AS FOTOS QUE ILUSTRAM ESTE TEXTO SÃO DE ORGULHOSOS NORDESTINOS QUE CONHECI EM VÁRIOS LOCAIS DA NOSSA REGIÃO, JUNTO COM OUTROS AMIGOS, NOS ÚLTIMOS SEIS ANOS. SÃO PESSOAS QUE NÃO SE ENVERGONHAM DE USAR O CHAPÉU DE COURO – Fazenda Colônia – Carnaíba – Pernambuco – Foto – Solón Almeida Netto – 2008.
Autor – Rostand Medeiros
Este é um artefato que funciona como verdadeiro distintivo do Nordeste e do nordestino. Creio que talvez não existe um material com um aspecto tão forte em termos de identidade, tão representativo do nosso sertão do que o belo e tradicional chapéu de couro.
Um Material Com Fins Práticos
A pecuária, a criação de gado no interior da atual Região do Nordeste do Brasil foi o primeiro grande fator de geração de renda e permanência do homem nesta região árida. Da atividade de criar o gado se obtinha a carne para alimentação, o leite e em seguida o couro, que era utilizado de diversas maneiras nas propriedades rurais. Em algumas fazendas se desenvolveram rústicos curtumes, que serviram para transformar o couro em mais um meio de geração de renda. Certamente foi nestes locais que se iniciou a tradição da manufatura dos chapéus de couro.
Este tradicional artefato nordestino inicialmente serviu basicamente para fins práticos, principalmente como parte da indumentária de proteção dos vaqueiros.
Além de primariamente servirem para proteger a cabeça dos sertanejos do inclemente sol e das chuvas temporárias, igualmente era utilizado para proteger seus usuários das ervas espinhosas da vegetação de caatinga, juntamente com o gibão e a perneira.
Mas apesar da designação comum, os chapéus de couro não possuíam um formato único. Variavam imensamente conforme a localidade do vaqueiro, servindo até mesmo como um identificador de sua proveniência.
Muitos acreditam que o tradicional chapéu de couro nordestino foi criado pelos cangaceiros. Mas isso não é verdade!
Distrito de Nazaré, município de Floresta – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2016
Entretanto devemos a estes bandoleiros das caatingas a transformação deste material em uma peça característica extremamente marcante na história deste movimento. Os cangaceiros faziam questão de colocar várias moedas (talvez para mostrar o apurado dos saques?), santinhos, cruzes, estrelas e outros símbolos, criando peças únicas em termos de estética e simbologia.
Fabricação Nada Fácil
Fabricar os tradicionais chapéus de couro nordestinos não é nada fácil. Primeiramente o couro do animal é levado para o curtimento vegetal. Lá ele é tratado, onde pode permanecer cru, com ou sem pelo, ser tingido, ou não.
Barro – Ceará – Foto – Rostand Medeiros – 2015
Na segunda parte do processo o couro é cortado, dependendo das medidas determinadas, sendo tudo geralmente produzido à mão por jovens artesões. Depois do corte o couro é molhado para ficar mais elástico e assim ser colocado em moldes. É lá que eles ganham forma e vão para a secagem. Esse processo depende da temperatura ambiente e pode durar de duas horas ou mais. Como chove pouco no sertão nordestino, isso não é um grande problema.
Em seguida o chapéu ganha a aba que vai proteger o rosto do vaqueiro. As oficinas fazem o tamanho das abas de acordo com o gosto do comprador, mas na Paraíba elas se caracterizam por serem curtas, já em algumas regiões da Bahia ela costuma ser maior. A última etapa é a costura. Primeiro o material vai para a máquina de costura reta receber o acabamento. Mas os desenhos e aplicações ficam por conta da máquina manual, que apesar de ser mais trabalhosa é quem vai dar riqueza de detalhes ao chapéu de couro.
Todo esse trabalho, realizado por abnegados artesões, no meu entendimento o que mais valoriza este rico material.
Identidade Cultural
No meu entendimento foi a partir do sucesso de Luís Gonzaga no Sudeste, que utilizava vários modelos de chapéu de couro em suas apresentações, como marca de sua origem nordestina, estes acessórios passaram gradativamente a ser utilizado como símbolo da vida sertaneja e do homem nordestino. Alem do Velho Lua, estas verdadeiras coroas nordestinas foram, e ainda são, utilizadas por gente do nível de Dominguinhos, Santana e tantos outros verdadeiros cantadores nordestinos.
Vaqueiro depois de retornar da caatinga – Barro – Ceará – Foto – Rostand Medeiros – 2015
Entretanto, artistas que atualmente se dizem “forrozeiros”, que infelizmente são oriundos do próprio Nordeste, não utilizam mais em suas apresentações estes artefatos característicos.
Que eles não queiram usar estes símbolos nos grandes palcos é problema deles. Até aí tudo bem, gosto não se discute!
Mas o que se lamenta aqui é esse pessoal, travestidos de “modernos”, menosprezarem não apenas o velho e autêntico chapéu de couro, mas toda uma secular e tradicional cultura criada na região.
Fazenda Barreiras, região da Serra Grande – Serra Talhada – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2013
No meu entendimento o pior é que estes “artistas”, junto com a sua perniciosa e maciça “indústria cultural”, tentam de todas as formas mostrar a cultura tradicional nordestina como algo decadente, ultrapassada, sem serventia e em desuso. Estes seguem propagando músicas de extremo mau gosto, baixo nível e cantadas por gente que no máximo deveria utilizar suas vozes para vender jerimum na feira (com todo respeito aos feirantes).
A coisa é tão forte e o jogo é tão sujo que cheguei a ponto de perceber que aqueles que decidem utilizar um chapéu de couro em algumas regiões do próprio sertão nordestino são vistos de forma jocosa e com um olhar que fica entre o espanto e o mais completo escárnio. Interessante que há tempos atrás eu percebia isso apenas nas capitais.
Apesar desta questão, o bom e velho chapéu de couro está firme e forte na cabeça daqueles nordestinos que valorizam a cultura tradicional de sua terra. Até mesmo como símbolo de resistência cultural.
E a melhor notícia é que a produção destes belos artefatos está tendo continuidade.
Resistência e Continuidade
Certamente que a maioria destes “artistas” não possuem capacidade mental de perceberem a beleza da arte que está por trás das tradicionais vestimentas e acessórios dos nossos vaqueiros. Verdadeiras obras de arte produzidas com maestria, por quem abraça um artesanato digno de exportação.
Barro – Ceará – Foto – Rostand Medeiros – 2015
Não posso negar que em toda a região não são muitos os artesões envolvidos no processo de fabrico do tradicional chapéu de couro. Mas, para a sorte dos que valorizam a autêntica cultura nordestina, temos verdadeiros Mestres produzindo e ensinando a sua arte aos seus filhos e netos pelo Nordeste afora.
Este é o caso dos descendentes de Antônia Maria de Jesus, a conhecida “Totonha Marçal”, que continuam a manter a tradição no trabalho com chapéus de couro no Distrito da Ribeira, no município de Cabaceiras, Paraíba. Inclusive este município do Cariri Paraibano, situado a 180 Km de João Pessoa, capital da Paraíba, é atualmente o maior produtor de chapéus de couro do Brasil.
Fino trabalho de Mestre Aprígio, de Ouricuri, Pernambuco, fotografado na Loja do Vaqueiro, em Caruaru – PE – Foto – Sérgio Azol – 2016.
Temos em Salgueiro, Pernambuco, mais precisamente na Fazenda Cacimbinhas (a 14 quilômetros do centro da cidade), o exemplo de uma família que há um século perpetua o ofício de transformar pedaços de couro em peças artesanais que conquistaram personalidades do mundo artístico e da política brasileira. Tudo começou em 1909 com Mestre Luiz, depois passou o oficio para seu filho, o conhecido Zé do Mestre. Este chegou a fabricar vestimentas (só gibões) para o amigo Luiz Gonzaga, o ex-presidente Médici, o rei Juan Carlos da Espanha e até para o Papa João Paulo II, em sua última visita ao Brasil. Atualmente a arte está preservada e nas mãos de seu filho Irineu Batista, mais conhecido como Irineu do Mestre.
Já em Ouricuri, também em Pernambuco, temos o Mestre Aprígio e o seu filho Romildo, que trabalham juntos mantendo a tradição. Mestre Aprígio tem orgulho em exibir pelas paredes de sua oficina, que outro denominam acertadamente de ateliê, as fotos que contam a história do artesão que começou a trabalhar aos 24 anos de idade. Já são mais de 50 anos de profissão e criatividade produzindo chapéus de couro, gibões e bolsas personalizados.
Evidentemente que não posso esquecer de Espedito Velozo de Carvalho, o Mestre Espedito Seleiro, de Nova Olinda, no Ceará. Ele tinha oito anos de idade quando começou a ajudar o pai em sua oficina. As histórias que ouvia quando criança eram célebres: foi o pai quem criou as sandálias do cangaceiro Lampião. Com o passar dos anos Mestre Espedito só cresceu na qualidade do seu trabalho, chamando a atenção de estilistas do Sudeste do país e foi ele que assinou as peças que o ator Marcos Palmeira usou no filme “O Homem que Desafiou o Diabo”, de 2007.
Eu acho muito bonito quem, mesmo que se abra para outras culturas, tem orgulho de sua terra e de sua identidade cultural. Para mim, junto com a bondade ao próximo e a humildade, é o tipo de situação que torna um outro ser humano verdadeiramente digno de respeito.
Sendo assim, não posso negar que fico muito feliz quando vejo alguém utilizar o bom e velho chapéu de couro nordestino. Quando eu encontro uma pessoa utilizando este tipo de material, penso que a cultura da minha terra ainda resiste em meio a um mar de muita mediocridade.
Eu também tenho os meus chapéus de couro (3) e tenho muito orgulho de utilizá-los, pois tenho a sorte de ser nordestino e amar minha região.
Historiadores apontam que foi na Primeira Guerra Mundial que se registrou de maneira inédita o extremo uso da mecanização dos armamentos. Neste trágico momento da história mundial, os novos e sofisticados aparatos bélicos criaram inéditas condições de combate, que resultaram em um exponencial aumento no número de mortos.
Entretanto, em meio a este verdadeiro e frio “moedor de carne humana” que se tornou aquele conflito, autores sugerem que ali foram testemunhados pela última vez, com maior expressividade nas histórias dos conflitos bélicos da humanidade, exemplos ligados a certos aspectos de compromissos de honra, condutas positivas, gestos de fidalguia e alguma humanidade entre combatentes adversários.
