesmente haviam sumido. Para completar o quadro os jornais noticiaram que novos depoimentos alteraram a situação de Octacílio de Lucena Montenegro e ele sequer prestou mais algum depoimento[19].

O promotor Francisco Belizário Velloso Rabello se preparou para o julgamento acusando os réus de “assassinato premeditado e sem direito a defesa”. Apoiando a promotoria, a pedido de Rita Suassuna, estava o advogado e ex-senador paraibano José Gaudêncio[20].

Já o advogado Clóvis Dunshee de Abranches apresentou em favor dos réus a alegação que o crime por eles cometido “ocorreu em um período de intensa perturbação política devido à morte de João Pessoa” e isso gerou nos assassinos de João Suassuna “uma forte perturbação dos sentidos e da inteligência”[21].

O advogado Clovis Dunshee de Abranches.

Visando reforçar a defesa, o advogado Dunshee de Abranches conseguiu do “Centro Paraybano” no Rio de Janeiro, entidade de apoio aos paraibanos que viviam na Capital Federal, mas também servia de local de encontros políticos, uma carta em defesa dos réus. Produzida por Arthur Victor, presidente da instituição, a carta é uma longa peça acusatória contra João Suassuna, que mostra bem os processos da política radical daqueles tempos.

Entre outras coisas está descrito que Irineu José do Nascimento, padrasto de Miguel Alves, e um 1º sargento reformado da polícia paraibana, havia sido fuzilado “por ordem de João Suassuna”, deixando sua mãe e três irmãos no desamparo. Sua família foi obrigada a fugir para Pernambuco, onde sofreram “sérias perseguições” por parte de Estácio Coimbra, então governador daquele estado.

Já Antônio Granjeiro nasceu em 1888, chegou ao Rio em 1912, entrou nos Correios e Telégrafos e foi transferido para Diamantina (MG). Depois de retornar para o Rio começou a participar das atividades do “Centro Paraybano” e na época que iniciou os movimentos políticos contra o governo Washington Luís, o destemido Granjeiro era uma espécie de segurança e forte entusiasta pela causa liberal.

A carta do presidente do “Centro Paraybano” menciona um episódio envolvendo Granjeiro, na época que o corpo de João Pessoa chegou para ser enterrado ao Rio de Janeiro. Quando da passagem do féretro por uma grande avenida, em meio à multidão, o carteiro gritou a pleno pulmões um “De joelhos!” e docilmente se ajoelhou diante do caixão do governador assassinado e seu gesto seguido por muitos presentes. Aparentemente isso o tornou uma figura de destaque do “Centro Paraybano”[22].

O julgamento começou ao meio dia de uma quarta feira, 18 de novembro de 1931, sob a presidência do juiz Nelson Hungria. O corpo de jurados era formado por sete homens e, apesar da atenção que aquele júri despertava entre os cariocas, tudo ocorreu de forma rápida e os dois réus foram absolvidos por 5 a 2 e a promotoria recorreu[23].

NOVO JULGAMENTO

Em 8 de janeiro de 1933 houve um novo julgamento, desta vez sendo presidido pelo juiz Antônio Eugênio Magarinos Torres, tendo como promotor Rufino de Loy e novamente a frente da defesa o competente Clóvis Dunshee de Abranches. Percebemos que, tal como o julgamento ocorrido em 1931, este segundo embate jurídico atraiu a atenção dos cariocas, sendo francamente noticiado na imprensa local.

O juiz Arthur Eugênio Magarinos Torres Filho. Nasceu em Campos (RJ) em 16 de janeiro de 1889 e faleceu em 8 de julho de 1960 – Fonte – http://autorescampistas.blogspot.com.br/

O promotor Rufino fez uma longa acusação. Já o advogado de defesa, com enorme desenvoltura, busca destruir todos os argumentos da promotoria. Mostrou com extrema eloquência a sofrida história de vida dos réus, apontando-os como “nordestinos pobres”. Trás para o tribunal o clima de revolta e instabilidade política de outubro de 1930, torna a ler a carta do “Centro Paraybano” e coloca os réus fora da classe dos “criminosos vulgares”. Cita vários juristas, psiquiatras e médicos para explicar como as emoções políticas tinha haver com o assassinato de João Suassuna. Ele relembrou a epopeia dos “18 do Forte”, fazendo uma relação deste caso para justificar o clima emocional dos réus diante da morte de João Pessoa[24].

