QUANDO UM ÁS DA AVIAÇÃO ALEMÃO FEZ AMIZADE COM UM PRISIONEIRO DE GUERRA PRETO SUL-AFRICANO E DESAFIOU OS NAZISTAS!

Peter Dickenshttps://samilhistory.com/2016/12/29/german-ww2-fighter-ace-befriends-a-black-south-african-pow-and-defies-the-nazi-status-quo/

Esta fotografia é extraordinária por diversos motivos.

Nela, vemos o Hauptmann (Capitão) Hans-Joachim Marseille, o ás da aviação alemã da Segunda Guerra Mundial conhecido pelas Forças do Eixo como “A Estrela da África”, à extrema esquerda, e o Cabo Mathew ‘Mathias’ Letulu, um prisioneiro de guerra sul-africano que foi forçado a se tornar seu “batman” (assistente pessoal de um oficial) em 1942, mas que acabou se tornando seu amigo íntimo, à extrema direita da fotografia.

É bastante intrigante que Hans-Joachim Marseille tivesse um assistente sul-africano, por um lado, quando, por outro, ele era o piloto alemão mais temido na campanha do Norte da África, indiscutivelmente um dos melhores pilotos de combate que o mundo já viu. Ele acumulou um número considerável de aeronaves da Força Aérea Sul-Africana destruídas, totalizando mais de 100 aeronaves aliadas – principalmente da Força Aérea Real (RAF), da Força Aérea Real Australiana (RAAF) e da Força Aérea Sul-Africana (SAAF).

Hauptmann (Capitão) Hans-Joachim Marseille

É igualmente uma demonstração do caráter de Hans-Joachim Marseille como pessoa, visto que ele se opôs diretamente às políticas nazistas de segregação racial e fez amizade abertamente com um homem preto, o que é especialmente surpreendente considerando seu papel como oficial superior da Força Aérea Alemã (Luftwaffe) e herói do Reich.

Com o tempo, Marseille e “Mathias” Letulu tornaram-se inseparáveis. Marseille estava preocupado com a forma como Letulu seria tratado por outras unidades da Wehrmacht e certa vez comentou:

“Para onde eu for, Mathias vai.”

Cabo Mathew ‘Mathias’ Letulu

Marseille obteve a promessa de seu comandant.e superior, Neumann, de que, caso algo lhe acontecesse, o cabo “Mathias” Letulu permaneceria na unidade. Um comportamento incomum para um oficial alemão no Terceiro Reich, mas Marseille não era filiado ao partido nazista; na verdade, ele os desprezava.

Não Era Um Nazista

Em termos de personalidade, Hans-Joachim Marseille era o oposto de um oficial alemão altamente disciplinado; ele era “o engraçadinho” e quase foi expulso da Luftwaffe diversas vezes por suas travessuras. A única razão pela qual não foi expulso foi porque seu pai era um veterano de alta patente da Primeira Guerra Mundial e oficial do exército, e Hans-Joachim Marseille testou os limites dessa proteção.

Se você procurar “canalha desordeiro” no dicionário, deve encontrar uma foto do rosto sorridente de Hans ao lado. Em uma ocasião, ele chegou a metralhar o chão em frente à tenda de seu superior. Só por isso, ele poderia ter sido levado à corte marcial, mas a essa altura já estava demonstrando suas habilidades superiores de piloto, consolidando-se como um futuro ás da aviação de caça.

Comandante de esquadrão popular. Fonte da imagem: facebook.com/pages/category/Public-Figure/Hans-Joachim-Marseille

Ele odiava os nazistas e desprezava a autoridade em geral, tendo sempre tido uma relação tensa com seu pai autoritário, que era o modelo de um oficial prussiano rigoroso. Hans era verdadeiramente o oposto de seu pai.

Seus biógrafos americanos, Colin Heaton e Anne-Marie Lewis, relembram em “A Estrela da África” ​​que ele certa vez parou na Autobahn simplesmente para urinar. Cansado de seu comportamento indisciplinado, um oficial superior o transferiu para o Norte da África em 1941. Lá, ele prosperou, seu currículo brilhante lhe rendeu a Cruz de Cavaleiro com Folhas de Carvalho, Espadas e Diamantes, e aclamação em seu país. Mas os registros sugerem que ele não era um nazista fervoroso.

Durante o treino. Crédito da imagem: facebook.com/pages/category/Public-Figure/Hans-Joachim-Marseille

Ele ouvia abertamente música jazz proibida, bebia muito e às vezes aparecia para o serviço com cheiro de álcool e de ressaca; era um notório mulherengo, indo contra a ideologia nazista de todas as maneiras possíveis – e saindo impune.