O capitão do Exército Britânico Robert C. Campbell estava lotado no 1º Batalhão do East Surrey Regiment quando teve início o conflito na Europa. Ele desembarcou no porto de La Havre, na França, e seguiu para uma posição perto do Canal Mons-Condé, no noroeste daquele país, perto da fronteira franco-belga e se envolveu em uma série de combates que ficou conhecido como Batalha das Fronteiras.
A unidade militar de Campbell estava defendendo o flanco esquerdo do exército francês contra os alemães que avançavam, quando a sua tropa foi atacada em 23 de agosto de 1914. Durante este combate o jovem capitão de 29 anos foi atingido por estilhaços de artilharia, tendo ficado com um braço quebrado e sido gravemente ferido na cabeça. Na sequência foi capturado.
Campbell foi transferido para um hospital militar na cidade de Colônia, onde foi tratado dos seus ferimentos antes de ser enviado para o campo de prisioneiros de guerra em Magdeburg, na Saxónia, Alemanha, onde ficou detido com cerca de 900 outros oficiais britânicos e franceses.
Com o passar dos meses, apesar das cicatrizes e algumas sequelas no braço, Campbell se recuperou e seguia suportando o tédio, a privação e o abuso no cativeiro. Tudo isso era aliviado com a chegada de cartas e encomendas vindas de casa.
Durante a Primeira Grande Guerra, cerca de 170.000 britânicos foram feitos prisioneiros pelos alemães. Um cartão posta, ou uma carta era geralmente a única ligação entre o prisioneiro e sua família em casa – Fonte – http://www.worldwar1postcards.com/ww1-prisoners-of-war-postcards.phpEra uma verdadeira tábua de salvação tornada possível graças aos esforços heroicos e incansáveis do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
Algo Quase Fictício
Mas em 1916, Campbell recebeu uma carta com uma triste notícia: sua tia Gladys lhe escreveu informando que a sua mãe Louise estava com câncer e tinha muito pouco tempo de vida.
O capitão inglês estava longe de sua casa e de sua amada mãe, mas decidiu realizar uma desesperada tentativa para tornar possível uma visita, hoje vista como algo quase fictício: Campbell decidiu escrever uma carta para o Kaiser Wilhelm II, o então Imperador alemão e Rei da Prússia, pedindo-lhe por motivos humanitários uma permissão especial para ir a Inglaterra visitar sua mãe pela última vez e lhe dizer adeus.
Kaiser Wilhelm II – Fonte – Verlag von Gust. Liersch & Co. Berlin S.W.
O comandante do campo de prisioneiros de Magdeburg parece ter sido naquele momento um homem extremamente compreensivo diante da situação, pois ele enviou a carta de Campbell através da cadeia de comando militar do exército germânico, com sua própria recomendação de urgência e emitindo a opinião que deveria ser concedido o pedido de liberdade condicional temporária.
Contrariando quaisquer expectativas de êxito, surpreendentemente o soberano alemão respondeu positivamente à petição, permitindo ao capitão Campbell duas semanas para visitar a sua mãe em Gravesend, no condado de Kent, situado no sudeste da Inglaterra.
Gravesend, condado de Kent, sudeste da Inglaterra – Fonte – http://www.bbc.co.uk
O Kaiser Wilhelm II tinha apenas uma condição: Para ser liberado Campbell deveria dar a sua palavra de cavalheiro e oficial do Exército Britânico que voltaria para o campo de prisioneiros após terminada a visita.
Robert Campbell deu sua palavra ao Imperador.
Um Homem de Palavra
O notável exemplo de honestidade em tempo de guerra foi descoberto pelo historiador inglês Richard Van Emden, como parte de uma pesquisa para o seu livro “Meeting the Enemy: The Human Face of the Great War”, não lançado no Brasil.
Segundo o pesquisador e escritor inglês, a incrível história veio à tona após pesquisar a correspondência entre o Foreign Office, o Ministério das Relações Exteriores britânico, com os seus homólogos alemães. Segundo Van Emden o único vínculo que havia na licença do capitão Campbell era apenas a sua “palavra” como um oficial do exército, pois não foi encontrado a assinatura do militar inglês no acordo em nenhum papel.
Os Arquivos Nacionais britânicos também contém documentos que mostram o envolvimento da Embaixada dos Estados Unidos na Alemanha para levar a bom termo o acordo entre a as autoridades alemãs e inglesas. Vale ressaltar que os Estados Unidos só entrariam em combate na Primeira Guerra em 1917.
Além dos dias de licença, os alemães concederam ao capitão Campbell dois dias em cada sentido para sua viagem até Gravesend. E assim – em 5 de novembro de 1916 – o inglês seguiu de trem pela Alemanha para a neutra Holanda, onde em Rotterdam atravessou de barco o Canal da Mancha e chegou na casa de sua espantada mãe em 7 de novembro.
Controvérsias
Vale ressaltar que o governo britânico desaprovou completamente aquela liberdade condicional, assim como alguns oficiais servindo na Frente Ocidental e souberam do caso.
Para os militares britânicos que lutavam nas trincheiras, a ideia de prometer algo ao Kaiser Wilhelm II era algo que, independente da razão, não merecia ser mantido. Tanto assim que um caso semelhante ao do capitão inglês nunca mais voltou a acontecer.
O governo britânico soube pela primeira vez da liberdade condicional de Campbell em 6 de novembro, quando ele já estava a caminho de casa, por meio de um telegrama da embaixada americana em Berlim, que retransmitia uma mensagem do governo alemão.
Tropa: Capitão Campbell estava entre os militares Aliados capturadas logo no início da guerra – Fonte – bhttp://www.dailymail.co.uk/news/article-2410059/WW1-soldier-Captain-Robert-Campbell-freed-prison-camp-dying-mother-kept-promise-return.html#ixzz4CWazGwVj
Enquanto Campbell ainda estava com sua mãe em Gravesend, os alemães, usando novamente os diplomatas americanos como intermediários e citando a liberdade condicional de Campbell, pediram aos britânicos a permissão para organizar a liberdade temporária do prisioneiro de guerra Peter Gastreich, de 25 anos de idade, detido na Ilha de Man, cuja mãe também estava morrendo. Infelizmente o Departamento de Guerra britânico não respondeu com a mesma fidalguia e Gastreich continuou detido.
Para o escritor Richard Van Emden os militares britânicos da época não poderiam reconhecer a liberdade condicional do capitão Campbell como um precedente para tais concessões. Ademais eles não foram consultados antes da licença ter sido concedida a este oficial pelo Governo Alemão e não teriam aceitado tal proposta se ela fosse feita antecipadamente, comentou o pesquisador.
Para muitos ingleses na época era quase inacreditável que o capitão Campbell fosse capaz de retornar. Mas a decisão de voltar para Alemanha era uma questão de foro pessoal. Então, fiel à sua promessa ao soberano alemão, Campbell voltou para o campo de prisioneiros em Magdeburg.
Em fevereiro de 1917, quando o capitão inglês ainda estava na prisão, sua mãe faleceu.
Escapando Novamente e Tocando a Vida
Mas isso não é o fim da história.
Consta que muitos dos companheiros de Campbell no campo de prisioneiros de guerra em Magdeburg teriam desprezado seu ato, depois dele haver conseguido um verdadeiro golpe de sorte para sair da miséria que eles ainda eram obrigados a suportar.
Aparentemente, como uma espécie de compensação pela sua atitude, além de obedecer ao preceito que os prisioneiros de guerra são obrigados a tentar escapar de seus inimigos para ocupar o máximo de seus recursos humanos, Campbell imediatamente começou a trabalhar em uma fuga.
Pelos próximos nove meses este militar e outros prisioneiros cavaram um túnel para fora do campo e conseguiram escapar. De acordo com o autor Van Emden, Campbell foi recapturado perto da fronteira holandesa e voltou para Magdeburg, onde passou um ano em cativeiro antes do fim da guerra.
Na foto vemos um posto de observação do Royal Observer Corps (ROC) durante a Segunda Guerra Mundial, igual aos que o capitão Robert Campbell comandava na Ilha de Wight. Na foto em um posto do ROC, vemos a esquerda, usando um telefone de peito, P.C. “Lofty” Austin, um ex-representante comercial e ex-jogador de futebol do Tottenham Hotspur, que relata aos seus superiores as informações coletadas por seu colega C.E. “Smudge” Smith, que trabalha em um instrumento de plotagem em Kings Langley, Hertfordshire, Inglaterra Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/Dowding_system#/media/File:The_Royal_Observer_Corps,_1939-1945._CH8215.jpg
Campbell esteve no Exército Britânico até 1925, depois se mudou para a Ilha de Wight, no Canal Inglês. Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu em 1939 ele se realistou e serviu como observador-chefe do Royal Observer Corps na região onde morava. Seu trabalho era observar, registrar e informar a passagem das formações de aviões de combate da Luftwaffe que se dirigiam para a Inglaterra.
O capitão Robert C. Campbell morreu na Ilha de Wight aos 81 anos, em 1966, 50 anos depois da promessa feita ao Kaiser Wilhelm II.
Muitas pessoas podem ver esta história como sendo um exemplo nobre e galante de “convivência positiva” entre beligerantes. Mas é possível que outros observem de uma forma totalmente diferente.
Certamente a história do capitão do Exército Britânico Robert Campbell é um reflexo delirante de certas atitudes pré-guerra e códigos de conduta que, em 1916, já tinham sido pisoteados na lama das trincheiras, massacrados na terra de ninguém e envenenados por nuvens de gás mostarda.
Bem como também não havia neste caso nenhuma qualidade redentora no ato do Kaiser Wilhelm II. Provavelmente foi apenas mais um capricho autoindulgente de um homem mimado, emocionalmente instável e impetuoso.
Quanto a Robert Campbell eu fiquei feliz ao descobrir que ele conseguiu ver sua mãe antes de morrer. Era importante para ele e para ela.
O russo Serguei Prokúdin-Górski (1863-1944) tralvez seja um fotógrafo desconhecido até mesmo de muitos fotógrafos, mas foi este russo que desenvolveu as técnicas para a realização das primeiras fotografias coloridas. Em 1905, Prokudin-Gorskii concebeu o grande projeto de documentar, com fotografias a cores, a enorme diversidade de história, cultura e avanços do Império russo, para ser utilizado nas escolas do Império.