Dunshee de Abranches fez até mesmo considerações para o crime de regicídio. Em determinada hora, como era praxe no tribunal no Rio, houve a parada para o “chá”[25].

Depois do retorno e finalização dos debates, os jurados se recolheram para decidir o futuro dos réus. Em 30 minutos trouxeram para o juiz Magarinos Torres o “Veredictum”, condenando Miguel Aves de Souza há seis anos e Antônio Granjeiro a quatro anos de detenção[26].

O julgamento teve outros desdobramentos. A família Pessoa, através do filho de João Pessoa, o jornalista Epitácio Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, abriu fogo com suas baterias jurídicas, processando o promotor Rufino de Loy. Entre outras coisas consideradas um acinte pela família e ditas pelo promotor na tribuna, estava que os réus “eram conhecidos da família Pessoa”. Não sei o resultado deste processo.

A TROCA

Evidentemente que para Rita Suassuna o resultado do julgamento foi decepcionante, uma verdadeira lástima. Mas o pior foi a viúva de João Suassuna saber que Antônio Granjeiro passou pouco mais de um ano na cadeia e ainda conseguiu que os seus “serviços” pela causa liberal fossem “plenamente recompensados” com a sua liberdade. Mesmo condenado no tribunal, este verdadeiro “alpinista político”, que queria ascensão com o sangue alheio, foi reincorporado aos Correios e Telégrafos em junho de 1934 e voltou a sua primitiva função de carteiro no Rio de Janeiro.

Já o assassino Miguel Alves de Souza se perdeu no “oco do mundo”!

Na época a família Pessoa foi muito eficaz em criar em torno da morte de João Pessoa, toda uma condição de perpetuação da memória desta família na Paraíba. Começa que a atual denominação da capital paraibana é “João Pessoa”, fato único entre as capitais estaduais brasileiras. Depois basta fazer uma pequena pesquisa no Google e se percebe o alto número de ruas e logradouros com nomes e sobrenomes ligados a família do governador morto na Confeitaria Glória.

Foto provavelmente da década de 1960, onde mostr Rita Suassuna e seus filhos, da esquerda para direita, Ariano, Saulo, João, Lucas e Marcos.

Já Rita Suassuna, depois de várias mudanças e provações, levou seus filhos para a cidade de Taperoá, no sertão paraibano. Ali, em uma região onde isso era a praxe, lutou para que seus cinco filhos homens jamais partissem para vingar a morte do pai. Entretanto a família de João Suassuna sempre perpetuou a sua memória e isso se incorporou no jovem Ariano, mesmo com tão pouca idade na ocasião da morte de seu pai.

Mesmo sem saber mensurar o quanto o peso da morte de João Suassuna contribuiu para moldar o Ariano Suassuna escritor, eu creio que de certa maneira ele realizou a sua “vingança” através dos seus escritos.

Se a família Pessoa buscou se perpetuar em nomes de ruas e logradouros na Paraíba, certamente Ariano se imortalizou na mente e nos corações de milhões de paraibanos, nordestinos e brasileiros com as suas obras. O autor deste trabalho acredita que por muitas décadas e séculos no futuro, o nome e as obras de Ariano Suassuna serão obrigatórios para o entendimento do Nordeste.

Contudo, eu tenho certeza que ele, Ariano Vilar Suassuna, trocaria tudo o que conseguiu com as letras para ter tido a oportunidade de ter visto seu pai conhecer seus filhos, ter acompanhado a sua vida e estar ao lado de João Suassuna no dia de sua morte. 