Aconteceu um incidente que realmente demonstra a fibra e a atitude do homem. Ocorreu quando Hans-Joachim Marseille foi convocado a Berlim, pois Hitler queria lhe entregar condecorações. Como pianista talentoso, Marseille foi convidado a tocar uma peça na casa de Willy Messerschmitt, industrial e projetista do caça Messerschmitt Bf 109, com o qual Marseille havia obtido tanto sucesso.

Entre os convidados da festa estavam Adolf Hitler, o presidente do partido, Martin Borman, o vice de Hitler e comandante-em-chefe da Luftwaffe, Hermann Göring, o chefe da SS, Heinrich Himmler, e o ministro da Propaganda do Reich, Joseph Goebbels. Depois de impressioná-los com uma apresentação de piano de mais de uma hora, incluindo a obra “Für Elise”, de Ludwig van Beethoven, Marseille passou a tocar jazz americano, considerado degenerado pela ideologia nazista. Hitler se levantou, ergueu a mão e disse: “Acho que já ouvimos o suficiente” e saiu da sala.

Magda Goebbels achou a brincadeira divertida e Artur Axmann lembrou como seu “sangue gelou” ao ouvir aquela música “Ragtime” sendo tocada na frente do Führer.

Mas um episódio ainda mais revelador sobre sua atitude em relação ao nazismo estava por vir. Em uma ocasião, quando foi convocado à Alemanha, ele notou que judeus haviam sido removidos de sua vizinhança (incluindo o médico de sua família, que o havia trazido ao mundo) e questionou seus colegas oficiais sobre o que havia acontecido com eles – o que ele então ouviu foram os planos para a Solução Final – o extermínio dos judeus da Europa. Isso o chocou profundamente e ele desertou, tornando-se um desertor de fato e indo para a Itália, onde se escondeu na clandestinidade.

O Messerschmitt Bf-109F-4, do esquadrão JG27, pilotado por Hans-Joachim Marseille – Quadro de Arkadiusz Wróbel

A Gestapo (Polícia Secreta) nazista alemã, no entanto, conseguiu localizá-lo e o obrigou a retornar à sua unidade, onde outros pilotos notaram que ele parecia profundamente deprimido e preocupado, completamente diferente da pessoa alegre a que estavam acostumados.

Amizade Com o Cabo Mathew Letulu

A amizade de Marseille com seu “batman” (ajudante pessoal) também é usada para mostrar seu caráter antinazista. Em 1942, Marseille fez amizade com um prisioneiro de guerra do Exército Sul-Africano, o cabo Mathew Letulu. Marseille o acolheu como ajudante pessoal em vez de permitir que ele fosse enviado para um campo de prisioneiros de guerra na Europa.

“Mathias” era o apelido dado ao cabo Mathew Letulu por seus captores. O cabo Letulu fazia parte do Corpo Militar Nativo Sul-Africano e foi feito prisioneiro de guerra pelos alemães na manhã de 21 de junho de 1942, quando Tobruk e as tropas sul-africanas que a defendiam, sob o comando do General Klopper, foram invadidas pelo Marechal de Campo Erwin Rommel.

Marseille com um Hawker Hurricane MkIIB do Esquadrão 274 da RAF, Norte da África – 30 de março de 1942. Fonte da imagem: samilhistory.com

Os prisioneiros de guerra pretos recebiam tratamento diferenciado dos prisioneiros de guerra brancos pela Alemanha nazista. Em vez de serem simplesmente confinados conforme as convenções, os prisioneiros africanos eram submetidos a “trabalho” não remunerado, auxiliando a causa nazista, cuja resistência resultava em um desfecho terrível. Letulu foi colocado para trabalhar pelos alemães – inicialmente como motorista. O veículo pertencia ao 3º Esquadrão da Jagdgeschwader – ou Ala de Caça – 27 (JG 27), baseado em Gazala, 80 km a oeste de Tobruk. Lá, Letulu chamou a atenção do audacioso e romântico Hans-Joachim Marseille.

Nessa altura, Letulu já tinha progredido um pouco na sua carreira, tornando-se ajudante no casino do clube do 3º Esquadrão, onde desenvolveu uma afeição especial por Marseille. Como os oficiais alemães precisavam de assistentes pessoais (conhecidos no meio militar como “batman”), alguns prisioneiros de guerra foram recrutados, e com Hans-Joachim Marseille não foi diferente. O cabo Letulu foi inicialmente contratado como seu batman, mas rapidamente se tornou um amigo próximo.