Dorrit Harazim é uma das mais célebres e respeitadas jornalistas do Brasil, com passagem por publicações como as revistas piauí, Zum e Veja. Agora, pela Companhia das Letras, lança o seu primeiro livro, O Instante Certo,que reúne textos em que conta as histórias de algumas das mais célebres fotografias já feitas. Com o olhar voltado para os aspectos humanos das imagens, Dorrit enxerga para além de jogos de luzes e sombras, mirando sempre nas narrativas que as fotografias por vezes revelam e por vezes ocultam.
Leia a seguir um trecho do livro em que Dorrit fala das fotografias de Sergei Prokudin-Gorskii, que registrou em cores paisagens e pessoas da Rússia.
Raras vezes o título de um livro foi tão feliz. Nostalgia, o volume de 320 páginas com imagens laboriosamente captadas pelo fotógrafo russo Sergei Mihailovitch Prokudin‑Gorskii no início do século XX, é uma experiência quase sensorial. Ele faz renascer um regime moribundo — no caso, o vasto império do czar Nicolau II — em todo o seu esplendor e dimensão.
Nostalgia (editora Gestalten) é uma versão em livro da monumental obra do pioneiro da cor. Tornou‑se assim possível apreciar também em papel impresso imagens que até então só podiam ser admiradas on‑line ou precisavam ter os negativos em lâminas de vidro projetados em alguma superfície.
Em se tratando de Prokudin‑Gorskii, nem poderia ser diferente. Tudo na trajetória desse cientista‑inventor da era pré‑Revolução Bolchevique é incomum, empolgante e sobretudo lento. A começar pela milagrosa ressurreição digital de sua obra pela Biblioteca do Congresso americano, que levou mais de meio século para ser realizada.
Sergei Mikhailovich Prokudin‑Gorskii pertenceu a uma das antigas famílias da nobreza russa cujos ancestrais serviram o país por cinco séculos. Só no XIX haviam participado da derrota para Napoleão em Austerlitz, da desforra na Guerra Patriótica de 1812 e da Guerra da Crimeia. Os interesses do jovem Sergei, contudo, passavam longe de qualquer farda. Embora tivesse estudado física, matemática e química, além de ter cursado a Academia Imperial de Medicina, sua curiosidade maior era pela fotografia, então ainda uma arte e ciência em construção.
Ele tinha apenas dois anos em 1861, quando o físico inglês James Clerk Maxwell realizou seu histórico experimento de três filtros com que obteve a primeira imagem fotográfica colorida. Era precária, porém revolucionária. Ao longo das quatro décadas seguintes os melhores profissionais europeus, inclusive Prokudin‑Gorskii, que já se tornara fotógrafo com estúdio próprio, se desdobraram em experimentos para obter uma gama de cores mais naturais, com nuances intermediários.
Prokudin‑Gorskii foi o mais arrojado deles. Graças aos conhecimentos de química, produziu uma emulsão ultrassensível para a fixação de cores em lâminas de vidro e encomendou a fabricantes alemães uma câmera específica que atendesse a suas necessidades.
Tinha em mente um projeto quixotesco: documentar toda a diversidade natural, arquitetônica e etnográfica do Império Russo. Queria viver da venda de cartões‑postais coloridos que retratassem a imensidão do país.
Faltava‑lhe apenas o essencial: dinheiro para a empreitada.
Liev Tolstói, em maio de 1908, quatro meses antes de seu 80º aniversário. Fotografado em Yasnaya Polyana por Sergey Prokudin-Gorsky. Esta é a primeira fotografia colorida tomada na Rússia.
Foi salvo por Liev Tolstói. Na primavera de 1908, por ocasião dos oitenta anos do já na época mundialmente cultuado autor de Guerra e paz e Anna Kariênina, Prokudin‑Gorskii obteve permissão para fotografá‑lo em sua propriedade de Yasnaya Polyana, perto de Tula.
Levou exatos seis segundos para fazer o único retrato em cores existente do escritor, que morreu dois anos mais tarde. Nele, Tolstói mais se assemelha a um patriarca do Velho Testamento que ao homem que Nicolau II no fim da vida chamou de “gênio do mal”. Reproduzido milhares de vezes desde então — em forma de cartão‑postal, pôster, páginas de revista ou jornal —, o instantâneo é o mais famoso retrato de um personagem da história da Rússia.
Kush-Begin, ministro do Interior de Bukhara, na Ásia Central, Império Russo, região do Uzbequistão
Maksim Górki, compatriota e admirador de Tolstói, assim descreveu a foto ao vê‑la pela primeira vez: “Lá está ele, como um deus. Não um deus do Olimpo, mas o tipo de deus russo que senta num banco de carvalho sob um limoeiro dourado. Não muito majestoso, porém mais astuto do que todos os outros deuses”.
O retrato de Tolstói e algumas fotografias que Prokudin‑Gorskii captou em curtas viagens ao mar Negro, Crimeia e Turquestão, abriram‑lhe as portas das cortes europeias e dos salões dos Romanov em Copenhague. Aproveitando‑se de uma audiência com Nicolau II, então imperador e autocrata de Todas as Rússias, o fotógrafo decidiu expor ao monarca seu ousado projeto: percorreria os domínios czaristas ao longo de dez anos, numa expedição que o levaria do Ártico à fronteira com a China. No final, a nação estaria documentada em 10 mil fotos.
O czar, ele próprio um fotógrafo amador, foi fisgado pela proposta. Além de atender à sua vaidade pessoal, a empreitada teria um propósito educativo — em cada escola elementar seria instalado um projetor, e os alunos teriam a oportunidade de conhecer a riqueza e as belezas nacionais em toda a sua vastidão e diversidade.
Antes de partir em campanha, o intrépido explorador obteve autorização para circular por áreas de acesso restrito a civis. Nicolau II também lhe cedeu um vagão transformado em câmara escura e laboratório que foi sendo acoplado aos trens utilizados para cruzar o dilatado território russo.
Dois homens sobre um tapete, em frente a um yurt, uma tenda ou cabana circular usada tradicionalmente pelos pastores nômades mongóis e de outros povos da Ásia Central, como os quirguizes – Fonte – http://www.loc.gov/pictures/collection/prok/item/prk2000002448/
Durante os dois primeiros anos Prokudin‑Gorskii mapeou a região industrial dos Urais, percorreu toda a extensão do rio Volga, enfronhou‑se pelo território da histórica Batalha de Borodino e fez duas expedições pela província Transcaspiana. Nos anos seguintes, outros rumos, novos mapas, mais fronteiras reveladas.
As imagens coletadas iam de castelos a catedrais, trabalhadores do campo a senhores feudais, barqueiros a emires, famílias judaicas a clãs de cossacos. Como seus conterrâneos, Prokudin‑Gorskii não fazia a mais vaga ideia de como eram os compatriotas das regiões mais distantes da Rússia — como viviam, que feições tinham, que dialeto falavam, quais crenças os moviam. Daí o valor histórico e insuperável de sua obra. As imagens, originalmente reunidas sob o título “Fotografias para o czar” e destinadas a documentar os vastos domínios do imperador, acabaram desempenhando um papel inesperado: conseguiram criar um embrião de identidade comum a uma população formada por povos que nada tinham em comum, exceto a geografia política.
A técnica da fotografia colorida da época, da qual Prokudin‑Gorskii foi o grande inovador, consistia em fazer três fotos monocromáticas em rápida sucessão, cada uma através de um filtro de cor diferente (azul, verde e vermelho). Para visualizar a imagem, faziam‑se projeções em tela (ainda não era possível fazer cópias em papel — o primeiro filme colorido Kodak só chegou ao mercado mundial trinta anos mais tarde). Os negativos em lâminas de vidro eram colocados num projetor oblongo de lente tripla, também fabricado sob encomenda para o fotógrafo, e reproduziam a imagem como sendo uma só, de cores vibrantes e saturadas.
Passados seis anos de expedições exaustivas e custosas, nem mesmo Prokudin‑Gorskii aguentou o tranco. Como os cofres do czar custeavam apenas o transporte, o resto da empreitada ficara por sua conta e risco. E, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914, ele se tornara obrigado a desviar a função do vagão‑laboratório para trabalhos militares.
Após a Revolução Bolchevique de 1917, sua sobrevida como membro do Comitê de Organização do Instituto de Fotografia e Fototécnica seria tênue. Por isso, precavido, decidiu fazer de uma missão à Noruega, uma viagem sem volta a sua terra. Levou consigo todos os negativos que conseguiu socar nas malas e terminou a vida como tantos russos anônimos que emigraram para a Europa Ocidental. Morreu na Maison Russe, nas cercanias de Paris, em 1944, pouco depois da libertação da cidade pelas tropas aliadas. Está enterrado no cemitério russo de Sainte‑Geneviève‑des‑Bois.
Foi então que começou a tortuosa trajetória póstuma de sua obra.
Durante todo o período de ocupação de Paris pelos nazistas, a coleção de Prokudin‑Gorskii permaneceu escondida em porões úmidos da capital francesa. Em 1948, no miserê europeu do pós‑guerra, os herdeiros do fotógrafo foram contatados por emissários da Fundação Rockefeller, interessada na aquisição do lote completo para doá‑lo à Biblioteca do Congresso americano. Fecharam negócio: por 4 mil dólares, doze volumes de folhas de contato indexadas pelo autor e 1902 negativos em lâminas de vidro trocaram de dono e atravessaram o Atlântico. Foram mantidos em Washington, intocados, por mais de cinco décadas.
Foi somente em 2001, portanto quase um século depois de Prokudin‑Gorskii ter superado as primeiras dificuldades técnicas da cor na fotografia, que a ciência encontrou na tecnologia digital a chave para enfim poder mostrar ao mundo a obra do mestre russo. Através de uma técnica chamada digicromatografia, a Biblioteca do Congresso restaurou todos os negativos em lâminas de vidro e colocou esse tesouro on‑line gratuitamente, em alta resolução, com a riqueza de informações e dados típica das grandes instituições culturais.
Desde então, uma exposição itinerante com uma seleta das 58 melhores imagens de Prokudin‑Gorskii percorre o mundo.
Faltava apenas uma versão da obra em livro, para quem não gosta de degustar fotos de arte em computador ou tablet. Nostalgia, com suas 283 imagens de página inteira, preenche a lacuna.