VEJA NO TOK DE HISTÓRIA OUTRAS HISTÓRIAS SOBRE A PARAÍBA DAS DÉCADAS DE 1920 E 1930 

A REPERCUSSÃO DOS ATAQUES DO CANGACEIRO SINHÔ PEREIRA A PARAÍBA E A INFORMAÇÃO SE LAMPIÃO ESTEVE EM TERRAS POTIGUARES EM 1922 – https://tokdehistoria.com.br/2013/03/15/noticia-ruim-chega-ligeiro/

A HISTÓRIA DO TIROTEIO NO SÍTIO TATAÍRA E A INCRÍVEL RESISTÊNCIA DO CANGACEIRO MEIA-NOITE –https://tokdehistoria.com.br/2013/08/14/a-historia-do-tiroteio-no-sitio-tataira-e-a-incrivel-resistencia-do-cangaceiro-meia-noite/

A BATALHA DO CASARÃO DOS PATOS – https://tokdehistoria.com.br/2011/06/07/a-batalha-do-casarao-dos-patos/

BENTO QUIRINO, A VIOLÊNCIA NO SERTÃO DE OUTRORA E A BUSCA PELA HISTÓRIA

NOTAS  

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[1] Em 1945 o antigo IFOCS passou a se chamar Departamento Nacional de Obras Contras as Secas – DNOCS. A Fazenda Acauã é um importante patrimônio histórico rural paraibano. Com 300 anos de história, é a mais antiga fazenda de gado e algodão do Sertão da Paraíba. Está localizado a 409 quilômetros da capital, atualmente se localiza na zona rural da cidade de Aparecida. Ariano Suassuna morou no casarão, durante parte de sua infância, e se inspirou em Acauã para escrever suas obras. Ver http://sednemmendes.blogspot.com.br/2013/05/visitando-o-sitio-historico-da-fazenda.html

[2] Segundo material existente no site www.http//pb1.com.br , o vereador Fernando Milanez, sobrinho-neto de João Pessoa, afirmou que a versão de que o assassinato teria sido um crime passional é um “absurdo”, porque, segundo ele, João Pessoa nem conhecia João Duarte Dantas. Para a família de João Pessoa, o ex-presidente foi vítima de ambição e mentira, e a causa do assassinato teria sido política. Independente do motivo, João Dantas, junto ao seu cunhado, Augusto Caldas, que não havia participado do crime, foram presos na Casa de Detenção do Recife. Em 6 de outubro de 1930, nos primeiros dias da Revolução de 1930, os dois teriam sido assassinados. A versão oficial indicou suicídio. Ver – http://pb1.com.br/noticias_dentro.php?pt1=898

[3] No início de 1929 ainda estava em vigência a conhecida “política do café com leite”, em que políticos de Minas Gerais e de São Paulo se alternavam na presidência da república. O então Presidente Washington Luís, indicou o governador São Paulo, Júlio Prestes, como seu sucessor. Apenas três estados negaram o apoio a Prestes: Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. Os três se uniram a políticos de oposição de diversos estados e formaram, em agosto de 1929, um grupo de oposição denominado Aliança Liberal. No dia 20 de setembro do mesmo ano foram anunciados os candidatos oposicionistas às eleições presidenciais. Getúlio Vargas seria candidato a Presidente do Brasil e João Pessoa seria o candidato a vice-presidente. Após perder as eleições, que foram realizadas em março de 1930, a Aliança Liberal alegou que a vitória de Prestes era decorrente de fraudes. Ver – http://pb1.com.br/noticias_dentro.php?pt1=898

[4] O empresário pernambucano Frederico João Lundgren (1879-1946) foi uma espécie de desbravador em seu tempo. Tratado como coronel, gerou 22 filhos, teve várias mulheres e se tornou uma espécie de lenda do comércio ao levar tecidos e outras mercadorias a dezenas de pequenas cidades do interior do país. Herdeiro de uma tecelagem, Lundgren teve, em 1908, a ideia de criar uma cadeia de varejo pela qual pudesse vender seus produtos. Era o começo das conhecidas Casas Pernambucanas. Ver – http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/0726/noticias/a-sobrevivente-m0053283 e https://tokdehistoria.com.br/2014/05/12/oxente-hitler-arquivos-e-documentos-mostram-que-os-nazistas-estiveram-na-paraiba/

[5] Ver jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, edição de 4 de outubro de 1930, página 4.

[6] Ver jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, edição de 5 de outubro de 1930, na 1ª página. Apesar do Palácio do Catete ser a antiga residência dos Presidentes da República, quando tomou posse Washington Luís decidiu residir no Palácio da Guanabara.

[7] Ver – http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_de_1930

[9] Este local fica bem próximo a atual sede da renomada Editora Folha Dirigida.

