A CIDADE POTIGUAR DE VENHA VER E A SUA POSSÍVEL TRADIÇÃO JUDAICA

A pequena e acolhedora Venha Ver, no extremo oeste do Rio Grande do Norte. O único município potiguar que faz fronteira com dois estados, Paraíba e Ceará

Uma pequena cidade perdida no interior do Rio Grande do Norte guarda vestígios da origem judaica de sua população, cujos fundadores, em 1811, eram descendentes de cristãos-novos — judeus convertidos à fé cristã. Mesmo cristãos, os habitantes de Venha-Ver (440 km a oeste de Natal) revelam em hábitos cotidianos uma tradição particular, transmitida há séculos de geração a geração. A maioria dos habitantes, porém, não tem consciência da origem de seus ancestrais.

Os sinais mais evidentes da tradição judaica encontrados na pequena cidade pela Agência Folha são a fixação de cruzes em formato hexagonal na porta de entrada das casas, o enterro dos corpos em mortalhas brancas e os sobrenomes típicos de cristãos-novos. Os costumes de retirar totalmente o sangue da carne animal após o abate e de colocar seixos sobre os túmulos também podem ser relacionados à ascendência judaica dos habitantes. Os judeus colocam seixos sobre as sepulturas com o significado de que o morto não será esquecido.

Apesar da pretensa e antiga tradição judaica, atualmente a figura religiosa mais importante na cidade é Frei Damião, cuja a grande estátua protege a cidade

Em Venha-Ver, pôr um seixo sobre o túmulo significa uma oração à pessoa ali enterrada. O próprio nome da cidade é uma provável fusão da palavra “vem” (do verbo vir, em português) com o termo hebraico “chaver” (pronuncia-se ráver), que significa amigo, companheiro. Ou seja, Venha-Ver seria uma corruptela de “Vem, Chaver”.
Esses foram parte dos indícios relatados pelo rabino Jacques Cukierkorn em sua tese de rabinato (equivalente a mestrado) sobre a ascendência judaica entre a população do Rio Grande do Norte.

A preservação de tradições centenárias entre a comunidade de Venha-Ver foi facilitada pelo isolamento do município, situado no extremo oeste do Rio Grande do Norte, nas fronteiras do Ceará e Paraíba. Só se chega ali por uma sinuosa estrada de terra.

Na região ainda é comum a utilização de caçuas de couro de boi, bem rígidos e feitos com uma preparação bem tradicional, para o transporte de mercadorias em jumentos e cavalos

Para o rabino Cukierkorn, as cruzes de Venha-Ver têm sua origem na mezuzá — pequena caixinha com uma reza que os judeus fixam nos batentes das portas. Muitas delas têm formato hexagonal, como a Estrela de David, símbolo da fé judaica. A população explica as cruzes nas portas de suas casas como uma proteção contra o mal, o demônio, a ventania e os raios. Os judeus fixam a mezuzá nos batentes para demarcar a proteção divina sobre a casa.

Na pequena localidade, os cadáveres são envolvidos em mortalhas para serem conduzidos até a sepultura. É o que determina a tradição judaica. Esse costume é explicado pelos habitantes de Venha-Ver como algo passado de pai para filho. Há um preconceito contra o uso de caixão — recentemente introduzido nos funerais locais.

Nas portas das casas de Venha Ver é normal se encontrar cruzes feitas com palhas de coqueiros, benzidas no dia de Domingo de Ramos. Para alguns, a forma como a população coloca estes símbolos, é uma representação antiga de uma Estrela de Davi Será?

Cukierkorn vê, na forma de tratar a carne animal, a presença das regras da culinária “kasher” — determinadas pelo judaismo. Logo após o abate de um animal em Venha-Ver, os pedaços de carne são dependurados com uma corda sobre um tronco de árvore, para que todo o sangue escorra. Depois disso, a carne é salgada — prática usual entre os judeus ortodoxos.

Os sobrenomes mais comuns da população branca de Venha-Ver (parte da comunidade, de fixação mais recente, tem origem negra) são Carvalho, Moreira, Nogueira, Oliveira e Pinheiro, notadamente de cristãos-novos, conforme estudo do professor de antropologia José Nunes Cabral de Carvalho (1913 – 1979) fundador da Comunidade Israelita do Rio Grande do Norte. A repressão religiosa desencadeada pela Inquisição, particularmente nos séculos 15 e 16, fez com que uma ampla população judaica tenha sido forçada a se converter ao cristianismo em Portugal, Espanha e também no Brasil, alterando sua fé religiosa, sobrenome e comportamento social.

Entrada principal de Venha Ver

Em Natal, cinquenta famílias no inicio da cerimônia — cerca de 200 pessoas — formam a “comunidade marrana”. São famílias cujos ancestrais eram cristãos-novos e que, nas últimas gerações, retornaram à fé judaica. As famílias se reúnem uma vez por semana na sinagoga do Centro Israelita do Rio Grande do Norte, que foi fundado, em 1929, pela família Palatnik e reinangurado, em 1979, pelo ex-pastor presbiteriano e lider espiritual João Dias Medeiros.

Às sextas-feiras à noite, é celebrado o cabalat-shabat, a cerimônia religiosa que marca o início do dia sagrado para os judeus. Não há rabino. Um orador entoa as orações cantadas e seguidas pelos freqüentadores por meio de um livro (sidur) doado pela Congregação Israelita Paulista (CIP). No início da cerimônia, velas são acesas e, no final, é feita a bênção do vinho e a repartição da chalá (pronuncia-se ralá), o pão de tranças. Mulheres e homens cobrem as cabeças. A cerimônia é um rito judaico. “Nós também celebramos as festas tradicionais, como o Yom Kipur (Dia do Perdão), Rosh Hashaná (Ano Novo), Pessach (Páscoa), Purim e Shavuot”, afirma Éder Barosh. Seu sobrenome original era Barros.

Na praça principal da cidade existe uma réplica de uma antiga casa de barro típica da região, para os mais jovens conhecerem a sua história

Os integrantes da comunidade natalense também seguem a dieta Kasher, que prevê a separação entre as refeições de leite e carne. Uma ala israelita no Cemitério do Alecrim demarca a presença judaica em Natal.

Originalmente publicado pela jornalista Andréa de Lima, da Agência Folha, em Venha-Ver e Agência Folha, em Natal e copiado do site http://oestepotiguar-venhaver.blogspot.com

Fotos – Rostand Medeiros

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A CRIAÇÃO DO MITO DO BRASIL HOLANDÊS

AUTOR – Gabriel Passetti – História USP

Fonte – http://www.klepsidra.net

Ao pensar escrever este trabalho para Klepsidra, levei em consideração a curiosidade que passa a muitos de nós sobre o período em que parte do Brasil foi governada pelos holandeses (1630 a 1645, em Pernambuco principalmente).

As principais leituras basearam-se em “Tempo dos flamengos”, “História geral da civilização brasileira”, “Guerras do Brasil (1504-1654)” e “História da vida privada no Brasil”.

Talvez a leitura tenha ficado um pouco “viciada” nos escritos de Mello Neto (“Tempo dos flamengos”), mas isto ocorreu principalmente pela dificuldade em se encontrar nas bibliotecas outros livros sobre o tema (como obras “Olinda restaurada” e “Os holandeses no Brasil” que estão extraviados ou sempre locados).

A Conquista

A invasão holandesa ao Nordeste Brasileiro se deu entre os anos de 1630 e 1654, com dois grandes períodos de guerras: 1630-1635 e 1645-1654 quando os portugueses finalmente reconquistaram o centro econômico de sua principal colônia.

O senso comum e os discursos dos guias turísticos mostram, mesmo que indiretamente, a ideia de que o Brasil poderia ser bem diferente se a colonização holandesa tivesse funcionado. Não existiria um “Brasil” coeso, mas com certeza este “Brasil holandês” teria algumas bases sociais e econômicas bem diferentes do nosso “Brasil português”.

A visão deste “Brasil melhor” que é tanto difundida, é influenciada pelo fato do governador da colônia holandesa ter sido o Conde Maurício de Nassau, cuja popularidade era ampla entre todas as culturas.

A tomada do Nordeste Brasileiro pela WIC (Companhia Holandesa das Índias Ocidentais) se deu após diversos anos de estudos, onde grande parte da comunidade judaica local colaborou com os invasores, devido às perseguições sofridas junto aos católicos. Também foram utilizados alguns espiões nos barcos que para cá vieram, que registraram a geografia do local e levaram índios à Europa. Havia dois interesses fortemente ligados na decisão holandesa de dominar as colônias sul-americanas dos portugueses.

O primeiro deles era o fato da Holanda ter se tornado inimiga de Portugal após este ser vassalo da Espanha, o outro o financeiro propriamente falando, visto que a produção e o comércio de açúcar eram extremamente lucrativos e os holandeses já dominavam as transações comerciais deste produto.

Após a morte do infante D. Henrique em 1580, houve uma grave crise na linha de sucessão ao trono português, visto que o jovem Rei ainda não havia deixado herdeiros. Não me atarei muito às discussões da corrida de sucessão de Portugal, visto que este não é o tema deste trabalho. Após muita discussão internacional e uma tentativa de golpe, finalmente o Rei de Espanha, Felipe II (Felipe I de Portugal) assume o trono fazendo com que Portugal se torne inimigo consequentemente da Holanda, por esta ser inimiga da Espanha.

A Holanda tinha diversos investimentos no Brasil com empréstimos a senhores de engenho e intensas ligações comerciais com a venda de açúcar e de pau-brasil. Em 1621 foi criada a Companhia das Índias Ocidentais, de capital aberto na Bolsa de Valores de Amsterdã, e nos mesmos moldes da já importante Companhia das Índias Orientais. Quem presidia a WIC (sigla em flamengo) era o Conselho dos XIX.

Primeiramente tentou-se conquistar a cidade de Salvador, capital administrativa da colônia portuguesa, porém com a derrota optou-se por Olinda e Recife, centros econômicos. Em 1630 uma frota composta de 56 navios, com 3780 tripulantes e 3500 soldados chega a Olinda. Rapidamente dominaram esta vila e pouco tempo depois a de Recife.

Matias de Albuquerque, governador português de Pernambuco à época, levantou acampamento em Arraial de Bom Jesus com a intenção de organizar a defesa. Tal centro de defesa foi importantíssimo quando em 1631 chega uma frota hispano-portuguesa de 23 navios para o contra-ataque. Em parte a tal contraofensiva foi triunfante, visto que os navios desembarcaram em Alagoas e seus efetivos conseguiram forçar os holandeses a abandonar e incendiar Olinda para defenderem somente Recife.

Bandeira do Brasil holandês

Porém, a política expansionista holandesa não seria freada ai, visto que no mesmo ano estes partiriam para tentar, sem sucesso, a conquista da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Tal conquista, porém, já estaria concretizada em 1635, quando o domínio holandês no Brasil, ou o “Brasil Holandês” já chega até o Rio Grande do Norte. Até junho do mesmo ano, excetuavam-se somente o Arraial de Bom Jesus e o Forte de Nazaré nesta conquista, porém neste mês caem estes dois últimos focos de resistência.

A Chegada de Maurício de Nassau

1637 pode ser considerado um marco na história da colonização holandesa no Brasil, pois é neste ano que chega seu mais famoso e importante administrador, o Conde Maurício de Nassau (João Maurício de Nassau-Siegen).

Nassau marcou época como governador tentando realizar uma política conciliatória entre holandeses e portugueses, além de oferecendo liberdade restrita de credo para católicos e judeus. Entretanto, isto não impossibilitou uma crescente onda anti-semita baseada na ideologia religiosa e no poder social e econômico que os judeus adquiriram com o tempo.

Maurício de Nassau

A política do Conde também trouxe diversos avanços culturais e estruturais ao Recife. A ciência foi incentivada, criou-se uma política de higiene e sanitarismo público. Foram construídos jardim botânico, zoológico, museu artístico e um plano urbanístico para a Cidade Maurícia, baseado no urbanismo holandês.

O governador combateu a oligarquia local dos senhores de engenho, incentivando o crescimento de uma nova classe dominante, a burguesia. Deste modo, foram combatidas a monocultura e a fome. Todo o interior, entretanto, ainda era tomado pelos portugueses que tinham o conhecimento da produção da cana-de-açúcar e consequentemente a economia em suas mãos, enquanto o poder institucionalizado estava nas mãos dos holandeses.

Com a conquista assegurada, o governo holandês ofereceu aos imigrantes e aos senhores de engenho portugueses que não fugiram para a Bahia diversos incentivos fiscais e empréstimos a prazo para a reconstrução dos engenhos arrasados pela guerra, com gado morto e escravos fugidos.

O Movimento de Reconquista Português

Quando D. João VI fez a revolução e acabou com a União Ibérica em 1640, Portugal passa a ser aliado da Holanda contra a Espanha, o que altera profundamente a situação no Nordeste Brasileiro. Enquanto o armistício ainda não é assinado, Nassau parte para a conquista de novos territórios como São Paulo de Luanda em Angola, o Golfo da Guiné e o Maranhão.

D. Fernando de Mascarenhas se torna o responsável pela reconquista, vindo à América com 86 embarcações e 11.000 soldados já em 1640, mas somente 1000 homens conseguiram desembarcar na Ponta dos Touros. Oficialmente o Rei português é contra este movimento, mas secretamente o apoia e financia.

A guerra foi se prolongando e ficando sem perspectivas de fim fácil. Somente em 1644, mesmo ano da saída de Nassau do governo, os portugueses conseguem reconquistar o Maranhão.

No ano seguinte, eclodiria a primeira grande insurreição, que foi poucos dias antes denunciada por uma carta anônima ao governo holandês. Apesar disso, os portugueses conseguem reconquistar Alagoas e Sergipe, fundando o Arraial Novo de Bom Jesus, em homenagem ao primeiro foco de resistência destruído anos antes.

Com o desenrolar dos combates, os holandeses passam a ficar cada vez mais na defensiva, centralizando seus esforços em Recife, Ilha de Itamaracá, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Fernando de Noronha.

É neste movimento que aparecem as famosas batalhas dos Guararapes, marcos da guerra de reconquista, ocorridas em 19 de abril de 1648 e em 19 de fevereiro de 1649. As intenções portuguesas eram de fechar uma passagem para o Arraial Novo de Bom Jesus e para o Cabo de Santo Agostinho. Nestes importantes confrontos, lutaram 4500 holandeses contra somente 2200 portugueses.

Apesar da enorme desvantagem quantitativa do lado português, na primeira batalha morreram 500 holandeses, tendo os outros fugidos para Recife.

No ano seguinte, ocorre o segundo embate, 3510 homens e 6 canhões holandeses enfrentam 2600 motivados portugueses. Mais uma vez a vitória é arrasadora para o lado lusitano, que exterminou a vida de 1000 flamengos.

Diante de tais perdas, a WIC se torna cada vez mais fraca, estando já praticamente falida. Passam assim a uma tática suicida politicamente, cobrando desesperadamente os empréstimos feitos aos senhores de engenho que irritados passam a apoiar mais ainda a causa portuguesa.
As batalhas continuarão até 23 de janeiro de 1654, quando os holandeses cercados e reunidos no forte das Cinco Pontas se rendem finalmente às tropas portuguesas com a garantia de que poderão voltar a salvo para a metrópole.

Os judeus, que tanto ajudaram aos holandeses, abandonaram Recife e se dirigiram a outras colônias holandesas, como o Suriname, a Jamaica, Nova Amsterdã (atual Nova York), além da própria Holanda.

Um tratado de paz, porém, seria assinado somente sete anos depois em Haia após por duas vezes a armada holandesa ter surgido no Rio Tejo em Portugal para forçar este país a indenizar os flamengos pela tomada de seus territórios na América do Sul. Fica acertado que os holandeses desistiriam oficialmente destas terras ao serem indenizados em 4 milhões de cruzados, restituição de sua artilharia e favorecimentos comerciais. Foram realizados pagamento em parcelas anuais de 250.000, tendo o Brasil contribuído ao final com 1.920.000.

Políticas Urbanas

Os holandeses propriamente ditos estiveram durante toda a ocupação (24 anos) encurralados em uma pequena faixa de terra que acompanhava o litoral e onde ficavam as suas cidades. A política colonizadora holandesa baseou-se nas cidades, diferentemente da política basicamente agrária portuguesa.

Isto acabou gerando diversos problemas de abastecimento e de vivência nas cidades, onde por diversos momentos houve longos períodos de fome e epidemias. Outro grande problema era o habitacional, afinal havia pouco espaço em Recife e as políticas habitacionais na Ilha de Antônio Vaz não surtiram efeito até a criação de uma ponte juntando-a ao núcleo urbano do Recife. O problema habitacional atingia grandes camadas da população, a cidade do Recife foi tomada por sobrados de dois ou três andares, cortiços, quartos coletivos para os funcionários da WIC. Foram realizados também aterros em mangues para ampliação da área habitável. Com estes problemas, os aluguéis atingiam preços exorbitantes na cidade.

Já Olinda, antiga capital portuguesa e centro político da região, foi primeiramente utilizada pelos invasores. No entanto, devido a sua difícil defesa, logo foi abandonada e incendiada. Depois disso, os portugueses passaram a reconstrui-la e utilizá-la como centro de resistência. Porém, logo esta reconstrução foi coibida por Nassau, que queria a ocupação da Ilha de Antônio Vaz.

O governante planejou e incentivou a ocupação da chamada Cidade Maurícia, totalmente planejada nos moldes holandeses. Pretendia-se com sua construção aliviar a lotação habitacional que havia no Recife. Em Maurícia, havia um melhor sistema de higiene e saneamento público, com o impedimento da livre circulação de animais e luta pela limpeza das vias públicas, por exemplo.