Sergei Mikhailovich Prokudin‑Gorskii retratou um império que não sabia estar às vésperas de sua maior revolução. Nada mais apropriado, portanto, que também ele, autor de obra tão arrojada, tenha sido o precursor de uma revolução — na fotografia e no seu foco.
Se Che Guevara fosse uma marca, estaria entre as mais valiosas do mundo até hoje, meio século depois da Revolução Cubana. A imagem dele continua em todo lugar – tatuagens, camisetas, na capa da SUPER… Por quê?
Como um guerrilheiro latino-americano se transformou em El Che, a lenda?
Quem é o homem de verdade por trás do mito?
É o que você vai ver aqui.
Ernesto e seu fim
Mas antes, vamos fazer uma escala onde a lenda começou a tomar forma: a Sierra Maestra, quartel-general dos rebeldes cubanos em 1958. Lá, Fidel, Che outros líderes resistiram a todo tipo de ataque. E foi de onde Guevara saiu para comandar uma batalha cujo resultado mudaria a história de Cuba. E marcaria a da humanidade.
O tenente boliviano Mario Terán empunhou seu fuzil semiautomático. Tinha diante de si o guerrilheiro Ernesto Guevara de la Serna, que havia sido capturado no dia anterior e agora esperava pela morte numa escola de La Higuera, sudeste da Bolívia. Terán tinha fama de durão, mas não conseguiu puxar o gatilho. Ficou paralisado ao ver o homem esquálido, o cabelo grudado, as roupas em trapos e os pés cobertos de lama seca. Estava ferido, mas intimidava. “Achei que ele se lançaria sobre mim. E, quando me olhou fixamente, fiquei tonto”, disse depois. Mas Guevara o encorajou: “Fique calmo e aponte bem! Você vai matar um homem”. Terán fechou os olhos e lançou a primeira rajada. Ernesto caiu com as pernas destroçadas, jorrando sangue. Terán disparou outra leva de balas. Uma delas perfurou o coração, fazendo-o parar com 39 anos. Era 9 de outubro de 1967. Data do nascimento da divindade Che Guevara uma figura lapidada pelo próprio Ernesto.
O médico errante
Ele nasceu como mais um garoto de classe média. Os pais descendiam de nobres europeus e latifundiários argentinos, mas não herdaram muito mais que os sobrenomes. Quando Celia de la Serna deu à luz seu primogênito em Rosário, em 1928, seu marido, Ernesto Guevara Lynch, investia numa plantação de erva-mate na província vizinha de Misiones.
Lynch era um empresário mambembe: uma hora plantava mate, na outra construía iates, e aos poucos foi torrando as posses da família.
Para complicar, o filho tinha saúde precária. “A asma furiosa de Ernestito determinou grande parte de nossa vida. A cada dia ficávamos mais à mercê dessa maldita doença”, disse Lynch em 1967. O garoto passava dias na cama, sem poder ir à escola, e acabou aprendendo a ler com a mãe.
Nos anos 40, os negócios da família iam mal, e os Guevara foram tentar a vida na cidade de Córdoba. Lá, as garotas se encantavam com o bonitão tímido de ombros largos, que sabia francês, jogava rúgbi para superar a asma e se fantasiava de Gandhi no Carnaval. Ernesto era um galã diferente: enquanto os amigos caprichavam na roupinha engomada, ele andava de blusa larga e capa de chuva, declamando poesias e orgulhoso de não tomar banho o que lhe valeu o apelido de Chancho (Porco). Mas, vai entender era dele que as meninas gostavam mais. “Todas nós estávamos apaixonadas por Ernesto”, disse depois Miriam Urrutia, colega dele naqueles tempos.
A familia Guevara completa em Mar del Plata. O futuro Che é o primeiro a esquerda – Fonte – http://aristeguinoticias.com
Mas quem inaugurou oficialmente o rapaz, na época com 14, 15 anos, não foi nenhuma delas, e sim a empregada de um amigo, conhecida como La Negra Cabrera. No dia da primeira vez, os amigos espreitaram pelo buraco da fechadura e viram que Ernesto interrompia o ato, de tempos em tempos, para aliviar ataques de asma um espetáculo que virou motivo de piada entre a turma. Mas não para a senhorita Cabrera, que continuou encontrando Ernesto por anos.
No curso de medicina, em Buenos Aires, ele chamou a atenção dos colegas por outro motivo: a falta de ativismo político. “O país vivia um golpe militar atrás do outro, mas Ernesto se recusava a protestar nas ruas. Apesar da curiosidade pelo socialismo, ele até então não demonstrava qualquer inclinação por se afiliar à esquerda”, diz o jornalista americano Jon Lee Anderson, autor do livro Che Guevara – Uma Biografia. O que fascinava mesmo o rapaz eram os livros e as viagens. Lia de tudo de Freud a Aldous Huxley, filosofia grega e indiana, resumindo as ideias em seu Dicionário Filosófico. E gostava de enfiar o pé na estrada: antes de terminar a faculdade, acoplou um motor numa bicicleta e rodou pelo seu país.
Ernesto Guevara de la Serna no curso de medicina na Universidade de Buenos Aires – Fonte – http://aristeguinoticias.com
Assim Ernesto cresceu na Argentina como um cara qualquer. Che ainda estava adormecido lá dentro. E só começaria a acordar quando ele saiu de moto pela América do Sul com o amigo Alberto Granado. Nessas andanças, pediu comida e abrigo em beira de estrada, atravessou o rio Amazonas de balsa e estreou como médico numa colônia de leprosos no Peru. Enquanto isso, afiava suas leituras de Karl Marx e de filósofos socialistas, como o peruano José Mariátegui e a polonesa Rosa Luxemburgo. E, à medida que se distanciava da Argentina branca e metropolitana, descobria a outra cara do continente.
“-Quando fizemos a viagem, tudo o que tínhamos lido se multiplicou por 100”, recordaria Granado anos depois.Uma coisa é ler sobre a miséria e a perseguição política; outra é ver um casal passando fome e frio.
Alberto Granado e Ernesto Guevara na sua primeira viagem pela América Latina (1951-1952) – Fonte – http://aristeguinoticias.com
Granado voltou à vida de médico, mas Ernesto seguiu sua jornada rumo à América Central. A essa altura, já se dizia discípulo de San Karl (como chamava Marx) e queria viver na Guatemala, onde o presidente Jacobo Arbenz iniciava uma reforma agrária. Quando chegou lá, com 25 anos e US$ 3 no bolso, ele conheceu a pessoa que mudaria sua vida: a peruana Hilda Gadea, líder exilada da Aliança Popular Revolucionária Americana. Hilda se apaixonou por ele, mas nunca foi correspondida à altura. Como o próprio Che confessou anos depois a um amigo russo, os dois só se casaram em 1955 porque ela engravidou. A relação entre os dois tinha um caráter mais fraterno e ideológico que romântico ou erótico, diz o cientista político mexicano Jorge Castañeda, autor da biografia Che Guevara.
O mais importante, porém, é que Hilda o apresentou a Nico López e outros exilados cubanos que tinham atacado o Quartel de Moncada, em Cuba, na esperança de deflagrar uma rebelião contra o ditador Fulgencio Batista. Foram eles que o apelidaram de Che (tirando sarro da coisa de os argentinos chamarem os outros de chê, como os gaúchos fazem). Os cubanos lhe contaram sobre as proezas dos irmãos Fidel e Raúl Castro, líderes do movimento, presos após o assalto. “Pela primeira vez, Ernesto se identificava abertamente com uma causa política”, diz Jon. Boa ou má, ele tinha escolhido a revolução esquerdista da Guatemala.
Os EUA não estavam dispostos a tolerar um regime socialista em seu quintal. Assim, quando Arbenz expropriou os latifúndios da empresa americana United Fruit Company, a resposta da CIA não tardou: pilotos mercenários bombardearam a capital para forçar a renúncia do presidente. Ernesto ficou excitado sob o fogo. “Me senti envergonhado por me divertir como um macaco”, confessou à mãe numa carta, dizendo que Arbenz era corajoso e morreria defendendo o país.
E aí veio a mudança: até então um espectador anônimo, Ernesto resolveu partir para a ação ao ver a inércia do governo. “Pegou lápis e papel e começou a traçar um sistema defensivo, com batalhões de operários”, diz o jornalista argentino Hugo Gambini na biografia El Che Guevara. Ele acreditava que a revolução só sobreviveria se armasse o povo. E saiu por bares e alojamentos estudantis chamando as pessoas a pegar em armas. Não funcionou.
Che então se juntou a uma milícia armada da juventude comunista, esperando chegar à frente de batalha. Depois foi trabalhar em um hospital onde mais uma vez se ofereceu para combater. Resultado: ficou conhecido como vermelho, acabou expulso do emprego e precisou viver escondido na casa de conhecidos. Sua vida corria perigo. O diplomata argentino Nicácio Sánchez advertiu que parasse de defender a luta armada, pois estava na mira de agentes americanos, diz Gambini. Além do mais, Arbenz tinha renunciado e não havia mais nada a fazer. Essa frustração marcou Ernesto.
Por uns anos, ele deu fim a sua busca filosófica. Declarou que os EUA eram inimigos da humanidade e se transformou num jovem mais dogmático e doutrinário, afirma Jon. Isso lhe deu forças para se converter em Che, deixando para trás o Ernesto Guevara. A embaixada argentina ofereceu repatriá-lo, mas ainda não era hora de voltar para casa. Sua bússola apontava para o México, o santuário dos exilados políticos da América Latina. Lá ele conheceria Fidel Castro e descobriria o caminho rumo à glória e à morte.
Guerrilheiro
O encontro aconteceu no apartamento da cubana Maria Antonia González, uma espécie de quartel-general dos revolucionários. Depois de 22 meses preso em Cuba, Fidel acabara de chegar à capital mexicana para reorganizar seu grupo guerrilheiro o Movimento 26 de Julho (de 1953, data do assalto ao Moncada) e arrecadar fundos para a compra de armas com outros cubanos que queriam derrubar Batista.
Quando convidou o excitado argentino a participar da expedição, ele topou na hora. Seria o médico da tropa.
Na verdade, a decisão final não foi tomada naquela noite. Em cartas à família, ele ainda expressava seu desejo de continuar viajando e, quem sabe, estudar em Paris. Mas tudo isso ficou para trás ante o novo projeto. “A paixão de Fidel por Cuba e as idéias revolucionárias de Guevara se uniram como a chama de uma centelha”, disse Lucila Velazquez, ex-namorada de Fidel.