[10] Os jornais listam que além de sua aliança, de 200 mil réis em dinheiro, um relógio e abotoaduras de ouro, João Suassuna levava a licença para portar sua arma e alguns papéis. Entre estes uma carta fechada para a esposa.

[11] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de 9 de outubro de 1930, 1ª página e o jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, edição de 10 de outubro de 1930, página 2. Desde os primeiros momentos as investigações ficaram a cargo do investigador Silvio Terra, figura lendária da polícia investigativa carioca, cujo nome atualmente batiza a Academia de Polícia Civil do Rio de Janeiro.

[12] Joaquim Souza Leão era um puro exemplo de um membro oriundo da mais alta elite agrária açucareira pernambucana. Era sobrinho de desembargador, de senador do Império, do Visconde de Campo Alegre e filho de Antônio de Souza Leão, rico fazendeiro pernambucano da região de Moreno e que havia recebido do Imperador Pedro II o título de Barão de Morenos. Um de seus filhos foi embaixador. Ver – http://morenoengenho.blogspot.com.br/

[13] Ver – http://issuu.com/auniao/docs/caderno_especial_parte_1

[14] Ver o jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, edição de 11 de outubro de 1930, página 2 e o jornal “Diário carioca”, Rio de Janeiro, edição de 7 de janeiro de 1933, 1ª página.

[15] Segundo Ariano Suassuna, na década de 1950, quando ele entrou na Faculdade de Direito de Recife, conheceu o filho do Joaquim Pessoa Cavalcante de Albuquerque, irmão de João Pessoa, que isentou o pai da morte de João Suassuna. Mas não o tio Aristarco Pessoa e nem a participação de Octacílio de Lucena Montenegro no crime. Ver – http://issuu.com/auniao/docs/caderno_especial_parte_1

[16] Sylvia Seraphin Thibau era uma jornalista, escritora e poetisa, era casada com o médico João Thibau Júnior e mãe de dois filhos. Sylvia foi acusada pelo jornal carioca “A Crítica” de ter traído o marido, mantendo um caso com o também médico Manuel Dias de Abreu, mais tarde inventor da abreugrafia. Irritada, ela foi à redação do jornal armada, para matar o editor, Mario Rodrigues, no dia 26 de novembro de 1929. Como Mário não estava no jornal, Sylvia acabou atirando no filho dele, o também jornalista Roberto. No local, assistindo ao crime, estava o irmão da vítima, Nelson Rodrigues, então com 17 anos. O processo criminal foi acompanhado por uma feroz campanha promovida pelo jornal, que chamava a ré de “literata do Mangue” e “cadela das pernas felpudas”. Seu julgamento foi o primeiro no Brasil a ser transmitido ao vivo pelo rádio. O advogado Clovis Dunshee de Abranches alegou que Sylvia havia se descontrolado por ter sido caluniada e conseguiu a sua absolvição. Ela suicidou-se em 1936, depois de abandonada por um tenente-aviador por quem havia se apaixonado. Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADlvia_Serafim_Thibau

[17] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de 4 de novembro de 1930, página 9. Neste jornal temos uma longa declaração de Silvio Terra, se defendendo de acusações feitas por Octacílio de Lucena Montenegro através dos jornais. As acusações de Octávio apontam que este havia sido torturado pelos policiais para confessar sua participação na morte de Ariano Suassuna. Não encontrei a edição de jornal com a publicação de Octávio contra Silvio Terra. Mas encontrei a carta de defesa do investigador aos seus superiores e publicada nos jornais do Rio. Este investigador é muito claro, direto e contundente em suas afirmativas, além de negar veementemente o uso de tortura contra os detidos. O então coronel Bertoldo Klinger, líder revolucionário, elogiou o posicionamento do policial. Ver também “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de 11 de julho de 1931, página 3.

[18] Miguel Alves estava incluso no crime previsto no Artigo 294, parágrafo 1º, com agravantes do Artigo 39, parágrafos 2º, 7º, 8º e 13º. Já Granjeiro era acusado nos mesmos artigos, acrescentando o artigo 18, parágrafo 3º. Lembrar que estas acusações faziam parte Código Penal anterior ao que atualmente está em vigência. Ver jornal “Diário de Notícias”, Rio de Janeiro, edição de 7 de janeiro de 1933, 1ª página.