A construção civil foi largamente introduzida e incentivada pelo governo holandês. Construiu-se, além da Cidade Maurícia, mercados, fortalezas, diques e pontes, entre outros. Estes marcos influenciaram em muito a visão que se têm até hoje do governo holandês no Brasil: um poder formado por grandes construtores de benfeitorias públicas. O método de construção holandês era diferente do adotado pelos portugueses. Como exemplo a este argumento, pode-se citar a configuração das casas com a utilização de tijolos ou madeira ao modo nórdico.

A Câmara dos Escabinos era uma entidade responsável pelo controle “civil” da vida urbana. Nela estavam cinco holandeses e quatro “dos da terra”, eleitos por um eleitorado selecionado. Os colonos que para cá viam muitas vezes eram pobres demais para empregar negócios, e assim necessitavam sempre de empréstimos por parte de particulares ou da WIC, o que acabou gerando extremo endividamento da população. Mello Neto descreve a vida social e moral na colônia holandesa como negra em muitos momentos, o que assustava os protestantes calvinistas, principalmente com relação às prostitutas.

Políticas Agrárias

A ocupação do Brasil, apesar do seu teor urbano-burguês, se deu principalmente para a exploração e comércio das plantações de cana-de-açúcar. Os holandeses tentaram de início se tornar senhores de engenho, porém, sem o devido conhecimento da cultura, acabaram com o tempo cedendo seu lugar aos antigos senhores portugueses. Muitos destes holandeses que pretenderam se tornar senhores eram altos funcionários da WIC, que além de não realizarem suas tarefas também não eram senhores em tempo integral. Assim, não eram nem uma coisa nem a outra. Outro tipo de comércio que também chamou a atenção dos holandeses foi o de pau-brasil, que logo se tornou monopólio da WIC.

Os portugueses e os brasileiros já detinham o conhecimento para o cultivo da cana, passando assim a dominar a agricultura e por consequência a economia, enquanto os holandeses dominavam a política. Mas a economia açucareira do governo invasor foi dificultada, além das pestes, secas e enchentes, pelos incêndios e saques patrocinados e promovidos pelo governo baiano de origem portuguesa.

A política de Nassau para combater a fome criou diversos atritos do governo com os senhores, já que se exigiu a plantação de mandioca para consumo local, e os senhores, que não aceitavam a imposição muitas vezes passavam por vexames em suas próprias terras obrigados pelas forças holandesas a iniciar o novo cultivo. Estes fatos foram decisivos para a decisão dos senhores de iniciarem uma rebelião em 1645, criada e sustentada pela elite agrária de origem portuguesa.

A revolta chefiada pelos senhores conseguiu apoio dos governos inglês e francês, além dos portugueses baianos e, secretamente, do governo português pós-restauração de 1640. Confiando nos acordos com os portugueses, os holandeses diminuíram o potencial defensivo do Brasil.

O Nordeste brasileiro durante o período nunca foi autossuficiente em alimentos, apesar das tentativas governamentais de incentivo à plantação de mandioca e de utilização de Alagoas como centro produtor de gêneros alimentícios de primeira necessidade e de gado.

A Questão Religiosa

Os holandeses nunca afirmaram abertamente ser conta os portugueses, mas somente contra os católicos. Apenas escondia-se a perseguição, pois a religião predominante dos portugueses era a católica. Os holandeses sabiam do poder das ordens religiosas, e assim as expulsaram, principalmente a Jesuíta. Apesar disso, Nassau permitiu nas cidades a realização de missas “a portas fechadas”. Entretanto, no interior, com o enorme poder dos portugueses senhores de engenho, a política religiosa era menos restritiva.

A colonização após a invasão não se deu somente com a vinda de holandeses. Era incentivada a vinda de populações principalmente protestantes, como ingleses, franceses e escoceses. Mesmo assim, a vinda de judeus para a região foi grande também. É interessante observar como houve uma espécie de “migração” entre religiões devido aos casamentos. Protestantes, católicos e judeus casavam-se entre si e muitas vezes um dos elementos do casal mudou de religião apenas para acompanhar o outro.

Os Judeus

A comunidade judaica no Recife foi muito grande e poderosa, fortemente ligada aos judeus de Amsterdã. Depois de certo tempo, os judeus passaram a dominar grande parte da economia burguesa devido ao fato de se expressarem em ambos os idiomas e fazer empréstimos e compras à vista de escravos e venda a prazo.

A cultura judaica na América teve início no Recife holandês, com a vinda de diversos líderes religiosos e culturais. Apesar da perseguição dos protestantes, que apenas continuaram com a perseguição portuguesa, os judeus tinham aqui mais liberdade religiosa do que na desfrutada na Europa, e até chegaram a abrir uma sinagoga – a primeira de toda a América. É interessante observar a rivalidade que foi criada entre judeus holandeses, askhenazim e os judeus ibéricos, sefardins.

Após determinado tempo, começou um movimento antissemita no Recife, cujos motivos eram o poder econômico e a facilidade para a aclimatação dos judeus, diferente dos holandeses.

Os Europeus de Outras Nacionalidades

Nunca houve uma total harmonia entre portugueses e holandeses. As relações sempre foram baseadas na desconfiança. Logo o governo percebeu que o principal poder dos portugueses estava nos seus senhores de engenho, e então tratou de retirar o poder destes com a Câmara dos Escabinos e com vexames em suas terras, transferindo o poder à classe média urbana.

As outras nacionalidades que vieram para o Pernambuco Holandês foram todas protestantes – ingleses, franceses e escoceses. Entretanto, durante a guerra de reconquista de 1645-1654 grande parte destes europeus não holandeses passaram para as frentes portuguesas.

Os Índios

Uma das bases da política colonizadora holandesa foi as alianças com os índios, que eram contra os portugueses devido à escravidão indígena. Assim, estas tribos se tornaram guardas das fronteiras do território holandês, ao norte, sul e oeste. Além disso, tais índios também foram informantes das riquezas minerais e da geografia da região dominada.

Antes mesmo da invasão, a Companhia das Índias Orientais definiu que todo índio em terras conquistadas teria direito à liberdade. Porém, chegou a haver uma breve escravização, nas áreas mais distantes, de índios “inimigos”. Isto logo acabou, pois gerou desconfiança nos índios aliados. Por outro lado, apesar de livres, os índios eram extremamente explorados, maltratados e mal pagos.

Os líderes protestantes tentaram durante longos períodos a catequização dos índios aliados. Buscou-se a o estabelecimento de seminários para o ensino da moral protestante, primeiro em holandês e depois em português, mas a idéia não deu certo: os índios se rebelaram em 1643 contra a tomada de suas crianças. Mesmo com o fim dos seminários e depois da saída dos holandeses, padres católicos portugueses afirmaram terem encontrado tribos de costumes protestantes.

É interessante observar que apesar de aliados, os índios do Rio Grande do Norte, os tapuias, eram também temidos pelos holandeses, devido à sua “selvageria e violência”. Um forte traço da ideologia holandesa com relação aos índios foi que, apesar de aliados, as relações conjugais entre brancos e índios sempre foram combatidas e repelidas.

Os Negros

No início, a política holandesa foi de combater a escravidão por motivos ideológicos, mas assim que percebeu a vantagem econômica desta passou a adotá-la inclusive de forma monopolista, por parte da WIC. Os negros eram extremamente necessários ao método de produção criado pelos portugueses e seguido pelos holandeses. Seu tráfico ao longo dos mares não tinha muitas diferenças. Inicialmente, as condições dentro dos navios negreiros holandeses eram piores do que as condições nos navios portugueses.

Somente depois é que melhoraram esse quadro, permitindo até melhores lucros com menor mortalidade. A preferência era pelos negros angolanos, “melhor adaptados ao trabalho escravo”. Para alimentar o crescente mercado consumidor na América, a Holanda conquistou grandes territórios na África para a obtenção de escravos.

Apesar disso, o tratamento dado aos escravos era melhor do que o oferecido pelos portugueses, inclusive formando-se amizades entre holandeses e negros, posteriormente alforriados. Durante a guerra de conquista de 1630-1635, os negros dos engenhos e das lavouras fugiram e se refugiaram em quilombos principalmente na região de Palmares. Estes foram constantemente combatidos pelos holandeses, porém conquistaram muita força nesta região.

Diferente do que ocorria com relação aos índios, os pastores protestantes não demonstraram grande interesse com relação à evangelização dos negros, o que inclusive foi apontado como alguns como motivo das derrotas nas guerras de 1645-1654. Afirmava-se que Deus estaria os punindo por abdicarem do ensino aos negros.

Conclusão

A ocupação holandesa do Nordeste Brasileiro é vista como um passado que não deveria ter sido encerrado pela reconquista de 1645-1654, pois a política holandesa teria formado um Brasil mais forte economicamente e, desde o seu início, urbano. Esta visão é superficial: para negá-la, bastaria observar-se o desenvolvimento das colônias holandesas nas Antilhas, por exemplo, que atualmente estão tanto no Terceiro Mundo quanto o Brasil.

Em contrapartida, a política holandesa restringia muito mais as possibilidades econômicas do Nordeste do que a portuguesa, bem como limitava o plano social, com a crise entre brancos e judeus, negros e índios. Assim, durante os 24 anos de dominação foi criado uma grande segregação religiosa-racial.

No entanto, não devemos deixar de lado os pontos positivos da política holandesa, e principalmente do Conde Maurício de Nassau. Com sua base urbana, trabalhou para impedir o poder dos senhores de engenho e das oligarquias agrárias, incentivando assim a transformação da sociedade pernambucana de agrária para urbana. Além disso, foram muitos os esforços em melhorias para a população local, que viu em Nassau um governante que os ajudou com suas políticas de combate à fome e à monocultura e de higiene e saneamento básico.

A comunidade judaica na América até os nossos dias cita orgulhosa os tempos de colônia em Pernambuco, onde desfrutava de liberdade religiosa impensável na época para os padrões europeus e católicos.

Se podemos falar de algum erro do governo holandês, que acabou por gerar a

revolta e perda de Pernambuco, foi de não ter incentivado mais os holandeses a acessar a terra. Deste modo, os portugueses, apesar de dominados, tinham a economia em suas mãos, autêntica base do projeto econômico da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.

Criou-se um mito com relação ao governo de Nassau para a população do Recife e região, algo como um herói nacional. Ignora-se o fato de Nassau ser um governante a mandos da mercantilista, ou capitalista, Companhia das Índias Orientais. Suas políticas muitas vezes foram feitas para impedir uma guerra civil e a instabilidade social na colônia. O incentivo à colonização da Ilha de Antônio Vaz se deu principalmente após a superlotação da cidade do Recife, e Nassau, vivendo na colônia, podia muito melhor do que o Conselho dos XIX perceber que, se não fosse ampliada a área habitável da colônia, em breve uma insurreição nasceria.

O alemão Maurício de Nassau representava somente uma tendência, que ia inclusive contra o pensamento de grande parte dos comandantes da WIC, que tinham um pensamento muito mais semelhante ao português, buscando uma exploração interligada com o sistema colonial. Foi inclusive esta diferença que proporcionou a saída prematura de Nassau do governo colonial holandês no Brasil.

Obviamente, Nassau também fora um incentivador da cultura e gastou muitas vezes dinheiro próprio para criar locais onde havia um incentivo à cultura e à ciência, como foi o caso do jardim botânico e do zoológico, por exemplo. Gastou do seu próprio bolso para finalizar a obra da ponte juntando o Recife à Cidade Maurícia, mas, mais uma vez, devemos observar que este fato se deu também para incentivar a cidade por ele planejada e para conter a lotação habitacional que estava tornando insustentável o modo de vida e a própria urbanização do Recife.

A colonização holandesa foi, portanto, urbana e burguesa, diferindo assim da instalada pelos portugueses, extremamente agrária. Não podemos afirmar se uma ou a outra seria melhor para o futuro desenvolvimento do país, pois só podemos observar o produto de uma delas e é superficial ao fazer paralelismos com o desenvolvimento de colônias holandesas em outros locais. O máximo que podemos afirmar é que, de 1630 a 1654, parte do Brasil viveu sobre outro sistema social que foi combatido e derrotado por problema internos dele próprio e pela classe social dominante do sistema econômico-social que havia sido desmantelado.

Dúvidas permanecem em aberto, principalmente porque a pesquisa que realizei não foi muito extensa. Apenas busquei levantar os principais pontos sobre a permanência dos holandeses no Brasil e discutir um pouco a criação do mito de Maurício de Nassau e seu governo em Pernambuco com o que tinha à disposição nas bibliotecas da USP. Espero mais tarde poder retomar esta pesquisa e aprofundá-la muito mais.

Bibliografia

FAUSTO, Boris: “História do Brasil”. EdUSP, São Paulo, 1995.

HOLANDA, Sérgio Buarque de: “O domínio holandês na Bahia e no Nordeste” in História geral da civilização brasileira, 1º vol., livro 4, Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1960.

MELLO NETO, José Antonio Golsalves de: Tempo dos flamengos: influência da ocupação holandesa na vida e na cultura do Norte do Brasil. José Olympio, São Paulo, 1947.

PUNTONI, Pedro: Guerras do Brasil (1504-1654). Brasiliense, São Paulo, 1992, Coleção tudo é história nº 141.

VILLALTA, Luis: “O que se fala e o que se lê: língua, instrução e leitura” in MELLO E SOUZA, Laura de (org.): História da vida privada no Brasil, vol. 1. Cia. das Letras, São Paulo, 1997.

Dicionário de História do Brasil. Melhoramentos, São Paulo, 1976.

A MÃO FORTE DA INQUISIÇÃO EM TERRAS POTIGUARES

Rostand Medeiros e Mozart Xavier

Os termos “Inquisição” ou “Tribunal do Santo Ofício” são palavras que até hoje nos lembram duma época de iniquidade, terror e medo. Onde a Igreja Católica extrapolou em todos os aspectos possíveis, a sua atuação como propagadora da fé e carrega até hoje esta nódoa negra na sua secular história institucional.

Com uma atuação muito forte na Europa, a Inquisição não deixou de tocar as terras do Brasil durante o nosso período colonial e a pequena Natal, na incipiente Capitania do Rio Grande, foi visitada pelos homens que doutrinavam através do terror.

Pesquisas realizadas apontam que os inquisidores encontraram nestas terras banhadas de sol, casos de eclesiásticos envolvidos em práticas proibidas a eles pela Santa Sé e observaram o comportamento dos moradores desta pequena e irrelevante capitania.

O Padre que fez Propostas Indecorosas a Sete Mulheres em Natal

O antropólogo baiano Luiz Mott, ao realizar uma pesquisa nos arquivos da Torre do Tombo, em Portugal, encontrou inúmeras denúncias remetidas ao Santo Ofício a partir do Brasil, algumas destas se referiam à Capitania do Rio Grande, atual estado do Rio Grande do Norte.

Em um artigo intitulado “A inquisição e o Rio Grande do Norte”, o antropólogo mostra que Natal, além de ser o principal núcleo populacional da Capitania, era o local onde habitavam o maior número de pessoas de cor branca, fazendo com que a pequena urbe fosse uma parada obrigatória para os religiosos da Santa Inquisição.

Para desgosto destes rígidos homens da doutrinação da fé católica, uma das primeiras ocorrências averiguadas na Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, Matriz da capital do Rio Grande, tinha como acusado um religioso, o Padre Manuel Cardoso Andrade onde ele teria sido denunciado por ter feito propostas indecorosas a sete mulheres e 1750.

Uma das mulheres, Maria José de Barros, afirmou que o referido sacerdote ordenou que a mesma que fosse buscar o seu atestado de confissão quaresmal na casa do acusado. A denunciante afirma que o religioso, já se encontrando em sua residência, teria prometido fornecer quantos atestados à denunciante desejasse, desde que tivesse com ele o número de cópulas equivalentes em número de atestados.

O mesmo padre foi acusado de ter possuído algumas escravas, dentre elas a crioula Rita, que afirmou ter tido contato carnal com o acusado duas vezes. Pesou sobre o padre a acusação do mesmo ter feito “cantadas” a três mulheres: Joana Mulata, Ana Maria Crioula e Lucrécia, esta última de nação Angola.

Apesar da preferência do religioso por mulheres negras, o mesmo foi igualmente denunciado pela tentativa de persuadir mulheres brancas. Entre estas está o relato de Teodósia Maria, esposa de certo Capitão Dias, que acusou o Padre Cardoso de ter feito “propostas indecorosas” no momento da confissão.

Como as atitudes do Padre Cardoso contra as mulheres, brancas ou não, provavelmente eram de conhecimento da população da pequena urbe, não é difícil deduzir a repercussão que ocorreu quando o mesmo foi denunciado por ter apertado um dos dedos, provavelmente com intenções lascivas, da jovem Josefa, filha do então Capitão Albuquerque Maranhão, descendente do primeiro comandante da Fortaleza dos Reis Magos. Como a moça em questão pertencia a uma família muito influente e poderosa, o acusado se viu diante das garras da Inquisição.

Contudo, o Padre Manuel Cardoso Andrade não fora condenado, pois falecera em 1762, antes das investigações do Santo Ofício ser concluídas.

Os Padres que Atacavam na Hora da Confissão

Outro religioso envolvido com os convites para as práticas de torpezas foi o Frei Inácio de Jesus, um Carmelita reformado, da Província de Pernambuco e morador na Freguesia d e São João Baptista do Assú.

Denunciado em 1752 por Isabel Pereira, mulher casada, onde afirmou ter o acusado aproveitando-se da pouca iluminação da igreja e ter feito nela uma pulsão (masturbação) na denunciante, que assombrada e com medo silenciou diante da agressão sexual.

Neste caso encontramos um agravante, no dia seguinte ao ato o Frei Inácio concedeu a confissão a Isabel Pereira e ainda lhe deu a comunhão.

Apesar da denúncia, o Santo Ofício arquivou o processo, mesmo com a confirmação do agravante.

Outro caso foi o que envolveu padre José Inácio de Oliveira, então residente da Freguesia de São João Baptista do Apody, localizada já nos limites do Ceará.