Olhando bem, Che e Fidel pareciam dois opostos. Um era médico, o outro, advogado. Um vinha de uma família aristocrata falida, o outro era filho de um proprietário de terras emergente. Che nunca tinha feito militância, ao passo que Fidel, apenas dois anos mais velho, já despontava como líder do Partido Ortodoxo (antigovernista) em Cuba. Guevara era um marxista convicto, enquanto Fidel ainda era contra o comunismo. Por outro lado, havia semelhanças: ambos tinham sido mimados pela família, compartilhavam um inimigo comum (os EUA) e queriam fazer revoluções.
O treinamento do M-26-7 ficou a cargo do cubano Alberto Bayo, antigo oficial do exército republicano espanhol. Durante três meses, Bayo ensinou-lhes os segredos da guerrilha na fazenda Santa Rosa, que reproduzia as condições geográficas da Sierra Maestra, em Cuba.
A prática de tiro ao alvo em 1956. A partir do verão de 1955, Ernesto se juntou ao destacamento de cubanos no México, em preparação para a guerra revolucionária em Cuba contra a brutal ditadura de Fulgencio Batista – Fonte – http://www.cubadebate.cu
Eles aprenderam atirar com pistola, rifle e metralhadora, fabricar bombas, explodir barricadas, e se camuflar na selva. Apesar da asma, Che foi o melhor aluno do grupo um belo estímulo para quem havia sido dispensado do Exército argentino. Assim, no final daquele ano o grupo zarpou para Cuba a bordo do iate Granma (do inglês grandmother, avó). Pequeno e instável, o barco não deveria levar mais de 20 guerrilheiros. Acabou suportando 82, além de comida e um arsenal que incluía dois canhões antitanque, 35 rifles, 55 fuzis e 40 metralhadoras. Arriba la revolución!
A semente do mito
A missão começou mal. Depois de 7 dias vomitando no iate, os revolucionários foram descobertos ao se aproximar da costa cubana. Nos 3 dias seguintes, caminharam em pântanos tentando despistar os aviões de Batista, comendo só cana-de-açúcar. Finalmente alcançaram o lugarejo de Alegria del Pio, onde foram surpreendidos pelo fogo inimigo. Che se viu num dilema. “Tinha diante de mim uma caixa de remédios e outra de balas, e as duas eram pesadas demais para que as carregasse juntas. Apanhei a caixa de balas”, diz ele no livro Nossa Luta em Sierra Maestra.
Não se sabe o número exato de sobreviventes do Granma. Dos 82 homens, Jon Lee Anderson estima que 22 se reagruparam na sierra (os relatos oficiais falam em 12, numa alusão aos apóstolos). Certo é que o grupo aproveitou o isolamento na mata fechada para se recompor aos poucos. Atraiu novos combatentes e recebeu apoio dos camponeses, que ofereciam suas choças como esconderijo e seus cavalos para matar a fome. Não só eles: salvo a alta burguesia, o país inteiro estava unido contra Batista. A Revolução Cubana não foi feita apenas pelo M-26-7 mas também por outras forças, como o Partido Socialista Popular (comunista) e os social-democratas, que tinham em comum a rejeição ao ditador.
O sujeito estava praticamente sozinho: o exército de Batista se recusava a sair dos quartéis. E, quando saía, não queria combater. Sofria de desânimo generalizado e já não contava com o apoio dos EUA.
Mesmo assim, eram 10 mil soldados contra algumas centenas de guerrilheiros que tinham de se virar para arranjar armas. Um dos lugares para consegui-las era o quartel El Uvero. E foi lá, num ataque para tomar o quartel em maio de 1957, que o mito de Che germinou entre os guerrilheiros. Ernesto se destacou no combate e no cuidado de feridos dos dois lados, e Fidel o promoveu a comandante da 2a coluna do Exército Rebelde. Só Castro tinha um posto tão alto. Che montou sua base de operações em El Hombrito, onde improvisou um hospital, deu aulas de alfabetização a camponeses, fabricou granadas e editou o jornal El Cubano Libre. Além do trabalho na retaguarda, ele lutou na linha de frente e se tornou especialista em destruir pontes para bloquear o acesso de guarnições inimigas. Os jornalistas ficaram fascinados com o comunista radical que se tornava o emblema da revolução.
As mulheres também. Para variar, se derretiam por ele. Che não costumava se aproveitar disso e evitava que seus homens frequentassem bordéis. Mas mandou a ética às favas com Zoila Rodríguez, uma bela mulata de 18 anos. Depois, uma companheira de armas, Aleida Marsh, viraria também companheira de lençol.
Feliz ano novo! Os guerrilheiros e a chegada de 1958 em plena selva. Havía pouco mais de um ano que iniciaram a sua luta e exatamente um ano depois conseguiriam seu triunfo – Fonte – http://aristeguinoticias.com
De volta ao front: além de Che, Raúl Castro, Camilo Cienfuegos e Juan Almeida ganharam postos de comando, e assim os rebeldes foram ocupando as montanhas em direção às cidades. No fim de 1958, as tropas do governo estavam cercadas. Logo a cidade de Santa Clara cairia. E viria o desfile de tanques em Havana.
Herói fora, vilão em casa
Em 1959, a revolução finalmente triunfou o problema era o que fazer com ela. Algumas centenas de homens foram fuzilados na fortaleza de La Cabaña muitos sem ter nada a ver com a história. Che incumbiu Miguel Angel Duque de Estrada de dirigir a Comissão de Depuração dos suspeitos de crimes de guerra, embora a maioria dos detidos não passasse de chivatos (delatores). Nem sabíamos o nome de todos os presos. Mas tínhamos um trabalho a fazer, disse Estrada. É nesse ponto que os historiadores se dividem. Alguns acusam Che de ser um carniceiro no cargo de promotor supremo de La Cabaña. Outros dizem que ele perdoou quantos pôde.
O certo é que, com Hilda Gadea, Ernesto não foi exatamente sensível. Enquanto ele dava seus tiros, sua mulher tinha ficado no continente cuidando da filha do casal. Aí, logo que a guerra acabou, Hilda correu para Cuba. Mas Che não tinha boas notícias: avisou que queria o divórcio. Estava pronto para casar com Aleida, que lhe daria mais quatro filhos.
Quando a poeira assentou, Ernesto virou presidente do Banco Nacional de Cuba o Banco do Brasil de lá. Quem diria: o argentino errante agora era banqueiro. Fidel sabia que Che entendia pouco de economia, mas não confiava em nenhum economista para o cargo. Erro: Ernesto reduziu o salário dos funcionários, que eram considerados honestos e competentes. Muitos pediram demissão, mas ele não ligou, dizendo que estivadores e camponeses dariam conta do trabalho. Depois percebeu na prática que não, eles não tinham como, e mudou de ideia. Mesmo com fiascos desse tipo no currículo, acabou nomeado ministro da Indústria sabendo que também não aguentaria muito tempo.Ficaremos cinco anos aqui e depois vamos embora fazer uma guerrilha, disse a um assessor.
Che Guevara como ministro da Industria de Cuba – Fonte – cheguevara.forumfree.it
Vocação à parte, essa foi a época de ouro de Che na ilha. Sua popularidade bateu no auge com o combate da baía dos Porcos, onde seus soldados frustraram um plano da Casa Branca para derrubar Fidel. Publicou livros como Guerra de Guerrilhas e fez de seu gabinete uma passarela de intelectuais. Por ali desfilou gente como o escritor argentino Ernesto Sabato e o filósofo francês Jean-Paul Sartre, que mais tarde o exaltaria como o ser humano mais completo da nossa época. A imagem de Che começava a ficar maior que a da revolução: ele agora era o guerreiro ilustrado e francófono, o estrategista bonito e cobiçado pelas mulheres. Em suma, um popstar adulado por gente tão distante quanto o político mexicano Lázaro Cárdenas e o ex-presidente Jânio Quadros que o condecorou com a Ordem do Cruzeiro do Sul.
O presidente brasileiro Jânio Quadros condecora Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. Capa da extinta revista “Manchete” – Veja em – https://br.pinterest.com/pin/336714509614116260/
Mas ele logo se sentiu sozinho na ilha. Fez inimigos dentro do partido, e sua relação com Fidel se complicou. Che era um sujeito incômodo. Não se calava nunca, diz o historiador argentino Felipe Pigna. Já não aceitava a ingerência da URSS em Cuba, cada vez mais forte depois do bloqueio americano e da expulsão da Organização dos Estados Americanos.
Enquanto as divergências aumentavam, o mito de Che ganhava alcance mundial. Suas viagens eram acompanhadas de multidões gritando “Cuba sim, ianques não!”, como aconteceu na cúpula da OEA em Punta del Este, no Uruguai. No discurso que fez na sede da ONU, em 1964, ele deixou claro sua opção pelos países pobres não alinhados; e, logo depois, na Argélia, acusou a URSS de ser cúmplice do imperialismo. Claro que isso enfureceu comunistas dentro e fora do Kremlin.
Che com filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em Cuba – Fonte – spotniks.com
De volta a Cuba, Che percebeu que não estava contra Fidel, mas tampouco com ele. Nem casamento nem divórcio, definiu. E então os dois chegaram a um acordo. Che queria continuar fazendo a revolução em outros países. Não nasci para ser ministro nem avô, já tinha dito. E Fidel deu sinal verde.
Tragédia anunciada
O Congo parecia o destino ideal: no coração da África, ele serviria para irradiar a guerrilha por todo o continente. Mas, quando chegou lá, em 1965, a principal insurreição já havia terminado. Sua única participação num combate acabou em derrota. Foi tudo a história de um fracasso, escreveu Che em seu diário. Pudera: ele quis repetir na África a epopeia da Sierra Maestra, mas acabou num país 20 vezes maior que Cuba e ceifado por lutas tribais.
Teve que dar ordens a comandantes que não queriam ir à frente de batalha e soldados que se recusavam a carregar suprimentos, dizendo “Mimi hapana motocar” (Não sou caminhão). Com o tempo, diziam “Mimi hapana cuban” (Não sou cubano). Che reconheceu: chegou lá sem ser convidado. Mas não desistiu. Saiu da África disposto a realizar seu sonho: fazer a revolução na Argentina. O problema é que nem a URSS e nem os Partidos Comunistas queriam saber de luta armada na América Latina. Os cubanos buscaram então uma alternativa que não resultasse em novo fracasso. E ainda precisavam convencer Che de que o país escolhido seria apenas uma escala rumo a sua terra natal. Acabaram optando pela Bolívia, cujo Partido Comunista manifestou menos rechaço à luta armada que os demais.