Marseille sabia que, à medida que seu número de mortes aumentava, a chance de ser retirado da linha de frente crescia a cada dia, e se isso acontecesse, o cabo “Mathias” Letulu, que por ser preto, poderia estar em perigo devido à filosofia racial nazista. Com a maior seriedade, ele fez com que seu colega piloto, Ludwig Franzisket, prometesse se tornar o protetor de Mathias caso Marseille perdesse a capacidade de desempenhar essa função.

O cabo Letulu também sabia que, permanecendo com Marseille, teria uma chance maior de sobreviver à guerra e, eventualmente, escapar. Além disso, como ambos tinham uma relação extremamente positiva, Letulu fez o possível para que a vida de Marseille na zona de combate fosse a mais confortável possível.

O seguinte trecho sobre o vínculo único entre eles foi extraído de “German Fighter Ace – Hans-Joachim Marseille, The life story of the Star of Africa” de Franz Kurowksi.

Por algumas estranhas reviravoltas do destino, Hans designou Mathew como seu assistente pessoal, mas o tratou em todos os sentidos como um amigo, tendo longas conversas com ele e possivelmente até compartilhando bebidas alcoólicas e ouvindo música juntos, simplesmente passando tempo como dois amigos que por acaso estavam em uma guerra e em lados opostos.

Além de Mathew, Hans frequentemente encontrava outros pilotos aliados capturados e conversava com eles em inglês, socializando. Hans também desobedecia a ordens diretas de não informar o inimigo sobre o destino de seus pilotos – ele decolava sozinho com um bilhete de paraquedas explicando os nomes dos pilotos capturados e que estavam vivos e bem. Ao sobrevoar aeródromos inimigos para lançar esses bilhetes, ele era atacado por fogo antiaéreo, arriscando assim a própria vida para informar às famílias dos pilotos inimigos que eles estavam vivos e bem – ou mortos, removendo assim o status de MIA (Desaparecidos em Ação). Segundo diversas fontes, ele era assim: uma pessoa que acreditava na cavalaria e cujo país foi ocupado pelos nazistas.

Com o tempo, Hans se tornaria ainda mais protetor com Mathew, especialmente contra os nazistas.

Fonte da Imagem – giftedsofia.com

A “Estrela da África”

O recorde de Hans-Joachim Marseille de 151 vitórias no Norte da África foi nada menos que impressionante – ele destruiu esquadrões Aliados (RAF, SAAF e RAAF) abatendo cento e um (101) caças Curtiss P-40 Tomahawk/Kittyhawk, 30 caças Hawker Hurricane, 16 caças Supermarine Spitfire, dois bombardeiros Martin A-30 Baltimore, um bombardeiro Bristol Blenheim e um bombardeiro Martin Maryland.

Como piloto de caça, Marseille sempre se esforçou para aprimorar suas habilidades. Ele trabalhou para fortalecer as pernas e os músculos abdominais, para ajudá-lo a tolerar as forças G extremas do combate aéreo. Marseille também bebia uma quantidade anormal de leite e evitava usar óculos de sol, para melhorar sua visão.

Apresentado com um Volkswagen Kübelwagen pintado com a inscrição “Otto” (Otto = oito) . 
Fonte da imagem: facebook.com/pages/category/Public-Figure/Hans-Joachim-Marseille

Para neutralizar os ataques dos caças alemães, os pilotos aliados voavam em “círculos de Lufbery” (nos quais a cauda de cada aeronave era coberta pela aeronave amiga atrás). A tática era eficaz e perigosa, pois um piloto que atacasse essa formação podia se encontrar constantemente na mira dos pilotos inimigos. Marseille frequentemente mergulhava em alta velocidade no meio dessas formações defensivas, tanto por cima quanto por baixo, executando uma curva fechada e disparando um tiro de deflexão de dois segundos para destruir uma aeronave inimiga.

Marseille atacou em condições consideradas desfavoráveis ​​por muitos, mas sua pontaria permitiu que ele se aproximasse com rapidez suficiente para escapar do fogo de resposta das duas aeronaves que voavam em cada flanco do alvo. A excelente visão de Marseille possibilitou que ele avistasse o oponente antes de ser avistado, permitindo-lhe tomar as medidas apropriadas e manobrar para a posição de ataque.

Em combate, os métodos pouco ortodoxos de Marseille o levaram a operar em uma pequena unidade líder/ala, que ele acreditava ser a maneira mais segura e eficaz de lutar nas condições de alta visibilidade dos céus do Norte da África. Marseille “trabalhava” sozinho em combate, mantendo seu ala a uma distância segura para que não colidisse com ele ou atirasse nele por engano.