Pesa em sua acusação o fato de ter tido atos pecaminosos com todas as mulheres que vinham para fazer a confissão.

Contra o “Corpo Fechado” 

A maioria das denúncias contra eclesiásticos está restrita ao âmbito sexual, entretanto essas práticas não se limitavam apenas a este campo.

Houve uma denúncia pela utilização de representações ou símbolos proibidos pela igreja; no ano de 1765, na Freguesia de Nossa senhora do Carmo de Inhamus, no Ceará, um cidadão chamado Pedro Álvares Correia foi acusado de portar em uma pequena bolsa que trazia no pescoço “patuás de mandingas”. Esta bolsa foi doada, segundo o acusado, pelo Padre André Sapúlveda, da Freguesia do Apodi.

A denúncia teria partido de outro religioso, o Padre José de Freitas Serrão que chegou a afirmar o motivo do uso destas peças era utilizado para proteger as pessoas que estavam constantemente adentrando o sertão, que neste período era uma área muito violenta e os apetrechos eram utilizados para “fechar o

corpo” contra tiros e facadas.

Roupas Indecorosas em Portalegre

Outras denúncias apontam problemas de comportamento dos religiosos e dos seus fiéis.

Em um artigo escrito em 2004, o historiador Francisco Firmino Sales Neto, mostra em seu artigo “Pelos ásperos caminhos do deserto: Um estudo das Visitas Episcopais a Capitania do Rio Grande”, que em 1779 o visitador Joaquim Monteiro da Rocha fez severas críticas ao comportamento dos religiosos que respondiam pela Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação.

Desejava o inquisidor que fosse alterado o comportamento dos homens que propagavam a fé católica na pequena Natal, servindo de exemplo para o resto da população. Em suas lamuriosas críticas o visitador comenta “É digno de chorar-se com lágrimas de sangue a pouca reverência, com que se assiste nos templo, e a santa missa, conversando, e tratando matérias profanas, como que estivessem na praça. (…) E os sacerdotes são os primeiros que se profanam a santidade do lugar sagrado, conversando, tratando com menos reverência às coisas sagradas, e provocando aos mesmos seculares, a quem deviam dar bom exemplo”.

Nesta mesma época, no atual município serrano de Portalegre, no Oeste do Estado, os membros do Santo Ofício apontaram desvios de seus habitantes brancos e negros.

Estes encontraram mulheres da pequena vila, que não se vestiam da forma considerada correta. O Bispo Dom José Fialho repreendia essas mulheres vestidas de “invenções diabólicas” a se absterem “dos tais vestidos somente usando trajes que mostrem composição e respeito”. O Bispo ameaçava afirmando que “se assim não estão trajadas, usaremos dos meios que nos parecer necessário para evitar as demais lascívias das composições e também advertimos aos senhores de escravos não consintam que estas andem despidas como vulgarmente costumam mais sim cobertas com aquele ornato que seja bastante para encobrirem as provocações da sensualidade”.

Até o culto a São Gonçalo, santo muito popular no Brasil colonial tinha na Freguesia de São João Batista da Vila de Portalegre uma versão deturpada, causando indignação no reverendo visitador, ao que diz: “É abominável a falta de religião que se observa em alguns dos fregueses desta freguesia, e muito de se estranhar a indiscrença devoção que com, o pretexto frívolo de piedade, costumam festejar o Senhor São Gonçalo em suas casas, admitindo nelas pessoas de um, e outro, sexo, formando danças sem advertirem que semelhantes congressos não podem resultar serviço a Deus e culto ao glorioso santo”.

Contra o Consumo de Jurema em Arês

Já em Arês, que em 1760 possuía uma população de 949 almas, foi possível identificar um cotidiano religioso bem diverso do encontrado na capital.

A preocupação dos visitadores que estiveram na Freguesia de São João Batista da Vila Nova de Arês era com o comportamento indígena, “porque sendo os índios naturalmente descuidados”, como colocou em documento o visitador, “deve o pároco aplicar maior desvelo em doutriná-los”.

Neste documento o visitador dá fortes indicações para que o vigário local repreenda a prática do ritual indígena, conhecida por “Jurema”, ao que diz: “considerando que estes pobres índios, e neófitos necessitam de dobrado cuidado, e vigilância no pároco, para conservá-los na observância dos dogmas, ritos católicos, e apartá-los de algumas devoções filhas de sua brutal e gentílica natureza a que são propensos, e inclinados no que muito lhe encarregamos a consciência de seu pároco principalmente para que não pratiquem a sua célebre, e antiga bebida chamada jurema que constantemente bebem em lugares retirados, por ser bebida forte ficam embriagados, e alienados do juízo, e fingem visões indignas de católicos, cujos erros se devem extinguir quanto couber nas forças de um diligente pároco”.

As Possíveis Causas

Dentre algumas explicações para se entender essas transgressões, podemos apontar a distância que havia das regiões mais importantes e, portanto, mais populosas da colônia com as áreas mais distantes. A consequência disso foi à falta de fiscalização por parte da igreja, no que se refere à punição de clérigos que de algum modo transgrediram contra os seus princípios enquanto lideres espirituais.

No caso de uma região pouco habitada e muito afastada dos centros populacionais, como o sertão, o mecanismo de denúncias funcionava assim: qualquer indivíduo podia entrar com uma denúncia a um religioso, que enviava o relato dos fatos em caráter de urgência ao “Comissário” mais próximo, que despachava uma carta secreta para Lisboa na primeira caravela que estivesse de regresso à Europa. Acredita-se que existia uma rede de espiões que tentavam cobrir toda a colônia, que convenhamos era uma tarefa muito difícil.

Outro fator que pode ser levado em consideração para se compreender a ousadia destes “Homens de Deus”, se refere ao prestígio que esses religiosos tinham conseguido junto aos contingentes populacionais.

Mesmo que a grande maioria deles não tivesse um conhecimento teológico apurado, gozavam de certo cabedal, uma vez que a sua palavra era legitimada pela população, considerada por esta como a do próprio Deus. O Padre, uma vez aceito como representante do criador, tinha todo o direito de interferir na vida dos habitantes dos locais em que estavam.

Podemos somar a esse fator outra questão; a falta de conhecimento que as pessoas tinham da teologia católica, principalmente as mulheres. Estas não possuíam praticamente nenhuma instrução e quando a tinham se limitava ao âmbito das práticas domésticas. Essa falta de conhecimento as tornava “presas” fáceis para os padres mais audaciosos, que aproveitando o cair da noite, utilizavam a penumbra dos lampiões das igrejas para persuadir as moças e as senhoras a praticarem com eles os mais libidinosos desvios da conduta cristã.

Esse tipo de crime era conhecido como Solicitação e a sua denúncia ficava registrada no Caderno dos Solicitantes. O termo canônico para este pecado era “solicitatio ad turpia”.

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O ESQUECIDO FILME DE GLAUBER ROCHA SOBRE LAMPIÃO

Autor – Rostand Medeiros

Na década de 1950 do século passado, quando a televisão ainda não possuía a atual massificação, a verdadeira “janela para o mundo” que os brasileiros vislumbravam naquela época estava nas salas dos cinemas. Além dos açucarados musicais de Hollywood, a plateia nacional assistia as produções das empresas cinematográficas brasileiras Vera Cruz (São Paulo) e Atlântida (Rio de Janeiro).

Apesar de algumas tentativas de se trabalhar com temas brasileiros mais sérios, principalmente a Companhia Atlântida parte para as comédias de costume, de forte apelo popular, conhecidas como Chanchadas, que utilizava como atores figuras conhecidas dos programas de rádio.

Nesta mesma época aportava nas salas de cinemas das grandes cidades brasileiras, filmes da corrente artística do Neorrealismo desenvolvido na Itália. Totalmente diferentes dos musicais americanos e das Chanchadas da Atlântida, os filmes do Neorrealismo italiano buscavam representar de forma objetiva a realidade social e econômica daquele país europeu no período do pós-guerra. Havia nestas películas um forte comprometimento político, onde muitas vezes os temas representavam pessoas menos favorecidas, vivendo em ambientes onde predominava uma grande injustiça social, sem perspectivas futuras e muitas frustações na busca por dias melhores.

Para muitos dos novos diretores de cinema no Brasil, esta forma desenvolvida pelos cineastas italianos mostrou novas perspectivas de seguir adiante com sua arte. Realizando um cinema que mostrasse a realidade do verdadeiro Brasil, com mais substância e desenvolvido a baixo custo.

Tem início uma nova etapa na história do cinema brasileiro, que ficará conhecido como Cinema Novo. Não havia mais espaço para películas suntuosas e nenhum espaço para os devaneios das Chanchadas. Filmes como Rio 40 graus, e Rio, Zona Norte, ambos de Nelson Pereira dos Santos, mostrando a dura realidade das favelas cariocas, estouram com sucesso no cenário nacional.

O Cineasta de Vitória da Conquista

Em meio a estas mudanças um jovem baiano de Vitória da Conquista, chamado Glauber de Andrade Rocha, vem fazer parte deste novo movimento do cinema tupiniquim. Conhecido pela frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, é indiscutível a importância deste cineasta dentro do movimento do Cinema Novo, principalmente no tocante a sua genialidade.

Glauber Rocha

Na filmografia de Glauber Rocha, duas de suas principais obras tinham contextos ligados a temática do cangaço e foram consagrados pela crítica internacional. Estou falando das películas Deus e o diabo na terra do sol (1964) e Dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969).

Mas como pessoa que assistiu a estes clássicos e outras obras de Glauber Rocha, estranhava o fato deste cineasta não ter trabalhado através de sua arte a figura maior deste movimento de banditismo, o famoso Virgulino Ferreira da Silva. Nunca compreendi o fato deste diretor não haver retratado aspectos da vida de Lampião, coisa que poderia ter realizado através de um documentário.

Recentemente, quando realizava uma pesquisa sobre os cinemas potiguares da década de 1970 nos velhos jornais existentes na hemeroteca do nosso Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, me deparei com uma interessante notícia afirmando que Glauber Rocha teria dado início a um projeto que visava filmar a vida de Lampião.

A Conquista do Sertão Por Lampião

Na página 4, da edição de sexta feira, dia 24 de novembro de 1972, no extinto jornal “A República”, encontro a manchete que apresento na fotografia abaixo. Este material, uma reprodução da revista portuguesa “Vida Mundial”, iniciava afirmando que Lampião, “que já havia sido tema de vários filmes nacionais”, iria novamente invadir as telas com seus “cabras, seus tiros e suas artimanhas” e a direção seria de Glauber Rocha.

Aos jornalistas Glauber comentou que desejava dar ao “seu” Lampião uma visão “mais original”. Afirmou aos jornalistas portugueses que em “um ou dois anos” a película estaria pronta e já tinha até mesmo um título; A Conquista do Sertão Por Lampião.

Para Glauber havia uma dificuldade em conhecer, em decifrar, a figura de Lampião. Comentou que ainda não tinha feito o filme, pois “-Não conheço muito bem o caráter de Lampião; li muitos livros sobre ele, mas é um personagem controvertido, e ainda não tenho nenhuma ideia sobre ele, e também não quero criar uma visão romântica”.

Glauber sentia a mesma dificuldade que muitas pessoas têm ao tentar compreender a figura de Virgulino Ferreira da Silva, quando leem livros sobre a sua vida.

Revista portuguesa Vida Mundial

Outra dificuldade para a realização da obra naquele momento era saber quem seria o ator que iria representar Lampião. Disse que tinha dificuldades em eleger este ator, pois não conseguia concluir pelas fotos existentes nos livros, se Virgulino “era baixo ou alto”.

Mas o diretor baiano tinha a ideia clara da linguagem cinematográfica a ser utilizada nas filmagens sobre a vida de Lampião. Para Glauber “-Quanto ao problema da linguagem, penso sempre ao nível do plano e nunca ao nível do argumento. Não parto do roteiro para fazer os meus filmes, mas, sim, dos personagens. Se não consigo resolver uma personagem em função de um plano, corto o personagem e não repito o plano. Isto não é uma posição estética, mas cinematográfica, porque, para mim, o cinema é o próprio estilo”.

Com Faulkner na Mão, os Atores, a Vontade e Muito Amor pelo Nordeste

Para a reportagem de “Vida Mundial”, reproduzida pelo jornal potiguar, o diretor de cinema brasileiro revelou seu forte entusiasmo pelo escritor americano William Faulkner (1897 – 1962). Afirmou que na hora das filmagens estava sempre a mão com um exemplar de O Som e a Fúria, Absalão! Absalão!, Os Invencidos, Luz em Agosto e outros. O fato de Glauber ter estes clássicos do escritor americano era uma fonte de inspiração, pois para ele havia o desejo de filmar como se “-Estivesse escrevendo uma novela, um monólogo direto, no estilo de Faulkner”. Glauber declarou que este era o escritor que mais admirava.

Para as filmagens de A Conquista do Sertão Por Lampião, Glauber afirmou que teria uma atitude liberal para com os atores, deixando a improvisação seguir a vontade. Tinha até uma palavra de ordem para aqueles que iria dirigir; “-Inventa teu próprio personagem”, contanto que desse tudo certo, senão ele como diretor faria algum tipo de intervenção. Mas afirmou que quando tudo corria bem no desenvolvimento do filme, “-Deixo os atores improvisarem com liberdade”.

Glauber comentou na reportagem seu orgulho pelas raízes nordestinas e do entusiasmo de ser “-Natural desta região e estou muito ligado a ela”.

Mostrando como as filmagens e as repercussões de Deus e o diabo na terra do sol e Dragão da maldade contra o santo guerreiro tiveram em sua importante carreira, finalizou a entrevista comentando que desejava fazer “-Unicamente filmes de cangaceiros”. Mas completou dizendo “-Embora não queira, porque pode parecer uma repetição”.

Neste último trimestre de 1972 o cineasta baiano estava oficialmente exilado em Cuba, onde permaneceu até dezembro daquele ano. Segundo a biografia de Glauber, existente no site da Fundação Tempo Glauber (http://www.tempoglauber.com.br), durante o ano de 1972, ele conclui junto com Marcos Medeiros o filme História do Brasil.

Nesta época manteve encontros com exilados e lideranças da esquerda brasileira como Vladimir Palmeira, José Dirceu, Fernando Gabeira, Miguel Arraes e outros. Neste período ele viajou com destino a Roma e Paris para comprar cerca de dois mil livros para a realização de pesquisas. Creio que foi nesta ocasião em que circulou pela Europa, que ele concedeu a entrevista para a revista portuguesa “Vida Mundial”, edição de 28 de outubro de 1972, reproduzida nas páginas do jornal natalense.

O Que Foi Feito de A Conquista do Sertão Por Lampião

Quem pesquisar a filmografia de Glauber Rocha não vai encontrar nada referente a película A Conquista do Sertão Por Lampião, pois Glauber não a realizou.

Para o Professor Mauricio Cardoso, do Departamento de História da USP-Universidade de São Paulo, autor do artigo “Glauber Rocha e a tentação do exílio (1972-1976)”, publicado no livro L’exil brésilien en France-Histoire et imaginaire – O exílio dos brasileiros na França-História e imaginário (SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos; ROLLAND, Denis-Organizadores, Paris, Editora L´Harmattan, 2008, pp. 327-339), de todos os diretores do Cinema Novo, Glauber foi efetivamente o mais ativo e reconhecido no exterior.

Em 1969, no Festival de Cannes, o filme O Dragão da maldade contra o santo guerreiro recebeu o prêmio de melhor direção e foi a consagração do cineasta baiano na Europa.

Com o sucesso dos seus filmes Glauber circulava pelos grandes festivais de cinema, dava entrevistas em revistas especializadas, sendo elogiado por consagrados mestres europeus como o italiano Roberto Rossellini, o espanhol Luis Buñuel e o francês Jean-Luc Godard.

Entre 1969 e 1970, através dos muitos contatos internacionais conseguidos, o cineasta baiano roteirizou e dirigiu Der leone have sept cabeças e Cabezas cortadas. O Professor Cardoso aponta que estes filmes sofreram fortes críticas da mídia especializada e dos produtores europeus.

Aparentemente houve uma decepção pelos rumos da obra do cineasta, ocasionando um desinteresse pelo seu trabalho. Glauber, de maior diretor de cinema do Terceiro Mundo, deixou quase que repentinamente de ser assunto de debate cinematográfico.

Cardoso afirma que após estes episódios, Glauber não conseguia novos financiamentos para os seus projetos, apesar do seu esforço ininterrupto para emplacar inúmeros trabalhos. As dificuldades em realizar seus projetos, o crescente desinteresse da crítica européia pelos seus filmes realizados no exterior provocou uma espécie de asfixia econômica e social do cineasta.

O projeto A Conquista do Sertão Por Lampião seria uma retomada dos filmes com cenários no Nordeste do Brasil, agora tendo como personagem principal a figura do famoso Lampião. Já a reportagem para a revista portuguesa “Vida Mundial” poderia ser uma mensagem para os produtores europeus, informando que o diretor Glauber Rocha voltava suas energias para filmar novamente na mesma área que o consagrou, mas agora tendo como personagem principal o mais representativo chefe do movimento cangaceiro.

Mas não deu certo.

O Que se Perdeu

No arquivo da Fundação Tempo Glauber, entidade criada pela família Rocha para manter seu acervo de 22 filmes e quase 80 mil documentos produzidas por este genial diretor, existem documentos que incontestavelmente apontam que Glauber Rocha tinha o desejo de realizar um trabalho envolvendo a vida de Virgulino Ferreira da Silva.

Com sede na Rua Sorocaba, nº 190, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, a Fundação Tempo Glauber possui 223 roteiros de filmes e projetos de livros, a maioria dos quais inéditos, onde se encontram anotações com a distribuição de atores para o projeto de um filme intitulado “LAMPIÃO”. Afora isso existe dossiers de projetos futuros, onde surgem novamente títulos como “LAMPIÃO”, “O CANGACEIRO LAMPIÃO” e “O PRÍNCIPE DO INFERNO”.