Che e seus companheiros na selva boliviana – Fonte – adst.org
Che chegou à Bolívia incógnito, disfarçado como um homem de 60 anos e com passaporte falso arranjado pelo serviço de inteligência cubano. Sofisticado, mas a operação foi outro tiro na água. Os índios bolivianos não se uniram aos guerrilheiros. Não entendiam o idioma nem objetivo deles naquelas terras. Ao contrário da Sierra Maestra, na Bolívia a guerrilha acabou denunciada pelos próprios camponeses. Eles sentiram que viera uma invasão, diz Pigna.
Bastaram 11 meses para que as tropas de Che fossem dizimadas. Um dos poucos sobreviventes, Dariel Alarcón Ramirez o comandante Benigno, acusou Fidel de ter abandonado Che à própria sorte. Assim, Castro teria se livrado do homem que o ofuscava em Cuba. Outros discordam, dizendo que Che nunca pretendeu suplantar Fidel. É provável que Fidel tenha decidido que um Che mártir na Bolívia serviria mais à revolução do que um Che vivo, abatido e melancólico em Havana. O primeiro permitiria a criação de um mito. O outro acarretaria enormes discussões e divergências, todas insolúveis, diz Castañeda.
Corpo de Che Guevara exibido por militares bolivianos – Fonte – g1.globo.com
Julgar Fidel incapaz de um cálculo de tamanha frieza e cinismo seria desconhecer os meios que garantiram sua permanência no poder por mais de 40 anos. Segundo Castañeda, Fidel não enviou o Che à morte. Nem o traiu. Nem o sacrificou. Só deixou que a história seguisse seu curso, com plena consciência de qual seria o desfecho.
Jon Lee e Pigna também concordam que Che se autocondenou à morte quando partiu para a Bolívia. Suas chances de vitória eram mínimas. O próprio Benigno notou que o Che seguiu uma estratégia irracional em seus últimos dias, quando a asma sugava suas últimas forças. Precisava-se de remédios, por que não ordenou que seus homens assaltassem uma farmácia? Na opinião de Benigno, Che pretendia se sacrificar num último e glorioso combate. Ele aconteceu na manhã de 8 de outubro, quando Che e seus homens se viram cercados por militares bolivianos na Quebrada del Churro, uma garganta cheia de arbustos.
O argentino disparou sua carabina até que ela levou um tiro no cano e ficou inutilizada. Uma segunda bala perfurou sua perna esquerda. Ernesto ainda tentou fugir pela margem da garganta, mas deu de cara com a arma do sargento Bernardino Huanca, que o ouviu dizer: Não atire. Valho para você mais vivo do que morto.
Alvoroçados com a captura, os militares levaram o guerrilheiro para uma escola de La Higuera. No dia seguinte, o tenente Mario Terán se ofereceu para dar cabo dele. Ansioso por vingar a morte de três companheiros, não teve dúvidas: escolheu um fuzil semiautomático. Matou o guerrilheiro Ernesto. Tirou a vida do argentino aventureiro, obstinado e devorador de livros. Só que deu à luz algo bem maior um mito ancestral, cuja história se repete desde o início dos tempos: o mito do herói para quem os ideais são algo acima da vida e da morte. O mito do santo que se sacrifica para salvar a humanidade. O semideus. O Cristo. Deu à luz Che Guevara.
Fonte – d3va.deviantart.com
Che Guevara nem Combate
Depois de conquistar adeptos na mata, o médico Ernesto Guevara parte para a batalha que selaria a vitória rebelde. E se torna Che, o mito.
Depois de virar mito, ele chegou ainda mais alto: tornou-se uma divindade. Como um garoto argentino de classe média e com espírito aventureiro conseguiu tanto mesmo tendo feito um monte de besteiras (e de atrocidades).
1. Recrutamento Estamos no ano de 1958. Gente do país todo peregrinava até a Sierra Maestra, aqui, para aderir à guerrilha. Tudo começara dois anos antes com cerca de 20 homens. Agora já eram centenas.
2. Treino Mesmo assim era pouco em comparação com os 10 mil homens do Exército cubano. Então os treinos eram intensivos, com bastante prática de tiro ao alvo, para que cada rebelde pudesse valer por soldados.
3. De grão em grão Os rebeldes esperavam ser atacados. Na selva, é bem mais fácil matar se você está na defensiva, já que quem avança tem de fazer isso em fila indiana. Atiradores nas árvores tinham a missão de alvejá-los. E campos minados também ajudavam.
4. Vira-casaca O exército de Batista era grande, mas desmotivado (quase todo cidadão cubano odiava o ditador). Então muitos soldados viraram a casaca e reforçaram a guerrilha.
5. Assaltos Fidel e seus generais, Raúl Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos, sistematicamente lideravam ataques a comboios do Exército. Objetivo: cortar o suprimento de armas aos quartéis e reforçar o arsenal da guerrilha.
6. Guerra urbana Fidel decidiu atacar: mandou Cienfuegos tomar a cidade de Yaguajay e Che dominar Santa Clara. Camponeses se juntaram aos guerrilheiros no caminho. Cienfuegos saiu com 60 homens e chegou com 450, mais do que o número de soldados em Yaguajay. Ernesto juntou 300. Só que 3,5 mil soldados esperavam por ele aqui, em Santa Clara.
7. Jogada de mestre O comando do Exército tinha mandado um trem com 400 soldados, 600 rifles, bazucas e canhões para reforçar Santa Clara. Che, esperto, ficou sabendo e destruiu os trilhos. O trem descarrilhou e os rebeldes acabaram armados até os dentes.
8. Franco-atiradores Fortalecidos pelas armas do trem, os homens de Che usaram táticas aperfeiçoadas na floresta: franco-atiradores em lugares altos, como a torre da igreja, aterrorizavam o inimigo. E bazucas detinham os tanques do Exército.
9. Fim de papo Depois de 3 dias de batalha, o Exército cubano se rendeu a Che Guevara. Fulgencio Batista viu que estava tudo acabado e, no dia seguinte, 1° de janeiro de 1959, fugiu do país. Fidel e Raúl, então, tomaram conta de Santiago de Cuba, perto da Sierra Maestra.
10. Rumo a Havana! Depois da vitória, as tropas de Cienfuegos se uniram às de Che em Santa Clara e todos partiram para o destino final: Havana. O caminho foi tranquilo: um passeio de caminhões, jipes e tanques tomados pelos rebeldes. E, quando chegaram à capital…
11. Na Sapucaí Che e Cienfuegos chegaram a Havana no dia 2 de janeiro de 1959 recebidos com festa. Fidel e Raúl viriam, e desfilariam, no dia 8. E os rebeldes tomavam o controle do país coisa que não largaram até hoje.
O menino Ernesto tinha uma sensibilidade distinta da dos colegas. Sempre saía em defesa dos mais fracos. Muitas vezes voltava da escola sem o casaco, pois tinha dado a alguém que precisava no caminho, diz o historiador argentino Felipe Pigna.
1952 – Médico gente boa Na viagem que fez com o amigo Alberto Granado pela América do Sul, Che trabalhou num leprosário no Peru. Foi sua estreia na medicina. Jogava bola com os leprosos e os acompanhava em excursões pela selva. Gratos, construíram uma balsa e lhe deram de presente.
1956 – Fiel aos princípios Foi preso no México com Fidel e outros cubanos por posse ilegal de armas. Mas não ficou quieto atrás das grades. Em vez de dissimular sua fé marxista, se vangloriou dela, tentando converter os guardas. Resultado: foi o último a sair da prisão, depois de 57 dias.
1956 – Melhor sobrado Apesar da asma, foi considerado o melhor aluno do grupo guerrilheiro treinado pelo militar cubano Alberto Bayo no México. Disparou 650 cartuchos e conquistou a admiração do professor. Sem dúvida, Guevara é o melhor aluno, anotou Bayo em seu livro de memórias.
1958 – Líder exemplar Ficava sempre na linha de frente dos combates e não media riscos para proteger seus homens. Alberto Castellanos, um dos soldados rebeldes, conta que Che correu em direção ao fogo inimigo para buscá-lo de volta quando ele estava sob perigo.
1959 – Senhor da guerra Esquadrões com 1.200 exilados cubanos financiados pela CIA tentaram invadir Cuba pela praia de Girón, na baía dos Porcos, esperando desestabilizar o governo de Fidel Castro. Mas a operação foi por água abaixo: soldados treinados por Che repeliram a invasão.
1959 – Executor justo Centenas de pessoas foram fuziladas nos seis meses em que Che ficou encarregado das execuções de presos políticos. Mesmo assim, alguns consideram que ele perdoou o quanto pôde: Até surpreende que a quantidade de execuções tenha sido tão pequena, diz Jorge Castañeda.
1959 – Salva a lavoura Imprimiu sua marca na lei de reforma agrária, promulgada antes de Cuba virar comunista. O texto foi muito além do projeto original de Fidel: proibiu o latifúndio e limitou as terras privadas em até 400 hectares. As propriedades seriam distribuídas entre os camponeses.
1960 – Cérebro Virou capa da Time. A revista americana disse: Castro é o coração da Cuba atual. Seu irmão Raúl é o primeiro a segurar a adaga da revolução. O presidente do Banco Nacional, Che Guevara, é o cérebro. Ele é o mais fascinante e o mais perigoso membro do triunvirato.
1961 – Incansável Quando se tornou um dos chefes do governo cubano, chegava ao escritório de manhã e só saía de madrugada. Tinha aulas de matemática, economia e russo. E trabalhava como voluntário, em tarefas braçais, aos domingos. Ele realmente via o trabalho como diversão, diz um amigo.
1967 – Mártir Depois da morte, o corpo de Che foi exposto no leito de um hospital boliviano. Com o rosto lavado pelos soldados, a barba aparada e a cabeça na lápide de concreto, sua imagem ficou parecida com a do quadro Lamentação sobre o Cristo Morto. Morreu o homem, nasceu o deus.
Fonte – d3va.deviantart.com
…E o Che vilão.
1943 – Muy amigo Ernesto se recusou a marchar na rua pela liberdade do amigo Alberto Granado, preso num protesto estudantil contra a ditadura. Disse que a marcha era um gesto inútil e os estudantes levariam uma surra com cassetetes e que só iria se lhe dessem um revólver.