Hans-Joachim Marseille com Erwin Rommel e outros, Líbia, 16 de setembro de 1942. Fonte da imagem: Pinterest

Em combates aéreos, especialmente ao atacar aeronaves aliadas em círculo de Lufbery, Marseille frequentemente preferia reduzir drasticamente a potência e até mesmo baixar os flaps para diminuir a velocidade e encurtar o raio de curva, em vez do procedimento padrão de usar potência máxima o tempo todo. Emil Clade afirmou que nenhum dos outros pilotos conseguia fazer isso com eficácia, preferindo mergulhar sobre oponentes isolados em alta velocidade para escapar caso algo desse errado.

As ligações de Marseille com a África do Sul iam além de seu vínculo com o Cabo “Mathias” Letulu e eram muito mais letais em relação aos pilotos sul-africanos. Nas semanas anteriores ao encontro dos dois, Marseille é creditado por ter abatido três pilotos da Força Aérea Sul-Africana a oeste de Bir-el Harmat, em 31 de maio, incluindo o Major Andrew Duncan, ex-aluno da Bishops (que morreu em combate), e três dias depois, outros seis pilotos da Força Aérea Sul-Africana em apenas 11 minutos, três dos quais eram ases da aviação. Um deles, Robin Pare, morreu em combate.

Morte do Capitão Hans-Joachim Marseille

Em 30 de setembro de 1942, o brilhante recorde de Marseille, com um total de 158 vitórias na carreira, chegou ao fim (151 delas com o JG 27 no Norte da África).

Messerschmitt Bf 109F-4, Hans Joachim Marseille, imagem colorizada. Fonte da imagem: samilhistory.com

Após o motor de seu caça Bf 109G apresentar sérios problemas, ele saltou de paraquedas próximo a território amigo, sob o olhar atento de seus companheiros de esquadrão. Para horror deles, o caça de Marseille caiu inesperadamente em um ângulo acentuado no momento do salto, com o estabilizador vertical atingindo-o no peito e no quadril. Ele morreu instantaneamente ou ficou inconsciente; em ambos os casos, seu paraquedas não abriu e ele caiu a cerca de 7 quilômetros ao sul de Sidi Abdel Rahman, no Egito.

Seu amigo e companheiro piloto da JG 27, o capitão Ludwig Franzisket, condecorado com a Cruz de Cavaleiro, juntamente com o cirurgião do esquadrão, Dr. Winkelmann, foram os dois primeiros a chegar ao local, trazendo os restos mortais de Marseille de volta à base.

Mathias foi o primeiro a cumprimentá-los, e o relato a seguir foi extraído das memórias de Wilhelm Ratuszynski.

Local da queda da aeronave de Marseille, chamado Memorial Pirâmide Hans Joachim Marseille (Bf 109 G-2/trop WK-Nr. 14256). Fonte da imagem: tracesofwar.com

Embora o calor não incentivasse nenhuma atividade, algo dizia a Mathias para lavar as roupas de Hans. Hans gostava de vestir um uniforme limpo depois do voo. Ele sempre gostava de estar apresentável. Mathias optou por usar gasolina desta vez. As roupas secariam em poucos minutos.

Normalmente, isso era feito esfregando os uniformes com areia para remover o sal, o óleo e a sujeira. Tudo era escasso. Ser ordenança pessoal de Hans-Joachim Marseille, o piloto mais famoso da Luftwaffe, tinha suas vantagens. Por exemplo, ele recebia um pouco de combustível de avião para lavar os uniformes. Mathias gostava de ser servo de Jochen e gostava do próprio Jochen.

Fonte da imagem: findagrave.com/memorial/81058613/hans_joachim-marseille

Eles eram amigos. Mathias mal havia começado sua tarefa quando o som de aeronaves se aproximando sinalizou para a equipe de solo que era hora de trocar a letargia pela atividade. Mathias colocou a tampa nos uniformes encharcados e começou a caminhar em direção à aeronave que estava pousando. Ele procurava um avião familiar que deveria ter o número 14 pintado em amarelo visível na fuselagem. Era para ser o último a pousar. Ele notou que três aviões estavam faltando e que o último a tocar o solo tinha um número diferente.

Sem se alarmar, ele se virou para Rudi, que já havia saltado da asa de seu 109. Viu Mathias se aproximando e interrompeu a conversa com seu mecânico. Seu rosto estava sombrio quando olhou para Mathias e balançou a cabeça lentamente. E Mathias entendeu imediatamente. Continuou olhando fixamente para o rosto de Rudi por mais alguns segundos, virou-se devagar e foi embora. Percebeu uma sensação estranha. Nenhuma raiva, tristeza, pesar ou resignação. Estava calmo, mas algo lhe apertava a garganta. Os músculos do pescoço se contraíram e ele teve dificuldade para engolir. Caminhou por alguns minutos sem notar os outros que o observavam. Chegou ao colorido Volkswagen de Jochen, chamado “Otto”, e sentou-se ao volante. Por um instante, pareceu querer ir a algum lugar, mas saiu do carro e se aproximou dos uniformes encharcados.