Talvez uma pesquisa mais apurada neste acervo possa apontar o que se perdeu pelo fato de não ter ocorrido esta filmagem e que ajudariam a ter uma ideia de como Glauber Rocha pensava Lampião e o cangaço.

Certamente seria algo marcante.

Reunir em uma película cinematográfica a controversa história da figura maior do cangaço, tendo como diretor o vulcão criativo que era Glauber Rocha, que iria desenvolver esta obra como se “-Estivesse escrevendo uma novela, um monólogo direto, no estilo de Faulkner” e dando a grandes atores da dramaturgia brasileira da época a total liberdade de criar seus personagens como eles quisessem.

Em 1981, em Portugal, Glauber recebeu a visita do conterrâneo Jorge Amado. Fonte-jorgeamadoespecial.blogspot.com

Em agosto de 1981, Glauber Rocha é internado em Portugal com complicações pulmonares. Em estado de extrema gravidade é trazido de volta ao Brasil na noite do dia 20, sem acompanhamento médico. Chega ao Rio de Janeiro no dia 21 e recebe soro ainda na enfermaria do Aeroporto do Galeão. Depois é levado para a Clínica Bambina, em Botafogo, onde falece às 4 horas da manhã do dia 22 de agosto.

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A PUBLICIDADE NOS JORNAIS DE NATAL A 100 ANOS

COMO ERA A PROPAGANDA NOS NOSSOS ANTIGOS JORNAIS 

Autor – Rostand Medeiros

Recentemente fiz uma pesquisa sobre os 100 anos da Liga de Ensino do Rio Grande do Norte para o Dr. Carlos de Miranda Gomes. Este grande advogado, é amigo do meu pai e da nossa família, a quem tenho muito apreço.

Para realizar este prazeroso trabalho me debrucei sobre jornais natalenses do mês de junho de 1911, exatamente há 100 anos passados. Enquanto buscava os dados da criação da Liga de Ensino, fui me deliciando com as velhas propagandas de uma cidade que tinha cerca de 25.000 mil habitantes, de poucos bairros, cheia de problemas ligados a saúde, mas de vida tranquila, onde o povo ainda andava no lombo de animais e haviam vários jornais para dar conta de tudo.

Uma olhadinha nestas propagandas ajuda a entender o que era um pouco desta Natal perdida no tempo.

Quando comento que a população da Natal de 1911 tinha inúmeros problemas com a saúde, é porque grande parte das propagandas dos jornais “A Republica” e “Diário do Natal” é sobre medicamentos e farmácias. Dos estabelecimentos que atendiam as mazelas da saúde da nossa gente escolhi duas boticas. Uma que mostra a do competente farmacêutico Joaquim Torres (acima) e outra da Farmácia Popular (abaixo).

Já as propagandas dos remédios têm para escolher a vontade. Estes anúncios apontam as virtudes dos produtos que curavam as verminoses, as coceiras e principalmente a tuberculose, a AIDS de 1911.  Muitos destes medicamentos vinham de fora, principalmente do Rio de Janeiro e Recife. Mas havia a “prata da casa”, como o “Antiasthmatico Torres”, produzido na botica do Sr. Joaquim Torres (abaixo).

Tinha espaço dedicado a remédios que chegaram as prateleiras das atuais farmácias (melhor, das “Drugstore”), como o Bromil.

Realmente a saúde na pequena Natal não era brincadeira. Não podemos esquecer os remédios que melhoravam e davam jeito em quase tudo; de resfriado a espinhela caída, todo tipo de verme, passando pela sífilis, gonorréia e muito mais. Vejam aqui alguns destes.

Mas está bom de remédios, boticas, boticários e doenças. Vamos a quem passava as receitas.

Percebi poucos, muito poucos anúncios de médicos enaltecendo suas especialidades. Ou eles eram realmente poucos, ou a saúde pública funcionava (Duvido), ou a concorrência das rezadeiras e raizeiros ainda era grande.

É bem verdade que havia poucos médicos e além do mais estes atendiam a quem pagava (afora quando algum deles era uma alma caridosa). Para os mais pobres o jeito era ir para as rezadeiras e o pessoal que trabalhava com plantas medicinais, que ainda resistem cem anos depois no populoso bairro do Alecrim.

Deixando as questões sociais da época de lado, vamos ao único anúncio de um “Dotô” que encontrei em junho de 1911 e o interessante é que este era um oftalmologista. Certamente seus serviços eram importantes porque se lia muito mais livros e jornais em 1911 do que agora. Sei que tô chutando, mas pode até ser.

Encontrei um anúncio com dois odontólogos e com uma propaganda bem interessante sobre um anestésico (abaixo).

Uma ocasião, conversando com uma idosa e muito lúcida senhora, da mais fina elite política da nossa terrinha, no alto dos seus bem vividos 95 anos, me comentou que uma amiga sua, lá pelos idos da década de 1930, comemorou muito quando arrancou o último dente e podia então usar a sua “chapa” sem problemas.

Os odontólogos da época, com seus poucos recursos, normalmente só tinham a horrível tenaz de arrancar molares e caninos, para passar a dor de dente dos natalenses.

Detalhe; creio que não era todo mundo que tinha gaita suficiente para pagar o tal anestésico vindo da Europa. Para a maioria das pessoas da Natal de 1911, arrancar dente era no cru, na força bruta, com o sangue espirrando para todo lado. Valha-me minha nossa Senhora!

Para estragar os dentes tinha de ter comida. Nesta época pré-supermercados, Shopping Centers e McDonald’s, a grande maioria dos natalenses comparavam mesmo era nas feiras livres. A do Alecrim já existia e, se não me engano, havia uma no Passo da Pátria.

Evidentemente que feira livre não precisava de anúncio em jornal. Mas encontrei o de uma “Mercearia”, na rua Frei Miguelinho, número 42, na Ribeira. Interessante era que o proprietário misturava comida com tinta e ferragens (abaixo). Numa época pré disseminação de geladeiras e congeladores, essa mistura não era, por assim dizer, a ideal. Apesar que até hoje eu acho que ainda existem locais por aí que misturam de tudo no mesmo ambiente.

Mas havia casas comerciais de exportação para o mercado estrangeiro, de produtos típicos de nossa região, conforme podemos ver no anúncio da empresa do pernambucano de descendência holandesa Julius von Sohsten, que tinha fortes ligações com o Rio Grande do Norte.

Julius von Sohsten era igualmente representante de empresas de transporte marítimo. Inclussive em nosso blog eu já fiz um artigo sobre uma empresa holandesa que ele representava (ver https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/03/17/khl-ir-de-natal-para-a-europa-em-alto-estilo/).

Mas voltando para 1911, quando se tinha a informação que um navio atracaria em nosso complicado porto cheio de pedras na entrada, com destino ao exterior, o representante da mítica empresa “Lloyd Brasileiro” sapecava com antecedência um anúncio nos jornais , para que os exportadores se preparassem para mandar de tudo para os gringos. Veja abaixo um destes anúncios que, pelo menos nesta época, não eram muito comuns.

Já que comentamos sobre transporte marítimo, a mais importante forma de locomoção para longe da terra potiguar naquelas priscas eras, era através dos vapores de cargas e passageiros. Estes eram os anúncios mais visados e importantes nos nossos jornais. Pois era a hora de saber quando partir e de quem estava chegando.

Vejam abaixo um anúncio da então poderosa Lloyd Brasileiro, para chegadas e saídas de vapores do porto de Natal.

O navio era para ir para bem longe. Para quem ia para o interior, para o nosso sertão, o jeito ou era o trem, ou em lombo de animais.

Do transporte ferroviário trago duas informações sobre as principais empresas que atendiam o Rio Grande do Norte, a Estrada de Ferro Central e a The Great Western Railway Company Limited. Naquele junho de 1911, as empresas estavam tratando de situações relativas a desapropriação de terras e o cancelamento de horários de trens pela baixa quantidade de material a ser transportado. Detalhe; o destino ferroviário denominado “Independência” é a atual cidade paraibana de Guarabira.

 Como comentei anteriormente, um dos principais meios de transporte na época eram as alimárias.  Todos sabem que cavalo, burro e jumento não são iguais as motos CG-125 (Que substituiu a todos no sertão), onde é só colocar gasolina no tanque, dar no pedal e rodar. Tinham de botar comida, marcar e colocar remédios quando o animal ficava doente. Vejam o anúncio abaixo de uma loja de produtos veterinários de Recife, sendo divulgada na Natal de 1911.

Para andar em um cavalo alazão de porte, o condutor tinha de estar a altura, então a vestimenta era fundamental. E nesta época de poucas roupas no armário, que passavam do irmão mais velho para o mais novo, onde muitas eram feitas para as “quatro festas do ano”, as casas de vender tecidos tinham importância fundamental em nossa sociedade. Vejam esta que era instalada no bairro da Ribeira.

Se as lojas de tecidos tinham importância, os alfaiates então eram dos profissionais mais requisitados e respeitados na cidade. Como os da “Alfaiataria Fenix”, no centro da cidade.

Ninguém poderia sair de roupa nova pela antiga Natal, em cima de um cavalo ou burro e depois ficar com cheiro de curral. Isso valia tanto para homens como para mulheres (Sim, elas andavam no lombo de animais). Para isso a “Casa Londres” tinha como resolver este problema.

Esta loja vendia na Ribeira, toda uma gama de perfumes para homens e mulheres. Elas podiam dispor de produtos da afamada empresa “Coty” (Vejam no final do anúncio da casa comercial de Julius von Sohsten) e de outros tipos de perfumes, conforme vemos abaixo.

Para passear de cavalo era bom dar uma olhadinha na previsão do tempo, que diariamente saia no jornais. Havia na cidade uma estação meteorológica bem equipada. Vejam dois exemplos, que mostram em dias alternados, o tempo em junho de 1911…

Se dava para sair na rua, não é de hoje que as pessoas que podem gostam de ostentar relógios e joias.

O anúncio abaixo é de um “caixeiro viajante”, que aqui esteve em junho de 1911, vendendo todo tipo de joias, ouro e outras coisas cintilantes. É bem verdade que naquele tempo dava para circular pela cidade com pingentes, correntes e braceletes sem medo de ser roubado.

Como este comerciante ambulante chegou a nossa cidade eu não sei, mas certamente ele deve ter procurado algum dos locais de hospedagem existentes na Natal de junho de 1911. Vejam abaixo o que o afamado Hotel Internacional oferecia em termos de alimentação, bebidas e outros mimos vindos do exterior.

Mas vai que o cidadão, apesar de vender ouro, não quisesse gastar muito dinheiro, então o jeito era ir para a Pensão de seu João Santos.

E se ele estivesse pensando em vender seus brilhantes e reluzentes produtos em Macau, o negócio era ir para o estabelecimento de Dona Innocencia Cacho, que anunciava seus serviços no principal jornal de Natal.

Para acalmar a mente, a ideia comum na época era fumar. Para isso havia a fábrica de cigarros “Vigilante”, que provavelmente devido ao seu alto teor de nicotina, deixava o fumante “ligado”.

Não vi muitos anúncios sobre temas políticos, ao menos no mês de junho. Mas encontrei um anúncio da Liga Operária, mostrando que os trabalhadores potiguares a muito se organizavam.

Em uma época onde a saúde era precária, onde poucas mulheres trabalhavam, onde o tempo médio de vida das pessoas era de maneira geral era mais baixo, onde as incertezas eram muitas e a previdência pública ainda era um sonho (E ainda é!), havia o medo do desamparo financeiro com a morte de um chefe de família. Isso se reflete em muitos anúncios de empresas que negociavam “pensões vitalícias”, ou seja, aposentadoria. Todas as que vi eram de outros estados, principalmente do Rio de Janeiro e de São Paulo.

E, logicamente, como a coisa mais certa que temos depois de nascermos, as pessoas em junho de 1911 morriam. Vejam um anúncio da época.

Este artigo, mais visual que escrito, é uma maneira simples e direta de se conhecer através das propagandas dos jornais, um pouco da realidade da cidade do Natal a 100 anos atrás. Ele não mostra todos os aspectos da realidade da nossa cidade naquela época e nem era esta a minha intenção. Mas mostra o quanto de diferenças existem em relação ao nosso tempo.

Destas diferenças, a mais significativa em minha opinião, foi ter encontrado poucos anúncios de serviços advocatícios.

Será que éramos mais evoluídos e não sabíamos?

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COM OSWALDO LAMARTINE

UM VERDADEIRO INTELECTUAL

No segundo semestre de 2006 entrei em contato com Oswaldo Lamartine através de Dona Antonieta, dedicada funcionária do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Buscava uma entrevista sobre a figura do cangaceiro Chico Pereira e os fatos envolvendo o assalto na Fazenda Rajada, em fevereiro de 1927, que atingiram minha família, principalmente meu bisavô, Joaquim Paulino de Medeiros.

Sinceramente, não imaginava que passaria da porta do Potengi Flat, onde ele vivia. Mas deu-se exatamente o contrário. Seu Oswaldo me recebeu muito bem, me tratou da melhor forma, não colocou nenhum empecilho para a realização da entrevista e assim ocorreu.

Homem alto, magro, “lazarino” como diz o sertanejo, me deu a oportunidade de estar com ele em duas ocasiões, especificamente em duas manhãs. Da varanda de seu apartamento, comtemplando à distância o Rio Potengi, ele tranquilamente deitado em sua rede e eu ali perguntando, fascinado com aquela figura.

Ele reclamava da velhice, trazia a fisionomia triste pela ausência de saúde e reclamava de sua situação. Em relação a isso comentou que havia feito uma cirurgia no cérebro que o deixou com limitações em relação à forma de receber alimentos e a sua fala. Em certo momento de nosso diálogo, sua secretária trouxe sua alimentação, que ele teve de tomar através de uma sonda. Um tanto constrangido pediu-me desculpas por aquela situação. Da minha parte lhe disse que tudo bem, era assim mesmo, de modo algum me sentia incomodado.

Se sua voz estava agora rouca e pausada devido a operação, sua memória e a lucidez de seu pensamento, pelo menos para quem o conheceu naquele momento e naquela situação, me pareceram maravilhosos e pudemos conversar muito sobre o caso que me motivou a lhe procurar. Em relação a situação do assalto da Fazenda Rajada pelo bando de Chico Pereira ele foi muito franco. Até mesmo assuntos que considerava delicados, envolvendo seu pai Juvenal Lamartine, ele não se negou a conversar e debater. Foi fantástico.

Ouvindo as fitas K7, mídia antiga, mas boa e confiável, me emociono com o nosso papo. Falamos muito sobre o cangaço, de queijo de manteiga, de queijo de coalho, de onças, do açude Gargalheiras, de aviação do passado, de Jean Mermoz, de André Depecker, de Manoel Dantas, Cascudo, etc.

Quando ele soube que eu já havia adentrado cavernas no Sertão Central e na região de Apodi e Felipe Guerra, a princípio me pareceu  que Seu Oswaldo não acreditou. Mas depois de lhe mostrar algumas fotos destes locais, sua fisionomia se tornou alegre e ouvi uma frase que jamais esquecerei; “-Quem quer saber sobre o sertão, tem de ir lá”. Falou depois que não acreditava em quem fazia trabalhos sobre o sertão estando confortavelmente instalado em uma sala com um ar-condicionado, sem realizar nenhuma viagem de campo, sem manter contato com as realidades daquele lugar, que parecia lhe trazer muitas saudades.

Me espantei com seu Oswaldo, um verdadeiro intelectual. Pois em Natal, cidade onde não faltam “intelectuais”, daqueles que andam de queixo e nariz empinado, escrevem apenas por vaidades bestas, que só se preocupam em receber medalhas, títulos, que arrotam baboseiras, se danam a falar besteiras e que muitas vezes só produzem obras medíocres e não sabem de nada da essência do que escrevem.

Conversar sobre o passado do nosso sertão com uma pessoa como Oswaldo Lamartine, poder ter sido tão bem recebido e dele ter tido o privilégio de beber de sua fonte é algo que me marcou bastante.

Pouco tempo depois ele partiu.

Para quem não conhece, Oswaldo Lamartine de Faria nasceu no dia 15 de novembro de 1919, em Natal, mas as raízes familiares eram da cidade seridoense de Serra Negra do Norte. Formou-se técnico em Minas Gerais. Administrou fazendas no interior em vários estados. Foi técnico do Banco do Nordeste, professor da Escola Doméstica e do Colégio Agrícola de Jundiaí.

Entre suas obras estão: Notas sobre a pescaria de açudes no Seridó (1950), A caça nos sertões do Seridó (1961), Algumas abelhas dos sertões do Seridó (1964), Conservação de alimentos nos sertões do Seridó (1965), Vocabulário do criatório norte-rio-grandense (1966), Ferro de Ribeiras do Rio Grande do Norte (1984), Pseudônimos e iniciais potiguares (1985), Apontamento sobre a faca de Ponta( 1988), Em Alpendres da Acauã (2001) e Notas de Carregação (2001).

É leitura obrigatória para quem quiser saber mais deste nosso sertão.

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O NAUFRÁGIO DO SÃO LUIZ

NO RIO GRANDE DO NORTE ESTÁ UM DOS MELHORES LOCAIS

PARA MERGULHOS EM NAUFRÁGIOS DO BRASIL

Autor – Rostand Medeiros

Recentemente um dos mais importantes e emblemáticos naufrágios ocorridos na costa potiguar completou 100 anos. Acredito que vale a pena conhecer esta história pois o assunto é praticamente desconhecido fora do círculo de pessoas que praticam mergulho, caça submarina ou tem o privilégio de viverem nas praias de Rio do Fogo, Zumbi, Pititinga e Maracajaú.

O cargueiro São Luiz – Fonte http://www.naufragiosdobrasil.com.br

Na noite de 11 de janeiro de 1911, uma quarta feira, o cargueiro São Luiz, pertencente à Companhia Comércio de Navegação, com uma tripulação de 43 homens, tendo Luís Germano de Andrade como seu comandante, bateu em algo que não estava marcado nas cartas de navegação e começou a ter os porões alagados.