[19] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de 11 de julho de 1931, página 3. Os jornais da época não informam quem, quando e onde ocorreram estes depoimentos que livraram Octacílio de Lucena Montenegro deste processo. Nem comentam nada mais sobre o sumiço dos autos e sequer é mais comentado por qualquer razão o nome do Joaquim de Souza Leão como presumidamente envolvido no crime. Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de 11 de julho de 1931, página 3.

[20] Ver jornal “A Esquerda”, Rio de Janeiro, edição de 21 de setembro de 1931, página 4.

[21] Ver jornal “Diário de Notícias”, Rio de Janeiro, edição de 19 de agosto de 1931, página 2.

[22] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de 11 de setembro de 1931, página 3. Por mais estranha que esta história de ficar de joelhos diante do caixão de João Pessoa possa parecer, naquela época, naquelas circunstâncias, isso aconteceu de verdade. Na capital paraibana o nível de fanatismo em 1930 era tal, que se alguém tocasse em um local público uma certa música criada para homenagear o morto ilustre, e alguém gritasse um sonoro “De joelhos!”, aí de quem não cumprisse a ordem. Ou era surrado, ou preso! Em outros estados também ocorreram muitas manifestações radicais. No Rio Grande do Norte, como consequência direta das mudanças das mudanças políticas da Revolução de 1930, a campanha estadual de 1934 foi uma das mais violentas da história política potiguar, com vários mortos em meio a inúmeras arbitrariedades.

[23] Ver jornal “Diário Carioca”, Rio de Janeiro, edição de 19 de novembro de 1931, página 3. É interessante comentar sobre o juiz Nelson Hungria Hoffbauer. Este nasceu em Além Paraíba, Minas Gerais, em 1891, iniciou sua vida pública como promotor de Rio Pomba, em seu estado natal. Nomeado juiz em 1924, foi magistrado por 46 anos, tendo sido nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal em 1951, do qual chegou à presidência e se aposentou em 1961. Hungria é tido como um dos luminares de nossa cultura jurídico-penal, onde deixou escrito 17 obras e 150 monografias. Foi considerado o líder intelectual da redação do Código Penal de 1940, além de ter participado da elaboração do Código de Processo Penal, da Lei de Contravenções Penais e ainda da Lei de Economia Popular. Seus Comentários ao Código Penal (8 volumes) influenciaram gerações de juristas brasileiros e constituíram referência obrigatória para a compreensão de nosso sistema jurídico penal. Ver –  http://www.memorial.mppr.mp.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=114

[24] A Revolta dos 18 do Forte de Copacabana foi uma revolta tenentista ocorrida na cidade do Rio de Janeiro em 5 de julho de 1922. Foi a primeira revolta tenentista da República Velha. Teve a participação de 17 militares e um civil. Suas causas principais estão no descontentamento dos tenentes com o monopólio político do poder no Brasil por parte das oligarquias (principalmente ricos fazendeiros) de Minas Gerais e São Paulo. Embora o movimento tivesse sido planejado em várias unidades militares, somente o Forte de Copacabana e a Escola Militar se levantaram no dia 5 de julho de 1922. O forte foi bombardeado e a rendição dos rebeldes foi exigida.  O tenente Siqueira Campos e um grupo de militares rebeldes pegaram armas e marcharam pelas ruas em direção ao Palácio do Catete (sede do governo federal na época). Durante a marcha alguns militares desistiram, ficando apenas 17 que receberam o apoio na rua de um civil, totalizando 18. Os rebeldes foram cercados pela tropa do Governo Federal. Após forte tiroteio em frente ao posto 3 da praia de Copacabana, somente Siqueira Campos e Eduardo Gomes sobreviveram e foram presos. Os outros dezesseis integrantes do movimento foram mortos no combate.

[25] Regicídio é o assassinato de um rei, seu consorte, de um príncipe herdeiro ou de outras formas de regentes, como presidentes e primeiro ministros. Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Regic%C3%ADdio

[26] Ver o periódico “Diário de Notícias”, Rio de Janeiro, nas edições de 7 e 8 de janeiro de 1933, sempre nas 1ª páginas. Igualmente ver o jornal “Diário Carioca”, Rio de Janeiro, edição de 7 de janeiro de 1933, 1ª e 5º páginas.