Marseille tocou jazz americano no piano de Messerschmitt na frente de Adolf Hitler. Crédito da imagem: samilhistory.com

Ele olhou para a sacola de lona com as iniciais HJ.M. ao lado. Levou a mão ao bolso do peito em busca de fósforos. Lentamente, mas sem hesitar, acendeu um fósforo e o jogou sobre a roupa. As chamas que irromperam aumentaram o calor já escaldante. Nesse instante, os últimos fogos de artifício começaram a cair. Mathias instintivamente ergueu a cabeça, acompanhando-os. O nó em sua garganta aumentou.

Embora todo o esquadrão estivesse devastado com a perda de um ás da aviação tão importante, Mathias, apesar de conhecer Marseille há pouco tempo, ficou profundamente deprimido com a perda de um querido amigo.

Marseille foi inicialmente sepultado em um cemitério militar alemão em Derna, na Líbia, durante uma cerimônia que contou com a presença de líderes como Albert Kesselring e Eduard Neumann. Posteriormente, seus restos mortais foram transferidos para Tobruk, também na Líbia.

Pirâmide de Marselha vista do oeste, Sidi Abd el-Rahman, Egito. Fonte da imagem: wikimedia.org

A Proteção de Ludwig Franzisket

Após a morte de Marseille, conforme prometido ao amigo, o Hauptmann Ludwig Franzisket acolheu o Cabo Letulu, que por sua vez se tornou seu assistente pessoal. O Cabo Letulu permaneceu no Esquadrão mesmo depois de Franzisket ter sido forçado a saltar de paraquedas, ocasião em que também atingiu o estabilizador vertical, fraturando uma perna. Após se recuperar, Franzisket retornou ao seu Esquadrão e o Cabo Letulu continuou a servi-lo na Tunísia, Sicília e, finalmente, na Grécia.

No verão de 1944, a situação na Grécia tornou-se crítica, com a iminente invasão britânica do continente grego. Surgiu então a oportunidade de “contrabandear” o cabo “Mathias” Letulu para um dos campos de prisioneiros de guerra improvisados, onde ele poderia ser “libertado” pelos britânicos. Franzisket planejou esse golpe em conjunto com o capitão Buchholz. “Mathias” voltou a ser “Mathew” e tornou-se cabo na Divisão Sul-Africana. Tudo correu sem problemas. Ele foi libertado pelas tropas britânicas em setembro de 1944 e autorizado a retornar para casa após o fim das hostilidades.

Fonte da imagem: Pinterest

Reunião em 1984

Por coincidência, após a guerra, antigos membros da JG 27 descobriram que o Cabo “Mathias” Letulu ainda estava vivo. Imediatamente enviaram-lhe um convite, pagaram a viagem e outras despesas e, finalmente, no décimo reencontro do Deutsches Afrikakorps, no outono de 1984, reencontraram-se com o seu antigo amigo sul-africano.

Os antigos pilotos ficaram radiantes ao vê-lo e os convites choveram de todos os lados. As palavras a seguir, proferidas em alemão como uma homenagem a Hans-Joachim Marseille por “Mathias” Letulu, no feliz desfecho de sua jornada, oferecem uma ideia do vínculo que uniu Letulu a seu amigo alemão:

“O Hauptmann Marseille era um grande homem e uma pessoa sempre disposta a ajudar. Ele era sempre bem-humorado e amigável. E foi muito bom para mim. ”

Em 1989, uma nova lápide e uma nova placa foram colocadas em seu túmulo; os camaradas sobreviventes da Luftwaffe de Marseille compareceram ao evento, incluindo seu amigo aliado – Mathew “Mathias” Letulu, que voou da África do Sul especialmente para participar da cerimônia.

VIDA DE PILOTO – VOAR E MORRER EM NATAL!

Não foram poucos os aviadores estrangeiros que pereceram em voos durante a Segunda Guerra Mundial tendo Natal como destino ou ponto de partida. O caso de Kenneth Wayne Neese foi um desses.