Em nota publicada no jornal “A Republica” do dia 13 de setembro, a tripulação tentou levar a grande nave de 378 metros de comprimento em direção ao litoral, mas a quantidade de água que entrava apontou para o comandante Germano de Andrade que deveria dar a ordem de “abandonar o navio” e assim foi feito.

No ponto amarelo a localização aproximada do local do afundamento do São Luiz. Localização através da tese de mestrado de José Garcia Junior. Fonte – Google Earth

Todos os tripulantes embarcaram em escaleres de salvamento, armaram as velas e a pequena flotilha seguiu para o porto de Natal, por mais de 30 milhas náuticas em direção sul, aonde chegaram depois das cinco da tarde e de navegarem por mais de quinze horas.

Nota de “A Republica”

Na mesma nota publicada no jornal “A Republica”, o comandante Germano de Andrade afirmou que o São Luiz bateu em um “corpo até agora desconhecido dos navegantes” e ele teve de prestar esclarecimentos ao dirigente da Capitania dos Portos em Natal, o capitão tenente Hormidos M. de Albuquerque.

Uma Costa Difícil

Segundo o jornal o “Diário de Natal” a notícia do afundamento do São Luiz rapidamente se espalhou pela capital potiguar, que então tinha uma população de pouco menos de 30.000 habitantes. Consta que várias pessoas seguiram para o cais do porto na intenção de saber detalhes do sinistro, saber o nome correto do navio e ajudar de alguma forma. Esta atenção dispensada por parte da população local se devia a importância que o tráfego marítimo tinha nesta época, pois os navios de transporte de passageiros e de carga eram a principal forma de ligação da população potiguar com outras partes do país e de escoamento das mercadorias aqui produzidas.

Como saiu a notícia no “Diário de Pernambuco”

Um acidente como o ocorrido com o navio São Luís, o maior cargueiro brasileiro da época, era motivo de extrema preocupação por parte da elite política e empresarial local. O porto de Natal já era conhecido como um local problemático para ser adentrado, com um histórico de encalhes e batidas de navios em pedras existentes na sua entrada.

A própria Marinha do Brasil tinha consciência desta situação. No relatório que o vice-almirante Alexandrino de Alencar apresentou ao presidente Nilo Peçanha em abril de 1910, na sua página 54 apontava a necessidade da Capitania dos Portos de Natal possuir um rebocador para “a fiscalização de 160 milhas de costa e prestação de socorros por ocasião de sinistros que são frequentes”. Inclusive o relatório afirma que neste mesmo ano o paquete inglês Italian Princes havia encalhado na área sob a jurisdição desta Capitania.

O São Luiz repousado no fundo do mar. Foto – Ary Amarante Fonte – http://www.aryamarante.com.br/

Se para as empresas de navegação já era complicado entrar no principal porto da costa potiguar, a notícia que o maior cargueiro brasileiro afundou devido a um “corpo até agora desconhecido dos navegantes” não ajudava em nada ao Rio Grande do Norte.

Local Não Marcado

Realmente, ao analisarmos o livro “Roteiro da Costa do Brasil – Do Rio Mossoró ao Rio S. Francisco do Norte”, escrito  em 1864 pelo geógrafo e militar Manuel Antônio Vital de Oliveira, em suas páginas 25 a 34, onde o autor descreve a costa entre a Ponta do Calcanhar ao Cabo São Roque, não existe nenhuma referência a alguma concentração de rochas na área onde afundou o São Luiz.

Evidentemente que o livro de Vital de Oliveira foi escrito 47 anos antes do afundamento, mas não encontrei outras referências que indicassem que este obstáculo a navegação fosse conhecido em 1911.

Âncora do São Luiz Foto – Ary Amarante Fonte – http://www.aryamarante.com.br/

Mas a pedra onde o São Luiz bateu já era conhecida e denominada pelos pescadores da região como Risca do Zumbi. Já para a Marinha do Brasil esta situação era impraticável.

A perda do maior cargueiro a navegar com a bandeira brasileira fez com que a Força Naval enviasse do Rio de Janeiro para a costa potiguar o cruzador torpedeiro Tamoyo, da classe Tupy. Em maio de 1911 o navio de guerra de 86 metros de comprimento e com 10 canhões de vários calibres, estava na Risca do Zumbi realizando medições para colocar aquela desconhecida rocha nos mapas navais e ela deixar de ser uma informação exclusiva dos pescadores da região.

Cruzador torpedeiro Tamoyo Fonte – http://www.naviosbrasileiros.com.br

Foi realizado o trabalho que consistiu de levantamento exato das coordenadas, profundidade, extensão aproximada do obstáculo e outras informações. Foi apurada pela tripulação do cruzador torpedeiro Tamoyo que a latitude seria 5°19′ 22″ S e a longitude – 35°13’00” W. Já a extensão do obstaculo era de uma milha náutica, seu comprimento de 4 milhas e posicionamento de Nordeste a Sudoeste. Foi apontado que estava a 11 milhas de Rio do Fogo e a profundidade na parte mais rasa  foi estimada como sendo de 4 braças. Neste caso uma braça equivale a seis pés (1,82 metros), o comprimento de corda que um homem consegue estender com os dois braços abertos. A corda é jogada ao mar para se calcular a profundidade.

Informação oficial sobre a Risca do Zumbi

Segundo informações obtidas de quem conhece o local, a profundidade varia de 11 a 15 metros, onde normalmente a água é bem transparente e existem fortes correntezas. A Risca é uma espécie de “mesa”, onde na base existem cavernas e passagens subaquáticas. Fotos publicadas na internet apontam ser este local um ponto de interessante beleza.

Segundo a ótima tese de mestrado de José Garcia Junior, “Inventário das espécies de peixes da costa do estado do Rio Grande do Norte e aspectos zoogeográficos da ictiofauna recifal do Oceano Atlântico” (UFRN, 2006), a Risca  do Zumbi está na posição geográfica 5°10′ 24.0” S – 35º 11′ 29.30” W e o local onde repousa os restos do São Luiz está na posição 5°16′ 21.5″ S – 35°09’27.5″ W, o que aponta uma distância aproximada de doze quilômetros em direção sul a partir do ponto de choque. Vale uma comparação das coordenadas antigas conseguidas pelo pessoal do Tamoyo e as novas coordenadas conseguidas certamente com GPS.

O São Luiz Ontem e Hoje

A história do navio de carga e passageiros São Luiz tem início em uma quarta feira, 13 de setembro de 1882, no estaleiro da empresa D & W Henderson Ltd, da cidade escocesa de Glasgow, quando ele tocou as águas do Rio Clyde e foi batizado como S. S. Nubia.

Outra vista da parte frontal do São Luiz. O peixe no detalhe é um Frade, também conhecido em nossa região como Enxada. Seu nome científico é Pomacanthus paru. Foto – Ary Amarante Fonte – http://www.aryamarante.com.br/

A nave então pertencia a empresa de navegação Anchor Line’s e iniciou viagens para a Índia, mais precisamente para o porto de Bombaim. Depois de 24 anos de trabalho na Europa, foi vendido para a Companhia Comércio de Navegação, empresa de transporte marítimo com sede no Rio de Janeiro e batizado São Luiz. O navio desenvolvia 14 nós de velocidade, tinha uma largura de 40 metros e um calado de 29 metros.

Interior do navio Foto – Ary Amarante Fonte – http://www.aryamarante.com.br/

O São Luiz está localizado em um ponto entre as praias de Zumbi e Rio do Fogo, esta região por sua vez fica a cerca de 70 quilômetros de distância de Natal por estradas asfaltadas. Segundo as pessoas que conhecem o local, a profundidade onde o São Luiz está varia de 20 a 29 metros, sendo este um dos mais belos naufrágios do Brasil.

Como podemos ver nas belas fotos de Ary Amarante, a proa (parte frontal) ainda está parcialmente inteira e encontra-se adernada a bombordo (lado esquerdo do navio). Pelas belas fotos podemos ver que é possível adentrar o seu interior e percorrer alguma extensão do casco.

Maquinário do São Luiz Foto – Ary Amarante Fonte – http://www.aryamarante.com.br/

As fotos mostram que a visibilidade da água é fantástica, certamente com mais de 30 metros.

Atualmente, segundo o que soube através de nativos da bela praia de Rio do Fogo, o mergulho nos destroços do São Luiz está totalmente proibido, inclusive para mergulhadores profissionais e empresas ligadas ao turismo de mergulho. Aguarda-se que o IDEMA, órgão do governo estadual potiguar, normatize as atividades na área. O problema é que enquanto isso não acontece, devido a falta de fiscalização, mergulhos clandestinos e depredações vão acontecendo no centenário navio naufragado.

A Dona do Navio e Sua Ligação com o Rio Grande do Norte

A proprietária do navio São Luiz era a Companhia de Comércio e Navegação. Fundada em 23 de setembro de 1905, era classificada como Empresa de Sal e Navegação, onde possuía um inventário respeitável de navios de cabotagem, grandes armazéns e também negociava com sal.

Propaganda da Companhia Comércio e Navegação em 1911

Sua frota possuía naves com nomes intrinsecamente ligados ao Rio Grande do Norte, como os navios Assu, Natal , Mossoró e Pirangy. A explicação para a adoção destes nomes tão potiguares foi que durante a criação da Companhia de Comércio e Navegação, o patrimônio de quatro empresas compôs o capital da nova companhia. Entre estas estava a Empresa de Sal e Navegação, que além de cinco vapores, participou na composição com importantes e vastas propriedades para a exploração da indústria salineira e imóveis situados em Macau e Mossoró. Uma destas salinas era chamada “Julião” e ficava na área territorial de Macau.

– GOSTARIA DE AGRADECER AO MERGULHADOR, INSTRUTOR E FOTÓGRAFO ARY AMARANTE  PELA CESSÃO DAS BELAS FOTOS QUE ILUSTRAM ESTE ARTIGO.

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A BATALHA DO CASARÃO DOS PATOS

Um episódio da (quase) esquecida Guerra de Princesa, na Paraíba

Autor – Rostand Medeiros

Ao longo da história da região Nordeste do Brasil, não faltam ocorrências que perpetuam a valentia de alguns e a covardia de muitos. Onde muitas histórias são regadas a sangue, com muitos tiros, correrias e tropelias.

Em toda a região os relatos sobre estes fatos são continuamente passados as novas gerações, muitas vezes através da tradição oral, do folheto de cordel, sendo depois documentados em livros, servindo então de temas para teses acadêmicas, que contestam ou corroboram os fatos. Outras vezes o espectro é ampliado e estas sagas chegam ao teatro, a televisão e ao cinema. Mas a tônica é uma só; estes episódios são sempre conhecidos e repetidos pela região.

Localização de Patos do Irerê e Princesa Isabel no mapa da Paraíba, onde está o casarão

Neste sentido, é de se estranhar que atualmente na região ocorra um acentuado desconhecimento e uma estranha falta de informações sobre o conflito deflagrado no ano de 1930, na região da atual cidade paraibana de Princesa Isabel, próximo à fronteira com Pernambuco e conhecido como a “Guerra ou Sedição de Princesa”.

Um Cruel Momento da História Paraibana

Esta guerra (e não a nenhum exagero de assim chamá-la) foi pródiga de episódios interessantes e cruéis, onde tudo começou através de discórdias políticas e econômicas, envolvendo poderosos coronéis do interior do estado e o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.

Governador João Pessoa

João Pessoa discordava da forma como o grupo político que o elegera conduzia a política paraibana, onde era valorizado o grande latifundiário de terras do interior, possuidores de grandes riquezas baseadas no cultivo do algodão e na pecuária. Estes “coronéis” atuavam através de uma estrutura política arcaica, que se valia entre outras coisas do mandonismo, da utilização de grupo de jagunços armados, da conivência com grupos de cangaceiros e outras ações as quais o novo governador não concordava.

Entre os embates ocorridos, podemos listar uma maior perseguição do governo estadual aos grupos de cangaceiros e a cobrança de taxas de exportação do algodão. Por esta época, os coronéis exportavam o produto principalmente através do principal porto de Pernambuco, em Recife, provocando enormes perdas de divisas tributárias para a Paraíba. Procurando evitar esta sangria financeira e efetivamente cobrar os coronéis, João Pessoa implantou diversos postos de fiscalização nas fronteiras da Paraíba, irritando de tal forma estes caudilhos, que pejorativamente passaram a chamar o governador de “João Cancela”.

O coronel José Pereira

Os embates políticos entre o governador e os coronéis foram crescendo. A maior liderança entre estes poderosos, sem dúvida foi o coronel José Pereira Lima, verdadeiro imperador da região oeste da Paraíba, na área da fronteira com Pernambuco, tendo como base, a cidade de Princesa. Do embate entre estes dois homens resultou em um dos maiores conflitos armados do Brasil Republicano.

Sertão em Armas

A contenda teve início em 28 de fevereiro de 1930, quando ocorreu a invasão da então vila do Teixeira (PB), por parte da polícia paraibana, com o aprisionamento da família Dantas, ligada por profundos laços de parentescos e interesses ao coronel José Pereira.

Apesar de governador João Pessoa não contar com o apoio do Palácio do Catete, onde o titular, Washington Luís, não viabilizou uma efetiva ajuda as forças policiais paraibanas, o mandatário paraibano foi à luta.

José Pereira e seus comandados durante a Guerra de Princesa

Com o apoio discreto, mas efetivo, do Presidente da República e dos governadores de Pernambuco, Estácio de Albuquerque Coimbra, e do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine de Faria, o coronel José Pereira decidiu criar o “Território Livre de Princesa” com absoluta autonomia, separando-se durante o período do conflito do restante do estado da Paraíba.

Princesa se tornou uma fortaleza inexpugnável, resistindo palmo a palmo ao assédio das milícias leais ao governador João Pessoa. O exército particular do coronel José Pereira era estimado em mais de 1.800 combatentes, onde diversos desses lutadores eram egressos das hostes do cangaço e muitos eram desertores da própria polícia paraibana.

No lado do presidente João Pessoa, suas tropas estavam sob o comando do Coronel Comandante da Polícia Militar da Paraíba, Elísio Sobreira, do então Delegado Geral do Estado, Severino Procópio, e do Secretário de Interior e Justiça, José Américo de Almeida. Na tentativa de desbaratar os sediciosos de Princesa, estes comandantes dividiram os efetivos policiais, compostos por cerca de 890 homens, em colunas volantes.

Como a guerra era vista no Rio de Janeiro

No povoado de Olho D’Água, então pertencente ao município de Piancó (PB), estava aquartelado o comando geral de operações da polícia paraibana, que decidiu enviar à Princesa uma de suas colunas volantes, conhecida como “Coluna Oeste”. Esta coluna era comandada pelo Tenente Raimundo Nonato, que tinha entre seus principais comandados o valente sargento Clementino Furtado, mais conhecido como Clementino Quelé, ou “Tamanduá Vermelho” (por ser branco e ficar “avermelhado” quando nervoso).

Clementino Quelé

Quelé era a valentia em pessoa, calejado nas lutas do sertão, podia se vangloriar de possuir no seu “currículo”, mais de vinte combates contra Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Foi a volante de policiais comandadas por Quelé, a primeira a entrar em Mossoró, em 13 de junho de 1927, perseguindo Lampião e seu bando, logo após este ter tentado invadir esta importante cidade potiguar.

Composta de valentes combatentes foi para a “Coluna Oeste”  que o comando designou uma missão especial.

Marcolino Diniz na época da Guerra de Princesa

Em Princesa, entre um dos mais importantes líderes das tropas locais estava o fazendeiro Marçal Florentino Diniz, poderoso e influente agropecuarista da região, que juntamente com seu filho, Marcolino Pereira Diniz, eram parentes e pessoas da inteira confiança do coronel José Pereira. O coronel Marçal Diniz possuía no então distrito de Patos de Princesa, a 18 quilômetros da cidade, uma fazenda localizada no sopé da grande serra do Pau Ferrado, o segundo ponto mais elevado da Paraíba, com cota máxima em torno de 1.120 metros de altitude e foi para esta fazenda que o comando da polícia paraibana ordenou que Clementino Quelé atacasse a casa grande do poderoso coronel.

O Assalto de Quelé

Este episódio é conhecido na região como o “Fogo ou Batalha do Casarão dos Patos”.

A ideia deste ataque visava dividir as forças do coronel José Pereira, que teria de retirar homens da frente de combate de Teixeira, para socorrer os familiares da família Diniz que estavam no casarão, bem como formar com as reféns uma espécie de cordão de isolamento, um escudo humano, que objetivava garantir a segurança dos militares. Pensavam que, agindo assim, nenhum defensor de Princesa ousaria atirar nos combatentes do governo paraibano.

A imprensa oficial potiguar e o próprio governo de Juvenal Lamartine eram contra João Pessoa e a favor de José Pereira

Outra teoria seria a de levar as mulheres como prisioneiras, ou reféns, para a cidade de Paraíba do Norte (atual João Pessoa) e forçar os comandantes de Princesa a alguma espécie de negociação.

No dia do ataque, 22 de março de 1930, Quelé e seus policiais, em número estimado entre sessenta para alguns, e entre setenta a cem homens para outros, seguiram atravessando a zona urbana da pequena vila de Alagoa Nova (atual MANAÍRA-PB) e daí subiram a grande Serra do Pau Ferrado. Ao passarem pela propriedade de Antônio Né, pessoa ligada à família Diniz, no homônimo Sítio Pau Ferrado, assassinaram um cidadão por nome Silvino, depois, desceram a serra.