1957 – Matador frio Durante a luta em Sierra Maestra, Che suspeitou que o camponês Eutimio Guerra estava traindo o grupo. Acabei com o problema dando-lhe um tiro com uma pistola calibre 32 no lado direito do crânio, com o orifício de saída no lobo temporal direito, escreveu Che em seu diário.
1959 – Psicopata Mandou matar um menino de 15 anos acusado de grafitar muros com mensagens contra Fidel. Quando a mãe foi pedir clemência, ordenou a execução imediata. Para alguns hitoriadores, casos como esse mostram como foi a atuação de Che ao julgar presos políticos.
Anos 60 – Ditador A revolução substituiu uma ditadura, a de Batista, por outra, comandada por Fidel, Raúl e Che. Em 1961, o país se tornou comunista. Milhares perderam suas propriedades muitos fugiram ou acabaram mortos. Por isso, hoje 20% dos 11 milhões de Cubanos vivem fora da ilha.
1961 – Moratória burra Quase enfiou Cuba num buraco financeiro quando decidiu romper com o FMI. Seu assessor Ernesto Betancourt advertiu: se pulasse fora, o país teria que pagar ao Fundo um empréstimo de US$ 25 milhões e ficaria sem um tostão até a próxima safra de açúcar. Só aí Che voltou atrás.
1962 – Diplomacia zero No auge da Guerra Fria via os EUA como inimigos. E a URSS também. Criticou publicamente os russos por não apoiarem a industrialização da ilha. Chegou a acusá-los de cúmplices dos americanos a maior ofensa que os soviéticos poderiam ouvir.
1962 – Estratégia suicida A URSS instalou mísseis na ilha, apontados para o território americano. Os EUA exigiram a retirada, e o mundo ficou à beira de uma guerra nuclear. Os soviéticos voltam atrás. Fidel aprovou. Mas Guevara não: queria os mísseis lá, custasse o que custasse.
1962 – Suicida mesmo! Defendeu a guerra nuclear dizendo que ela era necessária. Foi um pouco de excesso de oratória, talvez dentro da tradição latina de exagerar, diz Jon Lee Anderson. Ok: Che cresceu numa época apocalíptica, em que o assunto bomba atômica era banal. Mas exagerou mesmo.
1962 – Plano furado Guevara enviou o jornalista argentino Jorge Masetti (que o havia entrevistado na Sierra Maestra) para formar uma base guerrilheira na Argentina. A missão era preparar o terreno para que Che então assumisse o comando. Mas o grupo foi liquidado pelo governo argentino.
1967 – Morte patética Ao levar a guerrilha para outros cantos do mundo, se desligou da realidade. Na Bolívia, não sabia se teria apoio popular ou condições de vencer. Não teve nenhum dos dois. E morreu encurralado. Do ponto de vista de quem reprova Che, seu final não poderia ter sido mais humilhante.
Para saber mais Che Guevara – Uma Biografia Jon Lee Anderson, Editora Objetiva. Che Guevara – A Vida em Vermelho Jorge Castañeda, Companhia das Letras.
A cachaça é testemunha das transformações sociais e econômicas por que o Brasil passou
Ela praticamente nasceu junto com o Brasil e tornou-se a mais nacional das bebidas. Em cinco séculos de História, serviu como combustível para os bandeirantes suportarem as longas e insalubres viagens aos sertões, foi utilizada como moeda de troca de escravos na África, desencadeou revoltas contra a Coroa portuguesa e tornou-se símbolo de nacionalidade em momentos políticos e culturais importantes, como a Independência do país e a Semana de Arte Moderna de 1922. Sim, estamos falando da cachaça, que completa 500 anos este ano.
Os documentos são esparsos, mas, de acordo com os especialistas, os primeiros goles da branquinha foram dados a partir de 1516 em algum engenho construído na feitoria de Itamaracá, em Pernambuco. A cana-de-açúcar já tinha chegado ao país alguns anos antes, em 1504, pelo fidalgo português Fernando de Noronha, que recebeu a concessão da ilha, batizada posteriormente com o seu nome, para a exploração do pau-brasil.
“A cachaça foi uma das protagonistas da civilização do açúcar, que marcou um dos mais importantes períodos do desenvolvimento econômico do Brasil Colônia, principalmente no tempo das capitanias hereditárias. Pode-se dizer que, historicamente, a cachaça foi testemunha ocular das transformações econômicas vivenciadas pelo Brasil”, diz o engenheiro Jairo Martins Costa, especialista no assunto e autor do livro Cachaça – O Mais Brasileiro dos Prazeres. Segundo ele, a cultura do açúcar, e por consequência da cachaça, começou bem antes da expedição do colonizador Martim Afonso de Souza no litoral paulista, em 1532.
Além de pesquisas arqueológicas conduzidas por universidades na Bahia e Pernambuco em antigos engenhos de açúcar, um documento da alfândega de Lisboa aponta o pagamento de imposto sobre um carregamento de açúcar, vindo de Pernambuco, datado de 1526. “É a prova de que a produção começou muito antes de São Vicente.
Escravos moviam as moendas que produziam o caldo que, fermentado, gerava a cachaça, um dos principais produtos de exportação do Brasil colonial. – Fonte – www2.uol.com.br
O que aconteceu a partir de 1532 foi a forte expansão da civilização do açúcar”, diz Costa, lembrando uma frase do folclorista Câmara Cascudo no seu livro Prelúdio da Cachaça: “onde mói o engenho, destila o alambique”.
CACHAZA
Alguns mitos se esvaem ao estudar a história da branquinha. Um deles é que a bebida teria sido descoberta por acaso por escravos durante o processo de fermentação da canade-açúcar. A evaporação do caldo teria condensado ao bater no teto do engenho e daí teria nascido o nome “pinga”.
Segundo os estudiosos, não foi bem assim. As primeiras produções foram planejadas pelos colonizadores. Uma evidência é que o nome mais aceito para cachaça vem do espanhol “cachaza”, uma bagaceira de baixa qualidade produzida pelos ibéricos a partir das borras de uva. “Os europeus já dominavam as técnicas de destilação havia muito tempo, produzindo bebidas como a bagaceira. Como não tinham uvas aqui, improvisaram uma bebida com o resíduo da cana”, explica Silva.
A bagaceira, junto com o vinho português, foi um dos motivos para uma rebelião de produtores de cachaça ocorrida no Rio de Janeiro no século 17. Com a Popularização da bebida, em 1635 a Coroa baixou uma lei proibindo o comércio de aguardente, para não concorrer com a bagaceira e o vinho portugueses. A lei não pegou muito e a pinga continuou sendo produzida em larga escala, inclusive para o mercado externo. Em Angola, que também era uma colônia portuguesa, chegou a ser utilizada durante muito tempo como moeda de troca pelos traficantes de escravos.
Em 1647 foi criada a Companhia Geral de Comércio, uma empresa portuguesa que passou a ter o monopólio da venda de diversos produtos nas colônias, inclusive asbebidas alcoólicas. Por aqui, porém, a cachaça continuava fazendo enorme sucesso, mesmo sendo vendida clandestinamente. Os fazendeiros, longe de agir por debaixo dos panos, não escondiam sua atividade e eram, inclusive, respeitados na sociedade em quer viviam.
REVOLTA E PAZ
A relativa paz durou até 1659, quando o governo português fechou novamente o cerco, dessa vez com repressão e destruição de alambiques. No ano seguinte, vereadores do Rio de Janeiro propuseram liberar a bebida.
Diante da recusa, alambiqueiros lideraram uma rebelião – que ficaria conhecida como Revolta da Cachaça – e tomaram o poder da cidade durante cinco meses. A Coroa conseguiu acabar com a rebelião e retomar o poder no Rio de Janeiro, mas os revoltosos conseguiram uma importante vitória: em 1661, a rainha de Portugal, a regente Luísa de Gusmão, autorizou a produção e o comércio da aguardente no Brasil, mediante o pagamento de impostos. Nessa época, o açúcar brasileiro começava a sofrer forte concorrência com o produzido pelos holandeses nas Antilhas, de qualidade superior.
Além do açúcar, a cana levada pelos holandeses após sua expulsão do Brasil, em 1654, deu origem a uma bebida que é considerada “filha” da cachaça: o rum.
Depois da liberação pela rainha, surgiram várias regiões produtoras de aguardente, de norte a sul do Brasil. A cidade de Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro e um dos principais portos do Brasil Colônia, chegou a concentrar mais de cem alambiques a partir de 1700. Parte da produção seguia para Minas Gerais pela Estrada Real, durante o Ciclo do Ouro. Outra parte era escoada para o resto do Brasil e outros países da Europa e África.
“Se você falar da história de Paraty, vai ter de citar a cachaça. E se falar da história da cachaça, vai ter de citar Paraty”, diz Lúcio Gama Freire, 43 anos, presidente da Associação dos Produtores e Amigos da Cachaça de Paraty. A bebida da região era tão famosa que, durante muito tempo, era comum as pessoas pedirem uma “parati” quando queriam um simples copo de aguardente, tanto na Colônia como na Corte.
UFANISMO
“Com o aprimoramento da produção a partir do século 17, aumentou o número de consumidores, e a cachaça passou a ter importância econômica. O ápice do prestígio ocorreu no século 19, quando se transformou em símbolo de brasilidade”, diz o empresário Leandro Dias, CEO da Middas Cachaça, marca que atende o segmento de luxo.
“Deixar de bebê-la era considerado atitude antipatriótica, pois o Brasil vivia o período das lutas da Independência”, completa Leandro. Um brinde com a caninha passou a ser sinônimo de nacionalismo. Diz-se que dom Pedro I teria brindado a Independência do Brasil com um cálice de cachaça artesanal.
Um século depois, em 1922, jovens intelectuais repetiriam o gesto na Semana da Arte Moderna, em São Paulo. Os modernistas consideravam a bebida um símbolo líquido do país. O casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral gostava de divulgar a culinária brasileira e a cachaça em Paris. Levavam a bebida em frascos de perfume na mala para não haver problemas ao entrarem na França. Nas reuniões oferecidas a amigos parisienses, costumavam servir caipirinha e feijoada.
BEBIDA FINA
Após vencer o estigma de “bebida barata servida em balcão de botequim”, a cachaça voltou às altas rodas nas últimas décadas, em especial por causa da produção de cachaças artesanais. Além das de Paraty, ganharam fama as bebidas produzidas em estados como Pernambuco, Ceará e, principalmente, Minas Gerais. Nas montanhas de Minas, a cachaça ganhou status principalmente pelas cachaças produzidas em cidades como Januária e Salinas, no norte do Estado.