Rostand Medeiros – Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

North American B-25 Mitchell – Fonte – NARA

E a lista é grande…

Houve o caso de um bombardeiro bimotor Martin B-26 Marauder que aterrissou em pane em uma praia potiguar e o que sobrou da carcaça foi dinamitada. Na metade desse mesmo ano foi a vez de um bimotor Lockheed A-29 Hudson que decolou de Parnamirim e caiu no mar, com alguns objetos sendo recolhidos por um pescador de uma praia do nosso litoral norte. Houve outro bimotor, dessa vez um modelo Martin A-30 Baltimore, que caiu em janeiro de 1943 perto da praia de Pirangí. Ficou famoso o caso de um bombardeiro quadrimotor B-17 que caiu logo após decolar e se espatifou no que hoje é a região periférica do município de Parnamirim. Nesse último caso, devido a enorme quantidade de combustível, o clarão de suas chamas foi percebido pelos natalenses e ficou gravado na memória de muitos.

Voar naqueles tempos cruzando o vasto Oceano Atlântico era algo que verdadeiramente deixava atentos e preocupados os aviadores que vinha e passavam por Natal. Quando entrevistei o segundo tenente Emil Anthony Petr, da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF – United States Army Air Forces), para a realização do meu quarto livro “Eu não sou herói – A história de Emil Petr”, hoje esgotado, ouvi em detalhes sobre a preocupação de uma tripulação de um bombardeiro quadrimotor B-24 sobre essa travessia. Emil era o navegador e sua aeronave seguiu com destino ao sul da Itália. Para ele e seus amigos o voo foi tranquilo.

Nota de um jornal norte-americano mostrando o problema que passou o major-general Patrick J. Hurley, representante pessoal do Presidente F. D. Roosevelt , cujo avião após passar por Natal em viagem ao Irã teve problemas no motor e quase que não conseguiu retornar a capital potiguar. Infelizmente esse tipo de situação não era rara em Natal durante a Segunda Guerra Mundial.

Ao menos quando uma aeronave caia no mar próximo a Natal e seus pedaços chegavam as nossas praias, ainda era possível saber (ou deduzir) o que aconteceu. Mas várias aeronaves e seus aviadores simplesmente sumiram, principalmente quando partiram de Natal em direção à África.

Assim foi o caso de um bimotor Douglas A-20B Havoc do 4th Ferrying Group que partiu de Natal em março de 1943 e antes de pousarem na ilha de Ascensão, ponto de parada e reabastecimento pertencente aos britânicos antes de chegarem ao continente africano, sumiu com seus três tripulantes para nunca mais serem vistos. Documentos mostram que após o desaparecimento de aeronaves em alto mar eram organizadas operações de buscas, as quais muitas tinham resultados totalmente negativos.

Essas travessias Atlânticas não era tarefa fácil, até mesmo para aviadores calejados e experientes, como foi o caso de Kenneth Wayne Neese.


Kenneth Wayne Neese .

Uma Vida Nos Céus

Esse piloto nasceu em 6 de dezembro de 1902 no Condado de Hamilton, estado de Iowa, no meio oeste dos Estados Unidos. Em 1922 sua família mudou-se para Fresno, Califórnia, onde Neese  conheceu e se apaixonou pela aviação e seu primeiro emprego nessa área foi como mecânico de aviões à noite. Embora esse não fosse um trabalho particularmente interessante, proporcionou a Neese  guardar dinheiro para comprar em 1924 a sua primeira aeronave, um biplano Curttis OX-5 Jenny. Isso lhe permitiu entrar no circuito de espetáculos dos circos voadores em todo o norte da Califórnia, onde aconteciam incríveis acrobacias aéreas e manobras espetaculares.

Carta transportada em avião pilotado por Kenneth Wayne Neese.

Logo para esse piloto voar não era a única preocupação, pois ele conheceu a jovem Mary Morford, que se tornou sua esposa em novembro de 1926. Um acréscimo à família veio no ano seguinte com a pequena Betty. Casado e com outras responsabilidades, em 1928 Neese tornou-se piloto chefe da empresa Consolidated Aircraft Corporation, em San Leandro, Califórnia, onde deu aulas de voo para estudantes em um avião biplano modelo Alexander EagleRock. Depois se tornou piloto de correio aéreo da empresa Varney Air Lines, antecessora da famosa United Airlines, percorrendo milhares de quilômetros em seus voos.

Licença de voo de Kenneth Neese.

Voar naquele trabalho implicava seguir à noite sobre áreas montanhosas, sem instrumentos e tudo era muito perigoso. Em 7 de novembro de 1929, enquanto percorria por uma dessas rotas, Neese se envolveu em um terrível acidente com seu avião que lhe queimou suas pernas, pescoço e rosto, deixando cicatrizes duradouras. Ele foi puxado da aeronave em chamas por um fazendeiro. Depois disso ele decidiu que o correio aéreo era muito perigoso e que ele tinha uma família para dar apoio. Mas estranhamente decidiu ser piloto de corridas aéreas!