Dona Xandu, imortalizada pelo grande Luís Gonzaga na música “Xandusinha”

Não havia muitos defensores pertencentes aos grupos do coronel José Pereira, ou de Marcolino Diniz e a força policial de Quelé ocupa o local sem maior oposição. Na casa estavam entre outras pessoas, às mulheres de Marcolino Diniz, Alexandrina Diniz (também conhecida como Dona Xandu, ou Xanduzinha) e a de Luís do Triângulo, Dona Mitonha. Luís do Triângulo era um dos mais valentes e destacados chefes dos combatentes de José Pereira.

Neste interregno, o grupo de combate comandando por Marcolino encontrou um soldado da polícia de nome Zeferino, o qual seguia com uma mensagem do Sargento Quelé ao Delegado Geral do Estado, Severino Procópio, informando da ação contra o casarão.

O Casarão em 2006

José Pereira e Marcolino Diniz recebem a notícia da prisão de seus familiares. Eles tomam esta ação como um acinte, uma falta de respeito e preparam o contra ataque. Ordenam que uma parte de suas tropas que combatiam as forças policiais do governador João Pessoa na região de Tavares, se deslocasse para Patos de Princesa e ordenam que os homens levem farta munição. Outros combatentes conclamam moradores da região para o ataque, enaltecendo a covardia de Quelé, que usava mulheres como escudos. Este chamamento dos líderes de Princesa e de seus homens encontra eco entre membros das comunidades de Princesa e Alagoa Nova e estes decidem seguir com o grupo que vai retomar o “Casarão dos Patos”.

A Batalha Pela Reconquista do Casarão

Na noite do segundo dia após o bem sucedido ataque de Quelé, a situação permanece inalterada. Segundo relatos dos reféns, os soldados, com raras exceções, se portaram de forma vândala e arrogante durante a ocupação.

Na minha última visita a casa já praticamente coberta pelo mato

Enquanto isso os combatentes de Princesa vão discretamente fechando o cerco ao casarão. Aparentemente, por falta de comunicação com seus comandantes, Quelé não abandonou a posição e levou seus prisioneiros. Outros acreditam que ele logo percebeu que estava cercado e esperou o inevitável.

O certo é que na manhã do terceiro dia de ocupação, o céu se apresentava nublado, os defensores do casarão estavam tranquilos, apesar da tensão existente na região. Alguns esperavam o café, outros até jogavam uma improvisada partida de futebol (possivelmente com uma bola de meia), no pátio defronte a casa. É quando o primeiro tiro é detonado em um soldado que vinha do Sítio Pedra e trazia um carneiro para abate, aí tem início um inferno no “Casarão dos Patos”.

A polícia estava cercada na casa, se defendendo como podia, o sargento Quelé vai animando seus policiais em meio a uma intensa troca de tiros e insultos entre as forças combatentes.

Lateral do casarão, mostrando a construção maciça

Marcolino Diniz, à frente dos seus homens, está com o “cão no couro”, comandando, disparando e mandando buscar cachaça nas bodegas da pequena vila de Patos de Princesa para “esquentar” seus “cabras”. Esta cachaça era trazida em sacos, distribuída francamente entre seus combatentes. Até hoje se comenta na região como os distribuidores da bebida terminaram os combates totalmente embriagados e sem dispararem um só tiro.

O tiroteio é cerrado. Colocar a cabeça muito exposta nas janelas do casarão é motivo para que algum policial se torne um alvo fácil. Já os homens de Diniz continuam disparando sem cessar. Eles estão espalhados em todo o perímetro, protegidos por árvores, pedras, pelos muros e paredes das poucas casas vizinhas.

O combate prolongou-se até às dezesseis horas do mesmo dia, quando a polícia praticamente estava sem munição e seus disparos tornam-se esparsos. É quando os homens de Marcolino, aproveitando uma forte chuva que desabava e a existência de um canavial nas imediações do casarão, partem para o assalto final.

Sótão do casarão. Neste local, segundo os moradores da região, vários soldados paraibanos foram mortos. Até algum tempo atrás ainda haviam marcas de sangue nas paredes

Durante a invasão é travado um forte combate corpo a corpo em cada uma das dependências da casa. Gritos, pancadas, socos, pontapés, dentadas, tiros, facadas e sons de lutas ocupam o ambiente. Os homens de Quelé procuram à fuga, mas estando o casarão cercado, muitos são abatidos impiedosamente pelos combatentes de Marcolino.

Alguns policiais fugiam feridos ou não, pelo mesmo canavial que serviu de abrigo para os atacantes e de lá seguiam para a serra do Pau Ferrado. Nesta fuga, muitos combatentes se cruzavam, às vezes cara a cara, dentro do canavial e tiros ou facadas eram desferidas a curta distância.

O mato é tanto, que só derrubando algumas plantas para entrar no local

Marcolino, atiçado pela bebida e já dentro do casarão, prometia aos gritos “vou sangrar todo mundo, até Xandu” que no seu entendimento de valentão do sertão, com um pensamento extremamente machista, imaginava que a sua mulher já havia sido estuprada e aí só “sangrando para limpar o corpo”. Mas Xandu e as outras mulheres estavam bem e foram preservadas por Quelé e seus homens. Todas estavam em um quarto, acompanhadas de um soldado ferido na perna, que conseguira desarmar uma bomba (ou granada?), que o sargento Quelé colocara no recinto. O soldado salvou a vida das reféns, sendo igualmente salvo pelas mulheres de ser impiedosamente sangrado por Marcolino e seus “cabras”.

Marcas do passado

Após isto, Marcolino e seus homens seguiram pelos vários recintos do “Casarão dos Patos”, chacinando os policiais que não fugiram. Dos militares que lá dentro se encontravam, não sobrou nenhum vivo, pois até o soldado que havia salvado as mulheres, morreu no mesmo dia, devido aos ferimentos, quando era transportado para a vizinha cidade pernambucana de Triunfo.

Marcas Sangrentas

Segundo relatos dos moradores da região, havia até recentemente, em alguns quartos da casa, registros de mãos ensanguentadas nas paredes, mostrando a agonia deste dia terrível.

Um esquecido oratório dentro do casarão

Quanto a Quelé, vendo-se acossado pelos homens de Marcolino e escutando o próprio caudilho dos Patos de Princesa gritando dentro do casarão que “queria pegar Clementino e matá-lo sangrado”, pulou do andar superior, juntamente com dois soldados e juntos fugiram em direção ao canavial. Já era noite quando conseguiram chegar à serra do Pau Ferrado, depois seguem para Alagoa Nova e ao encontro das forças de João Pessoa. O restante dos militares que escapou com vida embrenhou-se em território pernambucano.

Uma dispensa aberta na parede, para guardar mantimentos

Das forças de José Pereira e Marcolino Diniz houve apenas uma baixa, um senhor de nome Sinhô Salviano, possivelmente sob efeito da cachaça, desprezou as ordens e ficou sob a mira dos soldados. Para alguns pesquisadores, as forças paraibanas perderam mais da metade do efetivo, mas segundo os relatos que se perpetuam na região, contados por aqueles que participaram do conflito e transmitidos para seus descendentes, foram mortos em torno de cinquenta policiais, sendo seus corpos enterrados em uma vala comum nas proximidades do casarão. Os equipamentos bélicos dos policiais mortos foram recolhidos pelos combatentes de Princesa para reforço de arsenal.

Fato comum; morador da região com um cartucho de fuzil Mauser intacto, encontrado ao arar o terreno próximo ao casarão.

Final da Guerra de Princesa

Houve outros episódios sangrentos e terríveis na Guerra de Princesa, mas após a morte, em Recife, do governador João Pessoa e a consequente eclosão da Revolução de 30, o conflito em Princesa acabou, era o dia 26 de julho de 1930.

O coronel José Pereira Lima organizou a defesa dos seus domínios de forma impressionante, provocando baixas estrondosas à força pública paraibana durante os quatro meses e vinte e oito dias que durou sua resistência.

A partir de um caminhão foi desenvolvido em Campina Grande um veículo blindado para combater os revoltosos de Princesa

Princesa não foi conquistada pela polícia paraibana. Após a eclosão da Revolução de 30, tropas do exército, de forma tranquila, ocuparam a cidade.

O coronel José Pereira e muitos dos que lutaram com ele fugiram da região e a família Diniz se retraiu diante do novo sistema governamental imposto. O tempo dos caudilhos do sertão estava chegando ao fim, pelo menos naquele formato utilizado por José Pereira.

Com o fim da guerra, a fortuna da família Diniz ficou seriamente comprometida. O combate e, principalmente, a ira dos soldados, destruiu tudo. Canaviais, engenhos de rapadura, moendas, casas e outros bens foram alvo da vingança dos fardados, quase nada escapou.

Depois da Guerra

Mesmo com as perseguições sofridas após o fim da guerra, todos os anos Marcolino Diniz e sua gente, comemoravam o aniversário da retomada do casarão com muita festa.

Marcolino Diniz próximo a sua morte

Marcolino sempre foi um homem controverso, valente, prepotente, astuto e sagaz. Era proprietário das fazendas Saco dos Caçulas e Manga, onde diversas vezes Lampião descansava dos combates. Esta polêmica amizade entre Marcolino e Lampião é bem retratada em um episódio; em 30 de dezembro de 1923, Marcolino, juntamente com seu guarda-costas conhecido por “Tocha”, por conta de uma briga, matam o então magistrado da cidade de Triunfo (PE), o Dr. Ulisses Wanderley. Marcolino fica ferido e é feito prisioneiro na cadeia pública local. Seu pai, o coronel Marçal, recorreu aos préstimos do cangaceiro a fim de libertar o filho. Não demora muito e um grupo armado, com um número de homens estimado em torno de 100 a 150 homens, retira tranquilamente o prisioneiro ferido da cadeia.

Igreja de Patos do Irerê, onde está enterrado Marcolino Diniz

Marcolino e a sua adorável Xandu, continuaram unidos até a morte, tendo seu amor sido imortalizado em 1950, por Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, com a música “Xanduzinha”. Marcolino nasceu em 10 de agosto de 1894 e faleceu em Irerê, em 21 de dezembro de 1980, com 86 anos, conforme está inscrito em sua lapide, na igreja deste atraente lugarejo.

Casa de Marcolino e Xandu em Patos do Irerê

Já o sargento Clementino Quelé sobreviveu à Guerra de Princesa e ainda teria fôlego para perseguir, no ano de 1936, o bando do cangaceiro Virgínio Fortunato da Silva. Conhecido como “Moderno”, foi cunhado de Lampião, homem de sua mais alta confiança, que neste ano investiu contra a região conhecida como “Tigre paraibano”, atacando várias fazendas na área próxima a cidade de Monteiro. Quelé, possivelmente pelo analfabetismo, nunca passou da patente de sargento, tendo morrido idoso na cidade paraibana de Prata. Coincidentemente, Quelé também foi lembrado em uma música de Luís Gonzaga intitulada “No Piancó”.

Quem visita atualmente a antiga Patos de Princesa, atual Irerê, município de São José de Princesa, com suas casas antigas e bem preservadas, nem imagina que o carcomido e arruinado casarão existente no fim da rua principal, foi palco de tamanho conflito.

O grande amigo Antônio Antas apontando a área onde o pessoal de Princesa atacou as tropas de Quelé. Uma verdadeira memória viva da região

Mesmo em ruínas, o casarão impressiona pela imponência da sua estrutura, pela grandiosidade da sua construção. Nele existe um andar superior, com dois sótãos independentes, vários quartos e dependências, sendo um exemplo do poder emanado pelos coronéis da região. Em meio ao silêncio atual, se o visitante puxar pela imaginação, é possível ouvir os sons da batalha ali ocorrida no longínquo ano de 1930.

Nota – Especificamente sobre o “Fogo do Casarão dos Patos”, utilizo principalmente as lembranças de várias pessoas que vivem na região de Princesa Isabel, Irerê e Manaíra. Sendo as informações do senhor Antônio Antas Dias, residente na cidade de Manaíra, as narrativas mais utilizadas. Este senhor comentou sobre este momento histórico, em uma entrevista concedida no dia 14 de agosto de 2006. O Sr. Antônio Antas tinha 61 anos na época da entrevista, onde as informações que ele prestou lhe foram transmitidas principalmente por Marcolino Diniz, de quem era parente, pelo guarda costas deste último, Manoel “Ronco Grosso” Lopes, por José Florentino Dias, seu pai, e pelo senhor Sebastião Martins, morador do atual distrito de Irerê.

Igualmente utilizei os trabalhos do amigo e professor de geografia José Romero Araújo Cardoso, lotado na UERN-Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, em Mossoró. Estes artigos são “Marcolino Pereira Diniz e Xanduzinha: Imortalizados através da arte de Luiz “Lua” Gonzaga”, no link –

http://www.turismosertanejo.com.br/?target=artigos&id=69

Outro Trabalho do professor Romero, ao qual utilizei material para a confecção deste artigo, foi uma série de interessantes entrevistas realizadas entre 1989 e 1991, com diversas testemunhas sobre episódios do cangaço e da Guerra de Princesa, que está inserido no link –http://www.marcoslacerdapb.hpg.ig.com.br/romero/cangaco.htm

 – Este artigo já havia sido anteriormente publicado e reproduzido em sites de vários de amigos por este Nordeste afora, que colocam a devida referência em relação ao autor e vários outros sites que nem se preocupam com isso. Mas decidi colocar o meu próprio blog, com novas fotos para quem gosta destas antigas histórias do nosso sertão.

Um detalhe importante. Já faz um tempo que não vou por lá, nem sei se o casarão está mais de pé, mas se tiver, visite enquanto é tempo.

 Um abraço a todos

 Rostand 

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O ATAQUE DE LAMPIÃO A BELMONTE

Autor – Rostand Medeiros

Como já foi bastante comentado, devido as sérias perseguições contra a família de Virgulino Ferreira da Silva, seguido do assassinato do seu pai pela ação desastrosa de um grupo de policiais alagoanos no lugar Matinha de Água Branca, em 9 de junho de 1920, fez com que ele e seus irmãos Antônio e Livino, se transformem definitivamente em cangaceiros.

Lampião

Os irmãos Ferreiras se juntam ao bando conhecido como Porcinos e depois, em agosto de 1920, passaram a servir sob as ordens do chefe cangaceiro Sebastião Pereira, o conhecido Sinhô Pereira. Em meio às ações junto com Sinhô, Virgulino recebe a alcunha de Lampião.

A ligação de amizade entre Sinhô e Lampião vai ocasionar, em outubro de 1922, a morte de um importante comerciante chamado Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz, da cidade de Belmonte (atual São José do Belmonte), no sertão pernambucano. Este caso, um dos mais emblemáticos do período em que parte do Nordeste foi flagelado pela figura do temido cangaceiro Lampião, teve uma grande repercussão.

A cidade de Belmonte, atual São José do Belmonte, no mapa de Pernambuco

Muito já foi comentado sobre este episódio, mas no Arquivo Público do Estado de Pernambuco, nas amareladas páginas dos antigos jornais, foi possível encontrar novas informações.

Uma Interessante Carta

No domingo, 11 de março de 1923, foi publicada no jornal recifense “A Província”, uma grande carta vinda da cidade de Belmonte, cujo autor se intitulou “Um Assignante”. Neste volumoso documento ele narra pormenorizadamente o conflito ocorrido na sua cidade em outubro do ano anterior, que culminou na morte do comerciante Gonzaga.

Sinhô Pereira sobreviveu para contar sua história

Em maio de 1922, segundo o autor da missiva publicada no periódico, se encontrava em Belmonte a volante policial Pernambucana, comandada pelo tenente Cardim. Esta volante estava a caça do grupo de cangaceiros de Sinhô Pereira e tinham informações que estes se encontravam no lugar “Olho D’água”, uma serra próximo a fronteira do Ceará e da Paraíba.

Para alcançar seu objetivo o tenente Cardim solicitou apoio de uma volante da polícia cearense, que teria em torno de sessenta membros, cujo autor da carta não declina o nome do comandante, mas afirma que este era “um antigo cangaceiro”.

Consta que Cardim desejava realizar um cerco contando com o apoio dos cearenses. Mas o comandante desta volante não participou da ação policial e, pior, saiu a praticar toda sorte de atrocidades contra a população, principalmente terríveis surras. Este fato assustou toda a comunidade e alertou o bando de Sinhô Pereira que desapareceu na caatinga. A carta afirmava que Cardim se encontrou com seu colega cearense, dispensou seu apoio, mas antes passou uma ríspida descompostura no seu comandante pela ação dos seus soldados.

Evidentemente insatisfeito com a reprimenda, com a frustrada ação policial no estado vizinho ao Ceará, onde a sua marca principal era a tortura em larga escala na busca de informações, o tenente cearense buscava alguma compensação. Consta que o militar recebeu uma informação sobre um possível coiteiro e parente de Sinhô Pereira e, para não “perder a viagem”,  no caminho de volta para casa fez uma “visitinha” a esta pessoa e sua família. A propriedade era conhecida como Cristóvão, pertencia a Crispim Pereira de Araújo, conhecido como Ioiô Maroto, um homem pacato e que vivia longe de complicações, apesar de ser membro da família de Sinhô Pereira.[1]

Documentação mostrando Crispim Pereira, proprietário das terras denominadas Cristóvão

Segundo comenta a tradição oral da região , e que conseguimos apurar em nossa visita a Belmonte em 2008, o mínimo que posso dizer em relação à visita da volante cearense ao pobre do Ioiô Maroto foi que “o cacete comeu”. Sobrou até para sua já vetusta mulher e suas filhas. Consta que um policial negro, conhecido como “Uberaba”, teria praticado contra as mulheres “toda sorte de misérias e imoralidades, entre a risadaria de todos, inclusive do tenente que achava em tudo muito espirito”.[2]

Depois do ocorrido, segundo a versão publicada no jornal de 1923, consta que Ioiô Maroto soube que o oficial da polícia cearense esteve na cidade de Belmonte, onde se arranchou na casa de seu compadre e amigo, o comerciante Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz. Foi informado ao fazendeiro ultrajado que Gonzaga declinou ao perverso tenente que Ioiô Maroto era parente de Sinhô Pereira.

Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz. Fonte-Blog Lampião Aceso

O autor da carta publicada no jornal, por razões óbvias, não declinou o nome do militar, mas se sabe que ele era o tenente Peregrino de Albuquerque Montenegro.[3]

Versões

Em seu livro “O Canto do Acauã” (2011, pág. 157), a pesquisadora Marilourdes Ferraz dá outra versão para o caso. Ela afirma que o tenente Montenegro recebeu uma carta, onde havia uma denúncia contra Ioiô Maroto, informando ser ele um coiteiro de cangaceiros. Segundo afirma a autora de “O Canto do Acauã”,  a dita carta foi falsamente atribuída ao comerciante de Belmonte. Por saber de qual família vinha Maroto, Gonzaga correu a afirmar ao fazendeiro que não tinha culpa neste caso.

A ilustre visita do Bispo D. AUGUSTO ÁLVARO DA SILVA a paróquia de Belmonte em 1912. Da esquerda para a direita sentados: Frei Lucas, D. Augusto Álvaro da Silva e Padre Sizenando de Sá Barreto. De pé: Coronel José de Carvalho e Sá Moraes, Capitão Tertuliano Donato de Moura, Manoel de Medeiros Filho, Dr. Isídio Moreira,Coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, Dr. Felisberto dos Santos Pereira, Capitão Miguel Lopes Gomes Ferraz, Capitão João Lopes Gomes Ferraz, Major Manoel da Mota e Silva, Tenente Augusto Nunes da Silva e o Major Joaquim Leonel Pires de Alencar. Crianças: Antônio Brandão de Alencar, Luiz Alencar de Carvalho (Luzinho), Otacílio Gomes Ferraz e Napoleão Gomes Ferraz. Fonte – Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.

Já autora de “As Táticas de Guerra dos Cangaceiros”, Maria Christina Russi da Matta Machado (1969, pág. 73), não afirma que Ioiô Maroto e Gonzaga eram amigos e nem compadres, mas que os dois tinham uma desavença antiga. A autora aponta, sem detalhar nada, que o problema entre os dois “foi coisa sem importância” e que Ioiô Maroto não imaginava que Gonzaga aguardasse a oportunidade de “liquidar as contas”, lhe denunciando a volante cearense que lhe desonrou em sua própria casa.

Já João Gomes de Lira, autor de “Memórias de um Soldado de Volante” (1990, págs. 77 e 78) tem outra versão. Segundo este antigo membro de volantes que perseguiu cangaceiros, Ioiô Maroto residia em um lugar chamado “Queimada Grande” e durante a surra aplicada pelos militares cearenses, soube da boca do próprio tenente Montenegro que  foi o comerciante Gonzaga a pessoa que lhe havia denunciado.

Mas é a própria Marilourdes Ferraz que aponta duas ocorrências, que mostram uma possível solução deste pequeno mistério.

A primeira razão teria ocorrido em maio de 1922, quando foi saqueada por Sinhô Pereira e seu bando, composto inclusive de Lampião e seus irmãos, uma carga de tecidos de Gonzaga que era transportada para Rio Branco, atual Arcoverde. Parte da carga foi distribuída entre os bandidos e o resto eles atearam fogo.

Segundo Valdenor Neves Feitosa, neto de Crispim Pereira de Araújo, o Ioiô Maroto, quem está a direita de seu avô é Raimundo Neves Pereira, nascido em 12 de setembro de 1935, em Parambu-CE, conhecido como “Edmundo” e filho de Ioiô. Sentado no seu colo está o seu neto Dario, e à a sua esquerda se encontra a sua filha caçula, Francisca Neves Pereira. Esta foto foi tirada, na década de 40, do século XX, na fazenda Malhada, Município de Parambu, nos sertões dos Inhamuns, Estado do Ceará, próximo a fronteira com o Piauí. Agradeço a Valdenor Neves Feitosa pela informação.

A outra razão seria o fato que, depois desta ocorrência, Gonzaga começou a atender as exigências dos cangaceiros que viviam pela região. O comerciante, para se ver livre desta corja de malfeitores, entregava mercadorias e dinheiro. Entretanto, em uma ocasião em que estava ausente, consta que sua esposa, a Senhora Martina, tratou muito rispidamente o portador da mensagem dos bandoleiros. Diante dos episódios ocorridos, a autora afirma que Gonzaga contratou homens para a sua proteção, de sua família, de seus negócios e de suas propriedades.[4]

A notícia da desatenção da esposa de Gonzaga e do fato dele contratar homens para sua proteção chegou aos chefes dos cangaceiros causando insatisfação. Estes guardavam muito rancor de quem não lhes atendia seus pedidos e de quem tomava estas atitudes de defesa.

Sabendo destes fatos narrados em “O Canto do Acauã” e lendo o teor do material publicado no jornal recifense “A Província”, em 11 de março de 1923, ao cruzarmos as informações, podemos facilmente deduzir que Gonzaga estando com homens armados para lhe proteger e com o comandante da volante cearense arranchado em sua casa, se sentiu seguro para relatar ao tenente Montenegro os problemas que acontecia consigo e a ligação de parentesco entre Ioiô Maroto e Sinhô Pereira.

Jornal do Commercio, 21 de outubro de 1922

Depois do fracasso da atuação de sua volante em Pernambuco, da reprimenda do tenente Cardim, não é difícil imaginar que o tenente Montenegro deduziu que fazer uma visita ao parente de Sinhô Pereira poderia lhe trazer alguma vantagem. [5]

Evidente que isso é apenas uma dedução e nada impede que a triste sina de muitas pessoas de “botarem lenha na fogueira”, possa ter desencadeado tudo que ocorreu depois.

Lampião Chefe de Bando

No meio de toda esta história, enquanto Ioiô Maroto tentava curar suas feridas e Gonzaga se preocupava com seu futuro, no dia 4 de junho de 1922, no sítio Feijão, zona rural do município pernambucano de Belmonte, próximo a fronteira do Ceará, Sinhô Pereira informou ao membros do seu bando, que em breve vai entregar o comando a Lampião.

Apesar de ter menos de 27 anos de idade, Sinhô alegou problemas de saúde para a sua decisão e que seguia um apelo do mítico Padre Cícero Romão Batista, da cidade de Juazeiro, Ceará, que havia lhe pedido para deixar esta vida e ir embora para o sul do país.[6]

Vinte e dois dias depois de receber a notícia que a passagem de comando está próximo, Lampião efetivamente já é chefe de grupo. Neste momento começa a imprimir sua horrenda marca pelo Nordeste e vai se tornar o maior cangaceiro do Brasil.

Na edição de 29 de junho de 1922, do jornal “Diário de Alagoas”, afirma que “Cangaceiros, em numeroso bando assaltaram a cidade de Água Branca, penetrando na residência da Baronesa”.

Casa da Baronesa atacada e roubada por Lampião e seu bando. Fonte-Blog Cariri Cangaço

Esta era a octogenária Joana de Siqueira Torres, viúva do Barão do Império Joaquim Antônio de Siqueira Torres. Os cangaceiros chegaram de madrugada entraram pelos fundos do casarão e roubaram o que puderam. Apesar de ocorrer uma resistência das pessoas do lugar, eles escaparam ilesos.

No dia 1 de julhos este periódico alagoano informou através de “viajantes vindos do sertão”, que os esforços da polícia para prender os assaltantes foram nulos.[7]

Lampião segue para Pernambuco, feliz pelo resultado do saque. Em uma tarde, junto com seus companheiros de rapinagem, dançaram xaxado e cantaram a mítica melodia “Mulher Rendeira” embaixo de uma quixabeira no centro do povoado de Nazaré e o fato foi presenciado por Manuel de Souza Ferraz, o conhecido Manuel Flor. Este se transformaria em um dos maiores perseguidores de Lampião.[8]

Manuel Flor. Fonte-Blog Lampião Aceso

Finalmente, no dia 22 de agosto de 1922, Sinhô Pereira parte da fazenda Caraúbas, perto do lugar Bom Nome, em Pernambuco, para o estado de Goiás.[9]

Mas antes de partir, Pereira pediu a Lampião que fosse a Belmonte resolver a desfeita sofrida por seu parente Ioiô Maroto. Lampião certamente possuía uma dívida de gratidão com Sinhô Pereira, por tudo que ele havia lhe ensinado em meios as andanças pelas caatingas e jamais iria lhe negar esta solicitação. Além do mais, ele sabia que Gonzaga tinha dinheiro e isto era o que realmente lhe interessava.

Gonzaga não Acreditou no Vaqueiro

Marilourdes Ferraz informa que Ioiô Maroto agiu de forma dissimulada e buscou a paz com seu amigo e compadre, que diante desta atitude decidiu dispensar seus guarda costas.[10]

A cidade de Belmonte atualmente

A carta do misterioso “Um Assignante”, publicada no domingo, 11 de março de 1923, dá um informação que se aproxima da versão de “O Canto do Acauã”. Consta que diante da surra em Ioiô Maroto, o comerciante Gonzaga começou a se desfazer de seus negócios em Belmonte, seguindo com a família para a cidade pernambucana de Bom Conselho. Então o próprio Ioiô Maroto teria escrito uma carta a Gonzaga, afirmando que não iria lhe fazer retaliações, que “era seu compadre e amigo”, que a amizade “voltaria a ser o que era”. A carta de “Um Assignante” afirma que Ioiô pediu então, certamente como prova de boa vontade, para Gonzaga dispensar os seis rapazes armados que ficavam em sua casa.

A casa de Gonzaga em 2008. Fonte-Alex Gomes

O jornal afirma que às dez da noite do dia 19 de agosto de 1922, um vaqueiro de Gonzaga conhecido como “Manoel Pilet”, foi a sua casa e afirmou ter visto muitos cangaceiros na propriedade “Cristóvão” de Ioiô Maroto, mas Gonzaga não acreditou. O vaqueiro chegou a se oferecer para fazer companhia e proteger o patrão em sua casa na cidade de Belmonte, mas Gonzaga recusou.

Sua sorte estava selada.[11]

O Fogo de Belmonte

No livro “Serrote Preto”, de Rodrigues de Carvalho (1961. Págs, 157 a 161), o autor comenta que certa noite, provavelmente um ou dois dias antes da manhã de 20 de outubro, Lampião e seu bando chegaram a propriedade de Ioiô Maroto, prontos para resolverem a questão. Rodrigues de Carvalho afirma que o parente de Sinhô Pereira não queria mais a vingança e que seguiu com Lampião praticamente obrigado.[12]

Lampião e seu bando a cavalo

Já a carta publicada no jornal “A Província”, comenta que nesta época a cidade de Belmonte era guarnecida pelo sargento José Alencar de Carvalho Pires e mais 10 praças. Havia uma ordem que, no caso de serem ouvidos disparos, os comandados do sargento Alencar deveriam ir para o pequeno aquartelamento policial para serem tomadas as medidas de defesa[13].

Depois de uma noite de muita chuva, que facilitou o ataque dos cangaceiros, as quatro da manhã do dia 20 de outubro de 1922, uma sexta feira, foram ouvidos tiros espaçados e depois a fuzilaria aumentou. Nesta manhã o sargento Alencar se achava adoentado na casa do seu sogro, o coronel João Lopes, irmão de Gonzaga. Mesmo assim Alencar saiu a rua e disparou contra os cangaceiros “cerca de 40 tiros” e foi para o pequeno quartel para dar ordens ao seu pessoal. Mas no lugar, ao invés dos 10 militares só estavam os praças Manoel Rodrigues de Carvalho, José Francisco e José Oliveira.

A cidade entrou em polvorosa. Pessoas buscavam refúgio em baixo dos poucos móveis existentes nas suas casas. Muitos correram para o mato, deixando tudo para trás e saindo apenas com os familiares e a roupa do corpo.

Jornal recifense “A Província”, 11 de março de 1923

Em pouco tempo chegaram para defender a urbe os soldados Severino Eleutério da Silva e Heleno Tavares de Freitas. Este último foi logo alvejado e morto.[14]

Após isso o sargento Alencar distribuiu a munição e saiu a rua acompanhado dos soldados Manoel Rodrigues de Carvalho e José Oliveira. Ele deixou um soldado na casa do coronel João Lopes e outro na casa do escrivão Manoel Medeiros. O militar posicionado na casa do escrivão tinha ordens de abrir fogo contra o prédio do açougue, onde estava alojado um grande número de cangaceiros, pois o sargento Alencar iria atacar o açougue pela retaguarda. A fuzilaria era cerrada e desigual, pois a cidade era defendida, segundo afirma o jornal, por apenas 6 militares, uns poucos civis, contra 65 cangaceiros.[15]

Os militares que estavam no quartel, mesmo cercados, mataram Antônio Pereira da Silva, conhecido vulgarmente como “Antônio da Cachoeira” e primo de Ioiô Maroto e Sinhô Pereira.[16]

Outras notícias sobre o ataque

Pessoas da localidade participavam da defesa. Entre estes estavam Manuel Gomes de Sá, conhecido como Manuel Justino e seu filho João Gomes de Sá, que foi ferido. Um cangaceiro alcunhado “Baliza”, vendo este cidadão em apuros pulou o muro de sua casa disposto a matá-lo. A ajuda veio de Dona Luzia Gomes, esposa de João Gomes, que municiou o rifle e animou o esposo para a luta. João Gomes matou “Baliza” com um tiro no peito.

Outro que pegou em armas foi o cidadão Luís Mariano, que junto com outros disparava contra a corja de bandidos de dentro do curral de Tertuliano Donato.[17]

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O sargento, depois coronel, JOSÉ ALENCAR DE CARVALHO PIRES (em pé, a esquerda com a espada) era filho do Alferes José Leonel de Alencar (sobrinho de dona Bárbara de Alencar e tio do romancista José de Alencar) e de Antônia da Assunção Pires. Nasceu em 13/03/1892 na fazenda Várzea, no município de Belmonte, e faleceu em 19/03/1960, no Recife. Foto do pesquisador Valdir José Nogueira, de Belmonte – PE.

Consta que o sargento Alencar expulsou os cangaceiros do açougue e de uma janela deste estabelecimento comercial, gritava palavras de apoio a Gonzaga e mandava bala contra os cangaceiros. O sargento imaginava que Gonzaga estava resistindo dentro de sua casa. Mas aí, segundo está textualmente descrito no jornal, o próprio Lampião gritou “-Eu levo daqui um comboio de fazenda; eu vou ficar rico!…”. Deixando entender que a situação do comerciante não era das melhores.

Alencar percebeu que a única maneira de expulsar os cangaceiros seria atacar pela retaguarda da casa de Gonzaga. Mesmo com poucos homens e a munição acabando, ele seguiu para o local e abriu fogo contra a “cabroeira”.

Antiga Rua do Comércio. No primeiro plano a famosa loja “A Rosa do Monte” do Coronel Gonzaga Ferraz e mais adiante a sua famosa residência, adquirida tempos mais tarde pelo Sr. João de Pádua. Fonte – Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.

De dentro da casa eram ouvidos gritos de euforia e de pavor. Dona Martina, a mulher de Gonzaga, suas filhas e outras mulheres que estavam no interior gritavam pedindo proteção aos céus. Quando estive em Belmonte me narraram  que um cangaceiro chamado José Tertuliano, conhecido como Zé Terto, e possuindo o vulgo de “Cajueiro”, protegeu as mulheres da família de Gonzaga da sanha de seus companheiros, empurrando-as para dentro de uma dispensa.

Ainda dentro da casa os cangaceiros gritavam de euforia, parecendo que haviam alcançado a vitória desejada. Mas para o sargento Alencar e parte do seu valoroso destacamento, o que importava era entrar na residência e expulsar aquela corja para longe de sua cidade. A tática deu certo. Era perto das oito da manhã e depois de um fogo intenso o bando de Lampião saiu de Belmonte cantando a “Mulher Rendeira”.[18]

Provavelmente ao entrar na casa do comerciante, o sargento Alencar entendeu o porquê dos cangaceiros e Ioiô Maroto irem embora cantando.

Saldo do Ataque

Gonzaga Ferraz jazia morto na sala existente logo na entrada. Estava envolto em panos, onde certamente os atacantes iriam atear fogo no falecido e consequentemente na casa.[19]

Ele teria tentado se defender da turba que buscava invadir o local pela porta dos fundos. Havia chegado a atirar com o que tinha, mas diante da desvantagem empreendeu fuga indo para o grande sótão. Ao tentar se esconder, ou buscar fuga utilizando uma janela, ele despencou na sala e teria morrido da queda, ou então sido chacinado pelos cangaceiros.

Sótão da casa de Gonzaga. Fonte-Solón Almeida Netto

O certo foi que Ioiô Maroto, mesmo ferido levemente, alcançou sua pretendida vingança. Já Lampião e seus homens roubaram o que puderam do comerciante. Para o “Rei do Cangaço” o produto do butim que mais lhe chamou atenção foi a aliança de Gonzaga.

O saldo para o povo de Belmonte, além da morte de Gonzaga e do soldado Heleno Tavares de Freitas, foi a morte de um civil, que “A Província” chama apenas como “um velhinho” e que se achava na porta de sua casa quando foi alvejado. Já o jornal “Diário de Pernambuco”, transcrevendo um telegrama enviado pelo delegado Manuel Guedes ao então Chefe de Polícia, Desembargador Silva Rêgo, dá conta que o civil morto se chamava Joaquim Gomes de Lyra. [20]

Entre os defensores de Belmonte feridos, além do citado João Gomes de Sá, o próprio sargento Alencar estava com um ferimento leve, em decorrência de ter tido sua arma destroçada por um balaço dos cangaceiros. O jornal “A Província” de 1923 dá conta que depois de encerrado o tiroteio, cinco pessoas da cidade vieram “participar da defesa”, ajudando a transportar o “corpo” do sargento Alencar. Como este não estava morto, provavelmente desfalecido devido ao seu ferimento de natureza leve, se levantou e passou a maior descompostura naqueles que só ajudavam “carregando os defuntos”.[21]

Corredor da casa. Por aqui passaram os cangaceiros.Fonte-Solón Rodrigues Netto

Além de “Antônio da Cachoeira” e “Baliza”, os cangaceiros aparentemente tiveram um terceiro homem mortalmente alvejado pelos defensores da cidade. As fontes apontam que poderia ser um antigo membro do grupo de Sinhô Pereira, de alcunha “Pilão”, ou um cangaceiro conhecido como “Berdo”.[22]

Já as fontes apontam sempre de forma controversa, que o número de feridos entre os atacantes chegou a até cinco homens e os nomes variam. A unanimidade é o nome do paraibano Cícero Costa, que seria uma espécie de enfermeiro do grupo e em menos de dois anos seria morto no tiroteio da Serra das Panelas.