Salinas, que até hoje abriga várias destilarias de qualidade, é terra natal de um dos grandes personagens da história da cachaça brasileira, Anísio Santiago. Produtor da cachaça mais famosa do país, a Havana, Anísio era um tipo excêntrico que raramente saía de sua fazenda. Até morrer, em 2002, costumava pagar seus empregados e outras despesas com garrafas de sua preciosidade, disputadas por apreciadores e colecionadores da bebida. Os descendentes de Anísio, morto em 2002, assim como outros produtores em todo o Brasil, continuam a produzir e escrever a história da bebida brasileira que, como registrou o historiador Gilberto Freyre, “vem dos mais velhos dias do Brasil”.
LIVROS
Cachaça – O Mais Brasileiro dos Prazeres, Jairo Martins da Silva, Editora Anhembi-Morumbi, R$ 59
Prelúdio da Cachaça, Luis da Câmara Cascudo, Global Editora, R$ 42
Moedas de bronze foram depositadas em urnas no século IV d.C. e aparentemente eles foram deliberadamente escondidas em um espaço subterrâneo
Em um comunicado emitido pelo Ministério da Cultura da Comunidade Autónoma da Andaluzia, Espanha, foi informado que na última quinta-feira (16/06/2016), durante a realização de obras de canalização no Parque El Olivar Zaudín, na região da vila de Tomares, a 10 quilómetros de Sevilha, foram acidentalmente descobertas 19 ânforas, com 600 quilos de moedas de bronze romanas dos século III ou IV, depois de Cristo, no tempo dos romanas na Península Ibérica.
O comunicado aponta que uma das primeiras hipóteses para a existência deste tesouro seria que este conjunto de moedas deveria fazer parte do pagamento dos soldados romanos na região. Possivelmente este número de moedas deveria estar sob a supervisão de funcionários da administração pública das estruturas municipais do Império Romano no Bajo Guadalquivir. Ainda segundo o comunicado este raro conjunto de numismática “é um documento único de primeira ordem do período romano tardio na província de Sevilha e até agora não tem paralelo na história da Espanha”.
Ana Navarro, diretora do Museu Arqueológico de Sevilha diz que a descoberta das moedas foi partilhada com os arqueólogos italianos, ingleses e franceses. Todos estão de acordo: trata-se de um dos mais importantes achados do período romano mais importantes.
As moedas romanas foram depositadas em urnas, ou seja, em alguns recipientes que deliberadamente foram escondidos em um espaço subterrâneo. E ali permaneceram por 17 séculos.
Dez destes recipientes partiram-se durante as obras (foram as máquinas que as desenterraram). As restantes nove estão seladas. São menores do que aqueles que se usavam para transportar água ou azeite esclareceu, onde foram depositados os achados. “Usavam-se para transportar outras mercadorias. O que surpreende é que se utilizassem para guardar dinheiro”, afirmou ao jornal espanhol El Pais.
As moedas são de bronze e algumas podem ter um banho de prata. O anverso mostra as efígies de imperadores como Constantino, Diocleciano e Maximiano, mas pode haver outros imperadores, pois as moedas ainda não foram catalogadas.
Cada uma das moedas pesa entre oito e dez gramas. São de bronze e algumas estão banhadas a prata. Pelo aspeto, sem desgaste, nunca foram usadas. Ana Navarro diz tratar-se de milhões de euros, na moeda de hoje, mas arqueologicamente o seu valor é incalculável.
Como explicado para a mídia por Ana Navarro, diretora do Museu Arqueológico de Sevilha, no reverso de muitas moedas foram encontradas várias alegorias romanas, como algumas que representam a abundância. Sobre o local onde foram armazenadas e a razão, exige um exame mais detalhado.
No dia 21 de fevereiro de 1970, no periódico Diário de Pernambuco, Waldemar de Figueiredo Valente escreveu um texto intitulado “A gesta do Cangaço”, onde no final da primeira parte reproduziu os versos que agora apresento e que, segundo o autor, foram criados pelo cangaceiro Zabelê para comemorar o aniversário de Maria Bonita.
São versos bem interessantes, que mostram um lado diferenciado e menos focado nos processos ligados a violência que tanto caracterizou o cangaço.
Maria Bonita
Waldemar Valente foi médico, farmacêutico, antropólogo, sociólogo, etnólogo, professor, pesquisador, humorista e escritor. Pertenceu ao grupo de notáveis africanistas que se destacou na área desde o Primeiro Congresso Afro-Brasileiro de 1934. Como escritor Waldemar Valente escreveu obras como Introdução ao estudo da Antropologia Cultural (1953); Sincretismo religioso afro-brasileiro (1955); Maria Graham: uma inglesa em Pernambuco nos começos do século XIX (1957); Misticismo e região (1963); O padre Carapuceiro: crítica de costumes na primeira metade do século XIX (1969), Nordeste em três dimensões folclóricas (1986); Antologia pernambucana de Folclore (1990).
Waldemar de Figueiredo Valente
Foi professor na Professor da Universidade Federal de Pernambuco, e na Universidade Católica de Pernambuco. Waldemar Valente morreu no Recife, no dia 27 de novembro de 1992.
Na Era Vitoriana, era comum que famílias tivessem muitos filhos e que muitos morressem antes dos cinco anos; nesta foto, a criança à esquerda está morta e foi colocada de pé para o registro.
Fotografar parentes e amigos depois de mortos pode parecer algo mórbido nos dias de hoje. Mas na Era Vitoriana britânica (1837-1901), fazer imagens dos falecidos – e até mesmo juntar-se a eles no registro – era uma maneira de homenageá-los e de tentar arrefecer a dor da perda.
Em fotos que são ao mesmo tempo duras e perturbadoras, famílias posam com seus mortos, crianças parecem estar apenas adormecidas e jovens aparecem reclinadas. A morte lhes tomava a vida, mas também aumentava sua beleza – em meados do século 19, a palidez e a magreza causadas pela tuberculose eram vistas como atrativos em mulheres.
Pais também posavam com os filhos mortos.
A vida vitoriana estava cercada pela morte. Epidemias de difteria, tifo e cólera assolavam a Inglaterra, e o luto permanente assumido pela rainha Vitória em 1861 após a morte do marido, o príncipe Albert, fizeram das comiserações algo em voga.
Suvenires
No entanto, suvenires do tipo memento mori (do latim “lembre-se que você vai morrer”) tinham várias formas e já existiam em tempos pré-vitorianos.
A captação fotográfica de exposição longa fazia com que os mortos parecessem mais nítidos que os vivos exatamente por causa da ausência de movimento; à direita, um “memento mori”.
Mechas de cabelo dos mortos eram usadas em joias e máscaras mortuárias eram criadas em cera, por exemplo.
Mas, com a fotografia se tornando cada vez mais popular e acessível, um novo tipo dessas “lembrancinhas” surgiu em meados do século 19.
Barateamento
O daguerreótipo, primeiro processo fotográfico a ser anunciado e comercializado ao grande público, era um luxo caro, mas nem de longe com preço tão salgado quanto o de ter o retrato pintado – até então, a única maneira de preservar permanentemente a imagem de alguém.
O bebê gêmeo à direita está morto.
Mortos eram simplesmente colocados em frente à câmera como se ainda estivessem vivos. E frequentemente bem vestidos, para que parecessem bem em seu último “momento social”.
Mas, na medida em que cresceu o número de fotógrafos, o custo dos daguerreótipos caiu. E, na década de 1850, surgiram procedimentos ainda menos custosos, como o uso de vidro e papel para as impressões em vez de placas de metal.
Assim, os “retratos da morte” se tornaram incrivelmente populares. Para muitas famílias, era a primeira chance de tirar uma foto conjunta, e ao mesmo tempo a última de ter uma lembrança de um ente querido.
Os olhos do menino foram pintados sobre a foto, enquanto a menina foi colocada de forma a posar com seus brinquedos
Dois fatores, porém, logo iriam condenar a prática à extinção.
Primeiro, a qualidade dos serviços de saúde britânicos melhorou e aumentou a expectativa de vida da população, em especial a infantil. E o surgimento da fotografia instantânea permitiu que pessoas tirassem fotos uma das outras em vida, o que basicamente derrubou a demanda pelos “retratos da morte”.
Hoje, eles são apenas um lembrete de nossa mortalidade.
Em sua carreira militar Napoleão Bonaparte lutou cerca de 60 batalhas e perdeu sete. O grande domínio francês desmoronou rapidamente após a desastrosa invasão da Rússia em 1812. Napoleão foi derrotado em 1814 e enviado para o exílio na ilha de Elba; Em seguida escapou e voltou ao poder, apenas para ser derrotado na Batalha de Waterloo. Foi exilado de novo, desta vez na ilha de Santa Helena.
Membro do 24° Regimento Montado dos Cavaleiro da Legião de Honra.
Após sua morte em 1821, os veteranos sobreviventes da Grande Armée passaram a honrar seu nome e liderança histórica. Todos os anos, no dia 5 de Maio, o dia que Napoleão morreu, veteranos envergavam seus vistosos uniformes para honrar a memória ao imperador caído e marchavam na Place Vendôme, em Paris.
Granadeiro, 24° Regimento de Guardas, 1815.
Em uma dessas ocasiões, provavelmente em 1858, as fotos aqui apresentadas foram realizadas. Os veteranos, todos na casa dos 70 e 80 anos de idade naquele período, estavão vestindo seus uniformes originais, decoradas com suas medalhas originais e a destacada medalha de Santa Helena. As medalhas de Santa Helena foram outorgadas a todos os veteranos das guerras napoleónicas em agosto 1857.
Estas são as únicas fotografias conhecidas de soldados sobreviventes que lutaram nas guerras napoleônicas.
Lanceiro da Guarda, 1813-1814.
A Grande Armée teve uma grande quantidade de vitórias históricas que deu ao império francês um poder sem precedentes sobre o continente europeu. Amplamente reconhecido como uma das maiores forças de combate já criadas, sofreu perdas terríveis durante a invasão francesa a Rússia em 1812 e nunca recuperou a sua superioridade tática após essa campanha.
8° Regimento de Dragões, 1815. O capacete deste militar mostra nitidamente de onde os Dragões da Independência do Exército Brasileiro buscaram inspiração para seus tradicionais capacetes.