Kenneth Neese, o primeiro a direita, e outros aviadores.

Esse tipo de atividade se tornou popular nos Estados Unidos, com corridas atravessando o país da costa leste para costa oeste. A ciência da aviação, a velocidade e a confiabilidade das aeronaves e motores cresceram rapidamente durante este período. Essas corridas aéreas eram tanto um campo de provas quanto uma vitrine para pilotos e aeronaves. Mas logo esse luxo de corridas ficou para trás devido ao triste e complicado período da grande depressão econômica ocorrida nos Estados Unidos, que se iniciou com a quebra da Bolsa de valores de Nova York em 1929. Diante da crise, com a Depressão em plena atividade, o frio estado do Alasca precisava de pilotos.


Kenneth Neese no Alasca.

Kenneth Neese chegou nessa gelada região em janeiro de 1933 e trazia apenas um terno, sapatos sociais e nenhuma roupa de inverno! Quando ele saiu do trem em Anchorage seguiu foi até o campo de pouso em Merrill onde conheceu parte de um grupo de pilotos que igualmente foram para o Alasca durante a crise econômica. Logo se tornou um dos mais respeitados aviadores atuando no Alasca ao voar para a empresa Star Airlines, onde registrou 9.302 horas em seu diário de bordo, mais do que qualquer outro piloto no território.

Profissionais de Diferentes Origens

No segundo semestre de 1941, antes mesmo dos Estados Unidos participarem oficialmente da Segunda Guerra Mundial, Kenneth Neese foi convidado a ser um dos pilotos da empresa Pan American Air Ferries Ltd., em um serviço destinado a transportar aviões bombardeiros de Miami para a África e o Oriente Médio. Ele topou a parada e sua família deixou o Alasca e se mudou para a ensolarada Flórida, onde Neese  treinou para poder pilotar aviões North American B-25 Mitchell, um bombardeiro médio bimotor, considerado um clássico da Segunda Guerra Mundial.


Bombardeiros bimotores North American B-25 Mitchell.

Em 1941 as coisas pareciam sombrias para os Aliados. Embora os Estados Unidos ainda não tivessem entrado na Guerra, seus líderes estavam ajudando principalmente os britânicos com a venda de aeronaves, no âmbito dos contratos chamados “Lend-Lease”. Os súditos do Rei Jorge VI haviam comprado todos os aviões em que puderam colocar as mãos. O grande problema era entregar essas aeronaves.

À Pan American foi ordenado levar aviões desde Miami até a Costa Oeste da África, via o norte e nordeste do Brasil e depois atravessando o Atlântico Sul. E esses pilotos tinham de agir sempre de maneira discreta, para evitar melindrar alemães e italianos e não gerar incidentes diplomáticos para os Estados Unidos, pois este país ainda era neutro.

Escola de pilotos da Pan American.

Além do transporte de aeronaves, coube a Pan American a construção ou melhoria dos aeroportos ainda bem primitivos existentes na rota da África, principalmente na Nigéria e no Sudão, bem como os campos ao longo da rota para Cairo e Teerã. Também realizaram, através de subsidiárias e o apoio do governo brasileiro, o Programa de Desenvolvimento Aeroportuário (com a sigla ADP em inglês) nos aeroportos de Belém, Fortaleza, Natal, Recife, Maceió, Salvador e outros.

Os tripulantes que participaram dos longos voos da Pan American durante os anos de 1941 e 1942 vivenciaram experiências incríveis. Havia alta aventura, altos salários e altos voos, além de uma chance de ajudar o esforço de guerra com o que eles poderiam fazer melhor – voar seus aviões.

Aparentemente nunca na história da aviação haviam reunido um monte de pilotos profissionais de tão diferentes origens. Entre eles estavam profissionais experientes de linhas comerciais, membros da reserva do exército, da reserva naval, aviadores que atuavam pulverizando áreas agrícolas, outros provenientes dos circos voadores e alguns tinham voando em várias partes da Terra, desde a China até Honduras. Além de gente que pilotava aviões em regiões bem inóspitas, como Kenneth Neese.

Rotas aéreas de transporte durante a Segunda Guerra.