Consequências

A notícia do ataque a Belmonte teve forte repercussão na imprensa pernambucana. Uma semana depois do ocorrido, o periódico recifense “Jornal do Commercio” fazia uma severa crítica ao então governador pernambucano, Sérgio Teixeira Lins de Barros Loreto pela falta de segurança no sertão. O jornal traz estampada uma carta da viúva de Gonzaga, datada do dia da morte do seu marido, pormenorizando os fatos e responsabilizando Ioiô Maroto.

Casa de Gonzaga.Fonte-Solón Almeida Netto.

O Desembargador Silva Rêgo, Chefe de Polícia de Pernambuco, divulgou na imprensa que havia recebido informes de seus colegas da Paraíba, Alagoas e do Ceará. Estas autoridades transmitiam as tradicionais solidariedades, criticavam a ação dos cangaceiros e se colocavam a disposição. Mas de prático só o telegrama do Dr. Demócrito de Almeida, da Paraíba, afirmando ter informações vindas do bacharel Severino Procópio, que se encontrava na cidade de Conceição, dando conta que os cangaceiros estavam acoitados no velho esconderijo de Sinhô Pereira, na Serra do Olho D’água.

Família do Coronel Luiz Gonzaga. Foto tirada no Porto da Madeira, Recife, onde passaram a residir logo depois do ocorrido em Belmonte. Sua esposa é a senhora vestida do preto, de luto pelo falecimento de Gonzaga. Fonte – Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.

Dias depois, o “Diário de Pernambuco”, de 1 de novembro, reproduz na página 4 uma nota do jornal oficial do governo paraibano, “A União”, informando que o bando havia sido visto na Serra do Catolé, ainda em território pernambucano, mas próximo a fronteira paraibana, onde estariam nesta serra 50 bandidos. O bacharel Severino Procópio, junto com o tenente Manuel Benício e uma força paraibana, estavam a postos para atacar os cangaceiros. Mas o bacharel solicitava reforços de Pernambuco, para assim alcançarem um número de 150 policiais, pois devido às condições geográficas da região, só um número grande de homens para desalojar os cangaceiros do alto das serras. Mas aparentemente nada foi feito.[23]

Na sequência a família de Gonzaga vendeu tudo que tinha na região, partiu primeiramente para Recife e depois para o sul do país.[24]

Pesquisando sobre cangaço no sertão de Pernambuco

Não é novidade que a pesquisa em jornais antigos, associada à pesquisa em livros, artigos em revista, internet e, obviamente, a uma pesquisa de campo junto aos descendentes dos que presenciaram os fatos, se não traz nenhuma grande informação bombástica, mostra que é sempre possível conseguir novos detalhes e informações sobre o cangaço que, como me disse em certa ocasião um respeitado autor do tema “-São fontes de informações pequenas, mas que sempre dá para saciar a todos”.

NOTAS


[1] Sobre a posse da propriedade de Ioiô Maroto, ver “Relação dos Proprietarios dos Estabelecimentos Ruraes Recenseados no Estado de Pernambuco”. DIRECTORIA GERAL DE ESTATÍSTICAS, Pág. 34, 1925, onde o “Cristóvão” é sua única propriedade listada no município de Belmonte.

[2] Sobre esta visita, foram realizadas entrevistas com pessoas da comunidade, que trazem apenas lembranças transmitidas pelos seus antepassados. Em minha opinião as fontes escritas foram mais proveitosas.

[3] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. A carta do misterioso “Um Assignante”, publicada em quase um ano após os fatos “A Província” , corrobora a tradição oral da região em muitas informações.

[4] Na “Relação dos Proprietarios dos Estabelecimentos Ruraes Recenseados no Estado de Pernambuco”. DIRECTORIA GERAL DE ESTATÍSTICAS, Pág. 33, 1925, são listadas as propriedades “Varzeota” e “Contendas” como pertencentes a “Luiz Gonzaga Torres Ferraz”, ao invés de “Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz”, onde acreditamos que ocorreu um erro de datilografia na feitura deste documento.

[5] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco e “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 154, 2011.

[6] Ver “A Cabeça do Rei”, ARAÚJO, I. Págs. 144 e 145, 2007.

[7] Para muitos esta seria a primeira grande proeza de Lampião e seu bando, tendo o fato sido noticiado com destaque nas edições de 5 e 7 de julho de 1922, no respeitado periódico “Diário de Pernambuco”.

[8] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 154, 2011. A competente autora, mesmo ligada por laços de parentesco ao comerciante Gonzaga, no nosso entendimento busca apontar de forma bastante aproximada o que destaca a tradição oral da região em relação aos acontecimentos.

[9] Ver “A Cabeça do Rei”, ARAÚJO, I. Pág. 146, 2007.

[10] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 157, 2011.

[11] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

[12] Neste livro o autor tem um posicionamento extremamente crítico contra Gonzaga e um tanto complacente em relação a Crispim Pereira. Não se pode negar que este autor viveu na região na época dos fatos, mas sua versão literária é diametralmente contrária em relação à figura de Gonzaga, tanto quando comparamos com os antigos jornais, como na tradição oral da região.

[13] O jornal “A Província” afirma que o sargento Alencar só tinha cinco anos que havia se incorporado a polícia pernambucana.

[14] No centro da cidade de São José do Belmonte existe Rua Sd. Heleno, em honra a este militar.

[15] Os jornais de época apontam apenas seis soldados defendendo a cidade e três civis. Outros autores dizem que foram 8 os militares e quatro civis. Em relação ao número de cangaceiros que atacaram Belmonte, os autores que se debruçaram sobre o assunto apontam um mínimo de 30 e um máximo de 70. Rodrigues de Carvalho afirma que eram 70 homens comandados por Lampião. Ver “Serrote Preto”, Rodrigues C. Pág. 158, 1961. Já João Gomes de Lira afirma que eram “trinta e tantos ou quarenta cangaceiros”. Nesta obra o autor informa que foram denunciados pelo Promotor Público de Olinda 33 pessoas pelo ataque a Belmonte e o assassinato de Gonzaga. Mas o autor aponta que faltaram vários nomes de cangaceiros participantes, como os irmãos de Lampião e Lavandeira. Ver “Memórias de um Soldado de Volante”, LIRA, J. G. Pág. 78, 1990.

[16] Ver “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 55, 1987.

[17] Ver “Memórias de um Soldado de Volante”, LIRA, J. G. Pág. 79, 1990 e “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 54, 1987. Já Bismarck Martins de Oliveira, em “Cangaceiros do Nordeste”, pág. 208, 2002, informa que “Baliza” seria o primeiro cangaceiro a ter esta alcunha que andou com Lampião, que ele era pernambucano, havia sido membro do bando de Sinhô Pereira e se chamava Gabriel Lima. Já Erico de Almeida, em “Lampeão, sua história”, pág. 27, 1926, diz que o nome de “Baliza” era José Dedé. Este foi o primeiro livro a dar destaque ao ataque a Belmonte.

[18] Entre as várias fontes pesquisadas existe uma grande disparidade sobre a duração do ataque, que variam de uma a até quase quatro horas de combate.

[19] Ver “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 55, 1987. Em 2008 quando visitei a região e esta casa, ela se mantinha bem conservada e original em muitos aspectos, graças aos esforços de suas atuais proprietárias, professoras da rede pública de ensino.

[20] Em “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 54, 1987, afirma este civil chamado Cicero Januário, seria um padeiro e também um espião de Lampião. Mas apenas este autor dá esta informação.

[21] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

[22] Em relação a esta questão, o periódico recifense “Jornal do Commercio”, edição de 8 de novembro de 1922, na sua página 3, dá conta que, desde o dia 3 de outubro de 1922 estava preso na cadeia de Belmonte um cangaceiro conhecido como “Bêrdo”. O mesmo, depois de atacar a propriedade denominada “Três Passagens”, onde teria assassinado o proprietário e sua esposa, sofreu forte de populares e estava ferido no peito. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

[23] Ver na Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, o “Diário de Pernambuco”, edições de 21 e 28 de outubro e 1 de novembro de 1922, sempre nas páginas 4.

[24] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Págs. 159 e 161, 2011.

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NOTÍCIAS SOBRE FUGAS DE ESCRAVOS NO RIO GRANDE DO NORTE

Autor – Rostand Medeiros

Falar sobre escravidão no Rio Grande do Norte é um assunto complicado. O problema surge tanto pelo limitado número de fontes existentes, quanto pelas ideias já arraigadas entre a nossa sociedade sobre tão espinhoso assunto.

Em uma recente ocasião, ao debater com um estudioso potiguar sobre a escravatura em terras potiguares, ele me transmitiu que em sua opinião, devido ao número limitado de escravos que aqui existiu, não teria ocorrido tantas violências contra estes. Segundo esta pessoa, no Rio Grande do Norte os senhores de terras eram diferentes dos “malévolos escravocratas do sul do país e da Bahia” e que, devido a este bom tratamento dispensado aos cativos, se criou por aqui uma certa “escravidão mansa”.

Tal ideia distorcida e a mim transmitida na atualidade, a muito já havia sido apontada pelo grande Joaquim Nabuco em sua obra “O Abolicionismo”, como um pensamento existente na sociedade brasileira que tivemos uma escravidão pacífica e ordeira, com um cativo generoso, dócil e passivo. Esta teoria teria como base a ideia da “ausência do preconceito racial entre brancos e negros” e que gerou no Brasil uma pretensa democracia racial.

Mas apesar desta situação, desta pretensa “mansidão” geradora de mitos em favor dos senhores de escravos em terras potiguares, isso não significa que aqui não ocorreram as mazelas provocadas por este sistema.

Poucos Escravos

Se analisarmos os resultados do censo demográfico de 1872, o primeiro realizado no país, comprovamos que o número do chamado “elemento negro” realmente não era muito representativo no Rio Grande do Norte. Nos resultados deste censo, em sua página 82, aponta que a população livre potiguar era de 220.959 pessoas e o número total de escravos chegava a meros 13.020. Tanto no sertão como no litoral o número de trabalhadores livres era mais elevado que o de escravos.

Censo de 1872 - Província do Rio Grande do Norte. Fonte- Arquivo IBGE

Para efeitos de comparação, segundo dados deste mesmo censo demográfico, em 1872 a Paraíba, na época Parahyba do Norte, tinha 21.296 cativos, para uma população de 376.226 habitantes. No Ceará foram contados 31.913 escravos para 721.686 pessoas livres e em Pernambuco havia 89.028 escravos para 841.539 habitantes não escravos.

Com o surgimento da grande e calamitosa seca ocorrida entre os anos de 1877 a 1879, que provocou sérios desarranjos em nossa agricultura e teve como uma de suas consequências, a venda de uma grande parte dos escravos potiguares para outras regiões do país, o número de cativos no Rio Grande do Norte e em outras províncias nordestinas diminuiu mais ainda.

Mas o universo do cotidiano destes escravos por aqui, que nunca foi “manso”, parece não ter se modificado com fim da seca, pois, segundo anúncios publicados em jornais da época, cativos buscavam fugir de seus senhores.

Através do apoio do amigo Celso Augusto Soares Antas, possuidor de uma bela coleção de antigos jornais potiguares, do seu escritório localizado no tradicional bairro carioca de Copacabana, me enviou dois raros anúncios que apresento em nosso trabalho, onde podemos conhecer um pouco mais do sofrimento dos nossos escravos.

O Fugitivo com um Chapéu de Couro

Na edição do jornal “O Brado Conservador”, publicado na cidade de Assú, no dia 23 de setembro de 1881, informa que na fazenda “Sant’Anna”, fugiu um escravo que atendia pela graça de Antônio.

“O Brado Conservador”, publicado na cidade de Assú, no dia 23 de setembro de 1881

Este cativo era “peça” que pertencia ao Senhor João pereira da Circuncisão e estava “alugado”, ao Senhor Francisco Xavier de Albuquerque Montenegro. Estes senhores tinham propriedade no lugar Ilha de São Francisco, em Macau.

O cativo Antônio, de “30 annos de edade, pouco mais ou menos”, é descrito primeiramente como “cabra”, que segundo a “Grande Enciclopédia Delta Larousse”, página 1.166, edição de 1978, designa “Descendente de mulato com negro; mulato escuro”. Na sequência o fugitivo teria “altura regular” (cerca de 1,70 m.), andava curvado, tinha o cabelo “carapinho” (daqueles que nascem espiralados desde a raiz), vestia camisa e calça brancas, de “algodão da Bahia”, e havia um toque sertanejo na sua indumentária, pois Antônio protegia a cabeça com um tradicional “chapéu de couro”.

Seu dono pedia que quem o capturasse o trouxesse para a fazenda Ilha de São Francisco, em Macau, ou na fazenda São Pedro, de propriedade do Senhor Honório Xavier da Cunha Montenegro, provavelmente irmão do Senhor Francisco Xavier. Estes ofereciam pela captura do fujão a quantia de 50$000 réis.

Em 1881, no vizinho Ceará  já existiam locais onde ocorriam manifestações em favor da libertação dos escravos e em 1884 esta torna-se a primeira província brasileira a abolir a escravidão. Não sei se o motivo da fuga de Antônio foi devido a ele ter conhecimento de notícias sobre pessoas que propagavam ideias de liberdade dos cativos na província vizinha. Pessoalmente acredito que esta fuga foi tão somente um puro desejo de liberdade.

Um Violeiro Que Enganou a Polícia em Natal

A segunda nota é igualmente do ano de 1881, mas do dia 29 de dezembro, dando conta que há quase dois anos, um cativo de nome Francisco estava foragido da então povoação de Luís Gomes, no extremo oeste potiguar. O dito escravo pertencia ao Senhor Álvaro de Almeida Cavalcanti, que aparentemente seria proprietário das terras da fazenda Lagoa de Cima, próximo a atual área urbana de Luís Gomes.

A descrição deste escravo (como o leitor pode ver no anúncio ampliado clicando na foto) é bem interessante. Francisco era um adulto de 44 anos, altura regular, bons dentes, etc. Mas salta aos olhos o termo “mãos bem pinta das de branco”. Creio que a nota queria dizer que, além das palmas das mãos de Francisco ser bem claras, não seriam mãos rudes, cheias de calos, de quem pegava todo o dia no cabo da enxada. Mas seriam mãos de quem tinha de ter destreza e apuro com ferramentas necessárias a função de um sapateiro, de um caldeireiro (certamente de um engenho de rapadura, onde ele deveria preparar e limpar a garapa da cana-de-açúcar para fazer a rapadura batida), e de um tocador de viola. Estas, segundo a antiga nota de “O Brado Conservador”, eram as aptidões do escravo fujão.

Consta que o fugitivo foi comprado pelo Senhor Álvaro três anos antes de sua fuga, no ano de 1877, em plena seca. Talvez seu antigo dono Francisco da Costa, se desfez da sua “peça” por dívidas contraídas no período da grande estiagem, ou porque seu escravo dava muito trabalho pela sua rebeldia.

Sabemos através da nota que Francisco não era aquele tipo de escravo destinado apenas a enxada e que certamente ele tinha capacidade de compreender a lógica escravocrata do mundo dos brancos. Pois em maio de 1881, um ano e três meses depois de fugir de Luís Gomes, ele esteve em Natal.

Na época a capital potiguar não tinha nem 20.000 almas, com estradas que faziam com que a tarefa de seguir para Luís Gomes não fosse uma viagem, mas uma jornada, quase uma expedição (atualmente esta cidade está distante de Natal, no asfalto, 444 quilômetros). Independente desta questão, consta que em Natal ninguém “reclamou” a sua pose e ele saiu livre.

Não é difícil imaginar como Francisco pode ter utilizado de uma boa “conversa” e, quem sabe, de alguns acordes da viola para convencer as autoridades que era um homem livre. Provavelmente a notícia da detenção de seu escravo deve ter chegado ao conhecimento de seu amo na povoação de Luís Gomes e este estava estampando nos jornais uma recompensa de 100$000 mil réis para que o levasse ao seu “Senhor” e 50$000 mil réis para quem o largasse em alguma cadeia.

Importância dos Anúncios

Estes anúncios seriam uma das poucas fontes para o conhecimento e o entendimento do cotidiano dos cativos.

Segundo o diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva, que prefaciou o excepcional livro “O escravo nos anúncios de jornais Brasileiros do século XIX”, do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, este autor foi um dos primeiros “a alertar para a riqueza desses anúncios como fonte documental para nos aproximar do universo e do cotidiano dos escravos”. Neste livro Freyre utilizou estes anúncios para mostrar como se dava as relações entre os escravos e seus senhores, os tipos de ocupações que os cativos exerciam, a forma como estes escravos eram apresentados e outros pontos. Gilberto Freyre teria se debruçado nas páginas amareladas de jornais como Diário de Pernambuco (Recife), Jornal do Commercio (Rio de Janeiro) e teria conseguido reunir dez mil anúncios ao final de sua pesquisa.

O trabalho é realmente interessante e, ao longo de suas mais de 250 páginas, o leitor é transportado através dos anúncios para aquele universo de opressão que permeou a história do Brasil e até hoje sofremos as consequências.

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