Morrer em Natal

Sabemos que Neese esteve pela primeira vez em Natal, no Campo de Parnamirim, em 28 de outubro de 1941, como parte de um pequeno grupo de três aeronaves. As outras duas eram pilotadas por A. Inman e Alva R. DeGarmo, conhecido como Al DeGarmo, um veterano de 42 anos e que pilotava desde 1920. Tiveram como destino Acra, atualmente a capital e maior cidade de Gana, mas que na época era uma colônia britânica conhecida como Costa do Ouro. Existe outro registro da passagem de Neese por Natal em 17 de janeiro de 1942, quando os Estados Unidos já participavam oficialmente do conflito. Ele veio acompanhado novamente do piloto Al DeGarmo e o destino foi igualmente para Acra.

B-25 em voo.

Quase três meses depois, em meio a um crescente movimento aéreo sobre céus potiguares, Neese repete a parceria com Al DeGarmo e eles chegam a Natal em 12, ou 13, de março de 1942. O veterano piloto do Alasca está pilotando um North American B-25C-NA Mitchell, com a numeração de registro 41-12467. Junto com ele estão os tripulantes L. A. DeRosia, H. S. Jones e J. F. Anderson.

Não sei a razão, mas existe a informação que aquele deveria ser o ultimo voo de Neese, pois ele deveria assumir um trabalho no solo onde estaria encarregado de verificar a atuação de outros pilotos.

Foto da B-25 de registro 41-12711, pilotado por aviadores da Pan American Air Ferries em Parnamirim Field. A esquerda está o piloto Edgar J. Wynn, estando ao seu lado o copiloto Virgil Aldair. No dia 15 de maio de 1942, ao aterrissar essa aeronave ocorreu um acidente e a mesma não prosseguiu na sua rota para a União Soviética. Entre julho e novembro de 1942 o piloto Wynn esteve em quatro ocasiões no Campo de Parnamirim.

Em 14 de março o B-25, antes da decolagem, Neese jantou em Parnamirim com o coronel Jules Prevost e depois com seus homens decolou com sua B-25 de Natal em uma noite muito escura deixando. Esta decolagem noturna foi necessária devido às condições meteorológicas e de pouso no outro lado do Atlântico, mais especificamente na Libéria. No entanto não havia muitas luzes ao redor de Natal à noite para dar um horizonte visual e, imediatamente depois de passar a última luz da pista, Neese teve de voar por instrumentos. Existem registros que apontam, talvez por ainda não terem sido concluídas todas as obras no Campo de Parnamirim, sobre a periculosidade das decolagens noturnas em Natal, o que exigia um piloto bem treinado em voo por instrumentos.


Em 1944 o piloto Edgar J. Wynn lançou o livro “Bomber across”, um dos melhores sobre as rotas aéreas de transporte na Segunda Guerra Mundial, com várias citações sobre Natal e o Campo de Parnamirim.

O B-25C que Kenneth Neese pilotava se destinava a ser utilizado pela força aérea da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, também no âmbito dos contratos “Lend-Lease”. Mas Neese não deveria chegar a atual Rússia, seu ponto final era Teerã, capital do Irã, onde tripulações soviéticas assumiriam o avião e o levariam para combater as forças nazistas que haviam invadido aquele país.

Aviões B-25 utilizados pela União Soviética.

As entregas de empréstimos americanos à União Soviética incluíram aeronaves, caminhões, tanques, motocicletas, locomotivas e vagões ferroviários, canhões antiaéreos e metralhadoras, submetralhadoras, explosivos, rádios, sistemas de radar, bem como gêneros alimentícios, aço, produtos químicos, óleo e gasolina. A partir de março de 1942, 128 aviões bimotores B-25C partiram da Flórida para serem entregues por via aérea através do Caribe, Brasil, atravessando o Atlântico Sul, a África e chegando ao Irã. Apenas quatro foram perdidos no caminho, entre eles o de Neese.

Ficha original do piloto Kenneth Wayne Neese.

Sabemos por relatos da época que depois desse acidente, o coronel Prevost, que jantara apenas algumas horas antes com Neese, teve a desagradável tarefa de recolher seus restos mortais e de sua tripulação, sendo depois enterrados no Cemitério do Alecrim.

Passageiros desembarcando de um hidroavião Boeing 314 Clipper da Pan American no Rio Potengi, em Natal – Fonte – LIFE.

Sobre esse acidente existem informações contraditórias sobre a sua localização. Aparentemente foi próximo ao litoral e a aeronave teria batido em uma “colina” (Qual?), ou em uma posição a “cinco milhas a nordeste de Natal”, mas sem detalhamentos. Algumas fontes apontam que o avião caiu no mar, mas isso parece improvável, pois outras fontes informam que a tripulação foi enterrada no Alecrim e existe a notícia que o corpo de Neese foi transladado para os Estados Unidos depois da guerra e enterrado no Belmont Memorial Park, na cidade de Fresno, Califórnia.